domingo, dezembro 07, 2008
COLUNA PAINEL
Sem dó nem piedade
| Folha de S. Paulo - 07/12/2008 |
O Poder Judiciário será especialmente atingido pelos cortes que a crise vai impor ao Orçamento de 2009. Cerca de 80 obras espalhadas pelo país, em especial novas sedes para a Justiça Federal, estarão entre as primeiras a entrar na tesoura. Clareira Em 1962, concorriam a deputado estadual na Bahia os dois filhos do então governador, Juraci Magalhães: Jutahy e Juracy Júnior. Como demonstração de unidade, Juracy propôs ao irmão: |
ÉLIO GASPARI
Lulômetro
| O Globo - 07/12/2008 |
Em setembro passado, o mago Warren Buffett botou US$10 bilhões no banco Goldman Sachs. Foi uma demonstração de confiança no sistema financeiro. O bilionário comprou a ação a US$121 e, na semana passada, ela valeu US$70. Em tese, Buffett perdeu US$4,2 bilhões. (Em 2002, o Goldman Sachs criou o Lulômetro, um derivativo de terrorismo eleitoral.) |
PARA...HIHIHIHI
-Hummm?!
-Acorda...
-Hummm?!
-Acoorda!!!!
- Desorientado e assustado, o sujeito se levanta e pergunta:
-O que aconteceu?!
-Estou com desejo...
-Desejo???
-É... de comer carne de urubu...
-Urubu??? Mas onde vou achar um bicho desses, agora???
-Vai no lixão...
-Tá louca!!! Eu não vou a lixão algum!!! Se quiser, pinte um frango de preto mate e coma!!!
-Puta da vida, ela fala:
-Nunca se arrependa se nosso filho nascer com carinha de urubu.
Nove meses se passam. Chega o dia do parto e, quando o Cara vai ver seu filho querido, vê que seu herdeiro é pretinho, pretinho. O Retardado cheio de remorso corre para a casa de sua mãe e diz:
-Mamãe, eu não quis dar carne de urubu para a minha esposa quando ela estava grávida e sentiu desejo. Agora meu filho nasceu preto como o bicho!!!
A mãe, bem humorada, consola o filho que está em prantos:
-Esquenta não, filho... quando eu estava grávida de você, tive desejo de comer carne de Touro, não consegui... você nasceu chifrudo, e nem percebeu!!!
ELIANE CANTANHÊDE
Bota tsunami nisso!
Folha de São Paulo
Pode ser? Tudo pode, mas há três fatores para contrariar a certeza.
O primeiro é que, aqui e alhures, considera-se que nenhum país escapa da crise, mas o Brasil tem indicadores macroeconômicos sólidos, bom colchão em dólares (ainda...) e mercado interno robusto.
O segundo é que a popularidade de Lula, faça chuva, faça sol, mensalão ou cuecão, fale ele o palavrão que falar, tem sido uma rocha.
E o terceiro é que o mesmo Datafolha que apurou os 70% de Lula completou a informação: 78% dos brasileiros estão otimistas e achando que a vida vai melhorar em 2009.
Mais: 58% acreditam que serão pouco afetados, e 10%, nada afetados. Crise? Que crise?
Os brasileiros, portanto, ainda acreditam em Papai Noel e que a crise é só uma marolinha, enquanto o tsunami devora 1,2 milhão de vagas em três meses e 533 mil num único mês nos EUA. E está vindo.
Isso demonstra má informação e confiança quase mística em Lula.
Com motivo. Nos anos de bonança externa, durante seu governo, a renda e o emprego aumentaram, a classe C virou metade da população, o PAC alimentou votos para cima e o Bolsa Família, para baixo.
Lula, portanto, tem que reduzir ao mínimo o efeito da crise no eleitor de carne e osso (baixando juros, por exemplo?) e fazer como no mensalão, no dossiê, na crise aérea, na guerra da Abin e da PF: fingir que não é com ele. O que der certo contra a crise, o mérito é dele; o que der errado, a culpa é do Bush, do mercado, do liberalismo, dos astros.
