terça-feira, junho 09, 2009

ARNALDO JABOR

Dois virgens na noite dos anos 50

O GLOBO - 09/06/09

J%C3%A1" style="color: rgb(51, 51, 51); text-decoration: none; ">Já escrevi que, em anos remotos, meus professores de sexo foram Bené, o pipoqueiro conquistador de empregadas, e seu ajudante Alfredinho, um aleijado de tórax musculoso e perninhas secas.

Esse texto foi para o celuloide, pois ontem rodei esta cena no filme "A Suprema Felicidade", que estou fazendo no Rio de Janeiro, a antiga cidade delicada e docemente atrasada em que amei e sofri minha adolescência.

Eu era um garoto querendo aprender sobre os terríveis "pecados" daquele tempo.

Pois bem, numa noite ventosa que fazia silvar a luz da carrocinha de pipocas de Bené, eu ouvi a palavra nova: "rendevu". A palavra vinha do oblíquo francesismo "maison de rendez-vous" (casa de encontros) ou, em português mais clássico: bordel, lupanar ou prostíbulo. Senti que, talvez ali, tudo que me era escondido pela família estaria decifrado no contato com a crueza do pecado.

Bené e Alfredinho discorreram longamente sobre os tipos de "rendevus" mitológicos que existiriam, como a casa das menininhas do colégio de freiras, a célebre e inexistente casa dos espelhos e o palácio das mulheres casadas…

Assim estimulados pela ficção, fui ao meu primeiro "rendevu" com meu amigo Cabeção, também virgem, deixando o Bené e o Alfredinho olhando-nos, descrentes, na carrocinha.
E lá fomos nós, topetes penteados com "quina petróleo", camisa nova dobrada na manga curta e pente no bolsinho. Eu não tinha um tostão e Cabeção, com boa mesada, declarou cruelmente que eu iria "só para olhar" e que se alguma mulher me quisesse "no amorzinho", tudo bem; senão, "azar o meu".

Ali na rua Correa Dutra tinha um "rendevu". Hoje, os bordéis são "sauna relax for men", com nomes em neon tipo "Crazy Love", cheios de meninas de maiô de oncinha; mas, naquele tempo, o prostíbulo se disfarçava de "casa de família".

Minha primeira surpresa foi encontrar uma grande sala-de-visitas, de assoalho encerado, quadros na parede e um silêncio espantoso. Não havia sinal de pecado, nem sombra de "artes do demônio".

Em volta da grande sala, como num velório sem caixão, sentavam-se umas 20 mulheres, de perna cruzada, olhando para fregueses de terno, bigodinho, amontoados na porta do corredor, travados em constrangimento, como numa antessala de dentista.

De vez em quando, um deles se adiantava e fazia um sinalzinho disfarçado em direção a uma menina. A moça se erguia com visível enfado, como para um sacrifício; seu "mau humor" fazia parte do ritual - era uma homenagem à virtude perdida. Nós olhávamos o casal subindo, com a mulher na frente, de vestido justo "tomara-que-caia", rebolando profissionalmente.

Nessa época, o animador do bordel era a figura obrigatória do "veado", o "pau-para-toda-obra" dos bordéis: gerente e conselheiro das mulheres. O "veadinho" de bordel era boa dona de casa, fazia as compras, se metia com fregueses e, estranhamente, fazia um tipo coquete, como se fosse uma mocinha virtuosa no meio das "decaídas".

Olhava com desprezo os bofes, sempre com a língua afiada para uma resposta: "Sai para lá, cafajeste! Eu sou pobre, mas tive boa educação". E andava pela casa toda, catando sua felicidade entre vasos sujos e papel higiênico, para suportar sua solidão terrível dos anos 50 (bruta época para os gays...). Era faxineiro e mãe substituta para as "mulheres da vida", como diziam minhas tias.

O "veadinho" passou, atirando-nos a língua aguda: "Chiiii!... hoje isto está um jardim de infância!" A gargalhada da boneca e dos bofes próximos queimou os brios do Cabeção que, com o dinheiro do pai no bolso e um requebro que imitava o Bené, chamou uma moreninha com cara de índia paraense. Sem ar, vi o Cabeção subir as escadas com ela, me jogando um olhar de triunfo.

Fiquei ali embaixo, sem um tostão, esperando o Cabeção perder a virgindade lá em cima. Estava desamparado sem ele, mas tive um surto de coragem e apareci à frente do grupinho de otários atravancando o corredor.

As mulheres notaram minha súbita "allure" e me enviaram sorrisinhos e piscadas de olhos. No entanto, cada sorriso e piscadela me doía fundo, fazendo mais vazio meu bolso, onde só estavam as moedinhas do ônibus, o que me desarmou logo a pose, diante dos rapazes de terno...(ia-se ao puteiro de terno!...).

Foi quando uma das mocas, uma lourinha magrela de vestido saco, se enrabichou por mim... Levantou-se, passou faceira a meu lado e sumiu nos fundos da casa, sorrindo-me, convidativa. Gelou-me a alma sem dinheiro: que fazer?

Fiquei por ali, enquanto a bichinha reclamava da aglomeração de homens: "Ihhh! Isso aqui não é fila do açougue, não!..."

Eu disfarçava a aflição com Continentais-sem-filtro, apalpando o dinheiro da condução. Nada do Cabeção aparecer. Onde estaria minha lourinha magrela e triste? Fui me esgueirando até uma porta no fundo do corredor. Fingindo de bobo, abri a porta. Era uma cozinha escura onde, numa mesa com linóleo quadriculado, umas putinhas jantavam. Estavam comendo um triste macarrão nos pratos de alumínio.

A lourinha me sorriu: "E aí, não vai fazer um amorzinho?..." Sorri amarelo. "Está servido?" "Não, obrigado, já jantei..." "Experimenta a sobremesa, então..."

De repente, me vi comendo um pedaço de goiabada num pratinho, mudo de medo. Foi quando ouvi uma gritaria lá em cima. O Cabeção estava descendo a escada atarantado, escorraçado pelo veadinho. Saímos de cambulhada, enquanto a índia, com cara guerreira e xavante, berrava do alto da escada: "Não pagou! Pega ele! Que desaforo!" E o veadinho-gerente fazia coro: "Pega ele... Vou navalhar vocês! Eu sou mau! Mau!"

