sábado, dezembro 28, 2013

A impunidade nocauteada - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 28/12


Ninguém acreditava, nem os próprios condenados, mas o processo judicial conhecido como mensalão resultou na prisão de personagens importantes da vida nacional, entre os quais um ex-ministro, vários parlamentares, empresários e banqueiros. Reconhecido como um dos maiores escândalos de corrupção da história do país,
a compra de apoio parlamentar pelo governo demorou mais de oito anos para ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal, mas acabou se transformando num golpe real na impunidade: dos 38 investigados pelo caso, 25 foram condenados em dezembro de 2012 e nove tiveram seus últimos recursos avaliados pela Corte em novembro último. Até a metade de dezembro, 17 condenados já estavam na cadeia e um, foragido no Exterior.
O julgamento ainda suscita controvérsias, especialmente por parte de dirigentes e militantes do Partido dos Trabalhadores, que sofreu um abalo na sua reputação em decorrência do envolvimento de figuras proeminentes da agremiação no pagamento de propinas a políticos. Mas a maioria da população brasileira apoiou integralmente a decisão colegiada da Suprema Corte, composta por 11 ministros, oito deles indicados por governantes petistas.
Apesar do inconformismo dos militantes do PT, os réus tiveram amplo direito de defesa e o julgamento não poderia ter sido mais transparente, pois todas as sessões da Corte tiveram cobertura permanente da imprensa. Durante várias semanas, o país acompanhou atento os debates entre os magistrados, as acusações do procurador-geral
da República e as defesas dos advogados. Nesse período, entraram para o vocabulário nacional termos jurídicos como a Teoria do Domínio do Fato _ pela qual é considerado autor de um crime a pessoa que, mesmo não tendo participado diretamente do ato infracional, decidiu, ordenou ou facilitou a sua efetivação _ e embargos infringentes, que são recursos cabíveis contra decisões não unânimes de segunda instância, desfavoráveis aos réus. O julgamento também transformou em celebridade o relator do processo e atual presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que se mostrou inflexível nas condenações.
Habituada a ver delinquentes poderosos escaparem impunes, parcela expressiva da população brasileira celebrou no último dia 15 de novembro, quando o Supremo decretou a prisão imediata de 12 réus condenados no processo. É exagero dizer que o desfecho da Ação Penal 470 assinala o fim da impunidade no país, até mesmo porque há processos semelhantes inconclusos, entre os quais o chamado mensalão tucano, que envolve um ex-governador mineiro. Mas não há dúvida de que foi o fato mais marcante de 2013 e tende a se transformar numa referência de moralidade para a política brasileira.
Ainda é cedo para se saber se a condenação dos réus do mensalão realmente inaugurará um novo tempo e contribuirá efetivamente para reduzir os casos de corrupção na administração pública do país. Porém, a partir da ampla exposição do episódio, já se percebe um significativo resgate da confiança dos brasileiros nas instituições democráticas e no poder dos cidadãos para exigir honestidade e integridade de seus representantes.

As contas da inflação - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 28/12

Inflação em queda lenta e economia em ritmo igual ao deste ano são as conclusões pouco animadoras do último relatório trimestral de inflação de 2013 divulgado pelo Banco Central. Há, pelo menos, a expectativa positiva de que os juros parem de subir em breve.

As projeções apontam para alta de preços de 5,6% em 2014 e 5,3% em 2015. É uma convergência modesta em direção à meta de 4,5%, resultado frustrante quando se considera que a previsão de crescimento foi reduzida ainda mais, de 2,5% para 2,3% neste ano, patamar que deve se repetir em 2014.

São conhecidos os riscos inflacionários: retomada internacional, expansão de gastos públicos e necessidade de corrigir alguns preços controlados pelo governo.

Do lado externo, a diminuição dos estímulos monetários nos EUA não provocou por ora o sobressalto que se temia. Mas, caso se confirme a recuperação da economia americana, o fluxo de dólares em direção àquele país afetará o câmbio dos emergentes.

Verdade que o Banco Central tem amenizado o impacto inflacionário de um real mais desvalorizado. As intervenções no mercado cambial, entretanto, já atingem quase US$ 100 bilhões e devem prosseguir até meados de 2014, ao ritmo de US$ 200 milhões por dia.

No campo dos gastos públicos, a expectativa do BC é que tenham menor impacto nos preços em 2014 --aposta otimista, para não dizer irrealista, num ano eleitoral.

Por outro lado, o relatório afirma que o governo precisa assegurar superavit primário (economia feita para pagar juros da dívida) da ordem de 2% do PIB nos próximos anos. É o montante necessário para a dívida pública não crescer e para evitar um rebaixamento da nota de crédito do país.

Quanto aos preços administrados, estima-se que a inflação seria elevada em um ponto percentual caso o governo permitisse a correção das tarifas de energia e combustíveis --o que cedo ou tarde precisará fazer.

Cenário difícil, portanto. O Banco Central, ainda assim, prefere mencionar a influência gradual que a política monetária tem sobre a economia. O custo mais alto do dinheiro --a taxa básica, Selic, já subiu 2,75 pontos percentuais-- afeta primeiro as decisões de consumo e investimento; somente depois se reflete nos preços.

São indicações de que os juros devem estacionar no primeiro trimestre, em torno de 10,5%. Infelizmente, permanecem muito acima do padrão mundial.

‘Esqueleto’ de fundos é ameaça às finanças públicas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 28/12

O governo federal estima que o déficit potencial do regime próprio de previdência de estados e municípios possa atingir o valor de R$ 78 bilhões



A Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu limites para as despesas de pessoal de todos os entes federativos. Foi uma decisão necessária, pois entre as causas do descontrole das contas públicas (um dos principais “combustíveis” da superinflação que atazanou a economia brasileira por décadas) estava o comprometimento da arrecadação tributária com a folha de pagamentos. Não raro estados e municípios destinavam a quase totalidade de suas receitas disponíveis para despesas de pessoal.