Para eleger Dilma, Lula tem que calibrar o equilíbrio entre o tamanho da crise e sua popularidade.
Um tsunami, para afetar seu projeto, tem que ser de bom tamanho.
Senão Lula fura 2009 e surge em 2010 na crista da onda.
JOÃO UBALDO RIBEIRO
A POPULARIDADE DO HOMEM
ESTADO DE SÃO PAULO
Mais velha que ela, talvez, só a janela atacada, cujo arrombamento deve ter sido feito com duas leves pressões do polegar e da qual não sobrou nada. Como não se fazem mais janelas no padrão dela, sua substituta teve que ser produzida de encomenda, o que, junto com o custo das grades, me saiu um pouco caro, mas nada de importante, só os olhos da cara mesmo.
E hoje estou contente, porque, como também disse antes, Itaparica não fica a dever a nenhuma grande capital e agora também todo mundo lá mora ou quer morar atrás de grades.
Isso mesmo tem se repetido em todos os círculos sociais da ilha. Já se pode ter medo de ficar sozinho em casa, já se pode contar como foi o assalto e assim por diante. Antigamente, vamos reconhecer, Itaparica era um atraso só, passavam-se anos e anos sem que ninguém matasse ou assaltasse ninguém. Nenhum carioca ou mesmo baiano de Salvador pode mais querer nos diminuir com os ares sofisticados de quem mora em cidades inseguras e está habituado a todo tipo de notícia policial.
Mas não é possível agradar a todos, principalmente quando há má vontade, como — ele há de me desculpar, mas o primeiro dever do jornalista é para com a verdade — no caso de Zecamunista. Não tem nada que o governo faça que ele não caia de pau em cima, em discursos tão ribombantes que até as prateleiras do bar de Espanha chegam a tremer. Isso mesmo, segundo eu soube, lhe foi dito por Lourenço Divino Beiço, na happy hour do bar de Espanha, onde o clima era pacífico e calmo até a chegada do incorrigível subversivo.
— Não se pode falar nada de Lula que você não esculhambe — disse Divino Beiço. — Também assim é demais.
— Não tem nada que Lula o quê? — perguntou Zecamunista, pondo a mão em concha atrás da orelha.
— Como é que é? Não tem nada que Lula o quê? — Não tem nada que Lula faça que você não esculhambe.
— Repita, que eu não estou percebendo bem, acho que estou ficando surdo depois de velho, repita aí, pelo amor do proletariado.
— Você já ouviu, não tem nada que Lula faça que você não esculhambe.
— Por aí se vê como você não tem razão, já começa com uma mentira.
— Mentira não, todo mundo aqui é testemunha.
— Prova testemunhal não quer dizer nada diante da lógica. E a lógica diz que eu nunca esculhambei nada que Lula fez pela simples razão de que ele nunca fez nada! Sacou, sacou? Como é que eu ia esculhambar nada? — Olhe aí você já esculhambando, dizendo que o homem não fez nada.
— E não fez mesmo! Desde o começo do governo dele que o Brasil só tem ido na embalagem, na banguela.
Agora que a barra está pesando, você vai ver. E não teve mudança nenhuma, a educação não melhorou, a saúde não melhorou, a segurança não melhorou, nada melhorou! Diga aí uma coisa que melhorou.
— Ah, digo várias. Eu digo, digo assim... É porque...
— É porque o que você vai me dizer é que Zoião já pegou três bolsas família, uma da legítima e mais duas com as raparigas dele, que todo mundo, inclusive você, que não precisa, pega cesta básica, que ele já deu emprego no governo a gatos e cachorros e outras besteiras alienadas, era isso o que você ia me dizer. Eu quero saber o que é que melhorou! Estrada está pior. Porto está pior. Trem não tem. Até aviação está pior, o que é que está melhor? — E o que é que você me diz da popularidade dele? Pronto, eu fico com essa, o que é que você me diz da popularidade dele? — Eu digo que vocês são burros e não sabem de nada do que estão falando.
