sexta-feira, julho 30, 2010

NEM A PAU...

ELIANE CANTANHÊDE

Força e desequilíbrio
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/07/10


BRASÍLIA - Álvaro Uribe passa o governo da Colômbia no próximo dia 7 para seu sucessor, Juan Manuel Santos, e esperou os últimos dias de mandato para dizer ao presidente Lula poucas e boas engasgadas na sua garganta contra a posição enviesada do Brasil no conflito entre Colômbia e Venezuela, entre Uribe e Hugo Chávez, entre direita e esquerda do continente.
Ao tentar minimizar a crise entre os dois países, Lula a reduziu a um "conflito verbal". Uribe reagiu "deplorando" essa posição, pois o que conta é "a ameaça que a presença de terroristas das Farc representa para a Colômbia e o continente".
Foi uma cacetada no Brasil, que toma partido no conflito, a ponto de Lula falar com Chávez e não com Uribe quando, de um lado, a Colômbia mostrou o que seriam provas documentais de que a Venezuela abriga narcoguerrilheiros colombianos e, de outro, a Venezuela rompeu relações com o vizinho.
Ok. A Colômbia é dependente dos EUA, botou tropas americanas dentro do continente e acobertou paramilitares criminosos. Mas a Venezuela não é uma maravilha nos quesitos democracia, economia e área social. O governo Lula deveria ter sido mais equilibrado e menos ideológico na relação com duas nações vizinhas e amigas do Brasil.
Venezuela e Colômbia têm uma fronteira de 2.200 quilômetros, e o comércio bilateral é decisivo para ambas. Exemplo: o segundo destino das exportações colombianas é a Venezuela, só atrás dos EUA. Com o bloqueio comercial, o total de vendas caiu de cerca de US$ 8 bilhões em 2008 para a expectativa de apenas US$ 2 bilhões no final deste ano. Assim, o desemprego na Colômbia bate em 14%.
Venezuela e Colômbia têm uma dependência mútua, como Santos, o presidente eleito, compreende bem. Basta empurrar um para o outro, o que o Brasil tem força de sobra para fazer. Ou teria, se não tivesse optado por um dos lados e desperdiçado toda essa força.

ANCELMO GÓIS

Nem Dilma, nem Serra 
Ancelmo Góis 

O Globo - 30/07/2010 

Nem Dilma, nem Serra e nem mesmo o capítulo de ontem da novela macabra do goleiro Bruno. A preocupação maior da coluna, hoje, é com o destino destas singelas plantinhas, que, não se sabe até quando, sobrevivem nos canteiros da base de Operações Náuticas da Comlurb, na Barra. Segundo a leitora Andréa Magalhães Pinto, as pobres não recebem água há uns 40 dias.
Neste período, o jardim até foi refeito, o que talvez perca o sentido, pois suas habitantes já estão mais pra lá do que pra cá. Um funcionário disse à nossa leitora que não irriga as plantas, que ficam sob um viaduto, porque “a mangueira está furada”

Deve ser terrível...
Em turnê pela Europa, a cantora Ana Carolina foi assaltada em Barcelona. O larápio levou sua bolsa com dinheiro e passaporte.
O cônsul do Brasil Marco César Nasluasky teve de providenciar outro passaporte.

Langoni fora do COL
O professor Carlos Langoni, 58 anos, deixou ontem a diretoria financeira do Comitê Organizador Local da Copa de 14.
Responsável desde 2007 pelo planejamento financeiro da Copa, o ex-presidente do BC e consultor de dezenas de empresas diz que já cumpriu sua tarefa.

O show de Lula
Lula é uma figura. Ontem, no Rio Grande do Sul, no início de uma solenidade, admitiu: — Eu, na verdade, não tenho muito mais o que falar.
Depois disso, discursou quase por uma hora.

Erros de sempre...
Mas, se falasse menos, talvez não cometesse tantos erros.
Lula chamou Mário Henrique Simonsen de Roberto e disse que Paul Volcker presidiu o FED no governo Clinton (foi nos de Carter e Reagan).

Coisas do Brasil
A operação casada que, com apoio de Lula, envolve Portugal Telecom, Vivo e Oi não seria possível se estivesse em vigor um projeto do próprio governo, diz Francisco Dornelles.
Em tramitação no Senado, prevê que negócios do tipo devem ser avisados antes ao Cade, que teria 240 dias para analise.
“No caso, seria impossível.”

Doação de R$ 1
Unesco e TV Globo lançam amanhã, no Rio, uma maquineta como as de cartão de crédito, desenvolvida pela empresa Trel, para doações miudinhas ao Criança Esperança deste ano.
As maquininhas permitirão doações de R$ 1 e até com valores quebrados (centavos).

Dívida verde
Pela primeira vez, uma dívida externa da União será convertida em projetos de conservação ambiental.
Trata-se de um papagaio de US$ 25 milhões com os EUA.
Nos próximos dias, os governos Lula e Obama assinarão um acordo para reverter este dinheiro em programas de preservação da Mata Atlântica, do cerrado e da caatinga.

O amor é lindo
Joaquim Roriz, o ex-governador do DF candidato a voltar ao cargo nestas eleições, comemorou ontem, com missa na Catedral de Brasília, 50 anos de casamento com dona Weslian.
Roriz é aquele que renunciou ao Senado, em 2007, por causa de denúncias cabeludas.

Saudade
O economista carioca Dionísio Dias Carneiro foi um mestre.
Com sua morte, aos 64 anos, seus aprendizes— inclusive este colunista — perdem um analista dos fenômenos econômicos inteligente, paciente e de uma clareza total.

Vovó saliente
Domingo passado, Romário, candidato a deputado federal no Rio pelo PSB, panfletava de manhã numa feira livre de Cabo Frio quando, naquele rebuliço de fãs, pulou da barraca do aipim uma senhorinha toda assanhada, que o agarrou: — Preciso abraçar você! Sou flamenguista! — exclamava a vovó, que deu um pegão no Baixinho e o encheu de beijos.

