domingo, janeiro 31, 2010

ELIO GASPARI

Obama está com um pé no Terceiro Mundo

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/01/10


O companheiro paga o preço de ter nomeado três médicos para o mesmo paciente


PARECE NOTICIÁRIO do Terceiro Mundo. A economia melhorou, mas pode sofrer outro piripaque e aquilo que seria um "V" viraria um "W". O presidente do Banco Central teve que batalhar votos de senadores para ser confirmado no cargo. O ministro da Fazenda, que já foi apanhado sonegando impostos, comprou pelo valor de face transações da seguradora AIG com a casa Goldman Sachs que arriscavam valer nada. Se isso fosse pouco, o companheiro Obama tinha três nomes para o comando da economia (Timothy Geithner, Lawrence Summers e Paul Volcker). Escolheu os três, botando um na Secretaria do Tesouro, outro na Casa Branca e o terceiro na presidência de um conselho.
Um ano depois, como no Terceiro Mundo, Geithner entrou num processo de fritura. Burocrata caladão, carrega a cruz de ter sido presidente do Fed de Nova York durante a farra de George Bush. Por conta do cargo, esteve no triunvirato que fez o serviço de salsicharia durante o tenebroso final de 2008, quando o sistema financeiro mundial estava derretendo. A tensão era tanta que o então secretário do Tesouro, Henry Paulson, foi ouvido vomitando no banheiro (sua versão chega às livrarias americanas amanhã).
O resgate dos negócios da AIG com a Goldman parece-se com a operação do Banco Central brasileiro durante a crise de 1999 com os bancos Marka e Fonte-Cindam. Na hora, era inevitável. Um ano depois, parece injustificável.
Durante um ano, Geithner e Lawrence Summers prevaleceram sobre Paul Volcker, que defendia um avanço sobre a jugular da banca. Com 82 anos, quase dois metros de altura e a autoridade de quem já presidiu o Fed na condição de queridinho dos banqueiros, Volcker nunca escondeu que era voz pouco ouvida e voto vencido. Passaram os meses e, da trinca, ele é hoje o mais poderoso. Não tem cargo executivo e é difícil que venha a tê-lo, mas, quanto mais rápida for a substituição de Geithner por alguém livre do passado, melhor para Obama.
Em 1982, salvou a banca que inundara o Terceiro Mundo com empréstimos temerários impondo o entendimento de que a conta da festa pertencia aos países devedores. Com isso, quebrou as economias de dezena de países, inclusive a do Brasil. Quando lhe perguntaram se ele achava que fizera isso, respondeu: "Esse era o meu serviço" (desta vez, a banca quebrou os Estados Unidos).
Paul Volcker machuca. Depois de deixar o Fed, pediram-lhe uma faxina no Banco Mundial, e ele a fez. Numa auditoria de um programa da ONU, pescou o filho do secretário-geral em traficâncias com o petróleo de Saddam Hussein. Chamado a procurar nos bancos suíços depósitos de judeus mortos no Holocausto, achou mil contas adormecidas.

PICO NOSSO GUIA
Rousseff deve fechar sua clínica e alguns médicos do Planalto, seus diretórios partidários. Eles disseram que Lula "não tem pressão alta". Como se fosse preferível chegar aos 18 por 12 sem hipertensão do que tendo-a.
Se o episódio foi um "Pico Nosso Guia", o risco foi maior, pois alterações desse tipo provocam acidentes vasculares. Quem tem pressão normal e toma um 18 por 12 no sistema corre mais perigo que um cidadão corretamente medicado.
Se Lula é hipertenso, basta passar numa farmácia, comprar um remedinho, tomar alguns cuidados, e ir em frente.
Essa conduta fará bem a Lula e aos milhões de brasileiros que sofrem de hipertensão, dão crédito a feitiçarias ou lorotas do poder, e não se tratam direito.

PESADELO GABEIRA
Fernando Gabeira criou um pesadelo para Sérgio Cabral. O ex-governador Anthony Garotinho conseguiu 20% na última pesquisa do Vox Populi, e Gabeira teve 18%. Somados, encostam em Cabral, com 39%. Cabral tem força no Grande Rio, e Garotinho, no interior. Se Gabeira avançar na cidade, Cabral corre o risco de morrer no primeiro turno. Cabral, contudo, tem uma arma secreta: Lula.

AS ÁGUAS VÃO ROLAR
O PT colecionou um acervo de filmes de propaganda usados pela campanha presidencial de Geraldo Alckmin mostrando que suas obras de drenagem dos rios de São Paulo protegeriam a cidade das enchentes. Só no leito do rio Tietê gastou-se R$ 1,1 bilhão. As obras serviram para muita coisa, mas a máquina do governo estadual anunciou que o risco de enchente na região cairia de 50% para 1%. Quem com marquetagem feriu, com marquetagem será ferido.

"L'ETÁ C'EST MUÁ"
Nosso Guia corre o risco de atravessar o espelho, indo viver no mundo do seu ego.
Outro dia disse o seguinte: "O FMI chegava ao Brasil humilhando o governo, dando palpite. Se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava como cachorro magro com o rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI". O FMI não deve dinheiro a Lula. Deve ao Brasil.

FOFOCA
O jornalista americano Paul Blumfeld, autor de um memorável livro sobre as trapalhadas da ekipekonômica do FMI durante os anos 90, publicou nos Estados Unidos "Desventuras das Nações Favorecidas -Choques de Egos, Ambições Infladas e Grandes Ruínas do Sistema Comercial Mundial".
Nele, conta os bastidores das últimas reuniões da OMC e revela que em 2001, durante a discussão do regime de patentes farmacêuticas, em Doha, o embaixador Celso Amorim pediu socorro ao então ministro da Saúde, José Serra, para prevenir um recuo do seu chefe, o chanceler Celso Lafer.
Havia sido negociado um atalho para quebra de patentes, mas a delegação americana roeu a corda e quis virar o jogo. Amorim bateu pé, mas viu-se desqualificado, já que o chefe da delegação era Lafer, não ele.
Blumfeld contou que o embaixador "tinha um ás na manga": "Ansiosa, a equipe de Amorim saiu em busca de Serra, que estava num tour, e voltou para o Sheraton. O ministro da Saúde garantiu o embaixador". (Nesse lance Serra decidiu que, se ganhasse a eleição, faria de Amorim seu chanceler.)