Fora, o Cabeção me explicou que brochara e quisera pagar só a metade do "miché", para indignação da xavante e xingamentos do veado.

E no ônibus vazio da madrugada íamos nós: o Cabeção chorando, virgem e humilhado, e eu com gosto de goiabada na boca.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO



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ANCELMO GÓIS

LIQUIDAÇÃO DO PONTO

O GLOBO - 09/06/09

Veja como certos ativos perderam valor. O supermercado Pão de Açúcar vai pagar pouco mais de US$ 400 milhões pela compra do Ponto Frio. Não faz muito, o valor de mercado desta rede de varejo era superior a US$ l bi.
MISTER WATKINS
Lily Safra, 70 anos, a bilionária que vendeu o Ponto Frio, conhece bem a Baixada Fluminense. O pai, tcheco, tinha uma empresa em Mesquita e hoje é nome de logradouro no município (Rua Mr. Watkins).
PELA PAZ
O sonho de Lula é levar Obama para assistir ao amistoso entre Flamengo e Corinthians na Palestina, ainda este ano.
TRÊS VEZES
Uma comissária brasileira da Air France que vive o drama do acidente com o Airbus, o terceiro de sua carreira (os dois primeiros, na TAM), conta que a reação dos passageiros, agora, é bem diferente.
Na TAM, diz, as pessoas eram agressivas, como se culpassem a tripulação pelo acidente. Agora, são respeitosos e solidários.
É. Pode ser.
DIESEL DE SOJA
O último leilão de biodiesel, realizado pela ANP, dia 29, mostra que o Brasil paga relativamente caro para ter este combustível vegetal.
O preço apurado, de R$ 2,131 o litro, sem tributos, está 62% mais caro que o diesel de petróleo produzido no Brasil.
MARCA FORTE
Para o casamento com o jogador Roger, Deborah Secco fez uma maquiagem especial no pé, para cobrir a tatuagem com o nome do ex-namorado, Falcão, que não consegue apagar. A atriz já fez várias sessões de aplicação de laser.
ANALFABETOS DO BRASIL
O relatório Situação da Infância e da Adolescência no Brasil, que o Unicef divulga hoje, mostra que um quarto (25,8%) da população rural do País acima de 15 anos ainda é analfabeta. Em áreas urbanas, pelo mesmo critério, 8,7% são analfabetos. No Nordeste, apesar de começar a melhorar, a situação ainda é pior: só 11,6% dos jovens da área rural estão matriculados no ensino médio.
TIRO DE FUZIL
De Dori Caymmi, que mora em Los Angeles, sobre a situação do Brasil, em seu show na Caixa Cultural, no Rio, sábado:
– E ainda tem f.d.p querendo o terceiro mandato. Meu sonho é ser torturado pelo PT.
MAS...
A favor de Lula, diga-se que o presidente tem reiterado que considera prejudicial para a democracia mudar mais uma vez a regra eleitoral.
ELE É CARIOCA
O senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, aquele que disse que “boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”, foi cumprimentado por dezenas de cariocas, sábado, no Bracarense, o boteco vip do Leblon.
‘EM BRASÍLIA... 19H’
O Senado deve apreciar amanhã cinco projetos de flexibilização do horário de transmissão da “Voz do Brasil”.
Seria a morte do velho bordão do programa: “Em Brasília... 19h”.
SEGUE...
Os cinco projetos estão na pauta da Comissão de Ciência e Tecnologia. Um deles, um substitutivo do senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, o filho de ACM, prevê a transmissão em qualquer horário, entre 19h e meia-noite e meia.

CLÓVIS ROSSI

"Projetos". Ou falta deles

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/06/09

SÃO PAULO - Diz a ministra Dilma Rousseff que um eventual terceiro mandato para o PT em 2010 seria para "um projeto", não para um nome (no caso o de Luiz Inácio Lula da Silva).
Se é assim, vejamos o que diz de tal "projeto", na área ambiental, uma das raras personalidades do PT que não renunciou ao dever de pensar, a senadora Marina Silva: "Essa conversa [em torno de deletérias alterações nas regras de defesa do meio ambiente] nos leva de volta ao Brasil das capitanias hereditárias. Ele está inteiro, poderoso, imutável, um encrave dentro de nossa pretensa modernidade. Nessa lógica, a lei só vale quando não contraria alguns interesses. Provavelmente, regras universais e o bem comum são considerados excentricidades".
Vale para o meio ambiente, vale para o conjunto da obra. Vale para o presente governo, vale para o anterior, de que dá prova a farta coleção de políticos que empobreceram o governo anterior e foram chamados para empobrecer também o atual.
Seria exagero dizer que vale para todos os governos anteriores desde as capitanias hereditárias? Tem-se, pois, que quem não se conforma com a mediocridade e/ou o retrocesso não tem "projeto" a escolher.
Nem fora do Brasil, aliás. Vide o resultado da eleição para o Parlamento Europeu. No meio de uma crise formidável, provocada pelo exagero de liberalismo, ganham os "projetos" liberais e/ou conservadores e ainda avança, em dez países, a retrógrada extrema-direita.
O "projeto alternativo" que em tese (só em tese) seria representado pela social-democracia perde onde é governo (Espanha e Reino Unido) e perde também onde a direita é governo (França, Itália e Alemanha), para ficar só nos grandes países do conglomerado europeu.
As Marinas Silvas deste mundo vão acabar falando sozinhas. Pena.