Aliás...
A dobradinha do tetra, em 1994, concorre nestas eleições.
Além de Romário, Bebeto disputa uma vaga de deputado estadual no Rio pelo PDT.

O Rio de 14
O jornal “The Star”, principal de Johannesburgo, publicou quarta um artigo de Eduardo Paes em que o prefeito elege a Copa da África do Sul como modelo para a do Brasil em 2014.
Na carona, Paes fez o comercial do turismo no Rio: “Estamos de braços abertos para vocês.”

Retratos da vida
Antonio Pimenta, 63 anos, paciente da Santa Casa do Rio que havia sumido do hospital, como saiu aqui, voltou ontem, ufa.
Seu Antonio, padrasto de Luciano Vidigal, um dos diretores do filme “5xFavela”, tem hanseníase e neurosífilis.
Salve o Galo Preto!
O Galo Preto, um dos mais antigos conjuntos de choro do Brasil, depois de um ano sem tocar no Rio, fará um show para festejar seus 35 anos.
Além da temporada, em agosto, o aniversário será comemorado com a gravação de um documentário sobre o grupo.

FERNANDA LIMA, a atriz e apresentadora toda linda, toma chimarrão num intervalo de seu novo ofício: a bela, agora estilista, desenhou uma coleção para uma grife carioca

LUIZ MELODIA e Wilson Moreira, mestres da nossa música, prestigiam a festa de três anos do Samba no Sítio, no Rio
PONTO FINAL

Celso Russomanno, candidato ao governo paulista, disse à “Folha” que apoia o projeto Ficha Limpa (“Eu queria um texto ainda mais forte”) e, logo em seguida, saiu em defesa de Maluf — cuja ficha é mais suja que pau de galinheiro.
A contradição entre teoria e prática é comum também com eleitores. Muitos metem o malho na classe política, mas, na eleição, não raro, votam conscientemente em trapaceiros.

GOSTOSA

LUIZ GARCIA

Debates na TV
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 30/07/10
Pois é, o tempo voa e não falta muito para começarem os debates entre candidatos na televisão.

Este artigo é generosamente dedicado aos eleitores de primeira viagem, sem intimidade com essa etapa do nosso processo eleitoral.

Uma informação inicial, indispensável: essa exposição pública de candidatos tem o objetivo de ajudar o eleitor a escolher em quem votar. Ao contrário do que possa parecer, não deve servir de estímulo a reações extremadas, como rasgar o título de eleitor ou jogar a TV pela janela. Jovens cidadãos, contenhamse. Por que? Não sei bem; digamos, para evitar que ela caia na cabeça de outro eleitor, igualmente inocente.

Na primeira rodada de debates, antes do primeiro turno, veremos todos os candidatos inscritos. Costuma ser um bando, e é quase impossível a gente se lembrar depois de quem disse exatamente o quê. Mas é um programa muito animado, para não dizer confuso.

A ponto de ter levado um político experiente como o mineiro Aureliano Chaves, que chegou a vice-presidente da República, a indagar, ao receber a palavra: “Por favor, é para eu perguntar ou responder?” Realmente, com um bando de candidatos em cena na verdade não existe debate, confronto de propostas ou algo parecido.

Esses programas eleitorais antes do primeiro turno de votação aparentemente servem apenas para dar alguns minutos de notoriedade a alguns cidadãos que se candidatam não para ganhar eleições, mas para conquistar algum espaço, pequeno que seja, na atenção dos eleitores. Têm inteiro direito a isso. Quem sabe, um dia um líder político nacional começará assim uma carreira importante. Ainda não esteve nem perto de acontecer, mas o sistema eleitoral não seria democrático se não mantivesse aberta essa porta. Ou essa estreita fresta.

Para decidir a eleição, só podem valer mesmo os debates do segundo turno.

Como aconteceu na eleição ganha por Fernando Collor. Nunca foi provado, mas correu forte a história de que Collor, debatendo com Lula, manteve à sua frente uma pasta polpuda, que conteria provas de um escândalo na vida particular do adversário. O que teria sido suficiente para que Lula, nervoso (e isso, pelo menos, era visível), perdesse o debate.

Quem sabe, agora que eles são aliados, o senador até já contou ao presidente a verdadeira história da tal pasta.

E os dois tenham trocado risadas a respeito.

Políticos são assim mesmo: levam desaforo para casa com absoluta tranquilidade.

Especialmente velhos desaforos, de validade vencida.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Quem não deve, não teme e presta contas”
MARCUS VINICIUS FURTADO COELHO, SECRETÁRIO-GERAL DA OAB, SOBRE O PORTAL FICHA LIMPA

CORREIOS NA EXPECTATIVA DE DOCUMENTO-BOMBA 
Funcionários e sindicalistas ligados aos Correios estão na expectativa do conteúdo de uma carta de 14 páginas denunciando supostas “falcatruas” do ex-presidente da estatal Carlos Henrique Custodio, demitido pelo presidente Lula quarta-feira (28). O documento é atribuído ao diretor de Recursos Humanos da Pedro Magalhães e seria divulgado caso ele fosse demitido, o que de fato ocorreu.

PERSEGUIÇÕES
Adversários acusam Carlos Henrique Custódio de montar um “regime de terror” para perseguir desafetos como o ex-diretor Pedro Magalhães.

VoO PRÓPRIO
Indicado pelo Helio Costa, Pedro Magalhães logo se afastou do ex-ministro das Comunicações. Sua demissão foi comemorada em Minas.

O CRIME COMPENSA 
Candidatos acumulam rejeição com carros de som a toda altura, sem que o TRE os incomode. O crime eleitoral continua compensando.

ALÔ, ANATEL
É tão ruim o serviço da TIM no Nordeste que até pode ser enquadrada como propaganda enganosa sua suposta “cobertura nacional”.

