quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Companheiros desalinhados - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 13/02

O governador de Pernambuco e pré-candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, participa amanhã em Brasília, da reunião do diretório nacional do PPS, que elegerá a nova executiva do partido.

No encontro, Campos será lembrado sobre aquilo que ele já sabe: o PPS, em São Paulo, apoiará a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). “Respeitamos a posição de Marina (Marina Silva, da Rede, provável vice de Eduardo na chapa presidencial). Mas esta é nossa posição”, sacramentou Freire.

Para o presidente nacional do PPS, além de ter feito um bom governo, apoiar Alckmin poderá ser bom para Eduardo Campos. “Não adianta disputar uma eleição presidencial com aliados sem competitividade nos estados. Rede e PSB podem até lançar nomes, mas eles não terão chances”, prevê o dirigente do PPS.

Em Pernambuco, tudo certo
Se a situação de São Paulo está complicada, Eduardo Campos está com tudo alinhado em Pernambuco. Ele deve indicar Maurício Rands para sucedê-lo. Independentemente disso, Raul Henry (PMDB) será o vice e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) abrirá mão da reeleição para ser puxador de votos do partido na Câmara. O PSDB indicará o nome ao Senado, podendo ser Bruno Araújo ou Sérgio Guerra.

Como dito por aqui
A presidente Dilma Rousseff confirmou ontem a indicação de Mauro Borges para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), conforme antecipou a coluna na terça-feira.

André, não Otto
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) organizará, de fato, uma sessão solene no próximo dia 25 para comemorar os 20 anos do Plano Real. Apesar de mineiro como Aécio, o escritor Otto Lara Rezende não poderá, como disse a coluna ontem, participar da sessão, já que ele morreu em 1988. André Lara Rezende, um dos criadores do Real, deverá estar presente.

Tensão I
A confusão entre o MST e a Polícia Militar, em frente ao Palácio do Planalto, ainda estava no início quando um PM, assustado, gritava para um colega de farda que estava no camburão: “traz o gás, traz o gás”.

Tensão II
Mesmo sem ouvir o pedido do policial, duas senhoras de meia-idade, com camisas vermelhas do MST, atravessaram a rua. Uma delas falou para outra. “Desorganizaram tudo, vamos ficar atrás do camburão que é mais seguro.”

CURTIDAS 
Fala que eu te escuto/ Um aliado de José Serra defende que ele se candidate a deputado federal ou senador, não importa qual dos dois cargos escolherá. “Para ser ouvido no que tem a dizer, Serra precisa de um mandato. Não adianta ser tuiteiro ou ficar escrevendo artigos para jornal.” 

Convite nas nuvens?/ Na próxima terça-feira, a presidente Dilma Rousseff visitará Teresina para o lançamento do PAC Mobilidade Piauí. Ela viajará ao lado do ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro e do presidente do PP, Ciro Nogueira (foto). A bancada do partido na Câmara reza para que ela convide Ciro para suceder Aguinaldo.

Come back to Bahia/ Se o PP ainda faz charme na aliança nacional com Dilma, o partido já decidiu que está com o PT na Bahia. O ex-ministro das Cidades Mário Negromonte será vice de Rui Costa na chapa para o governo baiano.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 13/02

Empresa investe R$ 100 mi em produção e armazenagem
Após ser comprada pela peruana Alicorp, que trabalha com alimentos, bebidas e produtos de limpeza, a Santa Amália, empresa mineira do setor alimentício, pretende investir cerca de R$ 100 milhões para ampliar sua capacidade de produção e de armazenagem.

O objetivo da companhia é alcançar metade do mercado de Minas Gerais e entrar em outros Estados do país até 2018. No varejo mineiro, a marca detém cerca de 42% das vendas do setor, segundo dados da Nielsen.

O principal investimento será feito na fábrica, sediada em Machado (MG), para expandir sua capacidade produtiva em até 40%.

"Notamos que a demanda de mercado era muito superior à capacidade instalada para a produção de massas", afirma Vicente Barros, CEO da Santa Amália.

Três dos sete centros de distribuição da empresa, em Machado, em Betim (MG) e no Rio de Janeiro, terão sua capacidade de armazenamento ampliada --também em até 40%. As outras quatro unidades estão em Minas, Rio e São Paulo.

Em um segundo momento, o grupo pretende se instalar no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, que hoje são atendidos por distribuidores.

"Transportar macarrão é muito caro no Brasil, pois o baixo valor agregado do produto não permite a empresa cruzar grandes distâncias. Por isso o país é dividido em líderes regionais do setor."

Do montante total, R$ 40 milhões serão aportados na criação e divulgação de uma linha de massas "premium".

HIPOTECA AMERICANA
A taxa de inadimplência em hipotecas nos Estados Unidos caiu abaixo dos 4% pela primeira vez desde a crise de 2008.

O índice de 3,85% foi registrado no último semestre do ano passado, segundo pesquisa da TransUnion, empresa americana de serviços de informação de crédito. O valor se refere aos atrasos de pagamento de 60 dias ou mais.

A última vez que a taxa havia ficado abaixo desse patamar foi no segundo trimestre de 2008, quando atingiu 3,61%. Os últimos três meses de 2013 registraram a oitava queda consecutiva do nível de inadimplência.

Apesar da redução, o índice é o dobro do observado antes da bolha imobiliária, segundo a TransUnion.

A companhia prevê ainda que a inadimplência continue em retração no início deste ano e termine o mês de março em 3,7%.

NOVO PÚBLICO NO INTERIOR
A REP, empresa de shoppings da PDG e da RPI, vai investir R$ 50 milhões na reformulação de seu centro de compras de Valinhos (a cerca de 90 km de São Paulo).

O valor inclui a aquisição de 70% do empreendimento --a companhia já detinha os outros 30%.

O projeto prevê um novo reposicionamento do shopping no mercado para atender a classe A. "Vamos implementar um mix de lojas mais qualificadas. Hoje, ainda estamos voltados para a classe B", afirma o CEO da empresa, Thiago Lima.

"Parte da população de Valinhos frequenta shoppings de Campinas porque não encontra as lojas que procura. Tentaremos reter esse público", acrescenta.

Hoje, cerca de 20 mil pessoas passam pelo centro de compras por mês. A intenção é que esse número cresça 15% após a conclusão das obras, em maio de 2015.

Sem ampliar o prédio do shopping, a empresa aumentará a área bruta locável de 13 mil metros quadrados para 16 mil m2.

Comando A Akatus, plataforma de pagamentos on-line que tem o empresário Carlos Wizard Martins (fundador do Grupo Multi) entre seus investidores, contratou o executivo René Abe para ser o novo presidente da companhia.

À mesa O hotel Grand Hyatt São Paulo acaba de inaugurar seu novo restaurante, o C -- Cultura Caseira, de comida brasileira com influências portuguesa e italiana. Foram investidos R$ 3,9 milhões no projeto.

APOSENTADORIA
Quase quatro em cada dez brasileiros (38%) acreditam que o governo deve ser o maior responsável pelo bem-estar econômico dos idosos, segundo pesquisa feita pelo Pew Research Center.

O Brasil aparece em 14º em uma lista com 21 países.

O ranking é liderado pela Rússia, onde 63% dos entrevistados afirmaram que o poder público deve ser o principal mantenedor da população mais velha.

Nas posições seguintes, ficaram Israel (61%), Quênia (59%), Itália (56%), Espanha (55%) e Argentina (55%).

Na outra ponta, está o Paquistão, com o menor percentual de entrevistados (16%) que apontaram o governo como responsável.

A maioria dos paquistaneses citou que a família ou os próprios idosos devem atender suas necessidades.

Foram ouvidas pelo instituto de pesquisa 22.425 pessoas nos 21 países.

Entre caras de pau e pessimistas - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 13/02

Dentro do governo, dizem que a presidente sabe que seu modelo não funcionou e vai mudar. Mas não vai reconhecer isso



Janet Yellen não cai na categoria “cara de pau”, mas não escapa do grupo dos “pessimistas do fim do mundo” — conforme a classificação feita pela presidente Dilma na festa do PT na última segunda. Presidente do Fed, o banco central dos EUA, Yellen colocou o Brasil entre os cinco emergentes mais frágeis neste processo de mudança do cenário global. Mas não se meteu em política interna brasileira, nem sugeriu mudanças.

A categoria “cara de pau” se aplica mais a brasileiros, diretamente a políticos e especificamente ao governador de Pernambuco e pré-candidato a presidente, Eduardo Campos. Foi ele quem disse: o velho pacto político do PT já mofou e está na hora de o Brasil iniciar um novo ciclo.

Também é “cara de pau” o empresário Pedro Passos, sócio da Natura, que deu entrevista dizendo com todas as letras: “É preciso reconhecer que o modelo se esgotou e que precisamos lançar outro.” Mas Passos está associado a Marina Silva e, portanto, é classificado como “eleitoreiro”.

A categoria “cara de pau”, portanto, tem um propósito politico, enquanto a dos “pessimistas do fim do mundo” se aplica mais a economistas em geral, nacionais e estrangeiros. Caem nela todos aqueles que apontam desequilíbrios crescentes no Brasil.

Mas “cara de pau” cabe também a muitos economistas que, embora sem anunciar fim do ciclo político, entendem que, sim, um ciclo de política econômica terminou e é preciso fazer reformas profundas para sair da armadilha do baixo crescimento.

Delfim Netto, por exemplo, embora amigo do Planalto e embora faça questão de ressalvar que o Brasil está longe do fim do mundo, acaba classificado entre “cara de pau” e “pessimista”. Pode ser embaraçoso, mas é ali que o coloca a tese exposta em recente artigo para o “Valor”. A tese: estamos num fim de ciclo na economia mundial e especialmente para os emergentes, isso apanhando o Brasil com três desequilíbrios importantes e crescentes, a saber, dívida pública elevada, inflação alta e persistente e déficit nas contas externas “longe de ser saudável”.

Ora, esses são justamente os três fundamentos macroeconômicos que Dilma considera “sólidos”, de uma solidez tão evidente que só não vê quem é cara de pau ou quer jogar o Brasil no fim do mundo. O ataque se dirige, claro, aos economistas considerados de oposição militante, mas atinge mesmo aqueles que estão longe da hostilidade ao governo Dilma e até acreditaram que ele poderia ter êxito.

Yoshiaki Nakano, por exemplo, também escreveu no “Valor” que se esgotou o ciclo da bonança externa (que propiciou o salto nas exportações de primários), que essa bonança não foi bem aproveitada — muito consumo e pouco investimento — e que, logo, já está passando a hora de “vigorosas reformas”.