Tais regras envolveram também o pagamento dos servidores inativos, em face do aumento progressivo da participação dessas despesas no total da folha. Reformas aprovadas nos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula ajudaram os entes federativos a promover ajustes em suas despesas de pessoal. Mais recentemente, o governo Dilma finalmente pôs em prática o fundo de previdência suplementar dos servidores federais, que, no futuro, deverá complementar os vencimentos dos inativos que ultrapassarem o teto do regime geral de previdência (INSS). Os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo aderiram igualmente a esse modelo.

A questão da aposentadoria dos novos servidores públicos tende a ser bem equacionada financeiramente. Mas em relação aos antigos servidores há desafios não superados. Para atender às determinações da Lei de Responsabilidade Fiscal, estados e municípios com regimes próprios de previdência tiveram de criar fundos destinados a custear especificamente o pagamento de seus servidores inativos e de pensionistas. Com baixa capacidade de poupança, os entes federativos têm dificuldades para capitalizar esses fundos. Quando possuem algum patrimônio imobiliário, transferem a propriedade para os fundos. No entanto, grande parte dos recursos dos fundos é proveniente ainda da arrecadação durante o exercício fiscal. Na tentativa de capitalizá-los, os fundos previdenciários são autorizados a aplicar no mercado financeiro parte os recursos que recebem dos tesouros estaduais e municipais. E aí é que começaram a surgir problemas.

Como O GLOBO publicou nas edições de domingo e segunda-feira, a desorganização, a má gestão e as fraudes no sistema de previdência dos servidores públicos são significativas e representam ameaça ao equilíbrio das contas públicas. O déficit atuarial estimado pelo governo em 2.000 RPPs (regime próprio de previdência) é de R$ 78 bilhões. Trata-se de um novo “esqueleto”, em vigoroso crescimento, no armário das contas da União — responsável constitucional, em última análise, pelos passivos previdenciários. É preciso ação firme, urgente e unificada, de governo, Congresso, estados e prefeituras para evitar uma “quebradeira, em breve”, como diagnostica, com razão, o Ministério da Previdência.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O prazo é desafiador, mas dá segurança da melhoria da rodovia”
Ministro Cesar Borges (Transportes) e os 5 anos para duplicar a BR-040 privatizada


LEILÕES SÓ SAÍRAM DEPOIS DE RETIRADOS DE GLEISI

Era a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) que travava os leilões de concessão de aeroportos e rodovias. Somente depois que a presidente Dilma tirou dela a coordenação do programa é que saíram os leilões de privatização de aeroportos e estradas, como a BR-040, leiloada ontem. Por não entender o programa, nem ter tempo para estudá-lo, como dois ministros confirmaram à coluna, ela simplesmente o engavetava.

DESCOBERTA TARDIA

Dilma só descobriu que Gleisi atrapalhava os leilões com a saída de Bernardo Figueiredo da Empresa de Planejamento e Logística (EPL).

INCAPACIDADE

Bernardo Figueiredo se demitiu da EPL, criada para ele, porque já não suportava embates com Gleisi Hoffmann, pela incapacidade da ministra de entender o tema.

ARREPENDIMENTO

Agora que a privatização avançou e Gleisi sairá do cargo para disputar as eleições, Figueiredo está louco para voltar à EPL, dizem os amigos.

FERROVIAS

A expectativa é de que em 2014 deslanchem os leilões para a concessão de ferrovias, também atrapalhados pela ministra da Casa Civil.

SUPERAVIT DEBOCHA DAS VÍTIMAS DE ENCHENTES

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, parecia estar debochando ao celebrar ontem o “superavit histórico” de R$ 28,8 bilhões em novembro, enquanto capixabas e mineiros contam seus mortos, casas destruídas, vidas despedaçadas, em tragédias que teriam sido evitadas ou minimizadas não fosse a recusa do governo, em nome do “superavit”, de liberar recursos para obras de prevenção contra desastres naturais.

VERGONHA

A execução orçamentária mostra que o governo Dilma liberou para o Espírito Santo, em 2013, somente 0,41% das verbas de prevenção.

QUEM MANDA

Ex-colega de Dilma no governo de Olívio Dutra, de má memória, no Rio Grande do Sul, Arno Augustin é tido como ministro de fato da Fazenda.

OBTUSIDADE CÓRNEA

Tecnocrata obtuso, que demoniza o lucro, Augustin não se acanha de celebrar superavit do setor público, mesmo às custas de seres humanos.

NOVOS ‘PORQUINHOS’

Os presidentes do PT, Rui Falcão, e do PMDB, Valdir Raupp (RO) deverão integrar o núcleo duro de campanha da presidente Dilma Rousseff. O ministro Aloizio Mercadante (Educação) também é cotado.

FUNDO DO POÇO

Mineração ilegal é a “nova cocaína” na Colômbia, Equador, Venezuela, Bolívia e Peru, onde fatura 15% mais que o tráfico, diz o jornal El Mercurio, do Chile. As Farc colombianas comandam a troca por armas.

ALGUÉM EXPLICA

Com 11 milhões de seguidores no Twitter, o papa Francisco não faz sucesso na Alemanha de Bento XVI. Com 163 mil fiéis, o perfil em alemão fica bem atrás do perfil em latim. A língua morta tem 195 mil.

BUSCA DE SOLUÇÃO

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e o governador de MS, André Puccinelli (PMDB), se reúnem dia 7, para tratar da compra da Terra Buriti, símbolo do conflito de índios e fazendeiros.

RENÚNCIA À VISTA

Em meio a processo de cassação por quebra de decoro, Natan Donadon (RO) cogita seguir os mensaleiros e colegas de presídio e renunciar ao mandato logo que a Câmara voltar ao trabalho.