A COSTURA PARA COLOCAR MEIRELLES NA VICE

A manobra que pode levar Henrique Meirelles à Vice-Presidência na chapa de Dilma Rousseff é pesada, mas pode prevalecer.
O presidente do Banco Central tem a simpatia de Lula e é defendido pelo ex-ministro Antonio Palocci. Meirelles serviria de contrapeso às inquietações que Dilma e o comissariado petista disseminaram no empresariado e no andar de cima. Nas últimas semanas, o mercado financeiro tomou-se de súbita paixão por José Serra.
Lula, Palocci e Dilma não têm votos na convenção que escolherá a chapa, mas podem recorrer a um poderoso eleitor. Costurando por dentro, o governador Sérgio Cabral viabilizaria Meirelles. Ele tem quatro vezes mais convencionais que a bancada paulista do partido.
Henrique Meirelles é e não é um quadro do PMDB, característica que o credencia para o exercício do cargo. Se Cabral emergir como seu grande eleitor, estará habilitado para se tornar uma ponte dourada entre os pleitos do partido e o Planalto num terceiro mandato petista.

GOSTOSAS

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PAINEL DA FOLHA

Batalha naval

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/01/10


As negociações entre o PSB e o PT paulista por uma aliança para disputar o governo de São Paulo passam por uma zona de atrito entre as duas siglas: o controle do porto de Santos. Desde 2007, quando Lula criou a Secretaria Especial de Portos, à qual deixou sob o comando do PSB, o PT perdeu espaço em Santos.

Com status de ministro, o responsável pela pasta, Pedro Brito, foi sub de Ciro Gomes (PSB) na Integração Nacional. Antes de embarcar na política, Brito fez carreira no banco Fibra, da família do vice-presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch (CSN), por sua vez um dos principais entusiastas da candidatura de Paulo Skaf (PSB) ao Palácio dos Bandeirantes.

Laços - Cargo-chave no porto, a diretoria de Administração e Finanças deixou de ser ocupada pelo PT para abrigar o executivo Alencar Costa, também ligado a Steinbruch.

Memória - O PT havia ampliado seu espaço no porto de Santos depois do escândalo do mensalão, em 2005, quando o PR perdeu seu naco por conta do envolvimento do deputado Valdemar Costa Neto.

Fala mansa - Aliados do prefeito Gilberto Kassab (DEM) afirmam que já não se percebe mais a tradicional resistência dele à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) ao governo de São Paulo.

Cofrinho - O PT do Acre, dos irmãos Jorge e Tião Viana, organizou baile, feijoada e venda de bônus (de até R$ 2.500) para arrecadar fundos destinados a quitar dívida de R$ 70 mil do diretório local.

Anéis e dedos - A cúpula da campanha de Dilma Rousseff tem afirmado reservadamente que a regra sobre a participação da ministra nos Estados onde haverá mais de um palanque aliado não se aplicará às aparições de Lula.

Paralelos - O comando do PMDB diz que o histórico de votos não é critério para a escolha do vice de Dilma, mas alguém fez a conta: Michel Temer (SP) teve 99 mil votos na eleição de deputado em 2006. Hélio Costa (PMDB-MG), em 2002, obteve pouco mais de 3,5 mi ao Senado.

Plataformas - Nas conversas com os aliados PDT e PC do B, o governo tratou de amarrar o apoio à conferência das centrais sindicais, convocada para junho. No encontro, sindicalistas apresentarão um documento com propostas de governo - que esperam ser encampadas por Dilma.

Bola dividida - Apesar da disposição de entregar a Casa Civil à secretária-executiva Erenice Guerra, Lula tem sinalizado que a gerente do PAC a partir de abril, quando a ministra deixar o governo, tende a ser a subchefe da pasta, Miriam Belchior.

Diplomacia - O governo despachou dois funcionários, um da Casa Civil e um da assessoria internacional, para a Nicarágua. O objetivo é tentar avançar as negociações para que o Brasil financie uma hidrelétrica no país, onde cortes de energia são frequentes.

Independência - Causou pânico nas subsidiárias da Eletrobras o movimento da empresa para fortalecer sua marca, rumo à internacionalização dos negócios. Feudos peemedebistas temem perder autonomia com o processo.

Abacaxi - Depois de administrar a escalada de críticas ao Plano Nacional de Direitos Humanos, o governo está prestes a comprar novas brigas, desta vez com o setor privado de telefonia. A razão é o Plano Nacional de Banda Larga, que deve dar superpoderes a estatais. A reunião de ministros da área com Lula está marcada para o dia 10.

Em pauta - Além do pré-sal, dois assuntos devem acirrar os ânimos do Senado até junho: a Lei das Licitações e o projeto que reformula o Cade.

Tiroteio

O Ciro tem 13% do eleitorado nacional e não é o PT, que disputou todas as eleições, que vai decidir o que o PSB deve fazer.

Do deputado BETO ALBUQUERQUE (PSB-RS), sobre a pressão do PT para que Ciro Gomes não dispute a eleição presidencial.


Contraponto

Homem do tempo

Secretário estadual do Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos (DEM) discursava durante evento da Associação Comercial de São Paulo, no bairro de Santo Amaro (zona sul), na quinta-feira. Diante da agitação dos convidados pelo atraso do governador José Serra (PSDB), Afif teve de explicar:

- O governador quase não chegou por falta de teto. Mas, ainda bem, agora abriu!