E para não ficar apenas nos nacionais, acrescente-se aos “pessimistas do fim do mundo” o americano Dani Rodrik, que é, por assim dizer, um amigo dos emergentes. Pois ele está dizendo que os emergentes, depois de terem sido empurrados montanha-russa acima, estão na iminência da descida. E o Brasil está no primeiro banco.

O chamado mercado diz a mesma coisa a seu jeito: a bolsa brasileira foi a que mais caiu entre os emergentes, o risco Brasil subiu e o real desvalorizou.

O leitor e a leitora podem encontrar muitos outros exemplos pelo noticiário local e internacional. Perceberão que o número de pessimistas e caras de pau é crescente. E que, no exterior, a má vontade em relação ao Brasil é maior do que sugerem os fatos.

Na verdade, é exagerado dizer que o Brasil é o segundo pior dos emergentes, ficando apenas atrás da Turquia. A macroeconomia e a política mostram que o Brasil está menos vulnerável que Índia e África do Sul, para ficar nos Brics, e sequer se compara aos desastres de Argentina e Venezuela.

Mais importante: graças ao consistente arcabouço de macroeconomia construído desde a introdução do real, o governo brasileiro tem instrumentos mais eficientes para agir e corrigir os desequilíbrios. O pessoal reconhece isso. Não está aí a má vontade. Está em outro lado: caras de pau e pessimistas desconfiam que Dilma, cuja administração enfraqueceu os fundamentos, não vai reconhecer erros e fazer mudanças.

Dentro do governo, alguns dizem que a presidente sabe que seu modelo não funcionou e vai mudar. Mas não vai reconhecer isso.

Aí fica difícil, não é mesmo? Política é confiança. Sem direção clara, o pessoal não embarca. Aliás, para Dilma, os críticos embarcaram, mas foi para o fim do mundo e “isso faz tempo". Parece que só ela está no começo dos tempos. Começo de quê?

Vulnerabilidade - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 13/02

O governo Dilma tem duas atitudes a tomar diante da advertência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), de que o Brasil é a segunda economia emergente mais vulnerável ao processo de desmonte do pacote de estímulos que se inicia.

Ou dirá que o Fed, agora presidido por Janet Yellen, só olha para trás, não sabe o que acontece no Brasil - e, nessas condições, estará desqualificando o conteúdo do documento; ou se convencerá de que o diagnóstico está fundamentalmente correto e, por isso, proverá os ajustes necessários para reduzir a vulnerabilidade.

O governo brasileiro já havia passado mil recibos de que a economia estava frágil ao longo do processo anterior, o de emissão de moeda pelo Fed para tentar desencalhar a economia dos Estados Unidos. Foi o tempo em que a presidente Dilma se queixava do tsunami monetário provocado pelos grandes bancos centrais e o ministro Guido Mantega tentava acionar os organismos internacionais contra o que chamou de guerra cambial contra as moedas dos emergentes. Referiam-se, então, à abundância nunca vista de recursos nos mercados internacionais, parte dos quais tomou o rumo do Brasil e puxou o câmbio para baixo.

Dilma e Mantega reivindicavam, então, que essa política prejudicial aos vizinhos fosse desmontada. Agora que o desmonte está começando, Dilma e Mantega temem pela secura de moeda estrangeira no Brasil.

Independentemente dessas queixas, o discurso das autoridades brasileiras foi repetir que a economia é sólida o suficiente para enfrentar trancos externos e que os juros já subiram; que as reservas externas são colchão de bom tamanho para atravessar temporadas de sumiço de dólares; e que a nova demanda interna criada pelos tais 40 milhões que acabaram de ascender às classes médias garante mais investimentos.

Suponhamos que o Fed esteja errado, ou "defasado", como argumenta nosso Banco Central, e que o Brasil esteja bem na foto, como quer fazer crer o governo Dilma, em tantas manifestações.

Este é um documento oficial do Fed, entregue ao Congresso dos Estados Unidos e não um rabisco qualquer. Não são nem palpites ocasionais de advertência feitos por algum analista de agência de classificação de risco. É o Fed que avisa que o Brasil é uma economia vulnerável. E basta essa manifestação, ainda que equivocada, para produzir consequências. No mínimo, certo volume de investimentos a ser canalizado para o Brasil continuará trancado nas gavetas dos administradores de recursos.

De todo modo, a ação do Fed está sendo antecipada e é previsível. Há outra forte acumulação de cúmulus nimbus pela proa, em relação à qual as informações são bem mais escassas. Trata-se da desaceleração do crescimento econômico da China.

A economia brasileira está precisando apertar os cintos para enfrentar novas turbulências e não de desmentidos ou de contabilidade criativa que camufle suas fraquezas. Nos próximos dias, o governo terá oportunidade para dar uma resposta mais adequada do que tem dado à opinião pública, tanto daqui quanto do exterior. Basta que anuncie uma meta forte, consistente e crível na sua política de administração das contas públicas.

Política e economia dos protestos - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 13/02

Governo quer aproveitar o momento para "abafar" manifestantes mais violentos


AS MINORITÁRIAS manifestações de janeiro e fevereiro bastavam para causar algum estremecimento político mesmo antes da morte do cinegrafista Santiago Andrade.

Como é sabido, a confusão rediviva nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro é de mau agouro para os governos, o de Dilma Rousseff em particular, que sofreu infarto e derrame de popularidade no trimestre mais intenso de protestos, de junho a agosto de 2013.

A investigação da morte de Santiago Andrade talvez cause outra reviravolta nas idas e nas vindas das manifestações, desta vez com tendência de baixa. O aumento da aversão pela violência, o recuo tático ou a debandada de alguns grupos mais violentos, o provável aumento da repressão policial e o fracasso de estima dos revolucionários rueiros podem atenuar o "risco rua" para políticos no poder.

Especulativo, decerto. Mas parece evidente, quando se conversa com gente do governo federal, que se vai aproveitar a oportunidade de encurralar os promotores mais ativos do tumulto. Na verdade, essa era a política do governo, mais comedida, desde setembro, pelo menos.

Do ponto de vista mais pragmático ou calculista do governo federal, o "risco rua" não é apenas imediatamente político-eleitoral, o de um repeteco de junho de 2013 a três ou quatro meses da eleição.

Há gente no governo que se preocupa com as reverberações econômicas ou financeiras de um tumulto grande, ou mesmo apenas de um país tomado por manifestações pacíficas, mas de bom tamanho.

Não é nada improvável que a manada internacional de financistas olhe com estranheza e mesmo repulsa para um país com uma "Primavera" em curso, sabe-se lá de que espécie e com qual futuro.

Não é preciso que se trate de nenhuma avaliação séria ou de algum sentimento duradouro sobre o Brasil. O humor já não está bom, tanto faz que o estado da economia brasileira não pareça tão mau quanto a cotação refletida nos índices de risco e das taxas de juros mais longas.

O fato é que a imagem do Brasil está em baixa, como é mais do que sabido. O país cresce pouco faz três anos, tem inflação desagradável faz meia década e deficit externo crescente de modo incômodo faz outro tanto. Os narizes financeiros costumam ficar ainda mais torcidos em anos de eleição. Caso se adicione tumulto às injúrias, a degradação financeira pode aumentar.

Injusto? É. Alarmista? Não. Os porta-vozes dos ditos mercados, "analistas" empregados pelos donos do dinheiro grosso, podem inventar modas e mitos que podem, por vezes, ser muito danosas. Basta lembrar quantas vezes Argentina, Brasil e México foram chamados ao palco para ganhar o título de "rainhas do baile", queridinhos do mercado. Um lustro depois, tais países voltavam a ser a "bola da vez", para ser chutada, tanto por culpa de políticas ineptas desses países como por causa de vandalismos dos "mercados".

Num ano de faniquitos da finança mundial, de baixo crescimento econômico no Brasil e de eleição, algumas manifestações ruidosas podem suscitar a ideia de que sejamos também "politicamente instáveis" ou qualquer outra justificativa dessas usadas em momentos de liquidação dos ativos financeiros de um país.

Perigoso retrocesso - RAUL VELLOSO

O Estado de S.Paulo - 13/02

Países que adotam um modelo econômico voltado para o consumo têm um duplo desafio. Primeiro, superar a carência de poupança, já que consumir é o mesmo que não poupar. Sem poupança, não há investimento; sem este, não há crescimento nem aumento de produtividade. O segundo desafio é criar um ambiente favorável para o investimento, pois não basta aumentar o consumo para o investimento acontecer.

Parte do problema se resolve pelo aumento das importações e da poupança externa que vem junto. O continuado aumento do consumo leva ao encarecimento relativo dos produtos não comercializáveis com o exterior, especialmente serviços, relativamente aos demais, basicamente industrializados, já que, não tendo como importar os primeiros, fica impossível aumentar sua oferta sem expandir a rígida produção interna. Já no caso dos demais bens, a oferta é flexível, por ser possível a importação, e os preços em dólares são determinados basicamente fora do país.

Essa mudança de preços relativos equivale a uma apreciação real da taxa de câmbio e leva ao aumento das importações dos industrializados, desde que inexista restrição relevante de financiamento. Assim, aumenta a competitividade dos não comercializáveis, que passam a atrair mão de obra e capital dos demais setores da economia.

Resta saber se maiores investimentos efetivamente ocorrem nesse setor, sob pena de forte subida dos preços internos, pois não há como importar substitutos próximos. Sem essa mobilização, impor-se-ia uma trava relevante ao funcionamento da economia.

Num mundo inundado de liquidez, havendo projetos rentáveis e boa vontade com os investidores privados, o dinheiro aparece. Maior volume de recursos ingressará no País, a não ser que o governo, pressionado pelo setor industrial, crie barreiras à entrada de dólares na economia, a fim de impedir uma maior apreciação do real.

Um problema fundamental é que, exatamente no segmento crítico dos serviços de transportes, os investimentos dependem basicamente do setor público, que: 1) desaprendeu a investir nos últimos anos, por ter passado a concentrar seus recursos em gastos correntes - uma das pernas do modelo pró-consumo; e 2) por seus atos, revela um forte viés antiprivado, o que se choca com a constatação anterior.

Assim, a resposta dos não comercializáveis tem estado abaixo das expectativas. Para completar, o governo tem priorizado a indústria com desonerações tributárias, crédito subsidiado, congelamento de preços críticos como energia elétrica e petróleo, etc., para compensar a perda de competitividade, que na verdade tem muito a ver com o modelo consumista. Tudo isso acaba desaguando no Orçamento e interferindo de forma nociva em segmentos importantes em que predominam concessões públicas. O pior é que tanto a produção industrial como a relação investimento/PIB estão estagnadas desde 2009, mostrando que há muito o que consertar nas políticas atuais.

