domingo, fevereiro 02, 2014

O efeito Kicillof - MAC MARGOLIS

O Estado de S.Paulo - 02/02

Na década de 80, antes da abertura de mercado, época áurea do "similar nacional", uma bebida despontava na noite brasileira. Era a vodca Orloff, tida como uma versão melhorada do ameaçador destilado nativo.

"Cuidado com que você toma", advertia o narrador do comercial da bebida, insinuando ressacas terríveis: "Eu sou você amanhã".

Qual será o coquetel argentino de agora? Treze anos depois do colapso econômico que levou cinco presidentes à Casa Rosada em duas semanas, deletou 20% da riqueza nacional e fez do país um pária internacional, a Argentina voltou a tremer.

As manchetes anunciam o pileque em flagrantes quase diários. A inflação ruma para 30%. O dólar paralelo disparou, forçando o governo a desvalorizar o peso em 15% nas últimas semanas. As reservas do Banco Central baixaram para níveis críticos. O desemprego saltou e a pobreza parou de cair. O novo ministro da Economia desmentiu a crise. A situação está "perfeitamente calma", insistiu Axel Kicillof. Faltou combinar com os argentinos.

Pode ser que a segunda economia sul-americana não esteja em estado falimentar. Soprada pela demanda global por matérias-primas, a Argentina recuperou-se dos efeitos do calote histórico e cresceu ao longo da década, mesmo quando fez tudo para se sabotar. Mas com o comércio global em passo lento e receitas minguantes das commodities, a crise crônica argentina voltou e ameaça aprofundar a linha divisória no continente.

É o fosso do desperdício. De um lado, estão os países que administram bem seus recursos naturais: Peru, Colômbia e, especialmente, Chile - que, quando o cobre dispara, deposita o lucro num fundo de estabilidade. Do outro lado, estão os países de abundância, gigantes pela própria natureza e apequenados pela cultura política nanica.

É o caso da Venezuela, com a maior reserva de petróleo do hemisfério, que converteu sua petroleira, PDVSA, em caixa eletrônico para custear aventuras bolivarianas. Dilapidou a estatal e viu cair a produção em meio ao boom histórico de petróleo.

A conta melhora nos países aliados, Equador e Bolívia, que administraram melhor a bonança, mas o alerta vale para toda a região, hipotecada em minérios, petróleo e gás. Hoje, a América Latina responde por 7% a 9% do crescimento global - igual a 20 anos atrás.

A Argentina impressiona não pela crise - endêmica na região -, mas pela vocação para destruir a riqueza. Já se conhece o currículo do país. Orgulho das Américas, compete de igual na produção agropecuária com as potências mundiais. Já no século 19, aprimorou a refrigeração da carne, levando seu produto às melhores mesas da Europa. Chegou a ser a décima economia mundial em 1913 e a quarta renda per capita em 1929. Faturou cinco Prêmios Nobel entre 1936 e 1984, uma média de um a cada dez anos. E só um conto de Jorge Luis Borges poderia explicar por que a academia sueca não lhe entregou o sexto, de Literatura.

Mas aí parou. Desde então, o país nutriu uma das ditaduras mais sangrentas do hemisfério, instabilidade crônica e caudilhos de todos os manequins. Há, sim, o papa Francisco, cuja franqueza e simplicidade sacodem a conturbada Igreja Católica em boa hora. Mas, agora, o jesuíta portenho é do mundo, enquanto Argentina ainda é dos Kirchners.

Hiperinflação, hemorragia de credibilidade, crise cambial, manobras agressivas para corrigir o rumo desgovernado. Se o investidor titubeia, é só encampá-lo. Os dados oficiais estão ruins? Derrube o pesquisador e troque os índices. E se a má notícia continua, a culpa é do mensageiro. Na era K, a Argentina atualiza as convulsões e agressões que tanto desfiguraram as Américas no século passado.

Pode chamá-lo do efeito Kicillof, em homenagem ao mais novo protagonista do velho roteiro nacional. A Argentina é a América Latina de ontem.

Beijo gay, China e crise - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 02/02

Verão de 2014 pode ter calor, beijos, rolês e tumultos históricos, inclusive na finança global


QUEM SABE O VERÃO de 2014 seja histórico. Quiçá o mais quente em um século. O verão do beijo gay da novela. Do rolezinho. Das cabeças cortadas do Maranhão. Dos ônibus queimados de São Paulo.

Talvez não.

A gente já esqueceu os calabouços do Maranhão. Os rolezinhos começam a parecer uma breve revoada de aleluias (cupins) de primavera. Para os ônibus queimados ninguém parece ligar muito, a não ser na periferia de clima sempre quente.

Haverá um beijo gay na novela de outono-inverno? Virá o beijo lésbico? O sistema bancário paralelo chinês começa a quebrar antes da Semana Santa? A crise financeira dura até o Carnaval? Como? Ahn?

Janeiro de 2014 pode ter sido o mês historicamente desafortunado em que se ouviram os primeiros estalos das rachaduras da economia chinesa.

No mínimo, os tremeliques chineses causam danos em economias já avariadas pelas mudanças nos EUA. O tamanho do estrago ainda é uma incógnita.

Uma dúzia de relatórios de bancões mundiais indica que o pessoal ainda está bem perdido. Na opinião mais frequente, mesmo que o tumulto se amaine daqui a um pouco, haverá novos surtos nos próximos meses. Quando há pânico, ninguém sabe a besteira que pode dar.

De menos incerto, esta rodada de paniquitos resultou pelo menos em altas de taxas de juros em vários países "emergentes", além de desvalorizações com potencial inflacionário razoável, as quais vão cobrar juros maiores mais adiante.

De imediato, isso implica que essas economias vão crescer menos. A China também vai crescer menos. Quanto menos é a questão. Os "emergentes" são agora uma fatia muito maior da economia mundial. Seu desempenho econômico é mais relevante para o mundo, especialmente para eles (nós) mesmos.

Além disso, há rumores preocupantes a respeito do sistema bancário paralelo chinês ("shadow banking"). Trata-se de fundos que captam dinheiro para investimentos em projetos algo periclitantes, com garantias duvidosas e supervisão quase nenhuma. Ou de fundos de securitização (de revenda de pacotes de crédito para investidores, parecidos com os derivativos que deram origem à crise americana, em 2007-08).

Esses veículos juntaram fundos para investimentos de retorno superestimado e ofereceram garantias ruins. Na semana passada, um troço desses quase quebrou.

Como o Ocidente ainda entende muito mal a China, o risco de quebras em série pode ser exagero, embora o excesso de investimento chinês seja um fato. O governo está tentando desarmar esse excesso, o que implica de qualquer modo desaceleração da economia e mudança do padrão de crescimento, com mais consumo e menos investimento, do que se fala faz mais de meia década. Se vai dar para fazer a sintonia fina sem acidentes, sabe-se lá.

Com mais ou menos tumulto, o início de 2014 é de viradas fortes na economia mundial: a do padrão chinês de crescimento, a da superabundância de dinheiro a juro baratinho, enfim, da maré montante que levantou tanto país emergente, como o Brasil.

É um início de ano histórico. Mas será melhor que dele fique na memória o beijo gay num rolezinho do Maranhão, em vez de um rolo de escala mundial.

Filhos pródigos - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 02/02

É de admirar, realmente. Tanto a solidariedade quanto a prodigalidade dos companheiros que prontamente atenderam aos apelos de José Genoino e Delúbio Soares e, no conjunto, doaram quase R$ 2 milhões para saldar as dívidas de multas dos dois petistas com a Justiça. Dinheiro arrecadado em menos de três semanas. Aos números precisos: foram 19 dias durante os quais os sites destinados às doações receberam R$ 1.775.619 (ignorados os centavos). Deu e sobrou. Com folga.

A família de Genoino tomou a iniciativa. A imediata adesão de gente disposta a doar foi atribuída à especificidade da situação do ex-deputado: homem de posses medianas e vida desprovida de ostentação. Em dez dias arrecadou-se mais que o necessário: R$ 761.962 para pagar a multa de R$ 667.514. Do excedente, R$ 30 mil foram transferidos para a conta do ex-tesoureiro do PT. Nem teria sido necessário, pois, como se constatou logo a seguir, a solidariedade não era restrita a Genoino. Delúbio Soares conseguiu, em nove dias, arrecadar R$ 1,013 milhão para saldar um débito de R$ 466.888.

A diferença entre os dois é que Genoino recebeu menos de mais gente (cerca de dois mil colaboradores) e Delúbio ganhou mais de menos doadores, 1.095, de acordo com os números apresentados pelo coordenador jurídico do PT, Marco Aurélio Carvalho. Tudo certinho e contabilizado. “Todos os colaboradores estão identificados”, garantiu. Um sucesso. Tanto que a corrente será usada em prol do ainda deputado João Paulo Cunha (multa de R$ 370 mil) e de José Dirceu (R$ 960 mil) para quem vai a sobra da arrecadação originalmente destinada a Delúbio. Na avaliação de Carvalho, não haverá dificuldade para conseguir o necessário à quitação da dívida financeira dos petistas com a Justiça. Pelo que se viu até agora não há razão para duvidar.

É de se perguntar, porém, se um partido com essa capacidade de mobilizar recursos individuais não teria meios para fazer o mesmo em relação às campanhas eleitorais. Daria um bom exemplo às demais legendas de como é possível se sustentar sem recorrer a recursos públicos nem ao caixa “não contabilizado”, do qual o PT alega ter sido uma vítima, em sua versão de que o mensalão não existiu.

A partir de sua própria mobilização, o partido demonstrou que o financiamento por meio do orçamento da União forçosamente não seria a solução (muito menos a única) mais adequada às questões que envolvem a tão complicada vida financeira das agremiações partidárias. Claro, as campanhas teriam de ser mais baratas, sem tanta produção nem alegorias. Com foco mais no conteúdo e menos na forma. Mas seria um caminho, ainda mais se às doações de pessoas físicas fossem somadas as contribuições lícitas de empresas. Com doadores identificados, tudo registrado e devidamente divulgado.

Transparência, assim, não é “burrice”, contrariamente à tese defendida pelo então tesoureiro Delúbio Soares para derrubar a proposta do então petista Chico Alencar, feita em 2004, de divulgação dos gastos de campanha do PT na internet.