PRESIDENTE DE ESTATAL SE DEMITE E SAI DO PAÍS
O governo está às voltas com “fato inusitado”: o engenheiro elétrico alemão Eduardo Weichselbaumer, 56, que presidia o Centro de Excelência de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), criado em 2009, pediu as contas sem mais aquela e saiu do país. Egresso do Vale do Silício (EUA), foi empossado por Lula com a missão de projetar e fabricar semicondutores, vitais para o desenvolvimento econômico. 

BOI NA LINHA 
Sediada em Porto Alegre (RS), com capital social de R$ 42 milhões, o primeiro êxito da Ceitec foi o chip de rastreamento do rebanho bovino. 

SEM CHIP 
O Ministério da Ciência e Tecnologia nomeou, provisoriamente, o diretor Roberto de Andrade no lugar do “irrastreável” Weichselbaumer. 

SANTO POROROCA 
O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) está um santo no twitter. Com mensagens de paz e amor, nem parece o trovejante amazônico. 

COMBINADO SIMPLES
A agenda de Lula ontem, que começou às 8 horas, registrou “compromisso privado” às 20 horas. Era o comício de Dilma no estádio Gigantinho, na capital gaúcha, para onde foi por nossa conta.

O REI ESTAVA NU 
Treze relatórios do ex-diretor de Operações dos Correios Marco Antonio Oliveira foram decisivos na demissão do seu algoz, Carlos Henrique Custodio, da chefia da estatal. O papelório deixou o rei nu.

VELHOS AMIGOS 
O novo presidente dos Correios, David José de Mattos, trabalhou na Eletrobras ao lado de sua madrinha, ministra Erenice Guerra (Casa Civil), e do deputado Tadeu Filippelli (PMDB-DF), a quem se ligou.

PERNAS CURTAS 
O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) anunciou em coletiva que a doação à Palestina de US$ 25 milhões extraídos do nosso bolso seria feita através da ONU. Lorota. Não é o que diz o
decreto

LITERATA PIU-PIU
Após dizer num vídeo que Vidas Secas, de Graciliano Ramos, fala “da saída das pessoas do Nordeste pro Brasil” (sic), Dilma errou no Twitter o famoso verso do poeta gaúcho Mário Quintana: não é “eles passarão e nós passarinhos!”, mas “eles passarão. Eu passarinho”.

INCOMPETÊNCIA
É tão crítica em Guarulhos (SP) quanto e Manaus a situação dos respectivos aeroportos, com o excesso de cargas e de incompetência da Infraero, cuja estrutura sofrível não atende a demanda, gerando atrasos e prejuízos. As cargas são amontoadas nas pistas.

ESTATUTO DO TORCEDOR 
Lula acha “avacalhação” desrespeitar as leis dos países, negando-se a apelar contra a morte a pedradas de uma “adúltera” no Irã, mas se meteu no afastamento do “chapeleiro” Manuel Zelaya, em Honduras, e chamou de “briga de torcida” a revolta sangrenta da oposição iraniana. 

ANIMAIS RACIONAIS
Recepção de um sargento do Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília, ontem cedo, a alistados que mais pareciam seres catalogados pelo Ibama: “Quem tiver prego na língua, brinco na orelha e parafuso no nariz arranca tudo. São todos iguais, estão aqui para servir à Pátria”.

PERGUNTA NO ESTÁDIO
Se Dilma agora, segundo Lula, é “a mãe dos brasileiros”, ela também é a coitada da mãe do juiz? 

PODER SEM PUDOR
ORDEM NO PLENÁRIO
Proclamada a derrota de mais uma tentativa de aprovar benesses para vereadores, vários senadores pediram a palavra ao mesmo tempo. Em meio à confusão e gritaria, o presidente da sessão, então senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO), encerrou a sessão com um sorridente:
– Com a palavra o senador Romeu Tuma, pela ordem.
A risada foi geral.