UM ENCANTO PARA A MULHER


CLÁUDIO HUMBERTO

“Vamos obstruir todos os projetos e impedir votação dos créditos”
DEPUTADO OTÁVIO LEITE (PSDB-RJ), SOBRE A REAÇÃO DA OPOSIÇÃO EM RAZÃO DAS CPIS

BOEING DA VARIG FOI ABATIDO POR CAÇAS RUSSOS
O cargueiro 707-323 da Varig, que desapareceu em 30 de janeiro de 1979, quando sobrevoava o Pacífico entre Tóquio e Los Angeles, foi abatido por caças soviéticos. A revelação foi feita a esta coluna por um ex-agente de inteligência brasileiro que ouviu o relato de um ex-agente da KGB que participou da operação. Domingo, o “Fantástico”, da Globo, mostrou que familiares dos 6 tripulantes há 30 anos aguardam respostas.
CARGA SECRETA
Os russos atacaram porque o Varig estaria transportando aos EUA, em segredo, partes de caça Mig 25 levado a Tóquio por um piloto desertor.
LÍNGUA NOS DENTES
Cooptado pelo serviço secreto inglês, o ex-agente da KGB soviético veio ao Brasil em 1982 e contou tudo a agentes que fizeram sua segurança.
ULTRA-SECRETO
O governo brasileiro jamais revelou às famílias dos tripulantes a decisão de colaborar com a CIA, levando pela Varig partes do Mig 25 aos EUA.
OUTRAS VÍTIMAS
O Brasil perdeu também 153 telas do artista Manabu Mabe, que eram trazidas de volta no cargueiro da Varig após uma exposição em Tóquio.
JUSTIÇA PEGA NA MENTIRA ÓRGÃO PENITENCIÁRIO
A Justiça Federal de Brasília suspendeu a compra, pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, de aparelhos Body Scan (escaneador de corpo para presídios federais). O Depen garantiu que a fornecedora escolhida era a única que tinha o equipamento no mundo inteiro, para justificar a compra sem licitação. Mas a Justiça Federal descobriu mais de duas dezenas de concorrentes.
CUSTO TOTAL
Os seis aparelhos custaram mais de R$ 3 milhões, adquiridos à empresa Smiths Heimann por meio da brasileira Ebco Systems Ltda.
DAS DUAS, UMA
A situação no Departamento Penitenciário Nacional está preta porque ninguém responde à pergunta: errou porque quis ou foi induzido a erro?
SAÚDE ABALADA
Continua o inferno astral do deputado Edmar Moreira, o dono do castelo de Minas Gerais: ele enfrenta sérios problemas de saúde.
ARMA ROUBADA
Roubaram um revólver calibre 38 de um segurança da Presidência da República, enquanto ele trabalhava (ou dormia, sabe-se lá). O Gabinete de Segurança Institucional confirmou a esta coluna o sumiço – constatado durante a passagem de serviço – e abriu inquérito.
PETRÓLEO ERA NOSSO
O presidente Lula contou ao governador do Rio, Sérgio Cabral, um dos seus segredos mais bem guardados: a intenção de mudar a Lei do Petróleo, que é um dos legados de FHC. Informado disso, o ex-ministro Eduardo Jorge, secretário-geral do PSDB, avisa: “Vou ficar de olho”.
DROGA DE MINISTRO
O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) terá de comparecer nesta terça à Comissão de Combate ao Crime Organizado, na Câmara, para explicar sua participação há um mês na marcha de apologia ao uso de maconha.
COINCIDÊNCIA
Filho perdulário da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata do PT à sucessão de Lula em 2010, o PAC vai gastar 20% a mais no ano que vem. Claro, é justamente o ano da sua pretendida eleição.
VAI DAR ROLO
O presidente Lula está a um passo de pedir aos petistas Jaques Wagner, na Bahia, e Fernando Pimentel, em Minas Gerais, para desistirem de suas candidaturas ao governo e apoiar os candidatos do PMDB.
CARGO NOVO
O cunhado do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, o empresário Francisco Feitosa assumiu a presidência regional do Democratas no Ceará.
PERDEU A PACIÊNCIA
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), está irritado com a ideia do governo Lula de lançar o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ao governo paulista. Para Serra, o Planalto quer forçá-lo a permanecer na disputa estadual e inviabilizar sua candidatura à Presidência,
em 2010.
ESFORÇO
Por determinação do Palácio do Planalto, o Dnocs ingressou com 997 ações na Justiça Federal para agilizar a desapropriação de terrenos e apressar as obras de transposição do Rio São Francisco. Lula quer inaugurar ainda como presidente a maior obra do País.
NOSSA GRANA
Nos próximos doze meses, a Agência Brasileira de Inteligência vai gastar R$ 755 mil em cópias, impressões e digitalizações.

PODER SEM PUDOR
EXPURGOS PETISTAS
Observando a lavagem de roupa suja do PT, no Senado, em 2003, o líder do PSDB, Arthur Virgílio, concluiu que o “neo-stalinismo” petista é mesmo inspirado nos expurgos soviéticos. Ele comparou, por exemplo, a senadora Heloísa Helena a Leon Trotsky e o deputado Babá a Kamenev, e alfinetou:
– Só espero que o presidente não vire um Aleksandr Kerenski.
Apeado do poder, Kerenski acabou exilado, quem diria, em Nova York.

DORA KRAMER

Água mole

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/06/09

O presidente da República rejeita a ideia, a exiguidade dos prazos e a ausência de condições políticas confirmam que não há hipótese de o Congresso mudar a Constituição para permitir duas reeleições seguidas aos presidentes, governadores e prefeitos, notadamente a tempo de a regra entrar em vigor para a eleição de 2010.

Contudo, não obstante as evidências e as negativas há um fato: a emenda constitucional criando a possibilidade de os chefes de Poderes Executivos concorrerem a um terceiro mandato está na pauta do Parlamento.

E a oposição, que vinha toda catita com a dianteira nas pesquisas – ao ponto de se dar ao luxo fazer da divisão interna um passatempo – agora terá de se dedicar ao trabalho de remoção do entulho. Será obrigada a cuidar de um artefato nascido nas hostes governistas e ainda ouvir que fica nervosa à toa.

Os aliados do presidente Luiz Inácio da Silva tanto fizeram que o assunto, que em tese não deveria estar sendo discutido nem por brincadeira, entrou na agenda legislativa. Pela porta da frente, com o apoio de um terço dos deputados (a maioria do PT e do PMDB) e uma justificativa estapafúrdia.