— Certo, certo, nós todos somos burros, o inteligente é você. Eu vou lhe fazer uma pergunta, uma pergunta muito simples. O que é que o sujeito quer, quando entra na política? — Aqui é pra se fazer. O negócio é entrar, ir subindo e se fazendo pelo meio do caminho, sair pobre e magro é vergonha.
— Exatamente. Como em qualquer outra profissão. E aí eu lhe pergunto: Lula se fez ou não se fez? — Se ele se fez? Um cara que sai do nada e que nunca estudou nem trabalhou chega a presidente da República, cercado de todas as mordomias possíveis, com tudo do bom e do melhor, claro que ele se fez.
— E então? Ele se fez muito bem mesmo, mudou muito, perdeu até a cara de pobre. E você está por cima da carne-seca, que nem ele? — Eu? Que pergunta mais besta, eu?— Pois é. E o inteligente é você, o burro é ele. Morda aqui, Zeca, o brasileiro admira muito é quem soube se fazer na vida.
BRUNA TALARICO
O jeitinho brasileiro, quem diria, faz 200 anos
Com a vinda da família real para a colônia começou a troca de favores
JORNAL DO BRASIL
O jeitinho brasileiro é onipresente e seu significado, categórico na construção da identidade nacional. Todo mundo sabe o que é e todo mundo sabe que tem. Mas o que ninguém sabe é que o mulato inzoneiro pode ter nascido bem aqui, sobre a Guanabara e sob o abraço do Cristo Redentor. E há 200 anos.
A troca de favores, base do jeitinho que consagrou o povo da terra do pau brasil – e da cachaça, do bumbum e do samba, pra exaltar o lado bom – começou de maneira literária. Com a vinda da família real para o Brasil, em 1808, a publicação de impressos passou a ser permitida a partir da aprovação prévia da Imprensa Régia. E, com a legalização das impressões, surgiu, no mesmo ano, o sistema das dedicatórias: tanto uma afirmação pública de lealdade e submissão ao soberano quanto uma demonstração da crença na concessão em troca de benefícios.
– O objetivo era abrir caminhos e mantê-los abertos. Oferecer uma obra era esperar receber um cargo público, por exemplo – ilustra Ana Carolina Delmas, mestre em história pela Uerj, traçando um paralelo com a permanência de cargos públicos dentro de algumas famílias e grupos de amigos. – O que são esses políticos todos que têm cargos importantes e empregam a família inteira? É uma troca de favores, a essência da dedicatória no século 19 você vê hoje como conhecimento e troca de favor.
Nesse contexto, incluem-se os cargos de confiança que, para a historiadora, já ilustram semanticamente a permanência das relações de privilégio na sociedade.
– Não é cargo de meritocracia, é cargo de confiança. A pessoa não é escolhida em uma entrevista, e sim pelo conhecimento com alguém de dentro – enfatiza. – A gente ainda tem muito dessas relações de favor, mesmo não impressas em dedicatórias. Dá para entender muito bem a essência do que somos hoje.
A prática, que se concentrava no Rio de Janeiro por conta da proximidade com a corte portuguesa, ilustra o início do século 19 no Brasil e mostra que o carioca já tinha, desde então, noções de sociabilidade às vezes não atribuídas à época.
– É um problema. Ainda estamos muito apegados às instituições. Somos assim: envolvidos na pessoalidade, por mais que queiramos dizer que não – argumenta, ressaltando que, no entanto, o caráter específico das dedicatórias é outro. – A gente nunca parou de fazer. Agora é mais afetiva que o sistema de interesses, dedicamos os livros aos amigos, à família, e a quem a gente gosta.
Para a psicanalista Alice Bittencourt, o brasileiro ainda usa e abusa do jeitinho para compensar a insegurança de pertencer a um país onde as leis não são respeitadas. E um ciclo vicioso é iniciado quando, por não acreditar nas regras, não as cumpre, nem exige seu cumprimento.
– O brasileiro se sente inferiorizado e, de certa forma, acha que não tem capacidade para fazer valerem seus direitos. A partir daí, vai dando seu jeitinho: não cumpre a lei porque não se sente capaz nem de cumpri-las e nem de fazê-las cumprir – critica. – A gente tem a cultura um pouco nesse sentido, para tudo a gente dá um jeito.