O ESGOTO DO BRASIL

SEXTA NOS JORNAIS

Folha: Em 20 anos, sobe 39% proporção de mortes neonatais

Estadão: Uribe 'deplora' declaração de Lula

JB: Uma tonelada de lixo por dia

Correio: Distritais estouram limite de gastos

Valor: Oferta pela Paranapanema inquieta os minoritários

Jornal do Commercio: Atropelou, matou e foi pra a cadeia

Zero Hora: Susepe tenta evitar a interdição do semiaberto

quinta-feira, julho 29, 2010

ALBERTO TAMER

Agricultura, um modelo

Alberto Tamer
O Estado de S. Paulo - 29/07/2010
 
A agricultura brasileira pode ser chamada de "essa desconhecida". As atenções estão voltadas para a indústria, que fraqueja, e para outros setores, mas é a agricultura que tem evitado explosões inflacionarias e sustentado o crescimento econômico, principalmente nos anos de crise. 
Um fato importante, diria mesmo, importantíssimo ao qual se dá pouco destaque: é também um modelo em que o setor privado responde por "toda" produção e comercialização no País. Tem o apoio técnico do governo, sim, pelo excelente trabalho realizado pela Embrapa, tem financiamento, mas não conta com a proteção dos escandalosos subsídios oferecidos pelos Estados Unidos e a União Europeia aos seus agricultores. Mesmo assim, os americanos estão perdendo terreno para o agronegócio brasileiro no mercado mundial. E repito, todos eles privados, multinacionais ou não. 
Eis um modelo a seguir O Estado participa também por meio de um Ministério da Agricultura eficiente, que completa 150 anos, observa e age nas emergência, socorre os que precisam, estimula a agricultura familiar, mas fica distante. Não se mete nas decisões do que plantar, produzir e exportar. O mercado é que decide. A agricultura brasileira não precisa de estatais. Não quer intromissão do Estado.
Esse é um modelo de convivência entre Estado e setor privado que deveria ser estudado pelos dois candidatos a presidência, para que não inventem mais empresas estatais como se está fazendo hoje. 
Mas a agricultura é isso mesmo? Sei que é essa a pergunta que o leitor deve estar fazendo. A resposta é sim. E baseada não só em dados do IBGE, mas também do governo americano. Mesmo sem subsídios, o Brasil é hoje o terceiro maior exportador de alimentos do mundo. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil é líder na produção e exportação de açúcar, café em grãos e suco de laranja. Além disso, é o primeiro exportador mundial de carne bovina, tabaco, álcool etílico e carne de frango. 
Ocupa a vice-liderança na produção e exportação de soja em grãos (atrás apenas dos EUA. É o terceiro maior exportador mundial de milho e o quarto de carne suína. O Brasil depende hoje da importação de trigo, que somou apenas US$ 1,2 bilhão em 2009, e alguns outros derivados, além de cevada e arroz. As exportações do agronegócio, em 2009, totalizaram US$ 64,75 bilhões, representando nada menos que 42,5% das vendas externas. As importações foram de apenas US$ 9,8 bilhões, o que significa um superávit de US$ 54, 9 bilhões. Sustentou a balança comercial.
O que exportamos e para quem O complexo soja lidera (farelo, óleo e grãos); representou 26% das vendas. Seguem as carnes (bovina, aves e suína), que foram responsáveis por 18% das vendas externas do agronegócio. O complexo sucroalcooleiro (açúcar e etanol) respondeu por 15% das exportações agropecuárias. 
A China vem se consolidando, há dois anos, como o principal país comprador de produtos do agronegócio brasileiro. Absorveu no ano passado 13,77% das vendas externas. Os chineses compraram quase US$ 9 bilhões. Vale destacar que o Brasil exporta para cerca de 200 países. 
Com 7,67% na participação das vendas externas do agronegócio, os Países Baixos estão em segundo lugar, representando nada menos que US$ 5 bilhões. Mas é importante registrar que representa a importação da Europa, pois é na pequena Holanda que está localizado o importante Porto de Roterdã.
E os americanos? São grandes produtores e exportadores e importam do Brasil apenas US$ 4,5 bilhões. Nada mais de 7% das nossas vendas do setor. Os Estados Unidos lutam com o Brasil na OMC, nas falidas negociações de Doha, porque querem exportar mais produtos agrícolas a preços subsidiados. Mesmo assim, sozinhos, ainda compram quase o mesmo que os 27 países da União Europeia juntos. Mas será que vai dar para sustentar esse ritmo de exportações e ainda atender, neste ano, ao aumento da demanda interna por alimentos? Vai dar sim. É um assunto tão importante e vital para a economia brasileira, que vamos destinar uma segunda coluna para ele.
Uma sugestão Por que os professores de escolas e faculdades não pedem aos estudantes, neste início de semestre, trabalhos sobre a importância da agricultura brasileira no País e no mundo mostrando os pontos altos e baixos de uma realidade nacional quase esquecida e que só se lembra mesmo quando o Ministério completa 150 anos?

JOSEF BARAT

Apagão aéreo na Copa?

Josef Barat
O Estado de S. Paulo - 29/07/2010
 
 Neste mês foram instalados, por iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Juizados Especiais Cíveis nos aeroportos mais movimentados do País. Diante da percepção do crescente descontentamento dos usuários do transporte aéreo e, provavelmente, vislumbrando o risco de um novo "apagão aéreo", o CNJ decidiu repetir a experiência de 2007/2008. Naquela ocasião, diante do caos que se abateu sobre o setor aéreo, o Judiciário instalou unidades de conciliação nesses aeroportos, o que ajudou a aliviar muitos dos efeitos da crise. O CNJ mostra-se ciente de que os problemas do transporte aéreo não dizem respeito só às companhias aéreas, uma vez que determinou também a instalação de Juizados Especiais Federais, competentes para intermediar conflitos relacionados à Infraero, à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), à Polícia Federal e à Receita Federal.
Dada a fragilidade da memória nacional, cabe lembrar que o "apagão aéreo", ocorrido no decorrer de 2006/2007, teve origem numa conjunção de fatores. Inédito na história da aviação civil brasileira, o caos evidenciou: a ausência de políticas públicas consistentes; a falta de planejamento para o sistema aéreo; os graves problemas de gestão aeroportuária; a fragilidade institucional; e as notórias deficiências físicas e operacionais que existiam nas infraestruturas aeroportuária e aeronáutica do País. O crescimento persistente da demanda por voos domésticos e internacionais em porcentuais acima de dois dígitos esbarrou nos fatores apontados. Tratando-se de um sistema complexo e altamente integrado, a limitação de capacidade em cada um dos segmentos interferiu no desempenho dos demais, tornando as responsabilidades difusas.

O conflito entre demanda crescente, de um lado, e aeroportos com notórias deficiências de pistas, pátios, terminais e equipamentos, de outro, já era perceptível. De início, a crise da Varig agravou o desequilíbrio entre demanda e oferta, já que as soluções encaminhadas por meio do processo de recuperação judicial só geraram mais problemas ao criar uma reserva de mercado intocável. Por determinação judicial, não foi possível redistribuir horários e slots autorizados para a Varig (e por ela não utilizados).
Em seguida, o acidente com a aeronave da Gol trouxe à luz o problema das carências da infraestrutura aeronáutica. As operações aéreas foram agravadas sobremaneira por uma reação descomedida dos controladores de voo e falhas do controle do espaço aéreo (operação-padrão, sequenciamentos desnecessários, falhas de equipamentos de comunicação, radar e falta de pessoal). Por fim, o acidente com a aeronave da TAM gerou compreensivelmente grave comoção nacional, que, todavia, foi explorada pelo governo no sentido de desviar as atenções dos verdadeiros problemas infraestruturais e de planejamento e gestão existentes no setor aéreo.