Modos da Corte. Das trocas de ministros divulgadas na quinta-feira, a única não oficial e até então desconhecida foi a substituição de Helena Chagas por Thomas Traumann na Secretaria de Comunicação da Presidência, publicada na Folha de S.Paulo. Helena soube que o jornal traria a notícia no fim da noite de quarta. Telefonou para a presidente Dilma Rousseff que a chamou para conversar na manhã do dia seguinte. Negou que tivesse autorizado qualquer “vazamento” e propôs que a demitida desmentisse a demissão, mas deixasse o cargo no domingo. Hoje, portanto. Proposta recusada, o posto foi entregue de imediato. Ficou nas adjacências do Planalto a forte impressão de que o anúncio pelo jornal antes do comunicado à interessada foi um toque de crueldade dado por quem tem carta branca para tal.

Mensagem à oposição - ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

CORREIO BRAZILIENSE - 02/02

Eleições sem adversários não têm sabor, tampouco autenticidade. Para entusiasmar, as campanhas devem ser aguerridas e fortes, capazes de atrair o interesse do povo, pouco inclinado a tomar conhecimento dos assuntos da política, em relação à qual sentem justificável aversão.

Convencer o cidadão comum, cuja vida se exaure na luta pela sobrevivência, exige talento e habilidade, que raros aspirantes a cargos eletivos possuem.
A peneira da vida pública tem malhas finas. Não por acaso, as disputas se tornam, a cada eleição, mais dispendiosas. À falta de liderança natural tenta-se, por meio do dinheiro, obter adesões que a ausência de qualidades dos candidatos não asseguram.

Getúlio Vargas, se dependesse do tamanho, não conseguiria levar avante a carreira iniciada como deputado estadual no Rio Grande do Sul, encerrada como o maior líder trabalhista da história. Graças ao carisma, alimentado pela decretação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, retornou à Presidência da República em 1951, pelo voto do povo, após haver sido derrubado em 1945. Jânio Quadros foi outro que, desmentindo prognósticos, saltou de vereador a governador e a presidente, em fulminante ascensão. A renúncia, em agosto de 1964, não lhe retira os méritos, reconfirmados quando se elegeu prefeito de São Paulo, impondo dura derrota a Fernando Henrique Cardoso.

Lula é carismático. Inútil dizer o contrário. É o homem que elege "postes", como se gaba sem constrangimento. Sua presença em qualquer eleição é fator de desequilíbrio. Ignora tudo quanto o PT fez de repugnante, como no caso do mensalão, e põe a campanha presidencial nas ruas, meses antes da data fixada em lei.

Diante disso, o que resta a Aécio Neves e a Eduardo Campos? Bater em retirada significaria por termo a carreiras que os conduziram aos governos estaduais, o que não é pouco, à Câmara dos Deputados, ao Senado. Não há outra via senão a de fazer oposição. Jamais, porém, tímida, relutante, acanhada, dependente de alianças que mais atrapalham do que ajudam.

Televisão é importante. Muito mais é saber o que falar. Se a mensagem é boa, a imprensa se encarregará de difundi-la. Veja-se o deficit da Previdência Social. Trata-se de assunto proibido ao Partido dos Trabalhadores, há 12 anos no poder, incapaz de se eximir do fracasso. Compete à oposição conservar o tema aquecido, o que não será difícil, pois interessa a aposentados, pensionistas e trabalhadores ativos, que um dia recorrerão aos cofres do INSS, para encontrá-los esgotados. Fosse o instituto pessoa jurídica de direito privado, sem dispor do Tesouro Nacional, estaria com processo de falência em Vara do Distrito Federal.

Deve denunciar a desindustrialização, que enfraquece o país e gera desemprego; a redução do mercado de trabalho; a inflação que nos bate às portas; a elevação das taxas de juros; o aumento incontrolável da violência; o abandono da infância e da juventude; a ruína do ensino; o descalabro na saúde; a ausência de recursos para a infraestrutura; os gastos perdulários com a Copa do Mundo e, sobretudo, a desenfreada corrupção.

Para a agenda da oposição sobram temas. Ao PT, entretanto, será complicado explicar como encontrou o país reorganizado, no fim da gestão de FHC, e conseguiu fazê-lo perder posições e prestígio na esfera internacional.

Só existem dois estilos de campanha: de cima para baixo, ou de baixo para cima. Grandes políticos, como Tancredo e Arraes, sabiam como se conservar em sintonia com o povo. Tancredo - a quem o PT negou votos no Colégio Eleitoral, quando eram necessários para derrotar a ditadura - jamais deixou de se interessar pelos humildes, aos quais dedicava carinho especial. Getúlio, Jânio, Juscelino, cada qual com o seu estilo, sabiam como se dirigir às pessoas simples.
O PSDB, como a preguiça, caminha a passos tardos, despreocupado com a popularidade. Ao olhar para os dirigentes, não encontro algum grande líder. São homens e mulheres ilustres, honestos, com belas folhas de serviços à nação. Falta-lhes, todavia, o dom da política, capaz de fazê-los condutores de massas e arrebanhadores de votos.
Não se ganham eleições com as classes A e B. A esmagadora maioria dos votos está nas camadas populares. Aécio Neves e Eduardo Campos, para chegarem ao segundo turno, têm a urgente necessidade de procurá-las.

Não caiam na defensiva. Falem alto, com energia e sem rodeios, e digam ao povo tudo que ele deseja ouvir.

Vou de Cadillac, mas meu coração... - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 02/02

As peripécias da caravana de Dona Dilma em Lisboa lembram o ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Homem rico, ele chegava aos comícios num Cadillac rabo de peixe, o suprassumo da época em matéria de carro chique. Na saída, passando ao lado dos populares aglomerados no ponto de ônibus, ele mandava o motorista parar, abria o vidro e gritava: “Meu povo, eu vou de Cadillac, mas meu coração vai a pé com vocês...” Versão moderna: “Meu povo, eu vou dormir num quarto de R$ 25 mil do Hotel Ritz, mas meu coração passará a noite com vocês no Minha Casa, Minha Vida!” Ou então: “Vou jantar num restaurante estrelado no Michelin, mas meu coração estará comendo um pão com mortadela com vocês no bar da esquina!”

É verdade que a imprensa brasileira está povoada por zelotes que veem dissipação de recursos públicos em tudo ou quase tudo; a última deles foi criticar o governador de Pernambuco porque seu assessor de imprensa e um fotógrafo do palácio foram até um hospital registrar o nascimento do quinto filho do governante, o que deve ser matéria de interesse jornalístico por si própria. Mas, no caso de Lisboa, a imprensa deitou e rolou com as trapalhadas oficiais com toda a razão: para que esconder a tal escala? Qualquer pessoa com um mínimo de tolerância acharia razoável que, em vez de voar à noite passando por uma área de temperaturas extremas e instáveis na costa norte-americana, a viagem fosse feita de dia, o que, aparentemente, reduz os riscos. O errado foi mentir a respeito.

Nada haveria também de errado em tomar essa decisão um ou dois dias antes da viagem e fazer as reservas necessárias em Lisboa. Então, para que mistificar a imprensa fingindo que foi uma decisão emergencial, de última hora? E para que sair pela porta dos fundos do hotel, como alguém pego em flagrante em uma malfeitoria?

Quanto às escolhas hospedeiras e gastronômicas da comitiva, há pelo menos três problemas: um de natureza prática e outros dois de caráter simbólico. No aspecto prático, não consigo entender por que é preciso levar uma comitiva de quase 80 pessoas para participar de um evento ultraprotegido, em que se vai fazer uma palestra de meia hora, uma hora no máximo e participar de alguns encontros. Não sei a resposta, mas sou capaz de adivinhar: pergunte-se quantos assessores Bill Gates levou ao encontro? Ou Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo? Ou os presidentes das dez maiores empresas do planeta? Essas extravagâncias de gastos em viagens não condizem com o real money, sendo típicos dos deslumbrados. E você, paciente leitor, ficaria pasmo em conhecer o tamanho das comitivas dos presidentes brasileiros em todas as viagens ao exterior, mas vai ter de conter a curiosidade porque isso é considerado segredo de Estado – juntamente com as despesas das comitivas.

No plano simbólico, escolher um hotel caríssimo para passar apenas uma noite sem compromissos oficiais demonstra, no mínimo, pouca preocupação com o dinheiro dos que estão pagando a viagem. E, quanto aos integrantes da comitiva, inclusive a presidente, terem “rachado” a conta do restaurante, vou fingir que acredito e até vou comunicar essa minha crença à Velhinha de Taubaté, parente direta de Luis Fernando Verissimo, que é – como todos devem se lembrar – a alma mais crédula desta peculiar república.

A idade das trevas - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADÃO - 02/02

“A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da Civilização e em grande parte do mundo elas parecem estar evaporando”. A observação, feita há cerca de 20 anos pelo professor Samuel P. Huntington, no clássico O Choque das Civilizações, mostra-se pertinente para uma avaliação do atual estado da Humanidade. A ideia ganha consistência quando se puxam para o cenário as manifestações turbulentas em várias cidades do mundo, na onda de conflitos entre grupos étnicos, gangues de jovens, turbas desfraldando a bandeira de um nacionalismo xenófobo, situações que forçam a expansão de partidos de extrema-direita, principalmente na Europa. Ressentem-se todos das instituições políticas, que não conseguem dar vazão às demandas sociais, e brandem a arma do ódio contra o outro, o estrangeiro, o não europeu, notadamente a comunidade muçulmana. Há quem garanta, como o professor Jamie Bartlett, principal autor de um estudo sobre os grupos radicais de extrema direita na Europa, que o continente vive um impasse: deixar de ser tuba de ressonância das liberdades para se transformar em bastião do autoritarismo, ancorado nos eixos do ultra-nacionalismo, islamofobia e do antissemitismo, entre outros.