VOANDO NAS ELEIÇÕES

A Presidência da República pretende pagar até R$ 19 milhões em viagens nacionais e internacionais até o fim do mês. A agência escolhida atenderá a 12 órgãos do governo em 23.083 percursos.

VERDADE PRORROGADA

Com as atividades prorrogadas até dezembro de 2014 pela presidente Dilma, a Comissão da Verdade terá mais um ano inteiro para resgatar polêmicas e apresentá-las ao público antes das eleições em outubro.

PENSANDO BEM...

...passando o réveillon no xilindró, José Dirceu e demais mensaleiros terão mesmo que ver o ano novo nascer quadrado.


PODER SEM PUDOR

O FILHO DE REQUIÃO

Ao visitar Curitiba logo após a posse, o presidente Fernando Collor foi recebido no aeroporto pelo governador Roberto Requião. Os jornalistas observaram à distância Collor cumprimentando rapidamente cada uma das autoridades enfileiradas, mas se deteve num bate-papo animado com o jovem chefe de gabinete de Requião, Reinaldo de Almeida Cesar, 24. Os repórteres ficaram curiosos. Na verdade, "Maria Louca" (como adversários chamam Requião) havia apresentado Reinaldo como seu "filho". Era brincadeira, mas Collor acreditou e tentava ser atencioso com o "filho" do anfitrião. E Reinaldo - que presidiu a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal e depois assumiu a Secretaria de Segurança do governo Beto Richa - ficou constrangido de desmentir o chefe.

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: Governo eleva imposto para gasto de turista no exterior
Folha: Governo sobe imposto para gasto de turista no exterior
Estadão: Com deságio recorde, fundos de pensão e OAS levam BR-040
Correio: Prepare o bolso e a paciência para viajar
Estado de Minas: IPTU e ITBI mais caros
Jornal do Commercio: Volta pra casa de algemas
Zero Hora: Em plenas férias de verão – Gastar nas viagens ao Exterior fica mais caro

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Provérbios contemporâneos - NELSON MOTTA

O GLOBO - 27/12

Em ano eleitoral, a fofoca vai atingir os seus níveis mais altos, e mais baixos, com os piores objetivos, e até sem motivos claros ou uniformes, como nos protestos de junho



Andy Warhol dizia que gostava de fofoca pelo seu duplo valor de informar tanto sobre a pessoa que está sendo falada quanto sobre a que está falando, porque ninguém se contenta em contar a novidade sem comentá-la e julgá-la, revelando seus gostos e sentimentos. Nos tempos de Andy, a fofoca era chamada brejeiramente de mexerico e corria de boca em boca ou por precárias comunicações, de fontes restritas e duvidosas, mas hoje se propaga instantanea e incontrolavelmente, usando a sua origem como prova de sua veracidade: está na internet!

O ancestral “diz-me com quem andas e te direi quem és”, ainda atualíssimo para a avaliação de políticos, hoje é aplicado aos sites, blogs, twitters e seriados para monitorar o que segues e saber como és. No formato “diz-me do que gostas e não gostas”, serve não só para dizer quem és, mas até o que queres, antecipando os teus desejos baseado no que já compraste, e assim facilitando tuas escolhas — de mais do mesmo.

A linguagem proverbial é antiga, mas o moderno poder de se informar e de comprar o que quiser e escolher em que fontes beber na rede vai permitir que as tuas escolhas revelem quem és e como vives. Principalmente para te venderem o que não precisas. Diante do que vivemos hoje a temida monitoração onipresente do Big Brother de “1984” parece coisa de adolescente, no máximo, de programa de televisão.

Em ano eleitoral a produção e a disseminação de fofocas vão atingir os seus níveis mais altos, e mais baixos, com os piores objetivos, e até sem motivos claros ou uniformes, como nos protestos de junho. Com os dados cada vez mais detalhados e ampliados de que dispõe sobre o eleitorado, o marketing das campanhas vai vender seus produtos e tentar motivar os consumidores fiéis e atrair os insatisfeitos, com o empobrecimento do debate político e do confronto de ideias.

Só espero que os políticos de todos os partidos não continuem a dizer na televisão que “ouviram a voz das ruas”, porque foi justamente contra eles, seus privilégios, sua corrupção, sua ineficiência e impunidade que as ruas e as redes gritaram. E vão gritar nas urnas.


Judiciário, onde estás? - CLAUDIA GAY BARBEDO

ZERO HORA - 27/12

Nos últimos dias, anteriores ao recesso forense, não faltaram advogados batendo à porta do Judiciário com a finalidade de regulamentar a convivência das férias de verão entre pai e filhos. O ponto nevrálgico dessa questão é a resposta do Judiciário, quando provocado a se manifestar, que acaba, por cautela injustificada, restringindo a convivência de pai e filhos nas férias de verão. Pois só cabe convivência paterno-filial restritiva diante de atos que desabonem a conduta paterna, caso contrário, ela deve ser de forma ampliada e em igualdade de condições com o desfrute materno.

A provocação ao Judiciário ocorre porque, muitas vezes, a mãe, apropriando-se de um pensamento foucaultiano, vigia a relação paterno-filial e pune o pai, restringindo o seu acesso ao filho quando passa a impor poucos dias e horas de convívio, o que não deixa de ser um ato de prática da alienação parental. No entanto, o Judiciário deve estar atento à inconformidade da mãe com relação à regulamentação ampliada das férias de verão em favor do pai, pois, segundo Foucault, uma das tecnologias de poder, que é uma modalidade de acordo com a qual se exerce o poder de punir, são “marcas rituais da vingança”, especificamente, no Direito de Família retratada por uma dissolução conjugal mal conduzida. A modalidade acima é elucidativa, a fim de se depreender claramente que o pai está sofrendo no corpo a tecnologia de poder do fim do século 18.

