sexta-feira, agosto 21, 2009

PAINEL DA FOLHA

Redoma para Dilma

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/08/09

Embora Dilma Rousseff tenha se envolvido por inteiro na operação salva Sarney, até o ponto de participar da derradeira reunião em que os senadores do PT foram enquadrados para votar a favor do presidente do Senado no Conselho de Ética, a ordem agora é retirar a ministra da linha de tiro, tanto neste caso quanto no embate com a ex-secretária da Receita Lina Vieira.
Além da preocupação com a pecha de ‘mentirosa’ que a oposição procura carimbar na candidata de Lula, voltou a ganhar corpo no governo o argumento de que é muita coisa acumular gestão, tratamento de saúde e embate eleitoral. Será criado um grupo, com a participação do ex-ministro José Dirceu, para tomar a frente nas respostas aos ataques a Dilma.

Brigada - Desde sempre cogitado para atuar na campanha de Dilma, o ex-prefeito de Recife João Paulo endossa a conveniência de blindá-la: ‘É mais do que necessário criar um birô de monitoramento e evitar a superexposição’.

Multiuso - Escolhido, sempre por exclusão, para presidir a CPI da Petrobras e ler a nota do PT em defesa do arquivamento das investigações sobre Sarney, o suplente João Pedro (AM) é o mais cotado para substituir Aloizio Mercadante na liderança da sigla.

Dever cumprido - Um dia depois de arquivar em tempo recorde 11 pedidos de investigação contra Sarney, Paulo Duque (PMDB-RJ) foi ‘bater um papo amistoso’ com o presidente do Senado. ‘Ele estava tranquilão’, relatou, satisfeito, na saída.

Evolução - E-mail que chegou ao gabinete de um senador: ‘Pelo amor de Darwin, fechem este Senado!’.

Na moita 1 - Também o DEM viveu momentos de tensão no Conselho de Ética. José Agripino (RN) teve de fazer um apelo dramático diante das ameaças de seus liderados de votarem com Sarney.

Na moita 2 - ‘Será devastador para o partido e para mim’, disse. Ainda assim, ACM Júnior (BA) se recusou a votar. Até o último instante, não se sabia se iria para o sacrifício Eliseu Resende (MG), sócio de Sarney, ou Heráclito Fortes (PI), primeiro-secretário. Na hora H, foi o primeiro.

Aperto - Com duas baixas no PT (de Marina Silva, já anunciada, e Flávio Arns, a caminho), somadas à provável saída de Valter Pereira e Mão Santa do PMDB, o governo passa a ter, ao menos no papel, margem de dois votos para encarar qualquer votação que exija quorum qualificado no Senado. Não que o Senado esteja votando alguma coisa.

Deixa sair - Do ministro Tarso Genro (Justiça), sobre a chance de o PT pedir o mandato de Marina: ‘Qualquer atitude nossa nesse sentido seria rançosa e equivocada’.

Ato secreto - Sumiu sem deixar rastros o original do processo da comissão de sindicância que investigou o uso de apartamento do Senado por um dos filhos do ex-diretor de RH João Carlos Zoghbi. Há uma cópia para abrir o processo administrativo, mas a defesa pode tentar anular o procedimento com base nessa filigrana burocrática.

Trem goiano - O PSDB representará contra Lula no TSE devido ao lançamento, feito pelo presidente, da candidatura de Henrique Meirelles ao governo de Goiás. A sigla reuniu comunicados da prefeitura de Goiânia dando ponto facultativo aos servidores no dia da visita, anúncios exortando a população a comparecer e imagens de Lula louvando as virtudes de candidato do presidente do BC.

Fila do ponto - O PDT, encampando pleito da Força Sindical do deputado Paulinho (SP), conseguiu dividir a bancada do DEM na Câmara, coletando apoio para votar a PEC da redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. A proposta tramita há 14 anos na Casa.

Tiroteio

Depois de oito anos, o Paraná descobriu que tinha um senador do PT. Aliás, um senador com dupla personalidade, porque vota com o PSDB.
Do deputado petista ANDRÉ VARGAS sobre seu conterrâneo Flávio Arns, que disse sentir ‘vergonha de estar no PT’ após o partido ter livrado a cara de Sarney no Conselho de Ética.

Contraponto

Agora aguenta

Em recente visita ao interior paulista, Geraldo Alckmin acabou na tribuna do clássico Corinthians x Palmeiras, em Presidente Prudente. Santista, o ex-governador e atual secretário estadual do Desenvolvimento reclamou com Fabio Lepique, responsável por sua agenda.
- Você me trouxe aqui porque é corintiano, né?
- É que o estádio está lotado..._ justificou o assessor.
A despeito disso, quando o Palmeiras marcou o terceiro gol Lepique começou a apressar Alckmin para que saíssem dali rumo a outro evento.
O tucano não perdoou:
- Calma! Vamos esperar até o final. O jogo está bom...