Já a grave leitura do professor de Harvard sobre o conflito entre civilizações aponta para o limiar de uma Idade de Trevas no planeta. Argumenta que o Ocidente, com a clássica imagem de predomínio avassalador, triunfante, quase total, abre flancos para deixar enxergar uma civilização em declínio, com sua parcela de poder político, econômico e militar diminuindo em relação ao de outras civilizações, particularmente a da Ásia Oriental. A China emerge exuberante nessa paisagem. A Índia, mesmo com desníveis estupendos na sociedade, adentra o ranking de pólos de alta tecnologia. O discurso do Ocidente, com seus tradicionais sermões, já não afeta interlocutores e parceiros como no passado. O fato é que a última crise econômica (2008) serviu para pôr mais lenha na fogueira que consome o estado de bem-estar social, locomotiva da aclamada social-democracia europeia desde o pós-Guerra. Os partidos de esquerda, ao longo de décadas, tentaram repaginar o modelo, experimentando fórmulas e resgatando novas abordagens. Com poucas exceções, não têm sido bem sucedidos.

Resultado dos conflitos: fortalecimento das correntes de extrema-direita em muitos países, a indicar a eventual conquista de boa percentagem (uns 10%) das 751 cadeiras do colegiado no Parlamento Europeu. A perplexidade se instala. Quem poderia imaginar que os terrenos da velha democracia europeia fossem acolher novamente a poeira do deserto da restrição de direitos? Até a França, berço dos Direitos Humanos, mostra sua faceta de barbárie. Aí, expande-se o antissemitismo, cujos propagandistas querem apagar o calvário do holocausto, considerando-o “um detalhe na História”, como proclama o fundador da Frente Nacional francesa, Jean-Marie Le Pen, sucedido no comando do partido por sua filha Marine. A pauta discriminatória é densa: restrição aos imigrantes; limitação de direitos de estrangeiros; proibição de manifestações religiosas de muçulmanos (construção de mesquitas, banimento de burcas) etc. Os exércitos “nacionalistas- protecionistas” multiplicam-se nos partidos e agora nas redes sociais, onde um grupo chega a se auto-denominar “Adolf-adoradores Neandertais”. Na Grécia, o partido de extrema-direita Aurora Dourada usa práticas nazistas – milícias armadas, agressão a imigrantes - e símbolos assemelhados à suástica. Propõe a reintrodução da pena de morte e a possibilidade de aplicá-la a imigrantes sentenciados por delitos.

O discurso segregacionista se adensa enquanto declina a força dos partidos que sustentam os pilares da social-democracia; as lideranças, mesmo em rodízio, não conseguem tapar os buracos abertos pela crise econômica, estampados nos formidáveis contingentes de desempregados. E assim germina nas praças das grandes cidades o vírus de um tipo de violência diferente dos eventos tradicionais – roubos, assaltos e assassinatos deles decorrentes: a violência dos conflitos étnicos e dos choques civilizacionais, como as que colocam na arena muçulmanos e não muçulmanos, países afins (islâmicos e vizinhos). Para as agremiações da direita radical, o Islã e os muçulmanos simbolizam o mesmo papel de “ameaça externa” que Hitler associava aos judeus. Comparação extravagante e sem sentido.

A propósito, a imagem desse truculento e fanático cabo, que se vestiu de ditador para ser o maior facínora da história contemporânea, veio a público esta semana, por ocasião do evento em memória do Holocausto, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Comovidos, ex-prisioneiros dos campos de concentração desfilavam agruras por que passaram. Um horror! Em 6 anos de guerra, foram assassinados 6 milhões de judeus, incluindo 1,5 milhão de crianças, representando um terço da comunidade judaica da época. Foram massacrados também comunistas, ciganos, deficientes, homossexuais, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos e sindicalistas. 69 anos atrás, o exército soviético abria as portas de Auschwitz, o campo de concentração com 8 mil prisioneiros. A tétrica imagem jamais será esquecida: esqueléticos, velhos, doentes, cabeças raspadas, filas de pessoas cambaleando, famintas, nuas, torturadas, braços tatuados com o numero do registro. Na fachada de entrada, a inscrição Arbeit macht frei” – “o trabalho liberta”. A rememoração do holocausto é uma maneira de puxar o passado para o presente, fato importante para alargar as avenidas do futuro.

Imaginar que, por esse mundão afora, há fanáticos que ainda hoje aplaudem um dos maiores genocídios da história é apostar na hipótese de Samuel Huntington: nas esquinas do mundo, desenha-se o paradigma do “puro caos”.

Campo do Judiciário - MIGUEL ÂNGELO CANÇADO

O GLOBO - 02/02

Justiça Desportiva apenas aplica normas


Os mais de oitenta milhões de processos que tramitam no Poder Judiciário brasileiro, aliados à inegável falta de estrutura adequada de funcionamento, refletem no senso comum de que a morosidade e a falta de efetividade são barreiras quase intransponíveis, que precisam ser vencidas pela nação. Alguns caminhos têm sido buscados, e a tentativa, ainda incipiente, de implantação do processo eletrônico é um exemplo típico, além da utilização de formas alternativas de solução dos conflitos — como as cortes e juízos arbitrais. Tudo com o objetivo maior de superar as deficiências que fazem com que todo cidadão tenha o sentimento de que a entrega da prestação jurisdicional está falida no Brasil.

A Constituição Federal de 1988 consagrou exatamente um meio alternativo de resolução de pendências, inclusive mitigando o princípio da inafastabilidade do acesso ao Poder Judiciário e prestigiando o funcionamento e a independência da Justiça Desportiva. Garantiu-se, assim, que o Poder Judiciário, em matéria de disciplina e competições, somente pode apreciar as matérias depois de esgotadas as instâncias da Justiça Desportiva. Esse foi, sem dúvida, um grande acerto do legislador constituinte.

Mas não é de se ver que, agora, passados mais de 25 anos de vigência da Carta Magna, e tomando como pano de fundo episódios pontuais ocorridos nas rodadas finais do Campeonato Brasileiro de 2013, todos submetidos a julgamento aberto e legítimo perante o STJD, está em curso uma equivocada e perigosa campanha de desvalorização da jurisdição desportiva, como se a ela pudessem ser creditados todos os erros e eventuais malabarismos próprios do futebol tupiniquim.

Essa onda de ataques a que me refiro tem como rota principal de ação exatamente levar para o Poder Judiciário, geralmente a pretexto de fazer valer as regras do chamado Estatuto do Torcedor, o enfrentamento de toda decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, a instância máxima desta jurisdição. E o que é pior e muito mais nefasto: espalhando ações judiciais por todo o país, via de regra, nos juizados especiais, onde parece haver sempre uma liminar de plantão para suspender a eficácia e atacar as decisões de quem, trabalhando voluntária e gratuitamente, nada mais tem feito do que fazer valer as regras específicas vigentes.

Irresponsável essa guerra, retrocesso grave essa estratégia, pois que, não custa lembrar, a Justiça Desportiva não escolhe os atletas que vão ao campo de jogo e também não administra os estádios brasileiros, apenas e tão somente, na forma das competências que lhe são próprias, aplica as normas relativas à disciplina.

Então, desse modo, imaginemos o Poder Judiciário, com toda aquela carga de processos e a morosidade a que me referi, sendo o titular da palavra final sobre as questões ligadas ao futebol nacional. É óbvio, já se pode antever caos. Portanto, é preciso que as pessoas movidas por essa vontade de desmoralizar a Justiça Desportiva reflitam sobre o expressivo risco que, embora improvável, suas pretensões representam. Enfim, deixem a Justiça Desportiva exercer seu papel, até porque é a própria Constituição que o garante.

Critério menos 'técnico' - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 02/02

A saída da ministra Helena Chagas do comando da comunicação do Planalto poderia constituir uma mudança natural, inserida na dinâmica de governos, não fosse o episódio o desfecho de uma pressão permanente do PT pelo controle da mídia, extensiva ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

Ao explicitar na carta de demissão a adoção de “critério técnico” na aplicação do orçamento da Pasta, a ex-ministra expôs como uma das razões de sua saída a resistência a ampliar os recursos dirigidos à mídia alternativa, eufemismo para os produtos de conteúdo governista, também chamados de “blogs sujos”.

Estes, como se sabe, compõem o amplo universo digital de apoio ao PT, financiado pelo governo a título de democratizar a mídia, mas na verdade instrumento para contrapor a leitura ideológica do partido à cobertura jornalística independente. Numa linguagem direta, uma militância paga.

O epíteto “blogs sujos” surgiu dos conteúdos ofensivos, caluniosos e, não raro, apócrifos, que fazem circular, sustentados por dinheiro público, mecanismo estimulado no governo Lula, em contraste com o recente apelo do ex-presidente pelo uso responsável da Internet.

Os opositores internos a esse modelo são alvos permanentes do “fogo amigo” do PT. Não os move na resistência à sua ampliação apenas o aspecto de sua legitimidade, mas de sua legalidade. Trata-se de investimento público que mistura interesses partidários com os de governo, em forma de propaganda remunerada a uma mídia informal não submetida aos critérios de audiência, circulação e distribuição, referências basilares para os valores da publicidade - oficial e privada.

Não por outra razão, os defensores de critério “menos técnico” para o setor, querem também mudar os parâmetros de medição aplicados para constatar o alcance de cada meio, por se constituírem hoje em obstáculo à democratização dos recursos, segundo o conceito do PT. A proposta revogaria a lei de mercado, segundo a qual, custa mais ao anunciante o veículo com maior alcance de leitores.

Já o ministério das Comunicações se opõe à pretensão do PT de aprovar a regulamentação da mídia nos padrões de controle que afetam a liberdade constitucional de expressão.

Ainda no governo, Lula disse ao Estado que os meios de comunicação não deveriam se preocupar com esse tipo de pressão, porque se inseria no contexto do que chamou de “usina de utopias”- alusão às propostas emanadas das conferências do PT.

Evitou assim a prestar contas dos valores e beneficiários dos recursos pagos a essa mídia paralela. Uma caixa preta ainda por ser aberta.

O Estado da (nossa) União - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 02/02

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff foi a Davos, do outro lado do Atlântico, mas delegou ao chefe da Casa Civil a entrega da sua mensagem para a reabertura do Congresso, do outro lado da rua, como tem sido a praxe dos sucessivos governos. Por que será?

Se Dilma não decidir na última hora ir, Aloizio Mercadante sai da Educação, assume a Casa Civil às 11h e no meio da tarde já vai entrar no Congresso, amanhã, com a mensagem presidencial debaixo do braço como se presidente fosse.