Como nos diz José Camargo, em muitos dias as pessoas são acometidas pela sensação dilacerante de que lhes arrancaram pedaços vivos de afeto, sem reposição. A convivência paterno-filial regulamentada de forma restritiva enaltece o poder de punir da mãe, sem remorsos. Isso porque, com mais frequência, a alienação parental parte da mãe. Por ora, não há reposição do tempo perdido, mas é possível a construção de uma visão prospectiva a definir uma convivência materno-paterno-filial igualitária, salvo ato que desabone a conduta de um dos pais. Por isso a inquietude da pergunta: Judiciário, onde estás que restritivamente respondes? O pai recorre ao Judiciário para modificar essa situação, ainda mais quando se trata de criança mais nova e, não raras vezes, recebe uma resposta restringindo o seu período de férias _ janeiro e fevereiro _ com o filho, a uma semana ou no máximo quinze dias, restando a outra parte na totalidade para a mãe. Infelizes datas festivas de final de ano para aquele pai que lutou por um período de férias de verão em igualdade de condições com a mãe e teve uma resposta restritiva do Judiciário, sem qualquer ato que desabone a conduta paterna.

O trânsito no bolso - MARCOS CINTRA

FOLHA DE SP - 27/12

Com a implementação das faixas exclusivas de ônibus, o custo do congestionamento em São Paulo subiu de R$ 40 bilhões para R$ 42 bilhões


A ineficácia das políticas públicas adotadas no setor de mobilidade em São Paulo ao longo dos últimos anos, frente a uma demanda crescente por transporte coletivo e por vias de circulação, gerou uma situação caótica na fluidez do sistema viário que impõe crescentes custos econômicos aos paulistanos.

Desde 2008, produzo estimativas das perdas econômicas causadas pelo tempo que as pessoas ficam paradas no trânsito e pela reduzida velocidade de circulação nas vias da cidade nos horários de pico.

Há cinco anos, o custo foi da ordem de R$ 33,5 bilhões. Em 2012, usando os mesmos critérios, o valor estimado foi de R$ 40,1 bilhões, ou cerca de 8% do valor anual do PIB paulistano.

Pressionado por essa crítica situação, o governo municipal passou a implantar faixas de ônibus visando aumentar a velocidade de circulação dos coletivos. De acordo com os órgãos responsáveis, as vias segregadas permitiram que os ônibus aumentassem a velocidade média de 13 km/h para 20 km/h, um acréscimo significativo de 50%.

Na tentativa de estimar o efeito das faixas exclusivas sobre os custos do tráfego, surgiram sérios problemas relacionados à quase total ausência (ou sonegação) de informações detalhadas envolvendo itens como extensão dos congestionamentos e velocidade média do trânsito após a implementação das vias segregadas.

A dificuldade na obtenção de dados oficiais atualizados a partir de 2013 é evidente aberração em uma cidade do porte de São Paulo. Tal atitude por parte das autoridades municipais faz suspeitar que as avaliações acerca das medidas possam não ser tão positivas quanto faz crer a propaganda oficial.

A ausência de informações tornou necessária a utilização de dados que vêm sendo esparsa e pontualmente divulgados em órgãos de imprensa. Evidentemente, trata-se de uma aproximação, mas que se impôs frente à criticável política de comunicação do governo municipal.

Em linhas gerais, a política adotada pela Prefeitura de São Paulo para enfrentar o caos da mobilidade na cidade permitiu que cerca de 15% das pessoas passassem a circular de modo mais rápido nas faixas segregadas de ônibus. Por outro lado, os outros 85% das pessoas em transporte individual ou em transporte coletivo fora das faixas segregadas tiveram piora na velocidade de locomoção.

Cumpre dizer que a piora da situação de circulação para a maioria das pessoas que precisa se locomover pela cidade é um fato, não uma hipótese. Todos vivenciam essa situação em seu dia a dia. Uma realidade que prejudica inclusive os usuários de ônibus que não circulam por vias exclusivas, uma vez que a redução da velocidade e o aumento dos congestionamentos implicam em maior tempo gasto no trajeto dos coletivos.

A conclusão é que o custo do congestionamento na cidade estimado em 2012 em R$ 40 bilhões por ano aumentou para R$ 42 bilhões. Ou seja, ao beneficiar 15% dos paulistanos nos horários de pico, essa política prejudicou os demais 85%, do que resultou um custo maior de R$ 2 bilhões para o conjunto dos paulistanos.

Cabe apontar que o real aumento dos gastos gerados pelos congestionamentos é maior que o estimado, pois a projeção considera que o custo de oportunidade --ou seja, daquilo que se deixa de produzir enquanto se está parado no trânsito-- é igual para todos os cidadãos.

Diferentes categorias de trabalhadores, embora percam tempo no trânsito igualmente, geram --ou deixam de gerar-- valores diferentes em suas atividades, de modo que as perdas são maiores do que as possíveis de serem calculadas por ora.

Só se pode concluir que a adoção de faixas exclusivas de ônibus tem trazido mais prejuízos do que benefícios para a cidade.

O caminhão demorou, mas voltou - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 27/12

Para Pedro, Lucas, Felipe e Stella

Estava procurando presente para Stella, minha neta, quando Márcia, minha mulher, apontou para uma porta na Vila Madalena: aqui sempre tem. Somente na saída vi o nome, Fábrica. Dentro, um mundo encantado. O cheiro da loja me aguçou, era familiar. Havia ali todo tipo de coisas em madeira, tecidos, plásticos.

Súbito, percebi que era o mesmo cheiro da grande loja de brinquedos de minha infância, a Barbieri, em Araraquara. Um palácio. Um dos programas em dezembro era passar pela Barbieri para olhar vitrines e o Papai Noel que ficava na marquise. Naquele tempo, anos 40, em plena guerra, as lojas de brinquedos eram poucas, traziam algumas bonecas de pano, celuloide ou louça, trens, caminhões carros de bois, bicicletas de madeira, mesinhas para chá de boneca, casas de boneca. Os filhos dos pobres e dos remediados ganhavam um presente no aniversário e outro no Natal. Nada mais. Como filho de ferroviário eu era remediado, mas nunca senti nenhuma diferença. A meninada me parecia igual.

