domingo, maio 31, 2009
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
PERFEITO
Uma vez vi um homem desenhar na mesa de um bar o que ele chamava de O País Perfeito. O país não existia, ou existia mas não era bem um país. Seus limites arbitrários estavam no desenho do homem e incluíam toda a Provence no sul da França e o Piemonte e a Toscana no norte da Itália. Mônaco e um naco da Suíça entravam como brindes e para não fracionar o mapa. Cujo autor citava as razões pelos quais aquele seria o melhor país do mundo para se morar, numa equação que incluía qualidade de vida, qualidade de comida e bebida, qualidade de clima e qualidade de gente. Deve ser dito que isto foi em tempos pré-Berlusconi. Cada um pode inventar seu próprio país perfeito e até ignorar restrições geográficas e juntar, por exemplo, a Dinamarca, Vancouver no Canadá e o seu bairro. Que países você gostaria que começasse na porta da sua casa e fosse seu vizinho dos fundos?
GLUB, GLUB, GLUB
As ilhas Maldivas, no Oceano Índico, formam o país mais baixo do mundo. Sua elevação mais alta tem só uns quatro metros. Já calcularam que, com o degelo nos pólos e os mares subindo, as Maldivas estarão embaixo d’água antes do fim do século. E li que o governo está fazendo o seguinte: procurando um lugar para mudar o país. Toda a população será levada para uma área comprada, por exemplo, na Austrália, onde as Ilhas Maldivas serão refundadas, e onde um dia terão que explicar às novas gerações aquele “Ilhas” no nome. Dizem que já há milhares de corretores imobiliários se apresentando para agenciar o gigantesco negócio.
PAINEL
Antes mesmo de vir à luz o novo Datafolha, no qual a avaliação de Lula, que já era confortável, retoma o patamar pré-crise econômica, o presidente disse a um grupo de auxiliares que o momento exige "atenção especial", pois "a oposição está sem alternativa de discurso e só tem as CPIs para se agarrar".
Lula expôs seu raciocínio em reunião da coordenação política do governo, na quinta-feira. A oposição, afirmou, apostou primeiro na crise como um todo. Depois, no descontentamento dos prefeitos com a queda nos repasses do FPM. Em seguida, na mudança das regras da poupança. Em todas essas ocasiões, "ficou falando ao vento". O Planalto está empenhado em fazer com que o padrão se repita na CPI da Petrobras.
Veste Prada. Diante do acirramento das tensões entre governo e oposição devido à CPI da Petrobras, um ministro vaticina: "Junho será pior que maio e melhor que agosto. E, em outubro, todos os diabos vão estar de roupa nova".
Perguntar pra quê? O mico da semana ficou com Álvaro Dias (PSDB-PR), autor do requerimento da CPI, que postou em seu blog uma enquete sobre quem foi o melhor presidente do Brasil. Resultado: 66% marcaram Lula; 34%, FHC. Restou ao senador escrever nota na qual diz que "não concorda", mas "respeita" a opinião dos internautas.
Tudo isso. Um assessor presidencial define o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, como "o político mais próximo de Lula hoje". Credita ao cacique do PSB papel fundamental na definição da estratégia da campanha de Dilma Rousseff e de alianças país afora.
Veto. Dilma perguntou a Marta Suplicy de que deveria falar no almoço com um grupo de mulheres na casa da ex-prefeita, no dia 6. "Tudo menos PAC", sugeriu Marta. Dilma brincou: "Se eu falar de PAC, pode me pôr na rua".
Vingança. Responsável pela interpretação que permitiu contornar o bloqueio da pauta por MPs, Michel Temer (PMDB-SP) deve se deparar com um monte delas para assinar e remeter ao Congresso durante sua interinidade na Presidência, que começa hoje.
Braços. Vencedora de licitação de R$ 94,5 milhões da Secretaria de Pesca, a agência de eventos Dialog, que também realizou o encontro de prefeitos no início do ano em Brasília, possui uma "irmã" chamada Projects Brasil. Ela funciona no mesmo endereço, pertence ao mesmo dono e, em casos como o da licitação da Pesca, concorre também.
Para dois. Se a era Collor teve como marco inicial um pato laqueado degustado em Pequim, a reaproximação entre Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-presidente também tem sido feita à mesa. Os dois senadores almoçam frequentemente no italiano Bottarga, escondido numa loja de móveis no Lago Sul.
Checão 1. Mesmo depois das promessas da direção do Senado de impor regras mais duras para a prestação de contas da verba indenizatória, Gilvam Borges (PMDB-AP) mantém o velho estilo: declara ter gasto o teto de R$ 15 mil por mês, a título de "aluguel de imóveis para escritório político, compreendendo despesas concernentes a eles".
Checão 2. Gilvam, conhecido como "Chinelo" entre os colegas, arredonda num único recibo o que declara ser aluguel e despesas com um prédio em Macapá onde funciona seu escritório político.
Emplumado. Depois de ter sido convencido a ficar no DEM, o ex-governador baiano Paulo Souto voltou a flertar com o PSDB, pelo qual gostaria de disputar a sucessão estadual. Mas a cúpula do DEM diz que deu a ele o comando regional do partido e que não aceitará ser abandonada. Ameaça romper com os tucanos se a troca se concretizar.
Tiroteio
"É uma obsessão de certos setores da oposição e da base tratar deste assunto inviável. O objeto desse desejo, que é o presidente Lula, não aprova."
Contraponto
Justiça nada cega Nizan Guanaes aguardou por mais de três horas, na quinta-feira, para depor como testemunha de defesa do colega Duda Mendonça no processo do mensalão. Para descontrair o ambiente depois de tão longa espera, a juíza Silvia Maria Rocha, da 2ª Vera Criminal Federal de São Paulo, comentou com o publicitário:
-Nossa, como o senhor está magro!
-Fiz cirurgia para reduzir o estômago- explicou Nizan, o que deu origem a breve discussão sobre o tema.
Quando a oitiva ia começar, a juíza ainda opinou:
-Posso dizer uma coisa? O senhor está bonitão!
Na saída, Nizan comentou:
-Se eu contar pra minha mulher, ela não vai acreditar...
