sexta-feira, dezembro 04, 2009

DORA KRAMER

Perda total

O ESTADO DE SÃO PAULO 04/12/09


Quem ganha em 2010 com o zero a zero que se estabeleceu entre os grandes partidos em matéria de escândalos de corrupção é uma questão em aberto. Mas, por ora, quem perde não resta a menor dúvida de que é o discurso pela retomada da ética na política e, consequentemente, o País.
Algumas mentes deformadas chegam a comemorar o empate nesse macabro campeonato porque, assim, o assunto estaria devidamente interditado na campanha eleitoral durante a qual os concorrentes tratariam apenas de assunto relevante: a comparação entre os governos Luiz Inácio da Silva e Fernando Henrique Cardoso e a tão desejada polarização em feitio de "nós" contra "eles".
Há quem chegue quase a dar graças a Deus pelo fato de a cúpula do governo do Distrito Federal ter se exibido podre em praça pública, porque isso retiraria o moral das críticas à rotina de imoralidades que tomou conta do ambiente político e facilitaria um compromisso de não-agressão entre os contendores nessa área.
Teríamos chegado então àquele patamar em que, na impossibilidade de se restaurar a moralidade, locupletam-se todos.
É um cenário realmente desanimador, que não permite celebrações, mas possibilita a indagação à capacidade de o Brasil prosseguir em sua trajetória bem-sucedida e obter ainda os avanços em áreas como saúde, educação, segurança pública, preservação do meio ambiente, se não houver um mínimo de preocupação com a correção de condutas.
Impossível imaginar um país desenvolvido onde a dissolução dos costumes seja uma praxe incorporada à rotina pela força do hábito, pela tradição e pela amplitude da adesão.
Alguém terá de romper a inércia e dizer que é preciso pôr um paradeiro nas transgressões simplesmente porque um Estado de Direito não sobrevive se não houver respeito às leis.
Se os partidos não o fizeram por falta de credibilidade para tal, acabarão atropelados pela sociedade. No curso da campanha do ano que vem será absolutamente impossível os partidos ignorarem a mazela.
Não adianta desqualificar o assunto dizendo que é "udenismo" ou "farisaísmo". A questão vai aparecer justamente pelos motivos que os partidos hoje acreditam que ela possa desaparecer.
Como já se viu que não se trata de um mal localizado, é evidente que o desconforto com a indecência generalizada acabará se impondo talvez até de forma preponderante.
Não há pacto de não-agressão firmado no Planalto que resista à realidade percebida na planície.

E, nesse aspecto, o escândalo de Brasília foi devastador para todos. Não é uma discussão em tese nem se trata de indícios, suspeitas ou meras acusações. As cenas mostradas na televisão atingem à massa do eleitorado, que imediatamente - até pelas referências feitas no noticiário - se remete a outros casos.

De imediato o maior prejudicado é o DEM. Mas a ele já surgem acoplados personagens do PSDB e do PMDB, para citar apenas os personagens essenciais da eleição presidencial, não obstante legendas das áreas de influência das forças adversárias também estejam representadas na quadrilha.

Isso faz uma conta de soma zero?

Ao contrário. Exibe de maneira escancarada um somatório de atitudes delituosas que não escaparão ao juízo do eleitorado.

Sangue frio

Na sexta-feira em que explodiu o escândalo em Brasília, o vice de José Roberto Arruda, Paulo Octávio, estava de folga em Itaparica (BA). Foi avisado por um amigo empresário do que ocorria na capital e aconselhado a voltar para lá.

Paulo Octávio não se abalou: ficou, dançou, jogou tênis e se divertiu como se não houvesse amanhã.

Pela condescendência do DEM, que não vê motivo para punições não obstante as referências nas gravações sobre a parte que lhe cabia na partilha do dinheiro distribuído por Durval Barbosa, o vice sabia de antemão que não havia por que se afligir.

E, pelo menos por enquanto, não viu razão para demitir seu executivo Marcelo Carvalho, que aparece em um dos vídeos guardando dinheiro numa mala preta.

Só na certa

Observação de um tucano engajado (na campanha de José Serra): "Aécio só aceitará ser vice se tiver certeza de que o Serra vai ganhar."

Troca de guarda

Parcela expressiva do setor produtivo e do mercado financeiro nutre a expectativa de que em algum momento Lula substitua Dilma Rousseff por Antonio Palocci na candidatura presidencial.
Não por coincidência, quem diz isso - e não são poucos - considera José Serra intervencionista demais.
Em dois encontros recentes, e em locais diferentes, reunindo gente da indústria e da área de investimentos, foi bem recebida a informação de que o candidato pode desistir a qualquer tempo mesmo depois de oficialmente indicado em convenção do partido.

ANCELMO GÓIS

Rumo a Copenhague

O GLOBO 04/12/09

O tempo não anda muito bom na delegação oficial do Brasil nesta convenção mundial do clima, em Copenhague.
O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe de clima do Brasil, não estaria compartilhando com as equipes dos ministérios do Meio Ambiente, de Ciência e Tecnologia e da Casa Civil informações sobre o ritmo das conversas em curso com os outros países.
GOIS NA COPA 1
A seis meses da Copa de 2010, na África do Sul, as obras do metrô e nas estradas de Joanesburgo ainda estão em andamento. O estádio de abertura do Mundial, Soccer City, também não ficou pronto.
Mas o aeroporto da cidade está acabado e todo lindo.
GOIS NA COPA 2
Ricardo Teixeira, na Cidade do Cabo, pediu a Márcia Lins, secretária de Esportes e Turismo de Sérgio Cabral, para não deixar de começar as obras do Maracanã em março, “mesmo que seja apenas martelando um prego no estádio”.
ALIÁS...
O presidente da CBF disse à secretária que tem “uma ótima novidade para o Rio”. Mas não quis adiantar o que é.
Disse que anunciará diretamente a Cabral e Eduardo Paes.
LULA VAI AO IRÃ
Agora é oficial. Lula vai ao Irã em 2010.
Ontem, Celso Amorim se encontrou com Ahmadinejad, em Isfahan, já para preparar a visita do presidente.
NÃO HÁ VAGA NA ABL
Do acadêmico Alberto da Costa e Silva, que se recupera de cirurgia no Pró-Cardíaco, no Rio, para o amigo José Mário, da Topbooks, bem-humorado:
– Zé, ponha uma nota no jornal dizendo que quem pensou que eu iria abrir vaga, danou-se!
CENA CARIOCA
Veja como são as coisas. Ontem à noite, um carioca ligou para o Sushi Leblon e pediu mesa. Disseram que não tinham.
Minutos depois, intrigado, ligou e mentiu trabalhar para Luciano Huck e Angélica, que queriam mesa. Conseguiu na hora.
ISTO É BARRETÃO
Com o título “Metade Jesus Cristo, metade Al Capone”, a revista Piauí publica um perfil de Luiz Carlos Barreto, “o produtor que cacifou o Cinema Novo, controlou a Embrafilme e inventou a renúncia fiscal”. Num trecho, fala de uma contradição na razão de o filme Lula, o filho do Brasil não mostrar Miriam Cordeiro, a ex-namorada com quem Lula teve uma filha.
A produtora Paula Barreto diz que o encontro de Lula e Miriam até foi filmado: “Foi conselho do nosso advogado não pôr”.
SÓ QUE...
Rui Diaz, o ator que faz Lula, diz que a cena não foi gravada.
FLAMENGO É PAIXÃO
Quarta, em palestra na Casa do Saber, Jimmy Page, o ex-Led Zeppelin, impressionado com as cores que dominavam o Rio naquele dia, perguntou à plateia:
– A camisa do time do Rio que vai disputar a final domingo é verde, grená e branca?
SEGUE...
A risadaria foi geral. Jimmy tinha confundido Flamengo com Fluminense, que jogaria àquela noite a final da Copa Sul-Americana com a
LDU.