Acompanhado por uma atendente morena, cabelo curtinho, eu andava entre as prateleiras da Fábrica e, súbito, estremeci. Dei com um caminhãozinho de madeira reciclada, cabine colorida. Ainda existem, pensei. Simples, despretensioso, ele me teletransportou no tempo.

Naquele Natal, setenta anos atrás, ganhei um caminhãozinho de madeira com a carroceria cheia de toras. Tinha sido minha escolha na vitrine da casa Barbieri. Aquele brinquedo era a miniatura dos grandes caminhões que passavam pelas ruas levando troncos enormes para as grandes serrarias. Na serraria do Hugo Negrini, vizinha à minha casa, havia uma imensa serra de fita que passava o dia a cortar lâminas de madeira para serem transformadas em móveis. Aquela serra, para nós crianças, era a "fábrica" da serragem, que no Natal usávamos para "fingir" que era a terra do presépio e, aos domingos, os pais colocavam nas bacias para manter a temperatura das barras de gelo sob as quais repousavam as cervejas do almoço. Geladeiras? Poucos tinham.

A serra produzia um cheiro forte e doce de cedro que tomava o ar, perfume que se espalhava pelo bairro. Todas estas coisas foram revividas quando entrei na loja na Vila Madalena. Memória afetiva. Naquela manhã de Natal, acordei, olhei debaixo da cama, lá estava o embrulhinho. Abri com cuidado o pacote, minha mãe recomendava não rasgar o papel, poderia ser reutilizado. Ali estava o caminhãozinho de toras desejado há meses. Brinquei no meu quintal até ouvir a molecada chegando na rua. Estava na hora de sair à calçada para "exibir" o presente. Olhar, comparar, curtir, era uma hora feliz, puro prazer. Aquele caminhão seria cuidado, usado, brincado até o dia do aniversário, quando viria o próximo. Entre 25 de dezembro e 31 de julho se passariam seis meses. Tudo bem. Só não gostava de meu aniversário porque era o odioso último dia das férias.

Brinquei, mostrei, emprestei um pouco para este, para aquele e ouvi minha mãe me chamar por qualquer razão. Nossa, como as mães adoravam chamar quando estávamos na rua nos divertindo. Mãe chamava, tinha de correr! Voei, deixando meu caminhãozinho na calçada, com outro menino vigiando. Não me lembro porque ela me chamou. Quando voltei, meu brinquedo tinha desaparecido. Ninguém soube dizer quem o levou. Por meses, desesperado busquei, tentando encontrar um menino com um brinquedo como o meu. Nada. Em casa levei pito (dizia-se pito) e castigo para aprender a cuidar das coisas. Assim se preparava para a vida.

Quando contei a história à atendente da loja, ela arregalou os olhos: "Pois vou dar esse caminhãozinho para o senhor." Não deixei, era um vazio meu, uma coisa entre mim e minha vida. Circulei pela Fábrica, encontrei o presente da Stela, esqueci a história. No almoço deste Natal, ganhei um pequeno pacote de Márcia. Abri, ali estava o caminhãozinho.

Prognósticos do passado - RENATO FERRAZ

CORREIO BRAZILIENSE - 27/12
Sabe o que mudará na sua vida caso você se vista de branco no réveillon? Provavelmente, nada. E azul? Também. E rosa? Nadinha de nada. Sério: como fazemos nossas próprias crenças, precisamos brincar disso - e com isso, claro. Que tal, então, fazer prognósticos e não listinha de resoluções para serem ignoradas logo em janeiro? Como serão as décadas, os anos, os meses vindouros?
Fábio Gandour, diretor brasileiro de uma importante empresa de tecnologia, acha, por exemplo, que a escassez de água no planeta será o maior problema da humanidade. Seu cenário é montado sobre o átomo, cujo número é constante. Como a população segue aumentando, vai diminuir a quantidade de átomos por habitante. E quais átomos vão faltar primeiro? Hidrogênio e oxigênio conectados numa molécula chamada água, defende ele. A Ásia, conta Gandour, será o primeiro continente a sentir a falta dela. "Isso não é uma especulação. É aritmética", garante o pesquisador.

Esse tipo de análise é assustador. No entanto, o que mais mete medo é o fato de governantes serem extremamente lenientes com essas previsões. Em relação a Brasília, por exemplo, vale questionar: em qual futuro desembocará a nefasta soma de vias e mais vias asfálticas com mais prédios e uma crescente e quase enlouquecida venda de carros? Em mais engarrafamentos, mais estresse, mais acidentes. Sim, obviamente, essa é a análise do pessimista, mas está baseada em percepções relevantes, em avaliações históricas, no simples olhar ao lado.

Mas como acredito mais em cientistas do que em políticos, volto aos primeiros: as cidades vão se adaptar à população, garantem alguns deles. A defesa da tese não é tão aritmética assim, mas esse mistério será desvendado. Já há lugares não mais combatendo, mas se adaptando ao horário de rush, às idiossincrasias do tempo, aos nossos anseios. Vamos ser, em 2014 ou 2020, bem mais prefeitos: "mandando" tapar buracos logo ao vê-los ou melhorando o ridículo sistema meteorológico que hoje avisa aos moradores de um morro, mediante uma lúgubre sirene, algo do tipo: "Fujam, vocês vão morrer".

Humano - FERNANDA TORRES

FOLHA DE SP - 27/12

Bustos romanos seduzem pelos defeitos; narigudos, papudos e olheirudos, se distanciam do ideal grego


Em "A Invenção do Humano", Harold Bloom afirma que a consciência do homem moderno nasceu com Hamlet. Shakespeare, afinal, seria o tronco, e todo o resto --Freud, Dostoiévski e Guimarães Rosa--, seus galhos.