JANIO DE FREITAS
Problema mesmo, para a corrente pelo terceiro mandato, é o tempo, melhor aliado dos contrários |
A satisfação da camada de poder econômico está acima de todo o positivo que pudesse desejar de Lula. Aquele "eu estou com medo" que simbolizou, na disputa presidencial de 2002, o esperado de Lula pelos conservadores e o que as táticas da Guerra Fria lhes ensinaram, transformou-se em um sentimento próprio dos premiados.
"Lulinha paz e amor" neutralizou as inquietantes agitações do PT e de movimentos sociais, esvaziou o movimento sindical e suas greves e reivindicações, não mexeu nem no menor parafuso da estrutura socioeconômica: Lulinha pacificador. E com o Banco Central, fortalecido antes do caseiro falastrão pelo vivo Antonio Palocci, assegurou a proteção e a multiplicação do que compõe os objetivos permanentes dos conservadores: feito de Lulinha amoroso.
Onde não haja o velho direitismo extremado, seja ideológico ou religioso (ou este a fazer aquele), na classe média e daí para cima os que preferem a continuidade de Lula a qualquer risco são, diria a gíria, figurinhas fáceis. Por menos que se exponham -razões de classe, digamos. Atitude compreensível: a eleição de um adversário de Lula e do PT sempre será uma possibilidade de substituir paz e amor pela restauração das fermentações.
O que importa, diante da disputa que o empate das opiniões sugere, é que, mesmo minoritário na corrente desejosa do terceiro mandato, o lulismo conservador é parte da camada nacional que influi nas lideranças partidárias, nas práticas dos meios de comunicação e, daí, tanto na formação da opinião política como nas pressões mais diretas.
Mas nada disso é suficiente para subestimar a força política da corrente contrária ao terceiro mandato, localizada nos mesmos baluartes dos neolulistas. Na classe média, o grosso dos contrários a Lula parece estar na sua parcela mais participativa e com hábito de mobilização, uma espécie de zona sul carioca reproduzida nas capitais e cidades maiores. Aquela das marchas, das pinturas no rosto, dos slogans.
Em termos convencionais, a corrente do conservadorismo contrária ao terceiro mandato é mais forte, nem que seja porque mais numerosa, do que os favoráveis. Por si só, o embate já é interessante. Há, porém, um terceiro fator em campo: o contingente animado pelas bolsas disso e daquilo, pelos "nunca neste país" e "nunca mais neste país", pelas promessas grandiosas que independem de realização, os comícios diários em solenidades, em praça pública e, com fartura exaustiva, nos meios de comunicação.
Curiosa é a contradição nesse campo: nele há, em potencial, uma força imensa de mobilização e influência, mas o próprio Lula extinguiu-lhe, com a anulação do PT e do sindicalismo, a já precária capacidade de organização e ação consequente. O que não significa que a mobilização não possa ser recuperável. Ou seja, tudo vai depender, para um lado e outro, não só de sua força, mas, sobretudo, de sua tática.
Como sempre, Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, já antecipou o seu voto, caso o terceiro mandato resulte em julgamento: "Seria um casuísmo e inconstitucional". Pode ser, assim como a reeleição de Fernando Henrique terá sido uma coisa e outra. Seria inconstitucional se a Constituição não for submetida à necessária adequação para permiti-lo. Já o ministro Ayres Britto, aderente à moda antecipativa de Gilmar Mendes, previne que considera um terceiro mandato antirrepublicano, porque República exige o rodízio no poder. Mas, nem a ideia de República prevê prazos para rodízio, nem, como exemplo histórico, os Estados Unidos foram mais plenamente republicanos do que no período das quatro eleições sucessivas de Franklin Roosevelt.
Problema mesmo, para a corrente pelo terceiro mandato, é o tempo, melhor aliado dos contrários.
CLÁUDIO HUMBERTO
MINISTRA DILMA ROUSSEFF (CASA CIVIL), EM MAIS UM DISCURSO DE CANDIDATA, NO RIO DE JANEIRO
BATTISTI: ITÁLIA IGNORA NOVO EMBAIXADOR
O governo italiano se recusa a marcar a cerimônia de entrega de credenciais ao novo embaixador do Brasil em Roma, José Viegas. Trata-se de uma retaliação à decisão do governo Lula de conceder asilo político ao terrorista Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos de inocentes, na Itália. Viegas tentou agendar a cerimônia, mas foi informado de que isso não será feito por enquanto.
TAPA NA CARA
Ex-ministro da Defesa de Lula, o embaixador José Viegas já aguarda em vão há seis semanas o agendamento da apresentação de credenciais.
ESSENCIAL
Receber credenciais é o sinal de que o governo anfitrião reconhece no embaixador o legítimo representante do chefe de Estado do seu País.
SÓ TURISMO
Sem apresentar credenciais ao Palácio Cirineu, em Roma, na prática o embaixador José Viegas está impedido de exercer suas funções.
DOIS PESOS
Enquanto a prefeita de Natal, Micarla Sousa (PV), negou aumento nas passagens de ônibus, a de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), fez o contrário.
SENADORA PROPÕE CABRESTO NA FISCALIZAÇÃO
A proposta de emenda à Constituição da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) que extingue os tribunais de contas municipais, estaduais e da União já está na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O propósito é transformá-los em “Auditorias de Contas,” controladas pelas Casas Legislativas respectivas, subordinadas aos seus presidentes. Ou seja, o TCU e TCEs ficarão à mercê das vontades do Legislativo.
CONTROLE DO TCU
Segundo a assessoria da senadora Serys, o projeto apenas transforma os TCs em “órgãos de controle externo”.
DOIS MESES
O relator do projeto na CCJ, senador Valter Pereira (PMDB-MS), tem dois meses para entregar o relatório da PEC de Serys Slhessarenko.
NOSSA GRANA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária fechou um contrato de mais de R$ 1,5 milhão para ter brigadistas de incêndio em sua sede em Brasília.
LÁ E CÁ
O PSDB, segundo seu presidente, senador Sérgio Guerra, também vai manter escritório paralelo à CPI, com especialistas em licitações e que também dominem a estrutura da estatal, para ajudar nas investigações.