GOSTOSA


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MOISÉS NAÍM

Petróleo pode ser uma maldição

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/08/09


O PETRÓLEO é uma maldição. Gás natural, cobre e diamantes também fazem mal à saúde de um país. Daí deriva uma percepção tão poderosa quanto contrária ao que afirma a intuição: os países pobres, mas ricos em recursos naturais, tendem a ser subdesenvolvidos não a despeito de suas riquezas minerais e em hidrocarbonetos, mas por causa delas. De uma maneira ou outra, o petróleo -ou ouro, ou zinco- empobrece. É um fato no qual pode ser difícil acreditar, e exceções como Noruega e EUA servem muitas vezes para argumentar que petróleo e prosperidade são de fato capazes de caminhar juntos.
A raridade dessas exceções, no entanto, não apenas confirma a regra como demonstra o que é necessário para evitar as consequências geradoras de miséria da riqueza em recursos naturais: democracia, transparência e instituições públicas efetivas que respondam às necessidades dos cidadãos. Trata-se de precondições importantes para os aspectos mais técnicos da receita, entre os quais a necessidade de manter estabilidade macroeconômica, administrar com prudência as finanças públicas, investir no exterior parte dos lucros extraordinários que os recursos propiciam, estabelecer fundos de reserva, diversificar a economia e garantir que a moeda local não atinja cotação alta demais.
Tudo isso parece sensato, e, já que Brasil e alguns outros países parecem destinados a se tornar importantes produtores de petróleo, poderemos observar alguns raros casos que servirão como teste para essas recomendações.
Infelizmente, para a maioria dos países subdesenvolvidos, as defesas sugeridas acima são tão utópicas quanto a meta mais ampla que elas supostamente deveriam ajudar a atingir. Países que já apresentem todas essas instituições não precisam se preocupar com a maldição dos recursos naturais. Para os demais, como no caso de uma doença do sistema imunológico, a maldição solapa a capacidade da nação para erguer defesas contra o problema. Poder concentrado, corrupção e a capacidade do governo para ignorar as necessidades da população tornam difícil resistir à maldição.
De 1975 para cá, as economias dos países subdesenvolvidos e ricos em recursos naturais cresceram mais devagar que as de nações que não podiam depender da exportação de minerais e matérias-primas. Mesmo quando acontece crescimento alimentado pelos recursos naturais, ele raramente propicia os plenos benefícios sociais do crescimento.
Um traço comum entre as economias dependentes dos recursos naturais é que elas tendem a manter taxas de câmbio que estimulam as importações e inibem as exportações de quase tudo mais que não sua principal commodity.
Talvez ainda mais significativo, a maldição do petróleo estimula um cenário político insatisfatório. Porque governos de países como esses não precisam tributar a população para arrecadar receitas fiscais gigantescas, seus líderes podem simplesmente ignorar os contribuintes e não lhes prestar contas; já estes, de sua parte, muitas vezes mantêm um relacionamento tênue e parasitário com o Estado. Dada a sua capacidade de alocar grandes recursos financeiros de forma praticamente ilimitada, esses governos inevitavelmente se tornam corruptos.
Será que devemos perder toda a esperança com relação aos países ricos em recursos naturais? Não exatamente. Chile e Botsuana se destacam como histórias de sucesso em continentes em que a maldição dos recursos naturais causou sérios estragos. Como eles conseguiram se proteger continua a ser um mistério. Desvendar o segredo que lhes permitiu escapar à maldição dos recursos poderia livrar milhões do contato com o excremento do diabo. Mas ninguém o fez até agora.

MOISÉS NAÍM é editor-chefe da revista "Foreign Policy". Este artigo foi publicado originalmente no "Financial Times".
Tradução de PAULO MIGLIACCI

ANCELMO GÓIS

Água no chope

O GLOBO - 21/08/09

A AmBev vai recorrer à Justiça Federal contra a decisão do Cade de multar a cervejaria em R$ 352,6 milhões “por prejudicar a concorrência”. Foi a maior multa da história da autarquia.
Lágrimas de concreto
A vitória da espanhola Sacyr Vallehermoso para tocar o projeto de ampliação do Canal do Panamá, obra orçada em uns US$ 3,5 bi, gerou grande frustração entre empreiteiras brasileiras.
As nossas grandonas ambicionavam a encomenda.
Guerra de sondas
A brasileira HRT-Petroleum está no meio de um litígio internacional com a inglesa Chariot Oil and Gas e a africana Compagnie Miniére Congolaise. O caso foi parar na corte arbitral de Londres e na Justiça brasileira.
As gringas acusam a brasileira de não ter prestado os serviços contratados em troca de uns US$ 20 milhões.
Dedo na tomada
O diretor de Operações de Furnas, Fábio Resende, pediu o boné.
Aliás...
Por falar em Furnas, Flávio Decat, diretor de Distribuição da Eletrobrás, deve assumir a presidência do conselho da elétrica.
No mais
Há coisas que você nunca imaginaria ver na vida: José Múcio, do PTB, virou mediador de uma conversa de Lula com Mercadante, do PT.
1 milhão no Youtube
Maria Rita, a cantora, além de grande vendedora de discos (Samba Meu ganhou DVD de platina), é campeã na internet: Seu vídeo “Num corpo só” chegou a mais de 1 milhão de exibições no Youtube.
Miúcha, Tom e Chico
As vozes de Miúcha, Tom e Chico Buarque vão abrir a próxima novela de Manoel Carlos na TV Globo, Viver a Vida.
Como em Páginas da Vida, em que o tema era “Pela luz dos olhos teus”, a música também será de Vinícius: “Sei lá”, na gravação original, de 1977.
Lázaro Jackson
Lázaro Ramos viveu ontem seu dia de Michael Jackson. Gravou, no Museu do Ritmo, em Salvador, uma homenagem ao astro para o seriado Ó, Paí, Ó. No episódio, que vai ao ar em novembro, canta “Black or white” e, como Michael naquele clipe na Bahia, usa camisa do Olodum e calça justa.
Alceu, o cineasta
Alceu Valença, o grande cantor e compositor, vai se arriscar como cineasta. Rodará em novembro, no sertão de Pernambuco, o filme-musical Cordel Virtual ou A Luneta Do Tempo. O longa está em fase de pré-produção em Olinda.
Terror no trote
Um trote, quarta, na faculdade de direito da UFF, em Niterói, deve render aborrecimento aos veteranos que o promoveram.
Os tais veteranos teriam separado as calouras entre “bonitas” e “barangas” (que horror...). Missão das “barangas”: pedir dinheiro na rua. Missão das “bonitas”: ficar com eles para, meu Deus, responder questões sobre sexo.
Estádio verde
Energia renovável é uma das cartas na manga do governo de Minas Gerais para abocanhar a abertura ou o fechamento da Copa de 2014.
O projeto apresentado anteontem para os inspetores da Fifa prevê energia solar, ciclovia de acesso, além do reaproveitamento da água de chuva.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

FERNANDO GABEIRA

A paz dos cemitérios


FOLHA DE SÃO PAULO - 21/08/09

O verbo normalizar, usado por Sarney para descrever o que acontece no Senado, é muito significativo. Todos esperavam por outro verbo: moralizar. A normalização para um senador que deixa seu partido porque a bandeira da ética foi jogada na lata de lixo representa o horror que precisa ser enfrentado, inclusive com o risco de perder o mandato.