Com o prefeito Gilberto Kassab (DEM) ao lado, ele não perdeu a piada:

- Então vou correr, porque vocês sabem... Onde tem Kassab, São Pedro manda chuva!


CARLOS HEITOR CONY

Romeu e Julieta

FOLHA DE SÃO PAULO - 31/01/10


A historinha aconteceu com amiga minha. É verdadeira, tão verdadeira que terei de disfarçar para contar o milagre sem mencionar o santo. Digamos que ela se chama Ligia, é atriz de sucesso, casou-se aos 26 anos, separou-se e engatou caso com um colega de profissão, ator bastante conhecido, dez anos mais velho. Até aí, uma história banal, sem nada de extraordinário.

Ela ia a uma festa e foi procurar um anel que havia ganhado do ex-marido. Não o encontrou. Pensou que tinha sido roubada. Uma vez por semana vinha a faxineira, que era de confiança, mas nunca se sabe.

Comentou com o companheiro. Era a primeira vez que dava por falta de alguma coisa em sua casa. O homem ficou sem jeito, perguntou se ela não tinha usado o anel e o perdera por aí. Ela garantiu que não. Estava tão chateada que o homem resolveu contar a verdade. Confessou que roubara o anel na primeira noite em que dormiram juntos. Não sabia que era uma joia tão importante assim, um simples anel, de valor duvidoso.

'Mas por que fez isso?', perguntou a mulher espantada.

Ele contou uma história comprida. Os anos de palco lhe davam treino para ser convincente. O anel era presente de outro homem, símbolo de uma união que acabara. Nem era ciúme o que sentia. Mas um sinal de que ela tivera um passado. Ficaria ele com o anel e lhe daria outro, com uma pérola e um diamante, jóia antiga, de outros tempos, era conhecido como Romeu e Julieta.

'E onde está o meu anel? Quero-o de volta!'. 'Trago amanhã', prometeu o amante.

No dia seguinte, ela recebeu o anel antigo todo arrebentado, e o novo, com pérola e diamante, e um bilhete: 'O anel que te roubei era vidro e se quebrou, o amor que eu tinha, era muito, por isso acabou'.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA
Mulher tem que ser braba mesmo?
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

O presidente Lula foi internado com hipertensão. O nome já diz: é tensão demasiada, dez compromissos em cinco cidades numa semana, levando na bagagem sua pré-pós-candidata, a ministra Dilma Rousseff. Num dia, Lula diz, orgulhoso, que “a bichinha está palanqueira”. Dias depois, em Pernambuco, pela primeira vez assume em comício o gênio forte da ministra: “As pessoas falam que a Dilma é braba. Vou lhe contar uma coisa. Mulher tem mais é que ser braba mesmo”.

Não sei o que será pior na campanha para Dilma: mudar ou não mudar o jeito, o tom, os temas. No fundo, colocou-se a ministra numa roubada. Seu amigo, o ex-guerrilheiro e ex-prefeito petista de Belo Horizonte Fernando Pimentel, afirma que ela deve assumir a fama de durona porque “tentar fazer Dilma parecer com Lula é ilusão”. É como diz Pimentel. Ela não é operária, não passou fome e não nasceu no Nordeste. É mineira de classe média alta, educada nos melhores colégios. Quando se apresenta a círculos menores, Dilma conta que o pai é búlgaro. Não dá para dizer isso em palanque. Búlgaro de quê?

O desafio cada vez mais claro e árduo de transferir votos para Dilma pode estar na raiz da hipertensão do presidente. Não é preciso ser médico para desconfiar. Porque, quando Dilma se acredita popular e se solta... aí mora o perigo. Em Pernambuco, conta a repórter de O Globo Letícia Lins, a ministra cometeu gafe após gafe ao inaugurar um posto de saúde ao lado de seu padrinho. Ela disse que o escritor Ariano Suassuna nasceu em Pernambuco – mas foi na Paraíba. Atribuiu a Suassuna a frase “nós somos madeira que cupim não rói”. A frase é do compositor Lourenço Barbosa, o Capiba. Errou o nome da cidade em que estava. Falou no prefeito “Romildo”, de Olinda. Só que ele se chama Renildo. Saudou Romero Jucá (PMDB) como líder do partido no Senado. Jucá é líder do governo.

Vamos dar crédito à ministra. É verão, faz muito calor. E o que lhe falta de traquejo lhe sobra em nervosismo. Não pode ser fácil mesmo tentar substituir Lula, o homem do povo que já governa o Brasil há quase oito anos e que, em Davos, na Suíça, receberia na sexta-feira o título de Estadista Global, caso a pressão não o traísse.

Não sei o que será pior para Dilma na campanha:
mudar ou não mudar seu jeito e seu tom

O problema não são as gafes da ministra, ainda pequenas (quem será que está escrevendo os discursos de Dilma?). A pergunta é outra: o povo brasileiro quer mesmo uma dama de ferro no poder? Será que, como disse Lula, “mulher tem que ser braba”? “Quem tem que ficar arreganhando os dentes todas as horas é o homem. A mulher tem que ser séria mesmo”, disse Lula. As urnas dirão se o povo concorda. Como Dilma se comportará, atacada em debate? O marqueteiro João Santana terá de fazer mágica. Amigos dizem que ela tem treinado postura e discurso. Só faltaria escolher “temas mais populares, deixando de lado o tom técnico”.

Na festa de 100 anos de dona Maria Amélia, a mãe de Chico Buarque, no Rio, Dilma estava lá, ao lado de Lula. O presidente foi um sucesso. E a ministra? Os convivas dizem que ela se esforçou para demonstrar simpatia. Mas, em festa de bamba, clima pré-Carnaval, ninguém vai conversar sobre PAC, pré-sal ou etanol. Ou sobre “a comissão da verdade”. Nome complicado esse. Pois, se existe uma comissão da verdade sobre vítimas da repressão, imaginamos que as outras... Bem, as outras devem ser de mentirinha.

