sexta-feira, janeiro 17, 2014

Vendas do comércio, o pior do melhor - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 17/01

Ritmo do varejo no final de 2013 foi o pior de uma década impossível de repetir e ainda bem bom


O RITMO DAS VENDAS do comércio não cresce tão pouco desde o final da crise dos anos horríveis de 2001 a 2003. O aumento da vendas do comércio em outubro e novembro de 2013 foi o menor desde meados de 2004 (na medida do crescimento acumulado em 12 meses).

Essa é uma constatação que rende afirmações e manchetes do tipo "comércio tem o pior ano em uma década". É verdade e não é.

Para começar, o que quer dizer "o comércio não cresce tão pouco"? Até novembro, dado mais recente disponível e divulgado ontem pelo IBGE, o comércio cresceu 4,4% (nos 12 meses contados até novembro). Só na China 4,4% é "pouco".

Mas 4,4% é um ritmo muito inferior ao registrado de 2004 a 2012. Nesses anos, o crescimento médio anual foi de incríveis e de fato chineses 7,9%. Trata-se de um ritmo suficiente para mais que dobrar o volume de vendas do comércio em uma década. Entre 2004 e 2012, a população brasileira cresceu uns 13%.

Não parece possível repetir os anos de disparada do consumo dos anos douradinhos de 2004 a 2012, em parte movido a um aumento rapidíssimo do crédito, da redução do desemprego (da casa dos 12% para 5%), de aumentos reais de salários e de aumentos reais de transferências sociais.

Nesses anos, a capacidade de endividamento das famílias diminuiu, a capacidade de endividamento do governo foi para o bico do corvo e o Brasil passou a consumir demais no exterior, a ter deficit externo e depois deficit externo no nível chatinho de agora (isto é, de certo modo, passou a "tomar emprestado" cada vez mais no exterior a fim de consumir). Como cereja desse bolo, indicador do limite da alta do consumo, temos inflação persistente a 6%.

Em suma, como o país tem crescido mais devagar, há limites para o crescimento do total dos salários. Não havendo mais aumento de crédito, o consumo segue mais ou menos o ritmo do crescimento salarial mais comedido.

Isto posto, mesmo no momento de baixa desse ciclo animado, o consumo cresce a 4,4% ao ano, talvez ainda um pouco acima das nossas possibilidades de agora. Quão acima das nossas possibilidades é a questão interessante.

O Banco Central continua a elevar a taxa de juros a fim de, obviamente, limitar o consumo e conter as expectativas de que a inflação vai desgarrar dos 6%.

Dados outros problemas, qual seria, pois, a perspectiva de crescimento do consumo nos próximos anos?

Em relatório publicado ontem, os economistas do Itaú Unibanco Aurélio Bicalho e Luka Barbosa acreditam que o ritmo do próximo biênio será ainda mais fraco que o do final do ano passado.

"Nosso cenário é de moderação do crescimento do varejo. O crescimento mais lento da massa salarial real, o menor nível da confiança dos consumidores, o aumento das taxas de juros reais e o ritmo moderado de crescimento do crédito são compatíveis com um ritmo de expansão do varejo mais próximo de 3,0% a 3,5% anualizados neste ano e no ano que vem", escreveram os economistas.

Horrível? De dezembro de 2001 a março de 2004, o crescimento das vendas foi SEMPRE negativo (no acumulado em 12 meses), chegando a cair mais de 4%.

Fraqueza industrial - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 17/01

O economista Regis Bonelli acha que fazer a conta da balança comercial por setor dá uma visão distorcida da economia, mas, às vezes, é ilustrativo. O déficit comercial da indústria saltou de US$ 9 bilhões, em 2007, para US$ 105 bilhões, em 2013.O superávit do agronegócio no ano passado foi US$ 82 bilhões. “A maior parte da importação de produtos industriais foi feita pela própria indústria”, esclarece Bonelli.

Os grandes superávits eram fundamentais quando o país não tinha reservas, mas o déficit industrial publicado esta semana pelo “Estado de S. Paulo" assusta realmente. O crescimento do déficit foi alto e acelerado, como se pode ver no gráfico abaixo, de importações e exportações da indústria. O que levou a isso?

O Ministério do Desenvolvimento explica que, entre os bens manufaturados, as importações que mais cresceram desde 2007 foram máquinas e equipamentos, 16%; eletroeletrônicos, 12,7%; derivados de petróleo, 11%; automóveis, 10%; e os setores químicos, de adubos, plásticos, que ficaram entre 4% a 5%.

As importações de bens de capital permitem a modernização da indústria, necessária ao Brasil. É investimento. O aumento forte da importação de derivados de petróleo é resultado do incentivo ao consumo de gasolina. São importações de natureza diferente.

— A grande explicação para o déficit é que o Brasil vem perdendo competitividade pelos problemas que conhecemos: logística deplorável, complicações burocráticas na exportação, carga tributária alta. Mas eu elegeria a logística como o pior problema — diz Bonelli.

O que o professor da Fundação Getúlio Vargas prevê é que este ano o déficit deve diminuir por razões cambiais.

— O dólar já subiu no ano passado e deve continuar subindo. Isso leva um tempo para ter efeito positivo nas exportações. O Banco Central continua com sua política de rações diárias para evitar a desvalorização mais forte do real, mas é uma tendência internacional provocada pela mudança da política monetária americana. Com dólar mais alto, o déficit do turismo vai cair e a balança comercial terá um superávit um pouco maior do que o de 2013.

O essencial permanece sem solução: como fazer para a economia brasileira ser mais competitiva. O estudo do Conference
Board, um centro de estudos que apresenta anualmente dados de produtividade dos países, mostrou que
no mundo inteiro está diminuindo o ritmo de alta da produtividade. Continua subindo, mas mais lentamente em todos os países, inclusive na China. Tanto a produtividade total quanto a do trabalho. O inquietante é que o Brasil sobe menos que a média.

A indústria ou os setores industriais gostam de mostrar os déficits setoriais para pedir ao governo o de sempre: barreiras à importação. O automobilístico conseguiu que barrassem o importado, desde que não fosse o que as empresas instaladas no Brasil importam. O nome disso é protecionismo. Além disso, o lobby industrial pede redução de impostos. Se fosse uma redução horizontal, aumentaria a eficiência da economia, mas só alguns ganham os bons bocados.

O que o déficit de US$ 105 bilhões na indústria informa é que a política industrial do governo, baseada em distribuição de benefícios setoriais, não está funcionando. O que o superávit do agronegócio informa é que a lavoura é a salvação da lavoura. O agronegócio deveria se concentrar na luta por uma logística melhor, que aumentaria sua eficiência. Mas as lideranças focam bandeiras que fazem o setor parecer inimigo do meio ambiente. Um erro estratégico.

A ‘tungada’ da Caixa na caderneta de poupança - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 17/01

Um dos grandes patrimônios reais e emblemáticos para os brasileiros, especialmente os de menor renda, a caderneta de poupança não está imune à incompetência reinante na administração petista. Especialista na “contabilidade criativa” que desmoraliza o pouco que resta de sua reputação na área econômica, o governo de Dilma Rousseff se vê aturdido diante de mais um escândalo, desta vez envolvendo a Caixa Econômica Federal, que protagonizou uma espécie de confisco secreto em mais de 525 mil contas e usou esse dinheiro para inflar seu lucro em 2012 e distribuir maiores dividendos para o governo.

Segundo reportagem publicada pela revista “Istoé”, uma auditoria realizada pela Controladoria-Geral da União aponta que a Caixa encerrou 525.527 contas supostamente sem movimentação por até três anos e com valores que variam entre R$ 100 e R$ 5 mil. O saldo ilegalmente “tungado” dos poupadores foi lançado como lucro no balanço anual da instituição, sem que os correntistas ou os órgãos reguladores do sistema financeiro nacional fossem comunicados, somando um montante de R$ 719 milhões confiscados irregularmente.

A Caixa alega que encerrou as contas que apresentavam falhas cadastrais, mas a rapinagem escandalosa sobre mais de meio milhão de poupadores descumpriu a legislação. A resolução 2025/ 1993 do Conselho Monetário Nacional trata do encerramento de contas abertas “com documentação fraudulenta”, quando há indícios de crime contra a administração pública, mas é necessário obter autorização judicial para cada um dos casos. Além disso, a circular 3006/2000 do Banco Central prevê autorização do cliente para o fechamento da conta.

Sem qualquer embasamento legal, a Caixa tampouco encontra respaldo lógico em sua constrangedora tentativa de justificar o injustificável. Afinal, como as 525 mil contas encerradas estavam “inativas” se a caderneta de poupança rende mensalmente? E como insistir na tese de que a operação seguiu os preceitos legais se o próprio Banco Central determinou expressamente que o dinheiro “tungado” dos poupadores seja retirado do balanço financeiro da Caixa e volte para o passivo da instituição?

Esta não é a primeira vez que a Caixa protagoniza trapalhadas sob a chancela do governo petista. Em maio do ano passado, o banco alterou o calendário de pagamentos do Bolsa Família sem aviso prévio aos beneficiários, o que provocou correria às agências. Em um único fim de semana, mais de 1 milhão de pessoas realizaram 920 mil saques no valor total de R$ 152 milhões. Depois de acusar a oposição de criar boatos sobre o suposto fim do programa, o governo se viu obrigado a recuar e o próprio presidente da Caixa pediu desculpas pela lambança.

“tungada” na caderneta de poupança nos remete ao absurdo cometido pelo ex-presidente Fernando Collor, que confiscou parte das contas dos brasileiros e gerou um profundo trauma no imaginário popular. Mais de 20 anos depois, os petistas parecem ter se inspirado no antigo adversário, hoje fiel aliado de Lula e Dilma, para ludibriar os brasileiros e inflar o erário.

Além de desmoralizar ainda mais um governo que se arrasta com a credibilidade no chão, o confisco arbitrário da Caixa aumenta a desconfiança em relação ao Brasil e causa enorme prejuízo a correntistas e acionistas. O país não pode mais conviver com tamanho desmantelo e tantas ilegalidades.


Na Argentina, o governo não se move. O resto, sim - CARLOS PAGNI

O GLOBO - 17/01

Sindicalistas e empresários se mobilizam em diversos encontros para elaborar uma agenda para o país, com vistas às eleições presidenciais de 2015 e depois


O país surfa uma onda de infortúnios que começou a se formar nos motins policiais e nos saques, ganhou volume com o colapso energético e se mantém em alta com a inflação acelerada e a perda de reservas. As turbulências encontram no governo uma presidente quase ausente e um Gabinete invertebrado. O desassossego não corrói apenas o kirchnerismo. Também tira da letargia a oposição. E, num ano sem eleições, dinamiza as organizações sociais.

Hugo Moyano (CGT) e Luis Barrionuevo (CGT dissidente) iniciaram gestões para unificar o movimento. Na Sociedade Rural Argentina (SRA), as principais organizações do empresariado começaram a elaborar uma agenda para comprometer os principais candidatos presidenciais em 2015. A sociedade civil começa a interpelar a política.

Barrionuevo e Moyano fizeram uma exibição de força ao alinhar a totalidade do sindicalismo dos transportes: caminhoneiros, pessoal dos ônibus, ferroviários e aeronautas. Está implícita a capacidade de parar o país. Porém, como estão acostumados a que Cristina Kirchner os responsabilize por todas as pragas que a afetam, Moyano e Barrionuevo preferem dissimular esse poder. Por isto, ao terminar a entrevista, disseram que, ao buscar a unidade da CGT, pretendem garantir a paz social.