Nesse contexto, a ausência do reajuste de tarifas e pedágios que os prefeitos e governadores de São Paulo e do Rio, além do governo federal, decretaram em 2013, em reação às manifestações, foi uma lástima. Em vez de enfrentar o problema de frente, as autoridades optaram, na prática, por descumprir os contratos de concessão, afugentando os investidores.

No ambiente conturbado da época, as empresas foram induzidas a aceitar uma compensação parcial dos prejuízos, como, por exemplo, a suspensão de certos investimentos importantes, algo que pode eventualmente pôr em risco a própria integridade física dos usuários. Isso levou a uma forte reação negativa dos investidores, especialmente dos externos, que se consideraram lesados nesse confuso processo.

A segurança regulatória e a consequente atratividade do modelo de concessões públicas não podem ser postas em risco com quebras de contratos e o uso da criatividade em soluções de reequilíbrio para atender a interesses políticos. A repetição de procedimentos lamentáveis como estes contribuirá para atrasar a retomada do crescimento do PIB e do emprego.

Mercosul, uma mentira institucional? - MAURO LAVIOLA

O GLOBO - 13/02

Quanto mais países bolivarianos ingressarem no bloco, mais problemas operacionais vão se tornar insolúveis



O questionamento é do presidente do Uruguai, que, reiteradas vezes, tem chamado a atenção para a necessidade de o bloco realizar um ajustamento jurídico-institucional que está esgotado em sua essência. Torna-se cada vez mais impossível compatibilizar os distintos problemas internos de cada país membro com os compromissos comunitários assumidos.

Mais recentemente, o ex-ministro da Economia da Colômbia chamou a atenção para a crescente discrepância entre seus membros para resolver o imbróglio jurídico sobre a suspensão temporária do Paraguai, o cumprimento das obrigações venezuelanas contidas no Protocolo de Adesão, a provável interação da Bolívia e talvez do Equador. Em termos práticos significa dizer que, quanto mais países bolivarianos ingressarem no Mercosul, mais problemas operacionais tornar-se-ão insolúveis, anunciando um porvir desanimador.

Esses desencontros causaram o adiamento, por três vezes, da reunião semestral de cúpula que se realizaria em dezembro passado, remarcada para 17 e 31 deste mês e novamente adiada para fevereiro próximo. Tampouco sem uma clara definição de qual país assumirá a presidência pró-tempore. O Paraguai já declarou que voltará ao Mercosul, mas não assumirá sua coordenação, que caberá, pelo rodízio estabelecido, à Argentina, justamente o país que não consegue apresentar uma oferta em bens à União Europeia compatível com as apresentadas pelos demais sócios (sem presença da Venezuela), além de não arredar um milímetro dos controles administrativos às importações de qualquer origem. Com que credibilidade aquele país exercerá tal coordenação?

Por todas essa razões, volta à baila a hipótese de o Mercosul retroceder à formação de uma área de livre comércio em termos estritos de liberalização tarifária, uma vez que a liberalização comercial, principalmente nos últimos anos, tornou-se mera peça de retórica. Os que defendem a tese estribam-se na necessidade de o Brasil alçar voos solos nas relações internacionais com áreas mais desenvolvidas. Apenas como hipótese tal arranjo implicaria numa revisão da atual Tarifa Externa Comum, a qual retrocederia a cinco novas tarifas nacionais criando, consequentemente, margens preferenciais distintas entre os países membros. Tal manobra, se viável, também implicaria numa ampla revisão da Decisão CMC 32/2000, que obriga a negociações conjuntas do bloco com terceiros países. Num recente seminário tal questão foi levantada como impraticável, mas fortes opiniões advogaram a tese de que, quando conveniente, o Brasil tomará uma decisão reformadora independente.

Cabe então a pergunta: em que governo? No atual panorama político dos três maiores países do bloco não se praticam políticas de Estado, mas sim políticas de poder e, a menos que os quadros eleitorais no Brasil e na Argentina se alterem substancialmente, tudo ficará “como dantes no quartel de Abrantes”.

No exterior, atribui-se ao Brasil não só a capacidade, mas também o dever, de liderar um processo reformador no Mercosul “se desejar salvá-lo da irrelevância”, na expressão do colunista colombiano. Mas, nas esferas palacianas de Brasília, não é essa a visão dos estrategistas. Muito pelo contrário, qualquer ação reformista na esfera regional corre o risco de perder o poder hegemônico bolivariano que conduz a política externa dos países do leste sul-americano com a honrosa exceção do Uruguai. Nesse andor, teremos apenas durante mais alguns anos múltiplas peças discursivas plenas de demagogia e vazias de praticidades. A integração sub-regional está marchando para um impasse de sérias proporções irreversíveis caso não sobrevenha um choque de realismo.

Não éramos cordiais? - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 13/02

O nível impressionante de violência no cotidiano está cada vez mais próximo de uma barbárie intolerável


A morte do cinegrafista Santiago Andrade não configura um atentado à liberdade de imprensa, ao contrário do que tantos apregoam.

É muito pior que isso: é um atentado ao convívio civilizado entre brasileiros, um degrau a mais na escalada impressionante de violência que está empurrando o país para um teor ainda mais exacerbado de barbárie.

O incidente com o cinegrafista é parte de uma coreografia de violência crescente que se dá por onde quer que se olhe.

Nunca se matou com tanta facilidade em assaltos. Nunca se apertou o gatilho com tanta facilidade. É até curioso que as estatísticas policiais no Estado de São Paulo apontem uma redução no número de homicídios dolosos, como se fosse um avanço, quando aumenta o número de vítimas de latrocínio, que não passa de homicídio precedido de roubo.

De fato, em 2013, o número de latrocínios (379) foi o mais alto em nove anos, com aumento de 10% em relação aos 344 casos do ano anterior.

Mas a violência não é um fenômeno restrito à criminalidade. A polícia age muitas vezes com uma violência desproporcional.

A vida nas cidades e, cada vez mais, no interior é de uma violência inacreditável. O trânsito é uma violência contra a mente humana. O transporte público violenta dia após dia. Não é um atentado aos direitos humanos perder às vezes três horas entre ir e voltar do trabalho?

A saúde é uma violência contra o usuário. A educação violenta, pela sua baixa qualidade, o natural anseio de ascensão social.

A existência de moradias em zonas de risco é outra violência.

A contaminação do ar mata ou fere de maneira invisível os habitantes das cidades em que o nível de poluição supera o mínimo tolerável.

Não adianta, agora, culpar o governo do PT ou a suposta herança maldita legada pelo PSDB, ou os crimes praticados pela ditadura militar ou a turbulência que precedeu o golpe de 1964. O país foi sendo construído de maneira torta, irresponsável, sem o mais leve sinal de planejamento, de preparação para o futuro.

Acumularam-se violências em todas as áreas de vida. A explosão no consumo de drogas exacerbou, por sua vez, a violência da criminalidade comum. Não há "coitadinhos" nessa história. Há delinquentes e vítimas e há a incompetência do poder público.

É como escreveu, para Carta Capital, esse impecável humanista chamado Luiz Gonzaga Belluzzo:

"O descumprimento do dever de punir pelo ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel".

Antes que o desamparo e a violência sem quartel se tornem completamente descontrolados, seria desejável o surgimento de lideranças capazes de pensar na coisa pública, em vez de se dedicarem a seus interesses pessoais, mesmo os legítimos.

Alguém precisa aparecer com um projeto de país, em vez de projetos de poder. Não é por acaso que 60% dos brasileiros querem mudanças, ainda que não as definam claramente. A encruzilhada agora é entre ideias e rojões.

Olhar estrangeiro - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 13/02

Até junho do ano passado os Estados Unidos trabalhavam com a reeleição certa da presidente Dilma Rousseff. Desde os protestos, contudo, os informes enviados a Washington pela via diplomática consideram o cenário "em aberto".

Antes, previam-se mudanças no poder central só a partir de 2018. Agora se leva em conta a hipótese da alternância - em moldura remota - já em 2014.

Nessas avaliações, Dilma continua sendo considerada como favorita, com vaga assegurada no segundo turno. Mas, da constatação de que será uma eleição competitiva para a oposição surge a dúvida sobre quem será o oponente com mais chance de derrotá-la: Aécio Neves ou Eduardo Campos?

O interlocutor, representante do governo americano em uma capital dos três maiores colégios eleitorais do País, esquiva-se de quaisquer questionamentos sobre preferências.

Os Estados Unidos relacionaram-se bem com os governos Fernando Henrique, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff. Quanto a este, uma ressalva: "Com alguns problemas".

Nada, no entanto, que sugira torcida contra. A preocupação é objetiva: em que termos, em qual clima, com qual grau de agressividade ocorrerá uma campanha eleitoral no ambiente conturbado de evidente "mal-estar" (palavras dele) da população e com perspectivas nada animadoras para a economia, embora a baixa taxa de desemprego seja vista como ponto a favor.

Não existe a apreensão dos meses anteriores à eleição de Lula no ano de 2002. Há, sim, curiosidade sobre os desempenhos dos oposicionistas e uma indagação: sendo ambos representantes de linhagens políticas tradicionais e eles mesmos políticos profissionais, isso não poderia ser uma desvantagem diante do desejo da população por algo novo, distante dos partidos que alvo de rejeição?

O problema do "outsider" carismático é que no Brasil não deram em boa coisa. O americano lembra-se bem do desfecho dos governos Jânio Quadros e Fernando Collor, mostrados ao eleitorado como pessoas apartadas da política. Em alguma medida tal característica está na origem dos problemas enfrentados pela presidente Dilma.

Ante a constatação, o diplomata apenas sorri. Não concorda nem discorda. Seu governo, diz, só observa. Mais intrigado com o transcorrer da campanha e a coincidência da Copa, do que propriamente preocupado com quem vencerá. Qualquer um dos três estará bem, conclui, como convém aos meios e modos diplomáticos.

Agora, a vez de invertemos a curiosidade: no radar do governo americano está a possibilidade de o ex-presidente Lula vir a ser candidato no lugar de Dilma? O diplomata responde por si e, se instado a manifestar sua opinião aos superiores, diria que não. Avalia que seria imprudente Lula pôr em jogo o capital que conseguiu durante dois governos brindados com condições externas favoráveis, para se arriscar a perdê-lo em meio a uma nova situação adversa.

Ademais, o ex-presidente já não é visto como dono da mística de outrora. Perdeu parte do encanto.