Lula, sempre galante em sua defesa de Dilma, chamou de “babaca” o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que não perde a chance de atacar o ponto fraco da ministra: “Foi ela quem liderou isso (o veto à suspensão de obras da Petrobras consideradas irregulares pelo Tribunal de Contas) . Ela quer mandar em tudo. É autoritária”.

É pouco? Vem aí um trio da pesada para o diretório nacional do PT. Todos réus do mensalão: José Dirceu, cassado em 2005 e ex-ministro da Casa Civil; José Genoíno, presidente do PT até 2005, obrigado a sair pelo escândalo; João Paulo Cunha, presidente da Câmara no primeiro mandato de Lula. Objetivo: costurar alianças e articular a campanha da Dilma.

Um trio de ferro para uma dama de ferro.

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Aquele misterioso momento

O GLOBO - 31/01/10


Nas fotos publicadas nas orelhas dos seus livros, Roberto Calasso parece uma imagem idealizada de intelectual italiano. Um perfil aristocrático como perfeita expressão de uma mente de primeira. Pode-se imaginar o que completa o perfil: um gosto rarefeito por boa comida e bons vinhos, um papo estimulante. Não sei onde ele nasceu, mas as fotos são de um irretocável espécime da cultura da elegância que distingue Milão, onde ele mora. (Nada disso pode ser verdade, claro. As fotos não mostram se ele é um baixinho com voz de pato, ou um chato. Mas o perfil impressiona).

Roberto Calasso dirige a editora Adelphi e escreve livros sobre mitologia, literatura, arte e política com uma inteligência aguda – se bem que, às vezes, uma complexidade impenetrável. Chamou atenção pela primeira vez com "O casamento de Camdus e Haronia", uma longa reflexão sobre mitos ocidentais. Também escreveu sobre mitos orientais (“Ka”) e Kafka (“K”), sobre Talleyrand e a história europeia em As ruinas de Kasch, e coleções de ensaios sobre cultura em Literatura e os deuses e Os quarenta e nove passos. Seus textos estão cheios de sacadas, digressões que podem levar o leitor de um pequeno detalhe a uma cosmogonia, e são nunca menos que instigantes.

No seu último livro, Rosa Tiepolo, em inglês Tiepolo pink, Calasso escreve sobre o pintor veneziano do século dezoito Giambattista Tiepolo, e comenta uma série de gravuras feitas pelo seu filho Giandomenico sobre a fuga para o Egito de José, Maria e Jesus, segundo o relato bíblico. Uma das gravuras mostra a sagrada família na estrada passando pela estátua de uma deusa semi-nua – cuja cabeça acaba de cair, e está a centímetros de se estilhaçar no chão.

Escreve Calasso: “Pode ser dito que este momento marca o fim da era pagã e o começo de algo que a princípio é apenas uma jovem mulher com um bebe numa estrada solitária. Muitos tentaram, em palavras ou imagens, retratar aquele misterioso momento a partir do qual os mundos pagão e cristão coexistiram, o primeiro como uma paisagem de ruinas e uma estátua mutilada, o outro como uma débil, obscura pulsação de vida. Mas só Giandomenico ousou fixar o momento no instantâneo de um detalhe. É assim que a história acontece, nos diz a imagem. Por meio de fraturas que podem facilmente passar desapercebidas. Mas que são irreversíveis.”

Uma era pode estar acabando e outra começando neste momento. Só saberemos quando um Tiepolo, ou um Calasso, nos disserem.

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

DOMINGO NOS JORNAIS

O Globo: Maior crime ambiental do Rio acaba sem punição

Folha: Governo dá aval a megaempresa do setor elétrico

O Estado de S. Paulo: Fraude em 10 aeroportos podem chegar a R$ 1 bilhão

Jornal do Brasil: Transporte ruim e sem punição

Correio Braziliense: Planalto - Após susto, Lula entra em campo

sábado, janeiro 30, 2010

UMA DOENÇA ESTRANHA

A VAGABUNDA E O ABILOLADO
Marisa perguntou a Luiz Inácio:

- Môôôôr, o que é leptospirose?
E Luiz Inácio respondeu na bucha:

- Copanhêra, é uma doença que ataca os usuário de
lépitópi. É transmitida pela urina do mauze.