De lá para cá o mundo girou, a Lusitana rodou e o fato é que perdura uma contradição. Qual seja a de um sistema em que, de um lado, empresas aéreas passaram a operar com níveis elevados de produtividade (em aeroportos aglutinadores), buscando atender a uma demanda em crescimento acelerado, e, de outro, infraestruturas com graves limitações físicas, operacionais e de gestão. Continua-se sem políticas e diretrizes claras e consistentes para o setor aéreo, sem planejamento sistêmico, com papéis institucionais frágeis e investimentos dispersos e sem foco de prioridades. Para agravar, Guarulhos, Congonhas, Brasília e Manaus estão operando próximo do limite das suas capacidades.
Portanto, pode-se dizer que o risco de um "apagão" continua latente e deverá aumentar com o crescimento da demanda em decorrência da boa fase da economia. A iniciativa do CNJ mostra que há algo de muito errado na gestão dos aeroportos brasileiros. Basta fazer um voo regular para constatar o sofrimento com o tempo gasto com atrasos de voos, troca de locais de embarque, desembaraço de bagagem, informações desencontradas, etc. É esse o ambiente que queremos para a Copa?

PRESIDENTE DO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO DAS CIDADES DA FEDERAÇÃO DO COMÉRCIO DE BENS, SERVIÇOS E TURISMO DE SÃO PAULO, FOI DIRETOR DA ANACN

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

O esquecido 
Miriam Leitão 

O Globo - 29/07/2010

Há um grande esquecido em todas as operações na telefonia brasileira: o usuário. Hoje, a Oi investe menos do que as empresas Telemar e Brasil Telecom investiam quando eram separadas.

O Brasil tem uma telefonia cujo serviço está se deteriorando, não tem cobertura de banda larga decente, e as telefônicas são campeãs de reclamação.

Os negócios anunciados ontem terão que ser submetidos à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Hoje, as empresas entram com um pedido de anuência prévia na Agência.

A informação no órgão regulador é que a decisão será tomada olhando-se três critérios: qualidade do serviço, impacto na competição e interesse do usuário.

Mas tudo se passa no governo, e nas empresas privadas, como se o assunto não tivesse que passar pela Anatel. E tem. A Agência, se não quiser ser reduzida a um carimbador, terá que avaliar todos os negócios anunciados ontem dentro dessa perspectiva. Porque do governo já não se espera, a essa altura, que olhe o interesse público.

O governo só interfere em favor dos grupos empresariais.

Mudou o Plano Geral de Outorgas para permitir a compra da Brasil Telecom pela Telemar. Na época, o pretexto foi o de criar uma supertele de capital exclusivamente nacional, que agora será luso-brasileira.

Nada contra a empresa portuguesa, tudo contra esse delírio nacionalistóide de mudar regras de forma casuística, colocar dinheiro público, e financiar uma compra sem qualquer benefício palpável para o consumidor dos serviços.

A advogada especialista em telecomunicações Cláudia Domingues lembra que a compra da BrT pela Oi, em 2008, foi feita de forma tão apressada que a Oi não avaliou corretamente o passivo da BrT. Em janeiro deste ano, a empresa comunicou que o passivo, por conta de ações judiciais contra a BrT, não era de R$ 1,2 bilhão, mas R$ 2,5 bi. Um erro de análise de mais de um bilhão de reais. E um dos sócios é o BNDES.

— O mercado de telecomunicação no Brasil piorou muito desde essa operação.

Foi como se a Oi tivesse comprado uma fazenda sem contar quantos bois havia no pasto. Tudo foi feito apressadamente e por motivações políticas.

Ninguém pensa no bem do mercado. As empresas, por exemplo, não foram à Justiça contra a recriação da Telebras, que é claramente inconstitucional. Com a operação de hoje envolvendo Telefónica, Portugal Telecom, Vivo e Oi, percebe-se o porquê. Havia outros interesses em jogo — disse.

Antes da compra da Brasil Telecom pela Telemar, a soma do que as duas investiam nos serviços de telefonia fixa e celular era muito maior do que investe agora. Ela ficou sem capacidade de investir e o consumidor pagou a conta. Na opinião dos especialistas, isso é claramente incompatível com a necessidade de expansão e da melhoria da qualidade dos serviços em sua área de atuação. No final do ano, a Oi apresentou prejuízo e uma dívida de R$ 21,8 bilhões. Analistas de mercado acham que a entrada da Portugal Telecom ajudará a reduzir essa dívida e aumentar a capacidade de investimento.

Mesmo assim, a ação da empresa despencou 16% ontem. No caso da Vivo, a operação melhora a governança porque a Telefónica aumentará seu controle sobre a empresa, mas a empresa terá que investir muito dinheiro na compra da participação.

A venda da parte da Portugal Telecom na Vivo e o uso dos recursos na compra de uma participação de 22% na Oi têm o lado bom de mostrar que o mercado brasileiro é atraente. As empresas brigaram durante meses para garantir o direito de crescer por aqui.

Hoje, 15% da receita da Telefónica vem do Brasil. Após este negócio, será 20%, tornando o país o segundo maior mercado da empresa, depois da própria Espanha.

O problema é que o governo tem adiado questões regulatórias, como, por exemplo, a licitação da Banda H. No mercado, se diz com todas as letras que as questões que antes eram resolvidas pela agência agora nem mesmo são da alçada do Ministério das Comunicações.

As empresas vão direto à Casa Civil.

O caso da Oi foi espantoso em todas as etapas. Foi assinado um memorando de entendimento para a compra da Brasil Telecom antes mesmo de o governo mudar o Plano de Outorgas. Criou-se um fato consumado antes de a Anatel decidir. Tudo foi financiado pelo BNDES e Banco do Brasil, que deram empréstimos à empresa para que ela pudesse pagar aos acionistas controladores da Brasil Telecom.