Numa hora dessas, é possível pensar em duas direções: a eleitoral e a outra, do interesse do País. Na primeira, a instituição putrefata vai exalar seu horrível fedor sobre as forças que mantiveram Sarney. O preço ainda será pago.

Mas, para o interesse nacional, era preciso resolver a situação rapidamente, sem considerar as eleições. Num movimento interno, isso não foi possível.

Sempre disse que não bastavam a opinião pública e a pressão da imprensa. É preciso fazer algo articulado, no interior do próprio Senado.

Desde menino também, quando lutava contra o aumento do preço dos bondes, constatei que, infelizmente, um argumento apressa todos os processos: o cheiro de fumaça.

É o tipo do argumento que hoje em dia combato. É preciso algo não violento. E creio que a resistência pacífica deveria ser reservada para todos os senadores que se apresentarem na campanha de 2010. Nem todos tiveram o mesmo comportamento. Mas todos terão de explicar o que fizeram durante essa crise.

Os estrategistas convencionais acham que tudo voltará ao normal, que as pessoas vão esquecer. Não percebem que o mau cheiro vai envolver também sua campanha presidencial. Estão sentados em cima de um cadáver, uma instituição morta, com um Conselho de Ética dominado por cafajestes.

Mesmo sem cheiro de fumaça, tão eficaz no passado, o País achará uma forma de punir os coveiros da credibilidade política.

CLÁUDIO HUMBERTO

“É como um cheque sem fundos, que bate e volta”
WELLINGTON SALGADO (PMDB-MG), SOBRE O RECURSO DA OPOSIÇÃO À AÇÃO CONTRA JOSÉ SARNEY

SENADOR FLÁVIO ARNS PODE IR PARA O PV
Com a notícia da filiação da senadora Marina Silva, dia 30, o Partido Verde tem sido procurado por parlamentares interessados em trocar de legenda durante a aguardada “janela da infidelidade”. Mas, antes disso, o PV pode contar com a adesão do senador Flávio Arns (Paraná), ligado à igreja católica, que decidiu sair do PT. No DF, dá-se como certa a filiação da ex-deputada Maria José Maninha, ex-PT e hoje no PSOL.
RESISTÊNCIA
A burocracia do PV resiste à adesão de políticos atraídos pela filiação de Marina Silva. Não fechará a porteira, mas não vai escancará-la.
SENADOR FELDMAN
Animado, o PV vai convidar o deputado Fábio Feldman a disputar mandato de senador por São Paulo, em 2010.
PT, SAUDAÇÕES
A senadora Marina Silva levou trinta anos para descobrir, o colega petista Flávio Arns, quase isso. Lula caiu fora muito antes...
KABUM!
Sugestão de leitura de final de semana para acalmar petistas: “Tudo que é sórdido se desmancha no ar”.
DELÚBIO & CIA RETOMAM O CAMINHO DO PODER
Em desgraça desde o escândalo do mensalão, figuras do alto escalão do governo Lula, aos poucos, retomam posições no submundo do poder petista. Além do ex-ministro José Dirceu, ainda muito influente no governo, o ex-tesoureiro Delúbio Soares, figura central do escândalo, circula à vontade na Esplanada dos Ministérios e em festinhas privadas oferecidas nas residências de quem tem poder no governo Lula.
DISFARCE
Marcelo Sereno, ex-operador do fisiologismo do Planalto, circula em Brasília escondido sob longos cabelos e barbas brancos.
VIÚVO PORCINO
O presidente deposto Manuel Zelaya anuncia novo retorno a Honduras. Entrará para a História como o que foi sem nunca ter chegado.
PENDURANDO AS CHUTEIRAS
A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira vai requerer aposentadoria por tempo de serviço até o final do ano.
A CRUZADA DE TEMPORÃO
Lula autorizou e o ministro José Gomes Temporão (Saúde) deve percorrer o País em uma cruzada para ressuscitar a CPMF, agora sob a sigla CSS (Contribuição Sobre a Saúde), com alíquota de 0,1%.
DE OLHO NA VAGA
O deputado Jilmar Tatto, da cúpula paulista do PT, disfarçando no Twitter, após a renúncia de Mercadante à liderança: “É um gesto nobre do senador. Parece que o próximo passo é não concorrer ao Senado.”
AVISO PRÉVIO
Jilmar Tatto está certo: Aloizio Mercadante poderá não concorrer à reeleição, como esta coluna já antecipou, porque Lula, cansado da sua “empáfia”, como diz, deseja isso. E o PT-SP ameaça negar-lhe legenda.
HOMENAGEM
Deputados do PT chamam agora a senadora Marina Silva (AC), de “Divina Pastora”, numa referência irônica ao fato de ela ser evangélica. A ex-ministra nem ligou: “Me sinto homenageada”.
RECICLÁVEL
Sobre a grande pizza dos arquivamentos no Senado, Flávio Arns (PT-PR) disse que “a ética do PT foi jogada no lixo”. Senador, é bom não falar em lixo em casa (e escritório) de petista...
O BURACO É NOSSO
O Brasil tem US$ 332 milhões para estradas...da Bolívia. Lula assina amanhã o (nosso) empréstimo ao “companheiro” Evo Morales, que, é claro, jamais será pago, para a construção de uma rodovia de 306 km.
ACENO AOS QUARTÉIS
Lula oficializará aos comandantes militares, nesta sexta, o que eles já estão carecas de conhecer: o plano para reequipar as Forças Armadas, com a compra de caças e submarinos franceses por € 20 bilhões.
AIR CORREIOS
Está saindo do forno a medida provisória que cria a Correios Logística, subsidiária da ECT para operar a carga postal. Terá 49% de capital estatal. A escolha dos parceiros será em leilão de ações na Bovespa.
O DIA SEGUINTE
O Senado está de ressaca; os eleitores, de ressaco.

