quarta-feira, abril 29, 2009

COISAS DA POLÍTICA

O Brasil e seu futuro

Mauro Santayana

JORNAL DO BRASIL - 29/04/09

No ‘Ensaio para uma teoria do Brasil’, publicado em 1966 – e agora reproduzido em livro (Comunidade brasileira e outros ensaios, Editora da Fundação Alexandre de Gusmão, 2009), o filósofo Agostinho da Silva fez correção dialética à ideia de que o Brasil é o país do futuro. O pensador português, que aqui viveu muitos anos, mostra que a profecia antiga partia da suposição de que esse futuro seria atingir os módulos de civilização dos países ricos e centrais. Agostinho pensava o contrário. Já então, ele entendia que a civilização europeia, com sua projeção atlântica, entrara em decadência. O Brasil é, sim, o país do futuro, mas do futuro que a sua sociedade criará, com liberdade, tolerância e fraternidade.

"O que nos interessa, agora, é realmente o problema do Brasil e da sua capacidade de liderar o futuro humano, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi inútil na educação europeia e exercer, com o esplendor e a vigorosa força de criação que pode demonstrar, as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, da inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo" – escreveu há 43 anos. Mesmo sob o látego do golpe militar, essas qualidades plurais do povo brasileiro eram evidentes. Esperava-se – e Agostinho também – que a arbitrariedade seria passageira, e o país retornaria logo à normalidade. Não poderia imaginar que, ao durar tanto, a ditadura deixaria sequelas terríveis na alma nacional.

Embora com todas as dificuldades que enfrentamos, o Brasil parece voltar a ser o país do futuro, não o futuro que então, e aqui, se imaginava. O texto de Agostinho é mais atual do que antes. Nós nos desviamos de nosso destino quando deixamos de inventá-lo. O culto à Europa e aos Estados Unidos, que teve o seu momento mais caricatural na passagem do século 19 para o 20, e se exacerbou grotescamente com o neoliberalismo, vem resistindo à lógica. Passamos a importar todos os modelos de fora, dos automóveis de luxo aos processos de administração pública, neles incluídas as leis, do sistema universitário às crises bancárias, da euforia dos cartões de crédito ao consumo de drogas.

Estamos diante da grande oportunidade de encontrar caminho próprio. O conceito do Brasil cresce no mundo, talvez porque seja, no imaginário da inteligência, o terreno – físico e espiritual – destinado a nova revolução histórica. É certo que, para isso, ele está sendo obrigado a fortalecer sua economia. Mas há, além do crafty power, com que a Newsweek o qualificou em matéria de capa, outras condições alentadoras. O Brasil, com sua biodiversidade, é o mais importante espaço para as pesquisas que contenham o aquecimento global e permitam também o usufruto da natureza sem lhe causar dano. Para isso, os transgênicos devem ser contidos a tempo. A Comissão Técnica de Bio-Segurança, ao permiti-los, está na contramão da lucidez.

A expressão maior da soberania de um povo é a independência mental. Não podemos, a pretexto de que já se inventou a roda, deixar de buscar outros meios de deslocamento. Somos chamados a ousar, se queremos aproveitar a oportunidade histórica. Ousar na reinvenção do Estado, nas pesquisas científicas e na criação de novos modos de convivência social, que sejam solidários e dinâmicos. Chegou o momento de romper com esse modelo de civilização que já se esgotou na História. Os países que sofreram a opressão do sistema, se souberem unir-se, poderão mudar o mundo. Nossa diplomacia, ao respeitar a autodeterminação dos outros, conquista amigos e não causa ressentimentos. A Espanha, orgulhosa de seu passado, tem sido muito arrogante, tratando com desprezo não só os viajantes da América Latina como os governantes hispano-americanos, como foi o caso de Duhalde, da Argentina, e Chávez, da Venezuela. Hoje, se esfalfa, buscando o apoio de nosso continente para ter assento no G-20, embora sem credenciais econômicas para tanto.

O passado é uma referência, mas não pode ser fardo a ser arrastado na escalada do tempo. Apesar do negativismo de alguns, o Brasil está em seu grande momento, e não pode perdê-lo. Daí a importância da reflexão de Agostinho da Silva: para fazer o futuro, devemos inventá-lo, com a alegria, o espírito universal de solidariedade, a inteligência criadora e a necessária consciência de que todos os brasileiros têm direito aos mesmos benefícios da civilização.

GOSTOSA


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RUY CASTRO

Liberty Ovais

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/09

RIO DE JANEIRO - O Tribunal de Justiça do Rio autorizou a realização de uma marcha da maconha em Ipanema, no próximo dia 9. Em nome da liberdade de expressão, fez bem. Não tem sentido proibir que os adeptos da maconha façam uma passeata exigindo sua liberação quando as pessoas já a fumam às claras, na praia, na esquina e em qualquer lugar.
Mesmo porque, se for como as anteriores, a marcha não deverá passar de 200 ou 300 gatos pingados, que são os militantes da liberação -pessoas sinceramente convencidas de que, com a maconha legalizada, os traficantes perderão a razão de ser e terão de se dedicar a vender pentes na Rua Larga ou churrasquinho na Central do Brasil. Não se cogita que, com a erva na legalidade, eles se concentrarão nos outros itens que já oferecem: ácido, cocaína e crack.
Seja como for, a marcha da maconha, por mais insignificante, será um tópico do noticiário, antes, durante e depois da sua realização. É um evento confortável: dar-se-á num sábado de manhã, a tempo de pegar os jornais de domingo, e atrairá uma galera exótica e colorida, garantindo boas fotos. E será em Ipanema, onde já há uma tolerância natural pelo produto. Pena que seus organizadores não a programassem para a Maré ou o Alemão.
O que me pergunto é como seria se 200 ou 300 incautos resolvessem fazer uma marcha a favor do cigarro comercial. Aposto que levariam todo o trajeto sendo ofendidos pelos antitabagistas -se chegassem a fazer a passeata, já que passariam a semana anterior sendo atacados em artigos e cartas para o jornal.
Os inimigos do cigarro devem achar que maconha é um negócio para passar na pele ou beber de canudinho -e não para acender, queimar e engolir fumaça, exatamente como o Marlboro, o Hollywood ou o antigo Liberty Ovais.