GOSTOSA

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RUY CASTRO

Excesso de confiança

FOLHA DE SÃO PAULO - 04/12/09

Uma grave deficiência da vida real, só percebida há uns 30 anos, é que, nela, não havia videoteipe. Ou replay, como passamos a dizer. Qualquer coisa que você fizesse, e pronto: não tinha como voltar atrás para rever, revisar e, quem sabe, corrigir a postura, caprichar no perfil, pentear direito o cabelo ou dizer suas falas com mais clareza.

Isso, agora, é o que não falta. Não importa onde se esteja, na rua, na arquibancada do Maracanã ou nas catacumbas de um gabinete oficial em Brasília, há sempre uma microcâmera camuflada, afixada num poste, no teto ou numa lapela de paletó, captando vídeo e áudio do que se está passando. Ninguém mais poderá se queixar de não ter uma nova chance para melhorar a performance ou retocar o rímel – é só requisitar a fita, examinar-se e tomar providências.

Era o que o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e seus assessores e aliados deveriam ter feito depois de gravar as imagens em que aparecem recebendo maços de dinheiro vivo, metendo-o em bolsos, meias e cuecas, e juntando-se numa corrente para “orar” e agradecer a Deus pela sorte nos negócios. Ou talvez não imaginassem que estavam sendo filmados.

Mas será possível que ainda haja alguém tão inocente nesse quesito? Qualquer cidadão honesto, hoje, sente-se suspeito ao entrar num elevador – não há prédio no Rio ou em São Paulo, por mais furreca, sem uma câmera que transmita a sua imagem para o porteiro ou para o encarregado da recepção. Todo mundo se sabe vigiado.

Uma imagem vale mil palavras, não? “Tudo bem”, emenda Millôr Fernandes, “mas tente dizer isso sem palavras”. As imagens do confiante Arruda e de seus cabrochas podem “não falar por si”, como quer o presidente Lula, mas as falas que as acompanham só faltam gritar.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não tenho nenhum temor, nenhuma preocupação”
DEP. MICHEL TEMER (PMDB-SP) SOBRE O ENVOLVIMENTO DO SEU NOME NO ESCÂNDALO DO DF

ENROLADO EM ESCÂNDALO É DA ONG TRANSPARÊNCIA
Citado no escândalo de corrupção que devasta o governo do Distrito Federal, o ex-secretário-adjunto de Saúde Fernando Antunes é um dos fundadores da ONG Transparência Brasil, que denuncia e monitora casos de corrupção. Também é presidente licenciado da Unacon, União dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle da CGU, a Controladoria-Geral da União, e preside o PPS-DF, o “partido da ética”.
APURAÇÃO
Fernando Antunes negou o envolvimento denunciado por Durval Barbosa: “Sou o maior interessado na apuração rigorosa dos fatos”.
NOVA EQUIPE
O governador Arruda mudou seu “gabinete de crise”. Na comunicação agora conta com a experiente jornalista Mônica Torres Maia.
VALE LEMBRAR
Apesar de ser a menor unidade da Federação brasileira, o Distrito Federal teve, para 2009, um orçamento de mais de R$ 12 bilhões.
NOSSA GRANA
A Empresa Brasil de Comunicação gastou R$ 104,4 mil para exibir uma série de tevê chamada Mano a Mana, da Disney.
SARNEY SE CUIDA PARA DEIXAR DE SENTIR DOR
Licenciado por oito dias por orientação médica, o presidente do Senado, José Sarney, toma quantidades industriais de remédios para curar a bactéria que provoca sua gastroenterite. Vai descansar em São Luís. Há uma semana ele se sentiu mal, com dores alucinantes no estômago. Foi a terceira vez que isso ocorreu. Em uma delas, a dor foi tão intensa que o fez se desequilibrar e cair, fraturando o pé.
CANSADO
Os amigos mais próximos de José Sarney acham que, além da bactéria que o atormenta, ele sofre de exaustão.
COMO PINTO NO LIXO
O ministro Franklin Martins (Propaganda), em geral carrancudo, era todo-sorrisos, ontem, na churrascaria Fogo de Chão, em Brasília.
BRINCADEIRA
A fabricante de brinquedos Tectoy vai se unir à americana Zeebo Inc para formar a Zeebo Brasil S.A. A operação custará R$ 300 milhões.
FORTES EMOÇÕES
A cúpula do PMDB deverá enfrentar novas fortes emoções, com a revelação das bases do acordo para forçar a saída do ex-governador Joaquim Roriz do partido, em 16 de setembro. No dia 17, Durval Barbosa entregou ao Ministério Público Federal sua coleção de DVDs.
SEM DESESPERO
Circularam rumores em Brasília sobre uma suposta ingestão excessiva de tranquilizantes pelo governador José Roberto Arruda. Mas quem o encontra fica surpreso: ele é quem tranquiliza amigos e assessores.
CANCELADO
Um dos primeiros eventos marcados para a comemoração dos 50 anos de Brasília ia ser uma missa celebrando a primeira missa da capital. Mas a confusão na qual está o GDF não permite grandes festanças.
E-PANDORA
Gira na internet e-mail de membro da Promotoria de Defesa da Infância do Ministério Público do DF pedindo, “se não a prisão, a renúncia imediata” do “corrupto-mor da capital”. E avisa: isso é “só o começo”.
CURIOSO
Intriga nos meios políticos de Brasília o fato de não ter aparecido vídeos do ex-secretário do DF Durval Barbosa com aliados do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). E eles existem. Muitos.
ISENÇÃO
O ministro Dias Toffoli demonstrou ontem que já não conserva amarras ao PT, inocentando o senador tucano Eduardo Azeredo (MG), no Supremo Tribunal Federal. Seu voto surpreendeu até os mais céticos.
LULA ESNOBA O VOTO
Em Honduras, o voto é facultativo e compareceram 62% dos eleitores. No Brasil, por ser obrigatório, o comparecimento na eleição de Lula foi de 80%. Mas Lula insiste em ignorar a vontade do povo hondurenho.
MERCADO FUTURO
A marca canadense de cosméticos Collagenna fechou contrato de três anos no Brasil para fornecer produtos a salões de beleza. Segundo a empresa, o País será um dos cinco maiores mercados do mundo.
PENSANDO BEM...
... O “demsalão” apressou ainda mais o início de fato da campanha eleitoral de 2010.