PODER SEM PUDOR
O ANÃO E O DR. BOSCO
O jornalista Sebastião Lucena conta com graça e estilo a história do anão preso em Cajazeira (PB), suspeito de estuprar a filha do dono do circo, um mulherão de 1,80m. O deputado João Bosco Barreto, advogado dos fracos e oprimidos, libertou o acusado. Mais tarde, após uns goles num bar, o anão acabou confessando: “O pior, doutor, é que fui eu mesmo”. E explicou:
– Encostei ela num canto de parede, joguei um balde na sua cabeça, me pendurei nas “azêias” e...

O QUE SEMPRE FOI

SEXTA NOS JORNAIS

- Globo: Marina diz que governo Lula é insensível a causas sociais


- Folha: Insatisfeitos podem deixar PT, diz Lula


- Estadão: Sarney valida mais 45 atos e garante vaga para sobrinha


- JB: Cerco aos fumantes se espalha pelo país


- Valor: Empresas veem retomada gradual, sem investimentos


- Estado de Minas: Assombração perto do fim


- Jornal do Commercio: Justiça manda reabrir inscrições do Enem

quinta-feira, agosto 20, 2009

MERVAL PEREIRA

O PT sangra


O Globo - 20/08/2009


No mesmo dia em que a senadora Marina Silva anunciou sua saída do PT, depois de 30 anos de militância, por “falta de condições políticas” para avançar na sua luta “de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas”, a bancada do PT votou em peso a favor do presidente do Senado, José Sarney, depois de passar pelo vexame de levar um carão público do presidente do PT, Ricardo Berzoini, que fez ler no plenário da Comissão de Ética um documento que desautorizava a orientação do líder Aloizio Mercadante de votar a favor da abertura de um processo sobre os atos secretos

São dois assuntos que se cruzam nesse inferno astral em que vive o Partido dos Trabalhadores, que abandonou seu compromisso com a ética na política há muito tempo e, a cada dia, se torna um simples fantoche nas mão do presidente Lula.

O PT sangra em público, a ponto de um de seus mais destacados senadores, Flávio Arns, ter se confessado ontem “envergonhado” de fazer parte do partido, do qual pretende sair.

O papelão foi completo ontem na Comissão de Ética, a começar pelo líder Mercadante, que foi desautorizado pelo presidente do seu partido e pelos três senadores que votaram a favor de Sarney, e mesmo assim decidiu continuar na liderança, que já não exerce.

Os senadores Delcídio Amaral e Ideli Salvatti, que alegavam não querer votar a favor de Sarney para não se exporem ao veto dos eleitores em 2010, o fizeram envergonhadamente, em voz sussurrada, quase escondidos nas últimas filas do plenário.

O que importa ao presidente Lula não é mais a preservação do partido que ajudou a fundar, mas um projeto político pessoal, no qual o PMDB é mais importante do que o PT.

Eleger a ministra Dilma Rousseff como sua sucessora virou obsessão, e nada o fará entrar em atrito com o PMDB, atrás dos minutos da propaganda eleitoral. O PT, como partido, não tem alternativa, e todos os seus candidatos em 2010 julgam que a presença de Lula em seus palanques fará desaparecer eventuais decepções dos eleitores petistas.

É aí que a candidatura da senadora Marina Silva pode desestabilizar a estratégia lulista, que pretende fazer da eleição de 2010 um plebiscito entre seu governo e a proposta da oposição. Dilma Rousseff entraria nessa equação como simples figuração.

O problema é que Marina aparece como uma alternativa para eleitores insatisfeitos, para uma classe média envolvida na luta ambiental, e a disputa entre ela e a superministra Dilma Rousseff é a luta entre os ambientalistas e a tocadora de obras que, assim como o presidente Lula, se irrita com a preocupação com a preservação dos bagres, que atrasa a construção de hidrelétricas.

Quando anunciou a líder ambientalista Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, em 2003, o presidente Lula tratou a escolha como uma mensagem ao mundo de que, a partir dali, a Amazônia passaria a ser tratada de maneira diferente.

Lula saíra de uma campanha presidencial vitoriosa, na qual defendia que o Brasil deveria se preocupar primeiro em matar a fome dos mais pobres, para só então exportar “as sobras”. Era o tempo em que ainda prevalecia no governo a tese de que a agricultura familiar deveria ter primazia sobre o agronegócio.

O Fome Zero desapareceu para dar lugar ao Bolsa Família; as exportações agrícolas são a base principal de nossa balança comercial, e Lula acabou sendo acusado até por “companheiros” como Chávez e Fidel Castro de estar priorizando os biocombustíveis em detrimento da produção de alimentos, o que provocaria a alta do preço internacional da comida.

O substituto de Marina, o verde Carlos Minc, foi escolhido porque, além de se dar bem com a superministra Dilma Rousseff — foi seu companheiro no tempo da luta armada —, o governador Sérgio Cabral elogiou para o presidente Lula a maneira “moderna” com que ele lidava com a questão ambiental no Rio.

A saída de Marina, por discordar do modelo de desenvolvimento, foi vista no mundo como um sinal de que o governo Lula virava as costas para a maior defensora da Amazônia, com o dizia na ocasião o jornal espanhol “El País”, talvez o mais importante da Europa atualmente.

A última derrota de Marina foi consequência da decisão do presidente Lula de entregar ao então ministro de Planejamento Estratégico, Mangabeira Unger, o Plano da Amazônia Sustentável (PAS), o que a fez deixar o Ministério do Meio Ambiente.

A MP 458, apelidada pelos ambientalistas de “a MP da Grilagem”, que caiu como uma bomba entre os ambientalistas do mundo inteiro, é a operacionalização das ideias contidas no PAS.

A Climate Action Network (CAN), uma reunião internacional de organizações não governamentais que promove ações para reduzir a níveis “ecologicamente sustentáveis” as ações humanas que provocam a mudança climática, soltou um documento criticando o governo brasileiro.

A lei permite a legalização de 67,4 milhões de hectares de terras públicas da União na Amazônia, até o limite de 1.500 hectares. Empresas que ocuparam terras públicas até 2004 também teriam direito às propriedades. Pressões fizeram com que o governo vetasse, na totalidade, o artigo 7º da medida e o inciso II do artigo 8º que tratavam da transferência de terras da União para as pessoas jurídicas e para quem não vive na Região Amazônica.