Nos EUA, o discurso dos presidentes sobre o Estado da União, a cada início de ano, é um grande evento que não apenas mobiliza o governo e o mundo político como é aguardado com ansiedade pela população. Cidadãos e cidadãs querem saber o que o chefe da Nação tem a lhes dizer: o que realizou, o que se compromete a realizar. É coisa séria, para valer. Obama não está nos seus melhores momentos e fez um discurso chocho, sem impacto, mas mesmo assim cumpriu a tarefa.

O presidente Bill Clinton, debaixo de pesadas críticas e ameaçado até de impeachment, por causa do envolvimento heterodoxo com a estagiária Monica Lewinsky, foi ao Congresso, respirou fundo, fez um balanço vibrante do seu governo, assumiu compromissos contundentes para educação e emprego e acabou aplaudido de pé. Vi e pensei: sabe quando o Clinton vai cair? Nunca.

Se a forma no Brasil parece equivocada, o conteúdo da mensagem de Dilma dificilmente deixará de ser o mais do mesmo do discurso no Fórum Econômico Mundial. Listará (pela voz anódina do vice-presidente da Câmara) os dados da economia sob a ótica governista e os programas sociais que animarão seus palanques e os programas de TV da campanha, a começar do "Mais Médicos" e do "Minha Casa, Minha Vida", que você está careca de conhecer.

Realmente, o Congresso no Brasil não está com essa bola toda.

O belo nascimento do menino Miguel - ELIO GASPARI

O GLOBO - 02/02

O quinto filho de Eduardo e Renata Campos tem síndrome de Down, e eles celebraram a vida


Foi o poeta João Cabral de Melo Neto quem disse: "Não há melhor resposta que o espetáculo da vida". É raro que ocorram episódios comoventes na esfera privada de políticos brasileiros. A imediata divulgação, pelo governador Eduardo Campos, de que seu quinto filho nasceu com a síndrome de Down e a forma com que ele e sua mulher, Renata, lidaram com isso justificam a transcrição da mensagem que postaram na quarta-feira:

"Hoje os médicos confirmaram o que já estava pré-diagnosticado há algum tempo. Miguel, entre outras características que o fazem muito especial, chegou com a síndrome de Down. Seja bem-vindo, querido Miguel. Como disse seu irmão, você chegou na família certa! Agora, todos nós vamos crescer com muito amor, sempre ao seu lado".

Esse tipo de comportamento revela não só o afeto de uma família, como serve de exemplo. Crianças nascidas com essa síndrome às vezes inibem os pais, infelicitando-lhes as vidas. Houve época em que eram raros os casos como o de Charles de Gaulle, cuja filha Anne nasceu com ela. O general que liderou a Resistência Francesa e governou o país por mais de dez anos, até 1969, era conhecido por sua reserva pessoal. Raramente ria ou brincava, salvo se estivesse com Anne. Com ela até cantava, fazia teatrinhos e tomava beliscões nas bochechas. Nunca se afastou da menina e levou-a consigo para a Inglaterra quando a França se rendeu à Alemanha. A moça morreu em 1948. Vinte e dois anos depois, quis ser sepultado ao seu lado. Conduta muito diferente de Joseph, o patriarca da família Kennedy. Ele educou seus filhos num padrão de competitividade doentia. Quando Rosemary, a filha mais velha, mostrou-se depressiva e lenta no aprendizado (nada mais que isso), submeteu-a a uma lobotomia experimental. Deu tudo errado. Aos 23 anos, ela perdeu a fala e andava com dificuldade. Esconderam-na num asilo e os pais não a visitaram. Rosemary terminou seus dias em 2005, aos 86 anos, tendo sobrevivido a três irmãos homens e a uma irmã que se tornara marquesa.

Felizmente, no Brasil, ocorreram mudanças exemplares. Em 2011, Romário levou sua filha Ivy a um evento contra a discriminação. O mesmo fez o ministro Dias Toffoli, do STF, com seu irmão José Eduardo.

NERVOSOS

O ministro Guido Mantega falou em "acalmar os nervosinhos" que temem pela estabilidade da economia brasileira.

Tudo bem, mas quem está à beira de um ataque de nervos é o pedaço da equipe que cuida dos números, na qual ele eventualmente se inclui. O temor, acima de tudo, relaciona-se com as ameaças que vêm de fora.

O HOMEM DOS CACHORROS

Um grande livro está chegando à praça. É "O Homem que Amava Cachorros", do cubano Leonardo Padura, uma brilhante trama policial e política, ou política e policial. Começa em 1929, quando o ex-dirigente soviético Leon Trótski é desterrado, e acaba em 2004, no funeral de Ana, a mulher do narrador. No caminho, conta a história de um sujeito que amava cachorros e não falava de si. Era Ramon Mercader, o homem que em 1940 matara Trótski no México, com um golpe de picareta. Ralou vinte anos na cadeia e nem o nome disse. Solto, viveu na Rússia com a medalha de "Herói da União Soviética" e em Cuba.

Dito assim, o livro é apenas mais um sanduíche de história com ficção, gênero que dá certo poucas vezes a cada cem anos, mas, quando dá, sai de baixo. Sua virtude está na qualidade da escrita, no rigor factual em relação ao que realmente importa e, sobretudo, na imersão na alma de personagens que viveram os crimes e ilusões do comunismo. Seu retrato do cotidiano do narrador no regime cubano de hoje (no qual vive Padura), rememorando o que foi o soviético do século passado, é um verdadeiro primor.

Tudo isso, e mais um romance policial.

BNDES

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, informa que os mecanismos de controle do banco impedem que um freguês receba um empréstimo e aplique esse dinheiro no mercado financeiro, que remunera a juros compensadores: "É impraticável ou, no mínimo, de execução muito difícil e arriscada".

ALCKMIN E O DOI

O prédio onde funcionou o DOI de São Paulo foi tombado pelo patrimônio histórico, para servir de lembrança do que lá acontecia.

O governador Geraldo Alckmin deixou essa bola passar. No seu primeiro mandato como governador eleito, rebarbou uma proposta de um colaborador para tombar o símbolo do porão da ditadura. Nessa época, ele queria dar visibilidade à sua política de segurança colocando presos uniformizados na manutenção das beiras de estradas.

MORTALIDADE

Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada. A doutora Dilma atravessou o Atlântico para escorregar em Lisboa pelo simples culto à blindagem de suas agendas. Transformou um simples jantar em reunião da VAR-Palmares. Acreditar que a ex-ministra-chefe de Comunicação Helena Chagas tivesse algo a ver com essa obsessão exige que se desconheça as duas.

Houve um tempo em que a assessoria de imprensa do Planalto não tinha taxa de mortalidade, mas o presidente era Fernando Henrique Cardoso e a encarregada do armazém era Ana Tavares, a quem se atribuem milagres suficientes para instruir um processo de canonização.

OS TRANSPORTECAS DO RIO DORMEM NO PONTO

Durante a campanha eleitoral de 2012, o candidato Fernando Haddad anunciou que criaria o Bilhete Único Mensal, um plástico que permite o uso livre do transporte público. O benefício entrou em vigor em novembro passado. No Rio, nada. Na sua modalidade mais simples, o Bilhete Único começou a funcionar em São Paulo em 2004. O governador Sérgio Cabral prometeu-o em 2007 e pouco depois a RioCard lançou uma contrafação que não dava desconto algum. Em 2008 o candidato Eduardo Paes municipalizou a promessa. Elas só começaram a virar realidade em 2010. Era a época em que os transportecas faziam o que queriam, quando queriam. Em junho passado isso mudou.

Agora o prefeito Eduardo Paes anunciou um aumento da tarifa para R$ 3 a partir do próximo sábado. Os sábios já devem ter ouvido o slogan "Fifa, paga minha tarifa".

Cozinharam por mais de três anos o Bilhete Único simples e agora cozinham o mensal, que já existe em São Paulo, onde se prepara o bilhete semanal, com um pequeno desconto. Parece que os doutores vivem no mundo de Antonil, um dos primeiros cronistas da vida nacional, para quem as coisas se resolviam com três "pês": "pau, pão e pano".

Mudar, com pé no chão e visão de futuro - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O ESTADÃO - 02/02

A oposição deverá se concentrar no que aborrece o povo no cotidiano. As pesquisas eleitorais estão a indicar que os eleitores começam a mostrar cansaço. Fadiga de material. Há doze anos o lulopetismo impõe um estilo de governar e de se comunicar que, se teve êxito como propaganda, demonstra agora fragilidade. Toda a comunicação política foi centralizada, criou-se uma rede eficaz de difusão de versões e difamações oficiais pelo país afora, os assessores de comunicação e blogueiros distribuem comunicados e conteúdos a granel (pagos pelos cofres públicos e pelas empresas estatais) e se difundiu o “Brasil Maravilha”, que teria começado em 2002. Ocorre que a realidade existe e que às vezes se produz o que os psicólogos chamam de “incongruências cognitivas”. Enquanto os efeitos das políticas de distribuição de renda (criadas pelos tucanos) eram novidade e a situação fiscal permitia aumentos salariais sem acarretar consequências negativas na economia, tudo bem. O cântico de louvor da propaganda encontrava eco na percepção da população.

Desde as manifestações de junho passado, que pegaram governo, oposição e sociedade de surpresa, deu para ver que nem tudo ia bem. A insatisfação estava nas ruas, a despeito das melhorias inegáveis do consumo popular e de alguns avanços na área social. É que a própria dinâmica da mobilidade social e da melhoria de vida, e principalmente o aumento da informação, geram novas disposições anímicas. As pessoas têm novas aspirações e veem criticamente o que antes não percebiam. Começam a desejar melhor qualidade, mais acesso aos bens e serviços e menos desigualdade.

O estopim imediato da reação popular foram os gastos da Copa, o custo do transporte, a ineficiência, a carestia e a eventual corrupção nas obras públicas. Ao lado disso, a péssima qualidade do transporte urbano, da saúde, da educação, da segurança, tudo de cambulhada. Nada é novo, nem a reação provocada por este mal-estar se orientou, de início, contra um governo específico ou contra um partido. Significou o rechaço de tudo que é autoridade. Na medida em que o governo federal reagiu propondo “pactos”, que não deslancharam, e vestiu a carapuça, a tonalidade política mudou um pouco. Mas o rescaldo dos protestos – e não nos esqueçamos que eles têm causas – foi antes a criação de um vago sentimento mudancista do que um movimento político com consciência sobre o que se quer mudar.