GOSTOSAS

RODRIGO MAIA

A base da confiança é a verdade

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/10


SEM PARTIDOS políticos fortes, não há democracia, não há Estado de Direito e não há liberdade. A democracia representativa que adotamos é partidária, vale dizer: a vontade do povo se manifesta por meio dos partidos, que são as instituições de acesso ao mandato e ao poder. Ninguém disputa eleição sem o atestado de filiação partidária.
O real fortalecimento dos partidos políticos implica uma reforma política estrutural, que inclui a aprovação do voto em lista, o incremento das regras de fidelidade partidária e o financiamento público das campanhas eleitorais. Implica, igualmente, leis mais realistas sobre as doações e as prestações de conta das campanhas eleitorais.
Não dá para tapar o sol com a peneira: temos de ter coragem de reformar o que está mal e melhorar o que é possível para aumentar a confiança da sociedade nas instituições partidárias. Nesse sentido, aliás, as maiorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal entenderam que é legal a doação das empresas aos partidos, como está previsto, há 14 anos, na lei nº 9.096/95.
No ano passado, quando aprovamos a lei nº 12.034, avaliamos que, enquanto não avançarmos para o financiamento público das campanhas, não há nada de errado na doação feita pelas empresas diretamente aos partidos políticos.
A doação direta fortalece os diretórios estaduais e o partido como um todo, o que deve constituir a máxima prioridade de todos os interessados no avanço da democracia.
Não podemos esquecer, a propósito, que o processo de fortalecimento das agremiações partidárias teve início quando o então PFL (Partido da Frente Liberal) encaminhou consulta ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) perguntando se a titularidade dos mandatos eletivos cabia ao parlamentar ou ao partido político. A resposta do TSE foi a histórica resolução que instituiu a fidelidade partidária, decisão confirmada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Ao determinar que mandatos eletivos pertencem aos partidos, o TSE fez justiça -pouquíssimos deputados teriam condições de se eleger sem os votos das legendas- e, ao mesmo tempo, reconheceu a maturidade das instituições partidárias para assumir responsabilidades no nosso sistema democrático.
Os partidos devem responder pelas doações de campanha que recebem. Além de perfeitamente legais, as doações constam da prestação de contas das agremiações. Isso quer dizer que não há nada de secreto, oculto ou escondido aqui.
As informações prestadas à Justiça Eleitoral são públicas e ficam à disposição da imprensa e dos demais interessados. Se alguém mentir ou agir de forma errada, que responda pela transgressão. A base da confiança é a verdade.
Espero, sinceramente, que o Tribunal Superior Eleitoral continue apostando na capacidade dos partidos políticos de administrar sua contabilidade eleitoral e cumprir seus demais compromissos com a sociedade. Aqui no Democratas, partido que tenho a honra de presidir, temos problemas urgentes para resolver.
É o caso, por exemplo, de reapresentar ao país nossa linha de rumo e de divulgar as propostas concretas que temos para aprofundar a democracia com reforma política ampla, instituições fortes, segurança jurídica, segurança pública, saúde, emprego, preservação ambiental e combate à pobreza.

RODRIGO MAIA é deputado federal pelo DEM-RJ e presidente nacional do seu partido.


Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

CLAUDIO WEBER ABRAMO

Medida salutar

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/10


É positiva a proposta do TSE que busca restringir as doações ocultas a candidatos?


NAS DEMOCRACIAS representativas de matriz liberal, como é o caso do Brasil, os mecanismos de financiamento eleitoral operam sob a tensão da disparidade entre o poder econômico de empresas privadas e o de eleitores individuais. Uma vez que existam empresas privadas, é inevitável que elas procurem influenciar a política. O grau com que se permite isso é aspecto central das legislações eleitorais.
A legislação brasileira é muito mais adiantada do que a de diversos países desenvolvidos. Enquanto no Brasil as contas eleitorais são tornadas públicas logo após cada eleição, não são incomuns situações em que a contabilidade só aparece anos depois.
Na Espanha, por exemplo (onde isso é feito pelo Tribunal de Contas), ainda não se conhecem as contas do pleito de 2006, embora alguns de seus detalhes tenham "vazado" alguns dias atrás ("El País", 25/1).
Tais notícias dão conta de que o Partido Popular, no poder, recebeu 3 milhões de euros de doações anônimas naquelas eleições -as últimas em que se permitiram doações eleitorais sem identificação do doador, algo proibido no Brasil há muito tempo.
De um lado, é fundamental que o poder econômico empresarial seja limitado. De outro, é crucial que os financiamentos sejam conhecidos pela opinião pública, para que se torne possível verificar se os atos dos agentes políticos eleitos são influenciados pelas doações que receberam.
Políticos e empresas não gostam disso e usam artifícios diversos para escamotear a informação. Há artifícios legais e ilegais. Um aspecto da legislação brasileira que estimula artifícios legais é o desvinculamento entre as finanças dos partidos e as finanças de comitês e candidatos em eleições.
Desde 2001, a Transparência Brasil tem apontado para presidentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o fato de que tal desvinculamento permite que empresas façam doações a partidos, os quais repassam o dinheiro a candidatos sem que seja explicitado o nexo entre origem e destino. A lacuna foi finalmente reconhecida pelo TSE, que submeteu a audiência pública proposta de normas para a regulamentação do pleito deste ano.
A regulamentação estabelece que, ao realizarem doações a candidatos, os partidos precisarão alocar (completamente ou por rateio) cada montante a créditos identificados. Por exemplo: "R$ 100 mil ao candidato A, dos quais R$ 20 mil são provenientes de doação da empresa X e R$ 80 mil da empresa Y".
A medida é salutar para reduzir os espaços legais para o exercício oculto do poder econômico em eleições. Quanto aos artifícios ilegais, configuram o chamado caixa dois eleitoral (dinheiro originado de sonegação fiscal que é usado por empresas para financiar candidatos por baixo do pano). Alguns imaginam que o caixa dois eleitoral possa ser coibido pela proibição do financiamento privado, fazendo com que as eleições sejam financiadas exclusivamente com recursos públicos.
A proposição de financiamento público exclusivo é afetada por uma deficiência lógica intransponível, a saber, não faz sentido procurar evitar o caixa dois pela proibição do caixa um. Uma vez que o interesse de empresas de influenciar as eleições e o interesse de candidatos de obter financiamentos persistem independentemente de normas legais, o que se conseguiria com a medida seria induzir a migração de parte do financiamento eleitoral do caixa um para o caixa dois.
Na verdade, caixa dois eleitoral só pode existir porque empresas mantêm caixa dois, e isso é um problema de natureza fiscal, não eleitoral. Coíbe-se a contabilidade paralela apertando-se a fiscalização tributária, muito deficiente na maioria dos Estados e na virtual totalidade dos municípios. (Há ainda caixa dois em refúgios fiscais situados no exterior, a respeito dos quais não há nada a fazer senão tornar mais visíveis as transações financeiras internacionais -algo que horroriza bancos, empresas transnacionais e muitos governos.) Por fim, ao se examinarem regras eleitorais, há um, e um só, fator ao qual se deve prestar atenção: em que medida aquilo que se propõe beneficia ou prejudica o eleitor. O resto é secundário. A medida proposta pelo TSE claramente beneficia o eleitor.

CLAUDIO WEBER ABRAMO, matemático, mestre em lógica e filosofia da ciência pela Unicamp, é diretor-executivo da Transparência Brasil, organização dedicada ao combate à corrupção.