Mas outros vetos, como à possibilidade de venda dos terrenos no período de dez anos após a regularização, ou ao artigo que prevê apenas uma declaração do ocupante da terra como requisito suficiente para a regularização fundiária, não foram feitos por Lula.

A ida de Marina Silva para o PV deve ter como consequência a saída do partido da base aliada do governo.

PANORAMA POLÍTICO

Pragmatismo

Ilimar Franco
O Globo - 20/08/2009


O PV vai incluir em seu estatuto uma “cláusula de consciência”, permitindo aos filiados adotarem posições conflitantes com o programa partidário por razões de convicção religiosa. Fará isso para se ajustar à sua pré-candidata a presidente da República, senadora Marina Silva (AC). Ela é evangélica e contra a legalização do aborto. O PV também vai ampliar a Executiva. Marina vai indicar dez nomes. A filiação será na convenção nacional do dia 30.

PMDB ameaça obstruir votações

O PMDB da Câmara ameaça não votar mais nada até o governo liberar as emendas parlamentares ao Orçamento.

Foram liberados apenas R$ 1 bi de R$ 5 bi previstos. O líder Henrique Alves (RN) bateu duro ontem na reunião da bancada.

O ministro José Múcio tratou do assunto com o presidente Lula. Para a bancada, Henrique criticou projeto de lei de crédito extraordinário de R$ 77 milhões para o Ministério das Relações Exteriores. “Destinam recursos para a nobre função social de aquisição de imóvel para a Embaixada do Brasil em Londres e não há dinheiro para pagar as emendas”, disse. Os projetos do pré-sal vêm aí.

"Vossa Excelência é passado na casca do alho” — Heráclito Fortes, senador (DEM-PI), elogiando o presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque (PMDB-RJ)

PROTESTO. Com o arquivamento da representação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o líder do DEM, Agripino Maia (RN), decidiu: "Vou propor à bancada que o partido se retire do Conselho de Ética". A proposta foi defendida pelo presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), quando o deputado Edmar Moreira foi absolvido na Câmara. Lá, o líder Ronaldo Caiado (GO) resiste, teme que o gesto seja visto como omissão.

O nome

Recomendação do presidente Lula sobre a nova estatal do petróleo. A empresa não se chamará Petrosal.

Seu comentário: “Petrosal lembra dinossauro. O Roberto Campos toda vez que criticava a Petrobras a chamava de Petrossauro”.

Nova CPMF

O ministro José Temporão (Saúde) acertou ontem com seu partido, o PMDB, a conclusão da votação da Emenda 29. Falta votar na Câmara destaque que cria a Contribuição Social para a Saúde, exclusiva para o setor, com alíquota de 0,10%.

É a volta do cipó de aroeira...

Com essa, a oposição não contava. Seus integrantes anunciaram intenção de recorrer ao plenário do Senado contra o arquivamento da representação para investigar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Ocorre que, na gestão Garibaldi Alves (PMDB-RN), a oposição aprovou resolução vedando recurso ao plenário das decisões do Conselho de Ética. Fizeram isso porque o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), duas vezes recorreu ao plenário contra decisões do Conselho.

Tarso cobra aplicação de recursos

Preocupado com a execução do Pronasci, o ministro Tarso Genro (Justiça) enviou carta para 58 prefeitos e oito governadores, pedindo informações sobre o andamento dos convênios.

Em todos os casos há pendências: não usaram a verba repassada ou não responderam ao monitoramento da FGV. O valor pendente é de R$ 456,4 milhões.

Na carta, Tarso adverte prefeitos e governadores: “Tais pendências implicam a não designação de novos recursos”.

QUAL O PRÓXIMO PASSO? Fala o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE): “Matar a (candidatura) Dilma (Rousseff)”

QUAL A AVALIAÇÃO? Diz o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL): “Deu tudo errado para eles (oposição). O Lula e a Dilma (Rousseff) defenderam o (José) Sarney. A popularidade do Lula não caiu, a Dilma ficou como estava, e o (José) Serra caiu”.

O QUE FAZER? Reage o senador Flávio Arns (PT-PR): “Este não é o PT no qual eu me filiei. Vou sair do PT”.

ILIMAR FRANCO com Fernanda Krakovics, sucursais e correspondentes

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COISAS DA POLÍTICA

O mestiço e o americano

Mauro Santayana
Jornal do Brasil - 20/08/2009

Ao considerar justa a guerra contra o Afeganistão, o presidente dos Estados Unidos reafirma a velha política imperialista de seu país, iniciada com a agressão ao México, em 1846. Muito pode ter mudado com um presidente mestiço, mas nada mudou com o presidente americano em relação ao mundo. Quando um povo é diretamente agredido – como fomos, em 1942, com o ataque a navios mercantes brasileiros por submarinos alemães na costa de Sergipe – mais do que seu direito é seu imperioso dever responder ao ataque, qualquer que seja a correlação de forças. Churchill observou que é melhor defender-se com as armas do que curvar-se a ultimatos ou aceitar acordos humilhantes, como os impôs Hitler a seu antecessor Chamberlain, em Munique, contra a Tcheco-Eslováquia: os que resistem são mais respeitados pelos vencedores, mesmo que percam a guerra. Não têm sido assim os Estados Unidos, como vimos no Vietnã e no Iraque e estamos vendo no Afeganistão.

Ao avançarem rumo ao Oeste, fazendeiros norte-americanos ocuparam, pouco a pouco, o Texas, que pertencia ao México, e declararam a independência do território. Para garanti-la, os americanos moveram guerra ao México, em 1846, e se apoderaram de 1,3 milhão quilômetros quadrados de seu território. Dispondo de tecnologia militar avançada, não lhes foi difícil expandir o domínio sobre os territórios vizinhos, e compraram com dinheiro o que não podiam conquistar com as armas, como o Vale do Mississipi, adquirido dos franceses, e o Alasca, comprado do Império Russo.