Os dois convocaram novo encontro para o dia 20. Antes, entrarão em contato com o secretário-geral da CGT-Balcarce, Antonio Caló, e José Luis Lingeri, do Sindicato de Obras Sanitárias, para que a esta segunda assembleia compareçam também os sindicatos ligados ao governo. O objetivo é avançar rumo à unidade sindical em março. A esta altura, estarão reunidas as paritárias, discutindo os reajustes salariais. Casualidade zero: a convergência sindical pretende fazer frente a uma política cuja sobrevivência depende da queda do salário real.

A inovação mais destacada é que, para a reunião do dia 20, também estarão convidados os candidatos presidenciais do peronismo hoje: o deputado Sergio Massa e os governadores Daniel Scioli e José Manuel de la Sota. Os organizadores querem que os três escutem suas propostas e exponham os programas que estão elaborando. O maior desafio é o de Scioli: anfíbio como sempre, negocia com “hereges”, como De la Sota e Moyano, mas não se separa de Cristina.

Os sindicalistas pretendem fazer contato com os empresários, que também começaram a se reunir. Mas, nas entidades agropecuárias, dos bancos e na União Industrial Argentina (UIA) existe alguma prevenção. Querem estar seguros de que não serão usados em manobras que afetem a estabilidade de Cristina em benefício de algum candidato a sucedê-la. Quem seria esse candidato? Massa, cujos reclamos ao governo são cada dia mais urgentes? Ou Scioli, que analisou com De la Sota a eventualidade de um final abrupto do kirchnerismo? Os empresários que se reuniram na SRA decidiram que seus encontros serão públicos. A intenção é reduzir a segmentação do campo empresarial para levar uma proposta ao governo e aos candidatos para 2015.

A reunião na Rural foi o resultado de conversações mais ou menos discretas, que começaram aos cuidados de Jaime Campos, na Associação Empresarial Argentina (AEA) e se deslocaram depois a outras entidades. O antecedente imediato foi um encontro no Hotel Intercontinental, convocado pela Mesa de Enlace da agropecuária e os grupos Crea (Consórcios Regionais de Experiências Agrícolas), a que compareceram dirigentes da área industrial.

A assembleia foi preparada por Luis Miguel Etchevehere, presidente da Rural (SRA), em consulta com o filósofo Santiago Kovadloff. A assistência foi heterogênea: estiveram as entidades do campo, a UIA, AEA, Adeba (bancos nacionais), ABA (bancos estrangeiros), Câmara Argentina de Comércio, as câmaras de Comércio da Espanha, dos EUA e do Brasil; ACDE (empresários cristãos), Idea (Instituto para o Desenvolvimento Empresarial da Argentina), Comissão de Justiça e Paz e o Colégio de Advogados, entre outras.

O grupo, que se apresenta como Fórum de Convergência Empresarial, voltará a se reunir no dia 28. Entre os participantes circula um texto de Kovadloff que resulta de intercâmbio com vários empresários. O documento sustenta que o país tem um problema de natureza política, pela dificuldade que enfrenta uma liderança desarticulada para promover uma mudança modernizadora; e defende a ativação de uma rede setorial com o objetivo de distender o clima público este ano e criar uma agenda para além de 2015.

O Brasil não pode ser uma ilha - PEDRO LUIZ PASSOS

FOLHA DE SP - 17/01

É hora de a política de comércio exterior permitir que se rompa o isolamento do país na economia global


A intensa proliferação de acordos comerciais eleva ao grau de urgência a definição de uma nova política de comércio exterior para o Brasil, de forma a romper o isolamento internacional a que o país se submeteu nos últimos anos.

A falta de ação nessa área retarda ainda mais nossa integração à economia globalizada e atrasa a retomada do crescimento interno. A estratégia para dar mais fluidez às relações de troca com outras economias exige ações em diversas frentes --entre elas os acordos comerciais merecem atenção especial.

O país ficou à margem do forte movimento de negociações bilaterais que modificou a dinâmica nos fluxos comerciais e redesenhou o mapa de produção ao redor do planeta. Dados da OMC (Organização Mundial do Comércio) mostram que os acordos deixaram de ser só instrumentos para facilitar transações comerciais e se tornaram o motor na evolução do intercâmbio global.

Em 1991, a entidade contabilizava 50 acordos em vigor. Dez anos depois, o número já havia saltado para 200, e, em julho de 2013, atingiu o patamar de 379. Os Estados Unidos participam de 14 tratados desse tipo, enquanto a União Europeia está envolvida em 35.

Ao priorizar as negociações multilaterais em detrimento dos acordos preferenciais, o Brasil assumiu o papel de espectador nesse processo. A pujança do mercado interno contribuiu para tal alienação, como se o incentivo ao consumo local e o estímulo ao intercâmbio internacional fossem excludentes.

As raras iniciativas para estreitar relações comerciais externas ocorreram por intermédio do Mercosul e da Aladi (Associação Latino Americana de Integração), mas a falta de vigor de ambos não permitiu avanços substanciais.

Mesmo os poucos acordos firmados diretamente com outros países se revelaram excessivamente modestos, tanto no número como na relevância dos parceiros e na abrangência dos termos negociados, limitados a tarifas preferenciais e sem aprofundar questões importantes como o acesso a mercados e serviços.

O isolamento internacional do Brasil poderá se aprofundar caso o país não se integre à tendência de mega-acordos, desencadeada em 2011 com o lançamento da TPP (Trans-Pacific Parnership), que envolve Estados Unidos e outros 11 países de três continentes, e com a TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), reunindo EUA e União Europeia, cujas bases foram estabelecidas no ano passado.

Distante dessa movimentação, o Brasil deixará de usufruir dos benefícios destinados aos países participantes, como tarifas especiais, padronização de procedimentos e desburocratização, entre outros. Bens exportados atualmente por empresas brasileiras passarão a sofrer concorrência mais acirrada por parte de mercadorias produzidas em países signatários de tais acordos.

Além disso, com a multiplicação no número de tratados comerciais, as vantagens que o Brasil usufrui em acordos ora vigentes poderão deixar de existir, já que outros países conquistarão condições semelhantes.

Vale lembrar o exemplo do Chile, que celebrou anos atrás um acordo com o Mercosul, garantindo acesso preferencial para produtos e serviços do bloco vizinho. O país, porém, firmou vários outros acordos com economias de peso no cenário mundial, como EUA, China e União Europeia, o que, na prática, anula parte dos benefícios concedidos originalmente aos membros do Mercosul.

Ou seja, a demora em formular políticas comerciais adequadas coloca nossa economia diante de duas ameaças imediatas: não colher os ganhos gerados por novos acordos e perder acesso privilegiado já existente a mercados no exterior.

A lenta inserção do Brasil na economia internacional também inibe o seu desenvolvimento econômico. A pouca exposição à concorrência externa não estimula investimentos em inovação e gestão empresarial.

A intensificação no fluxo de comércio com outros países, tanto na importação como na exportação, possibilitaria a integração às cadeias globais de valor, permitindo o acesso a insumos mais baratos e tecnologias mais avançadas. Assim, uma política de comércio exterior que rompa o isolamento brasileiro traria ganhos para toda a economia.

Uma condição é necessária para que isso ocorra: o Brasil precisa rapidamente ganhar competitividade, o que, por seu turno, requer que sua produtividade aumente e que o governo desenvolva bons programas em educação e infraestrutura.

Toma lá dá cá e Dilmalalá - DAVID FRIEDLANDER

FOLHA DE SP - 17/01

SÃO PAULO - Que tal dar um ministério de R$ 8,5 bilhões (Integração Nacional) ao PTB em troca de 39 segundos a mais na propaganda eleitoral de TV? Ou manter a pasta das Cidades (orçamento de R$ 24 bi) com o PP para ganhar um minuto e 18 segundos? O PMDB já tem cinco ministérios, mas quer mais um. Tem dois minutos e 18 segundos para oferecer. E, claro, ainda há o recém-criado Pros com seus importantíssimos 21 segundos no horário eleitoral.

Em essência, esse é o jogo na reforma ministerial que a presidente Dilma negocia com os políticos. Para amarrar o apoio dos partidos a seu projeto de reeleição, ela oferece parte das vagas abertas pelos ministros que vão disputar as eleições.

Tudo para ampliar o número de palanques nos Estados e, principalmente, garantir o maior tempo possível na propaganda eleitoral de rádio e TV. Os partidos, por sua vez, chantageiam porque querem verbas para liberar, usar a máquina pública a seu favor e o contato direto com fornecedores do governo, potenciais financiadores de campanha.

Melhorar a eficiência do governo ou competência para os cargos raramente entram nesse tipo de conversa. Deveriam. Uma das críticas ao trabalho de Dilma é que ela se cercou de gente que tem medo dela, diz "sim, presidenta" a tudo, e a ausência de contraponto teria contribuído para o fraco rendimento em algumas áreas.

Barganha política e loteamento de cargos são valores já arraigados na política brasileira. Apesar das provas de que essa prática explica boa parte da ineficiência e da corrupção no setor público, políticos de todos os partidos usam o toma lá dá cá para se reeleger ou fazer sucessores.

É uma pena, mas parece que pouca gente se espanta com isso. Na última campanha presidencial, vendeu-se a ideia de que Dilma era uma dessas pessoas: não gostava dos políticos, não tinha estômago para a barganha, era uma "gerentona" obcecada por gestão, cobrava resultados. Não é o que parece agora.

Casamento de fachada - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 17/01

O PT é um parceiro difícil e, convenhamos, o PMDB também não é fácil. Nunca se deram bem, entre outros motivos porque nada têm em comum: desde a origem, o jeito de agir, os personagens, as identidades; são entes feitos de massas completamente diferentes.

Ainda assim, a partir do segundo governo de Lula da Silva resolveram se casar oficialmente. Nada a ver com amor. A regra do interesse sempre foi clara: o PT entra com os lotes da administração federal e o PMDB, com a força no Congresso, resultantes de grandes bancadas conseguidas a partir da máquina partidária País afora e dos instrumentos recebidos do poder central para "fazer política".

A insatisfação entre os nubentes também sempre foi nítida. Reclamações de parte a parte, mas o reconhecimento de que precisavam um do outro.

Agora, contudo, depois de quase oito anos de convivência forçada, nada mais une um partido ao outro e quase tudo parece desuni-los. A motivação da aliança vai desaparecendo. O PMDB não recebe do PT os mecanismos considerados eficientes para "fazer política" - ministérios com dinheiro, obras e visibilidade - e por isso mesmo o partido está cada vez menos disposto a ceder palanques aos petistas nos Estados.

Teme perder esse espaço que lhe assegura peso congressual, deixando de eleger grandes bancadas. Nas contas para governos estaduais, os pemedebistas por ora vislumbram chance de vitória em Rondônia, Amazonas, Ceará e Bahia. Pouco para uma legenda cuja força é regional e precisa cuidar dessa seara.

O PMDB quer o Rio de Janeiro e em Minas já faz movimentos em direção ao PSB. Como ninguém atende ao interesse de ninguém nessa aliança, é de se perguntar o que ainda os une além do desejo de Michel Temer de ser vice, de Henrique Alves e Renan Calheiros de presidir mais uma vez a Câmara e o Senado.

O partido como um todo anda indisposto a se manter fiel a projetos individuais de expectativas não realizadas. Percebe o risco à sobrevivência do coletivo e chegou à conclusão de que onde houver os chamados palanques duplos Dilma e Lula darão preferência ao PT, deixando o PMDB no ora veja.

