quarta-feira, fevereiro 12, 2014

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 12/02

Empresa do setor imobiliário investe em shoppings no Norte e no Nordeste
A Partage, empresa de investimentos imobiliários acionista do laboratório Aché, investirá neste ano cerca de R$ 360 milhões em centros de compras no Norte e no Nordeste do país.

Serão aportados R$ 270 milhões na expansão de shopping centers em Natal (RN) e Campina Grande (PB), e na reforma de um empreendimento em Mossoró (RN).

Um dos principais investimentos será no Boulevard Campina Grande, que terá sua área dobrada, com 80 novas lojas e sete andares de estacionamento para 1.500 vagas.

A obra vai custar R$ 120 milhões e a expectativa é que o fluxo de visitantes cresça 35%.

O grupo também passa a ter controle acionário de 88% do Unique Shopping Parauapebas, no município homônimo, no Estado do Pará --o primeiro da Partage na região Norte do país.

"É uma cidade influente para seu entorno, que está crescendo muito devido à mina de Carajás, mas que não tem grandes empreendimentos como esse", afirma Ricardo Baptista, sócio do grupo.

Localizado na avenida principal de Parauapebas, o shopping possui 14.500 m² de área bruta locável (ABL), distribuídos em quatro lojas âncoras, três mega lojas, 126 pontos comerciais e quatro salas de cinema.

"Acreditamos tanto no potencial da cidade que compramos o terreno vizinho, pensando na expansão."

Com o terreno adquirido, há possibilidade de crescer mais 54 mil m². As aquisições movimentaram R$ 90 milhões em investimentos.

ENERGIA SEM DESPERDÍCIO
A Bolt, que trabalha com geração e venda de energia, vai investir R$ 45 milhões neste ano na área de eficiência energética, setor em que a empresa passou a atuar desde o final de 2013.

Os aportes serão feitos em projetos para redução de consumo de eletricidade e de água. Os alvos do grupo são grandes empresas e edifícios comerciais, como hotéis e shopping centers.

"Não descartamos a entrada em outros segmentos, como no agronegócio", diz Erico Evaristo, presidente da Bolt Comercializadora.

Nesse modelo de negócio, a companhia fica responsável por todo o investimento no projeto, como em equipamentos e na execução.

"Nós fazemos o aporte necessário e o cliente nos paga com a economia que terá."

A empresa conclui neste mês o primeiro trabalho na área, feito no sistema de refrigeração do hotel Transamérica, em São Paulo.

"Fizemos um investimento de R$ 3,5 milhões e firmamos um contrato em que ele [hotel] vai nos pagar durante cinco anos. A economia de energia proporcionada será de 40%", afirma.

R$ 962,5 milhões

é o faturamento projetado pela companhia para 2014

R$ 875 milhões

foi o faturamento do grupo no ano passado

SUBIDA RÁPIDA
A Melco do Brasil, empresa de elevadores da Mitsubishi Electric, investirá R$ 20,3 milhões no primeiro semestre deste ano em sua planta, em Guaíba (RS).

O aporte será destinado ao processo de transferência da tecnologia necessária para a produção de elevadores de alta velocidade --item ainda não fabricado pela companhia no país.

Para o próximo ano, a empresa planeja a ampliação da planta industrial --dos atuais 7.000 metros quadrados para 10 mil m2.

Não foi divulgado o valor que será injetado nas obras nem a futura capacidade de produção da fábrica. Hoje, a Melco produz entre 80 e 100 unidades por mês.

A companhia foi formada no país em setembro de 2013, quando a Mitsubishi Electric comprou, por R$ 52,7 milhões, mais de 80% da empresa gaúcha LGTECH.

A aquisição será formalizada em cerimônia hoje em Porto Alegre, na qual Kazuhiko Kojima assumirá o cargo de CEO.

13

são as plantas da Mitsubishi Electric em todo o mundo, incluindo a unidade brasileira

120 mil

é o número de funcionários da multinacional

Cresce chance de contratação em pequenas e microindústrias
O número de micro e pequenas indústrias que pretendem contratar funcionários subiu 14 pontos percentuais: passou de 13% em dezembro de 2013 para 27% no mês passado.

Esse é o maior patamar registrado desde março de 2013, mês em que a pesquisa começou a ser feita pelo Datafolha a pedido do Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria do Estado de São Paulo).

"A única explicação possível é o aumento do dólar, que pode dar mais competitividade para as empresas e fazer com que elas ampliem seus quadros de funcionários", afirma Joseph Couri, presidente da entidade.

A expectativa em relação à situação da empresa também alcançou seu índice mais alto: 58% acreditam que suas condições irão melhorar no próximo mês. Menos de 10% dizem que deverá piorar e 28% afirmam que permanecerá como está.

Em dezembro do ano passado, 44% apostavam em uma situação melhor para a empresa, ainda segundo o levantamento.

Ao todo, foram entrevistados 307 industriais, sendo 64% deles de micro empresas (até nove funcionários).

CRÉDITO PARA ESTUDANTES
A Ideal Invest, responsável pelo Pravaler, programa de crédito universitário privado do país, acaba de captar R$ 84 milhões por meio de um Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).

Foi o maior volume de recursos levantados por meio desse instrumento pela companhia que concede e gerencia crédito educativo.

As emissões tiveram uma demanda de R$ 131 milhões, cerca de 30% maior do que a oferta, segundo a empresa.

O IFC (braço financeiro do Banco Mundial) e o Banco Itaú Unibanco estão entre os acionistas da empresa.

Compras... O governo de Minas Gerais receberá hoje uma delegação de dirigentes de Afeganistão, Paquistão, Nepal, Butão e Maldivas. O grupo conhecerá o sistema de compras adotado pela administração mineira.

...em Minas A visita técnica também terá a participação do Banco Mundial.

Prateleira britânica A Vinícola Salton fechou uma parceria com o grupo inglês de varejo Marks & Spencer, que opera em 50 países, para comercialização de seus produtos. O primeiro lote enviado à rede terá 35 mil garrafas.

Ficamos mais ricos. E agora? - DANIEL WEIGERT CAVAGNARI

GAZETA DO POVO - 12/02

O sistema de estratificação social mudou em virtude do aumento da renda da população e da ascensão da chamada “nova classe média”, refletindo, desta forma, no perfil socioeconômico da população brasileira atual.

O novo modelo, muito mais refinado e que começou a ser utilizado neste ano, foi desenvolvido pelos professores Wagner Kamakura (Rice University) e José Afonso Mazzon (FEA-USP), cujo conceito foi apresentado no livro Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil. O livro considera 35 variáveis que vão desde a natureza geográfica, demográfica e cultural, além da aquisição de bens, itens e acesso a serviços essenciais de conforto doméstico e da rede pública.

Feito em colaboração com a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), este novo critério adota uma base de dados nacional – a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, de 2009 –, o que mostra certos aspectos com mais nitidez. Para desenvolver o novo modelo de estratificação, os autores utilizaram o conceito teórico da renda permanente, que indica a capacidade do domicílio de ter e manter certo padrão de vida. Esse conceito, de acordo com os estudiosos, é mais válido que o de renda corrente, que é flutuante, principalmente em termos práticos, porque “os consumidores tentam manter o seu padrão de vida ao longo do tempo, mesmo quando sua renda corrente sofre mudanças dramáticas, utilizando para isso a poupança, o investimento ou o crédito”. Mas como manter essa ascensão da classe média?

Por diversas medições oficiais e extraoficiais, percebemos um aumento significativo na distribuição de renda nos últimos 30 anos no Brasil. Mas o que mais mudou na economia, principalmente nesses últimos cinco anos, foi o consumo. Mais famílias passaram a ter mais poder de compra. Mais pessoas querendo comprar, maior a necessidade de produção, hoje suprida principalmente pela importação de bens de consumo, mais precisamente itens de tecnologia.

Por um lado, isso é bom, pois vai gerar muitos empregos diretos e indiretos em vários níveis, desde que a infraestrutura acompanhe essas novas necessidades e desejos. Caso contrário, vamos chegar a um limite e, consequentemente, haverá um aumento generalizado de preços de bens. Estamos falando de inflação.

Outra questão importante é a continuidade desta situação de poder de compra. A educação tem uma parcela definitiva nesse contexto, uma vez que mais pessoas estão estudando e se formando, e isso as qualifica para efetivar as condições de nova classe média. Porém, como tudo, há uma limitação. O que faz as pessoas serem classe média ou alta (A, B, C e D) é justamente a tendência de vislumbrar um progresso constante. Se as pessoas que melhoraram de vida nos últimos anos não continuarem a se qualificar, menor será a capacidade de assumir vagas no mercado. Ainda menor será a capacidade de compreensão desta sociedade tão qualificada.

Por isso, uma coisa precisa ficar clara: sem educação, não há progresso na sociedade. E é este o caminho a ser seguido.

Má administração requer mais impostos - FLORIANO PESARO

FOLHA DE SP - 12/02

A antipatia gerada pela proposta de aumento do IPTU mostra que não foram só uns quantos privilegiados que se opuseram a esse abuso

Todo mundo sabe que São Paulo é o município mais rico e com uma das maiores arrecadações tributárias do país. No entanto, a inoperância da atual gestão da prefeitura faz com que a cidade apresente indicadores de desigualdade tão grandes quanto a sua riqueza.

O primeiro ano desta administração municipal foi marcado pelo aumento da máquina pública e dos gastos com salários. O prefeito criou nada menos do que cinco secretarias: Promoção da Igualdade Racial, Relações Governamentais, Licenciamento, Políticas para as Mulheres, Turismo; além da Controladoria Geral do Município, da Subprefeitura de Sapopemba e das empresas Vai-Tec e Agência São Paulo de Desenvolvimento. Para administrar tudo isso, foram criados, sem concurso, mais de 1.200 cargos, e a folha de pagamento aumentou mais R$ 180 milhões por ano.

O Orçamento da cidade para 2014 aprovado pela Câmara Municipal é de R$ 50,6 bilhões, incluindo R$ 800 milhões que viriam do reajuste do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). O valor é o maior da história e 19,6% maior que o do ano passado (R$ 42,3 bilhões).

Em vez de criar cargos e aumentar impostos, o prefeito deveria criar políticas públicas para melhorar a eficiência e a eficácia do governo.