Os donos do poder e da publicidade se aperceberam da situação e se apressam para apresentarem-se com máscaras novas. Só que talvez a população queira eleger gente com maior capacidade organizacional e técnica, que conheça os nós que apertam o país e saiba como desatá-los. Essa será a batalha eleitoral do ano em curso.

O petismo, solidário com os condenados do mensalão a ponto de coletar “vaquinhas” para pagar as dívidas dos condenados, porá em marcha seus magos para dizer aos eleitores que são capazes da renovação.

E a oposição? Terá de desmascarar com firmeza, simplicidade e clareza, truque por truque do adversário e, principalmente, deverá mostrar um caminho novo e convencer os eleitores de que só ela sabe trilhá-lo. Os erros da máquina pública, seu custo escorchante, a incompetência política e administrativa estão dando show no dia a dia. As falhas aparecem nas pequenas coisas como na confusão armada a partir de uma simples parada da comitiva presidencial em Lisboa, e nas mais graves, como o inexplicável sigilo dos gastos do Tesouro para financiar obras em “países amigos”. Isso abriu espaço, por exemplo, para o futuro candidato do PSDB dizer, com singeleza: “Uai, pena que a principal obra da presidente Dilma tenha sido feita em Cuba e não no Nordeste tão carente de infraestrutura”. Eu sei que há razões estratégicas a motivar tais decisões. Mas na linguagem das eleições o povo quer saber “quanto do meu foi para o outro”. E disso se trata: em quem o eleitor vai confiar mais para que suas expectativas, valores e interesses sejam atendidos. Daí que a oposição deverá se concentrar no que aborrece o povo no cotidiano, sem desconhecer os erros macroeconômicos, que não são poucos.

Quanto à insegurança causada pela violência e o banditismo, é preciso reprimi-los e está na hora de o PSDB apresentar um plano bem embasado de construção de penitenciárias modernas, inclusive algumas sob a forma de parcerias público-privadas, como foi feito em Minas Gerais. É o momento para: refazer a lei de execuções penais e incentivar os mutirões que tirem das prisões quem já cumpriu pena, como também pôr fim, como está fazendo São Paulo, às cadeias em delegacias e, ainda, incentivar os juízes à adoção de penas alternativas.

Não será possível, sem negar eventuais benefícios de mais médicos, mostrar que a desatenção às pessoas, as filas nos hospitais, a demora na assistência aos enfermos, nada mudou? E que isso se deve à incompetência e à penetração de militantes partidários na máquina pública?

Por que não mostrar que o festejado programa Minha Casa, Minha Vida tem um desempenho ruim quando se trata de moradias para a camada de trabalhadores também pobres, mas cuja renda ultrapassa a dos menos aquinhoados, teoricamente atendidos pelo programa? Sobra uma enorme parcela da população trabalhadora sem acesso à casa própria, tendo de pagar aluguéis escorchantes.

Isso para não falar de um estilo de governo mais simples, mais honesto, que diga a verdade, mostre os problemas e não se fie no estilo “Brasil Maravilha”. De um governo mais poupador de impostos, reduzindo-os para todos e não apenas para beneficiar as empresas “campeãs” ou “estratégicas”. As oposições precisam ser mais específicas e mostrar como reduzirão os absurdos 39 ministérios, como eliminarão o inchaço de funcionários e fortalecerão critérios profissionais para as nomeações. Também chegou a hora de uma reforma política e eleitoral. Não dá para governar com 30 partidos, dos quais boa parte não passa de legenda de aluguel.

Em suma, está na hora de mudar e quem tem a boca torta pelo cachimbo da conivência com a corrupção, o desperdício e a incompetência administrativa, por mais que faça mímica, não é capaz dessa proeza. O passado recente teve suas virtudes, mas se esgotou. Construamos um futuro de menos arrogância, com realismo e competência, que nos leve a dias melhores.


Os fins dos meios - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 02/02

Campos não terá mesmo a concordância de Marina em seu desejo de apoiar a recandidatura de Alckmin


Ao sair de Brasília para encontrar-se com a secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores levava uma bagagem politicamente simples: o Brasil não deixou de condicionar a restauração das relações com os EUA, e em particular com o governo Obama, ao pedido de desculpas pela violação das comunicações da presidente e do governo brasileiros, revelada por Edward Snowden.

Não era, por certo, o que Susan Rice esperava de Luiz Alberto Figueiredo, o que explica a brevidade do encontro depois da demorada viagem por ela pedida ao ministro. Menos de 45 minutos foram suficientes para os gestos protocolares, de chegada e de saída, e para o recheio com a explicação sobre as medidas --poucas, superficiais e sem garantias -- anunciadas pelo próprio Obama na Agência Nacional de Segurança (NSA), a cidadela da espionagem.

Menos de 24 horas antes do encontro infrutífero em Washington, Angela Merkel, ao inaugurar na tribuna do Parlamento o seu terceiro mandato de chefe do governo alemão, dedicou duros e inteligentes parágrafos à espionagem americana, que também a visou. E, inevitável, ao discurso de Obama em defesa da NSA. "As ações em que os fins justificam os meios, nas quais o uso da técnica não tem limites, traem a confiança e instauram a desconfiança."

Os alegados fins da segurança a justificarem os meios. Razão bastante para a afirmação de Merkel, talvez jamais ouvida pelos americanos na voz de um aliado, de que Alemanha e Estados Unidos "estão muito distantes quando se trata de ética", entre "a liberdade e a ação do Estado". É estupendo que palavras assim venham da Alemanha.

Mas historicamente grandioso para a Alemanha e seu povo, não para a humanidade. Porque são palavras dirigidas a um país e um povo que outrora as diziam ao mundo e hoje são os destinatários delas. Se não as ouvem cabisbaixos e enrubescidos, é por superpotência significar, na realidade, superprepotência.

À PARTE

A nota do grupo de Marina Silva contra o governador Geraldo Alckmin, com acusações à violência policial na manifestação anti-Copa, tem um componente formal bastante sugestivo: é nota da Rede Sustentabilidade, não do PSB ao qual pertence, nem ao menos nota da corrente Rede no partido.

Com isso, a nota se tornou mais agressiva para o PSB do que para Alckmin. É reafirmação, indireta mas forte, de que Eduardo Campos não terá mesmo a concordância de Marina Silva em seu desejo de apoiar a recandidatura de Alckmin. As suposições de um abrandamento da discordância, por compensações em outros Estados, foram devastadas pela nota isolacionista da Rede.

A REGRA

A Presidência da República não deve informações à imprensa sobre atividades dos presidentes não ligadas às suas funções e responsabilidades. Não é preciso dizer por que a imprensa fez e ainda faz um escarcéu com a parada de Dilma Rousseff e sua comitiva por menos de um dia em Lisboa. Mas, já que a regra dos tratamentos diferenciados não foi relegada, cabia à Secretaria de Comunicação da Presidência proporcionar prontos e claros esclarecimentos. Sua existência é para isso.

Não o fez, e daí veio uma das reações típicas de Dilma Rousseff. Mas há muitos meses o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, foi incumbido de fazer o papel público de secretário de imprensa. Tarefa que tem cumprido com esclarecimentos e comentários frequentes, embora seu tom sempre mais pessoal do que jornalístico ou governamental. Aí, e não no PT ou outra influência, está presente a já longínqua conveniência de mudança ampla na comunicação do governo Dilma, sobretudo a da Presidência, a pior das que me lembre. Se vai melhorar, nem imagino.

A reeleição faz a reforma - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 02/02
Assim como não há chuva que não molhe, não há candidato que não tenha o seu comitê eleitoral - desde a meia dúzia de gatos-pingados, ajudando o amigo de olho numa cadeira de vereador cm Cabrobó dos Anzóis, às formidáveis estruturas das campanhas presidenciais, com os melhores quadros que as afinidades ou o dinheiro podem comprar. Nem o mais conhecido dos políticos nem a mais popular das chamadas personalidades da sociedade do entretenimento podem dispensar um aparato que lhes assegure o voto em escala compatível com as suas ambições.
Nada mais natural, portanto, que a presidente Dilma Rousseff, não obstante os recursos de poder inerentes ao mandato - como o acesso privilegiado à mídia de massa dependa, também ela, de uma estrutura que em última análise faça com que se confirme, na hora da verdade, o favoritismo que lhe atribuem as pesquisas de opinião. O que não tem nada de natural e tudo de indecente, porém, é a ostensiva transformação do governo em comitê de apoio ao comitê eleitoral propriamente dito da presidente. Pior ainda: a sujeição daquele a este, para maximizar, como diria ela, as suas chances de vitória já no primeiro turno.

O nome oficial dessa apropriação patrimonialista - uma das tantas enormidades que o PT aprendeu com o que há de mais retrógrado na política nacional - é reforma ministerial. Ela decorre de um fato da vida: por força de lei, ministros que pretendam se candidatar a cargos eletivos devem deixar os seus postos a até seis meses da eleição. Seria, em tese, uma oportunidade para a sua chefe substituí-los por nomes capazes, quem sabe, de melhorar o pífio desempenho administrativo do Executivo. Ou, com mais modéstia, promover os servidores de carreira que conhecem a máquina por dentro, apenas para mante-la rodando.

Com uma aparente exceção - a ida do secretário executivo da pasta da Educação, José Henrique Paim, para o lugar do ministro Aloizio Mercadante -, não é uma coisa nem outra. A começar do próprio Mercadante, transferido para a Casa Civil, com a saída da ministra Gleisi Hoffmann, que deverá disputar o governo do Paraná, as mudanças obedecem exclusivamente ao projeto reeleitoral de Dilma. Na Casa Civil, o ex-senador, muito além de coordenar as ações administrativas do Planalto, terá a incumbência de manter as recalcitrantes lideranças dos partidos governistas na coligação eleitoral. Missão talvez grande demais para a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, incumbida do meio-campo com a base aliada.