PODER SEM PUDOR
PEGANDO NO PÉ (FRIO) DE DILMA
Na véspera do apagão que deixou 70 milhões de brasileiros sem luz, mês passado, a ministra Dilma estava em Cipó (BA) exaltando o governo Lula. Escalado para a louvação à candidata do presidente, o vereador petista Zé Roberto aplaudia a “mulher energia”, a “mãe do PAC”, a “criadora do Luz para todos” etc, quando ficou no escuro. Esperou ainda alguns minutos pela luz na Câmara, mas mesmo sem som do microfone desabafou:
– Êta mulher pé-frio da gota!?
Sem jeito, deixou o local sob risos até de aliados.

O IDIOTA

SEXTA NOS JORNAIS

- O Globo: Senador vira réu no STF por mensalão do PSDB de MG


- Folha: STF abre ação contra senador tucano:


- Estadão: STF abre ação contra 'mensalão tucano'


- VaNegritolor: Crédito deve atingir 53% do PIB em 2010

quinta-feira, dezembro 03, 2009

ALBERTO TAMER

Brasil luta por uma causa perdida

O Estado de S. Paulo - 03/12/2009


É inútil, desnecessária e improdutiva essa discussão publica, em Genebra, entre o ministro das Relações Exteriores e o representante comercial dos Estados Unidos a respeito de Doha. Enquanto todos procuram um enterro digno, como ressaltou um negociador europeu, e se calam, o Brasil sai atirando sozinho. A culpa do fracasso é só e unicamente dos EUA. Esquecemos que a União Europeia silencia porque concorda com o governo americano. Para eles, não há acordo se os países em desenvolvimento também não fizerem concessões.

Antes, eram exigências só para o setor industrial, mas agora incluem o agrícola. Estão com seus armazéns lotados de trigo, soja, milho, leite. Precisam proteger seus produtores, mesmo que já estejam agraciados com subsídios generosos que levam anos de discussão na OMC.

Se quando cresciam a quase 5% os EUA e a UE não queriam nada, é evidente que também não vão querer agora que mal estão saindo da recessão. Para eles, o mercado interno é preferencial neste momento de crise; a prioridade é protegê-lo contra a competição externa que aumentaria ainda mais a taxa crescente de desemprego já próxima de 10%.

NÓS TAMBÉM

Para eles, não. Para nós, também. É inimaginável pensar que vamos reduzir tarifas de importação quando a indústria recua e vacila, quando apenas agora o mercado de trabalho reage. As exportações de manufaturados para os EUA, em novembro, recuaram 43,7% em relação ao ano anterior, e 18% para o mundo. Neste ano só aumentaram para a China, mais 21,6%. Mas isso porque eles só nos compram commodities como as agrícolas, de ferro e soja e nos exportam produtos industriais. Não só isso, nos rouba mercado aqui dentro, e no exterior. Dos EUA e até da Argentina. Só faltam o Paraguai e o Uruguai.

DESGASTAR, POR QUÊ?

Se antes, quando tudo estava bem não havia acordo, por que haveria agora?

Se essa é a realidade, para que se desgastar, discutir enquanto os nossos parceiros de "luta" se acomodam num mutismo conveniente e oportuno? O acordo de Doha está sendo debatido em vão há oito anos. E nessa reunião de Genebra que terminou ontem, só se buscava uma forma honrosa de enterrá-lo, como afirmou um dos quase 100 negociadores que acorreram com prazer a essa cidade tão agradável de lagos magníficos? Por que não outra reunião, no próximo ano? Mas, por favor, depois do inverno. Doha morreu há pelo menos três anos e só o Brasil, ninguém sabe por que, e a OMC, para sobreviver, acreditam nela.

MAS TEMOS QUE PROTESTAR!

Por quê? Se ninguém mais protesta com a nossa veemência que provoca atritos inúteis e dispensáveis? Nossa prioridade deve ser aumentar as exportações para quem nos importava mais até agora: Estados Unidos e União Europeia. Agora, a China chegou, mas é uma parceira incômoda. Importa 80% de matérias-primas e nos exporta outro tanto de produtos industrializados, que competem com os nossos, no País e no exterior. Uma parceira no mínimo desconfortável e nada confiável.

E nossas exportações para o mercado americano praticamente estagnaram. Não só isso, recuaram quanto à sua participação total:

2006 - US$ 24,7 bilhões, que equivaleram a 18% do total exportado pelo Brasil;

2007 - US$ 25,3 bilhões, que equivaleram a 15,8% do total exportado pelo Brasil;

2008 - US$ 27,6 bilhões, que equivaleram a 14% do total exportado pelo Brasil.

Em 2009, até novembro, houve uma queda inadmissível de 43,7%!

"Um dos grandes desafios no ano que vem é retomar a presença brasileira em mercados importantes como os Estados Unidos, que ao longo de 2009, recuou 43,7%, afirmou Weber Barral, secretário de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento. "Os Estados Unidos são uma das prioridades para o ministério em 2010, uma vez que nossas exportações para lá são majoritariamente de produtos industrializados e de alto valor agregado."

Não deixa de ser no mínimo estranho que seja exatamente com esse parceiro comercial que o Itamaraty decidiu brigar em defesa de uma causa perdida...

EUROPA TAMBÉM

Em relação à União Europeia, o quadro é idêntico. Até outubro de 2009 (dados disponíveis), as exportações brasileiras para o mercado europeu foram compostas por 50% de produtos industrializados e 49,1% de básicos. Em relação a 2008, houve queda de 49,6% nas vendas de bens semimanufaturados, de 25% nas de manufaturados e de 26,2% nas de produtos básicos. De novo, dados oficiais, do governo.

É um cenário de distorções inaceitáveis, mas que estamos aceitando e agravando há anos. Por quê?