O crítico americano descreve o dinamarquês como um homem contemporâneo preso em uma trama medieval. Os demais personagens não seriam capazes de raciocinar como o jovem, o autor não lhes dota do mesmo vocabulário. No choque, a razão do príncipe só se justifica através da loucura.

Estive na Galeria Uffizi, em Florença, no começo deste ano.

Lá, é possível acompanhar muitos desses saltos evolutivos na história da criação.

Iniciei o périplo pelas pinturas medievais. Sacras e bidimensionais, há pouco de humano nelas; são esquemáticas como a corte do rei Claudio.

Giotto é quem dá o passo ao descolar as figuras do fundo, dando-lhes profundidade no sentido amplo da palavra. A perspectiva expande o sofrimento de Madonas, Moisés e Cristos crucificados por bons séculos. Vale ressaltar a abnegação com que os mestres enfrentaram a restrição temática.

Para quem segue pelos corredores da galeria, a repetição de passagens bíblicas e divindades gregas cria um estado de beleza e embriaguez interrompido pelos primeiros retratos realistas da Renascença.

Na sala oito, os perfis da duquesa e do duque de Urbino, pintados em 1472 por Piero della Francesca, marcam, na impressionante coleção, o instante em que o homem se coloca em pé de igualdade com os santos.

As salas seguintes exibem uma variedade fascinante de rostos comuns, nobres, mas comuns, semelhantes à turistada. O duque de Urbino é pai de Hamlet e foi criado mais de século antes dele.

A Cosac Naify acaba de lançar uma edição preciosa do "Decameron". Cem anos antes de Piero della Francesca, Bocaccio pedia desculpas ao Espírito Santo para falar dos dilemas mundanos de quem sobreviveu ao século 14.

Entre 1300 e 1400, a Europa enfrentou a Guerra dos Cem Anos, a corrupção desenfreada do clero e a peste negra, epidemia que dizimou 75 milhões de pessoas, um terço da população europeia.

O cenário desolador flexibilizou a moral. A noção de família e propriedade foi abalada, bem como a crença na justiça divina. Os que sobraram se arrumaram como puderam, não como Deus queria.

"Sabe-se que as coisas desse mundo são todas transitórias e mortais, em si e fora de si cheias de tédio, de angústias e de tormentas, passíveis de infinitos perigos; as quais nós, que vivemos misturados a elas e somos parte delas, não poderíamos certamente resistir nem evitar se a especial graça de Deus não nos emprestasse força e sagacidade."

O discurso caberia na boca de Hamlet, ou Macbeth, não fosse a conclusão tão reverente ao Altíssimo. Aparentemente devoto, Boccaccio esclarece, logo na introdução, que sua novela não é direcionada a Deus, mas ao juízo dos homens.

Ou à sua falta de juízo. "Decameron" é um decálogo de desvios, um paraíso de putas ardilosas, freiras volúveis, padres ladrões e bandidos de toda a espécie.

Os bustos de mármore do Império Romano também seduzem por seus defeitos. Narigudos, papudos e olheirudos, se distanciam do ideal olímpico dos gregos.

Admiro a Vênus e a Samotrácia tanto quanto os Tintorettos da Scuola de San Rocco, mas as rugas romanas me provocam o mesmo deleite dos rostos da Renascença, ou dos pecadores de Boccaccio; elas revelam os anseios, a fragilidade, a torpeza e a mortalidade de gente como eu e você.

Gosto também de admirar o modelo em cera do casal de Australopithecus afarensis caminhando abraçado pela planície de Laetoli, no Museu de História Natural de Nova York. O par de macacos bípedes passeia enlaçado, enquanto admira a paisagem ancestral. São Adão e Eva encarnados e não destoam dos "sapiens" apaixonados.

Difícil mesmo é reconhecer o que há de humano nos games interativos que meu filho adolescente joga sem parar, on-line, com os amigos virtuais.

Quando o vejo aos berros, imerso na batalha imaginária, tenho dificuldade de acreditar que, algum dia, Hamlet fará sentido para ele; e temo, como a mais retrógrada das santas inquisidoras, pelo futuro da humanidade.

O ano da crise e o grito das ruas por mudança - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 27/12

Dadas as dificuldades econômicas enfrentadas pelo Brasil e a gritante inoperância do governo federal para superá-las, nem parece que a presidente Dilma Rousseff já ocupa o cargo há três anos. O que se vê hoje é um país estagnado que coleciona "pibinhos" e perde competitividade em relação aos concorrentes no mercado internacional, além de sofrer com um processo de desindustrialização e constantes repiques inflacionários.

Onze anos depois de conduzir o PT ao poder, a população brasileira mostrou com clareza, em 2013, que vê um esgotamento do atual modelo. Foi justamente essa insatisfação generalizada que levou milhões de cidadãos às ruas nas chamadas "jornadas de junho". Desencadeados a partir das manifestações contra o aumento de vinte centavos nas tarifas do transporte público em São Paulo, os protestos tomaram conta do país com outras reivindicações acrescidas à pauta inicial, entre as quais a melhoria substancial na qualidade dos serviços públicos e o combate à corrupção.

O auge do movimento foi vivenciado durante a Copa das Confederações, torneio realizado em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Salvador. Nessas cidades, as manifestações se intensificaram em frente aos estádios construídos ou reformados, em grande parte, com dinheiro público, e o clamor pelo "padrão Fifa" em áreas essenciais como saúde, educação e segurança virou palavra de ordem. Além de não dar respostas convincentes a essas demandas, o governo petista vem fazendo o país pagar caro pela irresponsabilidade na condução da economia.