O problema é que o partido do prefeito tem obsessão por impostos e cargos públicos. O IPTU já é redistributivo: tira dos mais ricos e isenta os mais pobres. E já faz 20 anos que os aposentados são isentos.

O prefeito ganhou a eleição vendendo a imagem do novo, mas só adota velhos hábitos de gestão. Repete não apenas a prática dos aumentos de impostos, mas também a retórica mentirosa de que o reajuste recairá apenas sobre os ricos.

A sociedade paulistana não aceitou o brutal e descabido aumento do IPTU. Foi às ruas protestar. O PSDB entrou com ação na Justiça para barrar esse absurdo. Entendemos que as pessoas não têm capacidade contributiva para arcar com aumento tão grande. E foi também o que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, entendeu, já que manteve a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo e restabeleceu as decisões judiciais que haviam impedido o reajuste do IPTU em São José do Rio Preto (SP) e em Caçador (SC).

Em um ano de governo, a população não percebeu nenhuma melhoria na qualidade do serviço público. É isso o que mostra a pesquisa Irbem (Ibope/Rede Nossa São Paulo. Para os 1.512 entrevistados, 125 dos 169 indicadores de qualidade de vida estão abaixo da média.

O aumento abusivo foi repudiado pela grande maioria da população que lutou para adquirir sua casa própria ou pequeno negócio. Aliás, a antipatia gerada pelo imposto deixou claro que não foram só uns quantos privilegiados que se opuseram a esse abuso.

O prefeito Fernando Haddad ainda não conseguiu nos mostrar a que veio e já tentou nos impingir a ideia de que o problema de São Paulo é financeiro. Não é! São Paulo requer uma administração criativa e competente, uma máquina mais enxuta e focada nos grandes problemas.

O PSDB tem todo o interesse em ver São Paulo apresentar índices menos díspares, com melhor oferta em moradia, creche e transporte. Mas não nos enganemos. Devemos fazer melhor do que sacrificar mais o bolso dos paulistanos.

Iugoslávia, PT e Brasil - GASTÃO REIS

O GLOBO - 12/02

Medidas para reativar economia fazem água


A Iugoslávia ficará para a História como uma experiência a ser evitada. Existiu como país por cerca de um século e depois se desagregou em meia dúzia de nações. O que teria acontecido? Como o PT entra no script? E qual seria a lição para o Brasil? É o que veremos a seguir.

O que, afinal, deu errado com a Iugoslávia, país onde os operários eram donos das fábricas, um tipo de socialismo diferente do capitalismo de Estado imposto por Stálin a seus países satélites? Em linhas gerais, tem a ver com o sistema de incentivos estabelecido pelas novas regras. Sistematicamente, os trabalhadores, agora donos, passaram a se dar generosos aumentos, esquecendo a imperiosa necessidade de investir nas empresas para obter ganhos de produtividade e de competitividade. Resultado: o país virou o maior exportador líquido de mão de obra para o resto da Europa e o salário real dos operários ficou estagnado, a despeito dos aumentos nominais. O paradoxo é que os novos donos das fábricas passaram a agir contra seus próprios interesses de longo prazo. Quem estava certo era o “amaldiçoado” empresário capitalista cujos lucros eram reinvestidos, gerando empregos e ganhos reais de salários, como aconteceu nas economias capitalistas clássicas.

Na verdade, a Iugoslávia caiu no que poderíamos chamar de armadilha consumista, coisa que lembra bastante bem a política econômica do PT dos últimos anos. Durante uma década, a Receita Federal bateu recordes de arrecadação de 10% ao ano, em termos reais, enquanto o PIB saía pela porta dos fundos com crescimento pífio a ponto de hoje estar reduzido a um reles pibinho. A carga tributária, de quase 40% do PIB, diminuiu brutalmente a capacidade de investir do setor privado sem que o governo contrabalançasse a insanidade aumentando sua taxa de investimento, hoje inferior a 2% do PIB.

Esgotadas a herança bendita de FHC e as condições excepcionalmente favoráveis do mercado internacional, começou a faltar pinga para a festa continuar a pleno vapor. A conta, sentida na pele pela população, foi bater no supermercado com aumentos expressivos nos preços dos gêneros alimentícios e também nos serviços, nos combustíveis e na energia elétrica.

As medidas pontuais adotadas para reativar a economia estão fazendo água, pois faltam investimentos de caráter estratégico que deveriam ter sido feitos ao longo dos anos em infraestrutura e em outros setores críticos. O corte de gastos para tornar o Estado mais eficiente e a ampliação das privatizações foram retardados durante anos por puro preconceito ideológico. Pouco ou nada ensinou ao PT o tempo perdido pela ex-URSS e pela China em seguir, por tanto tempo, a cartilha da estatização e da ingerência do Estado no cerceamento das liberdades individuais, que são fontes de criatividade e geração de inovações e conhecimentos capazes de melhorar a vida de todos.

O Brasil certamente não é a Iugoslávia, mas, dados os precedentes históricos, nossa marcha da insensatez tem semelhanças e já foi longe demais. E com pleno conhecimento de causa perdida. Até quando?

Pecado original - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 12/02

É fácil ver paralelos entre o Brasil de hoje e a Argentina há 10 anos; a crise se origina da recusa em lidar com a inflação


Tempos atrás um dos luminares da heterodoxia econômica no país argumentava, um tanto cinicamente, é verdade, que a tarefa de controlar a inflação não podia ser deixada exclusivamente a cargo do Banco Central, mas deveria envolver o "governo todo".

Era, contudo, outra época; suas sugestões foram devidamente ignoradas e seu potencial destrutivo ficou limitado a outras áreas de atuação. Mais recentemente, porém, essas ideias voltaram a ganhar força.

Em meados de 2011, apostando na desinflação que viria do frio, o BC embarcou num programa temerário de redução da Selic apesar das claras tensões inflacionárias então existentes. Desprezando décadas de estudos, cortou a taxa de juros mesmo com expectativas crescentes de inflação, dando a entender que seu compromisso com a meta já não existia. Perdeu, portanto, a capacidade de "ancorar" as expectativas inflacionárias, isto é, de convencer agentes econômicos de que o melhor "palpite" para a inflação seria a própria meta.

Não bastasse o descaso do BC, o governo federal adotou uma política fiscal extraordinariamente expansiva, mal e mal disfarçada por uma contabilidade criativa facilmente detectável por qualquer analista com um mínimo de experiência no assunto. Os gastos federais, sem contar as transferências a Estados e municípios, saltaram de R$ 795 bilhões (17,8% do PIB) em 2010 para R$ 927 bilhões (19,0% do PIB) em 2013, já descontada a inflação do período.

Em outras palavras, as políticas que deveriam agir no sentido de reduzir a inflação atuaram na direção oposta, agravando o problema. E foi aí que as ideias descartadas em tempos mais sérios começaram a voltar. Assim, em vez de tratar as causas da inflação, o governo ("como um todo") passou a se concentrar nos sintomas. Reduções localizadas de impostos e controles de preços substituíram as políticas monetária e fiscal.

Apenas o subsídio ao consumo de energia custou pouco menos de R$ 8 bilhões ao Tesouro no ano passado (outros R$ 2 bilhões vieram de contas de reservas), o que se adiciona a perdas não reveladas da Petrobras, originadas da desastrosa iniciativa de manter os preços domésticos de combustíveis inferiores aos internacionais. Isso para não mencionar a renúncia fiscal dos impostos sobre, por exemplo, a cesta básica.

Agora, devido à situação precária dos reservatórios e, portanto, ao uso mais intenso da energia termelétrica, já se fala na necessidade de mais R$ 18 bilhões em 2014 para indenizar as empresas, impedidas de repassar os custos mais altos por receio dos efeitos sobre a inflação.

Com as contas de reservas esgotadas, trata-se de recursos do Tesouro que beneficiarão os maiores consumidores de energia, não exatamente a parcela mais pobre da população. E o governo ainda vem acenar com promessas de moderação fiscal...

A verdade é que, como ocorrido em outros países, a tentativa de engajar "o governo todo" na tarefa de controlar a inflação para "ajudar o BC" implica exatamente o oposto.

Em primeiro lugar desestimula a expansão da oferta, como ficou claro, por exemplo, na redução do volume de investimentos do setor elétrico após a edição da MP 579, em setembro de 2012, ao mesmo tempo em que incentiva o aumento do consumo, agravando o problema setorial. Do ponto de vista macroeconômico, adiciona ao deficit fiscal, fator que impulsiona a inflação à frente, depois de passado o alívio transitório sobre os índices de preços.

Quem teve a oportunidade de seguir o padrão de política econômica argentina pós-2004 não há de ter dificuldade de achar paralelos entre o Brasil de hoje e a Argentina há dez anos. Os desequilíbrios fiscais e cambiais, assim como as várias instâncias de controles de preços que puseram a economia platina de joelhos, tiveram origem precisamente na recusa em lidar com o problema inflacionário. Sabemos o fim do filme, mas ninguém parece interessado em mudar o roteiro.

Produtividade na veia - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 12/02

A presidente Dilma tem de fato muito a comemorar com o excelente desempenho do agronegócio. É o Brasil que funciona e que busca a modernidade.

Ontem, em discurso de "inauguração da safra" pronunciado em Lucas do Rio Verde (MT), ela se referiu à "produtividade na veia" que está sendo injetada na economia, graças ao aumento de 221% da produção de grãos em 20 anos, com aumento da área plantada de apenas 41%.

A agricultura apresenta resultados brilhantes em condições adversas, que infelizmente a indústria não consegue repetir, nem mesmo com os benefícios com que vem sendo contemplada.

O setor conseguiu aproveitar a boa fase de demanda e preços das commodities agrícolas e hoje, bem mais capitalizado, está bem mecanizado e opera com tecnologia de ponta.

Mas não dá para alimentar ilusões demais. Esse alto desempenho está acontecendo apesar da atuação do governo e seu Ministério da Agricultura, um dos mais inexpressivos da Esplanada. E, também, apesar do governo que, há alguns anos, trabalhou contra o uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) de grãos.

Se dependesse tão somente da política adotada, a agropecuária estaria mal parada. Castigada por uma infraestrutura precária e cara, esta sim, fortemente dependente de decisões do governo, enfrenta altos custos de produção e escoamento da safra que impedem a obtenção de resultados melhores. Os recursos do financiamento das safras, os tais R$ 136 bilhões mencionados pela presidente Dilma, provêm mais do setor privado do que de recursos oficiais.