VINÍCIUS TORRES FREIRE

Porcos no espaço, gente lunática

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/09


"Gripes" novas no mundo têm matado menos gente que a dengue no Brasil, mas pessoas correm às farmácias



HÁ GENTE à procura de pacotes de remédios para gripe em São Paulo. Ainda não começou a temporada de gripe paulista, coisa muito comum nos invernos desta cidade de ar sujo, de gente estressada, estafada e espremida em ônibus e metrôs hiperlotados.
Mas basta um passeio por 14 farmácias da zona oeste e do centro da cidade para ouvir relatos de atendentes e farmacêuticos sobre o aumento maluco do número de pessoas a pedir antivirais, gel para limpar mãos, sabonetes antissépticos, remédios para sintomas de gripe e máscaras para proteger o rosto. Isso em lugares como a avenida Paulista, no Pacaembu e em Higienópolis (onde mora gente rica e, supunha-se, mais informada), em Santa Cecília, Campos Elíseos e no Centro Velho. Numa farmácia da avenida Angélica, no centro de Higienópolis, um homem de máscara comprou três caixas de antiviral, gastando o equivalente a um salário mínimo. Tomar antiviral sem estrita recomendação médica é um estrita idiotice. As pessoas estão doidas.
O México, epicentro da doença, rebaixou ontem de 22 para 7 o número de pessoas que, segundo exames, foram mortas pelo vírus dito "suíno", que por ora parece ser "agressivo" apenas no México, se tanto. Nos EUA, mais da metade dos casos ocorreu entre colegiais que viajaram pelo México.
Em 2008, 585.769 pessoas tiveram dengue no Brasil. Nesse ano, apenas a dengue hemorrágica matou 223 pessoas no país. Quase tantas quanto as mortas por outra sensação gripal que não decolou, a aviária (desde 2003, no mundo inteiro).
A cidade de São Paulo não é das mais afetadas pela dengue. Nuns anos têm 500 casos, noutros 800. Noutros anos, uma dúzia. Mas já houve microssurtos até no rico Pacaembu e na região da rua Oscar Freire, onde uma bolsa pode custar o preço de um carro e as pessoas andam em carros que custam um apartamento. Porém não houve comandos de erradicação de potinhos de água parada nem um surto de vendas de raquetes elétricas para matar mosquitos. Lembram-se das raquetes elétricas? Viraram moda no verão de 2008, quando o Rio teve uma epidemia violenta, os hospitais desceram a um nível ainda pior de colapso e as Forças Armadas armaram barracas na rua para atender doentes.
Parece, pois, que estamos dispostos a morrer de doenças conhecidas e razoavelmente evitáveis, desde que enraizadas nas nossas miséria e ignorância. Dengue, malária, disenterias que matam milhares devido a condições sanitárias indecentes, atropelamento, facada, tiro -morrer disso, tudo bem. É coisa nossa. Mas um vírus por ora apenas midiático leva multidões às farmácias.
Será mais um caso de doença como metáfora? O mundo quer se distrair dos perigos mais evidentes e imediatos que produziu, como crises financeiras e fome?
Cientistas dizem que, a cada 30 ou 40 anos, há um surto global de gripe. Os últimos ocorreram nos anos 50 e 60. Segundo essa teoria, digamos, do ciclo gripal, estaríamos perto de ter uma irrupção da doença. Mas, segundo os cientistas da área, ainda não sabemos nada sobre a letalidade do vírus, sua origem, velocidade de espraiamento do mal etc. O vírus é por ora apenas "informacional".

PAINEL

Gestão de crise

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/09

O ex-diretor do Senado João Carlos Zoghbi, cuja "ama de leite" recebeu recursos de banco que opera crédito consignado na Casa, procurou senadores próximos para negociar punição branda, em lugar de demissão sumária. Entre os que tentam ajudá-lo estão Edison Lobão (PMDB-MA), hoje ministro de Minas e Energia, Efraim Morais (DEM-PB) e Romeu Tuma (PTB-SP). Os dois últimos, quando na primeira-secretaria, assinaram uma série de contratos formulados por Zoghbi que agora vão cair na sindicância.
Com a chancela de Zogbi, o limite legal de 30% dos vencimentos para concessão de crédito foi camuflado, e servidores assumiram dívidas mensais de mais de 70% do valor de seus contracheques.




Fora. O Cruzeiro do Sul, que repassou R$ 2,3 milhões para a Contact, em nome de "laranjas" de Zoghbi, descredenciou a empresa. A Contact atuava como correspondente bancária de oito instituições financeiras no Senado. 

Rede. Além do Senado, o Banco Cruzeiro do Sul opera crédito consignado no TCU. Metade da folha de inativos tem alguma margem de endividamento. Em 2008, o banco patrocinou exame periódico de saúde aos servidores. 