ARI CUNHA

Salvando Zé Dirceu


Correio Braziliense - 03/12/2009

O que se ouve pelas ruas é que a posição do presidente Lula amenizando o assunto político de Brasília mostra velada intenção de salvar o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Foi cassado e responsabilizado pelo mensalão em função do qual o governo Lula conseguiu distribuir dinheiro para deputados. Fez maioria e vive a calma da votação de seus projetos na Câmara Federal. José Dirceu tem feito tudo para apagar participação naquele episódio. Hoje, rico e advogando até em outros países, não tira da cabeça e tisna espalhada no rosto e confessada perante o público. Exemplos há. O destino está selado. A boca do povo está cheia de informações. Os ouvidos estão moucos de tanto não falar. Mas os registros ficam guardados.

Dólares em caixa

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Dinheiro estrangeiro chega ao Brasil aos borbotões. Em quatro dias o Tesouro amealhou dinheiro superando o acumulado de junho a setembro deste ano. Há dúvidas porque o dinheiro estrangeiro não dá segurança em suas idas e vindas.

Descoberta

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Deputado Edmar Moreira tem propriedade em Minas Gerais avaliada em 25 milhões de reais. Será julgado por quebra de decoro parlamentar. É acusado de haver usado 230 mil reais do dinheiro público para cobrir o contrato com empresa de segurança.

Cortando a carne

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Springs é fábrica de produtos de cama e mesa nos Estados Unidos. Demitiu 9 mil operários das 16 fábricas que possuía na América do Norte.

Saia curta

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Notícias de Geyse Arruda tomaram mais espaço na mídia internacional do que de José Roberto Arruda. Ela deu a volta por cima. Conseguiu muitos adeptos. Ele convenceu o DEM a não expulsá-lo antes de ouvir a defesa.

Parceiros

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Capacitação de técnicos e compra de equipamentos para a produção de genéricos contra a Aids. A parceria de Brasil e Moçambique é importante porque leva a visão do ministro Temporão de que todos precisam amadurecer como sociedade. &quotO preconceito acaba com a informação, coragem e atitude. "

Base

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Interessante dado divulgado pela Fundação Nacional de Saúde. Para cada R$ 1 investido em saneamento básico, o governo economiza R$ 4 em internações. O assunto foi levado ao senador Fernando Collor, presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado. Para ele, o PAC pode ser a saída da visão míope dos administradores que sustentam a ideia de trocar o saneamento por outros investimentos.

Vácuo

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Atendido o pedido do senador Pedro Simon, e nada. Ele quer que a população reaja contra a corrupção. Na verdade ela já fez a parte dela. Colheu 1,3 milhão de assinaturas contra candidatos fichas- sujas. É 1,3 milhão contra 81 senadores. Até agora, nada.

População

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Aprovado o projeto do senador Leomar Quintanilha que prevê um plebiscito sobre a criação do estado de Carajás, no Pará. Se for criado, o estado de Carajás terá 38 municípios e 1,3 milhão de habitantes. O mesmo número de assinaturas contra ficha-suja.

Segurança

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Na Câmara, depois de discutida em um congresso, a segurança do país deve sofrer mudanças. O deputado Marco Maia quer votação conjunta com o Senado. É que as informações sobre as atividades de inteligência do Executivo deveriam ser compartilhadas com o parlamento. Outro braço importante e praticamente ignorado pelas autoridades são algumas ONGs, mídia e corpo acadêmico de universidades.

História de Brasília


Ainda sobre a falta que a Vasp faz. A Real passou a distribuir entre os passageiros “memorandos” com a informação aos patrões de que o empregado está chegando com um dia de atraso por causa da companhia. (Publicado em 18/2/1961)

NESSAS DUAS MERDAS, NÃO COLOQUEI A MÃO!

JANIO DE FREITAS

O dinheiro do suborno


Folha de S. Paulo - 03/12/2009

Um ato de corrupção na administração pública, como suborno, só raramente não tem conexões comparsas


COMO CONVÉM a um país sério, a regra se impõe. Outro bando de políticos e dirigentes é denunciado, exposto e moralmente condenado na sua venalidade, como convém. Mas, do outro lado, o dos subornadores, só aparecem de raspão três empresas de nomes, existência e fins comerciais obscuros. Como convém? Por certo, ou não seria assim. Mas por que ou a quê convém?
Em toda a vasta corrupção, as beneficiárias formais são empresas. O benefício real, porém, é dos diretores e acionistas. Empresas jamais negociam, autorizam e pagam subornos, que são atos de pessoas.
Já está admitido que o recém-descoberto mecanismo de corrupção no governo e na Câmara Distrital, em Brasília, atravessou os últimos cinco anos. Além do admitido, pode-se acrescentar até uns três anos, ainda que então faltassem vídeos, se faltaram. Nesses e em quaisquer anos, todo pagamento de suborno foi feito por motivo tão sórdido quanto o próprio suborno. Nenhum pagamento, porém, se fez com dinheiro legítimo da empresa subornadora, como ato benevolente. Há sempre alguma correspondência entre o que recebeu sem direito e o que paga como suborno. A corrupção é um crime em que nunca faltam duas faces.
Se de apenas um pagador (Codeplan), segundo a denúncia do intermediário e seu ex-secretário Durval Barbosa, só o governador José Roberto Arruda recebeu mais de R$ 56 milhões, de que altos negócios veio essa quantia ou que altos negócios cobriram o buraco feito pela saída, para o suborno, do dinheiro empresarial?
A relegada utilidade de questões assim não se limita à sua indagação imediata. Um ato de corrupção na administração pública, por suborno ou outra das variadas modalidades, só raramente não tem conexões comparsas. No atual caso, a diversidade ocupacional dos envolvidos demonstra bem as ramificações que se viabilizam e se protegem. Por que o dinheiro que vai parar nas meias de um deputado distrital ou no ventre de um dono jornal é idêntico, na procedência, ao posto no bolso de um ou mais secretários de governo, senão da sacola preferida pelo próprio governador?
A identificação dos negócios originários da corrupção é de importância maior, porque o dinheiro que materializa as transações corruptas nos poderes públicos sai dos cofres públicos. É dinheiro recolhido da população. É dinheiro da nação, cuja finalidade legal é única: o interesse público.

Quando?
Com tanto passado e presente para ser cético, não imagino que seja para o meu tempo, mas uma cena me parece possível em algum futuro. Simples e clara: quando um ministro duvidoso como esse Juca dito da Cultura vocifera para repórteres honestos -"Vocês são pagos para dizer mentira"-, receba ao menos uma das tantas reações apropriadas, imediatas ou não.

TODA MÍDIA

A guerra de Obama

NELSON DE SÁ

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/12/09


O "New York Times" saiu com a manchete de papel "Obama acelera tropas e promete iniciar retirada em 2011" e não com o envio de mais 30 mil soldados. Mas no próprio jornal a coluna de Thomas Friedman já anunciava discordar da "decisão de escalada". No fim do dia, a manchete on-line já era o "questionamento forte" ao plano, no Congresso.
Também o site Politico abriu o dia com a manchete "Discurso de Obama: um chamado sóbrio para uma missão limitada". E fechou, muito pelo contrário, com "A consequência: uma nova realidade para Obama" e a Casa Branca "se preparando para meses brutais à frente", junto à opinião pública.