AUGUSTO NUNES
Sete Dias
JORNAL DO BRASIL
Otimismo na tempestade – Lula acha que doente em estado grave não deve ouvir más notícias
"Você é feliz?", perguntou o jornalista a Tonia Carrero. "Sou", fez uma ligeiríssima pausa a grande atriz. "Várias vezes ao dia". Bela, talentosa, vencedora, rica, bem-sucedida – o que estaria faltando a essa rainha dos palcos? Nada. Ocorre que Tonia pensa. Quem tem a cabeça em bom estado, e não concede férias ao cérebro, sabe que não existe a dor que nunca passa, mas não se pode ser feliz o tempo inteiro. É assim com as pessoas. É assim, por conseqüência, com os países.
Não no Brasil, ressalvam os resultados da pesquisa divulgada na quinta-feira pelo Datafolha. O governo Lula é considerado ótimo ou bom por 70% dos entrevistados – o maior índice obtido por um presidente desde o fim da ditadura. O levantamento também garante que 61% estão plenamente satisfeitos com a situação econômica e 78% acreditam que a vida vai ficar ainda melhor em 2009.
"Os brasileiros ainda não sentiram os efeitos da crise econômica", acha Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Segundo a pesquisa, 72% sabem, bem ou mal, que problemas financeiros andam tirando o sono de muita gente. Longe daqui.
Já faz algum tempo, Lula deu por resolvidos problemas acumulados em cinco séculos de incompetência, avisou que logo cuidaria do pouco que restava, comunicou que nunca antes neste país houve um governante tão formidável e ordenou ao Brasil que fosse feliz todos os dias.
Quem tem motivos para viver em estado de graça no paraíso que Deus poupou de catástrofes naturais e Lula blindou contra desastres econômicos? Só os napoleões de hospício, os que babam na gravata e os que acordam e dormem torcendo pelo insucesso do ex-operário genial.
A seqüência de pesquisas avisa que a tribo hoje não passa de 7% e caminha para a extinção. Em contrapartida, a grande maioria acatou a decretação da felicidade permanente e resolveu ficar mais feliz sempre que se conjugam um claro sinal de perigo e uma maluquice do Grande Pastor.
A marca dos 70% foi alcançada ao fim dos três dias em que Lula jurou que haverá emprego para todos e a Vale demitiu 1.300. Lula explicou que a crise vai fortalecer o Brasil, embora a inflação tenha ficado mais musculosa. Deve-se presumir que, graças à medonha conjunção dos astros ocorrida na quinta-feira, a próxima pesquisa acusará outro salto no índice de popularidade. Excitado com a cavalgada do dólar, uma das muitas evidências de que a marolinha quer ser tsunami quando crescer, Lula fundiu a indigência intelectual com o apreço pela vulgaridade e foi à luta.
"Quando o mercado tem uma dor de barriga, e nesse caso foi uma diarréia braba, quem é chamado? O Estado", berrou no meio do improviso. Em seguida, incorporou um médico examinando o doente em estado grave para justificar o otimismo inabalável. "O que você fala? Dos avanços da medicina ou olha pra ele e diz: meu, sifu?". Sabe-se agora que o doutor Lula acha que o Brasil sifu. Só não conta para não apavorar o doente.
Esse secretariado é de meter medo
Abalados pela nomeação de Jandira Feghali para secretária das Culturas, milhares de cariocas quase foram a nocaute com as duas pancadas desferidas por Eduardo Paes. Levou-os às cordas a criação de uma Secretaria do Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida chefiada por Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson e mãe de idéias de alta periculosidade. E continuam grogues com a promoção de Chiquinho da Mangueira a secretário de Esportes. Falta só um Babu para que, concluída a formação do secretariado, o prefeito eleito do Rio seja obrigado a lidar com algum processo por formação de quadrilha ou bando.