Sem bônus. O ato da presidência do Senado que criou o grupo técnico, composto por consultores legislativos e de Orçamento, para assessorar os senadores da comissão de crise econômica estabelece que não haverá remuneração extraordinária de seus membros, diferentemente da praxe nesse tipo de designação. 

Pegadinha. Visivelmente congestionado, Delcídio Amaral (PT-MS) passou o dia de ontem cumprimentando senadores e jornalistas para, em seguida, brincar: "Acabo de voltar do México. Acho que peguei gripe suína". 

Contra. Investidores estrangeiros que participaram do Brazil Summit, em Nova York, manifestaram preocupação com o projeto, recém-votado no Senado, que renegocia o pagamento de dívidas de precatórios. Governadores e prefeitos, Gilberto Kassab (DEM) à frente, fizeram lobby pela aprovação da medida.

Sem fio. Na reunião que selou o fim da farra aérea, a cúpula da Câmara foi alertada pelos técnicos para os abusos nas contas telefônicas dos gabinetes com chamadas para o exterior. Foram mencionados casos de linhas que ultrapassam R$ 5.000 mensais. Ficou acertado que a Mesa Diretora irá deliberar pelo bloqueio de interurbanos, distribuindo senhas aos gabinetes. 

Férias garantidas. Apesar de restringir o uso da cota de passagens a deputados e assessores, as regras não exigem a devolução à Câmara das milhagens adquiridas com bilhetes pagos pela Casa. O entendimento jurídico é que se trata de promoção da companhia aérea ao usuário. 

Consórcio. Mais uma modalidade de burla à verba indenizatória pronta para vir à tona: sob a rubrica de aluguel de veículos, deputados fecham contratos de leasing com concessionárias e, ao final, ficam com os carros. 

Puxadinho. O quarto-secretário da Câmara, Nelson Marquezelli (PTB-SP), preparou projeto que prevê a extinção do auxílio-moradia. Como no momento há 432 apartamentos disponíveis para 513 deputados, a ideia é "dividir em dois" os imóveis de quatro dormitórios. 

Visita à Folha. João Crestana, presidente do Secovi SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo), visitou ontem aFolha. Estava acompanhado de Romeu Chap Chap, presidente do Conselho Consultivo, Paulo Germanos, conselheiro, e Ricardo Viveiros, assessor de comunicação.

Tiroteio 

"Seria desrespeito a oposição usar a doença da ministra para atingir sua candidatura. Mas também é o fim do mundo o presidente usar o câncer como plataforma eleitoral." 

Do deputado JUTAHY JÚNIOR (PDSB-BA) sobre a declaração de Lula, durante ato público em Manaus, de que a ministra deve "rezar", porque o povo "precisa dela" e irá ajudá-la a superar o tratamento.

Contraponto 

Prova de fogo

O PT realizou no ano passado uma reunião da bancada federal para discutir o sistema de voto em lista partidária. Fervoroso defensor da ideia, o pernambucano Pedro Eugênio se inscreveu para falar. Como de hábito em encontros petistas, a discussão foi se alongando, e a dada altura Pedro Eugênio, com a paciência quase no fim, questionou o presidente do partido, Ricardo Berzoini. Queria saber quantos ainda falariam antes de chegar sua vez.
-Pedro, te tirei da lista. Não dá mais tempo...
O deputado reagiu:
-Acabo de fechar posição contra a lista. Se para discutir a proposta a direção já me exclui, imagine quando chegar a hora de decidir quem serão os candidatos!

ELIO GASPARI

"Com essas coisas a gente não brinca"

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/09



Nosso Guia considera "burrice" especular sobre a saúde de Dilma Rousseff, mas burrice seria não fazê-lo



LULA E DILMA Rousseff tornaram-se personagens de um dilema que poderá marcar a história do país. Ambos deverão decidir se o câncer linfático da ministra é ou não um impedimento para que ela se lance numa campanha presidencial, com o compromisso de governar o país por quatro anos.
Se o Brasil tem 100 milhões de técnicos de futebol, daqui a pouco terá 100 milhões de oncologistas. A eles se juntam feiticeiros que pretendem transformar um câncer em anabolizante politico. Quando o ministro da Educação, Fernando Haddad, diz que, com a doença, Dilma talvez "possa se fortalecer", subordina um problema real às fantasias da marquetagem. (O câncer de pele de John McCain, operado em 2000 e 2002, foi mantido longe de sua agenda.)
Quando Lula diz que Dilma "não tem mais nada", está recorrendo ao vodu político. É compreensível que deseje o melhor para sua candidata, mas, na posição que ocupa, propaga uma atitude emocional que confunde o problema e compromete sua própria capacidade de decidir. Nosso Guia considera "burrice" e desrespeito especular sobre o assunto, mas burrice seria não fazê-lo. Tanto é assim que ambos especulam sobre o prognóstico, sabendo que, no sentido clínico da expressão, nenhum médico é capaz de dizer que a candidata "não tem mais nada".
Julgamentos contaminados por interesses estranhos à medicina já causaram danos à vida do país e dos próprios pacientes. Os fatores políticos contaminam questões médicas quando buscam prognósticos que confirmem desejos. É o "dá para levar". Nele, em 1985, perdeu a vida Tancredo Neves. O presidente eleito escondia seus padecimentos, coisa que Dilma Rousseff não fez. Sofria de dores no abdome e tinha até mesmo dificuldade para caminhar, mas acreditou que podia "levar" até o dia de sua posse. Não deu. Chegou ao hospital com um quadro infeccioso, caiu num teatro de mentiras e inépcias que terminou matando-o. A morte de Tancredo custou ao país a posse de um vice abatido pela ilegitimidade e nela esteve a raiz das limitações que marcaram todo o governo de José Sarney.
Noutro caso, em 1966, o chefe do serviço médico da Presidência diagnosticou que o marechal Arthur da Costa e Silva, ministro do Exército e candidato à Presidência, "estava mais entupido que pardieiro". Um de seus colaboradores diretos recebeu a informação e respondeu: "Agora não tem volta". Em 1969, Costa e Silva sofreu uma isquemia cerebral e os comandantes militares atiraram o país no maior período de anarquia militar de sua história.
Nos dois casos, a estratégia do "vai dar" enfeitiçou os feiticeiros. Num, Tancredo não fez o que devia. No outro, Costa e Silva candidatou-se ao que não podia. Pensando-se que "ia dar", aumentou-se o risco e chegou-se a uma situação na qual só restava o desfecho trágico.
Lula tem no Planalto um exemplo oposto. José Alencar tratou o seu câncer com honesta exposição e, depois de seis cirurgias, uma das quais com 18 horas de duração, pode assegurar que conservou a capacidade para exercer o cargo de vice-presidente. Contudo, como dizia Stanislaw Ponte Preta, o vice acorda mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.
No melhor cenário, Lula poderá seguir seu próprio conselho: "Com essas coisas a gente não brinca".