Ela própria admitiu ontem as fortes deficiências na rede de armazenamento. É o que obriga o agricultor a despachar depressa demais sua produção e, na prática, a usar inadequadamente a frota de caminhões como instrumento improvisado de depósito de safra. Como nada de especial aconteceu nessa área nos últimos 12 meses, nas próximas semanas os noticiários de TV e os jornais deverão voltar a publicar fotos de congestionamentos das rodovias que dão acesso aos portos.

Nada mais eloquente para mostrar os contrastes, vale focar o que acontece no setor sucroalcooleiro. No último sábado, o provável candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ouviu um rosário de queixas e de reivindicações dos empresários, em solenidade realizada em Ribeirão Preto. Eles acusam o governo de quebrar o setor com a política de dumping imposta ao setor dos combustíveis. A presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, lembrou o governo que 44 usinas foram fechadas ao longo das últimas cinco safras e que outras 12 não estão em condições de processar a cana-de-açúcar que, no Sudeste, estará disponível para corte a partir de abril.

Mais decepcionado com a política da presidente Dilma do que o setor sucroalcooleiro, só mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Para seus líderes, o governo faz o jogo do agronegócio e não liga mais para a reforma agrária. Quem diria que o governo do PT fosse assim avaliado por suas próprias bases.

Os donos do dinheiro e o Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 12/02

BC americano, assim como o 'mercado', acha que o Brasil é frágil e deve se 'ajustar' e se 'reformar'


OS DONOS DO DINHEIRO grosso e líquido, os financistas do mundo, passaram a achar que o Brasil é uma economia "frágil" desde maio do ano passado, mais ou menos quando ficou claro que a economia mundial mudava de rumo, dada a mudança nos EUA.

Os donos da maior e mais importante torneira de dinheiro do mundo, o banco central dos Estados Unidos (o Fed), acham que os donos do dinheiro estão certos.

Quase não haveria como esperar conclusão diferente, que consta do Relatório de Política Monetária do Fed, texto que o BC americano tem de enviar todo semestre ao Congresso deles e que foi publicado ontem.

O Fed afirma que os donos do dinheiro, os investidores, não tratam os países "emergentes" de modo indiferenciado, farinha do mesmo saco. Isto é, quanto mais frágil a economia emergente, mais sua moeda se desvalorizou entre abril de 2013 e fevereiro deste ano de 2014; maior o aumento das taxas de juros cobradas do governo de cada um desses países.

E daí? O governo brasileiro diz que o Brasil tem sido jogado de modo indevido no mesmo saco de gatos fracos dos emergentes. Assim que a manada enlouquecida dos "mercados" se acalmasse, perceberia que a economia brasileira é mais sólida, com o que seria atenuado o vandalismo dos financistas no nosso mercado, sempre segundo o governo.

Recorde-se que o Fed praticamente repete a avaliação do bancão americano Morgan Stanley, que inventou e popularizou a história dos "cinco frágeis", chamados de "cinco fracotes" nesta coluna em agosto de 2013. Eram as economias mais sujeitas a apanhar e que apanhavam nos "mercados": Brasil, África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia.

Os indicadores de fragilidade, segundo a avaliação do Fed, simplezinha e convencional, são: 1) Deficit externo (saldo em conta-corrente, diferença entre exportação e importação de bens e serviços); 2) Dívida bruta do governo em relação ao PIB (ao tamanho da economia); 3) Taxa média de inflação nos últimos três anos; 4) Variação do crédito para o setor privado como proporção do PIB (nos últimos cinco anos); 5) Razão entre dívida externa do país e valor de um ano de exportações; 6) Tamanho das reservas internacionais em relação ao PIB.

O Fed amassou esses números em um único índice, que comparou com as taxas de desvalorização da moeda e do preço dos títulos dos governos de 15 "emergentes" mais relevantes (entre abril de 2013 e fevereiro de 2014). A relação entre "fraqueza" e desvalorizações parece gritante, como já havia notado o Morgan Stanley em meados de 2013.

Mais deficit externo, mais inflação, dívida externa grande, aumento rápido do crédito, dívida pública alta, tudo isso teria sido levado em conta pelos financistas no momento de pensar se era o caso de dar o fora de um país. De fato, ou em teoria, esses são em geral fatores de desvalorização da moeda e de alta de juros (e, pois, de prejuízo para o investidor).

Na ponta baixa da curva, no grupo dos países mais frágeis e que, portanto, apanharam mais, vêm pela ordem de insucesso: Turquia, Brasil, Indonésia, África do Sul e Índia. Os mesmos da metade do ano passado.

O que fazer, segundo o Fed? O de sempre: governos devem gastar menos, reduzir a inflação e fazer "reformas".

'É proibido gastar'- ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

O Estado de S.Paulo - 12/02

Nesta nação desmemoriada, em que persiste o analfabetismo, que engrossa a legião dos desonestos e alienados, é necessário remarcar, com insistência, episódios esquecidos. A crise do sistema de ensino, aliada à política de desinformação praticada pelo governo petista, relega ao esquecimento fatos da História e abre espaço a terroristas, corruptos e picaretas, festejados como heróis.

Passadas três décadas desde a vitória de Tancredo Neves para a Presidência da República, milhões pouco sabem do período 1960-1990, sendo comum encontrar quem imagine ter sido o PT responsável pela derrota, em 15 de janeiro de 1985, do candidato oficial, Paulo Maluf.

Tancredo pertence a reduzido grupo de estadistas. Lançou-se na vida pública em São João del-Rei, em 1933, pelo antigo Partido Progressista, fundado por Olegário Maciel, Antonio Carlos Ribeiro de Andrade e Venceslau Brás. Vereador, deputado estadual, deputado federal, ministro da Justiça de 1951 a 1954, foi orador à beira do túmulo de Getúlio Vargas, em São Borja, cujo suicídio, no dia 24, gerou a crise que resultaria dez anos depois no movimento de 31 de março.

Grande ao longo da vida, Tancredo agigantou-se em 1984. Derrotada a emenda constitucional que restabeleceria eleições diretas para a Presidência, restou à oposição arriscada disputa no colégio eleitoral.

Discursos reunidos no livro Tancredo Neves - Sua Palavra na História revestem-se de atualidade. Os problemas levantados durante a breve campanha eleitoral permanecem como então se achavam: insolúveis. E 11 anos de petismo só fizeram agravá-los.

José Sarney recebeu o País em precárias condições econômicas e sociais. Fez o possível, sob o bombardeio de milhares de greves, que somaram milhões de horas de produção perdidas, e de serviços públicos interrompidos, em prejuízo da economia, dos salários, do povo. Tentou três vezes, mas não derrotou a inflação. Fernando Collor de Mello foi abatido mal havia decolado. Itamar Franco aplainou o terreno para o Plano Real, que estabilizou a moeda, conteve os preços, zerou a inflação.

A Aécio Neves o destino reservou a missão de levar adiante a tarefa de reconstruir o País desejado pelo avô. Empenhou o futuro político no desfecho do próximo pleito.

Os derradeiros discursos de Tancredo consubstanciam, em linguagem serena e objetiva, autêntico programa de governo. Deixarei de lado parágrafos referentes a saúde, educação, transporte, relações internacionais, austeridade, combate à corrupção, recuperação da economia para me deter na área do trabalho, prioridade máxima de governo consagrado à tarefa de repor o Brasil na rota do desenvolvimento e lhe devolver a industrialização e prestígio internacional.

Antes, porém, rápida parada no discurso proferido em 1984, na Convenção Nacional do PMDB (o antigo, não esse que está aí), ao se referir à formação da Aliança Democrática: "Temos de compreender a verdade essencial do nosso pacto político. Nós o estabelecemos em favor da nossa gente. O Brasil que amamos não é entidade abstrata, feita apenas de símbolos, por mais que os veneremos. O Brasil que amamos está em cada coração e em cada alma de seus filhos. Restaurar, em seus olhos, o orgulho da Pátria é a missão que nos cabe. A soberania do País é a soberania de seu povo; a dignidade do País é a dignidade de sua gente".

Quão distinta dos negócios que se fazem agora, mediante a entrega de ministérios em troca de segundos de televisão.

No mesmo pronunciamento, a respeito da CLT observou Tancredo: "As relações entre capital e trabalho reclamam novo ordenamento jurídico. A Consolidação das Leis do Trabalho é um diploma envelhecido no arbítrio, que desserve aos empregados e não serve aos empresários. O código vigente só tem servido para iludir trabalhadores e intranquilizar empresas. Não há economia forte com sindicatos fracos. A autonomia sindical é imprescindível à construção democrática do País. Os sindicatos, quando no exercício das suas atividades legais, existem como legítimos instrumentos dos trabalhadores, e sem eles não há paz social".

Falando ao País após a vitória no colégio eleitoral, dirigiu-se aos assalariados para afirmar: "Retomar o crescimento é gerar empregos. Toda a política econômica de meu governo estará subordinada a esse dever social. Enquanto houver, neste país, um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa".

Já no discurso redigido para o dia da posse tratou da liberdade sindical, tendo a audácia de registrar: "Os sindicatos devem ser livres. A unidade sindical não pode ser estabelecida por lei, mas surgir naturalmente da vontade dos filiados. Sendo assim, tudo farei para que o Brasil adote a Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho. Os sindicatos não podem submeter-se à tutela do governo nem subordinar-se aos interesses dos partidos políticos. Se devemos ter uma política sindical, temos que evitar qualquer sindicalismo político".

Escândalos decorrentes de relações promíscuas entre governo e sindicatos confirmam Tancredo e robustecem a necessidade da reforma sindical. O pelego entrava a geração de empregos, pois desencoraja aplicações em atividades geradoras de emprego.

Aécio deve dar continuidade ao projeto do "Estado moderno, apto a administrar a Nação no futuro dinâmico que está sendo construído". Poderá adotar como emblema a frase "é proibido gastar", encontrada no discurso do avô ao novo Ministério.

A Nação sabe que nunca se esbanjou tanto, e de maneira tão irresponsável, dinheiro do povo como em 11 anos de petismo. Vejam-se as viagens e os estádios da Copa.