Três cardeais e um milagreiro
O silêncio dos cardeais Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aécio Neves sugere que a sereníssima trindade tucana não decifrou por inteiro o mistério da Paraíba, protagonizado pelo irmão Cássio Cunha Lima. Sempre mais ansiosos, os representantes do baixo clero do PSDB decidiram que o erro do bispo nordestino foi fechar os olhos à trama forjada por outras igrejas. Se a trinca avalizar a absolvição do suspeito, ficará estabelecido que ocorreu na diocese de João Pessoa não uma compra de votos no atacado, mas o milagre da multiplicação dos cheques. Nesse caso, o suposto pecador é mais que um inocente. É meio santo.
Natal do perdão esquece ministro
Líder do movimento Impunidade para Todos, fundado para lutar pela uniformização do tratamento dispensado aos fora-da-lei engravatados, o escritor Wilson Gordon Parker não entende por que o Natal do perdão esqueceu Paulo Medina, ministro do Superior Tribunal de Justiça reduzido a réu pelo STF. Em uma semana, Paulinho da Força foi resgatado pelo bando multipartidário de comparsas, Daniel Dantas soube que não cumprirá uma pena bem mais branda que a merecida, Cássio Cunha Lima conseguiu ficar no velho esconderijo. Por que Medina ainda não foi premiado com o habeas corpus preventivo?
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Desemprego no Brasil pode ir a 9% em 2009
- Folha: Crise reduz investimentos em R$ 40 bi
- Estadão: Governo prepara medidas para baixar custo do dinheiro
- JB: Rio lidera rota do tráfico de animais
- Correio: Crack, a droga que assombra Brasília
sábado, dezembro 06, 2008
COLUNA PAINEL
"Burro é quem explica"
| Folha de S. Paulo - 06/12/2008 |
Em meio ao furor causado pelo "sifu", passou despercebido um trecho do discurso de Lula, anteontem no Rio, no qual o presidente praticamente chamou seu ministro da Cultura de burro. Hein?
Durante concorrida audiência da Comissão de Orçamento com Henrique Meirelles, deputados tucanos pressionavam o presidente do BC a admitir que a crise global afetará o crescimento no Brasil. Quando chegou a vez de chamar Alfredo Kaefer (PSDB-PR), o presidente da comissão, Mendes Ribeiro Filho (PMDB-RS), trocou o prenome do deputado por "Ademir". Mas logo se desculpou: |
CRISTOVAM BUARQUE
Solução definitiva
| O Globo - 06/12/2008 |
Não faz muito tempo, o Brasil era um país dividido pelo debate entre idéias: economia aberta ou fechada; privatização ou estatização; democracia ou autoritarismo; socialismo ou capitalismo. Hoje, o debate ideológico se limita a cotas e bolsas. De um lado, os que negam aos pobres e negros o apoio de bolsas e cotas; de outro, aqueles que consideram bolsas e cotas suficientes para resolver o problema da pobreza e do preconceito. Parte da população é contra a distribuição de bolsas para pobres; parte considera que a distribuição de bolsas é suficiente para credenciar um governo. O mesmo acontece com as cotas. Parte é contra usá-las como instrumento para formar uma elite universitária negra; outra parte comemora a existência das cotas como se fosse a solução para todos os problemas que pesam sobre os negros brasileiros. |
A CONTA DO CASAL K
| O Globo - 06/12/2008 |
Não há país inteiramente preparado para resistir à crise internacional. Alguns estão em melhores condições que outros. Mas poucos estarão tão despreparados como a Argentina, cuja economia já estava debilitada. Ontem, não havia combustível em Buenos Aires. Empresários e trabalhadores dos postos de gasolina deflagraram uma greve de 24 horas, com adesão de 95% e longas filas nas poucas bombas abertas. O setor reivindica rentabilidade mínima e proteção ao emprego - 3 mil postos já fecharam na Argentina, com perda de 40 mil empregos. A dificuldade dos empresários é obter uma resposta do governo, a quem não interessa reajustar preços ou salários por conta de uma inflação de 15% a 25% ao ano, maquiada para ficar nos 8% ou 9%. |
ILIMAR FRANCO
Chororô
| Panorama Político |
| O Globo - 06/12/2008 |