SAL COM ENXOFRE
Confirmada para o próximo dia 18 a visita de Lula ao Cazaquistão, que pouca gente sabe onde fica. O país asiático tem uma diversificada pauta de exportações, com destaque para sal, enxofre e ferro fundido.
GABINETE DE CRISE
O Planalto monta uma estrutura para subsidiar os aliados na CPI da Petrobrás, com dados que permitam responder principalmente sobre a gestão de Dilma Rousseff no Ministério das Minas e Energia.
O RETORNO
Preparando retorno à política, em 1º de julho o ex-presidente Itamar Franco vai reencontrar em Juiz de Fora seus ex-ministros, quando do lançamento de um livro de elogios a ele. A conversa não será literária.
CORDA BAMBA
O futuro político do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que sonha disputar o governo de Goiás, está ligado à reação da economia à crise internacional e, principalmente, à redução do nível de desemprego.
TRABALHO ESCRAVO
Na área de siderurgia, as entidades sindicais reclamam de “condições sub-humanas de trabalho” impostas pela Companhia Siderúrgica Nacional de Benjamin Steinbruch, amigão do presidente Lula.
RESTRIÇÃO A TERCEIRIZADOS
Terceirizado não pode atuar em “atividade fim” em concessionárias do serviço público, segundo o Tribunal Superior do Trabalho ao julgar ação contra a Celg, empresa de energia de Goiás, e se estender a todo o País.
NAU SEM RUMO
A Câmara Legislativa do DF continua desafiando aqueles que ainda defendem sua existência. Das 462 leis aprovadas entre 2004 e 2007, 313 foram declaradas inconstitucionais pela Justiça. Outras estão na fila.
É DIFÍCIL, MAS...
Antes de votar o veto ao reajuste dos aposentados, em julho, a Câmara deve votar a proposta de política de reajuste permanente para eles.
PODER SEM PUDOR
RELÓGIO DE PONTO
O presidente Jânio Quadros chegou atrasado à abertura de uma exposição no Museu de Arte Moderna, no Rio. Em meio ao assédio dos eleitores, ele foi abordado por um funcionário do MAM, que pediu com toda humildade:
– Presidente, preciso de um autógrafo para me justificar em casa. O senhor atrasou muito e a patroa não vai acreditar que eu estava trabalhando...
Jânio deu uma gargalhada, sapecou um autógrafo e observou:
– Compreendo o seu desespero. Concordo que é preciso tratar bem as mulheres. Mas é a primeira vez na vida que sirvo de relógio de ponto!
DORA KRAMER
A lei? Ora, a lei...
O ESTADO DE SÃO PAULO - 31/05/09
Quando estourou o escândalo das mordomias no Parlamento britânico, a crise dos abusos nos privilégios no Parlamento brasileiro estava no auge e as comparações foram inevitáveis. Dois pontos chamaram atenção: a semelhança da natureza dos desvios e a diferença no trato da questão. O primeiro mostrava que gente civilizada também prevarica. Em tese, nos colocava ombro a ombro com os costumes do Primeiro Mundo.
Mas o segundo derrubava o argumento, demonstrando a distância existente entre o Brasil e a Inglaterra no tocante à cultura sobre o manejo da coisa pública. Resumindo, a disparidade evidenciou-se na consequência.
Lá, caiu o presidente do equivalente local à Câmara dos Deputados, o primeiro-ministro condenou liminarmente as práticas, não obstante terem sido cometidas por seus aliados, e as pesquisas de opinião de imediato registraram o repúdio do público ao partido envolvido no escândalo.
Michael Martin, o similar inglês de Michel Temer, renunciou ao cargo. Não porque fosse acusado. Nenhuma das denúncias o envolveu, mas retirou-se de cena porque havia sido contrário à divulgação das informações sobre os privilégios em vigor no “clube privado de cavalheiros”, tal como o primeiro-ministro Gordon Brown definiu a Câmara dos Comuns.
Aqui, suas excelências tentaram resistir – com o aval dos presidentes da Câmara e do Senado –, justificando a legalidade das irregularidades, o presidente da República considerou uma “hipocrisia” às críticas aos abusos – aproveitando para confessar seus próprios desvios quando parlamentar –, as infrações foram todas anistiadas, a popularidade do presidente permaneceu intacta e as transgressões continuaram a ser reveladas.
No caso das passagens, o presidente da Câmara teve culpa (confessada) no cartório. No que tange aos privilégios abusivos, o presidente do Senado achou normal – e assim passou a ser considerado no geral – usar seguranças da instituição para vigiar suas propriedades no Maranhão.
Algum constrangimento, alguma concessão ao pudor? Nada. Só uma história de bastidor revelando que o presidente do Senado, José Sarney, cogitara da renúncia ao cargo em conversa com amigos. Não por vergonha das agressões individuais e coletivas às normas da boa conduta, mas por se achar injustamente atingido na majestade pretendida.
Caminhava o escândalo das mordomias no Parlamento brasileiro para o confortável limbo do esquecimento, quando a Folha de S. Paulo noticia que o pagamento ao auxílio-moradia aos senadores não tem sustentação legal.
A autorização desses pagamentos fora cancelada seis anos antes e, mesmo assim, o dinheiro continuou a ser religiosamente depositado nas contas dos senadores. Inclusive nas contas daqueles que têm moradia própria em Brasília e, por óbvio, não precisariam de tal benefício.
Entre os agraciados de maneira duplamente irregular com R$ 3.800 por mês estava ninguém menos que o presidente do Senado. Fiel à regra vigente, primeiro negou e, uma vez, exposto, confirmou.
Não sabia como o dinheiro fora parar em sua conta, uma vez que não havia requerido o pagamento do auxílio. Detectado o equívoco, pediu desculpas e ordenou a devolução.
E o vácuo, o período em que todos os benefícios foram pagos sem sustentação em regra alguma?
Rapidamente deu-se um jeito. Criou-se uma nova norma autorizando os pagamentos e atribuiu-se o passado à conta do equívoco para justificar nova anistia.