MEA CULPA


CLÓVIS ROSSI

O mistério Ronaldo

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/09

SÃO PAULO - Toda a louvação aos dois gols de Ronaldo no domingo já foi feita -e merecida, bem merecida. Falta agora que os jornalistas expliquemos o que aconteceu com ele e com os demais "mágicos" do futebol brasileiro na Copa do Mundo da Alemanha.
Meu ponto é o seguinte: se Ronaldo tivesse feito, na Copa, metade da magia que demonstrou em dois lampejos no domingo, o Brasil provavelmente teria sido campeão. Pior: ele tinha tudo para fazê-lo na Alemanha, se a comparação for com o Ronaldo de domingo.
Primeiro, pesava menos. Segundo, tinha uma cirurgia a menos. Terceiro, tinha três anos a menos (e os anos pesam, eu sei que pesam, por experiência própria, ninguém precisou me contar). Quarto, tinha ao lado Kaká, Robinho e Ronaldinho, capazes de atrair, por definição, mais atenção do adversário do que Chicão, que, segundo Ronaldo, é o melhor jogador do Corinthians.
Logo, deveria ter sobrado mais espaço para mais mágicas. No entanto, Ronaldo fracassou miseravelmente. Como fracassaram miseravelmente os outros "mágicos" acima citados. Pior do que fracassar: iniciaram um tobogã para baixo rumo à mediocridade.
Desde a Copa, Ronaldinho, Kaká, Robinho e Ronaldo encolheram, por mais que o último ainda exiba aqui e ali um lampejo do esplendor antigo.
O que aconteceu com eles todos, na Alemanha e depois? Ah, ainda há o caso Adriano, que não era propriamente um "mágico", mas jogava mais do que passou a exibir depois, até a aposentadoria precoce. Não houve, que eu tenha lido, nenhuma explicação para esse mistério. Tudo bem que resolvê-lo não vai mudar os destinos da humanidade, mas imagino que histórias da alma humana valham tanto quanto as misérias dela, expostas cotidianamente nos escândalos políticos (assumindo o polêmico pressuposto de que político tem alma).

DORA KRAMER

Obsessão eleitoral

O ESTADO DE SÃO PAULO - 29/04/09

De livre e espontânea vontade o presidente Luiz Inácio da Silva só fala do que lhe interessa. Isso é sabido, provado e comprovado pelas inúmeras vezes em que se fez de surdo e mudo a respeito de temas da ordem do dia, cuja abordagem não julgou conveniente.
O caos no transporte aéreo levou meses e uma tragédia para receber a atenção presidencial em público. Do mensalão, só tomou conhecimento quando se fez necessário um porta-voz de peso para a defesa da tese do “todo mundo usa caixa 2”, e assim, sucessivamente, evita terrenos acidentados.
Não obstante a impressão em contrário, Lula não joga conversa fora: só abre a boca quando julga que da fala tirará algum proveito. Na dúvida, prefere calar ou tergiversar.
No caso da doença da ministra Dilma Rousseff, o presidente não hesitou. Sábado de manhã apareceu a primeira notícia sobre um tratamento de saúde a que ela estaria sendo submetida, de tarde a ministra deu entrevista explicando que se tratava de um linfoma em estágio inicial e, na segunda-feira, Lula já estava - Dilma a tiracolo - tratando do assunto em cima de um palanque em Manaus.
“Orem por ela”, apelou ao público, enquanto pedia à candidata que olhasse bem aquelas pessoas e, delas, retirasse motivação para “ser forte” porque “esse povo vai precisar muito de você daqui para frente”.
Mais cedo havia confirmado a candidatura de Dilma, ressalvando que a prioridade “zero” da ministra seria cuidar da saúde e a segunda prioridade “enfiar a cabeça nesse PAC”, de preferência “sem faltar um só dia ao trabalho”.
Transparência? Realmente, em matéria de mistura de doença com política, não poderia haver um desenho mais nítido do cenário que, contraditoriamente, chega ao público por meio de imagens turvas e versões confusas.
Por mais brando que seja o câncer, a quimioterapia é sempre um processo penoso, debilitante. Não é possível ao mesmo tempo o paciente submeter-se ao tratamento e “enfiar a cabeça” no trabalho 24 horas por dia, sem faltar nenhum dia, viajando o País para lá e para cá na plenitude das condições físicas e emocionais.
Claro que cabe à ministra e à equipe de médicos responsáveis pelo tratamento estabelecer os limites, assim como é saudável que Dilma seja alvo de manifestações de solidariedade e receba quantidades amazônicas de ânimo.
Agora, transformar a circunstância de uma doença em acontecimento político para acentuar determinados atributos do personagem em questão, a fim de obter os melhores dividendos de imagem e despertar sentimentos positivos de identificação, já soa a manipulação eleitoral.
Uma coisa é o político que se esconde na dificuldade, omite do público informações importantes sobre si. Outra - igualmente imprópria - é fazer disso um carnaval, administrando publicitariamente uma questão de saúde.
É levar ao paroxismo o lema segundo o qual o que não tem remédio remediado está e, portanto, que se faça do limão uma limonada seja quais forem os métodos empregados.Obviamente, não há premeditação nem montagem de uma encenação. Mas, pelo que se viu do uso desabrido que Lula fez da história e pelo que se ouviu nas análises de gente do governo e do PT, uma vez constatado o problema começou a haver uma expectativa de se poder tirar dele o melhor proveito.
Se não, vejamos as declarações do ministro da Educação, Fernando Haddad, e do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia. “Imagino que a doença possa fortalecer a identidade da ministra com um projeto que se confunde com a superação das dificuldades do próprio País”, disse Haddad. “O comportamento de Dilma deve ser impactado muito favoravelmente na opinião pública”, considerou Garcia.
Ambos fizeram coro à manifestação do líder do governo no Senado, Romero Jucá, que no dia anterior havia ponderado que, se a “questão” fosse “encaminhada positivamente”, a doença acabaria reforçando “a imagem de que ela venceu a ditadura, a tortura e o câncer”.
Como se vê, a obsessão eleitoral é tão presente, permeia tanto as ações do governo, que supera qualquer preocupação com a sutileza.Não será uma surpresa se neste exato momento já não estiver em campo uma pesquisa de opinião para medir a temperatura do eleitorado frente ao episódio.
Haverá sempre quem argumente que política se faz assim mesmo, com todas as armas disponíveis, e que, no caso, apenas se buscou “encaminhar positivamente” um problema que poderia ter efeitos políticos negativos. Verdade. Mas nesse caminho há sempre o risco de se ultrapassar as medidas e, em algum momento, bater de frente com os limites da sociedade nem sempre visíveis a olho nu
Na última eleição municipal em São Paulo, por exemplo, os marqueteiros, os conselheiros e a candidata Marta Suplicy não viram que a insinuação contra o adversário era uma dessas barreiras e deram com os costados nela.

MÍRIAM LEITÃO

Novos juros

O GLOBO - 29/04/09


Os juros caem hoje. A queda da Selic deve ser de um ponto porcentual. É o começo de um período de juros baixos. O economista José Roberto Mendonça de Barros acha que o país caminha, felizmente, para juros de um dígito, um sonho antigo. Não será nesta reunião do Copom, mas na próxima. Até que ponto eles podem cair sem mudar a poupança? A Anbid fala numa taxa em torno de 9%.

Nem tudo é boa notícia. Para o Credit Suisse, a queda dos juros não elevará o crédito e nem reduzirá os juros para pessoa física. A boa notícia é que todos concordam que o país caminha para uma taxa básica de um dígito. Mendonça de Barros acha que os juros vão cair mais nas próximas reuniões e a taxa chegará ao fim do semestre em 9,25%. Marcelo Giufrida, presidente da Anbid, acha que isto levará o país a mudar a remuneração da poupança, mas garante que a mudança não será para afastar um concorrente da indústria de fundos, que segundo ele tem R$ 700 bilhões, mas porque todos os produtos financeiros devem ter condições “neutras” de competição.

“A mudança da poupança não é para garantir a competitividade dos fundos, mas para haver um equilíbrio entre todos os produtos financeiros, seja as debêntures das empresas, os CDBs dos bancos, seja o Tesouro Direto”, diz Giufrida.

Mendonça de Barros vê a necessidade de um novo ciclo da desindexação. “Esta é a terceira vez que o país chega perto dessa discussão. A primeira foi em 96 e 97, quando os juros começaram a cair, mas aí Francisco Lopes desenvolveu a TR para dar mais um passo na desindexação. Depois foi em 2001, mas houve a crise do apagão e os juros voltaram a subir. Agora, os juros estão caindo e vão ficar baixos por longo tempo. É hora de enfrentar o resíduo da indexação no Brasil. A discussão é por uma boa causa”, diz.

Para ele, há duas boas novidades no Brasil. “Pela primeira vez, desde JK, houve uma desvalorização cambial de mais de 20% e a inflação não subiu. A outra é que há uma boa chance de os juros ficarem em um dígito por longo tempo. Isso é fruto de 20 anos de trabalho pela estabilização brasileira.”

Há quem aponte, no mercado financeiro, que antes de haver mudança na poupança, seria importante que os bancos, principalmente os grandes, reduzissem suas taxas de administração. “Há fundos com 3% ou 4% de taxa de administração em produtos de varejo. Isso é absurdo. Eles precisam rever isso”, diz um economista.

Giufrida acha que a discussão está mal colocada dessa forma. “A Anbid tem monitorado as taxas, elas estão caindo nos últimos anos para uma taxa média de 1%. É um erro pegar a taxa máxima e tratar como média”, conta.

É um erro também ver só a média, sem olhar os exageros. A Anbid tem dados até fevereiro que mostram queda nos últimos anos em todas as taxas, mas é possível encontrar produtos com taxas de 2% a 2,5% na renda variável. Ou de 2% em renda fixa. E até 4% ou mais na renda fixa de aplicação automática.

“Durante anos a poupança apanhou feio da estrutura de taxa de juros no Brasil e ficou por isso mesmo. Agora, se pensa primeiro em mudar a remuneração da poupança. Há um preço novo na economia, os juros estão baixando, e todos terão que se adaptar a isso, inclusive os bancos, com suas taxas de administração”, diz um economista.

A Anbid discorda de mudanças que podem criar distorções para tentar contornar o problema de que os fundos podem perder a competição para a poupança. “Não se pode criar artificialismos, como permitir que a poupança aplique em títulos. Sua especialidade sempre foi o financiamento de longo prazo na área habitacional. Não vamos dizer como deve ser a mudança da remuneração da poupança porque a Anbid não entende disso. Queremos que as regras sejam mais neutras, para que todos os produtos possam competir entre si”, conta Giufrida.

Como se vê, o passo de hoje não é trivial. A queda de um ponto levará os juros para 10,25%. Se cair um ponto e meio já estará em um dígito. Em qualquer caso, uma boa notícia. O governo tem errado ao especular sobre a mudança das regras de remuneração, ou quando tenta politizar isso, dizendo que o faz para proteger o pequeno poupador. Está pensando em alterar as regras porque teme dificuldades de rolagem da dívida que é feita pelos fundos. E deve esclarecer como será a mudança.

A queda dos juros incentivará o crédito? O Credit Suisse acha que não. Num estudo a que a coluna teve acesso, o banco conclui que o aumento na inadimplência fará com que o ritmo de expansão de crédito caia de 24% em 2008 para apenas 4% neste ano. Eles estimam que a inadimplência média subirá para 8,6% em 2009, podendo chegar a 9% durante o terceiro trimestre. Além disso, o banco prevê um aumento da inadimplência do crédito livre, com exceção do consignado. O aumento do desemprego também contribuirá para o não pagamento de prestações. O CSFB prevê uma contração de 0,5% nos postos de trabalho esse ano e uma redução de rendimentos reais de 3,5%. Os bancos vão ficar também mais seletivos, dando menos empréstimos a pessoas físicas e elevando as taxas. Ainda há um longo caminho até o Brasil ter taxas de juros normais.

QUARTA NOS JORNAIS

Globo: Enem mostra a falência das escolas públicas nos estados

 

Estadão: Câmara limita viagens, mas prepara aumento de salário

 

Correio: DF eleva nível de alerta contra a gripe

 

Valor: Argentina usa as licenças como barreira comercial

 

Gazeta Mercantil: Siemens vai investir US$ 600 milhões no País

 

Jornal do Commercio: Celpe ganha liminar para aumentar a luz

terça-feira, abril 28, 2009

SOGRA


 28 DE ABRIL DIA DA SOGRA

Essa é a explicação para o meu excelente relacionamento com minha sogrinha.

VINICIUS TORRES FREIRE

Porcos com asas

FOLHA DE S. PAULO - 28/04/09

Vírus dito "suíno" contagia mais a imaginação, ainda mais no Brasil de endemias como a dengue e das mortes por tiros

O QUE SE FAZ quando vírus da gripe dos porcos com asas viajam do México para os territórios assépticos dos Estados Unidos e da Europa? Compram-se ações de laboratórios que produzem antivirais, vendem-se ações de companhias aéreas, hoteleiras e de cartão de crédito (com o "choque de confiança viral", as pessoas ficariam mais em casa, comprando e viajando menos).

Liquidam-se posições no mercado futuro de pernas e toucinho de porco em Chicago (sic).

Por fim, roda-se um modelo matemático a fim de medir o impacto do vírus "suíno" nos mercados, baseado no efeito passado do vírus da Sars na Ásia, em 2003, como certos bancos já faziam ontem (sic). Sim, isso apesar de vírus derivativos como CDS, CDOs, ABMS e outros ainda contaminarem a banca mundial.

Estamos doentes de hipocondria? Há risco de comer porco? Sim, claro: se o animal estiver vivo, falar e tossir no nosso rosto enquanto tentamos comê-lo em um eventual trem contaminado da Cidade do México.

Decerto, vírus agora têm asas e viajam continentes em horas; as pestes do passado levavam meses para ir de Istambul a Veneza. Cientistas dizem que, se brincarem em serviço, as pestes gripais podem se tornar assassinas rapidamente.

Mas, por ora, mais evidente e curiosa é a rapidez do contágio midiático, em especial no Brasil, em que a Bolsa caiu mais porque produzimos commodities (nossos "infecciosos" minérios, grãos e carnes). Há brasileiros preocupados com o risco de viajar para os viróticos Canadá e EUA. O que é uma dengue hemorrágica tipo "n" perto de um vírus "suíno", certo? Malária deve ser fichinha; morrer de tiro em São Paulo, Rio ou Recife, também. O medo talvez venha do fato de que as pessoas temerosas pensem viver em mundos murados da quarentena social.

Mas o contágio é, por ora, informacional, digamos. Os mundos assépticos e de sabonetes antissépticos (péssima mania americana), em que as pessoas se desacostumaram a morrer feito moscas, entram em pânico rapidamente. Por tabela, contaminados pela predominante massa de informação que vem de EUA e Europa, também ficamos "doentes" pela informação viral, apesar do Aedes zanzando nas cercanias.

O contágio midiático funciona um tanto como no caso de genocídios ou atentados terroristas: um morto "branco e de olhos azuis", para citar Lula, repercute muito mais que os de Ruanda, Congo, Bangladesh, Bósnia. Sim, não vamos muito a Bangladesh. Mas quantas pessoas pegaram dengue em Nova York?

Em 2003, houve o medo da Sars ("síndrome respiratória aguda grave"), que explodiu entre novembro de 2002 e julho de 2003, em particular na Ásia, infectando pouco mais de 8.000 pessoas e matando 774 nesse período -balançou um tico a economia de Hong Kong, apesar do alerta global. Pouco depois, surgiu a gripe aviária, de 421 infectados e 257 mortos pelo mundo até agora, segundo a OMS -não foi para a frente.

Tomara que o vírus dito "suíno" nem chegue a fazer parte desse número de vítimas. E, dadas as más notícias dos vírus demasiado humanos, os financeiros, não precisamos de mais epidemias.

Mas, por ora, talvez estejamos apenas doentes de tédio e excesso de informação ruim.

GOSTOSA


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MERVAL PEREIRA

Imagem arranhada


O Globo - 28/04/2009
 

Ao pedir ao povo que reze pela ministra Dilma Rousseff em um comício ontem à noite em Manaus, o presidente Lula deu início ao que pode vir a ser uma vergonhosa exploração da doença na campanha eleitoral.

 

Como era inevitável, a doença da ministra passou a ser o principal tema político do país, e partiu dos próprios petistas o sinal para que o tratamento do câncer entrasse para o rol dos fatores políticos ponderáveis na sucessão do presidente Lula. A própria ministra já colocara o tema na ordem do dia ao dar uma entrevista coletiva no Hospital Sírio-Libanês, no sábado, afirmando que, como todo brasileiro, está acostumada a enfrentar e superar desafios.

 

Foi uma sutil, mas eficaz, utilização da própria doença para ressaltar a figura pública que cultiva nos últimos meses, a de uma mulher lutadora, acostumada a vencer obstáculos pela vida.

 

Aliada à imagem de eficiente gestora pública à frente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), está criada a figura pública que pretende se apresentar ao eleitorado como a candidata oficial do presidente Lula.

 

A doença, segundo os próprios petistas, só turbinará essa imagem. Duas figuras importantes do governo, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia deram declarações coincidentes.

 

Os dois disseram que a doença poderá ajudar na imagem da candidata Dilma Rousseff, sendo que Garcia chegou a aventar a hipótese de que a maneira como ela enfrentou o anúncio oficial da doença deve ter uma repercussão boa nas próximas pesquisas de opinião.

 

Ela, de fato, portou-se muito bem no anúncio da doença, com altivez e coragem, dando toda transparência sobre o caso e o tratamento. Não ficou claro em que momento ela anunciaria oficialmente a doença, se é que o faria, se o jornal “Folha de S. Paulo” não tivesse publicado a notícia na sua edição de sábado.

 

Também o presidente Lula, o criador da figura da ministra Dilma como “mãe do PAC”, disse que ela terá duas prioridades, aparentemente conflitantes entre si: cuidar da saúde e se dedicar mais ainda à execução do PAC, trabalhando até 24 horas.

 

Ora, com o consentimento da própria, tudo indica que está sendo armado um esquema em torno da doença da ministra Dilma Rousseff, provavelmente para controlar a tendência inevitável de setores políticos já começarem a especular sobre um eventual Plano B caso ela não possa prosseguir no papel de candidata oficial. Ou talvez para turbinar mesmo uma candidatura que ainda não decolou.

 

O fato é que a candidatura Dilma só se sustentava, mesmo antes da doença, no apoio incondicional do presidente Lula, que tirou do bolso do seu colete uma alternativa para o PT, que não tinha nenhum nome forte que se impusesse naturalmente.

 

Lula, com a perspicácia política que Deus e a vida lhe deram, jogou alto ao escolher um “poste” que tinha qualidades iniciais para serem exploradas: uma mulher, e ainda por cima gerente eficiente, o que se contrapunha de frente com uma das principais armas oposicionistas, a eficiência da gestão pública das administrações de São Paulo e Minas, governados pelos potenciais candidatos tucanos José Serra e Aécio Neves.

 

Não importa se por enquanto o PAC não deslanchou, o que vale é o imaginário que está sendo criado há mais de um ano pelo presidente Lula.

 

Em política diz-se que só existem dois fatos importantes: o fato novo e o fato consumado.

 

O fato novo é que a doença da ministra impedirá que sua candidatura se transforme, pelo menos nos próximos meses, em um fato consumado.

 

Durante o tratamento, a não ser que acelere esse processo só vislumbrado no momento de levar a doença para os palanques eleitorais, as negociações políticas ficarão congeladas oficialmente, mas nos bastidores começarão a surgir novas hipóteses.

 

O PMDB já começa a querer ter a cabeça de chapa caso a ministra não possa se candidatar, na presunção de que se todos no PT são “japoneses”, na definição do ministro José Múcio, e, se a “japonesa” do Lula não puder concorrer, não há por que improvisar outro “japonês”, seja ele Patrus Ananias (o pai da Bolsa Família?), Fernando Haddad ou Tarso Genro.