A herança deixada por Lula, com uma política baseada no incentivo desenfreado ao consumo, gerou recordes de endividamento das famílias brasileiras. O PIB, que em 2012 registrou um pífio crescimento de 1%, teve retração 0,5% no terceiro trimestre deste ano, o índice mais baixo desde 2009. O país aparece no fim da fila entre as principais economias do mundo no período, ostentando o pior "pibinho" do G20. Isso sem falar na degradação da Petrobras, vilipendiada desde a gestão do petista José Sérgio Gabrielli, ainda nos anos Lula.

Em dezembro, a estatal sofreu a pior queda em suas ações ordinárias desde a crise internacional de 2008, perdendo R$ 24 bilhões em um único dia. O loteamento político da empresa, transformada em mero instrumento a serviço de um projeto de poder, corroeu sua credibilidade e a fez perder 40% do valor de mercado em três anos. Os brasileiros ao menos tiveram motivos para terminar o ano celebrando o fim da impunidade de criminosos do colarinho branco.

Em 15 de novembro, dia da Proclamação da República, mensaleiros coroados do PT como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares tiveram a prisão decretada e iniciaram o cumprimento de suas penas na cadeia. Apesar dos sucessivos ataques do partido ao Supremo tribunal Federal e da tentativa de rotular seus políticos presos como presos políticos, o desfecho do caso esteve carregado de simbolismo, pois mostrou à sociedade que corruptos poderosos podem e devem pagar por seus crimes como qualquer cidadão comum.

Se em 2013 as ruas gritaram por mais educação, saúde e transporte de qualidade, pelo fim da violência e da corrupção, 2014 pode ser marcado pela mudança de rumo de um país cansado de tantos desmandos. Mas este é um tema para o próximo artigo, o primeiro do novo ano.

Uma diplomata e sua empregada - RASHEED ABOU-ALSAMH

O GLOBO - 27/12

A transposição para o ambiente do trabalho dos EUA mudou tudo. Salário de US$ 3,30 por hora seria muito bom na Índia



A prisão de uma diplomata indiana em Nova York algumas semanas atrás provocou tanta indignação na Índia que o governo indiano retirou as barricadas que protegiam a embaixada americana em Nova Délhi, e uma delegação de deputados americanos em viagem para a Índia se viu esnobada pelos seus homólogos indianos.

Mas por que tanta fúria? Parece que a diplomata em questão, a vice-cônsul em Nova York, Devyani Khobragade, tinha sido denunciada pela sua ex-empregada Sangeeta Richard por ter sido forçada a trabalhar sete dias por semana, por 10 a 12 horas por dia, e ser paga somente US$ 3,30 por hora, bem abaixo do salario mínimo em Nova York, de US$ 7,25 por hora. Richard disse que foi obrigada a tomar conta dos dois filhos de Devyani sem nenhum dia de repouso. Alguns meses atrás ela se cansou do trabalho quase escravo e fugiu. A vice-cônsul nega as acusações, dizendo que ela dava todo domingo de folga para Richard poder ir à missa na igreja e se encontrar com suas amigas.

Ambas as mulheres nessa história são indianas, mas uma da classe media-alta, a outra da classe trabalhadora. Até aí essa história não tem nada de muito especial. Mas a transposição do ambiente do trabalho da Índia até os Estados Unidos é o que mudou tudo. Com certeza, um salário de US$ 3,30 por hora ia ser considerado muito bom para uma empregada na Índia, onde o salário mínimo é de US$ 0,28 por hora. Nesse quesito, o Brasil se sai melhor com US$ 1,98 por hora, mas, ainda assim, muito abaixo dos EUA, e certamente muito pior do que o salário mínimo na Austrália, o maior do mundo, com US$ 16,88 por hora.

Com certeza a vinda de Sangeeta para os EUA, onde as leis trabalhistas são mais evoluídas e aplicadas com mais rigor, ajudou a abrir os olhos dela para o fato de que estava sendo explorada. Ela agora está processando Devyani para receber o dinheiro devido a ela e também pediu asilo nos Estados Unidos.

O que enfureceu os indianos tanto nesse episódio não foi o fato de Sangeeta processar Devyani, mas o jeito como a vice-cônsul foi maltratada por policiais americanos. Ela diz que foi presa na frente da escola dos filhos quando estava deixando-os lá, algemada e jogada numa cela com viciados numa delegacia. Diz também que foi revistada várias vezes, inclusive nas suas partes íntimas. O promotor encarregado do caso, Preet Bharara, insiste que ela foi tratada como qualquer outra pessoa e com dignidade.

Para mim, estes são maus-tratos sob qualquer ângulo que olhamos. A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961 prevê certas cortesias e imunidades para diplomatas em casos como esse. O Departamento de Estado americano diz que Devyani gozava somente de imunidade parcial por causa do nível diplomático dela, mas eu acho isso uma interpretação equivocada. No meu ver, qualquer diplomata num consulado ou embaixada, seja ele o terceiro secretário ou o embaixador, goza das mesmas imunidades diplomáticas. O embaixador indiano para a ONU em Nova York, depois que esse escândalo explodiu, transferiu a diplomata para a missão dele, para tentar lhe dar mais cobertura diplomática. Não sabemos ainda se o governo americano vai aceitar essa manobra.

Infelizmente, a história de trabalho demais para pouco dinheiro não é incomum no mundo de empregados domésticos. De Nova York a Riad e até a Cingapura, existem muitas empregadas que são exploradas e abusadas. Um estudo da Organização Mundial do Trabalho lançado este ano disse que há 52 milhões de empregados domésticos no mundo, 83% deles mulheres. O Brasil lidera com 6,7 milhões de empregados domésticos, seguido da Índia com 4,2 milhões, e a Indonésia em terceiro lugar com 2,4 milhões. Segundo esse estudo, 29,9% de empregados domésticos no mundo não são cobertos por leis trabalhistas e — mais preocupante — 45% deles não têm um dia de folga durante a semana ou férias pagas anuais.