De acordo com o autor, o deputado Jackson Barreto, a popularidade do presidente Lula significa que o brasileiro desejaria a sua permanência na chefia do governo e, por isso, se deve abrir um espaço constitucional para a materialização da manifestação desse agrado.

Por essa lógica, quando um presidente estiver desagradando ou não conseguir “bons” índices de popularidade, a Constituição também deveria ser alterada para possibilitar a interrupção do mandato e, assim, oficializar a instabilidade política como regra no Brasil.

O presidente Lula até agora não fez um gesto objetivo para enterrar de vez essa história de terceiro mandato. É verdade que não alimentou a iniciativa quando ainda havia tempo, mas, por algum motivo, não só deixa que o cadáver transite insepulto, como ultimamente parece bastante satisfeito com isso.

Na semana passada, foram duas declarações simulando flexibilização da posição contrária. Na Guatemala, disse que a reeleição continuada é “assimilável” quando obtida de “forma democrática”. Vale dizer, sob a égide da Constituição.

Dois dias depois, já de volta ao Brasil, o presidente resolveu provocar os oposicionistas que reagiram à nova investida – desta vez bem-sucedida – do deputado Jackson Barreto. Achou “engraçado” o nervosismo da oposição, porque a proposta apresentada não institui pura e simplesmente o terceiro mandato, mas estabelece o referendo “que as pessoas podem derrubar na hora que quiserem”.

Na oportunidade, Lula informou que ia “conversar com os aliados” a respeito. Note-se: não impôs reparo à proposição de Barreto nem firmou compromisso de, na “conversa”, enquadrar quem quer que seja aos costumes vigentes.

Optou pela dubiedade, pelo gracejo e por confundir as ideias. Sobre o referendo, por exemplo, que só ocorre depois de a matéria passar pelo Congresso.Tais atitudes divergem das negativas peremptórias, destoam da realidade objetiva e, principalmente, demonstram uma inadequada e inquietante ligeireza do presidente da República ao tratar de um tema dessa importância institucional.

E por que fazer isso em tom de quase zombaria? Para dar a impressão de que são os adversários que levantam a questão como uma maneira de criar constrangimento ao governo, e que a imprensa embarca na onda para alimentar versões fantasiosas e transformá-las em notícias.

O presidente é bom na inversão dos fatos. Naquele mesmo dia, Lula pediu atenção na campanha eleitoral contra “os salvadores” da pátria: “Vocês viram o que fizeram comigo em 2005.” Referia-se aos adversários, que não fizeram nada contra ele. Ao contrário.

A denúncia do mensalão saiu da base governista e a oposição deixou passar em branco a confissão de Duda Mendonça na CPI sobre o pagamento de seu trabalho como publicitário da campanha presidencial de 2002, por meio de caixa 2.

É de se observar agora que a emenda da “rerreeleição” está no Congresso qual a atitude do governo e dos governistas. Os partidos de oposição mandaram seus deputados retirar as assinaturas de apoio à proposta.

O PT e o PMDB posicionaram-se contra, mas não mexeram uma palha para impedir o início da tramitação. Terão oportunidade de sobra, entretanto, de ajudar o arquivamento. Basta que deem seus votos na Comissão de Constituição e Justiça.

Se hesitarem, significa que ao governo não interessa matar esse mal na raiz. Convém, por algum motivo, deixar que ele prospere introduzindo um fator de perturbação na campanha eleitoral já suficientemente conturbada pela antecipação artificial do processo.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, batizou a coisa do nome certo, “pseudotema”. Só omitiu do monstrengo a filiação.

O CHEFE DA QUADRILHA

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Petrobras baixa gasolina, mas não para consumidor

- Folha: Preço do diesel cai 15% na refinaria

- Estadão: Diesel tem redução de 9,6% e gasolina só cai na refinaria

- JB: Voo 447 - Pilotos da Air France ameaçam a empresa

- Correio: Teste de qualidade pode fechar escolas no DF

- Valor: Pré-sal terá sistema de partilha e fundo social

- Estado de Minas: Esperança para a rodovia da morte

- Jornal do Commercio: Mais 4,343 vagas para professor

segunda-feira, junho 08, 2009

DENIS LERRER ROSENFIELD

Santo Agostinho e a liberdade


O Estado de S. Paulo - 08/06/2009
O Santo Agostinho das Confissões é o filósofo que se debruça sobre a busca da verdade, tendo como testemunho o seu "errar" anterior ao da descoberta de Deus, os seus caminhos numa vida de libertinagem, caracterizada pela pergunta sobre o sentido da existência humana, sobre o verdadeiro bem. Isso significa que a descoberta de Deus é posterior à livre investigação interior. A primeira das liberdades é a de "procurar".

O livre-arbítrio está voltado para o bem e para o justo, embora aquele que age se possa equivocar sobre o seu sentido, tomando um falso bem por um verdadeiro, um bem mutável por um imutável. Isso significa que a busca do bem é algo intrínseco ao ato de sua procura, de tal maneira que não pode, moralmente falando, intervir aqui um poder superior que imponha objetivamente, por um ato de Estado, o que deve ser o bem. O cerceamento do livre-arbítrio é o caminho mais curto para que o bem desapareça.

A livre escolha faz parte da condição humana e, nesse sentido, pode-se dizer que ela é algo querido por Deus, mesmo que o erro e o engano, em suas consequências, sejam tidos por implícitos em sua realização. A liberdade de escolha consiste num ato de abertura para as mais distintas formas de bem (ou de sua ausência como mal), desdobrando-se das mais diferentes maneiras, numa busca incessante que atormenta a subjetividade humana, sobretudo a mais consciente. Em sua forma mais simples, ela se constitui numa alternativa entre duas possibilidades que se apresentam como excludentes. A satisfação de uma exclui a da outra.