Livre pensar. Discordar da apresentadora de telejornal que diz compreender o ato selvagem de se amarrar um ser humano nu a um poste porque o Estado falha na segurança pública é inerente ao exercício do contraditório.

Pretender transformar em crime a opinião da moça é um exagero tão equivocado quanto. Ela foi rasa no raciocínio? Foi. Não atinou para o fato de que corroborava a execução de um crime? Não. Aliou-se aos impulsos da maioria, quando seu papel seria o de buscar o ponto de equilíbrio? Sim. Mas, o pensar e se expressar não configura ilicitude. Ainda que determinados raciocínios não façam a devida distinção entre a defesa da legalidade e a aceitação da lei da selva como substituta das carências do poder público.

Black tadinhos - ROGÉRIO GENTILE

FOLHA DE SP - 13/02

SÃO PAULO - Os "black blocs" foram tratados com benevolência, para não dizer simpatia, desde os protestos de junho. Artistas, políticos, intelectuais, publicitários e jornalistas foram condescendentes com depredações de prédios públicos, ataques a bancos, tentativas de linchamento de policiais etc., sempre partindo da premissa de que os vândalos estavam "mudando o país".

Caetano Veloso, ao vestir a máscara preta dias depois de manifestantes terem quebrado cinco agências bancárias, uma concessionária e um ônibus no Rio, tornou-se um símbolo da causa. Com a habitual profundidade, disse que, como um "velho baiano", achava que seria muito "bonito" se as pessoas saíssem mascaradas no Sete de Setembro.

Na esteira do compositor, atores como Wagner Moura, Mariana Ximenes e Camila Pitanga gravaram vídeo contra o que chamaram de prisões arbitrárias, dias depois de manifestantes indefesos jogarem coquetéis molotov no consulado americano e na Câmara do Rio. A glamorização do vandalismo prosseguiu com uma peça publicitária incentivando a "estética black bloc'" e com uma marchinha de Carnaval composta em homenagem a uma "menina black bloc'".

Mas não parou por aí.

Suplicy, sempre bonzinho, recebeu um deles em sua casa, dizendo querer entender a "tática" do movimento. Depois leu no Senado uma carta na qual o sujeito defendia a "reação efetiva" do povo. O ministro Gilberto Carvalho, preocupado em entender o "fenômeno social", quatro dias após um coronel da PM ter sido espancado, convidou a garotada para um "diálogo". O sociólogo Chico de Oliveira, afirmando fazer uma boa avaliação dos "black blocs", foi entusiasta: "Vamos ver se, com eles, a gente chacoalha essa sociedade conformista".

A família do cinegrafista Santiago Andrade sabe bem o que significam as expressões "reação efetiva", "fenômeno social" e "chacoalhar essa sociedade conformista".

Causa mortis - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 13/02

‘Não vamos parar, o poder é nosso!’, escreveu o Black Bloc RJ na hora da notícia do falecimento do cinegrafista



Santiago Ilídio Andrade era nossos olhos e nossos ouvidos. Sem o trabalho dele, e de tantos colegas seus, cinegrafistas, jornalistas, funcionários de apoio, não teríamos notícias — ou só teríamos versões das partes interessadas. O assassino de Santiago e seus cúmplices diretos, que compraram, transportaram e acenderam o rojão de vara, provavelmente não miravam o cinegrafista, mas os policiais. Contudo, sabemos pela palavra deles que devotam um mesmo ódio a jornalistas e policiais. Faz sentido: eles odeiam a democracia — e, deploravelmente, não estão sozinhos.

Santiago não é uma vítima “acidental”. Santiago é um cadáver circunstancial, mas anunciado desde as jornadas de junho. O que faziam, na periferia e na fímbria das manifestações, os vândalos, os depredadores, os mascarados? Eles abriam picadas no rumo de seu El Dorado: o sangue de alguém, qualquer um, policial, transeunte, jornalista, cinegrafista ou manifestante. “Abaixo a ditadura 2.0”, leio numa página de Facebook consagrada à propagação do vandalismo. Os covardes, rosto escondido, precisavam provar a tese que justificaria sua própria existência: a democracia é uma farsa, a máscara da ditadura.

Santiago teve seu crânio destroçado por um foguete ideológico. Os autores da tese não acenderam o rojão de vara, não o transportaram e não o compraram. Esses intelectuais de araque, que são as fontes de inspiração do assassinato, talvez nunca tenham se misturado a uma manifestação de rua. Eles circulam em esferas sanitizadas: universidades, ONGs, movimentos sociais, partidos políticos. Mas, enquanto a investigação policial desvenda os nomes de quem pode ser indiciado, cabe a nós decifrar as ideias que os mobilizam. O perigo está nelas: os pavios imateriais de foguetes ainda não lançados.

Santiago morreu porque, atrás dos assassinos, renasce uma velha teoria sobre a política e a democracia. As páginas eletrônicas dos black blocs definem a nossa democracia como um “Estado policial”. Um professor da FGV-SP, Rafael Alcadipani da Silveira, atribuiu a “estratégia da violência” aos “jovens das periferias”, “vítimas da violência cotidiana por parte do Estado”. A expressão “contraviolência” foi difundida por intelectuais radicais nas décadas de 1970 e 1980 para celebrar o método de “ação direta” empregado por organizações extremistas que, cindidas, dariam origem a agrupamentos terroristas como o Baader-Meinhof, na Alemanha, e as Brigadas Vermelhas, na Itália. As fórmulas incendiárias daqueles intelectuais ressurgem entre nós, como frutos podres de uma crise política e moral.

Santiago está morto porque a fronteira entre a violência “simbólica” e a violência “real” só existe no pensamento depravado dos cultores da violência “simbólica”. Bruno Torturra, o chefão do Mídia Ninja, um “instituto” informal financiado com recursos públicos, definiu o Black Bloc como “uma estética” e fez a defesa da violência nas manifestações, “desde que dirigida aos bancos”. O filósofo-ativista Pablo Ortellado, um herdeiro ideológico dos arautos europeus da “contraviolência”, declarou sua paixão pela “ação simbólica” de depredação de uma agência bancária, um simulacro da “ruína do capitalismo” situado “na interface da política com a arte”. Mas por que eles nutrem uma obsessão exclusivista pelos bancos? O linchamento de um policial não poderia ser descrito como símbolo da “ruína da repressão de Estado”? O assassinato de um jornalista não anunciaria o almejado “controle social da mídia”?

Santiago morreu de excesso de violência “simbólica”, mas não apenas disso. “Não vamos parar, o poder é nosso!”, escreveu o Black Bloc RJ na hora da notícia do falecimento do cinegrafista. A causa mortis tem ramificações complexas, que deitam raízes na condescendência nacional com a violência “justa”. A imprensa apressou-se, com razão e cumprindo seu dever, a denunciar as truculências policiais contra manifestantes pacíficos nos primeiros protestos de junho — mas custou a usar a palavra “vândalos” para qualificar os idiotas mascarados que se movem em busca de sangue. Um certo número de sindicalistas, alguns deles ligados ao PSOL, firmaram um pacto de aliança com os Black Blocs na greve dos professores do Rio de Janeiro. Numa nota asquerosa, mas típica, o Sindicato dos Jornalistas do Rio omitiu a origem do projétil que vitimou Santiago. Fora algumas honrosas exceções, não se ouviu uma palavra de condenação ao vandalismo sair da boca dos célebres “intelectuais de esquerda”.

Santiago é uma vítima, entre tantas outras não ligadas a manifestações, da inclinação do governo a produzir rimas entre “pobreza” e “violência”. Três meses atrás, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, anunciou que buscava “interlocutores” entre os black blocs para “compreender este fenômeno social” e entender “até que ponto a cultura da violência vivida na periferia já emigrou para esse tipo de ação”. O poderoso ministro, representação onipresente de Lula no governo Dilma, fala uma linguagem paralela à dos intelectuais engajados na justificação dos black blocs. “Cultura da violência”? “Fenômeno social”? Não, de jeito nenhum: o rojão que matou Santiago é um projétil político dirigido contra o alvo da democracia.

Santiago morreu porque damos ouvidos a Gilberto Carvalho, não a Reynaldo Simões Rossi, o coronel da PM espancado por uma chusma de covardes durante uma manifestação em São Paulo. Rossi disse que seu dever era respeitar os manifestantes e isolar a “minoria de criminosos e vândalos” que “se apropriam de manifestações legítimas”. Há algo de profundamente errado com um país incapaz de enxergar a face do mal, quando ela se esconde atrás da máscara de uma ideologia. A memória de Santiago exige que, finalmente, separemos os manifestantes dos vândalos — tanto nas palavras quanto nas ações.

Apertem os cintos, o governo sumiu! - JOSÉ SERRA

O Estado de S.Paulo - 13/02

Governos existem para controlar as circunstâncias, não para ser controlados por elas; governos existem para irem adiante, e não atrás dos acontecimentos; governos existem para cercar as margens de erro, antecipando-se aos problemas, não para elaborar desculpas implausíveis; governos existem para informar-se sobre o futuro e as consequências dos seus atos - não com bola de cristal, mas com os dados objetivos fornecidos pela realidade -, não para confundir a embromação com o otimismo.

Isso tudo é querer demais? Pode ser. Mas, digamos, nosso problema principal não é o tamanho do superávit primário, a seca que vai subtrair água e energia, o tapering do Banco Central dos EUA ou as matérias de duvidosa qualidade da The Economist e do Financial Times, mais alarmistas que o devido. A questão essencial no Brasil de hoje é outra: a excessiva distância entre o que o governo deveria ser e o que é. Essa distância, que não para de se ampliar, é o nosso problema número um.

Estamos colhendo, literalmente, o que temos plantado. Quando plantamos direito - caso do agronegócio, que tem livrado o Brasil de um vexame na balança comercial dos últimos anos -, colhemos bons frutos. Quando plantamos o erro, o que se colhe é... uma safra de erros.

O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, problema n.º 1 da economia brasileira, que a torna tão vulnerável às apostas do mercado financeiro internacional, tem como causa principal o déficit comercial do setor industrial, que no ano passado foi de espantosos US$ 105 bilhões. Essa situação resultou de uma escolha da política econômica lulista, muito especialmente a partir da crise internacional de 2008/2009.

Aqui e ali, multiplicam-se as críticas sobre a perversidade do farto financiamento do BNDES a alguns setores da indústria, algumas fundadas, outras nem tanto - e não vou entrar no mérito neste texto, a merecer outro artigo. Ou, ainda, há quem atribua isso ao "fechamento da economia", embora ela não pare de se abrir. A questão essencial, porém, é outra. O governo brasileiro assiste inerme a um processo de desindustrialização - a grande marca do governo Lula - que cobra um preço social altíssimo no médio e no longo prazos, já que é o setor que paga os melhores salários e que força com mais velocidade a especialização da mão de obra.