Como, aliás, já fizeram em outros carnavais.

Aposta real. Parecia blefe, mas a insistência do PMDB em manter candidatura própria ao governo do Rio de Janeiro é "à vera". Pelo seguinte: o partido tem certeza de que o vice-governador Luiz Fernando Pezão chega ao segundo turno.

Conta com as máquinas no Estado e da Prefeitura e não seria contaminado pelo desgaste do governador Sérgio Cabral exatamente pelos atributos opostos aos que fizeram Cabral ser mal avaliado: deslumbramento, imprudência e arrogância.

Pezão é bem quisto, pé de boi e refratário a excessos sociais. O PMDB acha que, partindo do patamar de 25% de aprovação de Cabral, o vice multiplica o patrimônio assim que o governador se afastar da cena.

Sobre os adversários a avaliação é a seguinte: PSDB e PSB estão fora do páreo. No campo governista, Anthony Garotinho e Marcello Crivella têm boa largada, mas teto insuficiente para uma boa chegada. Lindbergh Farias, do PT, não deslanchou ainda.

Verdade seja dita, em boa medida por ação de Cabral junto a Lula para que o PT não saia do governo e, assim, impeça o petista de fazer oposição contundente ao PMDB.

Mal menor. O PSDB não vê grandes danos na adesão do PPS ao PSB (agora ameaçado pela resistência de Marina Silva em apoiar Geraldo Alckmin em São Paulo).

Significa apenas 15 segundos de acréscimo na propaganda eleitoral, enquanto boa parte das alianças nos Estados está acertada entre os tucanos e Eduardo Campos. Notadamente para o segundo turno, onde houver.

Difícil travessia - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 17/01

O quadro econômico mostra-se muito mais precário do que o Planalto esperava. E é bem possível que se deteriore ainda mais



Faltam menos de nove meses. Mas as duas primeiras semanas do ano já foram suficientes para que o governo se desse conta de que ainda tem pela frente longa e difícil travessia até as eleições.

O quadro econômico mostra-se muito mais precário do que o Planalto esperava. E é bem possível que se deteriore ainda mais ao longo do ano. A perspectiva de crescimento da economia continua medíocre. A margem de manobra para manipulação da inflação e das contas públicas estreita-se a cada dia. E o governo agora caminha em gelo fino, assustado com a possibilidade de ter de lidar com os desdobramentos de um rebaixamento do risco soberano do país em pleno ano eleitoral, em meio à contração da liquidez internacional.

Não obstante a vigorosa repressão de preços administrados, a taxa de variação do IPCA terminou o ano encostada em 6%, depois de ter registrado a maior inflação de dezembro dos últimos 11 anos. Já não há mais dúvida de que o Banco Central vai de fato se permitir atravessar todo um mandato presidencial com a inflação substancialmente acima da meta.

Permanecem as preocupações com a evolução das contas públicas. A política fiscal continua claramente expansionista. E a disparatada ideia do ministro da Fazenda de antecipar a divulgação do resultado fiscal de 2013, para acalmar os mercados, acabou tendo o efeito inverso. Serviu tão somente para deixar claro que o governo já nem tenta fingir que tem um discurso minimamente coerente sobre a condução da política fiscal.

É inacreditável que, a esta altura dos acontecimentos, ainda se alegue que o que falta é explicar ao distinto público que a deterioração das contas públicas é simples consequência da necessidade de conciliar as demandas sociais com a queda de receita tributária. E que não há razões para preocupação com a evolução da dívida bruta porque, em contraste com que o que foi prometido e não cumprido no ano passado, o governo deverá afinal reduzir as transferências do Tesouro ao BNDES, em 2014, iniciando o que agora vem sendo pomposamente rotulado de “taperingdo BNDES”.

Mas a verdade é que nem mesmo o próprio Planalto acredita nesse discurso descosido. O governo tem plena consciência de o quão precário é o quadro econômico do País e da vulnerabilidade que isso representa para o projeto da reeleição. Sem possibilidade de assegurar redução crível dessa precariedade em tempo hábil, a presidente, em seu pronunciamento de fim de ano à Nação, preferiu apelar para a denúncia à “guerra psicológica” que instila “desconfiança injustificada” nas perspectivas da economia.

A indisfarçável insegurança do Planalto com a situação econômica do país tem sido fonte de grande tensão na coalizão governista. E, nesse clima tenso, o PT vem claramente enfrentando dificuldades para manter a frieza necessária para conduzir uma campanha eleitoral complexa que, com alta probabilidade, só terá desfecho no segundo turno. Basta ter em mente as desastradas diatribes apócrifas contra Eduardo Campos e Marina Silva publicadas na página oficial do partido no Facebook, na semana passada.

Mas não é só da economia que poderão advir dificuldades inesperadas. Fazer o amplo arco da base governista avançar no mesmo compasso, em movimento harmônico, nos próximos meses, será um grande desafio. E a presidente agora se dá conta de que marchar ao lado de certas falanges pode acabar sendo proibitivamente oneroso, como bem ilustra o tétrico e desgastante circo de horrores com que o governo teve se envolver na capital maranhense neste início de ano.

Na sexta-feira passada, os principais jornais do país estamparam imagens emblemáticas do ministro da Justiça, ao lado da governadora do Maranhão, em São Luís, contorcendo-se para tentar sair bem numa foto em que visivelmente não queria estar. Queixo apoiado no punho, em pose que lembrava “O pensador”, de Rodin, o ministro parecia se indagar que cálculo político ainda justificaria manter o projeto da reeleição atrelado a forças tão escancaradamente associadas à vanguarda do atraso no país.

Marcha a ré - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 17/01

BRASÍLIA - Da presidente Dilma, em pronunciamento na TV para o Primeiro de Maio de 2012:

"A economia brasileira só será plenamente competitiva quando nossas taxas de juros (...) se igualarem às taxas praticadas no mercado internacional."

"Vem daí o esforço que o governo faz para equilibrar a economia, o que tem permitido a queda contínua da taxa básica de juros. Vem daí a posição firme do governo para que bancos e financeiras diminuam as taxas de juros cobradas aos clientes."

"É inadmissível que o Brasil (...) continue com um dos juros mais altos do mundo. O Brasil de hoje não justifica isso."

"Os bancos não podem continuar cobrando os mesmo juros para empresas e para o consumidor enquanto a taxa básica Selic cai. (...) A Selic baixa, a inflação permanece estável, mas os juros do cheque especial, das prestações ou do cartão de crédito não diminuem."

Desde então, muita coisa mudou no Brasil, as taxas de juros deram marcha a ré e os motivos para ufanismo evaporaram-se.

Em abril de 2012, a taxa Selic estava em 9% e animadamente em queda, o que insuflava a satisfação geral, a autossegurança de Dilma e o trabalho dos marqueteiros. Chegou a 7,25%, a mais baixa da história.

Depois, porém, a Selic voltou a subir em abril de 2013, foi subindo, voltou aos dois dígitos, aumentou 0,5 ponto percentual (acima da expectativa) já na primeira reunião do Copom em 2014 e está em 10,5%, sem previsão de baixa.

Se pudesse, Dilma apagaria aquele pronunciamento. Os juros voltaram ao patamar de antes e, como aponta meu colega Gustavo Patu, "com a inflação pior".

Mas não foi só. Depois, vieram as manifestações de junho de 2013 e a popularidade de Dilma, que já tinha caído, despencou. Recuperou-se um pouco, mas, diferentemente dos juros, não voltou mais aos altíssimos patamares de antes.

Fichas limpas, fichas sujas - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 17/01

Proibição de inquéritos policiais por crimes eleitorais é aplaudida principalmente por políticos que têm alguma razão para não serem simpáticos a esses inquéritos



É muito raro acontecer, mas políticos governistas e de oposição estão unidos numa cruzada a favor de uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Entende-se essa união: o TSE proibiu que a Polícia Federal e o Ministério Público investiguem possíveis crimes eleitorais nas eleições deste ano.

Para os políticos, como o senador Cássio Cunha Lima, do PSDB, o MP precisa ser controlado. Parece óbvio que, como qualquer órgão público, suas iniciativas tenham de ser acompanhadas pela opinião pública e sujeitas às leis do país. Entende-se também, por triste motivo, a posição de Cunha Lima: ele certamente não se esquece que chegou a ser impedido de assumir o mandato, há três anos, em consequência de uma denúncia de promotores, com base na Lei da Ficha Limpa.

A resposta dos policiais à tomada de posição do TSE foi clara: em nota, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal afirma que é sua missão “instaurar investigação diante de qualquer crime que chegar ao seu conhecimento”. E acentua que, para isso, não precisará de autorização de um juiz (eleitoral, no caso). É uma afirmação óbvia: a agilidade nas investigações policiais é parte indispensável do êxito de suas ações.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ameaçou recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a decisão do TSE. E vale a pena não esquecer que ela foi recebida com aplauso — e certamente também com alívio — por políticos como o senador Cássio Cunha Lima, que teve sua posse ameaçada em 2011 por ter sido denunciado pelo Ministério Público Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa.

Muitas vezes, a qualidade de uma decisão, como essa do TSE, pode e deve ser aliada pela identidade de quem a defende. A proibição de inquéritos policiais por crimes eleitorais está sendo aplaudida principalmente por políticos que têm alguma razão para não serem simpáticos a esses inquéritos.

E ela está sendo condenada por membros do Ministério Público e delegados da Polícia Federal. Nenhum deles tem, que se saiba, interesses pessoais em jogo. Pelo visto, a proibição de inquéritos sobre possíveis crimes eleitorais nas últimas eleições pode e deve ser avaliada pela biografia de quem a defende. Ou seja, pelo grau de limpeza de sua ficha.

Memórias do Maranhão - FERNANDO GABEIRA

O Estado de S.Paulo - 17/01

Fui algumas vezes ao Maranhão. Não é, para mim, uma região distante que possa analisar racionalmente em laboratório. Gosto de lá e tenho apreensão por seu futuro.

Os primeiros contatos que tive com o Maranhão foram estimulados pelo interesse por Alcântara, uma bela cidade, ligada a São Luís pela Baía de São Marcos. Alcântara são ruínas deixadas pelos ricos que a abandonaram, levando consigo maçanetas de porta, janelas, tudo o que puderam carregar.

Em Alcântara trabalhei na mediação entre os interesses das comunidades negras e indígenas e a base espacial, marcada por fracassos e até uma tragédia. Minha hipótese era de que, recuperando o casario colonial, harmonizando o interesse de quilombolas, indígenas e a própria base, seria possível construir um modelo em que várias épocas do Brasil convivessem no mesmo espaço. Isso ampliaria as possibilidades turísticas do Estado. Quase ninguém se animou com a ideia.

Mais tarde voltei ao Maranhão para cobrir as enchentes em Trizidela do Vale. E, finalmente, fiz um trabalho em Buriti Bravo sobre saúde, tendo de percorrer hospitais e postos em vários pontos da região, incluindo cidades médias, como Caxias.

A visita da última semana a São Luís foi a segunda que fiz por causa dos conflitos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Cabeças decapitadas, superlotação, luta interna na cúpula da Segurança, quase tudo do mesmo jeito. Quase tudo porque o governo, em vez de refletir sobre a ideia de manter metade dos presos de todo o Estado num só presídio, contratou uma empresa de segurança de aliados.