Ninguém procurou saber por que houve a suspensão dos pagamentos há seis anos. A fim de não suscitar mais polêmica, convencionou-se que houve “erro burocrático”. Mas será que houve mesmo? Ou na época aquela regra foi revogada em função de alguma denúncia sobre irregularidades na concessão dos auxílios-moradia?
No mínimo, seria necessário conferir. Nada impede de acontecer o mesmo com algumas normas alteradas em virtude da recente crise. Amanhã, numa próxima legislatura, quando suas causas se perderem na memória nacional, podem causar espanto e, para ajeitar a situação conveniente ao momento, ser recuperadas tal qual o modelo anterior.
Suposição? Não, mera constatação da realidade. No Brasil, diferentemente do que ocorre em nações de costumes mais civilizados, quando a legislação provoca qualquer abalo nos interesses de quem tem poder ou influência institucional, muda-se a legislação de forma a satisfazer os interesses anteriormente contrariados.
Talvez seja esse o ponto que separe os escândalos dos Parlamentos no Brasil e na Inglaterra. Lá, suas excelências dobraram-se envergonhadas aos ditames lei. Aqui, correm sem pejo para alterar os princípios da lei.
Isso responde, por exemplo, a uma questão aparentemente inusitada sobre o que há em comum entre o caso do auxílio-moradia e as mudanças na Lei Eleitoral propostas para, entre outras coisas, revogar a fidelidade partidária interpretada pelo Supremo Tribunal Federal conforme o que impõe a Constituição.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: PMs presos no Rio saem da cadeia só para matar
- Folha: 3º mandato de Lula divide o país
- Estadão: Multa é ‘esquecida’ após infrator ajudar Minc
- JB: Mulheres invadem a Bolsa de Valores
- Correio:CPI da Petrobras – Transpetro na mira dos senadores
sábado, maio 30, 2009
GOSTOSA: PELO SISTEMA DE COTAS DO BLOG
MERVAL PEREIRA
A crise entre o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, os produtores rurais, a quem chamou de “vigaristas”, e os ministros “desenvolvimentistas” chega em um momento delicado, em que o Brasil é chamado a ter um papel relevante na política internacional de preservação do meio ambiente. O governo do presidente Lula parece preso a um paradoxo: gosta da parte ambiental que favorece o Brasil, como os combustíveis alternativos. Mas não se conforma com as normas ambientais que atrasam as obras do PAC.
O filósofo e historiador americano Jim Garrison, presidente do State of the World, uma ONG criada por Mikhail Gorbachev dedicada à preservação do meio ambiente, está no Brasil desde o início do ano tentando obter o apoio do governo brasileiro para um plano ambicioso de antecipar de 2050 para 2020 as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa que devem ser definidas em uma reunião da ONU em Copenhagen no final do ano, em substituição ao Protocolo de Kyoto.
A ideia de Garrison é fazer uma conferência em uma cidade diferente nos próximos dez anos, “para chamar a atenção para esse enorme desafio”, e o Brasil seria a sede de 2010.
Para ele, o Brasil deve ser um dos líderes desse movimento, levando em conta justamente a política de combustíveis alternativos como o biodiesel e as condições climáticas favoráveis também à energia solar e de ventos.
Jim Garrison acha que o Brasil, por ser um dos maiores países do mundo, ter recursos naturais, viver em paz com os vizinhos e ser grande produtor de energia de fonte limpa (hidrelétricas), pode assumir a liderança desse movimento.
Garrison cita como bom exemplo a Cemig, companhia de energia de Minas, que tem 82% de sua geração de fonte limpa. Segundo ele, a Cemig, cujas ações são cotadas em Nova York, é considerada pela Dow Jones um destaque entre empresas do mundo que atuam na economia sustentável.
Diz Garrison que, segundo estudo do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology), mesmo que fosse alcançada uma redução de 80% nas emissões até 2050, a temperatura subiria 4 graus. Por isso a necessidade de antecipar a meta para 2020.
Outra consequência preocupante do aquecimento global seria a subida do nível dos oceanos. Com o derretimento do Ártico e Groenlândia, o nível dos oceanos subirá, no mínimo, 25 metros, adverte Garrison, o que atingiria todos os países que têm grandes costas marítimas, como o Brasil.
A elevação do nível dos oceanos forçará a migração das populações litorâneas para o interior, em meio à falta de alimentos.
O derretimento de geleiras afetará cerca de 2,5 bilhões de pessoas, especialmente na China e na Índia.
A ocorrência de secas também na América Central levará a que haja migrações para os Estados Unidos, e destes para o Canadá.
Será um “cataclismo”, segundo Garrison, que não acredita que os Estados Unidos possam liderar uma mudança nos hábitos da humanidade por estarem envolvidos com uma crise econômica de graves proporções, embora acredite que o governo de Barack Obama estará comprometido, na reunião do fim do ano, com um programa de redução do efeito estufa.
Garrison levará o resultado das discussões no Brasil para uma reunião em Washington, em novembro, quando será debatido o que levar para Copenhagen onde, defende, deve-se lutar para fixar para 2020 a meta de corte de 80% das emissões.
Jim Garrison volta a alertar: “Se as emissões parassem amanhã, seriam necessários milhares de anos para o ambiente se recuperar”.
Segundo ele, “o momentum (das emissões) é tão forte que já não se pode mais evitar que a temperatura suba de 4 a 5 graus até 2050”.
Garrison alerta sobre as emissões naturais do metano para a atmosfera, causadas pelo degelo, segundo ele, em quantidade seis vezes maior que tudo que a Humanidade produziu desse gás até hoje.
Ele conta que um comandante russo de navio, ao navegar pelo Ártico, testemunhou que a água borbulhava. Era o escapamento de metano. Sobre o que fazer, ele afirma que não podemos mais evitar o aquecimento, mas podemos evitar “o pior”.
“Se temos dez anos para nos preparar, temos que fazêlo decididamente”.
Há dias, encerrou-se em Copenhagen um encontro empresarial internacional de preparação à reunião do fim do ano, e seis medidas foram decididas, algumas delas já para 2020.