A escolha dos governos do PT foi torrar o dinheiro proveniente tanto dos altos preços das nossas exportações de produtos agrominerais como da abundância de capital externo barato. Como mencionou o professor Edmar Bacha, entre 2004 e 2011, tivemos uma farra econômica no Brasil: nada mais nada menos do que 25% do aumento do gasto doméstico foi financiado por esses dólares. Tudo para consumir e substituir produção doméstica. Pouco ou nada para fortalecer a competitividade da economia, elevando os investimentos públicos e privados e a oferta de bons empregos. Tudo para elevar a carga tributária que sufoca a produção e castiga proporcionalmente mais os setores sociais de menores rendas, via tributação indireta. Pouco ou nada para dar sustentação permanente à elevação do padrão de vida.

Pior ainda. O governo fez o possível para atrapalhar a Petrobrás, atrasar os investimentos em novos campos, travar as concessões de estradas, dentro de sua ideologia mais profunda: transformar facilidades em dificuldades. Isso nos privou de um precioso vetor de crescimento da economia, pelo lado da demanda e da produtividade.

A despeito das fanfarronices sobre a suposta agilidade do Brasil nos negócios externos, a verdade é que, das grandes economias, o Brasil é o único que não celebrou pactos comerciais bilaterais. Foram centenas no mundo nos últimos dez anos. O Brasil firmou só três: com Israel, Palestina e Egito... Ao contrário: continua amarrado ao Mercosul - o maior erro cometido pelo Itamaraty na sua história moderna, reiterado por cinco governos diferentes. E vejam bem: o estorvo essencial do Mercosul não vem dos Kirchners. É fruto da estultice da ideia de fazer dele uma união alfandegária, que suprimiu a soberania comercial no Brasil. Se, por exemplo, fizéssemos um acordo comercial com a Índia, seria preciso que todos os outros parceiros fizessem parte também... O País não se pode dar o luxo de acumular sucessivos, crescentes e escandalosos déficits na indústria sem considerar que está, obviamente, com problema.

Nada é tão deletério para nós, no que concerne ao futuro, como os erros de análise de perspectiva do governo brasileiro no que diz respeito ao cenário internacional. Tome-se o caso do atual estresse envolvendo a fuga de investidores - os de curto prazo - para EUA e Europa em razão da retomada do crescimento dessas economias: mais forte a americana; ainda modesta, na média, na zona do euro. Chega a parecer piada, mas é verdade: não faz tempo se falava por aqui numa verdadeira "guerra cambial" em razão da enxurrada de dólares que os EUA injetaram na sua economia. Foi uma gritaria danada. Agora que começa o movimento contrário e os dólares estão vindo menos, em vez de chegarem mais, ouve-se o mesmo alarido. Nos dois casos, há uma tendência de culpar os países ricos, mas a fragilização da nossa economia, tornando-a mais suscetível aos ataques especulativos no âmbito do sistema financeiro internacional, foi precisamente obra do governo Lula-Dilma.

Poderíamos ter-nos protegido dessa volatilidade? Se o ambiente fosse, por exemplo, mais favorável aos investimentos, em vez de o Brasil estar agora lamentando a retomada da economia americana e a melhora na zona do euro, estaria comemorando. E por dois motivos: porque investimentos realmente produtivos não fogem do País da noite para o dia e porque, tivesse uma indústria mais competitiva, estaria se preparando para disputar mercado. Ocorre que essas coisas não se fazem assim, no improviso, da noite para o dia. No fim das contas, é a incapacidade de planejar, ditada por uma leitura capenga do que vai pelo mundo, que nos leva a esse modelo que vai da mão para a boca.

Apertem os cintos. O governo sumiu!

Luz e calor - SÍLVIO RIBAS

CORREIO BRAZILIENSE - 13/02
A rainha popstar Madonna não é loura, o ídolo argentino Carlos Gardel nasceu no país vizinho, e a cabeça do palito de fósforo não tem... fósforo. Mitos são, portanto, mais fortes que a realidade. Nos tempos atuais, de abundância de mídias e intenso tráfego de informações instantâneas, omissões e versões torcidas quase sempre são desmascaradas ou questionadas na hora, sem, contudo, acabar com a fantasia em torno de fatos.
Nessa torrente de interpretações e de opiniões colocadas na roda com tanta facilidade, a democracia, a liberdade e os direitos individuais deveriam ser os maiores beneficiados. Em tese, as grandes manifestações que acordaram o gigante Brasil deveriam deixar políticos mais atentos aos anseios da população, sobretudo na carência de serviços públicos. O esperado era que a demonstração de mais consciência cívica indicasse renovação para melhor dos detentores de mandato. Vamos ver.

Mas a preocupação que inquieta a todos hoje é se toda a agitação civil guiada pelas redes sociais está sendo capaz de nos levar aonde todos possam se sentir cidadãos plenos. O terrorismo de uma minoria infiltrada em qualquer novo protesto de rua desmoraliza boas intenções, e as reações dos governantes estão longe de dar segurança e fortalecer o consenso.
Entre as sanguinolentas balas de borracha e os rojões assassinos, precisaria abrir-se caminho reformista em favor daquilo que é o mais importante para o país desde o começo: o fortalecimento das instituições democráticas. Um Estado respeitado e decente, que propicia bem-estar e justiça universalmente.

O caos só interessa aos inimigos da convivência solidária na sociedade, aos que querem iniciar longa e sofrida guerra entre "nós" e "eles". Um mestre meu do jornalismo dizia que nosso papel como trabalhadores da imprensa é oferecer mais luz que calor na divulgação dos acontecimentos. Em outras palavras: mais esclarecer como e por que as coisas são o que são, com todas as contradições presentes, do que escandalizar e incitar sentimentos primitivos às massas, apontando alvos para justiceiros ou opressores de farda.

O noticiário dos últimos dias está escandaloso o suficiente com tanta morte de inocente e a temperatura tem subido tanto no termômetro quanto no calendário da Copa e das eleições. Chegou o momento de acender a luz da razão e pedir às autoridades que tratem os problemas como eles realmente são, sem perder a paciência com as verdades expostas pela imprensa nacional e estrangeira, sobretudo a francesa.

Investigação fundamental - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 13/02
A denúncia do advogado Jonas Tadeu Nunes, defensor de Fábio Raposo e de Caio Silva de Souza, acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, de que eles e vários outros jovens que participam das ações de vandalismo nas manifestações desde junho do ano passado recebem dinheiro para atuar abre uma nova fase nas investigações sobre a ação dos black blocs. 
O advogado chegou a dizer que cada um dos aliciados recebia R$ 150 por manifestação, e eram abastecidos com rojões, coquetéis molotov e máscaras por seus aliciadores, que seriam ligados a partidos e movimentos políticos. 

Caio, ao ser preso, deu entrevista à Rede Globo em que admitiu ter sido quem acendeu o rojão que matou o cinegrafista e também confirmou que muitos dos "manifestantes" são aliciados por dinheiro. 

É claro que tudo pode não passar de uma manobra para atenuar a culpa dos dois acusados pela polícia de homicídio doloso qualificado por motivo fútil, com auxílio de explosivo. A pena para esse crime é de 12 a 30 anos de prisão, a ser definida por um júri popular. Se, ao contrário, os dois forem indiciados, como quer o advogado, por lesão corporal seguida de morte, quando os acusados não correram conscientemente o risco de produzir o resultado, a pena é de 4 a 12 anos, a ser decidida pelo juiz. 

A primeira declaração de Caio, de que não sabia de que se tratava de um rojão, quer dar a entender que ele não tinha noção do perigo que estava provocando, muito menos a intenção de matar alguém. Acusar terceiros de os terem aliciado é também outra maneira de reduzir a culpa dos dois, transformando-os de vândalos em jovens pobres e idealistas manipulados por políticos. 

De qualquer maneira, a denúncia pode ser uma boa pista para o início de uma investigação séria sobre as origens da infiltração desses grupos violentos nas manifestações que começaram em junho passado. Houve inicialmente a desconfiança de que grupos como o Mídia Ninja e o Movimento Passe Livre estivessem a serviço de setores políticos, tentando tomar a direção dos movimentos de protesto. 

Ao mesmo tempo, o recurso ao vandalismo, com depredação de prédios públicos e bancos, e ataques a profissionais de imprensa, passou a ser utilizado por membros do lumpesinato, provavelmente a soldo de facções políticas em disputa pelo governo do estado, e pelos geralmente jovens black blocs, que antes de serem uma associação seriam uma maneira de encarar os protestos que uniria indivíduos da mesma índole anarquista, sem que necessariamente se conhecessem. 

O fato é que não se sabe nada ainda dessas organizações, e agora a denúncia pode levar a investigações da Polícia Federal que definam melhor o quadro. O objetivo seria esclarecer se existe mesmo, como acusa o advogado Jonas Tadeu Nunes, a ação de partidos e grupos políticos, sejam de extrema-direita ou de extrema-esquerda, na convocação desses arruaceiros com objetivo de provocar um ambiente de insegurança pública que favoreça seus objetivos. A democracia exige uma resposta conclusiva. 

Cosmo Ferreira, advogado criminal, ex-promotor de Justiça no Rio, procurador regional da República aposentado, escreve para explicar que a Lei de Segurança Nacional não pode ser usada para combater o terrorismo porque, embora em seu artigo 20 puna os "atos de terrorismo", não os define. 

Esse artigo foi considerado revogado, ou não recepcionado pela Constituição, que em seu artigo 5º, inciso XXXIX, exige a definição da conduta criminosa, litteris, "não há crime sem lei anterior que o defina (...)". Embutido no citado dispositivo constitucional, que consagra o princípio da legalidade penal, está o princípio da determinação ou da certeza. 

O cidadão tem que saber exatamente o que é proibido ou o que é mandado. Quando se trata de tipificação de crimes, é que nem no jogo do bicho, "só vale o que está escrito", ressalta Cosmo Ferreira. 

Eleições 2014 - SERGIO FAUSTO

O Estado de S.Paulo - 13/02

Não faltam desafios para o próximo mandato presidencial. São vários os sintomas de que o "novo modelo de desenvolvimento", o "novo paradigma de política econômica", ou que nome pomposo se queira dar às políticas do atual governo, não têm produzido os resultados esperados. Há uma sensação generalizada aqui e lá fora de que estamos improvisando e empurrando decisões com a barriga. Até quando?