Mesmo endividada e sem capacidade de ampliar seus investimentos, a empresa usou o fato de que era a tal “supertele nacional” para se oferecer como a operadora do Plano Nacional de Banda Larga. A proposta foi defendida pelo próprio Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi, numa reunião na Casa Civil, em abril. O argumento usado por Falco é que a Oi teria direito a isso por ser quase empresa estatal, tem 49% do capital do BNDES e dos fundos de pensão de estatais.

Nas mudanças nas telecomunicações têm ocorrido favorecimento, preferência por uma empresa por motivos pouco transparentes, interferência direta do governo em negócios de uma empresa privada e com capital em bolsa.

O Brasil está em pleno retrocesso. Na reta final do governo Lula está havendo uma fúria estatizante, concessões descabidas a empresas privadas, distribuição de benesses a escolhidos, interferência indevida em assuntos de empresas de capital aberto. Com Brasília, a Oi tem linha direta; com seus minoritários, ela não consegue se entender. Eles já recusaram três vezes propostas da empresa e o processo, do ponto de vista societário, está incompleto.

DORA KRAMER

De pai para filho 
Dora Kramer 

O Estado de S.Paulo - 29/07/2010 

Obrigada a pedir demissão há dois anos da chefia da Secretaria da Igualdade Racial por causa dos gastos indevidos com o cartão corporativo a que tinha direito, Matilde Ribeiro muito provavelmente teria dificuldades para se eleger síndica de condomínio.


Mas, como segunda suplente do candidato a senador pelo PC do B de São Paulo, Netinho de Paula, com alguma sorte poderá vir ser senadora da República.

A suplência ao Senado é hoje um dos melhores negócios no mercado da política: quem tem dinheiro (muito), bom parentesco ou é bem relacionado no meio não precisa de voto para chegar ao que outrora já foi tido como a representação do Paraíso na terra.

Atualmente um tanto desmoralizado, mas ainda promete. Afora o renome, espaço na tribuna, microfones da Voz do Brasil, o salário, a verba indenizatória, passagens aéreas, carro, casa, assessoria e estrutura à disposição, há toda uma gama de benefícios tais como plano de saúde para o resto da vida caso o suplente assuma por um período de seis meses. Em mandato de oito anos, convenhamos, não é difícil.

Na atual legislatura mais ou menos 20% do Senado é ocupado por substitutos.

O suplente sempre foi, e continua sendo, um familiar, um financiador de campanha, um amigo, um funcionário, um correligionário ou um "sem tempo" como o presidente do PT, José Eduardo Dutra.

Ele é suplente do senador candidato à reeleição Antonio Carlos Valadares, do PSB de Sergipe. Dutra tem votos ? ou pelo menos teve quando foi senador em legislatura anterior ?, mas está sem tempo de fazer campanha porque é um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff.

Antonio Palocci também é. Como Dutra desistiu da candidatura parlamentar para cuidar da presidencial, como o colega também teve oferta de ser suplente de senador. Não aceitou ou o PT não achou conveniente.

Mas, de todo modo, não trilhou esse atalho. José Eduardo Dutra encontrou uma maneira de conciliar mandato com ausência de delegação popular.

O único pré-requisito necessário é a unção do titular. Assim Edison Lobão repetirá a indicação do filho ? "senador" enquanto o pai ocupou a pasta de Minas e Energia ?, o ex-governador do Amazonas Eduardo Braga pôs na suplência a mulher, Sandra.

Mão Santa trocou a mulher Adalgisa pela filha Cassandra, o ex-governador da Paraíba Cássio Cunha Lima indicou o tio, o ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda escolheu o pai e o ex-governador de Rondônia Ivo Cassol também nomeou o pai.

Os dois primeiros foram cassados pela Justiça Eleitoral e o terceiro renunciou em vias de.

Em abril de 2008 a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou emenda constitucional do senador Demóstenes Torres proibindo a indicação de parentes para a suplência. A ideia inicial era acabar com os suplentes ou fazer com que tivessem a legitimidade do voto.

O colegiado da CCJ não aceitou, manteve a figura do suplente que em caso de vacância assume até a eleição de um novo titular na eleição mais próxima. Mesmo desfigurado o projeto está na Mesa sem chance de ser votado.

Ao calejado leitor nem é preciso explicar a razão.
Prato típico. Até o fim da tarde de ontem eram oito os candidatos impedidos de concorrer às eleições pelos Tribunais Regionais Eleitorais de seus Estados, com base na Lei da Ficha Limpa.

Três são do Espírito Santo, três de Minas Gerais, um de Santa Catarina e um do Ceará.

Contrastando, o TRE do Maranhão autorizou quatro candidatos ? entre eles, José Sarney Filho ? a concorrer, argumentando que a lei não vale para condenações anteriores à sua aprovação, exatamente o oposto do que decidiu o Tribunal Superior Eleitoral.

O Ministério Público vai recorrer e, mantida a posição anterior, o TSE deve derrubar.

É de se perguntar: então para que o vexame, só para parecer que o Judiciário maranhense está submetido aos interesses do clã Sarney?
Linha justa. A política anda precisando de um Zico que chame o esquadrão aos costumes.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Brasil é o 42º em economia digital, diz estudo
Maria Cristina Frias