O pressuposto de Jim Garrison de que é inevitável o aquecimento de 4 a 5 graus até 2050 não é aceito pelo fórum, que está propondo medidas para limitar esse aquecimento a 2 graus. São as seguintes as medidas: — Acordo para o estabelecimento de metas de redução do efeito estufa que sejam atingidas em 2020 e 2050, de forma a limitar a média do crescimento da temperatura a 2 graus. Medidas de curto prazo devem ser tomadas, e as de longo prazo devem focar o objetivo de fazer com que as emissões globais caiam pelo menos à metade dos níveis de 1990.
— Medição das emissões por atividade de negócios para que as metas possam ser verificadas.
— Incentivos para um aumento dramático nos financiamentos de tecnologia de baixas emissões.
— Desenvolvimento de novas tecnologias de baixas emissões.
— Fundos para tornar as comunidades mais capazes de se adaptar aos efeitos da mudança climática.
— Meios para financiamento da proteção das florestas.
A grande surpresa do encontro empresarial em Copenhagen foi a posição dos empresários chineses , comprometidos com metas de redução dos gases de efeito estufa e com energias alternativas. (Continua amanhã)
MÍRIAM LEITÃO
O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia disse que nunca viu “tamanha série de enganos e equívocos” no Itamaraty. O cientista político Amaury de Souza acha que o governo não atingiu suas metas na política externa. Uma pesquisa feita por Amaury mostra que os brasileiros querem maior presença no exterior e só 1% quer que o país “cuide apenas dos seus próprios problemas”.
Entrevistei os dois na GloboNews sobre os desafios da política externa. Ambos listam erros e fracassos da atual política do governo Lula.
— Entrei no Itamaraty em 1963. Antes disso, meu pai era diplomata, de maneira que estou no Itamaraty desde que nasci. Confesso a você que nunca vi tamanha série de enganos e equívocos, que derivam em parte de falta de profissionalismo, em parte de perspectiva equivocada, de falta de planejamento e um certo ’juvenilismo’, um entusiasmo ideológico — disse o embaixador.
Nessa lista de equívocos, Lampreia inclui a ideia de mandar um embaixador para a Coreia do Norte — que teve de ser abortada — e a decisão de apoiar a candidatura do egípcio Farouk Hosny para a direção-geral da Unesco: — Eu creio, sinceramente, que a explicação básica está no fato de que o dr.
Márcio Barbosa, um homem de extrema competência e grande posição na Unesco, padece de um vício enorme: o de ter servido ao governo Fernando Henrique Cardoso. O Itamaraty tem longa tradição de respeitar posições diferentes e não ter facciosismo.
Ele acha que os árabes merecem um gesto nosso, mas esse foi o sinal errado.
— Primeiro, há um candidato brasileiro. Segundo, o egípcio é uma pessoa inaceitável.
Uma organização que se propõe a defender a educação e a cultura não pode ter como diretor um homem que diz que vai queimar livros. É uma contradição — afirmou.
Amaury, que está lançando o livro “A Agenda Internacional do Brasil”, disse que o Itamaraty está reagindo aos insucessos dos últimos anos: — Até fizemos alguns movimentos certos. Apostamos em Doha, mas não prosperou; derrubamos a Alca, mas nada foi colocado no lugar; não conseguimos reorientar o Mercosul e inventamos ao mesmo tempo uma Unasul, que não tem futuro brilhante. Nenhuma das metas do governo Lula foi alcançada: não conseguimos assento permanente no Conselho de Segurança da ONU; a aproximação Sul-Sul ficou difícil porque a China se considera do mundo desenvolvido; a integração da América do Sul avançou apenas retoricamente.
Continuamos precisando de uma infra-estrutura que ligue as costas do Atlântico e do Pacífico, de união energética e mais comércio. O nosso comércio é feito 96% por via marítima. Ou seja, não conseguimos atravessar nossas fronteiras terrestres comuns. Essa não é uma história de sucesso — afirmou Amaury.
No caso do Paraguai, Lampreia conta que o conflito em Itaipu é a bandeira que resta ao presidente Lugo, que não consegue vencer as máquinas dos partidos tradicionais, entrincheirados no governo, e que resistem à agenda dele.
Sobre Hugo Chávez, ele diz que definitivamente não se trata de um democrata: — É uma falácia dizer que a Venezuela é uma democracia só porque faz eleições plebiscitárias. A democracia não se compõe só de eleições. É independência de poderes, liberdade de imprensa, segurança jurídica, Estado de Direito. Nenhuma delas existe na Venezuela.
O livro de Amaury traz o resultado de pesquisas feitas com líderes de várias áreas sobre a política externa brasileira.
— Entrevistamos diplomatas, congressistas, senadores e deputados na Comissão de Relações Exteriores das duas Casas, empresários, empresas que estão voltadas para o comércio internacional, jornalistas, órgãos de representação de classe, Fiesp, CUT, MST. Há uma concordância enorme em relação à importância da ação internacional do Brasil. Só 1% dos entrevistados acredita que o Brasil deveria cuidar dos seus próprios problemas e esquecer o mundo. Todos querem ser parte da cena internacional. Não há consenso no que se tornou a linha mestra do governo Lula, como a de que o Brasil deveria priorizar o eixo das nações em desenvolvimento e baixar a prioridade da relação com Estados Unidos, Japão e Europa. Isso racha essa comunidade no meio — disse Amaury.
Na visão dele, a concepção original do Mercosul acabou. Agora, há uma grande incógnita.
— Se a Venezuela passa a integrar o Mercosul, qual é o modelo de futuro? Hugo Chávez não aceita as regras básicas de conformação do bloco, quais sejam: economia de mercado, uma área comercial para negociar com o mundo e democracia — diz Amaury Sobre a Coreia do Norte, Lampreia é direto: — O governo da Coreia do Norte é louco, louco de hospício.
Mas tem mísseis e bombas atômicas, o que é altamente perigoso. A comunidade internacional pode fazer muito pouco. O Conselho de Segurança pode aprovar quantas resoluções quiser, que eles não vão dar a menor bola. A única solução real é a China deixar de proteger discreta ou abertamente a Coreia do Norte.
O Brasil terá que lidar cada vez mais com questões globais, por isso, é melhor não cometer tantos erros.