A governadora Roseana Sarney afirma que dizer que o Maranhão é dominado por uma família há 48 anos se trata de ignorância ou má-fé. Para mim, soa como afirmar que é ignorante quem acredita que a Terra gira em torno do Sol.

O que os olhos me dizem em São Luís e outras cidades? Que a família Sarney é onipresente em nome de ruas, vilas, maternidades, escolas. O ponto máximo dessa ocupação simbólica é a transformação do Convento das Mercês numa espécie de museu José Sarney, mascarado sob a denominação Fundação da Memória Republicana Brasileira. Se vejo TV, ouço rádio, leio o jornal diário e pergunto quem são os donos, a resposta é sempre a mesma: a família Sarney.

Sarney ganhou uma dimensão nacional superior à importância política do Maranhão. Ele não só enriqueceu mais, mas também ocupou mais espaços no poder do que seu Estado natal ocuparia sem ele. Com a crise de Pedrinhas, o Maranhão ressurge no noticiário e é razoável examinar a trajetória de Sarney em relação ao Estado que domina há quase meio século.

Quando foi eleito governador, em 1966 Sarney foi tema de um filme de Glauber Rocha. Fazia discursos inflamados, prometia acabar com a corrupção, com a impunidade, enfim, revolucionar um Estado paupérrimo. Hoje o Maranhão tem 12% de miseráveis, mais da metade da população não tem banheiros. Sarney tornou-se poderoso, os empreendimentos da família cresceram, mas tudo indica que agora essa relação dominadora pode ser derrubada.

Sarney e Roseana são aliados do PT. Certamente se inspiraram na forma de argumentar do governo federal para se defenderem na crise. Roseana afirmou que o Maranhão se tornou violento porque ficou mais rico. Quem não se lembra, em junho de 2013, dos argumentos de que a prosperidade era a causa das manifestações de rua?

Mas ela errou o tom. Na mesma semana licitava lagostas e caviar para alimentar o Palácio dos Leões, como o próprio nome indica. Sarney também lançou mão da tática do governo federal: ressaltar um ou outro aspecto positivo e se fixar nele como tábua de salvação, como o ministro Aloizio Mercadante ao examinar o baixo resultado do Pisa ou o ministro Guido Mantega descrevendo criativamente os números da economia.

No Maranhão, disse ele, há conflitos nos presídios, mas não se espalham pelas ruas. E foi mais longe na tática de argumentação dos setores oficiais da esquerda: apontou para os problemas dos outros. Mencionou o Espírito Santo e Santa Catarina, onde houve conflitos de rua, até mesmo acabando com o carnaval capixaba. Horas depois, distritos policiais metralhados, ônibus incendiados, uma menina de 6 anos morta pelas chamas, em São Luís. Não estavam preparados para a crise precisamente porque todos esses anos de dominação criaram uma espécie de viseira, alimentada pela falta de uma imprensa independente mais forte, à altura do Maranhão.

Embora o declínio seja visível, a força de Sarney no Maranhão também o é. As eleições maranhenses podem ter dimensão nacional. O adversário mais bem colocado é o presidente da Embratur, Flávio Dino, do PC do B. Depois de 48 anos de dominação do clã, passar às mãos do PC do B não deixa de ser uma trajetória singular para um Estado com tanto potencial.

Como o campo da política é mais pantanoso, não se sabe até que ponto virão mudanças. A sensação que tive em São Luís é de que, ao menos na capital, há um desejo de romper com o longo domínio. Com baixos índices sociais e alto nível de violência, os sobressaltos na sociedade são tão imprevisíveis quanto na política.

Devo voltar ao Maranhão para filmar os búfalos que importaram para desenvolver uma região do Estado. Os búfalos multiplicaram-se tanto que arrasaram a lavoura, e continuam aumentando. Quem sabe, correndo por fora, os búfalos não se tornem também protagonistas de destaque no Estado? Eles dão carne, leite e queijo, mas devastam tudo o que há ao redor.

Isso me parece muito com o destino de um Estado que cresce, mas deixa um rastro de destruição, violência e miséria. Os poderosos estão felizes. Os búfalos, também.

José Sarney precisava ter acreditado nos seus discursos de 1966, quando se elegeu. Estão lá no filme do Glauber. Seguiu um caminho diferente. O filme agora é outro: poder, riqueza, glória e o mesmo povo pobre das imagens de Glauber.

Rolezinho e mistificações baratas - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 17/01

O pobrismo racialista é a mais vistosa manifestação de vigarice intelectual do jornalismo e da academia


Setores da imprensa e alguns subintelectuais, com ignorância alastrante, tentaram ver o "rolezinho" como manifestação da luta de classes. Os shoppings, chamados de "templos de consumo" por bocós dos clichês superlativos, seriam a expressão mais evidente e crua do "fetichismo da mercadoria", uma estrovenga que "sedizentes" marxistas não conseguem definir sem engrolar incongruências e abstrações inanes. Deu errado. Boa parte dos shoppings está nas periferias e é frequentada por pobres. Quando a luta de classes falha, é o caso de convocar a guerra racial.

Mais uma vez, a PM é vista como algoz, e "jovens pobres, negros e da periferia", como arautos de um novo tempo. Os deserdados da "modernização conservadora" teriam decidido invadir o espaço privado do capitalismo excludente: o shopping! Quanto besteirol, Santo Deus!

O "rolezinho", na sua atual configuração, é uma criação da imprensa. Os "brancos da nossa classe" fazem "flash mobs". Já os pobres negros, vistos com curiosidade antropológica, fazem "rolezinhos", que são exaltados em nome da diversidade. O pobrismo racialista é a mais vistosa manifestação de vigarice intelectual do jornalismo e da academia. Esse olhar que supostamente defende os "excluídos" acaba por confiná-los num gueto conceitual, numa jaula de boa-consciência.

Jovens que aderem a eventos por intermédio do Facebook não são excluídos sociais, mas incluídos da cultura digital, que já é pós-shopping, pós-mercadoria física e pós-racial. O que mais se troca nas redes sociais são bens simbólicos, são valores, que definem tribos e grupos com pautas cada vez mais específicas.

Está em curso, entre pobres e ricos, brancos e negros, uma espécie de fetichização, sim, mas é a da vontade. Cada um desses nichos de opinião considera que tem o direito de impor a sua pauta ou seus hábitos ao conjunto da sociedade --se necessário, pela força. Os que fazem "rolezinhos" não estão cobrando mais democracia, como quer a esquerda rosa-chique. Eles manifestam, na prática, é desprezo pela cultura democrática. E são bem-sucedidos. Fernando Haddad os chamou para uma reunião na prefeitura. A ministra Luiza Bairros lhes atribui uma agenda libertadora. Imposturas!

Não se percebia, originalmente, nenhuma motivação de classe ou de "raça" nessas manifestações. Agora, sim, grupos de esquerda, os tais "movimentos sociais" e os petistas estão tentando tomar as rédeas do que pretendem transformar em protesto de caráter político. Se há, hoje, espaços de fato públicos, são os shoppings. As praças de alimentação, por exemplo, são verdadeiras ágoras da boa e saudável democratização do consumo e dos serviços. Lá estão pobres, ricos, remediados, brancos, pretos, pardos, jovens, velhos, crianças... Lula, que é Apedeuta, mas não burro, jamais hostilizou essa conquista dos ex-excluídos. Só o cretinismo subintelectual cai nessa conversa.

Ocorre que o jornalismo e a academia são reféns morais das ideias mortas que oprimem o cérebro dos vivos. Continuam na expectativa da grande virada de mesa, uma ilusão redentora que só sobreviveu na América Latina. Se os participantes dos "rolezinhos" fossem rebeldes políticos, ainda que primitivos, o seu papel seria o de uma protovanguarda revolucionária à espera do Lênin dos shoppings.

Para encerrar, uma curiosidade: por que jornalistas se referem a frequentadores habituais de shoppings como "gente de bem", assim, entre aspas, como se quisessem sugerir que eles, na verdade, são do mal? O que há de errado, coleguinhas, com aquela gente? Ela assina os jornais e revistas que fazemos, lê as coisas que escrevemos nos portais, sites e blogs e, na prática, paga os nossos salários. Quando menos, parem de cuspir no prato em que comem. Aquela gente de bem, sem aspas, é inocente.

Francisco e Pedrinhas - RENATO FERRAZ

CORREIO BRAZILIENSE - 17/01

O PMDB anda chantageando publicamente o governo Dilma Rousseff por mais "espaço" - e isso ainda causa, curiosamente, dois tipos de surpresa. A primeira, que alguém ainda se surpreenda com isso (até manchete de jornais e sites o fenômeno virou); a segunda, que esse comportamento ainda mereça análise como a que farei neste espaço.

Brincadeiras à parte, valho-me dos inteligentes comentários dos leitores do site do Correio Braziliense: um diz que o PT vai chutar o PMDB de todos os governos estaduais em que ambos eram aliados (coincidentemente, os sofridos Maranhão e Rio de Janeiro) e depois simplesmente o abandonará; outro, em seguida, avalia que os peemedebistas mudarão de partido e continuarão desmandando em Pedrinhas. Acrescento: e usando aviões da FAB para implantar cabelos,  esfaqueando-se por diretorias de estatais, ameaçando, constrangendo, jogando.

Infelizmente, ambos têm razão: é esse, afinal, o modo de se operar politicamente no Brasil. O PMDB é apenas a face mais à mostra desse quadro nefasto, em que fundador da UDR junta-se à melhor amiga de Chico Mendes e no qual há quem ouse pregar uma "nova política" juntando todos os "velhos métodos" de cooptação.

Por isso, já há uma campanha para que Francisco, o papa, seja candidato avulso à Presidência da República do Brasil. Afinal, ele tem encarado com rara coragem a burocracia do Vaticano - que, como a nossa, é envenenada e intoxicada por intrigas, interesses mesquinhos.

Francisco sabe que alguns cardeais não são nada altruístas. Aliás, um parêntese: por que certos colegas jornalistas chamam os líderes do PMDB, principalmente, de cardeais? Logo agora, que o calmo e corajoso argentino começou a se livrar de alguns "eternos" - como Piacenza, Bertone, Burke. Um deles, aliás, "avaliou", quase como uma ameaça, a possibilidade de que os funcionários do Vaticano ignorem a agenda papal. Já vimos isso por aqui, não?

Bem, Francisco, no fundo, está fazendo o que esperávamos de Lula e Dilma: olhar para os pobres, sim; esquecer de desmantelar os círculos de poder de castas empresarial, sindical, funcional ou cardinalícia, jamais.

Descaso na educação - PRISCILA CRUZ

O GLOBO - 17/01

Crianças maranhenses estão atrás do resto do país


O Maranhão é um retrato de absoluto descaso com os mais fundamentais direitos humanos. Para falar só de educação, o estado conta com alguns dos piores indicadores em um país que já não tem indicadores muito bons.

Desde cedo, crianças maranhenses estão muito atrás do resto do país. De acordo com a Prova ABC, ao fim do 3º ano do ensino fundamental, só 27,9% delas são proficientes em leitura, 10% em matemática e 13% em escrita. As médias brasileiras são respectivamente 44,5%, 33,3% e 30%. Ou seja: o Maranhão tem menos de metade dos resultados já ruins do país, sendo que essas crianças estão apenas iniciando a trajetória escolar.

Observando a outra ponta, vemos que, no Maranhão, somente 45% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados no ensino médio, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Apenas 38% dos jovens de 19 anos que conseguiram chegar a essa etapa de ensino no estado a concluíram e, entre eles, só 11,8% aprenderam o mínimo adequado em língua portuguesa, e 1,6% em matemática.