A liberdade interior, segundo Santo Agostinho, é um bem muito maior do que todos os bens exteriores, os que podem ser ganhos por intermédio de coisas externas, como o são os bens da riqueza, da concupiscência e do poder. Ou seja, trata-se de um bem que poderia ser dito imaterial e que aparece ao espírito em sua relação consigo. Enquanto bem maior, ele é superior a todos esses outros bens do mundo a que estamos acostumados em nossa vida cotidiana e que almejamos na maior parte das vezes. Acontece que esse bem, que se encontra mais distante dos poderes do mundo, pode ser por estes alcançado, como quando uma pessoa se volta para o que é estimado e valorizado externamente como um bem. Assim, se uma pessoa segue a opinião corrente, sem se indagar por sua validade, se ela segue os ditames do Estado no que diz respeito ao que este estima correto ou elogiável, ela pode, progressivamente, tornar-se uma "alma escrava", incapaz de decidir por si mesma.

Os bens do mundo são, por sua própria natureza, bens mutáveis, submetidos às mais diferentes transformações e mesmo acepções. São bens cuja natureza consiste em poderem ser separáveis das pessoas que os detêm. Os prazeres da carne, da mesa, do poder e da riqueza podem ser separados das pessoas que naquele momento os usufruem. Assim, um devasso pode perder o objeto de seu prazer, um glutão pode não ter mais o que comer, um político pode perder o seu poder e um homem rico pode perder a sua fortuna. Todos estavam apegados a formas de bens relativas, submetidas às condições mutáveis da existência humana.

Decorre daí o valor da liberdade subjetiva como um bem maior, que não pode ser objeto de coerção exterior, pois é nela que se estabelecem as condições de adesão a um bem maior, objeto da liberdade de escolha. Filosoficamente, isso significa que a liberdade de escolha, entendida como esse ato subjetivo da liberdade, não deveria ser cerceada por uma força exterior, pois a própria busca do bem estaria prejudicada e, com ela, a própria opção pelo bem maior. Quando o Estado impõe o bem, ele retira do livre-arbítrio essa opção e, ao fazê-lo, torna o homem servo de um poder superior que o ultrapassa. O bem não escolhido, na verdade, cessa de ser um bem, pois não é mais o resultado do livre-arbítrio.

O Estado moderno, em suas vertentes autoritárias e, extremas, como totalitárias, tende a impor o que entende como sendo o bem, o bem tal como ele o concebe. O Estado coloca-se na posição daquele que sabe o que é o bem maior, numa espécie de sucedâneo do absoluto, desconhecendo que o verdadeiro bem é o que nasce da liberdade de escolha e, em particular, da liberdade subjetiva e religiosa. É como se a condição humana devesse não ser reconhecida na diversidade de noções de bem que a ela se oferecem, diversidade tanto maior quanto maior for a liberdade de escolha, mas devesse ser tida por objeto de uma espécie de moldagem estatal. O bem imposto pelo Estado é aquele que parte do cerceamento da liberdade de escolha.

Tomemos dois exemplos do Brasil atual: o do uso obrigatório do GPS e o da proibição do fumo, em lei aprovada pela Assembleia Legislativa paulista e objeto de uma lei que tramita no Senado Federal. Em ambos os casos observamos o Estado impondo aos cidadãos o que entende como sendo a sua noção do bem - no primeiro, o da segurança e, no segundo, o da saúde. Os indivíduos são considerados incapazes racionalmente de escolher o que é melhor para si, como se fossem menores que deveriam ser guiados por um pai que tudo sabe.

Note-se que o objeto a ser atingido é a própria liberdade de escolha, não podendo o indivíduo escolher colocar ou não o GPS em seu carro ou fumar num lugar exclusivamente reservado, com exaustores apropriados, de tal modo que o bem e o direito alheio não sejam atingidos. O bem imposto do exterior não é objeto de uma deliberação subjetiva, da liberdade do homem que busca a si mesmo nas distintas opções de sua vida. Ele não é valorizado como homem stricto sensu, enquanto livre, na procura incessante do bem, mas como ser objeto de imposição. Por que não, amanhã, proibições relativas ao consumo de bebidas alcoólicas, alimentos com gorduras e/ou colesterol ou ao uso de celulares, por causa das radiações que incidem sobre o aparelho auditivo? Onde está o limite, quando o Estado age sem limites?

ESCOVANDO OS DENTES


INFORME JB

Sarney chega e entra na briga


Jornal do Brasil - 08/06/2009

É hora do jogo. Depois de passar aliviado pela cirurgia da filha, a governadora Roseana Sarney (MA), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) (E), chega hoje a Brasília para contornar o imbróglio em torno da CPI da Petrobras, e evitar que o assunto chegue às mãos do presidente Lula. Foi um apelo do presidente da República, que não quer interferir no impasse. Sarney vai chamar ao gabinete hoje os senadores mais próximos, entre eles Renan Calheiros (AL), e criar uma estratégia para afundar a comissão. É acordo com o Planalto. A ideia é postergar o assunto até ser esquecido. PT e PMDB já sabem que o PSDB topa também parar por aqui. Falta só convencer o DEM. Sarney vai chamar o líder do partido, José Agripino Maia (RN) (D), para negociar.

Barril parado

"A Petrobras está parada", diz um senador da base. E explica a posição dos tucanos: "Na campanha, eles podem ser apontados os culpados disso, por isso já pensam em recuar na CPI".

Debandada

O Informe antecipou que o PSDB dá passos para trás: já fala em preservar Guilherme Estrella.

Angra I

A Usina Angra I foi conectada ao Operador Nacional do Sistema Elétrico, na quinta. Estava desligada desde o dia 24 de janeiro, para troca dos geradores de vapor. Até dia 21, atinge 100% da capacidade.

Só festa

A reunião de Lindberg Farias (PT) com 800 portuários no Rio, no sábado, e o apoio de Wagner Montes (PDT), é só barulho para pressionar o governador Sérgio Cabral, com quem o petista tem trato, a não abandoná-lo.

Carta de Beth

A cantora Beth Carvalho, que recebeu Medalha da Ordem do Mérito do Trabalho, escreveu uma carta ao presidente Lula, agradecendo, e anexou cópia do bilhete que enviou à ministra Dilma Roussef, dando apoio à candidata do PT na campanha presidencial.