Reconheça-se nos anglo-americanos – que só se desentenderam quando da independência dos Estados Unidos e, de forma episódica, na little war de 1812 – visão estratégica de longo alcance. Logo que se descobriu no petróleo a fonte promissora de energia, a Inglaterra e os Estados Unidos se mobilizaram a fim de controlar os mananciais do Oriente Médio. No início do século passado, com a produção em série de automóveis, a cobiça pelo óleo que encharcava as areias da Península Arábica e do Golfo Pérsico se intensificou. Por detrás da disputa entre a Áustria e a Sérvia, os alemães pretendiam seu quinhão de petróleo naquela área, e buscavam fortalecer os seus laços com os otomanos, que a controlavam politicamente. Para combatê-los, Londres enviou à região o coronel Thomas Lawrence, o famoso guerrilheiro Lawrence da Arábia.

Toda a política internacional do século 20 teve como eixo o problema da energia, o primeiro e mais importante fator de produção, o mais importante insumo da vida. Como nos ensinam os compêndios elementares de física, a matéria é apenas um comportamento da energia. Essa é a razão da declaração de Obama, de que permanecerá no Afeganistão até derrotar os “terroristas”. Para assegurar apoio popular a essa decisão, o presidente usa o mesmo argumento de seu antecessor Bush: a necessidade de proteger a sociedade norte-americana contra os que foram capazes de atingir o símbolo de seu poder, ao destruir as torres de Manhattan. Mas, ainda que Bin Laden fosse o atacante, com isso nada teria o povo afegão.

É também o petróleo (mais do que as drogas) que explica os acordos militares com a Colômbia. Um dos mais argutos conhecedores e analistas da política internacional, o professor Moniz Bandeira, tratou do assunto em artigo recente. Washington se preocupa com o governo de Caracas e, ao assegurar e aumentar a produção colombiana, exercem pressão diplomática e militar contra Chávez, a fim de continuarem importando o óleo dos ricos poços venezuelanos.

Sempre estivemos advertidos do risco que corremos com a descoberta dos imensos depósitos de petróleo no profundo subsolo marinho abaixo da camada de sal. O petróleo não é apenas um negócio. É o mais grave problema estratégico do mundo, e deve estar sob o rígido controle do Estado. Já que o governo anterior comprometeu a Petrobras, com sua política antinacional, é necessário preservar o novo e mais profundo lençol petrolífero, com a criação de nova empresa, sob o controle total do povo brasileiro, mediante o Estado Nacional. A CPI da Petrobras procura impedir que a nova empresa se forme. Repete-se o mesmo cerco ao interesse nacional nos anos 50, quando pretendiam frustrar o desenvolvimento da grande empresa, hoje a maior do país. A prudência recomenda o fortalecimento das Forças Armadas, a fim de que não sejamos compelidos a aceitar ultimatos, nem acordos que reduzam a nossa soberania, como os está aceitando o governo de Bogotá.

ARI CUNHA

Situação difícil


Correio Braziliense - 20/08/2009


Não foi simples como parecia. A visita da ex-secretária da Receita Federal à ministra-chefe da Casa Civil não foi tão simples como parecia. Chegando ao Senado às 8h30, Lina Vieira, com paciência, respondeu até a tarde. Questionada pela tropa de choque do governo, manteve-se calma e respondia a todos. A tropa não deu certo. Trabalhava para tumultuar. Não surgiu de parte do governo quem pensasse em entendimento. Lina rejeitou as provocações, e plácida se esquivou do que poderia ser crime perante a lei. Pelo visto, o assunto piorou. Apareceram outras coisas que terão consequências. Para quem pensava que o assunto terminava aí, a decepção. A coisa toma rumo que pode chegar às eleições.

A frase que não foi pronunciada


“Enquanto isso, vou cantando e andando.”
»Gilberto Gil, pensando em aceitar ser vice de Marina Silva


Cuidado dos DA

  • Grupo de funcionários especializados está acompanhando o que se passa no jornal para prevenir contra a gripe A H1N1. Nos departamentos, é distribuído gel para assepsia. Atendimento a toda hora. Até os móveis recebem cuidados. A ideia provém de uma mãe de família, que começou a ser posta em prática na residência em Belo Horizonte. Façamos justiça a dona Nazaré Teixeira da Costa.

    Defesa da TIM
  • A concessionária TIM não tem nada a ver com notícia aqui publicada incriminando empresas sobre contrato de call center. Comunica não ter interesse em prejudicar concorrentes. Informa, porém, que não participa desse conglomerado.

    CBN
  • Trabalho jornalístico profissional foi realizado pelos repórteres da CBN. Antes da reunião do Senado falaram com senadores indagando opinião sobre caso de Dilma Rousseff e Lina Vieira. Está no site a gravação com opinião de todos. Acessando a internet, ouvintes conhecerão o pensamento de antes da reunião.

    Novidade
  • Seguiu para a Câmara dos Deputados projeto da senadora Lucia Vânia com mudanças na forma de classificação de propriedades agrícolas destinadas à reforma agrária. Entre outras ideias, a senadora dá ao Congresso Nacional competência para classificar e aprovar os indicadores que apontem o rendimento da atividade agrícola. Outra novidade é que o parlamento será responsável por classificar as terras como improdutivas ou não.

    Errata
  • Notícia publicada nesta coluna sobre o BRB não procede. O Banco do Brasil fez, isto sim, convênio com o Banco Votorantim. O maior banco do Brasil tem ativo de R$ 600 bilhões e a maior base de clientes — 53,8 milhões.

    Melhores
  • Nada como a crise americana no que tange à saúde pública para que o brasileiro se dê conta de que o Sistema Único de Saúde é um ganho do cidadão. Mesmo com as reclamações de filas imensas ou falta de médicos, a verdade é que também há socorro e atendimento. O SUS completou 20 anos. É hora de reconhecer para não lamentar depois: “Eu era feliz e não sabia.”

    Tecnologia
  • Rápido e eficaz. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Pernambuco, já há um método que identifica o vírus H1N1 em apenas cinco minutos. A pesquisa foi conduzida pelo professor Celso Melo, que aguarda aprovação da Anvisa. A equipe já estudava um diagnóstico mais rápido para a dengue e HPV.