A renda média dos demais 79.576 jovens dessa idade que não têm o ensino médio completo é de menos de 500 reais por mês. O estado está condenando essas pessoas a um ciclo perverso de desigualdade.

No sistema carcerário do Maranhão, palco das atrocidades que chocaram o país nos últimos dias, a cobertura educacional é precária: a taxa de matrícula de pessoas com privação de liberdade era de apenas 5% em 2012, segundo dados do InfoPen (Ministério da Justiça). Aqueles que não chegaram ao fim do ensino médio somavam então 91%, e, entre eles, a grande maioria sequer completou o ensino fundamental.

É urgente que haja maior prioridade, atenção e ação para rompermos a situação de calamidade da educação no Maranhão há anos. Até quando vamos remediar desastres anunciados? Não seria o caso de o Brasil acordar de vez para a importância estratégica e humanitária da educação das nossas crianças e jovens? Resta alguma dúvida sobre qual é a área em que deveríamos estar investindo prioritariamente nossos recursos para mudarmos de patamar e conquistarmos um Brasil que seja realmente de todos?

Entre o urgente e o importante, chegamos ao ponto de ter que lidar com ambos ao mesmo tempo. A vida de muitas crianças e jovens depende de nós — uma parte muito pequena de pessoas privilegiadas que acordam de manhã e pegam o jornal para ler. Depende de nós demandar uma nova prioridade estratégica para o país de olhar o futuro de forma mais generosa para com toda a população brasileira, principalmente para aqueles que, mesmo sendo a maioria, têm pouca voz e influência.

Chegou a hora de a indignação se voltar para os milhões de crianças maranhenses e brasileiras cujo direito à educação é negado.

Mais uma Batalha de Itararé - LUIZ CARLOS AZEDO

CORREIO BRAZILIENSE - 17/01

Uma decisão agora seria arriscada: poderia provocar uma romaria de peemedebistas a São Bernardo do Campo para pedir ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que seja o candidato do PT

Itararé, a 320 quilômetros de São Paulo, guarda com carinho a foto histórica que mostra restos mortais de soldados gaúchos do 8º Regimento de Passo Fundo sendo retirados das sepulturas, em 1934, para o traslado à terra natal. Seria a prova de que Itararé resistiu aos invasores, nas Revoluções de 1930 e de 1932. Na divisa do Paraná com São Paulo, a cidade ficou conhecida pela “batalha que não houve” entre as tropas federais do coronel Paes de Andrade e o general Miguel Costa, comandante das tropas gaúchas lideradas por Getúlio Vargas em 1930. A batalha decisiva para a derrubada da República Velha havia sido anunciada com estardalhaço, mas com a rendição de Paes de Andrade, as tropas revolucionárias entraram em Itararé sem disparar um tiro. Dois anos depois, no mesmo lugar, os constitucionalistas paulistas amargaram nova derrota para as forças federais. “Nossa cidade entrou para a história pela porta dos fundos e virou motivo de piada”, diz o historiador José Maria Silva, em seu livro As batalhas de Itararé, editado em 1997. Segundo o jornalista e pesquisador Hélio Porto, as ossadas recolhidas no cemitério local são de soldados mortos na Revolução Constitucionalista de 1932.

Desde então, a política brasileira é pródiga em batalhas de Itararé. Nesta semana, assistimos a mais uma, entre a presidente Dilma Rousseff e o PMDB. A cúpula do PMDB quer de volta o Ministério da Integração Nacional, prometido ao governador do Ceará, Cid Gomes, e seu irmão Ciro, que trocaram o PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pelo recém-criado Pros a fim de permanecer na base do governo. A pasta era ocupada por Fernando Bezerra, apadrinhado do governador pernambucano, que deixou o governo após a confirmação da pré-candidatura de Campos a presidente da República. A avaliação dos peemedebistas é de que o controle desse ministério pelo irmãos Gomes desequilibrará a disputa eleitoral no Nordeste em favor do Pros e do PT, não só na Bahia e em Pernambuco — cujas seções do PMDB estão na oposição ao Palácio do Planalto —, mas também em Alagoas, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte, cujos líderes peemedebistas são governistas.

Dilma adiou a reforma ministerial para fevereiro para ganhar tempo. Ainda não sabe bem o que fazer. Precisa resolver o problema do PMDB com o mínimo de sequelas, não porque tema um rompimento com o governo — o que a legenda, conhecida por seu fisiologismo, não costuma fazer —, mas por causa das retaliações que pode sofrer no plano regional, durante a campanha, o risco de “cristianização”. O problema é compor também com outras legendas importantes no Congresso, como o PP, o PTB e o Pros, sem aumentar o número de ministérios, o que seria dar à oposição o argumento de que está loteando de vez o governo. Diante do impasse, preferiu decantar os conflitos locais entre o PT e o PMDB. Uma decisão agora seria mais arriscada: poderia provocar uma romaria de peemedebistas a São Bernardo do Campo para pedir ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que seja o candidato do PT, reacendendo a chamado “Volta, Lula!” entre os próprios petistas. A propósito, o substituto do ministro Alexandre Padilha, que deixa a Saúde para ser candidato a governador de São Paulo, provavelmente sairá do reduto histórico do PT. O nome indicado por Lula é o secretário de Saúde de São Bernardo, Arthur Chioro.

Onde mora o perigo…
Tanto a presidente Dilma Rousseff quanto o PT estão agindo como se o favoritismo nas pesquisas fosse a certeza de que a reeleição será no primeiro turno. Tratam os candidatos de oposição, o senador Aécio neves (PSDB-MG) e o governador Eduardo campos (PSB-PE), igualmente como inimigos, o que pode ser um equívoco em caso de dois turnos. Além disso, o PMDB e os demais partidos são considerados importantes apenas por causa do tempo de televisão, na suposição de que seus caciques perderam o poder de mediação com os eleitores nos estados; seus representantes no governo são considerados estorvos na cozinha do Palácio do Planalto. Será?

O ex-prefeito carioca Cesar Maia (DEM), em seu ex-blog, faz agourentas previsões sobre as condições da economia para a reeleição da presidente Dilma Rousseff. “O binômio inflação-economia não a ajuda. Em 1998, FHC foi reeleito com uma inflação de 1,65%. Em 2002, seu candidato foi derrotado com uma inflação de 12,53%. Em 2006, Lula foi reeleito com uma inflação de 3,14%. Em 2010, elegeu Dilma colada à sua imagem, com uma inflação de 5,91%, mas um crescimento econômico de 7,5%. Agora, em 2014 — se repetir 2013 —, Dilma vai com uma inflação de 6% e um crescimento de 2%. Uma equação que exigirá apelar ao máximo para sua imagem e ainda à de Lula.” Trocando em miúdos: o mais provável é uma disputa em dois turnos.

Que temos a propor para nossas crises? - WASHINGTON NOVAES

O Estado de S.Paulo - 17/01

No momento em que a comunicação relembra os 30 anos do início do movimento Diretas-Já - reprimida pelo Ato Institucional n.º 5, a mudança de regime pretendida só ocorreria mais de uma década depois, com a Constituição de 1988 -, sucedem-se hoje no País sinais de profunda insatisfação na sociedade, protestos populares nas ruas e reivindicações pontuais, crises em muitas áreas de governo em todos os níveis, mudanças ou perda de valores sociais ou individuais. Da mesma forma, sobrevêm novas visões acadêmicas de mundo e propostas para uma "crise global". Onde desaguará tudo isso?

É paradoxal também, porque pesquisas divulgadas por este jornal (12/1) dizem que a maioria das pessoas continua otimista, embora se tenha reduzido seu porcentual do ano passado para este (de 72% para 57%). E o índice brasileiro está 9 pontos acima da "percepção global". Outra pesquisa (Estado, 11/1) informa que o Brasil "está entre os 12 países mais cobiçados para morar". Crescimento econômico e "boa imagem cultural" são os fatores que mais pesam. Mas os brasileiros que gostariam de morar fora - principalmente nos Estados Unidos - são exatamente os mais ricos.

E tudo acontece em meio a crises como a do Estado do Maranhão, com a falência do sistema prisional, a decapitação de presos e a desmoralização do poder local, que na mesma hora abre licitações para comprar camarões, lagostas e quejandos, embora o governo estadual alegue que a crise ali não é diferente da que se verifica em todo o País e o Estado tenha hoje uma renda per capita de R$ 7.852. De fato, outras fontes lembram que no Brasil todo mais de 50 mil pessoas foram assassinadas no ano passado (Folha de S.Paulo, 10/1). A situação nos presídios, segundo a ex-diretora do sistema penitenciário do Rio de Janeiro, professora Julita Lemgruber, deve-se ao fato de que "nossa sociedade é profundamente hierarquizada. Há cidadãos de primeira, segunda, terceira classe e os não cidadãos - pessoas sem voz e consideradas sem direito (...). Fazer intervenção no Maranhão sem que se cuide da gangrena que é o funcionamento do sistema de Justiça Criminal não adianta nada" (11/1). De certa forma, concorda o relator especial da ONU sobre tortura, Juan Ernesto Méndez: "Quanto mais se criam presídios, mais se enchem as prisões. É preciso criar medidas de regeneração, baixar as penas, melhorar o acesso à liberdade condicional (...). O Brasil abandonou a ideia de recuperação de presos (...). Não podemos perdê-la, senão as tragédias como essa do Maranhão vão ocorrer" (12/1), observa Méndez.

Seja como for, será muito difícil. Ainda temos 14 milhões de famílias recebendo do Bolsa Família apenas R$ 150 mensais, em média - fora as que não são nem cadastradas, alguns milhões. Mas não é só nessas áreas críticas que estão os problemas que se inter-relacionam hoje. Também parece evidente uma progressiva perda de valores coletivos e individuais que nortearam a conduta social e pessoal durante séculos. A ponto de termos agora prisão de quadrilha de 30 pessoas que furta peças de bronze e depreda túmulos em cemitérios tradicionais, como ocorreu há poucos dias (10/1) em São Paulo. Grupos mobilizam-se para reivindicar a legalização do plantio e uso da maconha, como no Uruguai. Um câmpus da Universidade de São Paulo, com 5 mil alunos, teve de transferir suas atividades por estar interditado e não ser capaz de resolver problemas decorrentes de sua instalação numa antiga área de deposição de lixo tóxico e de estar infestado de piolhos de pombos. E veem-se todos os dias manifestações em que valores que norteavam a conduta de jovens são apontados como anacrônicos - importa a satisfação pessoal, a qualquer preço. Até o mundo do futebol está em crise.

Que mundo é esse em que a China já ultrapassa os Estados Unidos como a nação com o maior volume de comércio internacional entre todas (Estado, 11/1)? Em que "economistas da nova safra se libertam da inflação" e se mostram mais interessados em "estudar como a educação e as instituições interferem no desenvolvimento" (Folha de S.Paulo, 12/1)?

E como se construirá no País um projeto político capaz de contemplar as novas visões sociais, os novos desejos? Como já se escreveu neste espaço há alguns meses, os protestos de rua no ano passado mostraram que não havia um caminho comum entre os que participavam das manifestações. Havia portadores de reivindicações específicas (redução do preço de passagens no transporte público, mais postos de saúde e com melhor atendimento, escolas mais eficazes, etc.), como havia vândalos, simplesmente.