BRASÍLIA - DF
Padrinho forte
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, terá muito o que comemorar amanhã, quando a Fifa anuncia as 12 cidades brasileiras que vão sediar a Copa do Mundo de 2014. Ele foi o maior defensor da candidatura de Cuiabá (MT). Quem conhece desse traçado garante que a torcida do magistrado foi maior do que a do governador do estado, Blairo Maggi.
Porta fechada
Incomodado com os crescentes boatos de uma possível candidatura do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, ao Senado, o PT baiano tem disseminado entre aliados que sua prioridade absoluta é a reeleição do governador Jaques Wagner. As duas cadeiras para a Casa, portanto, devem ser negociadas para forjar a aliança de 2010. "Está dito em resolução aprovada pelo PT, em 7 de março. O PT não vai voluntariamente indicar nenhum candidato a senador", diz o presidente do PT no estado, Jonas Paulo.
No vídeo
A oposição vai coletar as imagens de Lula no palanque (ops! numa solenidade) ontem no Rio ao lado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ele falou que não diria nada sobre eleição, mas soltou o verbo ao garantir que iria vencer o pleito de 2010, indicar Dilma com uma flor e arrematou falando da turma que só se aproxima de pobre no dia da eleição. "É o que a gente chama de político Xuxa: antes da eleição é beijinho, beijinho e, depois, é tchau, tchau".
No cafezinho
Sereia/ Ao justificar no PPS seu apoio à PEC do terceiro mandato, o deputado Nelson Proença (RS) fez um breve, mas ilustrativo, relato sobre a moça escolhida por Jackson Barreto (PMDB-SE) para coletar as assinaturas dos colegas. A desculpa não colou.
Prata da casa I/ O programa do Democratas do Distrito Federal, produzido pela GW, dispensou os narradores profissionais. Quem fará esse papel é o governador do DF, José Roberto Arruda, em três episódios que vão tratar de temas como governar perto da população, qualidade de vida e como resolver os problemas da cidade moderna.
Prata da casa II/ Artistas do Distrito Federal participarão do concurso para a escolha do samba enredo da Beija-Flor, escola eleita para homenagear o cinquentenário de Brasília no carnaval de 2010. O acerto foi selado ontem pelo vice-governador Paulo Octávio e pelo presidente da agremiação, Farid Abrão David. Trata-se de um agrado à categoria, que chiou por ter sido preterida no último aniversário da capital, em abril.
Silêncio forçado/A mudança de temperatura em Brasília deixou quatro senadores afônicos: Paulo Paim, Eduardo Azeredo, Fernando Collor e Mão Santa. Estão todos mastigando raiz de gengibre, in natura, receitadas por Heráclito Fortes. "É um santo remédio", diz ele. Heráclito não se conteve ao ver a sessão matutina de ontem encerrada às 10h25 quando normalmente prolonga-se com o Mão Santa falando até 13h. "As taquígrafas estão vibrando com a rouquidão do Mão Santa", comentou.
CELSO MING
O governo da França apresentou quinta-feira, em Paris, durante um evento realizado na sede da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a proposta de taxação das operações financeiras internacionais.
A ideia é instituir uma espécie de CPMF cuja criação foi defendida pela primeira vez em 1972 pelo economista James Tobin, Prêmio Nobel de 1982, que na ocasião se preocupava com o aumento do risco de crise internacional, uma vez que o presidente Nixon havia acabado com o padrão-ouro. Funcionaria como um pedágio que desestimularia operações especulativas.
A proposta ficou conhecida como Taxa Tobin e nunca teve boa acolhida. Em 2001, poucos meses antes de morrer, o próprio Tobin desistiu da sugestão, alegando que fora desvirtuada.
Ela havia sido incorporada pela Internacional Socialista como fonte de recursos para combater a pobreza. Mais interessados na arrecadação do que na sua função regulatória, também os movimentos antiglobalização liderados pela ONG francesa Attac se encarregaram de manter a peteca no ar.
Tal como apresentada agora pela França, essa taxa corresponderia a 0,005% (cinco milésimos) do valor das operações financeiras, o suficiente para proporcionar uma arrecadação anual de US$ 60 bilhões.
Em 1998, o então presidente brasileiro Fernando Henrique pediu, em carta enviada aos chefes de Estado do Grupo dos Sete (G-7), a instituição dessa taxa. Quatro anos mais tarde, o presidente Lula fez a mesma colocação no Fórum Econômico Mundial de Davos, repetida em 2005 pelo então presidente conservador da França, Jacques Chirac.
Os obstáculos políticos para a implantação da taxa são enormes. Os Estados Unidos e a Inglaterra nunca a aceitaram, um pouco por motivos ideológicos e outro pouco por razões práticas. Além disso, um imposto desse tipo exigiria cobranças e controles globais, mais a criação de uma instituição supranacional com poderes para cobrar, transferir recursos e punir sonegadores.
Os obstáculos técnicos também são relevantes. Não há, por exemplo, como distinguir rapidamente uma operação financeira de outra comercial, já que o comércio mundial (de mercadorias e serviços) é largamente financiado. Uma análise sobre a natureza de uma operação dessas levaria dias e, no entanto, as transações são feitas à velocidade da luz, 24 horas por dia.
Numa União Monetária, como a que prevalece na Europa, onde as operações de câmbio entre países foi eliminada, boa parte do fato gerador do imposto desapareceu. Além disso, uma taxa assim criaria mecanismos de compensação que evitariam transferências entre países. Se o Itaú, por exemplo, devesse US$ 1 milhão para o Deutsche Bank e este devesse US$ 1 milhão para o Bradesco, ficaria tudo resolvido se o Itaú passasse US$ 1 milhão para o Bradesco. Não existiria transferência, o imposto estaria sendo driblado e não haveria como impedir esse jogo.
O próprio Partido Socialista Francês uma vez no governo, sob o primeiro-ministro Lionel Jospin, havia desistido da proposta por considerá-la impraticável. Mas, como ocorreu com a ideia do idioma único (o esperanto), sempre aparece alguém que desenterra a Taxa Tobin e proclama que ela tem de ser adotada.
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Roberto Pompeu de Toledo
Notícias na TV
"Ô produtor de telejornal, meu semelhante, meu
irmão: de tanto caprichar na reconstituição da
realidade, não estarias criando uma obra de ficção?"