Baeta

Hermann Baeta, presidente nacional da OAB de 85 a 87, recebe hoje a medalha Raymundo Faoro em evento na seccional do Rio.

Resgate...

A governadora do Pará, Ana Carepa, assinou em Brasília o Programa de Reestruturação Fiscal, que permitiu ampliar em mais de R$ 570 milhões a capacidade de endividamento do estado. Vai investir em infraestrutura nas cidades atingidas pelas chuvas.

...e promissória

Dos R$ 570 milhões, R$ 244 milhões são destinados a compensar o Pará pela perda do Fundo de Participação dos Estados.

O ‘francês’

O TCU condenou Gerson Luiz Koch a pagar ao CNPq R$ 726.442,43 por não ter apresentado sua tese de doutorado em curso na França.

Terra da soja

Pressionado pelos agricultores que querem acompanhar avanços tecnológicos, o governador Jaques Wagner (BA) inaugurou em Luiz Eduardo Magalhães, terra da soja baiana, o Centro de Pesquisa e Tecnologia da Bahia.

Decola, Jobim

O ministro Nelson Jobim faz palestra hoje em almoço do Lide, em São Paulo, sobre modernização aeroportuária.

Evolução do Peru

A Fundação Alexandre de Gusmão e a Unilegis, do Senado Federal, vão lançar o concurso de monografias Prêmio América do Sul 2009 com o tema Peru - Evolução recente e futura.

ADRIANO PIRES

A verdadeira história do pré-sal


O Estado de S. Paulo - 08/06/2009

"Os esquerdistas, contumazes idólatras do fracasso, recusam-se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos, e não pela clarividência do Estado" Roberto Campos


A história do setor de petróleo no Brasil apresenta duas grandes fases. A primeira foi iniciada quando o monopólio foi concedido à Petrobrás, no início dos anos 1950, após o sucesso da campanha "O Petróleo é Nosso", uma rara situação em que as Forças Armadas brasileiras e os partidos de esquerda ficaram de um mesmo lado. Essa campanha culminou na aprovação da Lei nº 2.004, em 1952, que concedeu à Petrobrás o exercício do monopólio, exceto na distribuição de derivados. Mais tarde, o monopólio da Petrobrás foi incorporado à Constituição.

Durante essa fase a Petrobrás não cumpriu a missão, para a qual foi criada, de tornar o País autossuficiente, ou até exportador de petróleo. Esse fato colocou o Brasil no Guinness Book como o único país no mundo a possuir uma empresa monopolista estatal de um produto importado. Não conseguindo ser um produtor relevante de petróleo, a estratégia foi a de transformar a empresa numa monopolista na produção de derivados de petróleo para o mercado interno. Durante essa primeira fase, foi construído praticamente todo o parque de refino da Petrobrás. Ainda nessa fase, em razão do primeiro choque do petróleo, em 1973, o governo tornou mais flexível a legislação do setor e criou os contratos de risco, que não obtiveram resultados positivos no tocante ao aumento da produção de petróleo. Somente com o segundo choque do petróleo, em 1979, foi possível viabilizar a exploração offshore na Bacia de Campos. Entretanto, a missão principal da empresa de transformar o Brasil num país autossuficiente em petróleo não foi alcançada nessa primeira fase.

A segunda fase foi iniciada com a sanção do presidente da República Fernando Henrique Cardoso da Lei nº 9.478. Para quem não se lembra, sua aprovação resultou de uma batalha ferrenha, e até emocional, entre a base de apoio ao governo Fernando Henrique e a oposição, liderada pelo PT. Essa lei deu fim ao então intocável e sagrado monopólio da Petrobrás.

Durante todo o debate que precedeu a mudança da Constituição e a posterior aprovação da Lei nº 9.478, a oposição afirmava que por trás da proposta do governo estava um plano maquiavélico de enfraquecimento da Petrobrás. Diziam os críticos da lei que, com o fim do exercício do monopólio, as grandes multinacionais do petróleo tomariam conta do setor e a Petrobrás seria sucateada e privatizada.

Nada disso aconteceu. Ao contrário do que afirmavam as pitonisas pseudonacionalistas, a Lei do Petróleo inaugurou uma fase gloriosa da Petrobrás e do setor de petróleo brasileiro. Na realidade, foi o fim da "Petrossauro", termo cunhado pelo saudoso Roberto Campos para descrever a Petrobrás daquela época. Nessa fase foi criada a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), pela mesma Lei nº 9.478, que de forma independente regulamentou a legislação e promoveu leilões de áreas que permitiram a entrada no setor de empresas privadas, no segmento de exploração e produção. Com a nova legislação, a Petrobrás ficou mais blindada contra intervenções políticas, fez parcerias com empresas que entraram no mercado brasileiro e finalmente cumpriu a sua missão de tornar o Brasil autossuficiente em petróleo.

É sempre bom lembrar que foi graças à independência dada pelo governo federal que a ANP pôde realizar os leilões, a partir de 1998, e uma das consequências foi a descoberta do pré-sal. As áreas do pré-sal pertenciam aos chamados blocos azuis que foram devolvidos pela Petrobrás antes de se iniciarem os leilões e o regime de concessões previsto na Lei nº 9.478. No leilão de 2000, a Petrobrás, em parceria com a BG e a Petrogal, adquiriu o que é conhecido hoje como Campo de Tupi. É interessante observar que todos os campos já descobertos no pré-sal integraram os leilões da ANP e em todos a Petrobrás tem parceiros e é a operadora. À exceção do Campo de Azulão, que é operado por uma empresa privada, no caso, a Exxon-Mobil. Portanto, sem os leilões promovidos pela ANP, a descoberta da camada pré-sal, com certeza, levaria mais tempo para ser anunciada ao mundo.

Portanto, não foram o governo do PT nem a atual direção da Petrobrás que descobriram o pré-sal. A história dessa descoberta, bem como da autossuficiência, começou a se concretizar a partir do momento em que o governo brasileiro entendeu que não fazia nenhum sentido econômico deixar que uma empresa estatal assumisse o monopólio do risco de explorar petróleo. Para dar fim a essa anomalia o governo da época abriu o mercado de petróleo no Brasil, permitindo a entrada de novos investimentos beneficiando a Petrobrás, que passou a ter maior liberdade de atuação e, com o seu quadro de funcionários altamente competentes, levou a empresa a bater todos os recordes de lucro e produção de petróleo.