Folha de S.Paulo - 29/07/2010

A economia digital no Brasil ainda patina. O país ocupou a 42ª posição em ranking produzido anualmente pela IBM e pela unidade de inteligência da "The Economist".
A pesquisa, que avalia a capacidade de 70 países de absorver novas tecnologias de informação e comunicação e aplicá-las no desenvolvimento econômico e social, colocou a Suécia na primeira posição, seguida por Dinamarca, EUA e Finlândia.
O Brasil perde para países como Chile, Estônia, Cingapura e Grécia. Na América Latina, o país ocupa o segundo lugar no ranking.
"Na Suécia, a atenção do governo em tecnologia da informação, educação e cultura ajuda no aumento do número de usuários de serviços digitais", diz Felipe Botto, executivo da IBM Brasil.
Com nota de 5,27 de um total de 10 pontos, o Brasil lidera entre os países do BRIC, com o melhor ambiente geral para o crescimento do comércio eletrônico.
A economia brasileira avançou na categoria "ambiente de negócios", com melhores desempenhos em oportunidade de mercado e em política de investimento estrangeiro.
No entanto, teve pior desempenho em "visão e política do governo" e "ambiente social e cultural", com queda na nota de nível educacional.
A categoria "infraestrutura de tecnologia e conectividade" aponta que a internet alcançou percentual de crescimento menor que no ano passado no Brasil.
País lidera investimento imobiliário no mundo

Os investimentos diretos em imóveis comerciais registraram aumento de 54% no segundo trimestre deste ano nas Américas, atingindo US$ 21,4 bilhões.
O Brasil liderou o crescimento de investimento no mundo, segundo a consultoria Jones Lang LaSalle, que elaborou o levantamento.
Do primeiro trimestre deste ano para o segundo, o volume aplicado em imóveis comerciais no mercado brasileiro quase triplicou, saltando de US$ 577 milhões para cerca de US$ 1,6 bilhão.
"Está havendo um movimento de desmobilização para reinvestimentos. O que acaba gerando uma maior oferta de imóveis para aquisição", diz Lilian Feng, responsável pela área de pesquisa da consultoria no Brasil.
A tendência é o aumento da aquisição de empreendimentos ainda em desenvolvimento, segundo Feng. "Como o mercado de imóveis corporativos está aquecido, o risco acaba sendo menor."
Mercado... A oferta de imóveis usados, residenciais e comerciais para venda na cidade de São Paulo subiu 34% de janeiro a junho deste ano, ante o mesmo período de 2009, segundo levantamento da empresa de administração imobiliária Lello. No primeiro semestre, a quantidade de imóveis prontos comercializados na capital também registrou alta, de 24%, sobre o primeiro semestre de 2009, de acordo com a pesquisa.
...imobiliário Entre os imóveis residenciais disponíveis, 54% das unidades ofertadas para venda foram apartamentos. Grande parte são de três e quatro dormitórios com vaga de garagem. Outros 46% são casas, segundo o estudo da administradora Lello. Das unidades com finalidade comercial oferecidas para venda, 43% são casas ou sobrados, 15% são terrenos, 14% são prédios comerciais e 11% são lojas e sobrelojas.
DE VOLTA PARA CASA

Depois de 12 anos de Microsoft nos EUA, o advogado Luiz Azevedo Sette retorna ao escritório Azevedo Sette, como sócio sênior.
Chegou a vice-presidente juridíco na gigante americana, responsável por toda operação de vendas da empresa, à frente de uma equipe de 170 advogados internos em todo mundo.
Foi, aos 31 anos, o executivo mais jovem em cargo de direção na Microsoft. Antes de voltar, o advogado fez seminários sobre oportunidades no Brasil em Dallas, Houston e Miami, nos EUA.
Na bagagem, vieram mandatos para investir em empresas de alimentos, de ração para animais e em mineração", diz. No setor de alimentos, enquanto americanos querem comprar marcas que agreguem valor, chineses visam criar polo de exportação e estão de olho em armazenagem e "tradings" de alimentos, segundo Sette.
"Há dinheiro disponível, mas investidores após a crise querem investir em projetos já pesquisados com capacidade comprovada", diz o advogado. "Nada de caixas pretas, comuns no setor de mineração."
NEGÓCIO DE BRINQUEDO

O próximo passo da Ri Happy, rede de lojas de brinquedos, é rumo ao Norte. A empresa inaugura, no mês que vem, a primeira loja no Tocantins, o 18º Estado do país com a marca, e negocia unidades em Belém e Manaus para 2011.
"Há carência de oferta nessa região. No Brasil ainda há oportunidade de crescer", diz Ricardo Sayon, diretor da empresa. Paralelo à expansão nortista, a empresa cresce nas outras regiões. Mais filiais estão previstas neste ano em São Vicente (SP), Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG), Maringá (PR) e São Gonçalo (RJ).
Além dos lançamentos, a ampliação de lojas instaladas está na pauta, como a do Shopping Iguatemi, em SP. Sayon prevê faturamento 15% maior neste ano.
Trabalho O apagão de mão de obra qualificada elevou a movimentação de funcionários nas empresas, segundo pesquisa da Abraman (Associação Brasileira de Manutenção). O índice que mede o giro de pessoal na indústria subiu de 2,39% no levantamento anterior para 3,7%, porque as empresas têm disputado profissionais qualificados.
Mão de obra A sondagem da Abraman, que apura dados com companhias dos setores de mineração, siderurgia, petróleo, papel e celulose, entre outras, também aponta maior investimento, de R$ 120 bilhões por ano das indústrias na área de manutenção.
Moda... O grupo londrino Farfetch.com, um shopping de moda on-line de marcas famosas, acaba de receber capital de US$ 4,5 milhões do fundo de investimento Advent Venture Partners. Cerca de 40% desse investimento virá para a expansão do mercado brasileiro, na contratação de pessoal e em marketing.
...on-line A meta da empresa no Brasil é fechar o ano com 20 marcas brasileiras de roupas e acessórios de luxo, segundo Daniela Cecílio, presidente da Farfetch no Brasil. Hoje, o site trabalha com oito marcas brasileiras e mais de mil importadas. "No Brasil, a compra de roupas pela internet ainda é uma cultura nova, mas está mudando", diz ela.
Mordida O Sudeste apresentou concentração de 65,3% dos beneficiários do mercado de planos odontológicos em 2009, segundo o Sinog (Sindicato Nacional das Empresas de Odontologia de Grupo).