Drudge Report e "The Economist" já abriram e se mantiveram com "Obama's War". O primeiro linkou a "Der Spiegel", "Nunca um discurso de Obama soou tão falso". A segunda postou que "é basicamente o que os generais encomendaram".

"MAIS AMERICANOS VÃO MORRER"
Na manchete no site da BBC, um "comandante sênior do Taliban" deu entrevista, em resposta: "Foi um ano de sucesso para nós. Obama está mandando mais soldados, e isso significa que mais americanos vão morrer. Quero dizer às mães dos soldados estrangeiros: Se amam seus filhos, mantenham-nos em casa, em seu próprio país"

EUA VS. BRASIL
O "Washington Post" deu a reportagem "EUA e aliados discordam sobre Honduras", com o subtítulo "Brasil não quer que golpe saia sem punição".
No "Wall Street Journal", "EUA enfrentam resistência crescente a sua política latino-americana". O país, "que já considerou a região seu quintal, tem dificuldade cada vez maior onde Brasil e China agora disputam influência". Citando as diferenças sobre as bases na Colômbia e o Irã, diz que "a ascensão do Brasil como potência hemisférica está virando um desafio e, em termos de política externa, uma decepção", no original, "disappointment".

EUA, SEGUNDO JIM O'NEILL
O "WSJ" postou ontem que "Goldman Sachs proclama recuperação mundial, mas os EUA ficam para trás". Jim O'Neill, economista chefe do banco, lançou novo relatório, prevendo um "flamejante" crescimento global no ano que vem, de 4,4%. Já os EUA não passam de "anêmicos" 2,1%. Puxando o mundo, os emergentes, "especialmente a China e a Índia". "A ascensão do consumidor no mundo em desenvolvimento é um desenvolvimento estratégico maior para nossa era", escreve O'Neill.

BRASIL, SEGUNDO KRUGMAN
De passagem, o economista Paul Krugman, colunista do "NYT" e Nobel, declarou aos sites que o Brasil foi "feliz" na reação à crise, "mas não vai se tornar superpotência no próximo ano, e os mercados estão agindo como se fosse". O economista vê o real "muito valorizado" pela euforia dos investidores externos.
Na agência Bloomberg, no topo das buscas pelo Yahoo News no final do dia, "Krugman diz que planeja vender alguns investimentos no Brasil".

CONSTITUINTE, O RETORNO
O portal G1, da Globo, destacou que "Lula agora diz que o escândalo é deplorável".
Já a BBC Brasil deu na manchete, desde a Ucrânia, que "Lula defende Constituinte para fazer reforma eleitoral". Sobre as imagens, "vi algumas, acho que é grave, mas tudo agora vai ter um processo".

GOSTOSA

BRASÍLIA - DF

A polêmica do Xingu


Correio Braziliense - 03/12/2009



O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (PV), espera licenciar o polêmico projeto da Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), até janeiro. Obra estratégica do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o setor energético, a construção da hidrelétrica coloca em xeque o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), cujo diretor de licenciamento, Sebastião Custódio Pires, deixou o cargo, assim como o coordenador-geral de Infraestrutura de Energia Elétrica, Leozildo Tabajara da Silva Benjamin. Segundo Minc, os dois não aguentaram as pressões do Ministério Público contra o licenciamento da obra. Saíram porque não querem ser processados, mais uma vez, por improbidade administrativa. O presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, também ameaça pegar o boné.

Responsável pela desobstrução burocrática da obra, Minc chegou à conclusão de que a legislação ambiental e o Ibama estão fora da realidade, defasados no tempo e no espaço. “A elaboração do projeto ambiental de Belo Monte mobilizou mais de 100 técnicos da empresa construtora, que recebiam de R$ 10 mil a R$ 12 mil de salários, enquanto nós temos apenas seis técnicos, que recebem R$ 5 mil, para analisar o projeto e enfrentar exigências burocráticas que precisam ser ultrapassadas”, justifica. Minc argumenta que o projeto melhorou muito, pois eram quatro usinas no Xingu, “um absurdo”, e o governo decidiu construir apenas uma, em Belo Monte, reduzindo para um terço a área de várzea inundada. Em tempo: agora são só quatro técnicos.

Panetone// Parece piada, mas não é: o governador José Roberto Arruda (DEM) mandou cancelar edital de licitação para a compra de 120 mil panetones pelo GDF, por meio de leilão eletrônico. Seriam distribuídos pela Secretaria de Desenvolvimento Social às vésperas do Natal para a população carente do Distrito Federal.

Unabomber

Passariam de 200 os vídeos gravados pelo ex-secretário de Relações Institucionais do GDF Durval Barbosa. O ex-delegado aposentado começou as gravações ainda no governo de Joaquim Roriz, a quem teria chantageado até ser nomeado secretário de Assuntos Sindicais. Não parou mais, até detonar o governo Arruda na semana passada.

Belo Monte



Com potência instalada de 11,2 mil megawatts (MW), a Usina de Belo Monte é o último grande projeto de geração de energia do governo Lula. As comunidades indígenas que vivem na região do Xingu são contra a obra, assim como organizações sociais e ambientais. O cantor britânico Sting, em companhia do cacique Raoni (foto), faz uma campanha internacional contra a obra. Ontem, representantes indígenas protestaram contra a iniciativa em audiência pública no Senado. A vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, questiona a realização da obra. O procurador da República no Pará, Ubiratan Cazetta, acusa o governo de esconder informações.

Boas-Festas

A cúpula do DEM resolveu regionalizar a propaganda oficial do partido programada para 17 e 19 de dezembro, com comerciais de um minuto e de 30 segundos. Agora, já pensa em voltar atrás. O governador José Roberto Arruda e o vice, Paulo Octávio, estavam preparando mensagens de ano-novo para os eleitores do Distrito Federal, que vão comemorar os 50 anos de fundação de Brasília em 2010.

Mulheres

No Brasil, são registrados mais de 100 mil casos de contaminação pelo papilomavírus (HPV) por ano. Responsável por 70% dos cânceres de colo de útero, o HPV pode ser prevenido por meio de vacina. Especialistas garantem que o número de mulheres infectadas pode chegar a 10 milhões

Código



O Palácio do Planalto adotou uma posição ambígua em relação à votação do novo Código Florestal Brasileiro. A relatora é a senadora Kátia Abreu (foto), do DEM-TO, que pretende apresentar ao governo como opção para a aprovação do código no Senado a anistia aos desmatadores até 2006 e a autorização para a recomposição de áreas sensíveis, como margens de rios, com espécies exóticas (eucalipto e pinus, por exemplo). Em troca do desmatamento zero na Amazônia e na Mata Atlântica, Kátia Abreu deixa o cerrado e a caatinga de fora.