Aonde se pretende chegar com reforma política? Ao voto não obrigatório? A um sistema distrital de eleição? A um sistema distrital misto? À continuação do que aí está? Ou caminhar para onde? Também já se escreveu que em outros países - principalmente no Oriente Médio, na África e no sul da Ásia - as manifestações derrubaram governos, colocaram em seu lugar outros que não tinham projetos capazes de satisfazer todos os manifestantes, alguns dos novos também já foram derrubados.

Esta é a questão mais urgente para o Brasil: construir uma proposta política adequada aos novos tempos. Não permitir que se caminhe para um rumo desconhecido e que provavelmente trará surpresas desagradáveis. Um país com o potencial brasileiro precisa se antecipar ao chamado "futuro sustentável" - caminhar para a modernidade em todas as áreas (energética, ambiental) e para a correção de injustiças sociais que nos levam a convulsões em tantos lugares, e com tanta frequência.

Não há como negar que a crise ronda a área do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, como ronda a área social, agiganta problemas ambientais, acena com crises econômicas. Quanto mais rapidamente se encarar o panorama, maior a possibilidade de encontrar caminhos - desde que não se tente apenas a repetição do que já está em crise.

Campanha de limpeza - MARINA SILVA

FOLHA DE SP - 17/01

É intolerável a situação que vivemos em anos eleitorais, marcados por uma degradante agressão verbal contra candidatos e lideranças políticas. Não bastassem a indústria dos dossiês, as notinhas maldosas nos jornais e as "reportagens" encomendadas para expor fraquezas reais ou inventadas, temos agora a guerrilha virtual que cria territórios inóspitos na internet. Calúnia, difamação, injúria e ofensas formam uma espécie de enxurrada que arrasta o Brasil para o atraso onde prosperam várias modalidades de protofascismo.

Todos sabemos quem são os responsáveis por essa guerra. Eles estão na direção dos partidos mais poderosos, cujos militantes, geralmente remunerados, seguem sua pauta e comando no ataque aos alvos definidos. E chamam isso de tática e estratégia numa disputa supostamente ideológica entre esquerda e direita.

No final, todos perdem. O Brasil é derrotado. Quando as multidões foram às ruas no ano passado disseram claramente: essa política não nos representa. Na verdade, os que a fazem não representam nem a si mesmos. Não adianta ficarmos dois ou três anos nos tratando com cortesia diante das câmeras e preparando novos ataques para o período eleitoral.

Também sobre isso o Brasil necessita de um acordo, um pacto de não agressão. Críticas e divergências expostas com firmeza e veemência ajudam. Ninguém precisa ficar melindrado, o debate é próprio da democracia. Mas a linguagem chula dos desaforos anônimos ou "fakes" não devem ser estimulados nem acobertados. Assumimos um compromisso assim em 2010 e o levamos a cabo durante toda a campanha, insistindo que era um debate, não um embate. Por isso sei que é possível.

As cenas de violência que vemos nos presídios e nas ruas, o drama de milhões de pessoas nas enchentes, o caos do transporte urbano, tudo isso nos mostra a realidade e a urgência da crise civilizatória e deveria ser suficiente para nos dar um mínimo de consciência. Quem sabe, até um novo sentimento que, como ouvi do psicanalista Ricardo Goldenberg, tenha menos culpa e mais vergonha.

Ainda há tempo para o entendimento. A primeira condição é que os dirigentes assumam a responsabilidade, que de fato têm, sobre a ação de seus companheiros. A segunda é de que a decisão de manter o bom nível seja incondicional, nada de "responder na mesma altura", quer dizer, na mesma baixeza. O foco deve estar nas ideias e propostas.

Lembro de antigas campanhas, com Lula e o PT enfrentando calúnias e preconceitos em boatos, panfletos apócrifos e pichações nos muros. No Acre, pelos idos dos anos 90, criamos uma "campanha de limpeza da campanha" para combater a baixaria. Precisamos de uma assim, no Brasil.

E o País que se lixe - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 17/01

Os brasileiros não estão propriamente com o coração na boca à espera do que decidirá a presidente Dilma Rousseff sobre a reforma ministerial depois que tiver voltado, no dia 29, de um peculiar rolê por Davos, Havana e Caracas. Por dever de ofício a imprensa registra os encontros entre ela e seu vice, Michel Temer, presidente de facto do PMDB, assim como as reuniões entre ele e a cúpula da agremiação, sedenta por mais ou melhores posições na Esplanada.

Mas o público sabe intuitivamente que, na mais caridosa das hipóteses, o governo continuará sendo a lástima que é em matéria de competência administrativa do seu primeiro escalão, sejam lá que siglas e quais dos seus ungidos se aboletarão nas pastas que vagarem com a saída de titulares que pretendem se candidatar a mandatos eletivos ou pela substituição dos interinos.

Fala-se, evidentemente, daqueles Ministérios passíveis de barganhas com a base aliada, o que exclui, por definição, os 18 em posse do PT, do enxundioso Gabinete de 39. Envolvem repartições poderosas ou insignificantes. Entre as primeiras o PMDB saliva pela Integração Nacional, como é designado o que, em essência, é um Ministério do Nordeste, com recursos e empregos para oligarca nenhum pôr defeito.

A pasta, feudo do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, era ocupada por seu aliado e também pernambucano Fernando Bezerra Coelho. Com a pré-candidatura de Campos e a saída do pessoal que ele alojara no Planalto, Coelho foi substituído interinamente pelo engenheiro civil cearense Francisco Teixeira, que já ocupava a Secretaria de Infraestrutura Hídrica do setor.

Mas talvez ele não tivesse sido alçado ao comando do Ministério, apesar de suas credenciais, não fosse o patrocínio dos seus mais influentes conterrâneos, os irmãos Gomes, Cid, o governador, e Ciro, o ex-muitas coisas, ambos caciques do recém-formado Pros. A Integração é o único Ministério da nova sigla - e talvez seja mais fácil o sertão virar mar do que Dilma removê-la desse privilegiado espaço em benefício do PMDB a quem Ciro tem aversão (o sentimento é correspondido).

Celebrizada por sua voracidade, a legenda - a segunda maior da Câmara e a primeira do Senado - se considera sub-representada no Executivo, com cinco pastas. Só que o seu poder de pressão ficou enfraquecido com as atribulações maranhenses do soba José Sarney e o desgaste do seu sucessor na presidência do Senado, Renan Calheiros, depois da sua grotesca tentativa de repassar ao contribuinte a conta do implante capilar a que se submeteu.

De mais a mais, Dilma conta com o vice Michel Temer, que não tem nenhuma intenção de alimentar um conflito que possa culminar com a deserção de seu partido da reeleição da presidente, logo, com sua substituição na chapa por outro alguém. Temer há de ter parte com a presumível demanda peemedebista pela Secretaria dos Portos, ocupada interinamente pelo economista Antonio Henrique Pinheiro, egresso da Fazenda.

No Congresso e na Secretaria de Governo de São Paulo, exerceu notória influência sobre a estatal que administra o Porto de Santos. Ele não se fará de rogado para indicar um nome para o lugar de Pinheiro, com o que o PMDB, ostentando contrariedade, como de praxe, aceitará a compensação por não ter abocanhado a Integração. De resto, os profissionais da sigla conhecem os seus limites e a natureza do jogo.

Sabem que a prioridade para Dilma é abrigar na Esplanada o maior número de siglas, a exemplo do PTB, que se desgarrou do Planalto depois que o seu chefe Roberto Jefferson denunciou o mensalão e arfa pela oportunidade de voltar, na pessoa de seu presidente Benito Gama, cotado para o Turismo.

Os enlaces partidários de Dilma não visam à multiplicação dos seus palanques pelo Brasil afora. Disso Lula cuida. O que ela quer é ter no horário eleitoral tempo à farta, o que se consegue incluindo mais letrinhas na sopa da coligação. A meta é ter pelo menos tempo igual ao de todos os outros candidatos somados. Se pudesse, criaria tantos quantos "Ministérios da Reeleição" fossem necessários para satisfazer todos os interessados. E o País, como disse aquele deputado da opinião pública, "que se lixe".

França de Hollande se curva à realidade - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 17/01

O presidente socialista repete seu colega de partido François Mitterand, que, em 1983, foi obrigado a ir contra aquilo que pregara dos palanques



O socialista François Hollande ganhou a eleição presidencial francesa em 2012 com uma plataforma antiausteridade, de crítica à condução alemã no enfrentamento da crise europeia. Ele seria o reverso de Angela Merkel. O discurso, música para os ouvidos de um eleitorado temeroso diante do futuro, recebeu aplausos também em outras paragens, como Brasília, onde residem convictos “desenvolvimentistas”, para os quais os nós atados nas economias são cortados por simples força de vontade política e na base do intervencionismo estatal.

Pelo menos na França, o fim deste sonho foi sacramentado pelo próprio Hollande, numa entrevista coletiva que concedeu no Elysée, em grande estilo, terça-feira. O tema que mais excitava a curiosidade popular, tratado na entrevista, era a descoberta de um novo relacionamento amoroso do presidente, a atriz Julie Gayet.

Respondida a pergunta sobre Geyet, com a clássica resposta sobre o respeito aos limites da vida privada, Hollande anunciou medidas para a redução de impostos sobre as empresas e cortes de gastos orçamentários em geral — impensáveis, se considerarmos o Hollande de 2012.

Em custos trabalhistas, o presidente francês promete cortar € 30 bilhões e, entre 2015 e 2017, € 50 bilhões em gastos públicos — outra heresia. Haverá grande resistência política e sindical, mas Hollande, com maioria no Parlamento, tem sólidos argumentos para convencer a sociedade e sua base.

Como era previsto e visível, o peso do Estado francês força uma carga tal de impostos que torna a França cada vez menos competitiva, e não apenas em relação à Alemanha, cujo nível de tributos sobre empresas é o objetivo que o governo Hollande deseja atingir. Não será fácil, mas é preciso buscar a meta.

O preço que o país tem pago é uma taxa de desemprego na faixa de 10% e 11% — o dobro do índice alemão —, devido à virtual estagnação econômica. Na base de tudo, encontra-se um Estado que custa à sociedade francesa 57% do PIB — o brasileiro, já obeso, tem um peso para o contribuinte equivalente a quase 40% do PIB.

Não é a primeira vez que um presidente socialista francês é forçado pela vida real a dar meia-volta, volver. Sem comparar os momentos, em 1983, François Mitterrand, depois de estatizar bancos como prometera, entre outros delírios, também foi forçado a recuar, por força da deterioração da economia. Fez bem, constatou-se.

Hollande acena agora com o início de uma reforma que a esquerda alemã, por meio do chanceler Gerhard Schröder, social-democrata (SPD), executou entre 1998 e 2005, linha que, em certa medida, o trabalhista Tony Blair seguiu como premier britânico. Isso prova que há situações na história de um país em que as circunstâncias levam líderes a atropelar o discurso ideológico-partidário. Mas é preciso ter um pedigree de estadista

Maldição dos juros - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP -17/01

Entra governo, sai governo, a maldição continua. O Brasil permanece na inglória posição de campeão dos juros altos. Com a presidente Dilma Rousseff não será diferente, com um agravante: parece ter cessado a tendência de redução gradual que vinha de 2003.

O Banco Central bem que se aventurou. Foi simpático ao propósito presidencial de reduzir os juros de forma acentuada, em troca de austeridade nas contas públicas. A taxa básica, a Selic, chegou a 7,25% em novembro de 2012.

Mas o governo não cumpriu sua parte. Impaciente com o ritmo da economia, errou no diagnóstico de que a letargia seria superada com a expansão da demanda, sobretudo consumo e gastos públicos.