A bancada do PT na Câmara dos Deputados anda reclamando, mais do que o de costume, de falta de apoio da base governista nas votações e na defesa do governo. Estão ressentidos também da suposta ausência de reconhecimento do Palácio do Planalto dos serviços prestados pelo partido. O Planalto já captou a insatisfação e está organizando jantar com o presidente Lula para agradar aos petistas. Motivos da insatisfação Imagem |
VILLAS-BÔAS CORRÊA
Lula perdeu o rumo na reta final
Vá lá que a sentença pessimista peque pelo exagero. Mas não tanto que invalide a especulação sobre as possíveis saídas do presidente para encontrar o caminho limpo e o apoio popular nos altos índices ascendentes das pesquisas, dos sucessos da política econômica com mais R$ 300 bilhões de dólares nas arcas do Tesouro, sob a sovina vigilância do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Na contramão, a bagunça na casa das mordomias, das mutretas do pior Congresso desde a queda do Estado Novo, viciado em levar vantagem na negociação do voto e que não dá segurança e tranqüilidade ao governo, mesmo com o alto preço da barganha de ministérios, autarquias, cargos de confiança, controle de obras de milhões de reais, desperdiçados na angústia da necessidade para adquirir o apoio e o voto das legendas que ornamentam o leviano bloco majoritário.
Por falta de experiência, de apreço pelo jogo parlamentar, Lula cometeu erros que passaram despercebidos no período de bonança e hoje mais atrapalham do que ajudam. Certamente, o presidente não precisaria espichar o atrito com o presidente do Senado, Garibaldi Alves, no final do mandato, com a teimosia de abusar das medidas provisórias para trancar a pauta das votações e disputar com o Supremo Tribunal Federal (STF) o controle dos votos e o direito de legislar atropelando o Legislativo. E era tal a segurança do presidente de que talvez não elegesse um poste, mas faria seu sucessor com uma candidatura feita em casa, que lançou numa seqüência de discursos, entrevistas e conversas com jornalistas a candidatura da chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, com 8% na pesquisa divulgada no blog do prefeito Cesar Maia. Os resmungos dos frustrados do PT, que são muitos e com cacife, que sequer sustentam as pretensões a uma vereança municipal.
A ministra-candidata conquistou espaço no Palácio do Planalto e anexos. Um tanto sem jeito, procurou domar o seu temperamento, clarear com sorriso o rosto sempre sério e com a habilidade no manejo do esquema de publicidade oficial operou a mágica de, até agora, espaçar as pesquisas e manter o nome da candidata do presidente fora das listas de aspirantes. Alguns percentuais que furaram o cerco mereceram duas linhas de registros em colunas, e os sinos não bimbalharam. Um dígito não enche o bojo de um candidato a mandato majoritário, de prefeito a presidente.
Mas, sem concorrente em casa, com a oposição a brincar de pique entre as candidaturas do favorito, o governador José Serra, de São Paulo, e o obstinado Aécio Neves, governador de Minas, Lula decidiu apresentar a candidata ao eleitorado, incluindo-a em todas as suas viagens de um campeão de milhagens aéreas no Brasil e no exterior. Com o crachá de responsável pelo Projeto de Aceleração do Crescimento, o PAC de verbas milionárias e obras nas áreas carentes, alem de planos mais ambiciosos de recuperar a malha rodoviária em pandarecos, os portos abandonados nos seis anos dos dois mandatos.
Ora, tanto esforço, empenho, discursos, entrevistas, viagens pelo mundo foi de ladeira abaixo nas enxurradas que castigaram Santa Catarina, Espírito Santo e estado do Rio, com o horror de uma das maiores, senão a maior tragédia da nossa crônica de desleixo com a natureza, de omissão dos governos diante da ocupação de áreas de risco, com casas e favelas equilibradas em morros ou na beira dos rios que costumam inundar amplas áreas nos temporais de anos de enchentes, com mortos, desabrigados, casas destruídas e os milhares de famintos que tudo perderam, menos a vida e não sabem por onde recomeçar.