Diante desse quadro, segue-se a pergunta: apresentarão os candidatos à Presidência programas de governo que permitam ao eleitor compreender a visão que cada qual tem a respeito desses desafios e conhecer as escolhas políticas que cada um pretende fazer para enfrentá-los? Ou assistiremos novamente, como tem sido a regra nas últimas disputas, a uma campanha desprovida de conteúdo programático, reduzida a apelos publicitários relativos a reais ou supostos atributos pessoais dos candidatos e a vagas proposições de mais bondades a serem oferecidas (fantasiosamente sem custos e sem sacrifício de nenhum outro objetivo desejável) pelo futuro governo?

É certo que programas de governo devem ser traduzidos em linguagem mais acessível ao eleitor comum e que uma campanha para ser bem-sucedida deve mobilizar sentimentos em torno de uma simplificada ideia-força. Pelo menos assim reza a sabedoria política convencional no Brasil. Ela, porém, não apenas dificulta tornar mais informado o voto do eleitor, como também enfraquece o mandato recebido das urnas pelo eleito.

Quando o marketing substitui o programa, o mandato que sai das urnas sinaliza mal o caminho a seguir. Se, de um lado, o mandatário recebe um cheque meio em branco, de outro, ele se vê desprovido da legitimidade política que só um mandato mais programático lhe pode conferir. Esvaziado do confronto de ideias, o processo eleitoral perde assim, em grande medida, a dupla função de engajar o eleitor no debate sobre os rumos da gestão governamental (parte da educação para o exercício da cidadania) e de responsabilizar o eleito pela realização do programa apresentado, conferindo maior densidade política ao mandato recebido das urnas. Fosse maior a responsabilidade gerada pelo processo eleitoral, mais transparentes teriam de ser as negociações do presidente eleito na composição de sua maioria parlamentar, hoje feitas com base na troca de apoio congressual por cargos no Executivo. Sem nenhuma vinculação programática, essas negociações comprometem ainda mais a inteligibilidade do mandato recebido das urnas.

Em resumo, o confronto de programas nas eleições não é a panaceia para todas as imperfeições na nossa democracia, mas é uma condição essencial para fortalecer o nexo entre as preferências do eleitorado e as escolhas políticas do presidente eleito. Se ocorresse, ele reforçaria o mandato presidencial, como instrumento de delegação de poder, de um lado, e de ação política, de outro, dentro dos limites da legalidade e sem prejuízo do sistema de pesos e contrapesos que limita a vontade presidencial. Recorro a um exemplo próximo para fazer o contraste.

Recente eleição no Chile levou novamente à Presidência Michelle Bachelet. Ela apresentou ao eleitorado um bem articulado programa de governo. Comprometeu-se a expandir o ensino superior público e a pôr fim ao sistema eleitoral que restringe a representação de partidos menores e virtualmente força um empate entre direita e esquerda no Congresso chileno. Para financiar o ensino superior gratuito propôs um aumento de tributos, sobre as empresas, equivalentes a 3% do PIB. Disse o que ia fazer, explicou de onde tiraria os recursos para fazê-lo e conseguiu o apoio da maioria dos eleitores para realizar a sua proposta. A coalizão de partidos que a apoia conquistou também número suficiente de cadeiras no Parlamento. O governo de Bachelet está comprometido com a reforma do ensino superior e será cobrado por ela. Idem em relação à reforma eleitoral.

No Brasil, os candidatos em geral buscam se associar a ideias-imagens de compreensão instantânea e se refugiar em generalidades que não desagradem a nenhuma parcela significativa do eleitorado. Para públicos específicos a regra são as propostas ao gosto do freguês, não raro inconsistentes entre si: câmbio competitivo para a indústria, salário real mais alto para o trabalhador, mais recursos para o Bolsa Família e também para juros subsidiados para as empresas com acesso aos financiamentos do BNDES e ainda para o tomador de empréstimo do Minha Casa, Minha Vida e também e também..., numa adição quase infinita de bondades.

Há razões estruturais e históricas por trás da debilidade na formação do nexo eleitoral no Brasil - o País é regional e socialmente muito heterogêneo, a massa do eleitorado ainda é relativamente pouco escolarizada, os partidos são em grande número e pouco programáticos, etc. Nada disso, porém, exime os candidatos e as principais lideranças partidárias do País da responsabilidade de apresentar e se comprometer com programas de governo razoavelmente críveis e consistentes para o próximo período presidencial.

Governar é fazer escolhas, dizia Pierre Mendès-France, um grande político francês, ministro e depois adversário de De Gaulle. Escolhas terão de ser feitas para que o quadro de dificuldades crescentes que o Brasil enfrenta possa ser superado no próximo mandato presidencial: abriremos mais a economia, manteremos o Mercosul como está, retomaremos a discussão sobre a reforma previdenciária, criaremos alguma regra para a expansão do gasto corrente, enfrentaremos a regressividade do sistema tributário, daremos prioridade às energias renováveis?

Os candidatos e seus partidos têm a obrigação de ser claros quanto às escolhas que pretendem fazer, se eleitos, sobre essas e outras questões. É responsabilidade da imprensa e da sociedade exigir o cumprimento dessa obrigação.

Mais médicos... nos EUA - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 13/02

BRASÍLIA - A deserção de médicos cubanos - sabe-se lá quantos são - é um novo obstáculo na reaproximação Brasil-EUA.

Antes de negar publicamente a concessão de asilo ao delator Edward Snowden, Dilma Rousseff mandou o chanceler Luiz Alberto Figueiredo telefonar para a embaixadora americana, Liliana Ayalde, dizendo que essa era uma decisão cristalina, irrevogável. O Departamento de Estado, obviamente, gostou tanto da decisão quanto da deferência.

Agora, seria a hora da contrapartida, mas ela não está sendo como o Brasil gostaria. Pelo contrário, ao pular fora do Mais Médicos, a cubana Ramona Rodriguez imediatamente pediu visto para ir aos EUA. Dias depois, soube-se que seu colega Ortelio Jaime Guerra não apenas pediu o visto, como o obteve e até já estava "a salvo" em solo norte-americano.

O imbróglio diplomático é, portanto, triangular. Os médicos saem de Cuba, vêm para o Brasil embolsando míseros US$ 400 (em torno de R$ 1 mil) e escapolem pelas fronteiras, graças à mão amiga da embaixada americana, para um programa dos EUA feito especificamente para acolhê-los. O Itamaraty se comporta como se não fosse com ele, e talvez não seja mesmo.

Vejamos: quem negociou o pacote com Cuba, via Opas (Organização Pan-Americana da Saúde, da ONU), foi o Ministério da Saúde, com o beneplácito e até o estímulo do Planalto. Não é segredo para ninguém que, desde Lula --e lá se vão mais de dez anos-- as negociações entre Havana e Brasília são como brigas de marido e mulher: ninguém mete a colher. Nem mesmo o Itamaraty, que, geralmente, é o último a saber.

Por isso, hoje a atenção máxima do governo está exatamente nos cubanos que estão desertando. Eles não só esgarçam a bandeira eleitoral do Mais Médicos como criam constrangimento com Havana e aumentam a desconfiança brasileira com os EUA --que já não é pouca.

Mas não foi por falta de aviso.

O tiro do prefeito no pé - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 13/02

Agora não por atos, mas pelas palavras, o prefeito paulistano, Fernando Haddad, acaba de superar as já elevadas marcas alcançadas em 14 meses de mandato na modalidade tiro no pé. Frustrados os seus planos mirabolantes de transformar a cidade numa Xangai, como apregoa - ou porque a Justiça o impediu de onerar os paulistanos com um aumento abusivo do IPTU (de 20% a 35%) ou porque em boa hora a presidente Dilma Rousseff desistiu de apoiar o projeto que muda o indexador da dívida do Município com a União -, Haddad resolveu partir para cima da "elite econômica paulistana", culpando-a por seus dissabores.

Quando o seu mentor Luiz Inácio Lula da Silva desancava o "preconceito" das elites contra os pobres como ele - e como os que o ouviam nos palanques da reeleição e, depois, da candidatura Dilma -, a apelação podia ser o que se quisesse, menos irracional. Era um meio para um fim; como tal, funcionou. E seguramente ele tornará a se valer disso na campanha deste ano, para discriminar os adversários da presidente. Mas Haddad se saiu com uma diatribe que só serve para acrescentar mais críticas às tantas que o seu deplorável desempenho já fez por merecer.

Candidato, Haddad era um "poste" eleitoral. As suas luzes só se acenderam porque, além da força do patrocínio lulista nos redutos do PT, a sua imagem de bom moço lhe deu os votos da classe média que fizeram diferença no segundo turno. Prefeito, o tríplice diplomado pela USP (em direito, economia e filosofia) e ex-ministro da Educação revelou-se um neófito em política e um voluntarista na administração. Apesar dos protestos de junho contra o aumento das tarifas de transporte, ele só tirou os R$ 0,20 das passagens depois de ouvir uma advertência do seu colega do Rio, Eduardo Paes, que já desistira da majoração, e uma ordem de Lula.

Foi também o voluntarismo, o "fazer na marra", embebido dessa vez em caldo populista, que o incentivou a criar da noite para o dia as faixas exclusivas para ônibus, sem uma avaliação minimamente consistente dos seus efeitos para o trânsito de uma cidade por onde circulam cerca de 6 milhões de veículos, ou, por baixo, 1 para cada 2 habitantes. A mistura tóxica de insuficiente senso político e excessiva crença no poderio pessoal está decerto na origem da sua verrina contra as elites, por sinal numa entrevista ao site da BBC Brasil - que não há de ser propriamente o mais acessado pela maioria dos eleitores que lhe deu a vitória em 2012.

Os paulistanos "muito ricos", investiu, padecem de "miopia" e "pobreza espiritual". Essa elite é amesquinhada e muito conservadora, "a começar pelos meios de comunicação" - estes, evidentemente, porque ousaram discordar das políticas do professor-doutor. Para ele, a elite míope, acumpliciada com a mídia, sabota a cidade ao pressionar o Congresso para que não aprove a troca do indexador da dívida paulistana. Faltou-lhe, a essa altura do xingatório, a coragem de afrontar a verdadeira responsável pelo congelamento do projeto - a presidente da República. Ela se deu conta de que, se expurgasse R$ 24 bilhões do débito municipal de R$ 54 bilhões, não só transgrediria a Lei de Responsabilidade Fiscal, como ainda criaria um precedente que, ao ser imitado, levaria à ruína as contas nacionais.