JAPA GOSTOSA

MÔNICA BERGAMO

Vocações

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/10

A Prefeitura do Rio de Janeiro encaminhou ao Itamaraty sua pré-candidatura para sediar em 2020 a Exposição Universal, que neste ano acontece em Xangai e, em 2015, em Milão. Em São Paulo, a Secretaria de Relações Internacionais estrilou: "Não faz sentido. O Rio sediará a Olimpíada, assim como Pequim. São Paulo é a cidade brasileira com o perfil mais "econômico" da Expo", diz o secretário Alfredo Cotait Neto.

VOCAÇÕES 2
Cotait diz que o pleito carioca pode estar atrasando o endosso do Itamaraty à candidatura paulistana para o evento, em que cidades e países exibem projetos locais e nacionais. A Prefeitura do Rio dá de ombros: "A decisão será tomada em 2011 pelo governo federal".

LULATUBE
O Hospital Português, no Recife, diz ter descoberto quem gravou e espalhou as imagens do presidente Lula chegando lá de cadeira de rodas e barriga aparecendo: o funcionário de uma empresa de segurança terceirizada, pela câmera do celular. Diz que está "tomando providências" a respeito.

SELVAFOLIA
A senadora Marina Silva (PV-AC) não deve cumprir o "ritual presidenciável" de pular o Carnaval em camarotes Brasil afora: vai passar o feriado no interior da Amazônia.

ALTERNATIVO
Reclamando de pouca atenção do poder público, os alagados do Jardim Pantanal (zona leste de SP) têm sido amparados por movimentos de esquerda. O grupo Terra Livre - Campo e Cidade tem representantes a postos para ajudar as famílias e conquistar adeptos.

SAMBA DE BRASÍLIA
O governo do Distrito Federal diz que, além da paulistana Tom Maior, recebeu pedidos para patrocinar enredos sobre os 50 anos de Brasília de escolas de samba de Rio, Vitória e Porto Alegre. Optou por injetar R$ 3 milhões na carioca Beija-Flor por "tradição no Carnaval, mobilização junto ao público e quantidade de títulos".

PANGEIA
Vencedor do último Prêmio São Paulo de Literatura, o romance "Galileia" (Alfaguara), de Ronaldo Correia de Brito, teve seus direitos vendidos para a editora argentina Adriana Hidalgo, que já publicou obras de Manuel Bandeira e Caio Fernando Abreu.

CIGANA E AFRICANA
O estilista Walério Araújo vai assinar o figurino da cantora Claudia Leitte e da apresentadora Sabrina Sato no baile de Carnaval da revista "Vogue", no dia 5. Claudia vai usar uma roupa inspirada nas ciganas, e Sabrina, um "look africano".

VIRA-CASACA
Após o lançamento do leilão de Corinthians e Palmeiras em prol de São Luiz do Paraitinga, o ex-jogador Rivellino, ídolo do Timão, pediu, discretamente, uma camisa do rival assinada por todos os atletas do Verdão.

SONIA ABRÃO
"Éramos fantasmas arrastando correntes"

A apresentadora do "A Tarde é Sua", na Rede TV!, virou "hit" no Twitter depois que o humorista Mauricio Meirelles lançou o tópico #soniaabraofacts (fatos sobre Sonia Abrão). As tiradas são inspiradas nas histórias trágicas mostradas pelo programa:

"Sonia Abrão odeia a esperança porque ela é a última que morre"

"Sonia Abrão usa carro a álcool só pra ter o prazer de ver o carro morrer"

"A Sonia Abrão não gosta de Yakult porque tem lactobacilos vivos"

FOLHA - Ficou sabendo do tópico #soniaabraofacts?
SONIA ABRÃO - Mas mesmo se eu estivesse na Lua eu iria ficar sabendo! O telefone não parou. Meu filho imprimiu tudo e me mostrou.

FOLHA - Você leu o que o Luciano Huck escreveu?
SONIA - Que eu passei o Réveillon em Angra e que vou passar o Carnaval no Haiti, né? Me falaram que o Mion também escreveu.

FOLHA - O Marcos Mion escreveu: "O jogo preferido da Sonia Abrão é aquele decidido por morte súbita".
SONIA - [Gargalhada] Esse eu não vi, mas vi outros engraçados: "Sonia Abrão não faz programa ao vivo. Faz aos mortos". É muito engraçado, não tem jeito. Twitter é assim mesmo. Cada hora eles escolhem um e aí você aguenta. Não é grosseiro, é espirituoso.

FOLHA - Acha que o programa tem muita tragédia?
SONIA - Tem muita tragédia mesmo, mas é o noticiário. A gente andou numa fase muito pesada. No ano passado, então, pelo amor de Deus! Brincávamos que éramos fantasmas arrastando correntes. Agora, temos feito mais matérias de Carnaval, de artistas, para deixar o programa mais leve. Mas aí, de cara, no começo do ano, a gente já pega a Hebe internada. É complicado.
(LÍGIA MESQUITA)

CURTO-CIRCUITO
A PEÇA "Mãos ao Alto, SP!" reestreia hoje, às 21h, no teatro Jardim São Paulo. Classificação etária: 12 anos.
A EXPOSIÇÃO "Brava Gente", de Tide Hellmeister, será inaugurada hoje, às 11h, na Caixa Cultural São Paulo.
A BOATE Pachá realiza hoje, às 23h, o festival Summer Music Culture, com os DJs Paul Van Dyk, Laidback Luke e Anderson Noise. Classificação etária: 18 anos.
O ARTISTA Alberto Nicolau inaugura hoje, às 11h30, o mural "Árvore Subterrânea" na nova estação de metrô Sacomã.
O GRUPO de dança Minik Momdó faz apresentação gratuita amanhã, às 20h, na galeria Olido. Classificação: 18 anos.
O CLUBE A Hebraica realiza a cerimônia do Ano-Novo das Árvores amanhã, às 10h30, com o plantio de árvores no local.