EUGÊNIO BUCCI

Essa gente transparente

Eugênio Bucci 
O Estado de S.Paulo - 29/07/10

Com a abertura da temporada de caça ao voto, o substantivo "transparência" vai virando objeto de culto e de comício. É reverenciado em toda parte, a todo o volume, por todos os candidatos; estamos diante de uma divindade suprapartidária e de seus devotos barulhentos. Mas há um detalhe intrigante: ninguém parece saber muito bem o que quer dizer essa palavra. O culto da transparência, entre nós, é deveras opaco. Ou capcioso.


Ninguém mais se lembra, mas o vocábulo ganhou notoriedade nos anos 1980, quando, na então União Soviética, Mikhail Gorbachev adotou seu programa de reformas em torno de dois eixos: a perestroika (reestruturação) e a glasnost (transparência). O projeto de abrir janelas de vidro límpido nas paredes de chumbo do Estado stalinista causou um cataclismo. O Estado não aguentou. Gorbachev levou seu propósito tão longe que acabou derretendo as paredes, os burocratas e a própria URSS. Naquele tempo, transparência era isto: uma bandeira mortal para um organismo que não resistisse à luz solar.
E o que foi feito hoje desse substantivo? Ouvindo a gritaria dos caçadores de votos, a gente fica com a impressão de que ele se reduziu a um sinônimo empolado de honestidade. Nada mais que isso. Um sinônimo mais "chique" - ou mais "sofisticado", como preferem dizer. Como se honestidade, esse termo hoje visto como "simplório", fosse coisa "de pobre": gente fina não é honesta, é transparente.
Poucos exigem transparência do Estado, muitos usam o substantivo como purpurina cívica para se maquiar na TV. A palavra acabou se diluindo num enfeite inofensivo. Virou categoria de melodrama, repertório de cena de novela, como quando a mocinha olha candidamente nos olhos do galã e diz: "Sabe, meu bem, eu sou uma pessoa muito transparente. Não posso evitar, Deus me fez assim."
Os candidatos e candidatas olham-nos mais ou menos do mesmo jeito para recitar mais ou menos a mesma jura. Ao se declararem "transparentes", assumem o ar indefeso de quem confessa uma debilidade, mas uma debilidade especialíssima, muito vantajosa. Eles se confessam inábeis para ocultar as próprias emoções, como se estivessem condenados a dizer a verdade, sempre a verdade. Desprovidos de malícia pela própria natureza, esperam maliciosamente merecer a confiança pública. A confiança que pleiteiam é uma forma de piedade.
Eis aí um embuste, ou melhor, eis aí o grande embuste da temporada. Quem se diz assim tão transparente, das duas, uma: ou não parou para pensar na insustentabilidade lógica do que postula ou está querendo pregar-nos uma peça.
Seres humanos não são como o vácuo do espaço sideral. A luz não os atravessa como a uma lâmina cristalina. Humanos são sólidos e opacos, tropeçam no fio do abajur, derrubam o copo na mesa, fazem sombra uns aos outros, cobrem-se de roupas e de linguagem - ou não existiram. Pedir a um sujeito que seja transparente a esse ponto equivale a pedir que ele desapareça. Os segredos íntimos, conscientes ou não, são indispensáveis para que a pessoa se estruture e possa almejar a liberdade. Uma sociedade em que ninguém tivesse segredos seria insuportável, além de impossível.
Por isso, o mito da pessoa (ou do candidato) transparente, mais que sentimentaloide, é perverso. Procura transferir para gente de carne e osso um atributo que deve ser do Estado - a transparência, como atributo do Estado, evita que a opacidade humana, quando instalada dentro dele, possa converter-se num monstro. Numa pessoa a mesma transparência não faz sentido. A não ser como imposição autoritária ou como fraude que quem promete imprimir à máquina pública suas alegadas virtudes de caráter (como se ela, a máquina pública, fosse regida pelos humores do governante, e não por leis impessoais).
Aqui chegamos ao núcleo da incompreensão que cerca esse tema. Na esfera individual, a presunção da transparência absoluta pode mascarar a má intenção dos embusteiros ou massacrar a boa-fé dos inocentes. Se não houver um espaço indevassável para resguardar a personalidade de cada um, não haverá liberdade. Não por acaso, o voto, nada menos que o voto, é secreto e inviolável. Esconder o próprio voto é direito fundamental do cidadão. Não por acaso, também, os Estados totalitários têm obsessão por vigiar atos, declarações, desejos e até o pensamento dos súditos. São Estados opacos que impõem a transparência compulsória ao cidadão.
Na democracia o princípio é outro. O administrador público tem o dever de assegurar a todos o acesso às informações sob guarda do Estado. Cabe a ele zelar para que essas informações sejam claras, simples, diretas e confiáveis. Esse dever do Estado - e do governo - deveria repelir qualquer tentativa de proselitismo com verba pública. A chamada propaganda oficial, ou a tentativa de convencer a sociedade das teses governistas, agride o dever de transparência do Estado. A informação de interesse público precisa estar acessível, desinteressadamente acessível, para que cada um forme a sua opinião sobre o que quer que seja. Isso porque o regime democrático respeita a esfera íntima do indivíduo, que inclui a liberdade de crença e de pensamento.
No nosso tempo, contudo, muitos dos que se proclamam transparentes morrem de ciúmes do Estado. Querem que o povo fique longe dele. Querem se beneficiar das opacidades na máquina pública. A esses valeria solicitar mais sinceridade em relação a assuntos públicos. Por exemplo: por que declaram armazenar dinheiro vivo dentro de casa? Apenas para terem um álibi caso um assessor seja pego com maços de cédulas numa valise ou numa cueca? Talvez eles nos pudessem brindar com mais sinceridade. Poderiam cultuar também a honestidade, essa palavra fora de moda. Mas, por ora, estão muito ocupados em ser transparentes até não poder mais.
JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP