sexta-feira, janeiro 02, 2009

NELSON MOTTA

Os bons companheiros


O Globo - 02/01/2009
 

-O que você quer ser quando crescer, meu filho? 

- Sindicalista! 

Garoto esperto. No Brasil país de todos, que é mais de alguns "todos" do que de outros, a carreira sindical passou a ser uma das mais valorizadas. Não só pelos benefícios pessoais, da estabilidade no emprego sem trabalhar às benesses das diretorias sindicais, mas como trampolim para cargos políticos e eletivos, que pode levar aos melhores empregos da República. 

A nobre missão de defender os interesses dos companheiros de trabalho tem sido um terreno fértil para talentos, mas não necessariamente nas suas categorias. Ocupados em lutar pelos companheiros, eles não têm tempo, nem aptidões e nem ambição de progredir em seus ofícios. 

É difícil vislumbrar sindicalistas, por exemplo, entre bancários, que sejam os melhores profissionais de sua área. É natural: eles odeiam, ideologicamente, a idéia de banco, detestam seus empregadores gananciosos e exploradores, nada entendem do negócio. Entendem de salários, carreiras, horas extras, planos de saúde, aposentadorias, bônus, participações nos lucros e na administração, questões trabalhistas. 

Sua missão legítima é conquistar, no papo ou no grito, as maiores vantagens possíveis para a categoria. Sua formação, suas estratégias e seus objetivos são conseguir cada vez mais para seus companheiros, e só para eles. E já é muito! Para equilíbrio do capitalismo, é preciso que alguns façam este trabalho. Mas será que isto os qualifica para um alto cargo em um banco, uma agência reguladora ou uma estatal? 

Ou faz de um líder petroleiro um expert em produção ou comércio de petróleo? E, no entanto, tantos ocupam cargos que exigem qualificações profissionais que eles não têm, simplesmente porque não estudaram, não praticaram e nem se desenvolveram nos seus ofícios. Porque estavam trabalhando pelos companheiros. 

Deve ser por isso que, quando a militância sindical qualifica alguém para uma diretoria de estatal, um banco ou uma agência, seja inevitável que, chegando lá, eles continuem priorizando os interesses dos companheiros, e só deles. Não é por mal, é só força do hábito. 

ILIMAR FRANCO

Independência

Panorama Político

O Globo - 02/01/2009
 

Último candidato a se lançar na disputa pela presidência da Câmara, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) está propondo a recuperação de uma agenda própria da Casa. "No vazio dessa agenda é que há o abuso das medidas provisórias e a pressão das corporações", disse ele, que já foi presidente da Câmara e ministro responsável pela articulação política do governo Lula. 

Aldo critica governo 

Na agenda proposta por Aldo está a reforma tributária, que o governo não conseguiu votar no ano passado por falta de apoio de governadores. "Não para votar como um pacote. Tem que ser um programa que se atravesse como um rio, pisando sobre as pedras, e não que se mergulhe e saia do outro lado", disse ele, que também defende a votação da reforma política. O deputado também propõe a implantação, aos poucos, do Orçamento impositivo. "Enquanto isso, vamos votando medidas provisórias, mas tem que ter limites. Quando eu era ministro, até reajustar tabela de cobrança de conselhos queriam fazer por MP", disse ele. 

Sem rusgas 

Apesar de apoiar Temer, o PT não vai tratar Aldo como adversário na disputa pela presidência da Câmara. A orientação é não esticar a corda. A preocupação é com o apoio do Bloco de Esquerda (PCdoB-PSB-PDT) nas eleições de 2010. 

Os discursos sobre a crise parecem quase uma torcida" - Ideli Salvatti, senadora (PT-SC), afirmando que a oposição aposta no quanto pior, melhor 

Quércia quer lugar de Temer 

Orestes Quércia está se movimentando de olho na presidência do PMDB. O deputado Michel Temer (PMDB-SP), atual presidente do partido, tem dito que não vai renunciar ao cargo, se for eleito presidente da Câmara. Mas peemedebistas afirmam que ele não quer é abrir uma nova frente agora. O senador Romero Jucá (RR) também está trabalhando pela presidência do PMDB, mas sofre resistências por ser um "neopeemedebista". 

Medidas contra crise dividem governo 

Enquanto o presidente Lula quer mais medidas de incentivo à economia para enfrentar a crise, a equipe econômica do governo se divide sobre quais iniciativas seriam melhores. Parte do governo, como o Ministério do Desenvolvimento, defende medidas pontuais para alguns setores, como foi a redução do IPI para os automóveis. Outro grupo, mais forte na Fazenda, quer benefícios horizontais, como novas alíquotas do IR, beneficiando de uma vez 25 milhões de contribuintes. 

COMPENSAÇÃO. Já tem peemedebista sugerindo que o presidente Lula dê o Ministério da Saúde ao senador Tião Viana (PT-AC) como compensação pela presidência do Senado. São os partidários da candidatura José Sarney (PMDB-AP). 

ESTILO. Empossado vice-prefeito de São Bernardo (SP), Frank Aguiar (PTB) conclui assim a mensagem da caixa postal de seu celular: "Fui!". 

MP. A pauta de votações do Senado já começa 2009 trancada por uma medida provisória. 

Lua-de-mel 

Com a bênção do PT, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) continuará na liderança do governo este ano. "A não ser que o Obama convide ele", disse a senadora Ideli Salvatti (PT-SC). A lua-de-mel deve-se ao apoio de Jucá a Tião Viana (PT-AC). 

ANCELMO GÓIS

Abre o bolso, Chávez


O Globo - 02/01/2009
 

Antes de embarcar para Fernando de Noronha, Lula convidou o governador Eduardo Campos para ir, dia 16 agora, à Venezuela encontrar Hugo Chávez. 

É que, sobre a construção da refinaria de Abreu e Lima, parceria dos dois países em Pernambuco, o venezuelano é só gogó. 

Até agora 

A Petrobras já pôs R$500 milhões nas obras. 

Já a venezuelana PDVSA, que terá 40% do negócio, não investiu nenhum centavo até agora. 

No mais... 

O governador não espera atrair visitantes para Fernando de Noronha com a ida de Lula. É que a capacidade para turistas no lugar está saturada. 

Campos até mandou retirar da ilha uns 40 carros que rodavam por lá. Ainda ficaram 200. 

Casas populares 

Lula deve anunciar até 30 de janeiro um pacote para a construção civil. 

Em parceria com os estados, os planos são de construir umas 500 mil casas. 

11 Paraguais 

Em 2008, a usina de Itaipu Binacional bateu o recorde mundial de geração de energia. A geração acumulada ano passado alcançou 94.684.781 MWh. 

É energia suficiente para abastecer a Argentina por um ano ou o Paraguai por 11 anos.

CELSO MING

Metamorfose

O Estado de S. Paulo - 02/01/2009


A crise global é um bicho em metamorfose. Não começou em 2008; explodiu, sim, em 2008, e não tem prazo para terminar.

Seus nomes também vão mudando. Começou como crise subprime, porque eclodiu no segmento das hipotecas podres americanas. Logo se viu que não foi só a bolha dos imóveis que estourou. A encrenca é muito maior porque, a partir de determinado momento, já não se sabia mais quais eram os preços de um grande número de ativos e, então, passou a ser chamada crise do lixo tóxico. 

Em seguida, banco deixou de confiar em banco, o crédito estancou e foi preciso enfrentar a subcapitalização das instituições financeiras, fossem elas bancos ou não. Sobreveio, então, a expressão crise de desalavancagem.

E, a partir daí, tudo virou crise financeira global que já não se restringe às finanças porque há uma forte recessão encomendada e em fase de entrega, que poderá ou não degenerar em depressão.

Essa é uma crise sem precedentes. Não guarda características comuns às anteriores. Basta dizer que, nos últimos 50 anos, o primeiro efeito sempre foi o derretimento da moeda e dos títulos do país em crise. Desta vez, está acontecendo o contrário. O dólar e os títulos do Tesouro americano continuam sendo os ativos mais procurados e, portanto, mais valorizados. Mas aí já entramos na ideia desta coluna, que é a de apontar algumas novidades que podem ficar consagradas.

A primeira delas é o princípio de que banco grande não pode quebrar. Quando as autoridades entregaram o Lehman Brothers à própria sorte, imaginavam que moralizariam o mercado financeiro. Até agora, foi o maior desastre desta crise. O desmonte do Lehman espalhou o pânico em todos os mercados. Em novembro, o Citigroup arrancou US$ 307 bilhões em socorro oficial. 

Outra característica sem precedentes dessa crise é a intervenção dos governos. Nunca bancos centrais e secretários de tesouro se meteram tanto nos negócios. Bancos foram parcialmente estatizados, bancos centrais compraram ativos podres de bancos ou de empresas comuns, recursos fiscais foram usados para comprar ativos rejeitados pelo mercado ou repassados ao contribuinte para que continue consumindo.

A intervenção estatal ao redor do mundo se conta aos trilhões de dólares. Mas ainda é pouco. Nos próximos meses, mais recursos e intervenções virão. Provavelmente em janeiro o governo Obama anunciará novo pacote, de US$ 850 bilhões, para socorrer a economia. Essa intervenção não ficará sem consequências. Falta saber quais serão.

E, por falar em atuação do Estado, há ainda a questão regulatória. É verdade que faltou regulação aos mercados. Mas não é verdade que essa foi a falha central. A maioria das leis e dos regulamentos está aí e não há muito o que mudar. A falha principal foi dos organismos de fiscalização e supervisão. Os bancos centrais falharam miseravelmente, as agências de acompanhamento do mercado financeiro e de classificação de risco falharam miseravelmente e os governos falharam miseravelmente.

Aí está a pergunta a ser respondida em 2009: como é que se pode contar com mais intervenção do Estado para disciplinar os mercados se o agente que mais falhou na origem desta crise foi o próprio Estado? Ou o Estado é outro animal em metamorfose?


Confira

E os fundos de pensão? Trilhões de dólares em patrimônio derreteram nessa crise: imóveis, hipotecas, ações, títulos de dívida, commodities. 

Está para aparecer quem calcule a desvalorização da aposentadoria futura de tanta gente pelo mundo, que estava amarrada aos fundos de pensão.

Parte desses ativos recuperará valor. Mas sabe-se lá quanto do patrimônio anterior desaparecerá para sempre. Boa pergunta está em saber qual será a reação do cotista do fundo. Vai trabalhar mais ou esperar pela recuperação do seu patrimônio? Ou vai se conformar em viver com menos?

EMPACOU


SEXTA NOS JORNAIS

JORNAIS NO BRASIL E NO MUNDO

Jornais nacionais

Folha de S.Paulo
Na posse, prefeitos já preveem cortes

O Estado de S.Paulo
Prefeitos assumem com corte de gastos

Jornal do Brasil
Paes toma posse e decreta: 1. Choque de ordem no município/ 2. Auditoria na Cidade da Música/ 3. Fim da aprovação automática/ 4. Aperto no orçamento da prefeitura

O Globo
Eduardo Paes assume cortando gastos com pessoal e contratos

Correio Braziliense
Calotes vão crescer no primeiro semestre

Estado de Minas
Da posse ao caos

Diário do Nordeste
Siderúrgica do CE ameaçada

Extra
Alunos da prefeitura vão poder praticar esportes em clubes do Rio

Correio do Povo
Temporal provoca mortes e destruição em Belo Horizonte

Zero Hora
Promessas reafirmadas

Jornais internacionais

The New York Times (EUA)
Indústria do aço, em colapso, espera estímulo dos Estados Unidos

The Washington Post (EUA)
No Iraque, o dia seguinte

The Times (Reino Unido)
Foguetes em Gaza colocam usina nuclear de Israel em zona de batalha

The Guardian (Reino Unido)
Criminosos enfrentam voto público para punições

Le Monde (França)
Sarkozy deverá obter resultados concretos perante a crise

China Daily (China)
Mundo faz festa silenciosa para chegada de 2009

El País (Espanha)
Rússia reabre guerra do gás na Europa

Clarín (Argentina)
Novos ataques israelenses em Gaza afastam trégua

quinta-feira, janeiro 01, 2009

DEMÉTRIO MAGNOLI

REVISTA VEJA

Artigo Demétrio Magnoli
Começa o outono de Lula

"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou 
‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira 
mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de 
efeito retardado que sua passagem pela Presidência 
deixa aos filhos e netos da atual geração"

Sergio Moraes/Reuters

SALVACIONISMO Lula em discurso: ele não enxerga nada de positivo antes
de seu próprio advento

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar". Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal. O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas. Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado. A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo. De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária. Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional. A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores. A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares. Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela." O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente. Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana. A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

Dida Sampaio/AE

MÁQUINA CLANDESTINA O operador do mensalão Delúbio Soares: o PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido


"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune. Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias. O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula. Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford. Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público. No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça. Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.

J. R. GUZZO


REVISTA VEJA
Ideias mortas

"Não temos um serviço público capaz de prestar
serviços ao público. Mas se há alguma coisa que
temos de sobra, em praticamente qualquer área 
da atividade humana, são ‘políticas públicas’"

Os países desenvolvidos do mundo podem estar na frente do Brasil em muita coisa, mas perdem de longe em pelo menos uma: nossa capacidade de criar "políticas públicas". Faltam ao Brasil redes de esgoto, água tratada, coleta de lixo, transporte público, portos, ferrovias e estradas asfaltadas. Faltam aparelhos de raios X em hospitais, sistemas para conter enchentes e escolas capazes de ensinar a prova dos noves. Não temos confiança em políticos, juízes e autoridades em geral. Não temos um serviço público capaz de prestar serviços ao público. Mas se há alguma coisa que temos de sobra, em praticamente qualquer área da atividade humana, são "políticas públicas", quase sempre descritas como as "mais avançadas do mundo"; é difícil entender, francamente, por que os demais 190 países que repartem a Terra conosco ainda não copiaram todas elas.

Ninguém ignora que o Brasil conta com o que há de mais moderno no planeta em matéria de proteção ao menor abandonado, direitos humanos (nossos assassinos, por exemplo, têm o direito de cumprir apenas um sexto das penas a que forem condenados), defesa do meio ambiente e legislação de trânsito. Temos o melhor modelo mundial não só de reforma agrária, mas também de reforma aquária, como nos garantiu tempos atrás o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há quem nos supere em leis de proteção ao trabalhador, ao deficiente físico e aos direitos do consumidor – e por aí afora, numa lista que não acaba mais. É verdade que funcionários do Incra, repartição pública encarregada de aplicar a reforma agrária, vivem sendo presos por corrupção, que os menores começam a matar gente cada vez mais cedo e que o trânsito nas grandes cidades é uma piada. Mas aí também já seria querer demais – não se pode exigir que este país, depois de toda a trabalheira que teve para montar políticas tão admiráveis, seja também obrigado a mostrar que elas produzem resultados práticos.

O ano de 2008 se encerrou com mais dois grandes momentos na história da criação de "políticas públicas" para o Brasil. O primeiro desses feitos é a Estratégia Nacional de Defesa, uma coleção de planos que vão dar ao Brasil, como nas áreas citadas acima, uma nova oportunidade de se colocar entre os países "mais avançados" do mundo. É perfeitamente correta, no caso, a ideia de melhorar o equipamento das Forças Armadas; não adianta nada dar a elas uma missão e não dar os meios. Mas, junto com providências possivelmente racionais, indispensáveis ou urgentes, vem todo um tropel de desejos tumultuados – a transformação do Brasil em potência militar, o desenvolvimento de caças de quinta geração, a criação do "soldado do futuro", taxas a ser pagas por empresas que seriam beneficiadas pela ação das Forças Armadas e até um submarino nuclear, no qual a Marinha trabalha desde 1979 e que ficará pronto, se tudo correr bem, no remoto ano de 2024. Por qual motivo o Brasil precisaria, por exemplo, de um submarino nuclear? Fala-se vagamente, em voz baixa e linguagem obscura, em "ganhos de tecnologia". Mas daí não se passa – talvez por se tratar de um segredo de estado, talvez porque não haja mesmo ninguém, no governo, capaz de explicar isso de forma coerente. O presidente Lula disse que é preciso defender a Amazônia e o petróleo das águas profundas. Muito justo, mas os principais inimigos da Amazônia, até hoje, têm sido os próprios brasileiros e seu principal problema, a pobreza, também é de criação puramente nacional; quanto ao petróleo, ninguém atacou até hoje as plataformas em alto-mar para roubar as riquezas da Petrobras, desde a perfuração do primeiro poço na Bacia de Campos, trinta anos atrás. Não há sinal de mudança em nenhuma dessas duas realidades.

O segundo grande momento foi a finalização do Plano Nacional de Cultura, que, segundo o governo, vai desenvolver as "políticas culturais" do Brasil nos próximos dez anos, com o fortalecimento da ação do estado na área cultural, "participação social" em sua gestão e outras ameaças parecidas. Mas, segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o plano se baseia em "300 diretrizes" – e a partir daí não vale a pena dizer mais nada. Não existe neste mundo projeto algum que precise de 300 diretrizes para funcionar e, caso existisse, não haveria governo capaz de aplicá-las. Não o brasileiro, com certeza.

No mais é esperar que a habitual combinação de inépcia, preguiça e burocracia da máquina estatal leve o grosso do plano para o depósito geral das ideias mortas. Nessas horas a incompetência do poder público é uma verdadeira bênção.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

ANO NOVO

FELIZ ANO NOVO

UM CAMINHÃO DE CERVEJA, MULHER E DINHEIRO

E MUITA SAÚDE PARA DAR CONTA DE TUDO ISTO


RICARDO NOBLAT

Gigolô da ignorância alheia

Lula escolheu para fechar o ano a sua máscara preferida: a de vítima.

Voltou a repetir no Recife, durante a inauguração, ontem, de um parque, que seus críticos torcem para a crise financeira "arrebentar o Brasil". Só assim ele perderia popularidade.

- Tem gente torcendo para a crise arrebentar o Brasil. Tem gente dizendo: "Ah, agora a crise vai pegar o Lula. Agora é que nós vamos ver. Queremos ver se ele vai continuar bom na pesquisa. Queremos ver porque agora ele vai se lascar. É assim que falam.

Os empresários torcem para que a crise arrebente o Brasil - e por extensão os seus negócios? Não são suicidas.

Boa parte dos políticos de oposição é formada por empresários. A parte que não é quer sobreviver como todo mundo. Torce contra a crise e não a favor dela.

A mídia torce pela crise? Ela já está sendo vítima dela. Caiu o volume de anúncios em todos os meios de comunicação. Alguns jornais começaram a demitir.

Jornalista torce pela crise? Para quê? Para perder o emprego?

Interessa aos governadores José Serra e Aécio Neves, ambos aspirantes à vaga de Lula, que a crise desacelere o crescimento do país que pretendem herdar?

Para eles o ideal seria receber uma economia nos trinques. E governar em paz pelos próximos dois anos.

A condição de ex-retirante da seca ajudou Lula politicamente.

A de ex-metalúrgico que perdeu um dedo na prensa, também.

A de quem não estudou, mas mesmo assim chegou à presidência da República - essa nem se fala.

Diante de uma dificuldade maior, Lula veste a máscara de vítima - e desfila com ela por aí.

Foi assim quando vários escândalos ameaçaram seu governo. Ele acusou as elites de desejarem derrubá-lo - mas por que?

Elas jamais lucraram tanto antes. Se dependesse delas, Lula teria um terceiro e até um quarto mandato consecutivos.

A crise pode atrapalhar o plano de Lula de fazer o seu sucessor. Pode até mesmo arranhar sua popularidade.

É por causa disso que ele tenta jogar no colo dos adversários parte da responsabilidade pelos estragos que a crise venha a causar. Quer tirar vantagem da crise.

Esse tipo de comportamento da parte dele tem dado certo até aqui.

Entre nós, Lula é disparado o mais talentoso gigolô da ignorância alheia.

A VARANDA:RETROSPECTIVA

A VARANDA DAS GOSTOSAS!!!

FIQUEM BABANDO!


EDITORIAL- ESTADÂO

Diplomas cubanos

O Estado de S. Paulo - 31/12/2008
 

Pressionado pelo PT e pelo PC do B, o Ministério da Saúde anunciou que uma de suas metas, em 2009, será regularizar a situação dos brasileiros que se formaram na Escola Latino-Americana de Medicina de Havana (Elam). Como os diplomas por ela expedidos não são revalidados automaticamente no Brasil, os médicos brasileiros formados em Cuba não podem trabalhar em hospitais ou abrir uma clínica sem, antes, se submeterem a um exame de proficiência e de habilitação profissional numa instituição credenciada pela Capes. Como as provas são rigorosas, 85% desses médicos, em média, acabam sendo reprovados. 

Mesmo assim, o ministro José Gomes Temporão pretende aproveitá-los no Programa Saúde da Família. No entanto, isso depende da aprovação de um projeto de lei que tramita há vários anos no Congresso. O projeto, que sofre oposição do Conselho Federal de Medicina (CFM), estabelece critérios para a elaboração de provas de habilitação profissional mais “justas” aplicadas pelas faculdades credenciadas pela Capes. Para o CFM, essa seria apenas uma forma de “facilitar” o reconhecimento do diploma. 

“São estudantes que não conseguiram passar no vestibular aqui e vão para Cuba. O ensino de lá é muito deficiente. Eles nunca estagiaram em emergência. Não somos corporativistas. O que não podemos é arriscar entregar a saúde da população para médicos despreparados. Os exames para revalidação de diploma têm de continuar sendo rigorosos”, diz o vice-presidente do CFM, Roberto D’Ávila. Os médicos brasileiros formados em Cuba acusam a entidade de enviesamento político. “Nosso pessoal é de família proletária e, não bastasse as dificuldades naturais de se fazer um curso que exige muito do aluno, ainda têm de enfrentar preconceitos de classe”, afirma Afonso Magalhães, da Associação de Pais e Apoiadores dos Estudantes Brasileiros em Cuba (Apac). 

O argumento é obviamente falacioso, pois dá a entender que a maioria dos médicos formados no Brasil pertenceria a famílias de classe alta, que só teriam interesse em atender a população rica dos grandes centros urbanos, enquanto os médicos brasileiros formados em Cuba se preocupariam com os setores mais pobres da sociedade. 

A discussão é antiga. Começou na década de 90 quando o governo cubano, empenhado em divulgar seu “modelo” de medicina, passou a oferecer bolsas de estudo para estudantes de 35 países. O problema é que o critério de seleção dos bolsistas sempre valorizou afinidades ideológicas, jamais o mérito. Enquanto todas as faculdades brasileiras de medicina realizam exames vestibulares acirradamente disputados, a Elam aceita automaticamente qualquer candidato, desde que seja indicado por agremiações políticas, centrais sindicais, ONGs e movimentos sociais simpatizantes do regime castrista. 

Dos 160 médicos brasileiros que obtiveram diploma numa faculdade cubana de medicina, desde 1999, pelo menos 26 foram indicados pelo MST. Os partidos mais envolvidos com o esquema de bolsas da Elam são o PC do B e o PT. Mas também há alunos indicados pelo PDT, PSB e até o PSDB. A bolsa inclui gastos com alimentação, moradia e um pequeno kit de higiene. A passagem para Cuba é paga pelo estudante ou pela entidade ou partido que o indicou. 

O CFM e a Associação Médica Brasileira sempre questionaram a qualidade do ensino de medicina em Cuba. Para essas corporações, a tão comentada “excelência” das faculdades cubanas não passaria de um mero jogo de marketing político. Os médicos brasileiros formados pela Elam acusam essas entidades de valorizar uma medicina “curativa”, em detrimento de uma medicina “sanitarista”, voltada para a prevenção de doenças entre a população de baixa renda.

O debate, como se vê, não é técnico, mas ideológico. Ao defender novos “critérios” para o reconhecimento dos diplomas expedidos por escolas cubanas de medicina e prometer emprego aos médicos por ela formados no Programa Saúde da Família, o ministro da Saúde só está fazendo política à custa da deterioração do já combalido sistema de saúde pública do País.

A VARANDA: RETROSPECTIVA

NAS NUVENS

ÉLIO GASPARI

De John.Kennedy@gov para Obama@org


Folha de S. Paulo - 31/12/2008
 

 

Você sabe que há armadilhas no seu caminho mas, acredite, as piores são fabricadas em Washington

ESTIMADO presidente Obama,
Eu pretendia respeitar suas férias, mas os últimos acontecimentos no Oriente Médio mudaram minha idéia e decidi escrever-lhe, tratando de assuntos práticos.
Nos primeiros dias você fará bobagens incríveis. Não se preocupe. Abraham Lincoln me contou que assumiu achando que podia dar ordens diretas aos oficiais da Marinha. Bill Clinton levou à posse um médico caipira que pediu ao chefe de serviço de saúde da Casa Branca para injetar-lhe uma ampola de antialérgico. Ele pensava que se pode espetar uma agulha com sabe-se lá o quê no presidente dos Estados Unidos. Essas são trivialidades, passemos ao ponto relevante.
Você sabe que há armadilhas no seu caminho, mas acredite: as piores são fabricadas em Washington. Veja o que me aconteceu.
Eu tinha uma semana de governo quando soube que treinávamos na Guatemala uma força expedicionária destinada a invadir Cuba. Disseram que esses homens não podiam ficar aquartelados indefinidamente. (Percebe? Devíamos invadir porque treináramos invasores.)
A expedição estava aos cuidados da CIA, supervisionada por Richard Bissell, seu vice-diretor. Ele era o encarregado das operações clandestinas da agência. Já não se fazem pessoas como Dick. Ele encarnava a nossa elite. Estudara em Groton, como oito dos Roosevelt, e em Yale, como cinco dos Bush. Annie, sua mulher, era amiga da Mary Pinchot, uma das minhas namoradas. Em 1954, Dick e sua equipe derrubaram o presidente da Guatemala e em 1960 depuseram Patrice Lumumba no Congo. No filme "O Bom Pastor" ele compôs o lado cerebral-chique de Edward Wilson (Matt Damon), mas Annie não era nenhuma Angelina Jolie.
Eu autorizei a invasão, desde que parecesse coisa de cubanos. Havia alguma contrariedade no Departamento de Estado, mas se acreditava que ela tinha duas chances em três de ser bem-sucedida. Deu tudo errado. No dia 15 de abril de 1961, 1.511 homens desembarcaram na Baia dos Porcos e em 48 horas estavam presos num pântano, cercados pelo exército cubano. Bissell queria que eu autorizasse o envio de apoio aéreo. Neguei-o. Fiz papel de covarde, Obama, e esse é o ponto para o qual peço sua atenção.
Preferi fazer papel de covarde a envolver diretamente os Estados Unidos na invasão. Desde o primeiro momento eu dissera que não aceitava esse caminho. Bissell e sua turma acharam que eu cederia diante do desastre militar. Quando assumi, o prato já estava feito: ou me deixava levar pela coleira, ou pareceria medroso. Outro dia conversei com Dick e ele reconheceu que a máquina da CIA achava que a operação fracassaria. Ele apostou com as minhas cartas e perdeu.
O McGeorge Bundy, que era meu assessor de segurança nacional, usa a palavra "armadilha" para explicar o sucedido. Bundy era amigo de Dick, mas acredita que ele queria o lugar de diretor da CIA. É possível, porque o titular, Allen Dulles, estava cansado. (Logo ele, um charmeur que passara secretamente por vidas como a da rainha Frederica da Grécia, mãe de Sofia da Espanha.)
Imagine só: A Terceira Guerra poderia ter começado porque eu caí na armadilha do Dick, que invadiu Cuba para ficar com o lugar do Allen, que estava com gota.
Despeço-me com as recomendações de Jackie a Michelle, de John-John a Malia e Sasha, e minhas a todos.
John Kennedy

A VARANDA: RETROSPECTIVA

DOSE DUPLA

EDITORIAL-FOLHA DE SP

Acabou em Portugal

Folha de S. Paulo - 31/12/2008
 

Passagem de delegado pela PF e pela Abin ilustra defeitos e virtudes de mudanças recentes nessas instituições


TERMINOU em melancolia a passagem de Paulo Lacerda pela cúpula da segurança nacional. Nos últimos seis anos, à frente da Polícia Federal e, depois, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o delegado foi co-autor, testemunha e vítima de mudanças nas instituições que chefiou.
Delicadamente demitido pelo presidente Lula, retira-se agora em Lisboa, onde será adido policial da embaixada, cargo que passou a existir para recebê-lo. A revelação de que nem o presidente do Supremo Tribunal Federal escapou da febre de grampos, a pretexto da chamada Operação Satiagraha, selou o destino de Lacerda. Foi afastado da Abin em setembro e, agora, exonerado.
Ironia do destino, Lacerda foi derrubado em decorrência de uma de suas criaturas diletas. Durante o primeiro mandato de Lula, o então chefe da Polícia Federal ajudou a consolidar as "operações" como forma de atuação do birô -ocorreram 412 no período. Inspiradas num costume militar e batizadas com nomes extravagantes, as operações ajudaram a modernizar a PF.
O planejamento, a profissionalização, o cruzamento sistemático de dados e o desbaratamento de esquemas criminosos em setores tradicionalmente intocáveis estiveram presentes nas mais destacadas operações da Polícia Federal. O espalhafato, a exposição de investigados à execração, o abuso de poder e a quebra descontrolada de sigilos constitucionais, entretanto, também marcaram muitas dessas ações espetaculares.
Na Abin, Lacerda cometeu pelo menos uma falha grave: a pedido de um delegado da PF que exorbitou de suas funções, o chefe do escritório de inteligência destacou 60 agentes para auxiliarem as investigações da Polícia Federal no caso Satiagraha. Agentes da Abin não podem exercer atividade de polícia.
A usurpação de funções -bem como outras ações clandestinas e estranhas ao protocolo ocorridas naquela operação- deslanchou um lamentável choque entre a Abin e a PF e entre setores rivais da própria corporação policial. Escritórios da agência de inteligência foram devassados, sob mandado judicial, por policiais federais; o sigilo de informações alheias ao inquérito, consideradas sensíveis pela Abin, ficou vulnerável.
O balanço da passagem de Lacerda pela PF e pela Abin, vale ressaltar, é importante não para que se apurem os méritos e os deméritos profissionais do delegado. A reconfiguração desses órgãos nos últimos anos é abrangente e transcende as opções tomadas por seus chefes de turno.
Trata-se de uma mudança institucional, ocorrida no entrechoque entre anseios da sociedade, burocracias em renovação e instituições de controle. A experiência recente, contudo, mostra que esse último fator -os freios e contrapesos destinados a moderar a tendência à autonomia, natural nos aparatos de segurança e inteligência- precisa de reforço.

CLÓVIS ROSSI

O exílio de Eliot Ness


Folha de S. Paulo - 31/12/2008
 

SÃO PAULO - O delegado Paulo Lacerda é o mais próximo que o Brasil conseguiu produzir em matéria de Eliot Ness, que acabou mais famoso pela série/filme "Os Intocáveis" do que por ter derrotado o crime organizado em Chicago. Aliás, é justo que a fama venha pelo cinema, já que o crime organizado em Chicago goza de muito boa saúde, como acaba de demonstrar o episódio envolvendo o governador de Illinois, Rod Blagojevich. 
Lacerda, em vez de se tornar personagem de cinema, está indo para o exílio, ainda que dourado, na doce e bela Lisboa. 
É a grande diferença entre Brasil e Estados Unidos: lá, o xerife vai para o céu ou para o inferno, mata ou morre, mas não vai para o exílio nem para o limbo. 
Aqui, não. Quantos dos Al Capones que a Polícia Federal de Paulo Lacerda expôs ao público estão na cadeia? Se eu disser nenhum estarei exagerando? Aqui, tudo é turvo, raros casos chegam de fato ao epílogo quando envolvem criminosos ou suspeitos de colarinho branco. Tanto que o único punido, até agora, na tal Operação Satiagraha é quem? Sim, sim, é o nosso Eliot Ness, o xerife, enquanto os vários acusados de Al Capone gozam do ar fresco da liberdade -e no Rio de Janeiro, que não perde para Lisboa, a não ser no quesito bala perdida.
Se, como diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lacerda é uma das pessoas que ele mais respeita, por que a punição, ainda que seja doce como o é um exílio dourado? (o exílio só é duro quando você não pode voltar para casa sob pena de ser preso). 
Nos Estados Unidos, Eliot Ness não conseguiu enquadrar Al Capone em nenhum crime a não ser em sonegação fiscal. No Brasil, a Operação Satiagraha só conseguiu enquadrar o nosso Eliot Ness. É todo um compêndio sobre os usos e costumes da pátria amada. Ainda assim, Feliz Ano Novo. 

A VARANDA: RETROSPECTIVA


UMA GATINHA NA VARANDA

COLUNA PAINEL

Só pensa naquilo


Folha de S. Paulo - 31/12/2008
 

Nas derradeiras reuniões de 2008, Lula manifestou aos auxiliares uma preocupação acima de qualquer outra: desonerar os investimentos como resposta ao cenário de crise que ameaça se aprofundar no ano que vem. O presidente pediu ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que apresente propostas em janeiro.
Lula diz que o governo já avançou nessa direção ao reduzir paulatinamente o prazo de ressarcimento de PIS/Cofins e IPI para compra de máquinas e equipamentos e instalação de empresas, mas acha que, à luz da nova conjuntura, isso é pouco. Quer que a empresa só passe a pagar impostos quando começar a produzir. Falta, evidentemente, combinar com a Receita.
Conta de chegada. Para combater a esperada resistência da Receita à sua proposta de desoneração, Lula usa o seguinte argumento: afrouxar a sanha arrecadatória e estimular a produção agora é o melhor caminho para garantir arrecadação mais adiante. 

Fui 1. Acossado por senadores que o pressionam para liberar recursos até o último minuto de 2008, o ministro Paulo Bernardo esperou o chefe viajar ontem para Recife e não teve dúvida: deixou Brasília "à francesa". Até o início da noite, congressistas ainda o procuravam na capital na sede do Planejamento. 

Fui 2. A primeira-dama Marisa Letícia não participou do almoço de Lula com parentes na capital pernambucana. Acompanhada por filhos e netos, seguiu direto para Fernando de Noronha, onde a família passará o Ano Novo. 

Ação! O diretor Fábio Barreto começará a rodar em 20 de janeiro seu filme sobre a vida de Lula. As primeiras tomadas serão feitas em Caetés, ex-distrito de Garanhuns onde o presidente nasceu. 

Esticadinha. Do chanceler Celso Amorim, fazendo mistério sobre a data do retorno do embaixador brasileiro ao Equador, uma vez anunciado que o país pagará no início de janeiro a recém-vencida parcela de empréstimo tomado do BNDES: "Puxa, deixa ele passar o Ano Novo aqui, descansar um pouco, coitado!".


Delay. Apesar dos três meses de afastamento e da exoneração oficial, anteontem, a página da Abin na internet exibe o perfil de Paulo Lacerda como diretor-geral e a cópia do decreto de sua nomeação para chefia da agência.

Tenho dito 1. Em entrevista postada hoje em seu blog, Roberto Jefferson concorda com José Dirceu, que pretende pedir anistia caso seu julgamento seja adiado indefinidamente. "Ele tem razão, e eu também. Cinco anos é muito tempo para quem acertou muito mais do que errou. Quero voltar em 2010", diz o presidente do PTB. 

Tenho dito 2. O autor da denúncia do mensalão nega arrependimento: "Pelo contrário. O Brasil hoje tem noção que tem gente boa à esquerda e à direita, e gente ruim à esquerda e à direita. Os discursos puritanos que o PT fazia eram muitos ruins para a democracia. Isso passou". 

Cota. Enquanto se especula sobre a ida do prefeito de BH, Fernando Pimentel, para um cargo no governo Lula, o PT mineiro faturou outra vaga federal: Édilo Valadares virou vice-presidente da CEF

Currículo 1. O sucessor de Pimentel, Marcio Lacerda (PSB), ainda não nomeou nenhum dos secretários para as nove regionais, mas avisou aos partidos da aliança que quer "técnicos sem pretensões políticas" nesses cargos. 

Currículo 2. O tucano Marcelo Teixeira, indicado secretário da Saúde, foi apresentado por Lacerda como "ex-militante do PT em Brumadinho". Ele foi secretário de Aécio e trabalhou com José Serra no Ministério da Saúde.

Tiroteio 

"O Ministério Público e a PF desvendaram coisas cabeludas em 2008. Mas, não adianta nada, porque o Judiciário é desfuncional. Prova disso é o caso Daniel Dantas." 
De 
DAVID FLEISCHER, membro do Conselho da Transparência Brasil, sobre a polêmica em torno da Operação Satiagraha

Contraponto 

Papo de boteco

Depois de presidir uma inauguração, na semana passada, Gilberto Kassab aceitou convite do secretário municipal Ricardo Montoro para tomar um chopp no Bar Brahma, endereço tradicional do centro paulistano.
O prefeito chegou pouco antes do horário do almoço, quando os garçons se preparavam para receber a clientela. Ao reconhecê-lo, anteciparam a abertura das portas. Em seguida surgiu Montoro, que perguntou ao porteiro:
-O prefeito já chegou?
-Sim, senhor. Prefeito bom é assim: se a casa tiver problema, ele manda fechar. Mas, quando o lugar é bom, ele mesmo vem e manda abrir!

ILIMAR FRANCO

Dia D

Panorama Político

O Globo - 31/12/2008
 

O encontro do senador José Sarney (PMDB-AP) com o presidente Lula, na segunda semana de janeiro, será decisivo. A aposta no PMDB é que, pressionado pela bancada, Sarney finalmente aceitará ser candidato à presidência do Senado. Ele tem dito que não quer. "Não basta não querer. Em política tem que se levar em consideração o todo", diz um cacique peemedebista. 

DEM e PMDB: namoro ou amizade? 

O DEM vai embarcar na administração João Henrique (PMDB) em Salvador. Deve emplacar Cláudio Tinoco na presidência da empresa de turismo da cidade. Ao apoiar o prefeito no segundo turno, o deputado ACM Neto (DEM) disse que seu partido não participaria da administração. "Não vamos indicar quadros para o primeiro escalão. Esse foi o compromisso que assumi. Mas para o segundo escalão deixarei o prefeito à vontade para recrutar quadros nossos", afirmou Neto. O DEM também deve indicar técnicos para a área de segurança pública. A aproximação entre DEM e PMDB faz tremer a relação deste último com o PT. 

Ele caiu para cima" - Demóstenes Torres, senador (DEM-GO), sobre a indicação de Paulo Lacerda, ex-diretor-geral da Abin, para o posto de adido policial em Portugal 

Pisando em ovos 

Apesar das pressões, o ministro José Múcio (Relações Institucionais) diz que o governo continua trabalhando com Tião Viana (PT-AC) no Senado e Michel Temer (PMDB-SP) na Câmara. "Para nós, o quadro é o que está aí", disse ele. 

Governo x empresários 

Apesar da crise econômica mundial, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) descarta qualquer flexibilização na legislação trabalhista para garantir a manutenção dos empregos. E classifica como "ato de covardia" a proposta feita por empresários, entre eles o presidente da Vale, Roger Agnelli, ao governo. "Quando todo mundo estava ganhando dinheiro, ninguém discutiu a flexibilização dos lucros", afirmou o ministro. 

Cristovam em campanha 

O presidente Lula e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) tiveram uma rápida conversa anteontem sobre a candidatura do pedetista à diretoria-geral da Unesco, depois de solenidade no Palácio do Planalto. Ficaram de voltar ao assunto em janeiro. O principal obstáculo à aspiração de Cristovam é o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), que defende o apoio à candidatura dos países árabes. O prazo para a indicação dos nomes termina em março. 

VOLTA AO MUNDO. Do deputado Pedro Eugênio (PT-PE) sobre o discurso do presidente Lula ontem, em Recife: "Ele foi da caatinga à Palestina". 

VALE TUDO. O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), aproveitou o recesso para assistir a um campeonato de vale-tudo nos EUA. 

O MINISTÉRIO da Justiça prorrogou a permanência da Força Nacional de Segurança no Maranhão até 4 de março. O governo do estado pediu ajuda no início de novembro devido ao caos na segurança pública. 

Palmo a palmo 

A equipe anunciada pelo prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), é formada por nove secretários do PT, dois do PSDB e dois do PSB. Parece que o PT chiou à toa diante da aliança com o PSDB do governador Aécio Neves.

ANCELMO GÓIS

Ano do colete I


O Globo - 31/12/2008
 

 O ministro Carlos Minc, com a ajuda de Jerson Kelman, o supertécnico do setor elétrico que está deixando a Aneel, prepara projeto que vai dar o que falar. 
A idéia é reduzir a altura do reservatório de água da Usina de Balbina, no Amazonas, de 51m para 48m. Diminuiria a capacidade de geração em miúdos 8 MW de energia elétrica. 

Ano do colete II 

Em troca, a medida permitiria, veja só, uma devolução de terras férteis para agricultura ou reflorestamento de 575 quilômetros quadrados. 

A área devolvida seria maior do que a ocupada pelos reservatórios das futuras usinas de Santo Antônio e Jirau, que juntas vão produzir 6,6 mil MW. 