Antiga forma - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 12/02

Dia de aniversário no PT é sempre um acontecimento. Em fevereiro de 2013, com dois anos de antecedência, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva lançou a candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição durante a comemoração de uma década dos petistas no poder.

Anteontem, na festa de 34 anos de vida do partido, estava previsto que Lula lançaria Dilma de novo. Mas, mudou os planos, viajou para os Estados Unidos segundo consta para "melhorar o humor" de um grupo de investidores.

Enquanto o chefe animava o auditório por lá, aqui Dilma e os companheiros faziam um ensaio geral do discurso eleitoral pintados para a guerra com a oposição. Pelo que se depreendeu do tom, aquele modelo 'paz e amor' que levou à vitória em 2002 está de novo trancado no armário.

Foi substituído pelo figurino mais adequado aos embates de vale-tudo. Vale inclusive - ou melhor, principalmente - adaptar radicalmente a realidade para que ela atenda da forma mais adequada às conveniências.

Embora não tenha sido essa a intenção, de maneira invertida os oradores acabaram fazendo uma reflexão no espelho. A presidente Dilma Rousseff chamou seus opositores de "caras de pau". Ou seja, cínicos, dados à desfaçatez, a afirmar coisas que não são verdadeiras, que agridem os fatos. Mentirosos, pois.

Vamos deixar de lado águas passadas - aquelas em que um partido de oposição navegava atacando a política econômica para incorporar a mesmíssima política e ainda chamá-la de sua assim que virou governo - para nos atermos ao discurso atual do presidente do PT, Rui Falcão.

"Neopassadismo" e "novovelhismo" foram os neologismos inventados para emoldurar em sarcasmo as candidaturas adversárias, apresentadas como "farinha do mesmo saco". Ambas, na análise de Falcão, escoradas em "dinossauros" da política, todos integrantes das "velhas oligarquias" às quais os oponentes estariam enfeitando com "paetês" e "falsas alegorias" a fim de apresentarem-se ao eleitorado como representantes da renovação.

Bem, farinha por farinha, dividiam até meses atrás do mesmo "saco" o PT e o PSB de Eduardo Campos, o destinatário "novovelhismo" no dizer da novilíngua. O tucano Aécio Neves seria o "neopassadista".

Quanto aos dinossauros, às oligarquias e aos balangandãs nelas pendurados, se Falcão referiu-se aos avós dos dois candidatos, Miguel Arraes e Tancredo Neves, respectivamente, fez homenagem póstuma a dois personagens que fizeram cada qual à sua maneira, História.

Diferente das maneiras com que Paulo Maluf, Fernando Collor, José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros e companhia protagonizam muitas histórias sob os olhares embevecidos e as palavras sempre agradecidas do PT.

Antes de finalizar mais uma vez atacando o Supremo Tribunal, no que seria acompanhado com entusiasmo pela plateia em saudação aos "guerreiros do povo brasileiros" presos na Papuda, Falcão criticou os adversários por fecharem os olhos a denúncias de corrupção.

A presidente Dilma tem razão, o caradurismo grassa.

Vantagem nenhuma. O governo trata as críticas do empresariado com desdém. Aqueles que não são qualificados como pessimistas, são incluídos na lista dos politicamente engajados em candidaturas presidenciais da oposição.

Fica faltando, porém, uma justificativa para as reiteradas recusas de empresários simpáticos ao Planalto em assumir a pasta do Desenvolvimento no lugar de Fernando Pimentel. Dois exemplos mais recentes, Josué Gomes da Silva e Abílio Diniz.

O último empresário de grande porte a participar do governo, Jorge Gerdau, ficou falando sozinho quando apontou a impossibilidade de se administrar o País com 39 ministérios.

O atentado - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 12/02

Eles vão para a rua protestar contra abusos do governo, falam em defesa de direitos humanos, mas na prática têm solene desprezo pela vida do próximo

Não foi um acidente, uma fatalidade, um acaso. Foi um atentado. Com tanta gente àquela hora por ali durante uma manifestação, o rojão aceso disparado do chão teria que atingir alguém — alguém que estivesse passando, parado ou trabalhando, como o cinegrafista Santiago Andrade. O acaso foi a forte carga explosiva estourar “apenas” uma cabeça e não muitas. Os dois autores sabiam o que estavam fazendo, queriam provavelmente acertar de preferência um policial, mas também servia outro inimigo, um membro da mídia tradicional que tanto odeiam. Eles pertencem ao grupo de vândalos e arruaceiros mascarados — black blocs, anonymous — que se infiltram nas manifestações populares para promover quebra-quebra de vitrines de lojas e bancos, achando que assim estão destruindo o capitalismo. Só não esperavam que o ato terrorista de agora fosse tão documentado por imagens de TV. Aliás, o tatuador Fábio Raposo, de 22 anos, um reincidente (já foi detido antes duas vezes por agitação), disse que só se entregou por causa da ampla divulgação de sua foto, já que seria logo descoberto. Mesmo orientado pelo advogado de defesa, o seu depoimento decorado foi marcado por afirmações cínicas, contradições e mentiras, algumas até ingênuas, como a de que não sabia que o “negócio preto” que pegou no chão era uma bomba e que não conhecia o colega a quem passou o artefato, embora aparecessem juntos nas imagens, e cuja identidade ajudou a descobrir: Caio Silva de Souza, de 23 anos.

Na sua comovente despedida do marido, Arlita Andrade apelou para o fim da violência e lamentou que esses rapazes não tivessem tido os ensinamentos que ela deu a seus filhos: “O que falta a eles é o amor pelas pessoas.” Ela tem razão. Eles vão para a rua protestar contra abusos do governo, falam em defesa de direitos humanos, mas na prática têm solene desprezo pela vida do próximo.

Um desfecho como esse estava mais ou menos previsto, porque, enquanto sempre se destinou rigor crítico à ação da polícia, tratou-se com muita leniência os agitadores. Intelectuais apoiaram seus atos sem querer saber a serviço de quê e de quem agiam, quais os mentores e patrocinadores. Advogados, ONGs e políticos preferiam dar-lhes cobertura para que não fossem ou ficassem presos quando flagrados em graves delitos durante os protestos.

Ainda no começo, no dia 22 de junho passado, escrevi aqui que se alguma providência não fosse tomada com urgência para impedir a infiltração dos vândalos mascarados as legítimas manifestações populares iam perder o que haviam conquistado: “o apoio entusiasmado da opinião pública.” Aos que alegavam que os marginais predadores constituíam uma minoria, foi dito: “mas é uma minoria disposta a só produzir estragos.” E, como se viu agora, não só estragos, mas também morte.

Que tal tirar a máscara de quem quer ficar impune? - JOSÉ NÊUMANNE

O Estado de S.Paulo - 12/02

Não havia brasileiro razoavelmente informado que já não soubesse que os black blocs sempre fizeram o possível e mais do que o razoável para que os policiais encarregados de reprimir seu vandalismo nas ruas das cidades brasileiras produzissem um mártir. Em 25 de janeiro, Fabrício Proteus Fonseca Mendonça Chaves, de 22 anos, foi baleado num protesto em São Paulo contra os gastos da Copa do Mundo. Poderia ter sido este, mas, socorrido pelos PMs e levado para a Santa Casa de Misericórdia, felizmente ele sobreviveu. Infelizmente, contudo, o cinegrafista da Band Santiago Andrade, de 49 anos, não teve idêntica sorte e morreu em consequência de ferimentos na cabeça, vítima da explosão de um rojão disparado no centro do Rio num protesto violento contra o reajuste da tarifa de transportes públicos. Eis o mártir!

Mas o cinegrafista, que trabalhava na cobertura da manifestação quando foi atingido, não foi vitimado pela violência policial, contra a qual dez entre dez políticos, militantes de direitos humanos, governantes politicamente corretos, acadêmicos bem-pensantes e repórteres apressados esbravejam. O buscapé disparado da calçada a poucos metros de onde a vítima estava foi criminosamente preparado por vândalos cujas feições estavam escondidas por máscaras e panos com os quais encobriam o rosto. O disparo podia não ter como objetivo especificamente aquele profissional. É até possível acreditar que seu alvo seria a tropa policial que procurava conter o quebra-quebra. Mas um repórter, fotógrafo ou cameraman presente na cena para transmitir informações ao público ou um inocente transeunte do anônimo exército das vítimas das balas perdidas na violência metropolitana brasileira fatalmente seria atingido. Pois a vareta que direciona o rojão para explodi-lo nas alturas foi quebrada e quem já soltou fogos de artifício sabe que nessas condições o buscapé não sobe, faz um trajeto aleatório e atinge o que estiver à frente. Assim, feriu a cabeça do jornalista a trabalho.

Naquela quinta-feira ninguém imaginou ser possível inculpar os black blocs pelo crime hediondo. Os telejornais da Rede Globo na noite do crime e na manhã seguinte reproduziram reportagem de Bernardo Menezes, da Globo News, atribuindo aos policiais o disparo do explosivo. Quem pôs o equívoco no ar não atinou para o fato de que a fogueira ateada na cabeça do colega jamais poderia ter sido produzida por bombas de efeito moral ou granadas de gás lacrimogêneo. Faltou um átimo de sensatez para evitar a divulgação do engano. O hábito de denunciar a violência policial levou o erro ao ar. Errar é humano, está certo, mas o jornalismo responsável requer mais diligência.

Depois que a polícia demonstrou o óbvio, William Bonner, o editor-chefe do Jornal Nacional, gaguejou um pedido de desculpas envergonhado e aproveitou para elogiar a humildade de voltar atrás ao reconhecer o erro. O reconhecimento do engano é uma virtude, mas é preciso que a autocrítica tenha relevo similar ao dado à falsidade divulgada.

E mais: é necessário também transmitir a convicção de que equívocos similares serão evitados. Não só pela emissora que engoliu uma "barriga" mastodôntica e cuspiu um mosquito. Mas também por todos os envolvidos na organização das manifestações populares, seja contra o que for; na manutenção da ordem pública nas ruas durante os protestos; na defesa jurídica dos manifestantes; e na cobertura e transmissão dos fatos para conhecimento da sociedade. Todos somos responsáveis. E todos devemos ter noção das evidências de que o cinegrafista foi vitimado pela leviandade geral vigente.