Em Roma como os romanos, na enchente como os molhados. O repórter nunca se contentaria em apenas mostrar as ruas transformadas em rios, os automóveis em jangadas, as casas em aquários. Precipita-se, intrépido, no aguaceiro e, molhado até o joelho, ei-lo, de microfone na mão, a desempenhar sua tarefa não apenas in loco, ao vivo e em cores, mas com os efeitos do dilúvio a castigá-lo na pele. É o jornalismo de imersão na notícia em uma de suas mais completas versões. Melhor, só se o repórter transmitisse do fundo da água. Se se tratasse de um vendaval, o ideal seria que pudesse se mostrar fustigado com tal ferocidade que tivesse de se abraçar a um poste para não alçar voo como uma pipa, o corpo já despregado do solo, os pés flutuando no espaço. À falta disso, pelo menos que se mostrasse com os cabelos ao vento. Sem cabelos ao vento, não há cobertura digna de vendaval. É imperioso escolher para a missão repórteres cujos cabelos sejam passíveis de esvoaçar ao vento. Na enchente como os molhados, na ventania como os ventados.
Agora a notícia é sobre a prisão dos implicados no último escândalo de caixa dois/suborno/desvio de verbas/lavagem de dinheiro/formação de quadrilha e, tanto quanto a polícia, é a TV que vai prender o suspeito. A TV madruga à porta do suspeito. O suspeito abre a porta, sonolento. A TV pespega-lhe as algemas. Ouve-se o clec das algemas se fechando. A TV encaminha o suspeito ao camburão. Força-o à laboriosa empreitada de entrar no carro manobrando o traseiro, dada a impossibilidade de contar com as mãos. O carro parte em disparada. Não basta reportar a realidade. Realidade é para os reality shows. A ordem é radicalizar o real. No próximo bloco: disparam os preços dos legumes – e o que fazer para proteger seu dinheiro em tempos de crise.
Se o réu agora são as leguminosas, vai-se flagrá-las igualmente em seu habitat. A repórter percorre o supermercado, empurrando um carrinho. Pepino – cinquenta por cento de aumento. Ela pega os pepinos da prateleira, põe no carrinho. Abobrinha – setenta por cento; berinjela – cem por cento; rabanete – cento e cinquenta por cento. Nesse momento uma freguesa, com seu carrinho, aproxima-se da repórter. Que freguesa distraída. Não viu que estavam gravando? Não viu as câmeras, não atentou para as luzes? Enquanto a repórter continua a elencar os pepinos e respectivos índices de aumento, a freguesa segue impassível, a escarafunchar as prateleiras, bem ali ao lado, e levar um ou outro produto ao carrinho. A repórter enfim lhe interrompe a rotina. O que a senhora achou dos preços dos legumes? Um escândalo! Estão muito mais altos do que na semana passada. Que sorte a freguesa ter aparecido bem nessa hora. Faltava à notícia o toque de drama doméstico que só a voz do consumidor é capaz de conferir.
Volta para o estúdio. Os âncoras fecham a cara. Estão bravos com o aumento de preços. E o que fazer para proteger o seu dinheiro? A reportagem é agora com um economista, que, compenetrado, surge fazendo cálculos na calculadora. A regra é clara: se a entrevista é com um escritor, tem de ter no fundo uma estante de livros; se com um biólogo, tem de mostrá-lo com um olho pregado no microscópio; se com economista, tem de ter calculadora. E o que fazer, em tempo de crise? Agora sim, ele levanta os olhos da calculadora e dá seu recado. Prudência nos investimentos. Não gastar mais do que se tem. Calcular os juros antes de comprar a prazo. Não comprar a prazo se se pode pagar à vista. (Ô economista! Precisava de tanto cálculo, para chegar a essas conclusões?) No próximo bloco: futebol. E o âncora sorri. É preciso sorrir quando a notícia é de futebol. Assim o público fica avisado de que esse é um assunto ameno.
São mostrados os gols da rodada. Segue-se reportagem sobre os nordestinos que se revelaram exímios fazedores de sushi nos restaurantes japoneses de São Paulo. Começa com a repórter passeando entre as mesas do restaurante. De forma mais espantosa ainda do que a freguesa do supermercado, ninguém parece se dar conta da presença da câmera. Continuam os clientes todos a conversar uns com os outros, entre uma manobra e outra com os hashis. (Ô produtor de telejornal, meu semelhante, meu irmão: de tanto caprichar na realidade, não estarias criando uma obra de ficção?) A repórter chega ao balcão, mostra o moço franzino cortando o salmão com perícia de esgrimista. O moço diz que veio do Piauí e que nunca antes tinha ouvido falar de sushi. Esplêndido: ele diz tudo o que se espera de um piauiense que vira fazedor de sushi. Volta ao estúdio. Os âncoras sorriem. O jornal termina com uma nota alegre e uma história de sucesso, como deve. Boa noite.
BETTY MILAN
Betty Milan
O poder da palavra
"Não somos educados para escutar o que dizemos.
Como se essa educação devesse ser privilégio do
psicanalista, e não um recurso ao alcance de todos.
O fato é que poucos são capazes de escutar-se,
e essa incapacidade é a maior razão do conflito
entre as pessoas e os povos"
A vida não é fácil e se torna impossível quando dizemos o que não deve ser dito. Com essa frase, eu poderia ter concluído a resposta dada a uma leitora da minha coluna eletrônica em VEJA.com, que corre o risco de prejudicar gravemente a própria filha por ser incapaz de se conter.
Ela deu à luz aos 16 anos por causa de um escorregão "daqueles que muita gente dá" e assumiu a responsabilidade materna, lutando para sustentar a filha e se ocupando de todos os detalhes da sua vida. Foi pai e mãe, durante mais de uma década. Só que agora, cansada de dar conta sozinha, perdeu a paciência e diz para a menina que ela não faz nada direito e não será nada na vida. Como se não bastasse, nos momentos de raiva, culpa-a pelo fato de ela própria não ter um emprego melhor, acrescentando que abriu mão de tudo para ser mãe. De tanto se sentir culpada, a menina responde que não devia ter nascido.