É de perguntar ao prefeito o que ele imaginava que as suas caneladas pudessem produzir para resgatar o seu governo que fechou o ano aprovado nas pesquisas por apenas 18% dos munícipes. Será que eles mudarão de ideia ao ouvir de Haddad que são outros - as elites, a imprensa, o Congresso - os culpados por seus problemas? Extremando a comparação, a última vez que um mandatário quis virar a mesa acusando "forças terríveis" de impedi-lo de governar foi em 1961, quando o presidente Jânio Quadros tentou o fracassado golpe da renúncia.

E como ele quer que as elites reajam, depois de prometer, com arrogância, "educá-las a olhar a cidade com outros olhos"? Ainda é tempo de Haddad fazer isso em relação à Prefeitura. O Orçamento do Município para este ano, de R$ 50,6 bilhões, é o maior da história. Sabendo gastar, em vez de falar em conspirações e "crise financeira", não é pouco o que isso permite realizar.

Desconforto geral - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 13/02

O Fed, banco central dos EUA, engrossou o coro dos analistas e investidores que enxergam sérias fragilidades na economia brasileira.

Num relatório divulgado anteontem, o órgão classificou o Brasil como o segundo mais vulnerável a choques externos, numa lista com 15 países emergentes --somente melhor do que a Turquia. Não é por acaso que o real foi uma das moedas que mais se desvalorizou desde abril do ano passado.

O documento do Fed aglutina seis indicadores em um único índice e visa a antecipar problemas financeiros. Um aumento muito rápido do volume de empréstimos, por exemplo, sugere critérios pouco cuidadosos de concessão de crédito por parte dos bancos e, portanto, maior risco de inadimplência.

O deficit externo elevado (3,7% do PIB no caso brasileiro), por sua vez, pode favorecer desvalorizações abruptas da moeda, gerando pressões inflacionárias.

Se os preços estiverem em alta acelerada, o Banco Central terá mais dificuldade em controlá-los. Nesse cenário, os juros sobem e o crescimento cai.

Além desses, a dívida do governo também aparece como um risco. Um valor elevado (no Brasil, ela está em 60% do PIB, muito acima da média dos emergentes) implica margem de manobra menor para combater um quadro recessivo, o que em geral é feito com o aumento dos gastos.

Ao emprestar a qualquer governo, os mercados consideram a possibilidade de calote. Se ela for alta, demandarão juros maiores. Cria-se um círculo vicioso que o Brasil conhece: torna-se mais difícil crescer, o que piora problemas de crédito, o que gera desconfiança etc.

Cabe destacar, no entanto, que a métrica do Fed é apenas uma simplificação que não permite fazer inferências qualitativas. Estas, muitas vezes, são as mais importantes.

A composição da dívida pública, por exemplo, é bastante melhor do que há uma década. Como as reservas superam o valor que o governo deve em dólares, uma desvalorização do real traz ganhos ao Tesouro. É um elemento estabilizador que reduz o risco de calote.

Embora não deva ser tomado pelo valor de face, seria um erro ignorar o alerta, que incomoda investidores e, cada vez mais, também a população.

No caso da inflação, em especial, a sensação é de aperto no bolso. A despeito do aumento dos juros, os preços dos serviços continuam subindo no ritmo de 8% ao ano.

O governo acredita que o mercado começa a diferenciar o Brasil de emergentes em situação mais delicada. Contar com isso não basta. É preciso agir de forma inequívoca para reduzir as vulnerabilidades. Fora a resposta de sempre --juros altos--, pouco se vê nesse sentido.

Pela segurança dos manifestantes - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 13/02
A ressaca jurídico-política do período pós-ditadura dura mais do que o necessário, sem contar que tudo anda mais depressa nos tempos da internet e das redes sociais. É isso que as autoridades de plantão e nossos representantes no Parlamento precisam perceber. Há sete meses a sociedade comemorou as manifestações de milhares de jovens que foram às ruas contra a corrupção e a baixa qualidade dos serviços públicos.
Assustada, viu também a contaminação da manifestação sadia e democrática por mascarados que se infiltraram nas passeatas para praticar atos de vandalismo aparentemente sem sentido. Eles foram eficientes em provocar a reação da polícia que, surpreendida e despreparada, fez exatamente o que pretendiam os que orientam os jovens arregimentados (e provavelmente pagos) para agredir pessoas e instituições. Claramente buscam criar clima de insegurança alimentado pela barbárie.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por rojão atirado por um infiltrado, quando cobria manifestação no Centro do Rio, teve repercussão internacional e expôs a tentativa de nossos dirigentes de deixar as coisas esfriarem e, com isso, escapar da responsabilidade de tratar de matéria que consideram delicada: dotar a sociedade de legislação atualizada que, separando claramente o joio do trigo, permita a repressão ao vandalismo e garanta o direito à manifestação pacífica das pessoas.

Passos foram dados no Senado rumo a uma legislação que tipifica os crimes de terrorismo no Brasil. Os atos de vandalismo praticados na carona das manifestações seriam enquadrados nessa lei. É assustador, sobretudo quando se sabe que nem a ONU conseguiu, até agora, definir terrorismo. A pressa em votar o projeto com tema de tamanha complexidade passa a impressão de oportunismo do Congresso, ansioso por pegar carona na emoção da tragédia de Santiago Andrade para melhorar a própria imagem.

Sem dúvida faltam regras claras para os manifestantes e para a atuação da polícia. É o que pedem os policiais na voz do secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. Ele relaciona não mais do que três itens a serem observados nas manifestações: vedado o anonimato (sem máscaras, portanto); obrigatória a comunicação prévia de horário e local às autoridades; e proibição do porte ou uso de qualquer objeto que possa causar lesão às pessoas.

Simples assim, pelo menos enquanto não se produz legislação mais sofisticada que demanda demorados debates. Passeatas continuarão a ocorrer. É democrático e legítimo. Grandes eventos, como a Copa do Mundo e as eleições, estão aí. Como diz o próprio Beltrame, "temos pressa. Há pessoas morrendo".

Para sair da lista dos países vulneráveis - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 13/02

Por enquanto, há o discurso a favor da austeridade, que precisa ser aplicado na vida real. Mas, se não retomar a agenda das reformas, o Brasil ficará à margem no mundo



Até anteontem, a inclusão do Brasil no chamado grupo dos “Cinco Frágeis”, ao lado de Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul, poderia ser tachada de “terrorismo psicológico” praticado por analistas neoliberais do mercado financeiro. Ora, se há fuga de divisas do país com a virada de chave da política monetária americana, outros, e não apenas estes quatro “frágeis”, também padecem do mesmo mal e consequentes desvalorizações cambiais. Mas, na terça feira, Brasil e seus companheiros de infortúnio econômico apareceram mencionados, nesta condição, no relatório semestral do Federal Reserve, Fed, o banco central americano. Já sob a presidência de Janet Yellen, o BC dos Estados Unidos reconhece formalmente a maior vulnerabilidade destas cinco economias diante da função semelhante à de um gigantesco aspirador de pó que passou a ter a economia americana, com a perspectiva de elevação dos juros em Wall Street.

A já enorme atratividade dos títulos do Tesouro americano passou a aumentar, em meados de 2013, quando o então presidente do Fed, Ben Bernanke, mencionou que chegaria o momento em que a autoridade monetária americana começaria a reduzir a política de relaxamento monetário (recompras bilionárias de títulos e hipotecas), lançada para acelerar a retomada da economia.

Isso vem acontecendo e, para evitar futuro surto de inflação e novo ciclo de bolhas especulativas, o Fed passou a recomprar menos papéis, na contagem regressiva para a primeira elevação de juros desde 2008. E como mercados atuam nas expectativas, desde o ano passado o fluxo financeiro mundial tomou o rumo preferencial dos Estados Unidos, depois de se aproveitar das altas taxas de retorno em mercados emergentes como o brasileiro. Se os títulos do Tesouro americano são imbatíveis no quesito segurança, também passam a ser mais rentáveis, e segurança e rentabilidade são mistura irresistível para qualquer investidor.

O Brasil perde tempo. O atual discurso de austeridade fiscal chega com algum atraso. Mas, se for aplicado na prática, pode recuperar algum tempo perdido. Porém, ainda falta muito para a adaptação do país a um mundo mais “normal”, com o dólar mais forte, devido à recuperação americana.

O ex-ministro Delfim Netto, em colunas no “Valor” e em recente entrevista à “Folha de S.Paulo” bate na tecla de que o mau humor com o Brasil não tem muito lastro na realidade. A inflação é alta, mas nada indica que escapará ao controle. O déficit em conta corrente, de mais de 3% do PIB, não é saudável, porém a desvalorização do real pode ajudar a recuperar exportações. É certo.

Mas mesmo Delfim reconhece que o Brasil precisa voltar às reformas. Na agenda, estão a previdenciária, a trabalhista, entre outras. Não será em ano eleitoral que esta pauta será lançada. Mas, em 2015, seja qual for o presidente, o tema se imporá por si mesmo. Disso dependerá a perpetuação ou não do Brasil em listas de países fragilizados.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ele foi aliciado recebendo 150 reais para promover vandalismo”
Jonas Tadeu, advogado do assassino de Santiago Andrade, sobre o seu cliente



EMBAIXADA AJUDA CUBANOS A FUGIR PARA OS EUA

A Embaixada dos Estados Unidos concedeu vistos a quatro cubanos que abandonaram o Programa Mais Médicos. Presidente da ONG Solidariedade Sem Fronteiras, Julio Cesar Alfonso informou que os profissionais que já estão em Miami receberam orientações da própria embaixada americana, que auxilia, desde 2006, cubanos que deixaram a ilha a obter vistos especiais para trabalharem nos Estados Unidos.

FUGA

Segundo Julio Alfonso, dois médicos cubanos fugiram para Miami no ano passado e os outros dois chegaram já este ano.

BAIXA

A Polícia Federal, que carimbou passaportes dos cubanos ao saírem do Brasil, não responde a questionamentos sobre o assunto.

ENGORDANDO

A verba destinada pelo governo federal ao Programa Mais Médicos saltou de R$ 540 milhões em 2013 para R$ 1,9 bilhão, este ano.

FUI!

O Ministério da Saúde desconhece o paradeiro dos médicos cubanos de Rio do Antônio (BA), Belém de São Francisco (PE) e Timbira (MA).

HIDRELÉTRICA PODE INTERROMPER GERAÇÃO DE ENERGIA

Se não chover substancialmente até a próxima semana, a hidrelétrica de Marimbondo, na divisa entre Minas e São Paulo, pode deixar de produzir energia: seu reservatório declina aceleradamente. No início do mês estava em 23%, na sexta (7) caiu para 19% e depois, para 14%, segundo dados do Operador Nacional de Energia Elétrica. Na usina de Três Marias, no Rio São Francisco, a coisa está também preocupante.