Assim, com o salário e as mordomias pagas pelo contribuinte, ele integrará - ao lado de Lula; do presidente do PT, Rui Falcão; do ex-ministro da Comunicação Franklin Martins; e do marqueteiro João Santana - o politburo do comitê Dilma-14. Já o novo ministro da Saúde, ex-secretário do setor em São Bernardo do Campo, Arthur Chioro, foi escolhido para pôr a pasta a serviço não só da presidente, mas, sobretudo, do antecessor Alexandre PadiIha, candidato ao governo paulista. Para o PT essa disputa é quase tão crucial quanto a da Presidência. Na campanha, quando Lula não estiver desfilando com a afilhada, estará cabalando votos para o "poste" da atual temporada.

Das mudanças já anunciadas no Gabinete, nenhuma deixa tão escancarada a decisão de degradá-lo em Ministério da Reeleição como a troca, na Secretaria de Comunicação Social (Secom), da titular Helena Chagas pelo também jornalista Thomas Traumann, porta-voz de Dilma desde 2012 e chefe do chamado "gabinete digital" do Planalto, responsável pelo blog da presidente e suas manifestações no Twitter e Facebook. Ele caiu nas boas graças de Dilma quando acionou as redes sociais para o governo responder às jornadas de junho. À parte seus presumíveis méritos, ele foi escolhido para subordinar a comunicação da Presidência às exigências da campanha.

Quem o indicou, sintomaticamente, foi o já citado Franklin Martins. Ministro de Estado, Traumann deverá, portanto, abastecer a mídia com as versões mais convenientes para a vitória de Dilma. Sem esquecer de que a Secom administra a publicidade do Executivo e das estatais, ao custo aproximado de RS 1,9 bilhão.

Malfeito vira credencial na Esplanada - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 02/02
De um lado, a ministra Ideli Salvatti, acusada de falha ética pela própria Presidência da República, permanece no cargo. De outro, Arthur Chioro, investigado pelo Ministério Público de São Paulo por presidir, enquanto secretário de Saúde de São Bernardo do Campo (SP), consultoria que prestava serviços para prefeituras paulistas comandadas pelo PT, soma-se à equipe do primeiro escalão do governo Dilma Rousseff. Sem falar de Alexandre Padilha, que deixa a Esplanada dos Ministérios para disputar o governo do maior estado da Federação anunciando, enfim, o cancelamento de convênio que a pasta mantinha com ONG que tem o pai dele como sócio-fundador.

Se para bom entendedor meia palavra basta, não é preciso dizer mais nada. Está para lá de explícito que a ética não norteia a reforma ministerial ora em andamento. E o caso Chioro é emblemático. Importa que ele seja afilhado político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de protegido do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. Bons antecedentes e reputação ilibada não são critérios de escolha para nomeações. Tanto faz se o art. 37 da Constituição estabelece que a administração pública deve obediência aos princípios de legalidade, impessoalidade e moralidade. O fato cristalino é que o malfeito se perpetua impunemente na mais elevada esfera do Estado brasileiro.
A reforma nasce, pois, com pecado original. Nem aos mais otimistas a nódoa deixa espaço para prognósticos positivos. Se a oportunidade de qualificar o quadro é posta de escanteio, quem haverá de sonhar com uma máquina azeitada, de engrenagens deficientes trocadas, pronta para superar os muitos obstáculos, fazer as obras andarem, a infraestrutura nacional realizar-se, o PIB crescer? Tampouco dá para imaginar um enxugamento que restabeleça a decência no tamanho da administração federal, com 39 ministérios. Entra-se num vale-tudo, cujo único objetivo visível no horizonte é a vantagem eleitoral da presidente rumo ao segundo mandato.

Arthur Chioro é só uma pedra nesse xadrez de tabuleiro viciado. Mas tem o peso do rei. Enquanto inquérito civil público corre em segredo de Justiça, informações vazam para a mídia, e a população toma conhecimento das suspeitas, a presidente Dilma Rousseff ignora as apreensões e ocupa-se de tramar a jogada definitiva, o xeque-mate que amanhã será coroado com cerimônia de posse no Palácio do Planalto. Uma vez ministro, o ex-secretário municipal passará a contar com o privilégio constitucional do foro privilegiado. Ou seja, somente poderá ser julgado pelo Supremo tribunal Federal (STF). Bom para ele, ruim para o cidadão cansado da impunidade e ansioso por ver a Saúde deste país curada de tantos males.

Ajuste a uma nova realidade econômica - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 02/02

O banco central americano diminuiu os estímulos monetários criados para neutralizar a crise de 2008; o mundo é outro, e o Brasil precisa ter política de austeridade



O banco central americano (Federal Reserve, Fed) deu mais um passo para cortar os estímulos monetárias que ajudaram a economia dos Estados Unidos a se safar da sua mais grave crise desde a Grande Depressão, dos anos 1930. Instituições financeiras renomadas estiveram à beira da bancarrota quando tal crise foi deflagrada em 2008, e, se não fossem esses estímulos, talvez o sistema financeiro mundial tivesse entrado em colapso.

Tais estímulos não serão eliminados de uma tacada pelo banco central americano, mas os mercados já vêm se antecipando às inevitáveis consequências desse ajuste sobre as economias ao redor do planeta. A fase das taxas de juros muito baixas pode estar se aproximando do fim, pois a oferta de dólares tende a encolher. O Brasil saiu um pouco à frente, elevando sua taxa básica para combater a pressão da inflação doméstica, e indiretamente começou a se proteger de flutuações no câmbio. Mas outros países emergentes também partiram na mesma direção, como a Turquia, a África do Sul, o Chile, o México e a Índia. Com desvalorizações até bruscas, como a que ocorreu recentemente na Argentina, o ajuste pelo câmbio costuma ser mais doloroso.

O Brasil acumulou reservas cambiais da ordem de US$ 375 bilhões o que é um forte anteparo contra movimentos especulativos financeiros. No entanto, o país não tem mais uma situação confortável no balanço de pagamentos. O déficit em transações correntes (mercadorias e serviços) ultrapassou a barreira de US$ 80 bilhões no ano passado, ultrapassou os 3% do PIB, e já não é mais inteiramente coberto pelo fluxo de investimentos diretos.

Isso significa que a economia brasileira deve buscar novo ponto de equilíbrio, e tanto melhor se a política econômica caminhar nessa direção enquanto os solavancos dos mercados estão sob relativo controle. O governo tem dado sinais que as finanças públicas serão administradas este ano com mais austeridade, tendo como objetivo um superávit primário equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB), efetivamente. Para tal espera-se que haja um contingenciamento de despesas. Mas para valer, pois todo o discurso de austeridade do ano passado não se refletiu nos números: os gastos subiram 13,6%, mais que os 12,5% da arrecadação.

Além disso, existe um certo descrédito quanto à possibilidade dessa diretriz ser realmente posta em prática em um ano de eleições gerais, em que a tradição política é de abertura dos cofres. No entanto, não existe essa alternativa. Seria um suicídio econômico, com desdobramentos políticos posteriores muito sérios e incontornáveis. A única forma de o Brasil tentar se proteger de problemas financeiros vindos de fora (diferenciando-se, por exemplo, de economias que estão mais fragilizadas, como o da Argentina) é executando, de fato, uma política fiscal austera, independentemente de ser ano eleitoral ou não.

Como coibir o vandalismo? - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 02/02

A ideia equivocada de que a polícia é “culpada até prova em contrário” levou a um enfraquecimento da ação policial diante de casos de depredação nos protestos recentes


O preço das passagens de ônibus e os gastos com a realização da Copa do Mundo levaram, neste início de 2014, a uma repetição dos protestos de rua que marcaram os meses de junho e julho do ano passado. No entanto, o remake pulou a parte boa e começou já com as cenas que deveriam ter sido cortadas: a depredação e o vandalismo deram as caras já nas primeiras manifestações. Em São Paulo, ato contra a Copa do Mundo teve um veículo da Guarda Civil Metropolitana depredado, um carro particular incendiado, caixas eletrônicos de bancos incendiados e um manifestante baleado pela polícia. Em Porto Alegre, houve vidraças quebradas, contêineres de lixo incendiados, jornalistas hostilizados, uma banca de jornais depredada e pichações. Em Curitiba, um ônibus foi apedrejado no Terminal Guadalupe, houve pichações e vidraças quebradas no prédio da Prefeitura, e o protesto terminou com uma invasão ao Shopping Mueller.

Os protagonistas da confusão, como em 2013, não eram os cidadãos comuns que porventura estivessem indignados com os custos da construção dos estádios da Copa, mas os black blocs mascarados, mais uma vez afrontando a Constituição que garante a liberdade de expressão, mas veda o anonimato. Em algumas cidades, já estão marcados novos protestos – em São Paulo, por exemplo, a data combinada pelas mídias sociais é 22 de fevereiro. A população, bem sabemos, rejeita a violência mascarada, e foi por causa dela que o ímpeto das manifestações do ano passado arrefeceu. Mas falta a ação decisiva de um elemento importante para que as metrópoles não voltem a ser reféns do caos: a polícia.

Como sabemos, é ao Estado que cabe o monopólio do uso da força. Em condições normais (ou seja, quando não é preciso colocar as Forças Armadas na rua), é a polícia que exerce este monopólio em nome do poder público. E, quando está em jogo a defesa do cidadão e do patrimônio público ou privado, espera-se, sim, o uso da força. É assim em todo o mundo civilizado – como se percebeu, tempos atrás, quando a Europa foi palco de inúmeros protestos contra as medidas de austeridade econômica impostas como tentativa de tirar a zona do euro do buraco causado pela crise financeira internacional. É claro que este uso obedece a algumas exigências, como a proporcionalidade. Abusos sempre serão inaceitáveis.

No entanto, no Brasil observa-se uma inversão perversa: enquanto em praticamente todo o Ocidente a ação policial é vista como plenamente legítima, por aqui a polícia é considerada “culpada até prova em contrário”. Para a criação dessa imagem contribuíram não apenas casos reais de exageros policiais – que infelizmente ocorrem com alguma frequência –, mas também uma eficiente máquina de propaganda operada por aqueles que normalmente são os antagonistas das forças policiais (máquina essa que, é preciso admitir, encontra eco também na imprensa, que tende a ver a violência mascarada ou “engajada” com mais benevolência que os eventuais abusos da polícia). Essa reprovação a priori da ação policial leva as próprias forças de segurança, temerosas da repercussão de seus atos, a deliberadamente evitar o confronto na hora de coibir a violência ou a depredação – em alguns casos, os policiais, mesmo diante dos atos de vandalismo, não intervieram. Em outras palavras, o que se tem é uma polícia impotente.