    Prevenção
  • Grandes empresas de laticínios serão obrigadas a divulgar eletronicamente o resultado de análises laboratoriais. O que o senador Perillo quer em seu projeto é que o consumidor não seja surpreendido com alta taxa de amônia no leite UHT. O texto vai passar pela comissão de Agricultura e Assuntos Sociais.

    Autoestima
  • Destaque para o Cras (Centro de Referência de Assistência Social). O projeto do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome é a resposta do ministro Patrus Ananias aos críticos do Bolsa Família. Pouco divulgado, o Cras dá à população a oportunidade de trabalho e conhecimento. Não é o peixe, é a vara.
  • História de Brasília


    O prefeito nomeado mandou fazer um levantamento do funcionalismo da prefeitura de Taguatinga. Encontrou 220 funcionários, sendo que apenas 30 trazem em dia o serviço daquela cidade-satélite.(Publicado em 5/2/1961)

    PT NEWS


    MÍRIAM LEITÃO

    O primeiro passo


    O Globo - 20/08/2009


    Marina deu o primeiro passo. Faltam muitos, é uma longa caminhada. A senadora conhece longas caminhadas. O quadro eleitoral já mudou. A eleição deixou de ser plebiscitária, tende a ser uma eleição mais fragmentada, e a senadora obrigará os outros candidatos a terem ideias e propostas para uma questão central que é a conciliação entre meio ambiente e desenvolvimento econômico.

    Por enquanto, a eleição de 2010 sofre de várias esquisitices.

    A primeira delas é que o candidato que está na frente em todas as pesquisas de intenção de voto, o governador de São Paulo, José Serra, ainda não disse se é candidato, e seu partido tem dois virtuais concorrentes: ele e o governador de Minas, Aécio Neves.

    No cenário — apurado pelo DataFolha — em que Serra aparece, o partido fica com 36% dos votos; no cenário no qual concorre Aécio, o partido tem 15%. Mas eles não decidem, não debatem, não fazem primárias. Continuam misteriosos, com conversas de cardeais, articulações intramuros, no estilo tucano. Quando Serra não é candidato, sobem Dilma, Ciro e Heloísa, e até o percentual de indecisos sai de 18% para 24%.

    A segunda esquisitice eu disse aqui ontem: a maneira como a ministra Dilma Rousseff foi escolhida candidata lembra o “dedaço” da época em que o PRI era partido único no México. O presidente em exercício é que dizia quem era o candidato a concorrer para o período seguinte. O PT até hoje teve apenas um candidato, essa seria uma oportunidade de renovação se a escolha fosse aberta e democrática.

    Quem sabe assim, o partido conseguiria olhar de frente para toda aquela sujeira que varreu para debaixo do tapete nestes tempos de governo, especialmente após o mensalão.

    O candidato Ciro Gomes tentava ser uma terceira via entre governismo e oposição, mas ao longo dos últimos anos esteve tempo demais do lado do governo, como ministro. E antes de Marina aparecer na cena, até ele achava que a eleição não seria plebiscitária. A candidata Heloísa Helena, mesmo estando longe do cenário nacional, permanece oscilando entre 12% e 17% das intenções de voto, dependendo de quem é o candidato tucano.

    Marina apareceu com 3% em qualquer cenário, mas isso após ela apenas aventar a possibilidade de concorrer.

    Ontem, ela saiu do PT e tem pela frente mais dois eventos nos quais estará no palco: o momento de se filiar ao PV; o momento de assumir a candidatura.

    Ela definiu ontem posições importantes: ter a sustentabilidade como centro de um projeto de desenvolvimento; acolher as melhores práticas e experiências das empresas, academia e organizações; não deixar o Brasil atrasado em relação ao debate que ocorre no mundo; aproveitar as chances de o Brasil ser uma potência ambiental.

    Posto assim, Marina não se coloca como uma candidata temática, mas sim faz com que o tema das mudanças climáticas — que cresceu tanto nos últimos anos e continuará crescendo, digam os céticos o que disserem — seja o novo paradigma no qual se organize um programa para disputar as eleições.

    Marina tem um enorme caminho a seguir para sair dos 3%, ser uma candidata viável e evitar o perigo de ficar à margem do processo.

    Para ser competitiva, precisa de ferramentas que o PV não tem: tempo de televisão, partido com estrutura e capilaridade no país. Ela sabe disso. Por isso, comparou o ato de ontem com aquele momento, quando aos 16 para 17 anos saiu de casa para ir, analfabeta e doente, se tratar e estudar. Ela tinha ficado um ano muito mal. Já tinha tido malária, mas contraíra hepatite. Mal diagnosticada, sua hepatite foi tratada com remédio de malária e ela quase morreu. Ao emergir disso, decidiu sair de casa e ir para uma cidade maior para estudar, trabalhar, se tratar. Objetivamente, que chance tinha aquela menina do seringal Bagaço? Marina está preparando propostas que vão além da luta de classes que moldou o PT original. Acha que a defesa do meio ambiente não comporta recorte de classes. Está convencida de que algumas empresas já se deram conta da profundidade do tema e querem uma proposta que não é de ruptura com a velha ordem, mas de transição para uma nova ordem. Acredita que as empresas que não entenderam ainda entenderão quando o carbono for taxado no mundo. Não acha que a questão ambiental seja uma bandeira monotemática.

    Para ela, o que vai propor é um novo paradigma, uma nova forma de tratar cada uma das questões que compõem um programa partidário.

    Ideias ela tem e erra quem subestimar sua capacidade de organizá-las em um discurso contemporâneo e sedutor.

    Ao entrar no jogo, obrigará os outros candidatos a terem programa também. Me lembro que na última campanha eleitoral eu perguntei ao candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, numa entrevista neste jornal, qual era o programa dele. Ele me respondeu que o documento estava quase pronto e sairia na semana seguinte, em fascículos.

    Faltava uma semana para a eleição. Esse tipo de improviso não será mais possível, a partir da entrada da senadora Marina em campo.

    Os outros candidatos terão que se esforçar mais, pensar mais, aprofundar-se, rever estratégias.