Lula não se omitiu, demorou a avaliar a dimensão da calamidade. De lá para cá, a corrente da solidariedade da população lota centenas de caminhões com a doação de roupa, calçado, cobertores e sacos de alimento, e complementa a gigantesca mobilização oficial de todo tipo de socorro. A sucessão saiu da primeira página dos jornais, da capa das revistas, do destaque dos noticiários das redes de TV. A ministra-candidata espera a hora de voltar ao palco. Seu lugar continua inabalável na cotação palaciana.
Mas, até que a água escoe, comece o mutirão para a construção de milhares de residências, se normalize o tráfego nas rodovias e na malha ferroviária e os portos retomem parte da rotina, a ministra-candidata terá que esperar.
J.R. GUZZO
REVISTA VEJA
Top de linha
"É muito ruim que as suspeitas sejam tantas e tão freqüentes... o Poder Judiciário, pelo menos ele, deveria estar distante desse tipo de confusão"
Numa época de tantas dúvidas em relação ao presente e ao futuro, o cidadão brasileiro sempre pode contar com algumas certezas básicas. Hoje em dia, pelo mundo afora, tudo parece sujeito a virar do avesso de repente, mas nada consegue mudar, no Brasil, um fenômeno com três faces surgido nos últimos anos. A primeira delas é a fascinação dos Tribunais Superiores da Justiça por construir prédios novos para abrigar suas sedes. A segunda é que todos eles têm de ter as dimensões, a pose e o acabamento de palácios. A terceira é que sempre acabam aparecendo, mais cedo ou mais tarde, sinais de que a contabilidade dessas obras apresenta algum tipo de avaria, às vezes avaria grossa. É o que ocorre, segundo se informou na semana passada, com a construção das novas sedes do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e do Tribunal Superior Eleitoral, ambas em Brasília e ambas sob a mira dos auditores do Tribunal de Contas da União. Isso para não falar do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; em outubro, as obras de seu novo edifício, cujos custos já ameaçavam bater nos 550 milhões de reais, foram suspensas.
Tudo começou, como se sabe, com o inesquecível juiz Nicolau dos Santos Neto, que presidiu a construção de um monumento para o Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo na década de 90, foi condenado a 26 anos de cadeia pelo desvio de 170 milhões de reais e hoje cumpre pena em prisão domiciliar. Deu-se, aí, coisa curiosa. O caso, em vez de assustar possíveis imitadores, produziu efeito contrário – na verdade, abriu os olhos dos interessados em ganhar dinheiro com obras do governo para um novo nicho de mercado. Dali para cá, embora ninguém tenha chegado às alturas do juiz Nicolau, formou-se sobre esse tipo de gastos uma nuvem que não foi mais embora. Há denúncias repetidas de sobrepreço, desperdício e estouros de orçamento. Apontam-se falhas em licitações e contratos. Há problemas nos projetos, nos prazos e no custo dos materiais utilizados. As obras vivem metidas em dificuldades com os tribunais de contas e com o Ministério Público.
É muito ruim, naturalmente, que as suspeitas sejam tantas e tão freqüentes – sobretudo quando se leva em conta que o Poder Judiciário, pelo menos ele, deveria estar distante desse tipo de confusão. Mas isso é apenas uma parte do problema. Mesmo que não houvesse irregularidade nenhuma, a situação toda é difícil de engolir quando se olha mais de perto o conjunto da obra – ou, como diriam os corretores de imóveis, o "memorial descritivo" dos edifícios que estão sendo construídos para as cortes mais elevadas da República. É o que há, em matéria de pretensão, ânsia de gastar dinheiro dos outros e deslumbramento em se ver como "top de linha".