Divórcio/ O Senado aprovou, em primeira votação, com 54 votos favoráveis, três contrários e uma abstenção, o divórcio direto no Brasil. A proposta, de autoria do deputado Sérgio Barradas (PT-BA), acaba com a exigência de separação judicial prévia para a realização do divórcio. Cerca de 500 mil pessoas se divorciam por ano no país.

Expectativa/ O ministro José Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, estreia hoje em grande estilo no STF. Apresentará ao plenário o seu voto no processo contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), por esquema irregular de financiamento político-eleitoral.

Previdência/ A criação da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) foi aprovada, ontem, na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado. O objetivo é estabelecer uma autarquia de natureza especial para controlar a atuação dos fundos de pensão. Será criada uma Secretaria de Políticas de Previdência Complementar, que formulará políticas de governo e diretrizes para a previdência complementar.

Azebudsman/ A Petrobras esclarece que não há superfaturamento, sobrepreço ou qualquer outra irregularidade em suas obras. Tampouco houve qualquer limitação ao trabalho realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Reitera que tem prestado todos os esclarecimentos necessários ao tribunal e ao Congresso Nacional. NR: A assessoria de imprensa da Petrobras precisa avisar ao pessoal do TCU, que divulgou a informação na Comissão Mista de Orçamento.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Juros para Dilma?


O Globo - 03/12/2009

As mais recentes projeções das melhores consultorias econômicas trazem para Lula e Dilma uma boa e uma má notícia.

A boa: 2010 será um período de forte crescimento. É provável que o último ano de Lula seja o seu melhor, com uma expansão do PIB acima dos 6%, como prevê, por exemplo, o competente Departamento de Pesquisas e Estudos (Depec) do Bradesco, em relatório divulgado nesta semana.

A má notícia: esse ritmo de crescimento estará acima da capacidade do país, elevando o déficit das contas externas e, especialmente, pressionando a inflação. Mantidas a política econômica e o regime de metas de inflação, o Banco Central vai aumentar os juros para conter esse excesso. E pior para Dilma: a taxa básica de juros, nesse cenário, deve começar a subir em abril próximo.

No prognóstico do Depec, o BC vai elevar os juros nas três reuniões imediatamente anteriores às eleições, de modo que a taxa básica começa a campanha nos atuais 8,75% ao ano, chegando a 10,25% no dia da votação, em 3 de outubro. Entre o primeiro e o segundo turnos, ainda haveria mais uma talagada.

Há diferenças entre analistas quanto a essas datas, mas a ampla maioria concorda que o BC estará aumentando os juros no período eleitoral.

Isso torna crucial a questão da permanência ou não de Henrique Meirelles na presidência do BC. Com Meirelles, tal é o entendimento, o BC fará o que tiver de ser feito. Ele já subiu os juros em outros momentos críticos.

Mas 2010 será o mais crítico de todos. Além do mais, Lula foi tomado pela soberba e ameaça abandonar a ortodoxia econômica que herdou de FHC e que, mantida, forneceu a base para o Brasil pegar carona na onda de crescimento mundial.

O governo, por exemplo, já está deixando de lado o superávit primário para detonar os gastos.

E então, o que fará Lula? Manterá a autonomia prática do BC, permitindo que este exerça o regime de metas de inflação e eleve os juros, ou vai mandar o banco esquecer essa coisa neoliberal? Não é pequeno o risco para a estabilidade econômica. A última vez que o governo segurou medidas duras para ganhar uma eleição foi em 1987, no pós-cruzado. O PMDB levou quase tudo e, um dia depois da votação, quebrou o país.

Custo Brasil

Fernanda é dona de uma academia de ginástica em Niterói. Ano passado, além das fiscalizações de rotina, mensais, recebeu uma extra da Vigilância Sanitária, que deixou 20 exigências.

Por exemplo: as lixeiras tinham de ser daquelas com pedal, obrigatoriamente.

Fernanda fez tudo que lhe pediram, documentou tudo em mais de 50 folhas e foi à repartição. Primeira sensação: as condições de higiene ali não passariam na fiscalização. Primeira surpresa: a funcionária disse que não podia entregar nenhum documento que registrasse o recebimento da papelada.

Apenas entregou um protocolo referente a “cumprimento de exigências”.

Mas, o alvará de funcionamento foi revalidado para 2009, de modo que Fernanda entendeu estar tudo OK. Semana passada, porém, apareceu por lá um fiscal da Vigilância Sanitária, que aplicou uma multa de 890 reais. Fernanda volta à repartição e fica sabendo que no ano passado não havia entregado uma certa “justificativa”. Aquelas 50 folhas!

Custo Brasil — 2

Antonio é dono de uma loja de bicicletas no Rio, legal. Dia desses, comentou com um fiscal que havia muito comércio informal de bikes. O fiscal concordou e explicou que, como sua repartição tem poucos funcionários, não há como fazer “blitz volante” para ir atrás dos ilegais.

— E se alguém denunciar? — perguntou Antonio.

— Isso pode — disse o fiscal, dando duas possibilidades: uma denúncia formal, na qual o denunciante se identifica no processo, seu nome podendo ser conhecido pelo denunciado; ou uma denúncia anônima, por telefone (mas, neste caso, explicou o solícito funcionário, serão pelo menos dois anos até o processo chegar às mãos de um fiscal).

Cara leitora, caro leitor: se tiver alguma história dessas, mostrando a dificuldade de ser legal no país, pode mandar para o e-mail abaixo. Obrigado

FUDEU!

MARA GABRILLI

Avançamos - e agora?

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/12/09


Agora, precisamos de você para avançar mais: seja inclusivo. Cobre e promova a acessibilidade. Esse é um ato de cidadania e respeito