DANIEL BERGAMASCO (interino), com ADRIANA KÜCHLER, DIÓGENES CAMPANHA e LÍGIA MESQUITA

ILIMAR FRANCO

Fumaça branca


O Globo - 30/01/2010
A bancada do DEM na Câmara chegou a um acordo e vai eleger o deputado Paulo Bornhausen (SC) como líder. O deputado Abelardo Lupion (PR) vai retirar sua candidatura. O grupo do presidente da sigla, deputado Rodrigo Maia (RJ), que trava uma queda de braço com o do ex-senador Jorge Bornhausen, resolveu fazer um gesto para tentar unificar o partido às vésperas das eleições.

Divisão dos lucros nas estatais

As centrais sindicais querem incluir as estatais, além das pequenas e médias empresas, na proposta, em debate no governo, pela qual 5% do lucro líquido têm que ser divididos com os trabalhadores. Também querem trocar a palavra “lucro” por “resultado”. “Lucro tem como a empresa maquiar, mas resultado a gente sabe quanto foi”, disse o presidente da Força, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP). Outra preocupação é não vincular a divisão do lucro com a negociação salarial. “Não pode ser no mesmo momento da database”, afirmou o presidente da CUT, Arthur Henrique. As centrais aguardam ser chamadas pelo presidente.

Viajar com o presidente Lula é como participar do rali Paris-Dakar. Sabe como é? Se você enxergar água, beba; se tiver comida, coma; e, se aparecer um banheiro, use”

— Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, sobre o ritmo do presidente Lula

MERCADANTE FORA. Apesar de ser citado no PT como a melhor alternativa, devido à resistência de Ciro Gomes, para disputar o governo de São Paulo, o senador Aloizio Mercadante está decidido a disputar a reeleição. Diz que, com a saída dos senadores Tião Viana (AC) e Ideli Salvatti (SC), sua presença é imprescindível na Casa para enfrentar a oposição. “Eu não pude ser ministro por causa disso”, afirmou Mercadante.

Mítico

O que se diz, no núcleo do governo Lula, sobre a volta do ex-ministro José Dirceu ao diretório nacional do PT: ele teve muito poder, hoje tem alguma influência, mas há muita lenda em torno de sua real intervenção política.

Aviso

Embora deixe a porta aberta, nada irrita mais o geralmente cordato governador Aécio Neves (MG) do que tentar convencê-lo a ser o vice do governador José Serra nas eleições presidenciais. Sua vingança costuma ser maligna.

Social em destaque

A mensagem presidencial que será entregue ao Congresso terça-feira, na abertura do ano legislativo, vai destacar o projeto de lei da Consolidação das Leis Sociais, a ser enviado este ano, como uma das principais ações do governo na área social. Dirá que o objetivo é institucionalizar os programas sociais como “políticas de Estado” para garantir que “grandes conquistas” e ações “exitosas” do governo Lula tenham continuidade.

Na Paraíba, PSB quer tirar PT do PMDB

No encontro entre o presidente Lula e o governador Eduardo Campos (PE), com dirigentes do PT e do PSB, os socialistas fizeram apelos para que o PT apoie a candidatura do prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho, ao governo da Paraíba. Campos argumentou com o presidente que se trata da melhor possibilidade para o PSB ampliar o número de governadores.

Hoje são três (CE, PE e RN). O PT é aliado do governador José Maranhão (PMDB), e o PSB está junto com o PSDB.

NÃO É SÓ A MÍDIA que brinca com a agenda de viagens do presidente Lula. No governo, seus ministros dizem que há um programa de “Milhagem FAB”. É assim: a cada dez viagens você folga uma.

O PRESIDENTE da Assembleia do Rio, Jorge Picciani, abriu mão de sua vaga para o Diretório Nacional do PMDB para dar lugar ao ator Milton Gonçalves

O LÍDER do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), vai tomar café da manhã com o presidente americano Barak Obama, quinta-feira, na Casa Branca.

GOSTOSA

CELSO MING

Eles emergem


O Estado de S. Paulo - 30/01/2010
Não é sem esconder certa perplexidade que os dirigentes dos países ricos começam a se voltar para os países emergentes e a avaliá-los com outros olhos.


Antes, preocupavam-se apenas com o risco de quebra de um desses molambentos da América Latina ou da Ásia e o quanto teriam de reservar para cobertura de perdas. Agora, afligem-se quando o crescimento econômico de um desses Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) é alguma coisa menor do que o esperado.

É que a saúde (e não mais a doença) dos emergentes já começa a ficar importante demais para o emprego e para a renda dos países ricos, como ficou claro no encontro de Davos, na Suíça.

A denominação "países emergentes" é tremendamente imprecisa. Há alguns anos o mundo foi arbitrariamente dividido em duas categorias: "desenvolvidos" e "subdesenvolvidos". Depois, ficou entendido que "subdesenvolvido" era politicamente incorreto e deveria ser substituído por "países em desenvolvimento". E, quando se viu que não dá para meter China e Botsuana no mesmo saco, os analistas recorreram ao termo "emergentes" para designar o que entendiam por países mais próximos a serem admitidos ao clube dos avançados.

Assim, com limitações, podemos dizer que está relativamente perto o dia em que os 20 mais importantes países emergentes serão responsáveis permanentes (e não apenas episódicos) pela maior parte do PIB global.

Em apenas oito anos (de 2000 a 2008) os Brics proporcionaram metade do crescimento mundial e, conjuntamente, já exportam mais do que os Estados Unidos. Em dez anos a China será a segunda maior economia do mundo.

Isso começa a passar o recado para os países ricos de que não dá para esnobar os emergentes. Boa parte do faturamento em exportações, das novas oportunidades de investimento e até mesmo das novas fontes de poder global começa a se concentrar nesse grupo.