Ano do colete III 

Inaugurada no fim da década de 1980, Balbina é considerada talvez o maior desastre ambiental da História do Brasil. 

Apesar de tudo, produz apenas 250 MW. 

Ano do colete IV 

Aliás, neste Natal, Minc ganhou mais dois coletes. 

De maio, quando assumiu, para cá, seu guarda-roupa cresceu de 42 para 53 dessas indumentárias. 

Ano do colete V 

Aviso aos fãs ou, quem sabe, puxa-sacos. Quem quiser presentear o ministro com um colete, suas medidas são: 

Altura do ombro ao final do colete: 65 cm; cava do braço: 33 cm; largura da frente: 61 cm; largura das costas: 62 cm; e altura das costas: 57 cm. 

Ruim de pontaria 

De dona Gilda, mãe de Sergio Vieira de Mello, chefe da missão da ONU em Bagdá, morto num atentado em 2003, sobre a sapatada do repórter em Bush: 

- Não gostei porque ele errou o alvo. 

Faz sentido. 

Baixa o juro, Meirelles! 

Economistas de peso defendem uma espécie de operação de "swap", troca, na língua do povo, entre o BC e a Fazenda. 

Henrique Meirelles comandaria o controle dos gastos públicos e Guido Mantega, a queda dos juros. 

Sou um milagre 

Amanhã, quando Eduardo Paes assumir no Palácio da Cidade uma banda vai tocar, além da "Valsa de uma cidade", de Antonio Maria, a música religiosa "Sou um milagre", do grupo Maranatha. Paes se encantou pelo hino durante um momento difícil de sua campanha, numa visita à Igreja Cristo Operário, na Vila Kennedy. 

Um trechinho: "Aquilo que parecia ser minha morte/ Mas Jesus mudou minha sorte/ Sou um milagre". 

Acabou em pizza 

Na noite de Natal, uma consumidora carioca descobriu desolada que seu chester da Perdigão veio sem uma asa. Acionada pelo SAC, a empresa ofereceu mandar outra penosa. 

A madame argumentou que não chegaria a tempo da ceia. A Perdigão, então, mandou no lugar... uma pizza de presunto. 

High society 

Toda a féria do salão de cabeleireiro da sede social do Jockey Club Brasileiro, no Rio, foi furtada, no sábado, dia 27. 

Diário de férias III 

Eduardo Suplicy, de férias em Ipanema, apiedou-se do dono da famosa barraca do Uruguaio, que sofreu uma ação da Secretaria municipal da Fazenda. 

O fofo ligou para a prefeitura para interceder pelo barraqueiro. 

No mais... 

O senador fica no Rio até o dia 5. A coluna criou um e-mail especial para receber notícias de sua passagem aqui na terra (suplicyofofonorio@gmail.com).

+ OU - DEPENDE DE VOCE


terça-feira, dezembro 30, 2008

ALEX MEDEIROS

Guerras, pra que te quero?


Há muito mais perigo para o mundo no tiroteio entre o exército judeu e os terroristas do Hamas do que possa imaginar o jornalista Gilles Lapouge, correspondente em Paris do jornal O Estado de São Paulo, que hoje faz uma boa análise do conflito em Gaza.

A violência que retornou de repente pode ser apenas um aperitivo da loucura bélica que está para explodir na região, anexando à histérica batalha, combatentes perigosos como o Irã, a Síria e os grupos terroristas das várias tendências muçulmanas.

Há uma questão nessa pendenga armamentista passando à margem das interpretações dos economistas que espiam a crise global. Os grandes conglomerados financeiros, os gigantes de mercado e até Washington não têm tanto interesse na paz, pelo menos agora.

Guerras são e sempre foram um simulacro da desordem política. Em tese, servem como a tampa manufaturada de uma panela de pressão industrializada. Guerras destroem vidas* para reconstruir mercados, a economia. Tem sido assim “per secula seculorum”.

A crise que balança o planeta já deveria ter estourado há alguns anos, mas foi sustada pelos ataques americanos aos talibãs e depois pela invasão do Iraque, com a participação de várias nações do chamado mundo civilizado.

Desenha-se agora no Oriente, com a sempre fiel caneta guerreira de Israel, um novo palco de uma guerra que poderá se estender pelo tempo que for necessário, até que as indústrias atingidas pela crise encontrem sua paz no balanço e na bolsa.

Radicalizando suas ações contra o Hamas, as tropas israelenses certamente atacarão também o Hezbollah e estenderão seu poder às fronteiras minadas com o governo belicista de Mahmud Ahmadinejad, o doido que quer varrer Israel do mapa.

O que seria apenas mais um conflito enlouquecido entre judeus e palestinos, poderá descambar para uma guerra convencional envolvendo os sírios, os libaneses e os iranianos, além da fatal participação dos EUA e seus fiéis aliados de mercado.

Não há nada mais eficiente para sanar uma crise econômica, com víeis financeiro, do que uma boa e sanguinolenta guerra. No conflito se vende tudo, na paz nem tanto. Nunca se precisou tanto se vender de tudo. E só uma guerra oferece tantos produtos.

Nas guerras, vendem-se armas, combustível, motores, remédios, roupas, alimentos, calçados, tecnologia, papel, plástico, ferro, aço, borracha, cimento. Para destruir é preciso vender e depois vender ainda mais reconstruir. O moto contínuo do horror.

Se as perspectivas para 2009 já eram as piores possíveis no plano apenas das movimentações de mercado, poderão agravar-se mais com a explosão de uma guerra sem proporções no Oriente Médio, envolvendo parte do planeta.

Outra guerra fratricida, movida em principio por ódios e diferenças políticas seculares, mas abastecida pela mão do poder econômico que tudo pode. É assim que o mundo gira, com os homens destruindo para reconstruir o que vai destruir depois. A paz, infelizmente, não tem construído muito.

MINHAS LEMBRANÇAS DE 2008


ALGUMAS GOSTOSAS QUE PASSARAM AQUI NA VARANDA 







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