PAULA, NASCIDA em 1962, teve poliomielite -uma doença praticamente erradicada do Brasil.
Ela não anda e tem dificuldade para movimentar os braços. Usa cadeira de rodas desde menina. Roberto, 50 anos, há 15 encontrou nas ondas rasas do mar um caminho curto entre a despedida da praia numa tarde ensolarada e uma cadeira de rodas para o resto da vida. Mara, que sofreu um acidente de carro aos 26 anos, descobriu, após perder todos os movimentos do corpo, que a mobilidade mais importante está na cabeça, porque é ali que está a "alavanca" da liberdade.
Essas pessoas enfrentaram, cada uma à sua época, a dificuldade de ter deficiência no Brasil. Com certeza, há muitas histórias. Hoje, 3/12, quando celebramos o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, estabelecido pela ONU em 1998, aproveito para contar algumas. Em 2005, quando assumi a primeira secretaria do país para tratar do tema, foi comum ouvir dos jornalistas que esse tema era "triste", que "não rendia pauta".
Paula demorou para cursar o ensino regular -seus pais achavam que criança com deficiência era doente e não precisava ir à escola. Roberto passou anos sem sair de casa -os locais de sua cidade não ofereciam acesso.
Das barreiras de atitude às barreiras físicas e sistêmicas, é com surpresa que observo o quanto avançamos.
E é aqui que as três pessoas de que falei (uma delas, eu mesma) se cruzam: quando as colocamos nos dias de hoje.
Já podemos sair às ruas e ver melhorias na acessibilidade de nossas cidades e no conceito de deficiência para a sociedade. Não somos mais coitadinhos, olhados na rua como se fôssemos do planeta da cadeiralândia.
Empresários e empreiteiros preocupam-se em cumprir as leis que obrigam tanto a adequação física das edificações quanto a empregabilidade das pessoas com deficiência -felizmente, a lei de cotas as está colocando de fato no mercado de trabalho. Os governos já não ignoram essa parcela da população em suas políticas públicas -e, se o fazem, hoje estamos lá para lhes puxar as orelhas.
A Prefeitura de São Paulo, quando governada por José Serra, foi pioneira em criar a primeira Secretaria da Pessoa com Deficiência do Brasil, por meio da qual criamos diversos programas de inclusão.
Como exemplo prático desse marco, cito apenas nossa avenida símbolo, a Paulista, que tornou-se também modelo de excelência em termos de acessibilidade após sua reforma e, hoje, é um local universal: confortável e seguro para qualquer pedestre, com deficiência ou não.
Outro dia, em um evento público que envolvia pessoas com deficiência, o assunto que permeava as rodinhas me deixou reflexiva. Não ouvi o comum das brigas contra preconceito, do desconhecimento das pessoas diante das deficiências ou da falta de adequação dos espaços. Claro que esses itens ainda não estão resolvidos, mas já entraram na pauta pública -já rolamos a primeira pedra.
O que se debatiam eram temas como a inclusão de pessoas com deficiência nos concursos públicos; a gestão financeira dos bens das pessoas com deficiência intelectual -que passaram a ter rendimento sem ter conhecimento pleno de como utilizá-lo; a discussão sobre como disponibilizar guias-intérpretes para pessoas com surdocegueira (que não ouvem nem enxergam) e que precisam de interpretação por meio do tato.
Aliás, fiz minha primeira lei municipal criando uma Central de Intérpretes para Surdos e Guia-Intérprete para Surdocegos na cidade. A central é um atendimento em tempo real com operadores que se comunicam com cidadãos surdos em todas as regiões de São Paulo via webcam, em Libras (língua brasileira de sinais). Ouvi dizer, com alegria, que em breve um piloto será implantado em três subprefeituras da cidade. Todos assuntos complexos, não? É a esse ponto que pretendo chegar.
Não estamos mais discutindo rampas. Não estamos mais brigando para que as pessoas nos enxerguem. Estamos, agora, mergulhando em questões mais profundas da inclusão. Tenho certeza de que Paulas, Robertos e Maras já podem circular com mais autonomia com suas cadeiras de rodas, muletas, bengalas, cães-guia e encontrar aspectos bem mais inclusivos do que encontravam antes.
Hoje, 11 anos depois da criação da data pelas pessoas com deficiência no mundo todo, posso dizer que avançamos, sim. Agora, precisamos de você para avançar mais: seja inclusivo. Cobre e promova a acessibilidade. Esse é um ato de cidadania e respeito ao próximo -e a você mesmo.


MARA CRISTINA GABRILLI , 42, tetraplégica, psicóloga e publicitária, é vereadora da cidade de São Paulo pelo PSDB e fundadora da ONG Projeto Próximo Passo, hoje Instituto Mara Gabrilli. Foi secretária municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Prefeitura de São Paulo (2005-2007).

ROLF KUNTZ

Sinal amarelo nas contas externas

O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/12/09


Chamem um exorcista. Causa arrepios a evolução das contas externas, com exportações em marcha lenta, importações em alta e um promissor buraco na conta corrente do balanço de pagamentos - US$ 18,8 bilhões nos 12 meses terminados em outubro. O brasileiro com mais de 40 anos passou a maior parte da vida num país com inflação elevada e sempre a um passo de uma crise cambial. O Plano Real foi lançado há 15 anos, mas a estabilidade só se consolidou na virada do século. Em 1999 o País atravessou a última crise do balanço de pagamentos, com um rombo de US$ 33 bilhões nas transações correntes.

Entre 2003 e 2007 o Brasil acumulou superávits na conta corrente. O saldo comercial, somado às transferências unilaterais (principalmente remessas de trabalhadores no exterior), foi muito mais que suficiente, nesse período, para compensar o déficit estrutural na conta de serviços (royalties, juros, lucros, viagens, fretes e seguros). Em 2006 o saldo em conta corrente chegou a US$ 13,6 bilhões. No ano seguinte encolheu para US$ 1,5 bilhão. Com a aceleração do crescimento econômico, as importações começaram a aumentar mais que as exportações. O descompasso se intensificou em 2008. O resultado da conta comercial encolheu de US$ 40 bilhões para US$ 24,7 bilhões e o buraco em transações correntes ampliou-se para US$ 28,2 bilhões. O resultado só não piorou em 2009 porque a recessão freou as importações. Mas a tendência mudou, com a reativação da economia. De julho a novembro, o saldo comercial foi 17% inferior ao de igual período de 2008.

Para 2010 o mercado financeiro calcula um déficit em conta corrente de US$ 36 bilhões, mas isso dependerá de um superávit comercial de US$ 13 bilhões. Há quem admita, no entanto, a hipótese de um saldo comercial zero. Nesse caso, o déficit nas transações correntes ficará perto de US$ 50 bilhões. Será administrável, mas tenderá a aumentar. A combinação de crescimento econômico e real valorizado manterá no vermelho a conta corrente. Não haverá tragédia enquanto o ingresso de capital compensar o desequilíbrio. Até quando?

Isso dependerá de fatores externos e internos. Lá fora, a gastança fiscal e a política monetária frouxa serão substituídas, num futuro não muito longínquo, por uma política de ajuste. Os juros subirão, o capital ficará mais caro e os investidores poderão buscar outros destinos para seu dinheiro. Internamente, os fatores de atração poderão diminuir, se o governo continuar gastando de forma imprudente, o risco de inflação crescer e o País se tornar menos seguro do que tem sido nos últimos anos. A advertência foi formulada em artigo dos economistas Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore, publicado no Valor na segunda-feira.

No dia seguinte, o mesmo assunto foi discutido, no Estado, em artigo do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central. O Brasil só poderá realizar os investimentos previstos para os próximos anos (exploração do pré-sal, obras para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, etc.) se dispuser de capital externo, segundo Goldfajn. De acordo com suas estimativas, o déficit em conta corrente, hoje próximo de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB), poderá chegar perto de 5% em 2016 e depois diminuir para uns 3,5%, com o dólar na altura de R$ 1,70.