Enquanto o mundo avançado continua prostrado na recessão, no desemprego, nas dívidas e nos déficits orçamentários, o mundo emergente esbanja energia. Conta com US$ 4,5 trilhões em reservas internacionais.

Foi o grupo menos afetado pela crise e o primeiro a se recuperar. E essa síndrome parece acentuar a percepção já prenunciada por visionários de que este é o momento em que o eixo geopolítico do globo terrestre começa a se deslocar do Ocidente para o Oriente ou, mais precisamente, para a Ásia. Não é nada parecido com o que aconteceu na segunda metade dos anos 50, quando os Estados Unidos ultrapassaram a velha Europa, porque ainda falta muito para um salto desses.

Os emergentes enfrentam mais problemas do que têm soluções a apresentar. O Brasil, que encabeça o acróstico dos Brics, exibe um vigoroso mercado interno e grande capacidade para produzir commodities. Mas ainda não convenceu ninguém de que consegue o almejado crescimento sustentado e seus sucessivos governos se mostraram incapazes de levar as reformas adiante.

A economia russa ainda depende de suas exportações de petróleo e continua refém de um empreendedorismo incipiente eivado de práticas mafiosas.

A China, o mais celebrado dos emergentes, conta com 400 milhões de pessoas marginalizadas. Seu sistema produtivo ainda depende de decisões centralizadas emanadas por tecnocratas e só funciona porque mantém o yuan artificialmente desvalorizado.

E, finalmente, a economia da Índia, respeitada como grande produtora de softwares, ainda está engolfada pela pobreza, pela desigualdade determinada pela sociedade de castas e por uma precária rede de infraestrutura.

Apesar de tudo isso e de tanta coisa mais, a vitalidade dos emergentes impressiona porque está cada vez mais sendo contrastada com a perda de dinamismo dos países ricos.

FERNANDO RODRIGUES

Zumbis

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/10

BRASÍLIA - Itamar Franco anunciou nesta semana sua pretensão de ser candidato ao Senado por Minas Gerais. Não será o primeiro ex-presidente a voltar para a política disputando uma eleição.
José Sarney saiu da Presidência e mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá. Desde 1990, elege-se sucessivamente senador com o voto dos amapaenses. Fernando Collor enfrentou o oblívio com seu banimento eleitoral depois do impeachment, em 1992. Mas voltou como senador eleito por Alagoas, em 2006.
Essas carreiras eleitorais pós-Planalto são exemplos acabados de atraso institucional. Há algo errado quando um país não sabe o que fazer com seus ex-presidentes. Em breve haverá mais um. Lula já é citado como candidato a um terceiro mandato na disputa de 2014.
Fernando Henrique Cardoso absteve-se da política eleitoral, embora sua saída tenha ficado longe da perfeição. Quando estava no poder, o tucano fez uma reunião com grandes empresas no Alvorada e pediu apoio financeiro para sua futura ONG, o instituto FHC.
Ao anunciar sua decisão de concorrer ao Senado, Itamar Franco volta a escancarar o problema. Ele já foi nomeado embaixador sem ter nenhum interesse em diplomacia externa. Mais recentemente, ocupou uma sinecura no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais.
Outro dia, num esforço para ajudar o Haiti, devastado pelo terremoto, apareceram juntos os ex-presidentes dos EUA Bill Clinton e George W. Bush -adversários na política norte-americana. No Brasil, nunca houve uma reunião de ex-ocupantes do Palácio do Planalto em momentos de necessidade.
Não é fácil encontrar uma saída institucional. Mas deixar como está seria desistir de aprimorar o modelo de democracia no país. Não faz sentido ex-presidentes vagando como zumbis à caça de ocupação depois de terem comandado o país.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

RUY CASTRO

À solta nas ruas

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/10

RIO DE JANEIRO - Todo ano, a 6 de janeiro, Dia de Reis, assim que minha vizinha retira de sua porta a decoração de Natal -dois sininhos prateados e uma coroa de azevinho amarrada com fita vermelha-, aplico à minha a de Carnaval: um saco de filó com confete e serpentina e uma pavorosa máscara de clóvis, tudo comprado na Casa Turuna. Eu e a vizinha nos entendemos: respeito sua opção religiosa, e ela, minha opção pagã.
Daí que, até março, a trilha sonora deste apartamento varia pouco. São marchinhas dos anos 1930 a 1960 e sambas de Carnaval (dos mais nobres, como "Agora é Cinza", de Bide e Marçal, aos mais fuleiros, como "Oba!", do Bafo da Onça) e um ou outro samba-enredo, gênero este que deve ser apreciado com moderação. Amigos de visita, em seus delírios, imaginam sentir no ar um aroma de Rodo Metálico.
O Carnaval já está à solta no Rio, e o impecável site Bafafá On Line relaciona mais de 40 eventos só neste fim de semana, entre rodas de samba, saídas de bandas, ensaios de blocos, bailes à fantasia, concurso de marchinhas e um dilúvio de feijoada quase equivalente à quantidade de chuva em São Paulo. Uma novidade é a volta do Cacique de Ramos e do dito Bafo da Onça, os dois grandes blocos de embalo, esteios do Carnaval carioca desde que Oscar Niemeyer usava chuca-chuca.
Falando em blocos, este ano estou na dúvida entre seguir o Spanta Neném, na Lagoa, o Xupa Mas Não Baba, em Laranjeiras, ou o Perereca Imperial, em São Cristóvão. E não vejo a hora de me postar na fila do gargarejo diante do palanque do rancho Flor do Sereno, em Copacabana, ouvindo aqueles sons de 1920, que são o lirismo e a eternidade do Carnaval.
Parece um milagre, mas, depois de décadas condenado ao Sambódromo e aos aparelhos de TV, o Carnaval está de volta, e para valer, às ruas do Rio.