O mesmo Jornal Nacional reproduziu uma enxurrada de manifestações de súbita condenação aos vândalos. Entidades que representam advogados, juízes, donos de meios de comunicação, jornalistas e poderosos da República deixaram de execrar somente a polícia.

"Não é admissível que protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito pela vida humana", registrou Dilma Rousseff no Twitter - uma platitude de dar dó. É lamentável que do alto do cargo mais importante da República ela se tenha comportado como se fosse apenas a candidata à própria reeleição. Reduzir tal crime a um slogan de campanha, utilizando o velório da vítima como extensão de seu palanque, é absurdo em si. Fazê-lo numa rede social, como numa fofoca de adolescentes, é espantoso. Assim como revolta a justificativa dada pelos vândalos em outra rede social, o Facebook, buscando inculpar a polícia por quatro mortes não noticiadas nem comentadas pelos meios de comunicação, tentando estabelecer uma relação de nexo inexistente e adotando uma contabilidade sinistra e sem sentido. Idêntico afã oportunista levou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a procurar limpar a própria imagem com o sangue da vítima ao propor enquadrar os vândalos por crime de terrorismo.

Quando os políticos que vendem a alma por um punhado de votos descobrirão que os anarquistas que encerram as passeatas ditas pacíficas nas ruas são criminosos comuns que agridem e depredam, devendo ser punidos como tal? E que a eles se acumplicia quem defende o uso de máscaras, porque estas dificultam a identificação deles pela polícia? Os repórteres sempre benevolentes com os mascarados nunca perceberão que lidam com inimigos da verdade? Afinal, isso se comprovou no atentado ao cinegrafista e na agressão a outro que captava imagens em manifestação em defesa do tatuador por cujas mãos passou o rojão e que terminou mentindo descaradamente à polícia ao pedir delação premiada. E advogados menos empenhados em defendê-los do que em aparecer não prestam serviço à lei, mas trabalham pela impunidade de meros quadrilheiros.

Esta não é hora de caçar bruxas. Mas, sim, de tirar a máscara de quem esconde o rosto para delinquir e ficar impune.

O centro invisível - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 12/02

BRASÍLIA - Ontem a Folha promoveu um debate na sua página A3 sobre violência e direitos humanos. O pano de fundo: um adolescente negro acusado de praticar furtos em série no Rio acabou agredido e preso nu, pelo pescoço, a um poste.

A apresentadora de TV Raquel Sheherazade escreveu a favor do direito de cidadãos se defenderem e de prenderem quem os ameaça. O deputado federal Ivan Valente, do PSOL paulista, rebateu dizendo que "ressuscitou-se o Pelourinho 125 anos após o fim da escravidão".

Gostei de ler os dois artigos com opiniões bem antagônicas. Mas ficou para mim uma dúvida: onde está o centro? Afinal, o Brasil não é só a busca do direito de prender pessoas com as próprias mãos. Tampouco é um país no qual a escravidão seja cotidiana, apesar do lamentável e bárbaro episódio do Rio.

Tem havido uma polarização exacerbada nos grandes debates brasileiros. É sempre fácil enxergar as posições nos dois extremos do espectro político-ideológico. Só o centro parece invisível. Até porque uma análise moderada será logo classificada "de direita" pelos mais liberais. Ou de "condescendente com a esquerda" por quem luta na trincheira do conservadorismo.

A grande vantagem --alguns dirão desvantagem-- da história de conchavos sociais do Brasil foi ter colocado de pé uma nação quase sem conflitos sangrentos generalizados. A disposição para encontrar saídas pactuadas deu-se em vários momentos, como no fim da ditadura militar. Na cultura brasileira, o extremismo de direita ou de esquerda nunca teve tanto espaço como em países vizinhos na América Latina.

Nesta semana, a morte do cinegrafista Santiago Andrade também produziu grande polarização. Sem contar a tentativa de alguns querendo se apropriar da tragédia alheia. Há hoje muitas ideias fora do lugar no Brasil. É um enigma aonde isso vai dar, sobretudo em ano eleitoral.

Terrorismo em debate - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 12/02

O Brasil corre o risco de realizar uma Copa do Mundo de futebol, dentro de cerca de quatro meses, sem ter uma legislação que tipifique o crime de terrorismo, embora nossa Constituição se refira a esse crime em várias situações e diversos tratados internacionais obriguem o país a se posicionar sobre o tema. Mas, como vários assuntos, este também não foi regulamentado, e, portanto, não existe lei para combatê-lo, a não ser a Lei de Segurança Nacional do tempo da ditadura, que não se quer utilizar em tempos de democracia.

A questão chegou ontem ao plenário do Senado, oriunda justamente de um grupo de trabalho para tratar de assuntos que, embora incluídos na Constituição de 1988, ainda não saíram do papel por falta de regulamentação. A primeira coisa que se tentou fazer foi dissociar a discussão do combate ao terrorismo do trágico assassinato do cinegrafista da TV Bandeirantes no Rio, embora o texto original tenha sido impulsionado pelos acontecimentos de junho do ano passado.

Mas o que emperrou mesmo a discussão foi a preocupação do Palácio do Planalto em não criminalizar as ações dos chamados movimentos sociais . O Projeto de Lei em discussão, cujo relator foi o senador Romero Jucá, define terrorismo da seguinte maneira: Provocar ou difundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa .

O projeto inclui previsão de pena maior quando há emprego de explosivo, fogo, arma química, biológica ou radioativa, ou outro meio capaz de causar danos ou promover destruição em massa . Esse texto enquadra perfeitamente a ação de vandalismo de black blocs nas manifestações de protesto desde junho, e em especial o assassinato do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade.

Mas surgiu um movimento, insuflado pelo gabinete do ministro Gilberto Carvalho e liderado pelo PT, para incluir no texto da lei uma ressalva que já existe no projeto do novo Código Penal, que está sendo debatido há um ano, mas que não entrará em vigor tão cedo.

O relator da comissão especial do Código Penal foi o senador Pedro Taques (PDT-MT), que inseriu em seu texto final um capítulo que trata dos crimes contra a paz pública e estabelece penas que podem chegar a 20 anos para os casos mais graves de terrorismo. No projeto relatado por Jucá, as penas são mais pesadas, variam de 15 a 30 anos de reclusão.

Mas o projeto do Código Penal tem um item denominado Exclusão de crime , assim redigido: (...) Não constitui crime de terrorismo a conduta individual ou coletiva de pessoas movidas por propósitos sociais ou reivindicatórios, desde que os objetivos e meios sejam compatíveis e adequados à sua finalidade .

Alega o senador Pedro Taques que atos como o que matou o cinegrafista no Rio de Janeiro não são o objetivo da manifestação, e que quem desvirtuou seu sentido deve ser enquadrado no Código Penal de acordo com as circunstâncias de cada caso.

O senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, mesmo que concorde que no caso do cinegrafista da Bandeirantes não foi caracterizada uma ação terrorista, mas um homicídio, rejeita a ressalva do novo Código Penal, dizendo que não existe terrorismo do bem .

Há, no entanto, um temor dos políticos num ano eleitoral de serem acusados pelos movimentos sociais de perseguição política. Até mesmo o senador Renan Calheiros, que nas manifestações de junho levou adiante a discussão sobre o Projeto de Lei sobre o terrorismo, ontem fazia questão de separar os dois temas.

Já o petista Jorge Viana considerava que a lei antiterrorismo seria um sinal concreto à sociedade de que crimes como o que resultou na morte de Santiago Andrade vão ser punidos com mais de 30 anos de cadeia . Ele estava trabalhando para compatibilizar os dois textos, a fim de que o consenso no Senado permita a aprovação do projeto.

No entanto, é quase impossível que se chegue a um acordo que inclua a blindagem dos chamados movimentos sociais . O governo terá que mobilizar sua base para aprovar a legislação a seu modo se quiser ter uma lei antiterrorismo antes da Copa do Mundo. Mas de que servirá essa lei se os black blocs e que tais estiverem protegidos?

A histeria dos comissários - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 12/02

Manifestante é manifestante, delinquente é delinquente, bandido é bandido e terrorista é terrorista


Os surtos histéricos diante da violência urbana dão em nada. Se dessem, ela já teria acabado há décadas. Já os surtos de histeria política, quando dão em alguma coisa, acabam mutilando as liberdades públicas.

O senador Jorge Viana defendeu a aprovação em regime de urgência de um projeto de seu colega petista Paulo Paim que classifica como terrorismo os atos de violência física praticados durante manifestações de rua. Depredações e mesmo desacato à autoridade policial são delitos previstos no Código Penal. Isso para não se mencionar o homicídio do cinegrafista Santiago Andrade.

O projeto petista define assim o ato terrorista:

"Provocar ou difundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoas".

A pena iria de 15 a 30 anos de prisão. Se a ação resultar em morte, sobe de 24 a até 30 anos. Fica por aí porque esse é o limite máximo da pena de reclusão nas leis brasileiras.

Deixando-se de lado o caráter vago do que seria "provocar ou difundir terror ou pânico generalizado" e a precisão da pena mínima (15 anos de reclusão), pode-se buscar um caso semelhante de histeria, com danos historicamente conhecidos.

Que tal assim?

Será crime "comprometer a segurança nacional, sabotando quaisquer instalações militares, navios, aviões, material utilizável pelas Forças Armadas, ou ainda meios de comunicação e vias de transporte, estaleiros, portos, aeroportos, fábricas, depósitos e outras instalações:

Pena: reclusão de 8 a 30 anos."

Essa era a redação do artigo 11º da Lei de Segurança Nacional, baixada a 21 de outubro de 1969, no auge da ditadura, pouco depois do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

A pena mínima para um sabotador de quartel ou aeroporto (imputações específicas) era de 8 anos. Para assalto a banco ou sequestro de avião ela ia de 10 a 24 anos. Nos dois casos, as penas eram inferiores às que prevê o surto petista. Caso o delito resultasse em morte, a pena seria de fuzilamento. Apesar de ter havido uma condenação, ninguém foi executado dentro das normas legais.