Essas projeções dependem de vários pressupostos. Alguns dos mais importantes: não haverá crescimento considerável da poupança interna; o cenário externo será razoavelmente favorável ao Brasil; e o governo não vai destruir as bases da confiança na economia brasileira. Quanto a esse ponto, Goldfajn mostra certa inquietação. A política fiscal será relaxada? Haverá insegurança quanto à orientação cambial?

Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore são mais diretos ao apontar no excesso do gasto público o principal fator de desajuste externo. Nos dois artigos, no entanto, as advertências são formuladas com boas maneiras, sem alarmismo. Mas é difícil manter a calma. A piora das contas externas já começou e tem sido causada principalmente pela farra fiscal. O capital externo tem sido necessário não para sustentar um surto de enormes investimentos, mas a despoupança do setor público. Uma política fiscal melhor aumentaria a poupança interna. Além disso, permitiria juros menores e, talvez, um câmbio menos valorizado. Outras mudanças tornariam a produção nacional mais competitiva. Mas tudo isso está fora do horizonte. O filme começa mal e o roteiro tem um jeitão conhecido.

GOSTOSA

MERVAL PEREIRA

Decepções

O GLOBO - 03/12/09


A “decepção” que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está sentindo em relação a Lula, aquele que ele definiu como “o cara” para o mundo, dandolhe um upgrade internacional, parece ser a mesma que o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, detectou recentemente em relação a Obama. “Lula ainda tem grandes expectativas, mas o fato é que hoje há um certo sabor de decepção”, disse Garcia.

A crescente influência na América Latina do Brasil, líder regional inconteste, que tem dado demonstrações de ser pelo menos condescendente com líderes de países claramente antiamericanos como o Irã e a Venezuela, decepciona Obama. Certamente ele esperava que o presidente Lula levasse o Brasil a ser um parceiro mais próximo dos Estados Unidos, e está se mostrando mais próximo do Chávez do que se poderia supor.

O governo americano ficou muito preocupado com a passagem do Mahmoud Ahmadinejad pelo Brasil, Bolívia e Venezuela, onde consideram que o presidente do Irã teve apoio a seu programa nuclear que, dias depois, foi condenado pela Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU.

Também a crise política de Honduras anda afastando os Estados Unidos do Brasil, que estiveram próximos no início dela. Honduras é um país sem importância alguma para a geopolítica brasileira, e está sob a esfera de influência do México e dos Estados Unidos.

A crise de destituição do presidente eleito Manuel Zelaya só entrou no radar da diplomacia brasileira por instância da Venezuela, já que Zelaya havia levado seu país para dentro da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas).

Seguindo os passos de seu líder Hugo Chávez, tentou utilizar em Honduras uma “tecnologia institucional” exportada pelo bolivarismo: a alteração da Constituição por meio de um plebiscito para a permanência no poder.

Reconhecer o novo presidente eleito de maneira legítima no último domingo foi a opção dos Estados Unidos e começa a ser uma alternativa de diversos países europeus, enquanto o Brasil vai ficando isolado na sua posição.

Outra situação delicada para a nossa política externa é a extradição do terrorista italiano Cesare Battisti, condenado na Itália à prisão perpétua. Lula parece disposto a confirmar o asilo, mesmo com o governo italiano pressionando, e o Supremo Tribunal Federal tendo aprovado a extradição.

Esses percalços externos se contrapõem à imagem internacional que o presidente Lula vem cultivando. Fidel Castro, o ditador de estimação dos petistas no poder, dividiu os governantes de esquerda da região em “revolucionários” e “tradicionais”.

A esquerda “tradicional”, que seria representada por políticos como Lula ou Michelle Bachelet, do Chile, ou Tabaré Vázquez, do Uruguai, já não responderia às necessidades dos povos latinoamericanos.

Os “revolucionários” Chávez, da Venezuela; Evo Morales, da Bolívia; Rafael Correa, do Equador; ou Daniel Ortega, da Nicarágua, refletiriam as reais aspirações das populações latino-americanas.

É por isso que Lula, desde a primeira aparição para os “donos do mundo” em Davos, no Fórum Econômico Mundial, em 2003, é tratado como “o cara”, mesmo antes de o presidente Barack Obama identificá-lo como tal.

Mas foi sem dúvida depois da crise internacional que abalou o mundo e a crença na autorregulação do mercado financeiro que a figura de Lula ganhou destaque na mídia internacional, não apenas por suas posições audaciosas, como quando culpou os “louros de olhos azuis” pela crise, mas também pela performance da economia brasileira.

O governo Lula saiu-se bem da primeira grande crise internacional que enfrentou, e os “louros de olhos azuis”, cheios de culpa, o escolheram como exemplo do novo mundo que precisa ser construído dos escombros do antigo.

Lula tem o perfil necessário para se transformar no novo líder mundial: presidente de um país emergente, ele mesmo um emergente em seu país, vindo da pobreza extrema, cuida de tirar da pobreza extrema seus conterrâneos.

Ao mesmo tempo, mantém as regras fundamentais da economia, garantindo o pagamento da dívida e abrindo para o investimento estrangeiro um mercado ávido em obras de infraestrutura, além de garantir juros altos para os investidores nacionais e internacionais.

A esquerda que Lula representa dá tranquilidade à comunidade internacional, que ainda conta com sua interferência para conter os ímpetos revolucionários dos demais líderes latinoamericanos.

Mas aí entra em campo um paradoxo de difícil entendimento para estrangeiros: faz muito tempo que o governo Lula usa a política externa como um contraponto à política econômica ortodoxa que manteve do governo anterior.

Uns consideram que seria uma espécie de compensação para a militância, enquanto não há espaço internamente para uma guinada à esquerda. Outros acham que é apenas isso, uma compensação em troca de tocar a economia nos padrões internacionais.

Mas à medida que vai aprofundando seu esquerdismo na política externa, vai se aproximando mais e mais de Chávez, e se afastando da comunidade internacional, embora precise do apoio dela para se manter como interlocutor importante e, no limite, continuar sonhando com uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Mas votando na contramão do mundo ocidental, ou no máximo se abstendo, como no caso do Irã, ao mesmo tempo em que pode garantir eventuais votos desses “parceiros” terceiromundistas, vai conseguindo se tornar não confiável aos olhos das grandes potências internacionais, que, no fim, têm os votos decisivos.

Lula pode vir a ter um problema de equilíbrio entre seu prestígio interno e o externo. A importância que o Brasil ganhou nos fóruns internacionais tem mais a ver com o êxito na economia e com sua fama de ser o representante de uma esquerda civilizada do que o contrário.