Forçou, ainda, uma desvalorização de 20% do real diante do dólar em 2012, justamente quando havia um choque nos preços dos alimentos. Agravou, com isso, as pressões inflacionárias; produtos importados ficaram mais caros, e os custos altos foram repassados para itens produzidos localmente.

A despeito das evidências, o governo insistiu em teses equivocadas: a inflação seria problema pontual, não havia exagero com gastos públicos e as críticas partiam de rentistas aninhados na oposição.

Além disso, adotou medidas artificiais de controle de preços administrados (tarifas de energia e combustíveis, por exemplo). Sem isso, a inflação em 2013 teria sido ainda maior que os 5,91% medidos pelo IBGE.

Com o resultado, a alta dos preços no ano passado ficou acima da registrada em 2012, contrariando compromisso do Banco Central. Para este ano, a expectativa ainda é elevada, perto de 6%.

As pressões inflacionárias são profundas e persistentes. Há pelo menos 1,5 ponto percentual escondido nos preços administrados, os serviços sobem 8% ao ano e o setor privado não crê na meta de 4,5%. O câmbio tampouco ajuda.

O BC, sozinho na batalha, aumentou novamente os juros em 0,5 ponto percentual, para 10,5%, em desacordo com suas indicações de que reduziria o ritmo de alta.

O experimentalismo da política econômica cobra sua conta. Dilma Rousseff viu uma chance histórica de acabar com os juros escorchantes, mas a desperdiçou. Seu governo pode terminar com taxa próxima da registrada há quatro anos.

Baixar juros exige mais do que discurso - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 17/01
A escalada da Selic prova que domar juros exige algo mais que vontade pessoal. Dilma Rousseff queria derrubar a taxa para níveis civilizados, abaixo de dois dígitos. Prometeu baixar a 2% ao ano a taxa real (a Selic, descontada a inflação). Conseguiu. Em dezembro de 2012, comemorou a mínima de 1,39%.
Não foi fácil atingir tal patamar. Em julho de 2011, poucos meses depois de a presidente assumir o poder, o índice bateu em 12,5% nominais. A partir daí, começou o processo de queda, até chegar a 7,25%, em outubro de 2012. Os bancos oficiais tiveram de oferecer crédito mais barato, a fim de forçar as demais instituições de crédito a ceder. Até as regras da poupança sofreram mudanças para viabilizar o esforço.

A inflação, porém, obrigou a volta atrás. Em dezembro, o dragão surpreendeu até os pessimistas. Fez 2013 fechar em 5,91%, acima dos 5,84% do ano anterior. O resultado frustrante - depois do empenho de subsidiar o preço da energia e conter artificialmente reajustes como o dos combustíveis e das tarifas de transporte - obrigou o Comitê de Política Monetária a dar a mesma resposta pela sétima vez seguida.

Em decisão unânime, o Copom engordou a Selic em 0,5 ponto percentual. Pior: no comunicado, deixou a porta aberta para novo salto no próximo mês. A trajetória permite concluir que Dilma encerrará o mandato com índices semelhantes aos herdados do antecessor. Lula entregou a chave do Planalto à sucessora com juros de 10,75%, considerados insuficientes para domar a teimosa elevação de preços.

O Banco Central, com acerto, fechou os olhos para o preocupante desempenho da economia, que minguou 0,5% no terceiro trimestre do ano passado. Entre a cruz e a espada, atacou o flagelo cujas consequências se mantêm na memória de muitos brasileiros. Único remédio adotado pelo governo para conter a pressão inflacionária, a via monetária tem-se mostrado insuficiente.

Impõe-se aviar outras receitas. Uma delas: desindexar a economia. Preços atrelados a taxas, como aluguéis e tarifas públicas, remetem aos tempos da hiperinflação, da qual o país se livrou graças ao Plano Real. Outra: promover as reformas estruturais aptas a aliviar a camisa de força que impede voos sustentáveis do Produto Interno Bruto (PIB) e do Índice de Desenvolvimento Humano nacionais. Entre elas, a tributária e a da administração do Estado.

Baixar os juros e combater a inflação ao mesmo tempo são tarefas complexas. Exigem algo mais que desejos, discursos e arroubos autoritários. Melhor seria começar pela desmontagem de problemas antigos - verdadeiros causadores da desordem econômica.

As duas Américas Latinas - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 17/01

A Aliança do Pacífico, bloco comercial formado por México, Colômbia, Peru e Chile, deverá ter neste ano um crescimento médio de 4,25%, com inflação baixa e forte investimento estrangeiro, conforme estimativa do Morgan Stanley. A mesma instituição financeira calcula que Brasil, Argentina e Venezuela, as três principais economias do Mercosul, terão expansão média de apenas 2,5% - e o Brasil crescerá modesto 1,9%. Tal perspectiva evidencia o crescente contraste entre a América Latina que optou pelo livre-comércio e a América Latina estatizante, protecionista e intervencionista.

Conforme notou The Wall Street Journal, essas diferenças permitem acompanhar, no mesmo continente e sob condições relativamente semelhantes, uma espécie de certame sobre qual modelo de desenvolvimento é o mais adequado, algo como um "experimento econômico controlado".

Ao longo da última década, parecia que o grupo dos brasileiros, argentinos e venezuelanos levaria a melhor, sob o impulso da alta dos preços das commodities e das boas condições macroeconômicas para conceder estímulos fiscais. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a sugerir, em 2009, no auge da crise internacional, que "os países avançados deveriam caminhar para o novo modelo colocado pelos países emergentes". Em 2010, a economia brasileira não só conseguiu evitar a contaminação pela crise, como cresceu 7,5%, enquanto o mundo desenvolvido patinava.

Em pouco tempo, a fantasia desse triunfo se esfumou. Confiou-se excessivamente no crescimento chinês como motor da expansão das economias latino-americanas exportadoras de petróleo, minérios e soja, sem levar em conta a possibilidade de desaceleração da China e a consequente queda nos preços dessas commodities. O "modelo de sucesso" emergente inebriou incautos e adiou reformas necessárias que tornariam a economia menos dependente dos humores chineses.

Enquanto isso, países latino-americanos menos afeitos ao populismo optaram pelo livre mercado, aproximando-se dos Estados Unidos depois que a ideia da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) foi torpedeada, em 2005, pela aliança entre o petismo e o kirchnerismo - que queria fazer da hostilidade aos americanos o eixo da política comercial da região. Nos anos seguintes, a Aliança do Pacífico usufruiu da vantagem de ter acesso preferencial ao mercado americano. Já o Brasil enfrentou - e ainda enfrenta, sem se queixar - o inflexível protecionismo argentino, que distorce as relações comerciais no Mercosul.

Assim, enquanto Brasil, Argentina e Venezuela se atavam a compromissos ideológicos, o bloco do Pacífico se preparava para os novos tempos. O Chile, cuja dependência do comércio de cobre é conhecida, está se esforçando para diversificar as exportações. No caso do México, as vendas externas de manufaturados hoje representam 25% do total, enquanto no Brasil essa fatia ainda é de 4%.

É a comparação com a Argentina e a Venezuela, contudo, que torna as diferenças mais claras. Os venezuelanos, donos de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, enfrentam escassez crônica e inflação na casa dos 50% ao ano, como resultado dos delírios do "socialismo do século 21".

A Argentina, por sua vez, viu sua moeda perder 32% do valor em relação ao dólar no mercado oficial em 2013. A inflação, maquiada pelo governo, ronda os 30% anuais, mesmo com o controle de preços praticamente generalizado. O país convive com apagões diários, graças à falta de investimentos das empresas de energia, prejudicadas pelo represamento das tarifas.

Para o Journal, a atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue. Pode ser um exagero, mas a comparação com a Aliança do Pacífico é, de fato, constrangedora. Como disse o ex-ministro da Fazenda peruano Pedro Pablo Kuczynski, "no fim das contas, os resultados dos dois diferentes blocos vão resolver o debate" sobre qual é o melhor modelo, "mas as más ideias levam muito tempo para morrer".

As diárias de Barbosa - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA 17/01

Ainda que não tenha um significado financeiro expressivo, o gasto com diárias pagas ao ministro Joaquim Barbosa, durante o período em que fará duas palestras na Europa, arranha a imagem do homem que saiu do processo do mensalão como paladino da moralidade e da ética. É dispensável que se discuta a legalidade de tal concessão, porque certamente o ministro recorreu a um subsídio sustentado por norma reguladora das funções públicas. Também não é preciso que se trate da necessidade ou não de o presidente do STF contar com tal ajuda, considerando-se sua remuneração como chefe da mais alta Corte do país. O que o episódio suscita, pelo seu aspecto negativo, é a comparação com casos semelhantes, envolvendo autoridades que provocaram constrangimentos e desencadearam duras avaliações críticas.
O ministro em férias tem o privilégio de desfrutar da admiração da maioria da população brasileira, pela forma categórica com que defendeu seus pontos de vista no julgamento do mais rumoroso caso de corrupção da política brasileira. O presidente do STF tem o benefício e o ônus dessa distinção. É um exemplo de integridade a ser preservado, para que cidadãos comuns não se vejam frustrados por atitudes incoerentes com uma imagem pública inatacável. Cabe reconhecer, porém, que o respeito ao ministro não significa unanimidade, pois seu comportamento, quando da atuação como relator do mensalão, provocou discordâncias inclusive entre juristas, além das previsíveis reações políticas.
Os questionamentos foram centrados no modo de atuação do ministro e não são alheios às atividades do Supremo. Mas o que acontece desta vez, com as interpretações em torno das 11 diárias, ultrapassa questões restritas ao meio jurídico. As interrogações merecem resposta: por que Barbosa saiu oficialmente em férias, sem previsão das conferências, e por que vai dispor de 11 diárias nesse período, se o tempo entre um acontecimento e outro é de cinco dias? O ministro retorna a Brasília no início de fevereiro, quando poderá esclarecer as dúvidas, em respeito principalmente aos que se inspiram em seus atos como exemplos de coerência e de transparência.

Juros foram elevados pelo BC porque é necessário - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 17/01

O Copom optou por aumentar a taxa básica para 10,5% ao ano, pois não tem alternativa para combater a inflação sem um remédio amargo no momento



Juros altos são um remédio amargo. Encarecem o capital e o crédito, podendo, assim, contribuir tanto para o adiamento de sonhos de consumo como de projetos de investimentos. Por isso, só devem ser adotados como terapia contra a inflação quando se fazem absolutamente necessários. E é o caso do atual momento brasileiro.

Reunidos esta semana no Comitê de Política Monetária (Copom), os dirigentes do Banco Central optaram por elevar a taxa básica de juros em meio ponto percentual, que assim subiu para a casa de 10,5%, patamar semelhante ao de quatro anos atrás.

Diante do comportamento recente dos índices de preços e da ameaça de a inflação até ultrapassar o teto (6,5%) da meta fixada pelo governo, o Copom não teve alternativa a não ser recorrer ao remédio amargo.

Juros altos podem ser motivo de exploração demagógica em ano de eleições. Mas pior seria para a presidente Dilma, candidata à reeleição, e todo o país, se a inflação fugisse ao controle. Em 2013, o governo segurou artificialmente os preços que administra, mas isso ficou evidente para os mercados e a opinião pública, em geral. Não é mais possível disfarçar. Controles artificiais de preços são como uma bomba capaz de explodir a qualquer momento. Contém-se o índice hoje e ele explode amanhã. Antes que fosse tarde, as próprias autoridades econômicas retrocederam alguns passos nessa tentação demagógica.