O comissariado quer expandir a definição de terrorismo precisamente numa época em que sexagenários que militaram em organizações da esquerda armada aborrecem-se quando alguns de seus atos são chamados de ações terroristas. O atentado do aeroporto dos Guararapes, por exemplo, quando explodiu uma bomba no saguão, matando duas pessoas e ferindo 14. Ele ocorreu em 1966, dois anos antes da edição do Ato Institucional nº 5. Oito meses antes do AI-5, um documento do Comando de Libertação Nacional, o Colina, dizia que "o terrorismo, como execução (nas cidades e nos campos) de esbirros da reação, deverá obedecer a um rígido critério político". Assim, quatro meses antes da edição do AI-5 mataram um major alemão que pensavam ser o capitão boliviano que estivera na operação que resultou no assassinato do Che Guevara. Nessa organização militava, com o codinome de Wanda, a doutora Dilma Rousseff. Tinha seus 20 anos e nunca foi acusada de ter participado de ação armada.

Como diria Ancelmo Gois: "Calma, gente".

Oportunismo agropolítico - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 12/02

Na tentativa eleitoreira de associar seu nome a uma das poucas áreas que vão bem na economia, a presidente Dilma Rousseff resolveu participar da cerimônia do lançamento simbólico da colheita da safra de soja 2013/2014, no município mato-grossense de Lucas do Rio Verde, a 360 quilômetros de Cuiabá. Sem se incomodar com o fato de que mais de 20% da safra do Estado já foi colhida e cercada de políticos, Dilma fez um discurso de quase 40 minutos, subiu à cabina de uma colheitadeira e posou para fotos recolhendo grãos da oleaginosa.

Criticada no meio empresarial pelos maus resultados que sua política econômica vem produzindo, a presidente tomou a decisão de, ao mesmo tempo, aproximar-se de um segmento - o do agronegócio - no qual seu prestígio vem se reduzindo tão ou mais velozmente do que em outros e apresentar-se à população, sobretudo aos eleitores, como responsável pelo notável êxito que se observa no campo.

É, de fato, impressionante o resultado que os agricultores vêm alcançando nos últimos anos, mas é preciso ficar claro que esses resultados surgem não por estímulos do governo, mas por decisões, práticas e determinação dos produtores. Nem a notória precariedade da infraestrutura de logística, que se constata a cada safra, dificultando e encarecendo o escoamento da produção, é forte o bastante para reduzir o ânimo dos produtores. A agricultura continua a crescer a despeito do governo, sobretudo o atual.

A presidente apontou como um grande desafio para o País o ganho de produtividade. Para a agricultura, é um conselho inútil, pois esse desafio vem sendo vencido a cada safra, com resultados até surpreendentes quando comparadas a evolução da produção de grãos e a da área total cultivada.

Dilma referiu-se também ao que considera o "diferencial do nosso País em relação ao mundo", que é a energia - e ainda "temos o pré-sal". A ocorrência de apagões que afetam diversas regiões do País mostra que, em matéria de energia, os investimentos têm sido insuficientes para assegurar a normalidade da transmissão e do abastecimento de energia elétrica. Quanto ao pré-sal, os elevados investimentos que a política do governo para essa área impôs à Petrobrás estão asfixiando a empresa financeiramente e limitando as aplicações em outras áreas essenciais, como a do refino e a de manutenção dos equipamentos em operação.

A presidente disse ainda que "mudaremos a face do agronegócio quanto mais tivermos armazenagem eficiente". Em seguida, prometeu "um grande esforço" para integrar os modais de transporte em Mato Grosso, com a utilização de ferrovias, hidrovias e rodovias. Tudo isso é indispensável para tornar ainda mais eficiente a produção agrícola, mas parece que o governo Dilma só começou a entender isso depois de ter cumprido 75% de seu mandato. Só no fim do ano passado, por exemplo, foram realizados os leilões de concessão de rodovias que servem as principais regiões produtoras. O plano de expansão da malha ferroviária continua no papel. Quanto às hidrovias, trata-se de um tema seguidamente tratado pelos governos nas últimas três ou quatro décadas, com baixíssimos resultados práticos.

A agricultura, mesmo assim, vai muito bem. A mais recente estimativa da produção de grãos feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica que o País produzirá 193,9 milhões de toneladas. Trata-se de um número inferior ao da estimativa anterior, mas ainda assim é 3,6% maior do que a colheita da safra anterior, de 186,9 milhões de toneladas.

A queda em relação à estimativa anterior se deve à redução da produção de milho da segunda safra. A estimativa já capta alguns efeitos da seca que atinge a região Centro-Sul, mas é possível que a falta de chuvas afete também as próximas projeções da Conab.

Mesmo que haja queda nas novas estimativas, o Brasil continuará sendo um dos maiores produtores de alimentos do mundo e, no caso da soja, pode tornar-se o líder mundial, passando os Estados Unidos, como indicam as projeções mais recentes do Departamento de Agricultura americano.

Defensores de assassinos - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

 GAZETA DO POVO - PR - 12/02

Os black blocs não chegaram aonde chegaram por acaso. Contaram com o apoio de muita gente



A morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da Band, atingido por um rojão lançado por um black bloc durante protesto no Rio de Janeiro na quinta-feira passada, causou uma onda nacional de comoção. Quando um artefato como esse, cujo poder letal é conhecido, é disparado diretamente contra outras pessoas, estamos diante de um crime – não importa se a vítima é jornalista, policial ou manifestante. Os assassinos precisam ser responsabilizados pelo que fizeram, mas o episódio também pede um exame de consciência daqueles que, desde o início das grandes manifestações de rua, criaram o cenário que permitiu aos black blocs acreditarem que podiam fazer o que bem entendessem.

Os black blocs não chegaram aonde chegaram por acaso. Contaram com o apoio, implícito ou explícito, de muita gente. Famosos e anônimos, mais ou menos influentes, muitas vezes contaminados por ideologias que veem legitimidade na violência quando usada para os fins que lhes apetecem. Repetem, assim, os tristes exemplos do historiador Eric Hobsbawm, para quem as dezenas de milhões de mortes provocadas por Stalin seriam justificáveis se servissem para concretizar a utopia comunista; e do arquiteto Oscar Niemeyer, que pensava da mesma forma. Hobsbawm e Niemeyer não viveram para ver os black blocs em ação no Brasil, mas, a julgar por suas ideias, talvez até endossassem a ação dos mascarados.

Em editorial de outubro do ano passado, a Gazeta do Povo manifestou sua preocupação com a construção, nas universidades brasileiras, de um arcabouço teórico que justificava a depredação black bloc, inspirado nos “autonomistas” italianos que providenciaram uma base intelectual para os terroristas que agiam naquele país, nos anos 70. Professores de universidades renomadas, como a USP e a FGV, escreveram em defesa dos mascarados meses atrás, provavelmente inspirados por autores como Slavoj Zizek, um dos principais intelectuais de esquerda da atualidade e defensor enfático da “violência revolucionária” como uma necessidade. Na mesma ocasião, lembramos que os professores da rede pública do Rio de Janeiro adotaram os black blocs como parceiros durante a greve da categoria, como direito a refrões como “uh, é black profes!”

Em um apoio menos teórico, mas mais midiático e instantâneo, alguns artistas manifestaram solidariedade adotando a estética black bloc, deixando-se fotografar imitando os vândalos mascarados. Foi assim com o rapper Marcelo D2 – explícito em seu apoio aos black blocs – e com o cantor e compositor Caetano Veloso, que, surpreso com a maneira como a imagem se espalhou pelas mídias sociais, contou a história da foto em um artigo no jornal O Globo. Caetano, para quem “proibir máscaras numa cidade como o Rio é violência simbólica”, disse que não fez a foto para ser divulgada e que nem era “anticapitalista convicto”, mas emendou: “Entendo que black bloc faz parte”.

Também é preciso lembrar a ação não menos eficaz de alguns setores da imprensa que se empenharam em demonizar a polícia até que, como lembrou a Gazeta recentemente, ela fosse sempre considerada “suspeita até prova em contrário”. Com isso, aqueles que tinham a possibilidade de frear os black blocs acabaram neutralizados, receosos da repercussão negativa que teriam caso apenas fizessem seu trabalho. Logo após Andrade ter sido ferido, um repórter afirmou que o rojão que atingiu o cinegrafista tinha partido da polícia. Depois, por muito tempo insistiu-se na narrativa segundo a qual “não se sabia de onde tinha partido o artefato” mesmo depois de ficar claro que a polícia não trabalhava com bombas que produzissem o efeito registrado nas imagens da agressão. É como se alguns jornalistas alimentassem um desejo secreto de que, no último instante, surgisse uma prova de que não tivessem sido os black blocs (tratados com condescendência em muitas reportagens, aliás) os responsáveis pelo ataque ao repórter cinematográfico.

Nesse sentido, não pode ser ignorado o teor da nota que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro emitiu no dia seguinte ao ataque. A julgar pelo texto divulgado, responsabilizar a emissora onde Andrade trabalhava por não ter lhe fornecido equipamentos de proteção parecia mais importante para a entidade que descobrir quem tinha sido o autor do ataque.

Os black blocs não se tornaram criminosos só agora que acrescentaram um homicídio à sua folha corrida; eles já eram bandidos muito antes disso. Se alguns repensarem seu endosso aos black blocs por causa da morte de Santiago Andrade, que aproveitem essa ocasião para se perguntar por que tiveram de esperar até que houvesse uma morte para tal. A essa altura, insistir em apoiar os vândalos (e agora também assassinos) mascarados mesmo depois desse episódio que entristece o Brasil significa assumir a cumplicidade com a barbárie.

Petrobras paga a conta de equívocos do governo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/02

Ações da companhia continuaram se desvalorizando este ano na bolsa de valores, porque o mercado está cético quanto à recuperação dos resultados da empresa



Os preços das ações da Petrobras continuaram amargando fortes perdas após a virada do ano. A empresa espera recuperar produção e melhorar os resultados ao longo de 2014, mas o mercado tem reagido com ceticismo. A queda acumulada em doze meses é da ordem de 25%, enquanto, na média, os papéis mais negociados na Bovespa se desvalorizaram 12%.

No quatro trimestre de 2013 e nas primeiras semanas de 2014, a Petrobras pôs em operação nove novas plataformas, que aumentam sua capacidade de produção em mais de 1 milhão de barris diários de petróleo e gás. Algumas delas foram instaladas em campos promissores da camada do pré-sal. É bem possível que a trajetória da curva de produção se inverta a partir de agora, rumo a quatro milhões de barris diários até o fim da década (o que significará o dobro do atual volume).