Não é preciso muito para perceber que essas falas – mortíferas – são uma condenação à infelicidade mútua. A mãe expõe a filha ao desejo do suicídio e a si mesma a uma perda irreparável. Mais comuns do que imaginamos, dão o que pensar sobre o poder da palavra.
Com ela, nasce o amor que move o sol e as estrelas, o doente pode curar-se e o morto segue para outro mundo sem deixar de existir no mundo dos vivos. Com ela, o consolo se torna possível e a dor da perda pode ser superada. A palavra serve para unir, curar, consolar... Mas também para desunir, prejudicar, desesperar... Em Grande Sertão:Veredas, Guimarães Rosa escreveu que viver é perigoso. Se substituirmos "viver" por "falar", teremos uma máxima igualmente verdadeira, pois falar também implica cuidado. Daí a razão pela qual se diz que o silêncio é de ouro.
Mas quem não fala não se liga realmente aos outros. Para encantar, é preciso correr o risco de decepcionar. Para ser aprovado, é preciso expor-se à desaprovação. Portanto, é imperativo falar. Isso significa que só nos resta saber falar, ou seja, não dizer o que não deve ser dito. Só resta a prudência, que, além de necessária, é possível, embora suponha vigilância contínua.
Nós nos fazemos por meio da palavra, e, no entanto, a consciência disso é insuficiente. Porque não somos educados para escutar o que dizemos. Como se essa educação devesse ser privilégio do psicanalista, e não um recurso ao alcance de todos. O fato é que poucos são capazes de escutar-se, e essa incapacidade é a maior razão do conflito entre as pessoas e os povos.
Quem se escuta está mais preparado para fazer bom uso da palavra. Para usá-la como um fio que conecta ao outro, e não como uma espada que separa e mata. A sorte depende menos do que nós possuímos do que do nosso controle, o de que nos tornamos capazes por termos aprendido a escutar o outro e nos escutar.
RUTH DE AQUINO
Uma coisa é um senador receber por mês R$ 3.800 como auxílio-moradia – mesmo morando em apartamento funcional, residência oficial ou imóvel próprio. É ilegal. Outra coisa é não pedir o auxílio-moradia, mas ganhar assim mesmo, por um “equívoco”. E a terceira coisa é não saber – não ter ideia – que há um ano esse valor é depositado em sua conta corrente. Dá um total de R$ 45 mil. Não sei o que é mais embaraçoso, mais difícil de explicar ao brasileiro comum.
O erro não aconteceu apenas com o presidente do Senado, José Sarney, como foi revelado pelo jornal Folha de S.Paulo. Os senadores João Pedro (PT-AM), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Gilberto Gollner (DEM-MT) também recebiam o auxílio-moradia, apesar de viver em apartamentos funcionais cedidos pelo Senado. Todos prometeram cancelar. Sarney, que vive em imóvel próprio, mas tem direito a residência oficial, prometeu devolver.
Seria interessante que essa quantia pudesse ser doada a dezenas de milhares de brasileiros que perderam suas casas devido às chuvas e enchentes. Não seria um uso nobre e adequado para algo que se chama auxílio-moradia?
Dois casos revelam enorme cara de pau. Os senadores Gerson Camata (PMDB-ES) e Valdir Raupp (PMDB-RO) recebem auxílio-moradia do Senado de R$ 3.800, mesmo tendo casa própria. O.k. Só que suas mulheres, deputadas, também recebem auxílio-moradia de R$ 3 mil da Câmara. Não é sensacional? Vamos todos fazer uma vaquinha para ajudar deputados e senadores a morar com estilo em Brasília.
Sarney pediu desculpas na quinta-feira por ter “passado informação errada” aos jornalistas. Ele tinha garantido dois dias antes que jamais recebera o auxílio-moradia. Depois admitiu que estava enganado. Ele afirmou que não teria sido adequadamente informado por sua equipe de assessores.
em sua conta. Melhor que pedir desculpas depois
“Eu nunca pedi auxílio. Por um equívoco, a partir do meio de 2008, verificaram que realmente estavam depositando na minha conta. Mas eu já mandei dizer que retirassem, porque nunca requeri e tinha a impressão que não estava recebendo. Eu dei uma informação errada e peço desculpas”, disse.
Aos 79 anos, Sarney é um dos políticos mais experientes, hábeis e poderosos do Brasil, muito admirado pelos pares por suas qualidades de articulador. Foi aliado de FHC, hoje é aliado de Lula. Raramente se altera. Ex-presidente da República, é imortal da Academia Brasileira de Letras pelos poemas e livros que cometeu. Também foi imortalizado em seu Estado.
Para nascer, no Maranhão, há a maternidade-referência Marly Sarney. Sarney dá nome a vilas, escolas. Os maranhenses pesquisam na Biblioteca José Sarney. O Tribunal de Contas foi batizado de Palácio Roseana Sarney. Existe a Ponte José Sarney. Avenida, rodoviária, fórum levam o sobrenome da família. Tamanha homenagem em vida reflete a popularidade do senador em seu Estado e no país.
Quem o senador punirá por ter enfiado em sua conta-corrente – e, segundo ele, a sua revelia – um dinheiro a que não tinha direito? As desculpas de Sarney não apontam autor, o sujeito é indeterminado. Quem “estavam depositando”, quem “verificaram”, quem “vão retirar” o benefício irregular? Ficamos sem saber de quem partiu o equívoco. Quem, afinal, teria sido mais realista que o rei?
Estamos, felizmente, no Brasil, onde a imprensa pode se manifestar com liberdade – e não na Venezuela censora de Chávez, onde jornalistas que criticam o regime são perseguidos e onde o escritor peruano Vargas Llosa é retido por uma hora no aeroporto. Por isso, aí vai uma sugestão aos políticos: verifiquem suas contas-correntes. Conversem com seus assessores para entender quanto os senhores estão ganhando por mês e a troco de quê. Essa barafunda de verbas indenizatórias e auxílios e benefícios não ajuda a polir a imagem do Congresso.
A transparência – um esforço louvável – fará vir à tona mais e mais casos. Não tem jeito. Melhor mesmo é não ter de pedir desculpas.