Mas o que a sociedade precisa não é de uma polícia acuada, mas de uma polícia realmente disposta a cumprir sua missão de defender os cidadãos e impedir a destruição do patrimônio público ou privado. Que seja enérgica sem ser irresponsável. Que use e abuse da inteligência em todos os sentidos: desde o trabalho prévio de conhecer as intenções dos vândalos e a infiltração em grupos dedicados a promover o caos até a inteligência no momento da ação, o que inclui o próprio registro dos acontecimentos para evitar quaisquer acusações infundadas feitas posteriormente. O que não se pode é perpetuar essa “presunção de culpabilidade” atribuída às polícias. Só assim as ruas serão o espaço do brasileiro que deseja protestar pacificamente, e não do vândalo que só tem compromisso com a destruição.

Menos petróleo - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 02/02
Em seus 60 anos de história, a Petrobrás só registrou queda de produção quatro vezes. Em apenas três anos, o governo Dilma tornou-se responsável por dois desses resultados negativos. O mais recente é o de 2013, quando a produção média ficou em 1,931 milhão de barris por dia, 2,5% menos do que a média de 2012 (1,980 milhão de barris/ dia), que já tinha sido 2,1% menor do que a de 2011 (2,022 milhões de barris/dia).
Trata-se de uma proeza político-administrativa, que elimina qualquer dúvida, se ainda restava alguma, quanto ao caráter falacioso do estrondoso anúncio da autossuficiência do País feito em abril de 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com as mãos cobertas do óleo do primeiro jato do petróleo do poço de Albacora Leste, na Bacia de Campos. Lula imitava o gesto do então presidente Getúlio Vargas, na comemoração do primeiro poço da Petrobrás, empresa que acabara de ser criada. Com ele, Lula pretendia demonstrar que o sonho da autossuficiência por muitos acalentado desde o fim da década de 1940, com a campanha  "O petróleo é nosso", se tomava realidade.

O fato de, naquele momento, o País ter alcançado um volume de produção suficiente para atender à demanda interna não era, porém, garantia de que a produção nacional continuaria sendo sempre superior ao consumo. Era preciso investir em manutenção das unidades em operação e em novas, para assegurar o crescimento da produção em ritmo igual ou superior ao do aumento da demanda.

Nos seis primeiros anos que se seguiram ao anúncio ufanista de Lula, de fato, a produção cresceu. A partir de 2011, no entanto, a tendência se reverteu. Poços mais antigos, alguns considerados maduros, passaram a produzir menos, enquanto os novos ainda não produziam o suficiente para compensar a queda observada nos demais.

É natural que, tendo alcançado seu auge, a produção comece a declinar. Mas, no caso dos poços da Petrobrás não se pode culpar a natureza por isso. Em muitos campos, entre os quais os de maior produção, o declínio vinha sendo mais intenso do que o observado em outras regiões, o que causou preocupação na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Investimentos em manutenção não foram feitos no ritmo e no volume necessários e as paradas das operações para reparos e manutenção em geral tomaram-se mais longas do que seria normal.

Para tentar reverter a tendência de queda acelerada da produção dos campos antigos, a Petrobrás criou o Programa de Aumento da Eficiência Operacional, o que, segundo nota por ela divulgada, contribuiu para melhorar a eficiência das unidades do Rio de Janeiro e da Bacia de Campos e permitiu que o declínio da produção nos campos em operação ficasse "dentro dos padrões esperados pela empresa e compatível com o padrão da indústria de petróleo".

Mas nem tendo alcançado esses resultados nos campos em operação a empresa conseguiu evitar a queda de sua produção em 2013. Os problemas de manutenção das plataformas em operação são apenas parte das dificuldades que, por influência político-partidária do governo do PT em sua gestão, a Petrobrás enfrenta há anos.

Ela foi submetida a uma rígida política de controle de preços dos combustíveis, que a forçou a acumular prejuízos crescentes. O preço de venda não cobria os custos de produção nem, muito menos, o custo dos derivados que, por não ter investido a tempo na ampliação de seu parque de refino, a estatal passou a importar, em volumes cada vez maiores para atender a uma demanda cada vez mais aquecida.

Seu plano quinquenal de investimentos foi fortemente influenciado pelos interesses político-eleitorais do governo, que a obrigou a destinar volumes cada vez maiores de recursos para a área do pré-sal, prejudicando outras atividades, como a de refino e a de manutenção das unidades em operação.

O resultado de 2013 ficou abaixo do previsto em seu plano de investimentos. Mas a diretoria da empresa prevê que o de 2014 será melhor, pois três novas unidades de produção devem iniciar suas operações ainda no primeiro semestre.

Eficiência estatal - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 02/02

Brasil precisa de urgentes reformas capazes de limitar o crescimento dos gastos públicos e aumentar produtividade do governo


Foi somente aos 45 minutos do segundo tempo que o governo federal conseguiu cumprir a meta de economia no Orçamento do ano passado. Contou para isso com a ajuda de receitas atípicas, como a renegociação de dívidas fiscais de empresas e o leilão do campo de petróleo de Libra, no pré-sal.

Mas, somadas as esferas federal, estadual e municipal, o superavit primário (a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento de juros da dívida pública) de 2013 foi, como proporção do PIB, o menor dos últimos 15 anos.

O Ministério da Fazenda pensa agora no compromisso para 2014, enquanto analistas se debruçam sobre o tamanho do contingenciamento de despesas, que pode chegar a R$ 30 bilhões.

Sem desmerecer o debate acerca do Orçamento do ano corrente --afinal, R$ 30 bilhões não são quantia desprezível--, o Brasil precisa que as forças políticas demonstrem grau bem maior de ambição.

A questão de fundo é muito mais ampla. Diz respeito à voracidade do leviatã estatal em um país que não consegue manter, salvo por períodos curtos, um ritmo de crescimento econômico decente.

Em 2013, as despesas cresceram 7,3% acima da inflação, ritmo bastante superior ao do PIB, mas os investimentos públicos patinam.

Essa tem sido a regra dos últimos 25 anos, período em que a carga tributária passou de 24% para 36% do PIB. O nível é semelhante ao de países desenvolvidos, mas com uma diferença crucial: estes oferecem em troca um padrão também desenvolvido de serviço público.

Seria fácil concluir que os impostos mais altos resultam da maior cobertura das políticas sociais. Não haveria, seguindo o raciocínio, forma de conter a sanha arrecadatória sem esbarrar no mandamento constitucional de maior equidade.

Assim colocado, o debate tende a ser interrompido. É preciso ir além dessa dicotomia, que é falsa.

Há limites para o crescimento das transferências sociais que precisam ser expostos com clareza. Um dos mais difundidos está na Previdência, mas nem os evidentes exageros de alguns benefícios motivam o governo a agir.

Além disso, o Estado brasileiro precisa ser mais racional e eficiente. Trata-se, como há muito se diz, de aumentar a produtividade do governo --isto é, entregar mais e melhores serviços com menos dispêndio. Urge, ademais, rever a estrutura arcaica e os projetos estatais desde a base, identificando aqueles que só absorvem recursos.

É preciso, por fim, encaminhar reformas que limitem o crescimento dos gastos a um ritmo inferior ao do PIB. É a melhor maneira de obrigar o Estado a confrontar a própria ineficiência.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Isso é triste”
Ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre a explosão de criminalidade no DF


PRESIDENTE DO PDT, LUPI COLECIONA ESCÂNDALOS

Ex-ministro do Trabalho e proprietário do PDT, Carlos Lupi acumula vasto histórico de denúncias e escândalos. A mais recente revelou que o então ministro teria cobrado R$ 200 mil para garantir um sindicato a uma empresária. Mas em 2011, por exemplo, foi acusado de liberar R$ 300 milhões em recursos para organizações não governamentais (ONGs) “amigas”, sem prestação de contas. Ele caiu em 2011.

PERNAS CURTÍSSIMAS

O então ministro Carlos Lupi jurava não haver usado o avião de uma ONG que presenteara com contrato “amigo”. Fotos provaram a carona.

DIFICULDADES S/A

Em 2010, o ministério contratou entidades para capacitar profissionais. Depois, dificultava a liberação e exigia propina para soltar a grana.

CARTEIRADA

Lupi lançou uma “inovadora” carteira do trabalhador, e foi acusado de escolher sem licitação a empresa que imprimiria os cartões com chips.

NÃO PAROU

O ex-ministro Brizola Neto, sucessor de Lupi no Trabalho, aposta no surgimento de novos escândalos: além de suborno, extorsão.

PPS: ALIANÇA NÃO GARANTE APOIO AO PSB EM SP

Apesar da aliança nacional com o governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB), o presidente do PPS, Roberto Freire (SP), afirmou que dificilmente a sigla apoiará uma candidatura socialista ao governo de São Paulo contra reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). “O PPS está com Alckmin, que é o melhor palanque para Eduardo. Por mais respeitável que seja, um candidato do PSB terá votos irrisórios”.

PLANO NACIONAL

Segundo Roberto Freire, o acordo do PPS com Eduardo Campos não inclui qualquer obrigação de apoio mútuo nas eleições estaduais.

CHANCE ZERO

Após Marina Silva ter exigido candidatura própria, o PSDB já admite que as chances de obter apoio do PSB em São Paulo são quase nulas.

OLHA A RASTEIRA

A cúpula PSDB vê na dissidência em SP uma brecha para tentar faturar o apoio do PPS à eleição de Aécio Neves (MG) para presidente.

LIBERA GERAL

Irritados com a presidente Dilma na reforma ministerial, lideranças do PMDB coletam assinaturas para antecipar a convenção nacional para abril, visando liberar os diretórios estaduais a coligar com PSDB e PSB.

PMDB DESEMBARCANDO

A dissidência de setores do PMDB em relação a Dilma, que antes era pontual, aumentou em relação a 2010. Hoje, o partido quer pular fora da aliança em dez estados: BA, RJ, CE, MG, PR, PE, SC, RS, MS e PB.