O descrédito de mercado se deve a seguidas frustrações no alcance das metas. A recuperação anunciada para 2013 não ocorreu. Houve até uma queda surpreendente, que a companhia justificou com atrasos na entrada em operação de algumas unidades.

No entanto, como chamou atenção o consultor Jorge Camargo (que foi alto executivo na própria Petrobras e em outras companhias petrolíferas), em artigo publicado sábado no GLOBO, a queda da produção nos campos maduros da Bacia de Campos, principalmente, está ocorrendo mais rapidamente do que seria natural, o que denota falta de investimento na perfuração de novos poços e de equipamentos adequados para separação do óleo extraído dos reservatórios junto com grande volume de água salgada.

O consultor usou a imagem de uma gigante extenuada para descrever a situação da Petrobras. A estatal tem um programa de investimentos da ordem de US$ 250 bilhões, e, para executá-lo, teve de atingir o limite aceitável de endividamento. Não pode recorrer mais ao mercado para se capitalizar nesse ambiente de ações desvalorizadas. E os recursos gerados nos seus negócios têm sido insuficientes devido a uma política de preços imposta pelo governo que a leva a registrar elevados prejuízos na importação de óleo diesel, gasolina e gás.

É uma questão não resolvida, que este ano esbarra no calendário eleitoral. O ajuste de preços sem dúvida pode encarecer todo o custo de transportes, e infelizmente a inflação já está em um patamar que não permite absorver esse choque sem ultrapassar o teto (6,5%) da meta estabelecida pelo governo.

Mas o responsável por esse quadro é o próprio governo, cuja combinação de políticas fiscal e monetária expansionistas permitiu que a inflação se mantivesse nesses patamares perigosos e arriscados. Mas jogar o peso desse equívoco sobre a Petrobras, obrigando-a a subsidiar o consumo de combustíveis, é persistir no erro.

O preço do nacionalismo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 12/02

Sem a pujança econômica de outrora, a Europa registra nos últimos tempos o fortalecimento de pressões xenófobas e anti-imigração.

Após a crise global, iniciada em 2008, e o consequente aumento dos índices de desemprego no continente, grupos de extrema-direita conquistaram níveis inéditos de participação nos Parlamentos nacionais da Suécia e da Grécia.

Não satisfeitos em exercer a representação política, tais agremiações têm protagonizado lamentáveis episódios de agressão às minorias de outras nacionalidades.

No Reino Unido, o governo do conservador David Cameron recentemente reforçou o controle sobre imigrantes do leste europeu. Decerto pesou em sua decisão o crescente apoio ao outrora nanico Ukip (Partido da Independência do Reino Unido), que cativa habituais eleitores de sua legenda.

Verifica-se, agora, o fortalecimento de políticas nacionalistas na Suíça. No domingo, a população local aprovou em plebiscito uma proposta que restringe a imigração de cidadãos dos 28 membros da União Europeia --hoje, 23% da população do país é estrangeira.

Aprovada por ínfima margem (50,3% dos votos), a limitação ao fluxo de imigrantes foi sugerida pelo Partido do Povo Suíço, conhecida agremiação de extrema-direita.

O governo nacional e a comunidade de negócios foram críticos da proposta, que também diminuirá o acesso ao serviço social nacional e o direito de os estrangeiros levarem suas famílias ao país.

Se foi derrotada durante o debate prévio, a racionalidade econômica agora cobrará sua fatura.

Não apenas ignorou-se que a Suíça tem as mais baixas taxas de desemprego da Europa (inferiores a 4%) como não foram considerados os efeitos da restrição ao livre fluxo de pessoas oriundas da União Europeia --bloco do qual o país não faz parte, mas com o qual tem grande nível de integração.

Ao violar os termos do Acordo de Schengen, que elimina o controle de imigração em 26 países do continente, a Suíça põe em risco tratados comerciais com a União Europeia, sua principal parceira econômica. Hoje, cerca de 60% de suas exportações têm como destino esse mercado comum.

Representantes da UE já deixaram claro que acordos bilaterais precisarão ser revistos. Na opinião de analistas suíços, o país perderá em investimentos externos, exportações e crescimento econômico.

Questões como essa afetam todos os países da região: em maio, haverá eleições para o Parlamento Europeu, e prevê-se a ascensão de partidos de extrema-direita. Essa escolha tem se tornado comum, mas o exemplo suíço mostra que, para além dos imperativos éticos, tal caminho cobra um alto preço.

Escassez impõe conservação de energia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 12/02
O país está mais perto do que parece de enfrentar um racionamento de energia, ainda perfeitamente evitável. Mesmo que deem certo as preces oficiais para que chova torrencialmente nos lugares certos durante os próximos 40 dias, o custo da seca será alto, com impacto na inflação ou nas contas públicas, caso nada seja feito para conter o consumo.
Dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) revelam que os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por 70% da capacidade de armazenamento, estão nos níveis mais baixos desde 2001. Foi naquele ano que não funcionaram as apostas do governo Fernando Henrique Cardoso no regime de chuvas, e o racionamento tornou-se inevitável. Segundo o ONS, o volume de água armazenado até domingo (9/2) nas duas regiões era de apenas 37,6% da capacidade, excepcionalmente baixo para esta época do ano.

A esse quadro preocupante de queda da geração, soma-se o aumento do consumo, que vem sendo inflado pelas políticas de crédito facilitado e de desonerações tributárias. As ondas de calor que se prolongam em quase todo o país estimulam o gasto da eletricidade que move ventiladores, aparelhos de ar condicionado e refrigeradores.

Assim, nem o baixo nível da atividade industrial ajudou. A saída, mais uma vez, foi acionar e não desligar tão cedo as usinas termelétricas. Boa parte delas, saldo do racionamento de 2001, foram instaladas para suprir apenas emergencialmente as deficiências do sistema. Algumas são poluidoras e praticamente todas geram energia mais cara. A diferença será paga, como sempre, pela sociedade.

Ontem, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou que o impacto médio desse custo sobre as contas de luz deverá ser 4,6% este ano, além do gasto que será empurrado para o Tesouro Nacional. A Anatel prevê despesas de R$ 17,9 bilhões com o fundo que cobre os dispêndios do setor elétrico, que inclui o desconto de 20% nas tarifas decretado pelo governo em 2013.

Desse total, R$ 12,3 bilhões serão cobertos com receitas vindas de pagamentos de cotas pelas empresas para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Elas terão a ajuda no valor de R$ 9 bilhões do Tesouro, já previstos no Orçamento da União. Sobram R$ 5,6 bilhões a serem cobertos diretamente pelos consumidores.

A esta altura, será perda de tempo discutir os erros de planejamento, a demora em definir os marcos do setor e a imposição de perdas às geradoras provocadas pela antecipação da renovação das concessões. Mais urgente e mais proveitoso para o país será reconhecer o tamanho do problema e ouvir os especialistas que sugerem ser este o momento de o governo assumir o papel de liderança e convocar a adesão da sociedade a um programa de racionalização do consumo.

Nunca é desdouro agir com responsabilidade e transparência. A escassez de chuvas é realidade percebida por todos, não há razão para negá-la. Uma campanha honesta de conservação de energia poderia economizar R$ 8 bilhões ou mais a serem gastos com as termelétricas, segundo especialistas ouvidos pelo Correio. Por que não fazê-la?

Agenda prioritária - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 12/02


Antes da Copa de junho e das eleições de outubro, o Brasil tem pelo menos quatro meses para enfrentar os problemas que ameaçam a normalidade institucional e os compromissos assumidos com a comunidade internacional. Nesta agenda, ganha urgência a questão da violência nas manifestações públicas, que está provocando medo e indignação internamente e prejudicando a imagem do país no Exterior. Entre as várias pressões sociais e corporativas com potencial para perturbar a ordem pública, duas merecem atenção prioritária dos governantes e das lideranças políticas: a luta por transporte público acessível e de qualidade e o desconforto com os gastos públicos relacionados à Copa do Mundo.
São causas inegavelmente justas. Parcela expressiva da população brasileira é submetida diariamente à tortura de viajar em ônibus e trens superlotados, desconfortáveis, que oferecem riscos à segurança e à integridade física das pessoas. Além disso, muitas vezes o transporte público falha, atrasa, ou custa mais do que os trabalhadores podem pagar. Da mesma maneira, os cidadãos têm o direito de cobrar informações precisas sobre os gastos com a organização da Copa, especialmente sobre o uso de dinheiro público.
Então, o atendimento dessas demandas torna-se inadiável. A presidente Dilma Rousseff já convocou uma reunião com os 12 governadores de Estados que receberão jogos da Copa, para planejar um gigantesco esquema de segurança focado em eventuais protestos. O plano estratégico envolve convênios com os governos estaduais para uma atuação conjunta das forças locais com a Polícia Federal, as Forças Armadas e a Agência Brasileira de Inteligência. É oportuno, pois, apesar da rejeição cada vez maior da população aos chamados Black Blocs e a outros grupos extremistas, um evento da dimensão do campeonato mundial de futebol tende a atrair até mesmo terroristas internacionais. Mas os governos não podem achar que tudo se resolve com policiamento e vigilância armada.
Antes, nestes meses que precedem os dois eventos, é essencial que as carências reais da população comecem a ser resolvidas, entre as quais sistemas de transporte mais civilizados, combate diário à violência urbana e uma campanha de divulgação transparente dos gastos que estão sendo feitos na construção e reforma de estádios, e nos seus entornos.
Só há um jeito de atenuar a insatisfação popular com maus serviços públicos: melhorá-los. E só há uma maneira de desfazer o desconforto dos brasileiros com a gastança: justificá-la com absoluta transparência. A agenda prioritária deveria começar por aí.

Os inimigos da democracia - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/02

O assassinato de Santiago jogou luz sobre a atuação, em várias níveis, de grupos autoritários. Agora, partidos, sindicatos etc. têm de mostrar, às claras, 



Se grupos radicais buscavam um cadáver nas manifestações de rua, conseguiram. Mas não foi o que poderiam imaginar. Em vez de jogar mais combustível na ferocidade do vandalismo em cima do corpo de um manifestante, mataram um repórter-cinegrafista no exercício de uma atividade essencial para a democracia, relatar os fatos para a sociedade. Atingiram a própria democracia, que tanto desprezam.