LOROTA OFICIAL

Apesar da situação preocupante, o governo federal insiste na lorota de que seria “zero” o risco de apagão.

AVE-MARIAS

O reservatório de Três Marias estava com 28,9% da capacidade no final de janeiro. Agora, está abaixo de 25%.

BRASILIENSE

Já aposentado, com marcante presidência no Superior Tribunal de Justiça, Cesar Asfor Rocha recebe, dia 18, título de cidadão de Brasília.

AMOR DE PESSOA

Caio Silva, assassino confesso do cinegrafista Santiago Andrade, disse não saber que estava acendendo um rojão, pensava ser um “cabeção de nego”, que apenas seria capaz de decepar dedos de uma mão.

RISCO INSTITUCIONAL

Cartaz com a frase “Abaixo a Constituição e o Judiciário assassino”, exibido ontem em Brasília por um manifestante do MST, mostra que é gente dessa laia que tem usado a democracia para atentar contra ela.

CULPA DE RENAN

Senadores estão há um mês sem receber reembolso de despesas dos escritórios regionais (aluguel, água, luz, telefone e combustível), além de passagens aéreas. O setor responsável culpa seu presidente, Renan Calheiros, que demitiu cerca de vinte funcionários contratados.

PAROU TUDO

Presos no congestionamento provocado pela manifestação dos sem-terra, brasilienses questionavam a necessidade do canteiro central da Esplanada, nunca usado em protestos que fecham as avenidas com o propósito de provocar o caos na cidade. Com ajuda da polícia.

QUEM QUER?

Mauro Borges, presidente da associação de desenvolvimento industrial (ABDI), assume interinamente o lugar do ministro Fernando Pimentel, já recusado por Josué Gomes, filho de José Alencar, e Abílio Diniz.

NOVO AEROPORTO

A reforma e ampliação do aeroporto de Brasília será inaugurada parcialmente em maio, e, segundo o ministro Moreira Franco (Aviação Civil) vai dobrar sua capacidade. As obras parecem mesmo adiantadas.

ALFAFA

O PT vai precisar aumentar o pasto para dar conta de tanta vaquinha. Agora, pede “doações” para João Paulo Cunha e Zé Dirceu, que, juntos, devem R$ 1,3 milhão. A origem das “doações” deve ser investigada.

PAÍS DAS MARAVILHAS

A volta da presidente Dilma a Brasília foi formalidade só. Acompanhada de ministros e dos senadores Pedro Taques (PDT), Blairo Maggi (PR) e Kátia Abreu (PMDB-TO), discutiu crise internacional. E nada de política.

É FADA

Primeiro castigo para a nova musa dos black bloc no Rio, conhecida como “Cininho”: ajoelhar no milho e escrever mil vezes “Sininho”.


PODER SEM PUDOR

MAU HUMOR PEGA?

Certa vez, o saudoso ex-embaixador José Aparecido de Oliveira encontrou no trânsito de Belo Horizonte, em plena campanha eleitoral de 1982, a então deputada Sandra Starling, que era candidata a governadora pelo PT.

- Veja só quem está aqui: é a governadora dos homens livres! - exclamou Aparecido, sempre gentil e generoso.

- Já vi que perdi: Minas não tem homens livres! - respondeu Sandra, sempre com raiva.

QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Advogado diz que partido financiam vandalismo
Folha: Manifestante foi pago para tumultuar, diz advogado
- Estadão: Jovem é preso; defesa diz que violência em atos é paga
Correio: MSTzaço na praça
Valor: Capital de giro em dólares atrai empresas brasileiras
Estado de Minas: Quem quer criar desordem?
Jornal do Commercio: FGTS na pauta do STF
Zero Hora: Para tumultuar protestos – Rapaz que atirou rojão teria recebido R$ 150
Brasil Econômico: Banco sem agências vai captar com custo mais baixo

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

A conexão perdida - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 12/02

Para se estressar, hoje, não é preciso muito. Basta que a pessoa se hospede numa pousada que não tenha wi-fi, ou que haja uma queda de energia que deixe seu computador paralisado: que desespero ficar sem o Instagram, o Face, o Twitter, o YouTube, o Google.

É chato, eu sei. Mas há uma conexão muito mais séria que está sendo perdida sem que ninguém se importe: a conexão entre causa e consequência, que exige apenas o bom funcionamento dos fios que interligam os neurônios.

Quem viu as imagens do rojão que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade durante um protesto no Rio reparou que ele não estava cercado por muita gente, havia um clarão ao seu redor, o que resultou num comentário paralelo à comoção geral: alguns consideraram a tragédia um azarão. Não era para acertar ninguém, foi uma fatalidade.

Que azar, o quê. Não foi azar de quem soltou o artefato, nem azar de quem estava no caminho. Não houve azar ou sorte. Houve, mais uma vez, a falta absoluta de conexão entre causa e consequência, uma relação lógica que entrou em desuso.

Quem lida com material explosivo no meio da rua (ou dentro de um estádio, como aconteceu no ano passado num jogo do Corinthians, na Bolívia) tem que estar ciente de que pode ferir e até matar outros. Quem dirige feito um insano na estrada tem que ter noção de que pode provocar um acidente fatal. Quem depreda um ônibus tem que lembrar que aquele é o mesmo ônibus que o levaria ao emprego no dia seguinte.

Quem se descontrola com gastos estapafúrdios tem que responder pela falta de verba para o essencial. Quem pensa que está fazendo economia ao usar material de baixa qualidade em obras de infraestrutura tem que considerar que poderá haver danos, atrasos e acidentes de trabalho. Quem se envolve com corrupção tem que saber que é um ladrão como qualquer outro, não importa se usa gravata e tem curso superior.

Quem não atende com eficiência vê sumir a freguesia. Quem solta boatos obstrui a comunicação. Quem mente perde a credibilidade. Quem não investe não avança. Quem só cultiva aliados em vez de amigos fica sozinho. Quem não lê não pensa direito. Quem não pergunta tateia na ignorância. Quem mima em vez de educar lega ao mundo seres prepotentes. Quem não entendeu que gentileza gera gentileza acabará sentindo na pele que grosseria gera grosseria.

Mas, em vez de manter conectada essa corrente óbvia entre causa e consequência, o que vemos são políticos governando o hoje como se não houvesse amanhã, manifestantes confundindo consciência com delinquência, motoristas desrespeitando as leis para chegar antes, homens e mulheres procurando resolver seus problemas com imediatismo, sem levar em conta as necessidades e sentimentos dos outros.

Não podemos ser uma nau sem rumo - LYA LUFT


REVISTA VEJA



Um amigo me telefonou para elogiar um artigo desta coluna porque era "um tom mais otimista do que o habitual". Agradeci, mas na verdade esta não é uma coluna simpática, boazinha: é o meu depoimento sobre o que vejo e sinto no país ou nesta humanidade que somos. Sou sujeita a erros, enganos, cegueiras momentâneas, porque afinal somos todos apenas humanos. Minha preocupação com o que acontece por aqui é intensa, e me esforço para que não sombreie minha vida e meu convívio com as pessoas. Não sou pessimista: tento ser realista. E faço aqui, num jogo não muito bom de palavras, uma breve "lista" de acontecimentos e atitudes que me assustam.

Por toda parte pipocam manifestações, e não me digam que resultam da felicidade do povo com melhorias de vida, que agora quer mais benefícios... não é permitido neste momento grave tapar o sol com nenhuma peneira, nem mesmo dourada. Descobrimos que podemos nos manifestar, e nos manifestamos, o que é ótimo, é democrático (nem sempre pacífico...).

Protestar é questão de respeito próprio. Muitos desses protestos terminam em violência, e não é meia dúzia de vândalos: boa parte deles participa desde o começo, abertamente mascarada e bem preparada para o que virá. Vidraças de lojas, bancos, invasão de hotel, farmácias, nada escapa à destruição. Temos reais punições para isso? Ingenuidade, inocência ou desviar os olhos neste momento é ruim. Os protestos se multiplicam, junto com tantas greves, que parece que tudo vai parar. Diálogos não funcionam, exigências são incorretas ou excessivas, autoridades ignoradas ou atônitas, ordens judiciais descumpridas.

A democracia, nosso fundamento, é difícil. Vivemos num estado de anarquia, pronunciou-se uma desembargadora. E queimam-se ônibus a torto e a direito: porque falta luz, água; porque as inundações são rotina e novamente perdemos tudo; porque esperamos horas com filho febril no colo e não somos atendidos; porque a condução é péssima; porque alguém foi morto; porque alguém foi preso; ou simplesmente porque perdemos a paciência. Fica a indagação: por que destruímos tantos ônibus, prejudicando o já tão maltratado povo? O que haverá por trás disso?

Um bando de torcedores de um clube de futebol invade a sede, os jogadores conseguem se esconder, um deles quase é surrado mas ainda escapa para junto dos colegas. Os bandidos, pois são bandidos, rendem um funcionário, quebram, roubam. Reação do clube? Apenas, que eu visse, no primeiro momento, o treinador explicando: "Os jogadores se esforçaram muito..." Claro que no jogo seguinte o time perdeu. Imagine-se a condição psicológica dos atletas, que até em casa recebem telefonemas ameaçadores. Se não tomarmos cuidado, se não houver punição rápida, e concreta, vira mais uma moda e perdeu-se o sentido do esporte.

Destruir bens públicos ou privados ou machucar pessoas raramente dá punição: os criminosos são logo soltos, ou tratados como vítimas (menores quase são pegos no colo, e policiais crucificados). Quadrilhas de bandidos comandam as cidades, a população está desamparada. Por que ninguém se interessa? Não! Porque as leis são anacrônicas ou descumpridas, na leniên-cia geral, e a Justiça acaba favorecendo o criminoso.

Mensaleiros condenados, se presos, continuam em redes sociais, atuam, aparecem na mídia, quase heróis.

Na saúde, de situação surreal, trazer médicos estrangeiros é ficção: o que falta são condições mínimas para um médico sério trabalhar. Muitas vezes não há leito, água, uma aspirina para dar aos pacientes. Na economia, nem me atrevo a falar. Vejam os dados reais.

Na educação estamos entre os piores do mundo: creio obstinadamente que investir em educação (que é sempre a médio prazo) é essencial para sair desse atoleiro. Mas precisamos melhorar logo, sem comissões inúteis, sem projetos impossíveis — a fim de que o país não lembre uma grande estrutura desconjuntada, com passageiros inertes ou alegrinhos, apavorados, aproveitadores ou descrentes, numa nau sem rumo sobre um mar de naufrágio.