É uma pena que o governo insista em nos colocar no túnel do tempo e nos levar de volta aos anos 50. Vamos resistir.

GOSTOSA


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PAINEL DA FOLHA

Limite ao contrabando

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/09

Depois de reinterpretar a Constituição para impedir que a pauta da Câmara seja completamente travada pelas medidas provisórias, o presidente Michel Temer (PMDB-SP) estuda um meio de restringir os "contrabandos" nos textos, truque usado à exaustão pelo Executivo e pelo próprio Congresso. Busca-se brecha jurídica que limite os enxertos a temas de alguma maneira relacionados ao objeto central da MP.
Na terça-feira passada, durante a votação da 460, Temer chegou a se dizer "embaraçado". Originalmente editada para reduzir tributos de construtoras do programa "Minha Casa, Minha Vida", a MP incluiu, em seu texto final, até a criação de 284 cargos na Susep (Superintendência de Seguros Privados).



Pós-Lula. O Planalto estuda enviar ao Congresso projetos de lei que garantam a continuidade de programas sociais como o Bolsa Família e o Prouni, independentemente de quem for o vencedor da eleição presidencial de 2010.

Padrão. A possibilidade de veto de Lula a artigos da MP 458, editada para regularizar terras griladas na Amazônia, estabeleceu uma divisão curiosa que vem se repetindo no Senado: de um lado, PT e PSDB (a favor dos vetos); de outro, DEM e PMDB.

Fantasma. Na CPI que não começa nunca, o PSDB pretende martelar o bordão de que a Petrobras não pode ser transformada numa "nova PDVSA", referência ao controle que o governo de Hugo Chávez exerce sobre a estatal.

Cosme... Valendo-se da proximidade com Renan Calheiros (PMDB-AL), Aldo Rebelo (PC do B-SP) tem ajudado a costurar o nome do correligionário Inácio Arruda (CE) para um dos postos de comando da CPI da Petrobras. A ANP é o objeto da preocupação dos comunistas do Brasil.

...e Damião. Graças à antiga amizade Renan-Aldo, Arruda atuou contra a cassação do peemedebista em 2007.

Força-tarefa. Há no PT quem sonhe com uma cédula em São Paulo que tenha um candidato do partido, Ciro Gomes (PSB) e outro aliado, como o prefeito de Campinas, Doutor Hélio (PDT). Tudo para tentar forçar segundo turno contra o nome do PSDB.

Nem pensar. Em resposta, o PSB avisa que a candidatura de Ciro a governador só existirá se apoiada pelo PT desde o início, para que ele tenha estrutura partidária e tempo de TV competitivo.

Help. Tão logo encerrado o encontro que o lançou candidato à presidência do PT pela maior corrente do partido, a "Construindo um Novo Brasil", José Eduardo Dutra telefonou para o governador de Sergipe, Marcelo Déda. Pediu ajuda para se aproximar da "Mensagem", a ala comandada pelo ministro Tarso Genro.

Na vitrine. O governador de Santa Catarina, Luiz Henrique (PMDB), vai se licenciar logo no início de 2010 para que seu vice, Leonel Pavan (PSDB), assuma e tenha um tempo maior de exposição. Se o tucano decolar nas pesquisas, deve ser candidato com o apoio do PMDB e do DEM. Do contrário, os três partidos buscarão alternativa.

Mundo ideal. O PSDB gostaria que Yeda Crusius anunciasse o quanto antes a decisão de abdicar da reeleição, fazendo apelo pela governabilidade. Isso permitiria ao partido se aproximar de José Fogaça (PMDB), segundo colocado no Datafolha e ameaça real a uma vitória do PT no Rio Grande do Sul. Norte a Sul. Os tucanos acham que terão bons palanques com Beto Richa no Paraná, Marconi Perillo em Goiás e Simão Jatene no Pará. Os maiores problemas, hoje, seriam a fragilidade no Ceará e os desentendimentos com o DEM na Bahia. Fui.O ex-deputado e várias vezes candidato a governador Moroni Torgan avisou à cúpula do DEM que está fora do páreo em 2010. Vai se mudar para Portugal, onde presidirá a igreja Mormon. Tucanos e "demos" seguem à procura de candidato competitivo no Ceará. O governador Cid Gomes (PSB) estará com Dilma.

Com VERA MAGALHÃES e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

"Se na oposição Kátia Abreu já tenta aparelhar, imagine como seria se estivesse no poder."


Do deputado FERNANDO FERRO (PT-PE), sobre o apoio da senadora do DEM-TO a Pedro Arraes Pereira, primo do governador Eduardo Campos (PSB-PE) cotado para presidir a Embrapa; os petistas são contra.

Contraponto

Day spa Com pendências a resolver, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, telefonou dias atrás para o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. Só conseguiu encontrá-lo depois de várias horas e seguidas tentativas.
-Por onde você andou?- indagou Mantega entre curioso e impaciente.
Gabrielli estava na cadeira do dentista, o que para muitos significa sofrimento, mas para quem anda perseguido pelos senadores da oposição pode ser um refúgio:
-Estou aqui fazendo um relaxamento...