 

O PMDB se arvora em dar a cabeça da chapa mesmo sem ter um japonês melhor do que os do PT. Talvez sonhando novamente com o governador de Minas, Aécio Neves. Mas essa seria uma manobra política tão radical que é difícil se concretizar.

 

Precisaria que Aécio se desligasse do PSDB, que o PT aceitasse ser vice na chapa, e que o presidente Lula apoiasse formalmente um candidato do PMDB oriundo do PSDB e que nada tem a ver com o PT.

 

Os partidos aliados do governo, em sua imensa heterogeneidade, já começam a se dispersar devido à incerteza do futuro. Uma coisa é seguir na canoa de Lula, outra bem diferente é ter que mudar de canoa no meio da travessia, mesmo que Lula continue à frente do projeto.

 

Muito tempo já se investiu na criação da candidata Dilma, e o tempo se reduziu para que uma nova tentativa saída do zero eleitoral seja feita.

 

Se é alentadora a lembrança de vários políticos que venceram o câncer e continuaram com sucesso na política — Ronald Reagan e John McCain, nos Estados Unidos, François Mitterand na França, o ex-governador Orestes Quércia, em São Paulo —, é preciso lembrar também que todos eles tinham uma história política consolidada, o que não é o caso da ministra Dilma Rousseff, que, com a ajuda do presidente Lula, está tentando montar uma figura política que nunca foi testada nas urnas e nem se submeteu ao estresse de uma campanha presidencial.

 

E que pode ter sua imagem arranhada se se concretizar estratégia de exploração eleitoral da doença que a acomete.

PANORAMA POLÍTICO

SOS desemprego

Ilimar Franco
O Globo - 28/04/2009
 

O Ministério do Trabalho vai estender a outros setores da economia, entre eles a indústria de implementos agrícolas e os frigoríficos, a ampliação do pagamento do seguro-desemprego de cinco para sete meses. O governo está sendo pressionado pelas centrais sindicais para flexibilizar as regras atuais. Mas o ministro Carlos Lupi diz que foram feitos estudos e que nada será feito sem critérios: “Isso aqui não é um topa tudo por dinheiro”.

 

ACM ainda dá voto na Bahia

 

O Ipespe, do cientista politico Antônio Lavareda, fez uma pesquisa para o Democratas sobre as eleições na Bahia. Entre 20 e 25 de março foram ouvidas 2.000 pessoas. O ex-governador Paulo Souto (DEM) lidera com 43%, seguido pelo governador Jaques Wagner (PT), com 34%. O ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) tem 14% e o prefeito de Salvador, João Henrique (PMDB), 12%. Mas o que mais chama a atenção são as respostas à pergunta: “Qual foi o melhor governador da Bahia?” Antonio Carlos Magalhães aparece na frente com 46%, seguido de Paulo Souto com 21%; só depois vem Jaques Wagner, com 15%.

 

"Um soco no estômago. Foi essa a sensação que senti ao saber que a ministra Dilma Rousseff estava com câncer” — José Dirceu, ex-ministro do governo Lula

 

NADA MUDOU. O presidente Lula ganhou do prefeito de Itumbiara, José Gomes da Rocha, na última sexta-feira, a camisa do time da cidade. Gomes da Rocha foi condenado por improbidade administrativa por ter empregado sete jogadores do Itumbiara Esporte Clube em seu gabinete na Câmara dos Deputados, em 1996. Na época, ele era presidente do clube e os jogadores foram lotados como secretários parlamentares.

 

Um factoide tucano

 

A página do PSDB na internet publicou nota dizendo que o governador de São Paulo, José Serra, anunciou a realização de vacinação contra o vírus influenza, causador da gripe suína. Só há um problema: ainda não há vacina para essa gripe.

 

Parado no tempo

 

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, da Frente Sandinista, é um velho conhecido do presidente Lula. Depois de ouvi-lo na recente reunião da Cúpula das Américas, o presidente Lula comentou: “Ele não aprendeu nada”.

 

Chávez fará aceno para o Senado

 

Atendendo a recomendação do ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fará uma declaração simpática ao Senado brasileiro nos próximos dias. Os senadores ainda votarão a entrada da Venezuela no Mercosul. Amorim foi recebido por Chávez na noite de sábado, das 23 h à uma da manhã. Em maio, na Bahia, Chávez e o presidente Lula anunciam o cronograma da adequação da Venezuela às regras aduaneiras do Mercosul.

 

Dilma: governo diz que nada muda

 

Os assessores próximos do presidente Lula não estão abalados com o câncer da ministra Dilma Rousseff.

 

Eles dizem que os próximos quatro meses, quando ela se submeterá à quimioterapia, poderão criar a empatia que falta entre a candidata e os eleitores. Como Dilma estará em evidência, com a opinião pública acompanhando a sua luta contra a doença e seu trabalho como ministra, acreditam que há uma chance razoável de que sua imagem saia fortalecida.

 

O CONSELHO de Imigração do Ministério do Trabalho aprovou, ontem, o envio de protesto contra o governo do Japão, que está oferecendo passagem de volta para os trabalhadores brasileiros que perderam seus empregos, desde que não voltem para lá.

 

O MINISTRO Nelson Jobim (Defesa) vai sábado ao Haiti visitar o novo comando da Força de Paz da ONU, integrada por soldados do Exército brasileiro.

 

O GRANDE debate eleitoral na Alemanha é sobre o que fazer com a Opel, subsidiária da GM. Os democratas-cristãos querem uma saída de mercado. Os sociais-democratas a estatização.