A morte de Santiago Andrade tem de servir, ao menos, para uma intensa e profunda reflexão sobre distorções escondidas nos subterrâneos de militâncias expostas em perfis falsos nas redes sociais que difamam pela internet, em sindicatos de jornalistas aparelhados e desconectados da profissão, em universidades transformadas em centro de doutrinação política, em funções desvirtuadas em assessorias de partidos políticos — para citar os pontos de intoxicação ideológica autoritária mais visíveis.

O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, propõe alterações na legislação para melhor tipificar e, portanto, punir, manifestantes delinquentes. Boa sugestão. Mas o importante agora é ampliar o debate sobre o que está por trás da morte de Santiago, além de processar e punir seus responsáveis diretos e indiretos. Não se pode perder esta oportunidade, até mesmo em homenagem a ele. Entender e expor o que se passa é a única maneira de se começar a agir para prevenir outras tragédias. O crime jogou luz sobre a inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos. Ele e partido precisam explicar a função dupla de Thiago de Souza Melo, assessor do deputado, pago, portanto, pelo contribuinte, e, ao mesmo tempo, advogado de black-bloc e similares. Não pode, também, deixar de responsabilizar a campanha, sistemática, via internet, contra os veículos da imprensa profissional, chamados pejorativamente de "mídia corporativa", quando é a publicidade privada que garante a independência de fato deles, ao contrário de sites, blogs e publicações bancados por verba pública.

Criou-se um ambiente tal de hostilidade que repórteres viraram alvo de marginais travestidos de manifestantes, até chegarmos ao assassinato de Santiago. É óbvio que a punição tem de ser exemplar, para sinalizar os limites que têm de existir num país democrático em qualquer manifestação popular.

Também são de praxe as declarações de pesar feitas por políticos, inclusive Freixo, já encontrado no passado em atos típicos de quem deseja mais "acirrar contradições" do que trabalhar pelo apaziguamento em conflitos sociais e políticos.

Agora, é preciso ir muito além do declaratório. Tem-se de repudiar estes grupos e agir para que eles, garantidos todos os direitos estabelecidos em lei, sejam de fato contidos e punidos. Partidos, organizações sociais, sindicatos têm de, às claras, mostrar de que lado estão: da violência justificada pelos fins ou a favor do estado de direito democrático, no seu sentido mais amplo.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Arranjei minha segunda profissão”
Presidente Dilma, após dirigir uma colheitadeira durante abertura da colheita em Mato Grosso


PP PRESSIONA PARA AUMENTAR ESPAÇO NO GOVERNO

Em troca de apoiar reeleição da presidente Dilma, o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), negocia com Aloizio Mercadante (Casa Civil) para aumentar espaço no governo. O alvo é a poderosa Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), uma das maiores do setor elétrico. Dirigentes alegam que o PP era menor no governo Lula, mas tinha mais cargos, enquanto com Dilma “só levou o Ministério das Cidades”.

MESMA TECLA

O PP briga para presidir a Chesf desde outubro, com a saída de João Bosco Almeida (PSB), indicado do presidenciável Eduardo Campos.

LOTEAMENTO

Após o PSB entregar os cargos, a diretoria da subsidiária da Eletrobras foi loteada pelo PT e pelo PMDB, com o engenheiro Marcos Aurélio à frente.

COTADO

O senador Ciro Nogueira ainda é o principal cotado no PP para substituir o deputado Aguinaldo Ribeiro (PB) no Ministério das Cidades.

PRAZO DE VALIDADE

A presidente Dilma avisou a Aguinaldo Ribeiro que ele pode até ficar no comando das Cidades, mas sem compromisso de permanecer em 2015.

FARRA DE DIÁRIAS NÃO EVITA NOSSO FIASCO ESPACIAL

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) pagou 1.213 diárias no exterior a cinco servidores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para participar do desenvolvimento do primeiro satélite brasileiro em conjunto com o governo chinês. Os mais de R$ 660 mil gastos, sem contar os salários, não foram suficientes para evitar o fiasco e o foguete que levava o satélite caiu no mar antes mesmo de atingir a estratosfera

ANO NO EXTERIOR

Com 243 diárias, em média, os servidores garantiram um ano inteiro de viagem pelo mundo na conta do contribuinte, que ficou aqui ralando.

QUE TURNÊ

De acordo com o Portal da Transparência, os integrantes da “banda” passaram por várias cidades turísticas como Amsterdã, Dubai e Pequim.

LIVRE DO LEÃO

O campeão de milhas ficou 267 dias fora e recebeu mais de R$ 147 mil em diárias, mas está tranquilo, pois é tudo isento de Imposto de Renda.

ON FIRE

A Executiva Nacional do PMDB se reunirá nesta hoje para tratar, oficialmente, do imbróglio no diretório de Tocantins e “outros assuntos”. Leia-se: reforma ministerial e a rebelião na bancada da Câmara.

PERTO DO DIVÓRCIO

O PSDB caminha para selar o rompimento com o governador Ricardo Coutinho (PSB-PB), contra quem o senador tucano Cássio Cunha Lima (PSDB) – favorito nas pesquisas – deverá disputar eleição ao governo.

SOMOS ELE AMANHÃ?

Cinismo perigoso na nota oficial da ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) sobre a morte do jornalista. Lamenta, mas ressalva “direcionamento não intencional”. Sugere brecha para alvos específicos.

E NÓS COM ISSO?

Em guerra contra o novo plano de saúde, os Correios punem o cidadão que mantém seus empregos: envelope despachado de Washington (EUA) sumiu há dois meses no Rio, agora por culpa do calor de matar.

‘MICOEMPRESA’

Microempresário de Brasília, o leitor Luizângele Menezes pena com outras pequenas empresas com o caos nos pagamentos da Marinha através do sistema Comprasnet: o atraso já ultrapassa um mês.

CHUMBO GROSSO

Presidente do PT de Minas Gerais, Reginaldo Lopes critica Eduardo Azeredo, que se diz tão inocente quanto Lula no mensalão:

“A diferença é que, no mensalão tucano, tem dinheiro público aplicado na veia do partido”.

NEGLIGÊNCIA

Santiago Andrade foi vítima de dispositivo semelhante ao que matou o menino Kevin Espada; quase um ano separou as tragédias e nada se fez para evitar o comércio legal e clandestino dos “brinquedinhos” letais.

PURO SANGUE

Após meses de tratativas, o PSOL bateu o martelo e anunciará a pré-candidatura do senador Randolfe Rodrigues (AP) à Presidência na segunda (17), no Rio, com a ex-deputada Luciana Genro (RS) na vice.

PENSANDO BEM...

...dize-me com que andas que te direi se és black bloc.


PODER SEM PUDOR

JÂNIO RUIM DA BOLA

Governador de São Paulo, certa vez Jânio Quadros foi a Santos, onde obteve péssima votação, e visitou um aliado, o deputado Athiê Jorge Coury. Resolveu elogiar o bom gosto da casa do anfitrião, um ex-goleiro do Santos:

- Athiê, meu bem, que casa linda! Diga-me, sinceramente: você a ganhou pelas bolas que defendeu ou pelas que deixou entrar?

- Que brincadeira infeliz!... - censurou depois o amigo Saulo Ramos.

- Você tem razão - respondeu Jânio, ainda bem-humorado - Pobre Athiê, um bom homem e honesto. Foi bola fora. Ainda bem que ele não deu bola...

QUARTA NOS JORNAIS

Globo: União e estados preparam lei contra violência em protesto
Folha: Barbosa anula decisão favorável a Dirceu no STF
- Estadão: Barbosa reverte decisão de Lewandowski sobre Dirceu
Correio: Projeto enquadra protesto de rua como ato terrorista
Estado de Minas: BRT começa sábado com três linhas
Jornal do Commercio: Prévias mais seguras
Zero Hora: Deputado presidiário – Com voto aberto, Câmara decide futuro de Donadon
Brasil Econômico: Conta das térmicas recai no consumidor

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Ueba! Pizzolato vira Prezolato! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 11/02

E como diz uma amiga minha: 'Vou ligar a TV na Olimpíada de Inverno pra dar uma refrescada'


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Olimpíada de Inverno de Sochi! Liga a televisão e deixa refrescar a sala!

Como diz uma amiga minha: "Vou ligar na Olimpíada de Inverno pra dar uma refrescada". Boa sugestão pra TV Minuto colocar no metrô de São Paulo!

Uma amiga diz que pegou até resfriado! Se a TV for em 3D, neve a 48 graus!

Sochi, a capital da homofobia: Sochi bem, Sochi tudo! Sochi o alho! Rarará!

E adorei porque a Rússia é toda homofóbica! E na abertura da Olimpíada, um dos anéis queimou!

Queimaram uma das rosquinhas do Putin! O Putin tem cinco rosquinhas! Rarará!

E adorei a charge do San Salvador: "Presidenta Dilma, o Blatter tá perguntando se precisa trazer velas". Precisa! Jogo à luz de velas é super romântico!

E corre na internet a foto do Alckmin enxugando o suor da testa e falando: "Ufa, que calor! Temos que aumentar o policiamento". Rarará! Que calor! Chama a PM!

E diz que o Pizzolato mudou de nome pra Prezolato! Rarará!

E atenção! Disney Urgente! Reviravolta no mundo animal: as macacas comeram os bambis!

Ceni fez um gol, mas São Paulo perde pra Ponte Preta! Ninguém consegue passar por essa ponte!

O Ceni fez um golseta/ enquanto você via isso/ Mais um gol da Ponte Preta!

E a nova camisa do Timão? AMARELA! Cor de camiseta de juiz! Diz que é em homenagem aos amigos deles: os juízes.

Homenagem ao 12º jogador do Corinthians. Rarará! Os amarelos amarelaram!

E o Azeredo? Os mineiros estão danados com a mídia chamando o "mensalão tucano" de "mensalão mineiro".

Se sentem ofendidos. E com toda razão! Rarará!

É mole? É mole, mas sobe!

O Brasileiro é Cordial!

Olha o cartaz num pomar em Minas: "Roubar é crime/ Pedir é educado/ Estar sem as mãos é aleijado/ E se morrer é finado". Medo! Rarará!

E essa outra na reserva ecológica de Tinguá: "Não pode jogar lixo nem bicho morto". Nem um ratão? Rarará.

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!