O represamento dos preços dos combustíveis é uma prova concreta disso. Quanto mais se retarda o ajuste, mais forte é o impacto sobre a inflação quando os aumentos de preços são autorizados. Controles artificiais de preços poder ter certo apelo popular no curto prazo, mas, com o tempo, corroem a confiança na política econômica. O custo da recuperação dessa confiança é sempre oneroso. Talvez agora o Banco Central não precisasse ter recorrido a uma dosagem tão amarga nas taxas de juros se no ano passado o governo tivesse conduzido mais seriamente a execução do orçamento, sem deixar para o último momento o alcance das metas a que havia se proposto (o que obrigou a transferir pare este ano um valor expressivo de “restos a pagar”).

Ao dar uma demonstração de autonomia, elevando as taxas básicas de juros para o patamar que considera capaz de moderar o ritmo da inflação, o Banco Central dá uma preciosa contribuição para que os agentes econômicos voltem a acreditar nos propósitos da política monetária e do regime de metas. Já é uma iniciativa importante para a superação desse desafio. O que se espera é que os demais setores responsáveis pela política econômica também cumpram a sua parte. A repetição de uma execução orçamentária semelhante a do ano passado será negativo e tornará a tarefa do banco Central ainda mais difícil.

O horror nas prisões - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 17/01

Mortes no Maranhão e a ascensão de facções criminosas no Paraná não são apenas fruto do descaso do poder público, mas também da mentalidade de uma população que esquece dos presos e até lhes deseja toda sorte de sofrimento atrás das grades


É com horror que o país acompanha a situação monstruosa dos presídios do Maranhão. As decapitações de detentos vítimas das brigas pelo comando entre as facções criminosas que habitam a penitenciária de Pedrinhas exprimem o caos vigente no sistema prisional da terra da família Sarney, mas, ao mesmo tempo, trazem outra vez à luz que o caos está presente também nos demais estados, incluindo o Paraná.

Tido como exemplo de gestão por ter tirado dos xadrezes das delegacias milhares de detentos e os transferido para penitenciárias nas quais teriam sido criadas mais vagas, o Paraná está longe de se apresentar como modelo. Que o digam as recentes rebeliões, os guardas feitos de reféns e a comprovação – conforme reportagens que a Gazeta do Povo tem publicado – de que nossos presídios podem não ter padrões maranhenses, mas também apresentam sérios problemas.

A distanciar-nos – para pior – do que se vê em outros lugares é que, aqui, quem exerce poderoso e quase incontrolável mando nas penitenciárias são os “sindicatos” de criminosos, inclusive os organizados sob o Primeiro Comando da Capital (PCC). Nascido em São Paulo após o massacre do Carandiru, na década de 1990, com o suposto objetivo de proteger os presidiários da violência policial, o PCC se instalou também no Paraná, como recorda reportagem de ontem da Gazeta. Atribui-se à facção os frequentes motins e atos de insubordinação à disciplina interna vistos nas penitenciárias do estado.

A reação das autoridades diante de cada rebelião ou ameaça tem sido a de obediência às determinações dos próprios presidiários, como agora se viu com a transferência de 40 detentos para prisões do interior. Momentaneamente, a “paz” é restabelecida, mas não há mudanças visíveis nos campos estrutural ou das políticas prisionais. O que significa que nada nos livra da repetição, em prazos curtos, de episódios idênticos ou mais graves que os noticiados nos últimos dias.

Questões de fundo não são atacadas. Há o velho discurso inspirado no enciclopedista francês Jean-Jacques Rousseau, que dizia que “construir escolas é fechar prisões”, mas pouco se faz efetivamente para cuidar da questão atual, real e cotidiana das nossas penitenciárias. É possível que elas estejam superlotadas em razão da precariedade do sistema educacional – algo sobre o que os acadêmicos podem discorrer com muita propriedade. Entretanto, nem se constroem escolas, nem se melhora a educação, e muito menos se investe na adoção de políticas prisionais para superar ou abrandar o caos existente, criando mais vagas e assegurando condições de sobrevivência humana nas penitenciárias.

Dentre as muitas distorções que levam ao desmando do sistema, com todos os seus horrores, encontram-se a omissão, a corrupção e a leniência das próprias autoridades – desde as responsáveis institucionais até os mais simples carcereiros, alguns dos quais facilitam a entrada nos presídios de celulares, drogas e até armas. Mas, a este conjunto de fatores, que evidencia a total falta de prioridade que o Estado dedica ao sistema prisional, soma-se a “cabeça do brasileiro”, para quem a cadeia é lugar onde criminosos devem pagar não apenas com a privação da liberdade, mas também com toda sorte de sofrimentos, com maus-tratos e até com a morte. Está justamente no livro que leva o título de A cabeça do brasileiro o registro estatístico sobre como a população encara o crime e os criminosos.

Segundo descreve seu autor, o cientista político Alberto Carlos Almeida, quatro em cada dez brasileiros consideram sempre correto, ou correto na maioria das vezes, que condenados por estupro sejam também violentados no interior das cadeias – situação demonstrativa da pouca importância que a população dá aos horrores e ao desespero imperantes nos presídios infectos e superlotados. Para muitos, infelizmente, defender que o criminoso condenado tenha níveis mínimos de dignidade na cadeia equivale a pedir supostos privilégios aos presos, o que trava a discussão. Por isso, convenhamos, investir em prisões não rende votos e, consequentemente, os políticos pensam tão pouco neste assunto – a não ser quando das emergências horríveis como as que hoje presenciamos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Antigamente, eu dava um rolê na praça...”
Geraldo Alckmin desdenhando dos “rolezinhos”, exceto quando batem à sua porta


POUPANÇA: BC SUSPEITA DE ‘LAVAGEM DE DINHEIRO’

O Banco Central suspeita que contas-poupança canceladas na Caixa eram usadas para “lavar de dinheiro”. A hipótese livraria a direção da Caixa de responsabilidade pela apropriação indébita, mas explicaria a ausência do temor de corrida de poupadores às agências para retirada dos R$ 719 milhões de depósitos incorporados aos lucros da instituição. A tese também reforça a suspeita de CPFs supostamente clonados.

NA MOITA

O BC aposta que os poupadores prejudicados “nunca vão aparecer”, porque, afinal, “ninguém reclama quando produto ilegal é apreendido”.

ESTRANHO, É

Intrigam o BC as 525.527 poupanças com dados supostamente falsos na Caixa, apesar das regras rígidas para abertura de contas.

CASO DE POLÍCIA

Confirmada a suspeita de que meio milhão de poupanças era usado para lavar dinheiro, o assunto sai do BC e vai virar caso de polícia.

L’IMPORTANT C’EST LA ROSE

A desgraça do presidente francês François Hollande foi pegar uma motoca para encontrar a amante. Por que não jatinho da Força Aérea?

AGU GEROU R$ 151,5 BILHÕES PARA A UNIÃO EM 2013

Balanço fechado na Advocacia-Geral da União (AGU), a ser anunciado nesta sexta-feira, mostra que o trabalho em defesa dos interesses da União, no ano de 2013, possibilitou uma economia e a arrecadação de R$ 151,5 bilhões para os cofres públicos. As principais atuações da AGU foram em defesa do Enem, do Programa Mais Médicos e na derrubada das 27 ações contra o leilão do pré-sal do Campo de Libra.

PREÇOS SUPERSÔNICOS

Duas passagens ida e volta a Curitiba (PR) custam quase R$ 1,8 mil pela Azul. Com a grana, o casal vai a Miami e compra uns badulaques.

MEDIDA CAUTELAR

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à OEA, cobrou do Brasil solução urgente para o fim da barbárie no Maranhão.

SENTA, O LEÃO É MANSO

Com Dilma mais calma e o medo de perder boquinhas que já controla, o PMDB retomou a esperança de ganhar a Secretaria de Portos.

SABE A ÚLTIMA?

Foi pura descontração o jantar da cúpula do PMDB com o vice Michel Temer no Palácio do Jaburu, quarta-feira, que havia sido marcado para descer o sarrafo em Dilma. Houve profusão de piadas sobre a madame.

GERAÇÃO BIG MAC

Esquerdopatas estão inconsoláveis com os líderes dos “rolezinhos” em São Paulo como Lucas de Souza, 17, que contou ao site G1: “A gente vai para shopping pegar mulher, comprar uns lanches no McDonald’s”.

IGUALDADE DESIGUAL

A ministra Luiza Bairros (Igualdade Racial) falou bobagem, de novo: diz que “pessoas brancas” é que reagem a “rolezinhos” nos shoppings. A anta ignora, mas não deveria, que ninguém é “puro branco” no Brasil.

UNÂNIME

Sem muito interesse em disputar o governo do Piauí, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, é o cotado para suceder Aguinaldo Ribeiro no Ministério das Cidades, com apoio da bancada na Câmara.

CONTRADIÇÃO

Em ano de Copa, o governo enxugou o orçamento do Ministério do Turismo em quase 50%. Caiu de R$ 2,7 bilhões para R$ 1,5 bilhão este ano. Se a prioridade já era baixa, imagine na Copa!

GENTE DIFERENCIADA

Com salário de R$ 3,8 mil, o filho de José Genoino teria que ganhar o triplo para alugar a mansão em Brasília onde mora o pai. É padrão nas imobiliárias, inclusive a que alugou. E ter fiador ou dar cheque-caução.

DESAFINADO

Quem frequenta o boteco “Grao” (Lago Norte, Brasília) duvida que Aloizio Mercadante dê conta da Casa Civil. “Como na música, vai atravessar na política”, ironizou um cliente ao vê-lo no boteco, num sábado, torturando o atabaque, tímpanos alheios e músicos da casa.

POR NOSSA CONTA

Em Brasília, os deputados distritais nem voltaram ao trabalho e já torram dinheiro do contribuinte. Preparam-se para gastar R$ 234,5 mil na compra de 52 notebooks, superavaliados em R$ 4,5 mil cada um.

PENSANDO BEM...

...o governo Dilma está estimulando um “rolezinho” para dar “rolo” na campanha presidencial.


PODER SEM PUDOR

PLACAS SEM VALOR

O poeta popular e contador de histórias Tião Lucena lembra Seu Chico Pereira de Pombal, paraibano de muitos votos, pouca leitura e muita presença de espírito.Viajava de ônibus de Pombal para João Pessoa, quando retirou do bolso um vistoso charuto, made in Arapiraca, e o acendeu, soltando baforadas que incensaram o ônibus.

O cobrador apontou para uma plaquinha, bem à frente de Seu Chico:

- O sr. deve ter lido ali na placa que é proibido fumar charuto, cachimbo e cigarro de palha.

Seu Chico deu uma nova saborosa tragada e respondeu na bucha:

- Bom! Basta, meu filho. Se eu fosse dar valor a placas, já tinha estourado meu bucho de tanto beber coca-cola...

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: MP pede prisão de Zarur e ex-dirigentes da Santa Casa
Folha: Kassab obteve ‘fortuna’ da Controlar, diz testemunha
Estadão: Kassab recebeu dinheiro da Controlar, acusa testemunha
Correio: Igreja faz mea-culpa inédito sobre pedofilia
Estado de Minas: PM admite reforçar segurança na Savassi
Jornal do Commercio: Choque de ordem na praia
Zero Hora: Reforço aéreo na Copa – 1.973 voos para frear preços
Brasil Econômico: Juro a 10,5% não atrai investidores nem reduz inflação