No caso do TRF-1, por exemplo, as salas de cada desembargador têm 350 metros quadrados de área útil. Não há como explicar, por nenhum tipo de raciocínio, por que um funcionário público, ou privado, precisaria de 350 metros quadrados para trabalhar. Menos compreensíveis ainda são os 650 metros quadrados destinados ao presidente do tribunal. É coisa para um Luís XV, pelo menos. Barack Obama não tem isso, e daqui a pouco vai ser presidente dos Estados Unidos; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também não. Lula tem um escritório com um quarto desse tamanho, cerca de 160 metros, e já está mais do que bom – como ele próprio sabe perfeitamente bem, muito pouca gente no Brasil dispõe de um espaço desses para morar com a família toda. Pior ainda, essas obras não servem para nada, do ponto de vista do interesse público – nem os prédios em si, nem os mármores que se põem lá dentro, nem a soma de milhares de metros quadrados que os gabinetes de todos os ministros vão acabar ocupando. A Justiça brasileira não fica nem um pouco melhor nem um minuto mais rápida com nada disso.
Naturalmente, tanto os tribunais como as empreiteiras de obras dão longas explicações para o que estão fazendo; todas elas têm em comum o fato de não fazer sentido. O que há de verdade, no fundo e mais uma vez, é a velha prática do poder público brasileiro de construir o prédio e só depois pensar no serviço que será prestado ali – isso quando se chega a pensar, algum dia, no serviço. O que interessa, mesmo, é a construção. (Se tiver um projeto do escritório Oscar Niemeyer, melhor ainda; vai passar por obra de arte e ele custará muito caro – quase 6 milhões de reais, no caso do TSE.) É o que nos ajuda a entender por que o Brasil, possivelmente, é um campeão mundial de hospitais sem equipamentos, museus sem acervo e bibliotecas sem livros.
DIOGO MAINARDI
REVISTA VEJA
Cof, cof, cof...
"Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração"
Benjamin Steinbruch, dono da CSN, publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado "Expectadores da recessão". Assim mesmo: "expectadores" com "xis". Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração. Por isso, o artigo de Benjamin Steinbruch me fez refletir profundamente. Dá para expectorar uma recessão? Interpretei da seguinte maneira: cada pneumococo é um keynesiano em potencial, com seus estratagemas para contaminar os organismos do estado e sufocar as vias respiratórias da economia. É isso?
Se entendi direito, Benjamin Steinbruch pertence ao partido dos pneumococos keynesianos. Cito um trecho de seu artigo: "Até a semana passada, pacotes para estimular investimentos e consumo num total de 3 trilhões de dólares já haviam sido anunciados por diferentes governos. No Brasil, o caminho é o mesmo. Uma vez que não temos por aqui nenhum problema de solidez no sistema financeiro, a tarefa é direcionar recursos a empreendedores públicos ou privados que efetivamente tenham coragem e competência para gastá-los de forma produtiva". Cof, cof, cof. Considerando todos os recursos que, nos últimos anos, o BNDES direcionou à CSN, como os 900 milhões de reais para a Nova Transnordestina ou os 300 milhões de reais para o Porto de Sepetiba, Benjamin Steinbruch só pode ser um desses corajosos e competentes empreendedores privados que, segundo ele próprio, teriam de ser contemplados com ainda mais dinheiro público. Pergunte ao senador petista Aloizio Mercadante o que ele pensa sobre o assunto. Aposto que ele concorda.
Achei que os keynesianos fossem mais obsoletos do que as escarradeiras dos tuberculosos, para continuar com a analogia pulmonar. Mas me enganei. Eles voltaram. E em sua forma mais agressiva: a dos keynesianos em causa própria, como o presidente da GM, nos Estados Unidos, ou o presidente da CSN, no Brasil. Benjamin Steinbruch, o Hans Castorp da siderurgia nacional, internado em seu sanatório de verbas do BNDES – sim, Thomas Mann, A Montanha Mágica–, conclui seu artigo recomendando que os recursos públicos "sejam realmente gastos e não fiquem debaixo dos colchões de apavorados expectadores da recessão". Como eu sou apenas um espectador comum – um espectador com "esse" –, aconselho o governo a fazer o contrário: é melhor ficar sentado na platéia, de mãos dadas com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e assistir aos desdobramentos do espetáculo, deixando o dinheiro prudentemente debaixo do colchão. E se um keynesiano em causa própria expectorar em sua orelha, na poltrona de trás, afaste-o imediatamente: ele é contagioso.