FERNANDO RODRIGUES

Internet nas campanhas

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/09

BRASÍLIA - Depois de tantos fracassos e imposturas neste ano, o Congresso pode se redimir em parte levando adiante a ideia de liberar o uso da rede mundial de computadores na política. A proposta começa a ser debatida amanhã por uma comissão de deputados.
Hoje, os políticos brasileiros em campanha estão confinados a apenas um endereço na internet, regulado pelo TSE. Nada de blogs, twitters ou canais de vídeo no YouTube durante o processo eleitoral. É tudo ilegal, como se estivéssemos em Cuba ou na Coreia do Norte.
O Congresso e a Justiça Eleitoral no Brasil ainda não compreenderam exatamente o significado da internet. Agem como se fosse possível impor procedimentos regulatórios para o planeta inteiro.
O debate na Câmara, com o deputado Flávio Dino (PC do B-MA) à frente, é sobre a liberação completa da internet. As resistências persistem sobre o período de vigência dessa liberdade. Alguns consideram necessário estipular um prazo para campanhas eleitorais também no reino da internet.
As regras atuais são uma espécie de oficialização do cinismo. Candidatos a cargos públicos só podem se assumir como tal depois de formalmente nomeados por seus partidos, na metade do ano eleitoral. É um fingimento generalizado. Os políticos dizem em privado o que pretendem fazer e mentem em público para respeitar (sic) a lei.
A anomalia funcionava de maneira epidérmica na era pré-internet. Agora, nada impede a existência de sites no exterior expondo os pontos de vista de um determinado candidato, a qualquer tempo e época -e acessível aos milhões de brasileiros conectados.
Derrubar as barreiras legais -já inexistentes na prática- é uma providência positiva. Daria ao Congresso algum crédito neste período em que o Legislativo se especializou em produzir notícias ruins.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


DORA KRAMER

Fantasmas ao meio-dia

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/06/09

Perfeitamente incorporado à paisagem praiana do Rio, o ministro Carlos Minc causa espécie no ambiente do planalto. Não é o primeiro nem será o último personagem que aparece na capital da República imbuído da convicção de que, sendo peculiar, fará a diferença.
De vez em quando aparece um. Chama atenção, prende todos os interesses, divide opiniões, junta sempre muita gente, é assunto por um tempo, até que começa a pecar pelo exagero e entra na mira da máquina de moer boas imagens.
Carlos Minc está nesse ponto, pronto para a inflexão.No momento, o menor dos problemas do ministro do Meio Ambiente é a possibilidade de uma demissão. Desse mal não morre enquanto atender à necessidade do governo no tocante à concessão de licenças ambientais para as obras do PAC.
Esse risco também não corre enquanto mantiver acesa a chama da briga com os grandes produtores rurais. Coisa recente, segundo parlamentares na bancada que tiveram com Minc conversas “normais e cordiais” no ano passado.
Ao construir essa dicotomia o ministro dificultou qualquer ação contra ele, pois o menor gesto seria visto como vitória dos “latifundiários”. Fica o presidente Luiz Inácio da Silva de mãos amarradas. Daí a segurança de Minc ao informar sua permanência “até o fim do governo”, antes mesmo da conversa formal marcada com o presidente para tratar da “algazarra” durante a ausência dele.
Daí a retomada do ataque, em tom de deboche, sobre o desejo da bancada ruralista de cortar o “pescocinho do Carlinhos”.
Quanto mais tensão se mantiver entre ele e um grupo que não priva mesmo de boa fama, mais seguro fica no cargo, mais constrangimento as ONGs que reclamam da política ambiental do governo têm de ligar a queixa à pessoa de Carlos Minc, mais heroica parecerá sua posição, com mais consagração poderá sonhar na próxima eleição.
Enquanto se assiste ao conflito vazio, não se questiona a eficácia do ministro na administração das questões substantivas relativas ao ministério nem se contesta sua capacidade de acomodar interesses e avançar naquilo que lhe concerne: o manejo racional dos recursos do meio ambiente.
Mas, pelo jeito, Minc já percebeu que essa briga sempre esteve perdida. Ao governo importa pouquíssimo o destino do ambiente. Não é um tema que sensibilize a massa do eleitorado nem é algo que possa fazer frente a um robusto calendário de obras em cima de um palanque.
Se não quiser macular sua bem-sucedida trajetória de político e ambientalista, se não quiser sair por aí com a pecha de carimbador de licenças ambientais, Minc parece convencido de que terá de combater algum dragão da maldade para, no contraponto, ficar no papel de santo guerreiro.
Nada contra, é do jogo atuar para deleite da arquibancada. Apenas é preciso levar em conta aquele velho lema segundo o qual a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono. Até agora, a estratégica de Carlos Minc tem dado certo. Mas a falta de sutileza, o imperativo de marcar com tintas muito fortes sua posição, pode levar ao efeito contrário.
Tudo o que é demais, até o factoide, enjoa. E o ministro não tem sido muito hábil na calibragem do estilo carnavalesco, seu maior e mais poderoso inimigo. Muito mais que qualquer integrante da bancada ruralista.
Por ora, ainda há ali alguma intimidação, uma vez que no terreno dos simbolismos Minc é do “bem” e os produtores rurais são do “mal”. Ninguém em sã consciência quer briga com quem, em tese, é soldado do bom combate.
Mas, quando a insistência é muita, o público desconfia. Ele teria se saído razoavelmente bem da mais recente ofensiva - ou “algazarra” no dizer do presidente Lula - se tivesse parado no pedido de desculpas aos ruralistas por tê-los chamado de “vigaristas”.
Mas, não, resolveu insistir. Jactou-se da sustentação recebida para permanecer no cargo e, contrariando a promessa de ser mais cauteloso com as palavras, deu-se à imprudência de recrudescer. E aí já em termos de pura provocação, o que levanta nos eleitos como inimigos a forte suspeita de que ao reagir apenas batem palmas para o ministro dançar.
Minc sabe perfeitamente bem que o objetivo da “turminha” não é exibir como troféu o “pescocinho” nem a “picanha do Carlinhos”. Sabe que a agricultura no Brasil não é um valhacouto de vândalos interessados em transformar “nossos biomas em latifúndios, em monocultura”.
Sabe que o choque real de concepções se dá no governo. As derrotas de que reclama foram todas impostas dentro e não fora do governo. Portanto, Minc está fazendo, e de maneira consciente, uma guerra com fantasmas sob o sol do meio-dia, na impossibilidade de lutar contra os reais adversários, pelos motivos e com as armas certas.
Tenta ganhar a chamada guerra da comunicação, área de sua notória especialidade. Esquecido, porém, de que só existe um personagem na posse do salvo-conduto para exorbitar do verbo impunemente e o nome dele não é Carlos Minc.