CONSOLIDADO

Para o deputado Danilo Forte (PMDB), a candidatura do correligionário Eunicio Oliveira ao governo do Ceará já não tem mais volta: “Acho muito difícil ele desistir, até porque seria um suicídio político”.

PRESÍDIO-AÇOUGUE

Opositor da família Sarney, o partido Solidariedade quer denunciar em encontro político, na Itália, as condições de trabalho de agentes penitenciários de Pedrinhas, no Maranhão. Quanto aos muitos detentos mortos, alguns decapitados, até pela omissão dos carcereiros, nada.

DURA BATALHA

O ex-governador Joaquim Roriz discute política o dia todo e sempre coloca seu nome à disposição para disputar o governo do DF, mas ele tem outra dura batalha pela frente: está na fila do transplante de rins.

OPOSIÇÕES À PARTE

A deputada Jô Moraes (PCdoB) guarda na estante um busto de Lênin,comprado no Museu Comunista de Praga, onde também funciona uma lanchonete McDonald’s, símbolo do “imperialismo americano”. O presente foi do governador Antônio Anastasia (PSDB-MG), adversário.

PMDB NO PREJUÍZO

Sem perspectiva de acordo, dirigentes do PT-CE já avisaram à cúpula do partido que apoiarão o candidato do governador Cid Gomes (PROS-CE), em caso de enfrentamento com senador Eunicio Oliveira (PMDB).

TODOS POR UM

O ex-presidente Lula defende que, ao apoiar Armando Monteiro (PTB-PE), o PT alia sua força metropolitana à capilaridade do petebista em 184 municípios, tudo para promover a reeleição de Dilma.

LADO BOM

Na Casa Civil, Aloizio Mercadante terá menos tempo para atormentar os músicos do bar Grao, atravessando o samba com seu atabaque desafinado, nos fins de semana do Lago Norte, em Brasília.


PODER SEM PUDOR

INCORRIGÍVEL OTIMISTA

Governador da Bahia entre 1947 e 1951, Otávio Mangabeira tinha um secretário de Justiça, Albérico Fraga, que era um profissional do otimismo, capaz de extrair coisas boas das situações mais difíceis. Às vezes, no entanto, Mangabeira perdia a paciência. Ele definiu assim o auxiliar:

- O dr. Albérico é tão otimista que, vendo uma casa sendo destruída por um incêndio pavoroso, é capaz de exclamar: "Que casa bem iluminada!".

DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: Policiais não sabem como conter protestos violentos
Folha: Com novo aumento, auxílio-doença infla o déficit do INSS
- O Estadão: BC cobra de empresas e clubes R$ 39,8 bi em multas
Correio: Acima de policiais, o rigor da lei
Jornal do Commercio: Boas ideias para fugir do trânsito
Zero Hora: 6 pontos que podem mudar: o transporte da capital

sábado, fevereiro 01, 2014

A bola da vez - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 01/02

Integrantes do núcleo político do governo Dilma temem o efeito eleitoral da inevitável inflação de produtos e serviços estimulada pela vinda de torcedores estrangeiros na Copa. Os aumentos de preços já ocorrem nas cidades-sede, sobretudo no Rio. Não é à toa que o ministro Gastão Vieira (Turismo) e o presidente da Embratur, Flávio Dino, fazem constantes críticas aos abusos do comércio.

Quem sabe faz a hora
O ministro Gilberto Carvalho anunciou ontem que o governo fará campanha publicitária para falar dos benefícios da Copa no Brasil. E que essa providência estaria atrasada. Mas ela não saiu ainda por orientação de João Santana, responsável pelo marketing do governo. Com base em pesquisas, que mostravam forte rejeição à Copa, Santana sustentou que não havia chegado a hora de realizá-la. Por isso, tal campanha, já sugerida pelo ministro Aldo Rebelo (Esportes), não saiu. O chefe do marketing do ex-presidente FH, Nizan Guanaes, quando esteve com Dilma, propôs o mesmo e é dele a frase "A Copa das Copas", adotada como mantra pela presidente.



"Ou a presidente Dilma vai no palanque de todos ou não vai no de nenhum. Já fiz, mas não posso mais fazer declaração de amor sem reciprocidade" 

Carlos Lupi Presidente do PDT, sobre as eleições para os governos estaduais

A costura
O PSDB e o DEM chegaram a entendimento pelo lançamento de Paulo Souto (PSDB) ao governo da Bahia. Agora, os dois partidos trabalham para convencer Geddel Vieira Lima (PMDB) a concorrer ao Senado, porque querem evitar duas candidaturas de oposição. Usam como argumento o fato de ser tradição na Bahia o governador eleger o senador.

Agora é oficial
O candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, acertou ontem com Paulo Vasconcelos, da Vitória CI, que ele será o coordenador de marketing de sua campanha. Ele comandou as três eleições do PSDB para o governo mineiro.

Perdidos no espaço
Um integrante da Executiva Nacional do PT anda falando por aí que o objetivo do partido é ampliar sua bancada no Senado em outubro. E que a meta é pular de 12 para 24 senadores. Mas, até o momento, só seis candidatos são competitivos.

De volta?
O general Gonçalves Dias, chefe da segurança pessoal do ex-presidente Lula, pode voltar ao Planalto. Ele foi afastado pela presidente Dilma em 2012, mas ela ficou assustada com protestos quando chegava à Arena das Dunas, em Natal. Carros da comitiva foram apedrejados. Dilma tem reclamado da proximidade dos manifestantes.

Acredite se quiser
Em conversa, um membro do staff da candidatura Eduardo Campos afirma: "A nossa grande preocupação é com a desidratação do Aécio". E depois pergunta: "Você acha que o Lula vai apoiar quem: esta Dilma ou o galeguinho (Eduardo)?". Cai o pano.

Jogo pesado
A Abert está preocupada com agressões a repórteres, fotógrafos e cinegrafistas em protestos na Copa. Em 2012, houve 52 casos. Ano passado, 136. A Associação quer a garantia dos governos de que os profissionais serão respeitados.

O JORNALISTA EDUARDO OINEGUE vai comandar o marketing da campanha do candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha.

Imagina na eleição - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 01/02

A arrecadação de R$ 1 milhão em menos de dez dias por Delúbio Soares para pagar a multa imposta pela Justiça no processo do mensalão chamou a atenção dos partidos. O líder do PMDB na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ), usa o caso como argumento para dinamitar a proposta em discussão no STF que permite apenas doações de pessoas físicas em campanhas. "Só o PT vai ter dinheiro. Se da cadeia ele arruma isso, imagine o PT na Esplanada", dispara o aliado.

Vantagem 
Além disso, pondera o deputado, só o PT tem militantes em número suficiente para arrecadar grandes quantias. "Por isso o PT apoia o financiamento público, para dominar as futuras eleições sozinho."

Pendente 
No ano passado, o STF começou a analisar a ação proposta pela OAB que propõe a proibição de doações de empresas a campanhas, mas suspendeu o julgamento após pedido de vista do ministro Teori Zavascki.

Topa? 
Após a bem-sucedida campanha para arrecadar fundos para José Genoino, um grupo do PT paulista convidou o advogado do ex-deputado, Luiz Fernando Pacheco, para ser candidato a deputado federal.

Melhor não 
O criminalista, no entanto, recusou o convite e esclareceu que não é filiado a nenhum partido. "Sou um advogado que, circunstancialmente, defende um grande petista."

Jogral 1 
A coordenação da campanha de Dilma Rousseff se reuniu em Brasília anteontem para discutir a participação dela e de Lula nos programas estaduais do PT que vão ao ar em fevereiro.

Jogral 2 
A ideia é que a dupla faça falas específicas de acordo com os cenários das disputas estaduais.

Logística 
Além disso, a campanha terá um escritório em Brasília e outro em São Paulo, onde Lula deverá passar a maior parte do tempo.

Nossa vez Dilma deve conversar com Michel Temer na segunda-feira sobre a reforma ministerial. O vice-presidente tem recebido queixas de peemedebistas pela demora da presidente em definir o espaço da legenda na nova configuração da Esplanada.

Coadjuvante 1 
Rui Falcão planeja um giro pela região Norte na próxima semana para acertar o apoio do PT a candidatos a governador de outros partidos. O roteiro inclui o Amapá, onde a sigla articula uma aliança com Camilo Capiberibe (PSB).

Coadjuvante 2 
Falcão também deve passar pelo Pará. A direção nacional quer apoiar Helder Barbalho (PMDB), filho de Jader Barbalho, ao governo do Estado.

Alô Aécio Neves (PSDB) ligou para parabenizar Eduardo Campos (PSB), seu provável adversário na disputa presidencial, pelo nascimento do filho Miguel. O tucano deve visitar o pernambucano nos próximos dias.

Vai... 
Aliados de Campos dizem que ele não vai se envolver diretamente na campanha do neoaliado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) à reeleição para o Senado.

... que é sua 
O pessebista não gostaria de ter seu nome associado a uma candidatura que será carimbada como inimiga de Lula. "Eduardo fará como o Faustão: dirá a Jarbas que se vire nos 30", diz um observador da cena política pernambucana.

Sem feudos 
Prestes a concretizar a reforma de seu secretariado, Geraldo Alckmin (PSDB) sinalizou a auxiliares que não vai deixar o governo nas mãos de secretários-adjuntos cujas indicações sejam meramente políticas. Ele pede nomes técnicos.


tiroteio
"As previsões econômicas de Alexandre Tombini para a economia transformam o país de gigante em anão adormecido."
DO DEPUTADO VAZ DE LIMA (PSDB-SP), sobre as previsões do presidente do Banco Central, diante das perspectivas de crescimento do PIB de 2% em 2014.

contraponto

Voto vencedor
Em 1978, enquanto cursava direito na Uerj, o hoje ministro do STF Luís Roberto Barroso editava o jornal da universidade, chamado "Andaime", que se opunha ao regime militar. Em entrevista ao tabloide, o jurista Sobral Pinto declarou ser contra a mulher trabalhar e disse que a ala progressista da Igreja queria "batizar o marxismo".

A redação se dividiu, e muitos estudantes defendiam que a entrevista não fosse publicada. Barroso opinou:

--Discordo das posições do doutor Sobral, mas, se somos contra a censura, não podemos ser censores.

Sua opinião prevaleceu, e a polêmica entrevista saiu.