    Tudo isso torna a disputa mais interessante, com mais conteúdo e bem mais indefinida. Tudo isso é bom para a democracia.

    GOSTOSA


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    DEMÉTRIO MAGNOLI

    Um conto de duas subversivas


    O Globo - 20/08/2009

    Dilma Rousseff e Lina Vieira são subversivas, mas em tempos diferentes. Dilma rebelouse contra a ordem no passado, usando a mentira factual para combater a verdade de um poder ilegítimo.


    Lina insurge-se contra a ordem no presente, usando a verdade factual para desmascarar a mentira de um poder legítimo, mas abusado.

    Ano passado, o senador Agripino Maia sugeriu que as mentiras contadas pela jovem Dilma nos porões indicariam uma propensão da ministra a mentir ao Senado sobre o dossiê elaborado na Casa Civil contra Ruth Cardoso.

    A resposta da ministra cortou o ar como a espada de um samurai: “Diante da tortura, quem tem dignidade fala mentira. Aguentar tortura é dificílimo.

    Me orgulho de ter mentido porque salvei companheiros da mesma tortura e da morte.” Agripino Maia iniciou sua carreira política na Arena, o partido situacionista na ditadura militar. A sua pergunta infeliz à ministra evidenciou a persistência de um desvio de princípio.

    Nas democracias, diante das autoridades policiais e judiciárias, um acusado tem o direito de calar para não se incriminar.

    Desse direito decorre o direito sagrado à mentira diante dos torturadores.

    Ele devia saber disso.

    A resposta da ministra não foi submetida ao crivo da crítica, em virtude de sua carga emotiva. Mas ela estava errada ao justificar a mentira por meio da sua finalidade útil. A jovem Dilma pertenceu à VAR-Palmares, uma organização que se enxergava como vanguarda do proletariado e ferramenta de uma história em rota rumo ao porto do socialismo. A mentira nos porões servia não só para salvar companheiros, mas sobretudo para preservar a organização revolucionária. Mas essa justificativa política e moral da mentira só funciona no universo lógico do militante que pensa possuir a chave mágica de um futuro redentor.

    A lógica da militante está presente na resposta da ministra. Ela podia ter dito que mentiu porque os que a interrogavam não tinham nenhum direito de fazê-lo. Mas preferiu dizer o que disse — e sua escolha tem significado.

    Justificar a mentira pela sua utilidade política é abrir uma senda perigosa, que desconhece a fronteira entre a ditadura e a democracia. Sob a lógica utilitária, Lula poderá um dia dizer que alegou nada saber a respeito do mensalão a fim de preservar um governo devotado a salvar o povo da “elite que manda no Brasil há 500 anos”. No mesmo diapasão, Antonio Palocci pode confessar, no futuro, que determinou a quebra do sigilo bancário de uma testemunha com a finalidade de conservar a racionalidade de uma política econômica contestada no núcleo do PT. E, como cada um elege valores segundo critérios de consciência individual, José Sarney fica moralmente autorizado a esclarecer, amanhã, que mentiu sem parar sobre os atos secretos do Senado para proteger os interesses de seus filhos, primos, sobrinhos, afilhados e netos...

    Lina converteu-se em perigosa subversiva ao assumir o cargo de secretária da Receita Federal. O seu gesto de insurgência consistiu em cumprir a lei — ou seja, conferir tratamento igual a todos os contribuintes. A adesão à lei representa uma corajosa ruptura com a norma, num tempo em que o princípio da impessoalidade na administração pública experimenta uma baixa sem precedentes.

    No Brasil de Lula, elaboram-se teorias sobre as virtudes da distinção. As universidades, em nome da justiça social, selecionam candidatos segundo a cor da pele (na prática, muitas vezes segundo o alinhamento ideológico a ONGs do movimento negro). O governo, em nome da projeção externa de uma empresa nacional, muda a lei de telecomunicações de modo a favorecer os empresários que financiaram a fundo perdido os negócios do filho do presidente. O próprio Lula declara que o ex-presidente no comando do Senado, hoje seu aliado político, não deve ser escrutinado como uma pessoa comum. Sobre essa tela de fundo, o gesto de Lina equivale a uma conclamação revolucionária.

    Conheço uma professora universitária que se esqueceu de lançar no imposto de renda uma receita simbólica, de umas centenas de reais, pela participação eventual numa banca de doutorado. Anos depois, a falha valeulhe uma cobrança da Receita que, acrescida de multa e juros, importava em milhares de reais. Quando Lina resolveu que grandes empresas privadas (leia-se: generosos financiadores de campanhas eleitorais) mereciam abordagem similar, chegaram à imprensa rumores de que a secretária havia se cercado de “sindicalistas”, aparelhando o órgão.

    No passo seguinte, Lina impugnou uma manobra contábil da Petrobras que “economiza” o pagamento de bilhões em impostos. A ousadia de mexer com a estatal intocável, um ícone da pátria no panteão do nacionalismo de araque, selou-lhe a sorte. A máquina de difamação disseminou um diagnóstico de incompetência da secretária, que seria a responsável pela inevitável queda na arrecadação no curso do ciclo recessivo. Por ordem do Planalto, a subversiva foi demitida.

    A imprensa apurou que, na trajetória da insurreição, os caminhos de Dilma e de Lina se cruzaram. A ministra teria solicitado uma reunião sigilosa com a secretária, na qual pediu o célere encerramento de uma investigação fiscal da família Sarney. Lina confirmou a história, oferecendo sua palavra como garantia. Dilma negou a existência da própria reunião.

    Mais uma vez, tudo gira em torno da verdade factual. A ministra podia ter dito que sim, se reuniu a sós com Lina, porém não pediu que tratasse Sarney como um homem incomum.

    Mas escolheu um caminho que faz da existência da reunião uma comprovação lógica de que existiu também o pedido. Agora, surgiu uma testemunha ocular do agendamento da reunião: chama-se Iraneth Weiler e (ainda) ocupa a chefia de gabinete do secretário da Receita. É uma prova de crime e caberia a Dilma refutá-la factualmente.

    A não ser que ela pense mesmo que o valor da verdade se mede pela sua utilidade.