Os Estados Unidos deviam pedir desculpas formalmente para a diplomata para apaziguar o governo e o povo indiano. Algemando-a na frente dos filhos e revistando-a tão bruscamente ficaram muito aquém das cortesias diplomáticas às quais Devyani tem direito. Mas o processo legal contra a diplomata deve seguir em frente e ela deve pagar os ganhos de sua ex-empregada.

É irônico que Devyani é de origem humilde também, e que ela falava em público sobre a necessidade de dar apoio aos direitos das mulheres. Afinal das contas, ter uma empregada não é mais um direito dos mais endinheirados, mas sim um privilégio. E é nos EUA onde nós vemos isso mais frequentemente.

Chips argentinos - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 27/12

A empresa argentina Corporación América, que administra o aeroporto de Brasília, vai substituir Eike Batista como sócio da futura fábrica de semicondutores em Ribeirão das Neves, em Minas.
A IBM e os bancos BNDES e BDMG também participam do negócio.

Dilma no Nordeste
O governador baiano Jacques Wagner deve ser o coordenador da campanha de reeleição de Dilma no Nordeste.
O assunto será discutido estes dias pelos dois na base de Aratu, onde a presidente descansa.

Diário de Justiça
A Deloitte, a gigante inglesa de auditoria e consultoria que participa da reestruturação da OGX, foi condenada pela 17ª Câmara Cível do Rio a indenizar, no valor de uns R$ 16 milhões, Sebastião Nogueira e João Downey.
Os dois eram sócios do braço brasileiro da Arthur Andersen, absorvida pela Deloitte.

Calma, gente!
O padre José Roberto, da Igreja Ressurreição, na Rua Francisco Otaviano, em Ipanema, no Rio, levou um baita susto na missa de Natal, quarta passada, ao meio-dia.
Acredite. Um homem de cerca de 40 anos subiu ao altar, na hora da comunhão, pegou o padre pelo gogó e ficou apertando com força até que o sacerdote conseguiu gritar no microfone: “Chamem a polícia.”

E a missa continua...
Foram necessários quatro homens para deter o destrambelhado.
Ele foi levado por guardas municipais para a 14ª DP. E, mesmo depois deste bafafá, o padre continuou a missa até o fim.

Pra brasileiro ver
O Rio verá pela primeira vez, em janeiro, uma peça do dramaturgo inglês Nick Payne, que, aos 28 anos, ganhou o Evening Standard Awards, importante prêmio de teatro.
A montagem é “Wanderlust”, que ganhou por aqui o título de “Preciso andar”. A direção é de Ivan Sugahara.

Poxa, Bebeto!
Bebeto, o ex-jogador da seleção e deputado, e outras sete pessoas que estavam com ele, furaram a fila do embarque internacional no aeroporto Tom Jobim, no Rio, na quarta, por volta das 22h.
O grupo passou na frente de outros passageiros que enfrentavam uma fila grande para mostrar o passaporte no guichê da Polícia Federal.

Bolinhas de sucesso
Veja só que maravilha. A exposição da artista japonesa Yayoi Kusama, “Obsessão infinita”, atingiu 500 mil visitantes, na segunda passada.
Em cartaz no CCBB do Rio desde outubro, a mostra, que abusa de imagens de bola de todos os tamanhos, fica em cartaz até o dia 20 de janeiro.

Despejo no morro
A turma do Favela + Limpa, ONG que recicla óleo e garrafa PET há dois anos no Morro do Cantagalo, no Rio, faz campanha na internet contra uma decisão da Secretaria estadual de Obras.
O governo pediu que, até terça, a ONG deixe o lugar que ocupa. A área servirá de canteiro de obras do PAC, tocadas pela Odebrecht.

Segue...
Em três dias, a campanha, que incentiva o envio de e-mails para a secretaria e para a construtora, já conta com o apoio de 3.300 pessoas.
O governo diz que o lugar pertence ao estado, e está sendo ocupado irregularmente pela ONG.

A volta do vinil
Sabe a Tracks, na Gávea, cuja venda de LPs encostou na de CDs este Natal? A turma que ganhou os discos de presente voltou lá querendo comprar uma vitrola.

Aliás...
Heitor Trengrouse, dono da loja, diz que não há fabricantes de vitrola no Brasil. Aqui, só se for importada.

CHÃO DE GIZ - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 27/12

A chegada de estrangeiros menores de 18 anos desacompanhados, em busca de refúgio no Brasil, tem sido motivo de preocupação. No Estado de São Paulo, o número quase triplicou entre 2012 e este ano, saltando de oito para 21 casos, segundo o Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas Arquidiocesana. A maioria dos que viajam sem os pais ou responsáveis são rapazes com idade entre 15 e 17 anos.

CHÃO DE GIZ 2
"Esses menores chegam muito vulneráveis. Ficam sujeitos a todo tipo de exploração", diz Larissa Leite, do setor de relações externas da Cáritas, entidade que faz triagem e encaminhamento dos estrangeiros que fogem de perseguições ou guerras. Os adolescentes são enviados pela Justiça para abrigos ou para a casa de um guardião voluntário.

CHÃO DE GIZ 3
Entre janeiro e novembro, a Cáritas registrou no total 2.746 pedidos de refúgio, feitos por pessoas de pelo menos 60 nacionalidades. Mais da metade (55%) das solicitações partiram de haitianos. Bangladesh, Nigéria, Senegal e Congo também aparecem entre os líderes de emissão de imigrantes. Outras 500 pessoas estão na fila para iniciar os processos em SP, Estado que concentra a metade dos pedidos.

EM ALTO E BOM SOM
O ex-senador Almino Affonso prepara um livro sobre 1964. Na obra, conta os bastidores do golpe militar e as conversas que tinha com o então presidente João Goulart. Almino era ministro do Trabalho e da Previdência de Jango e acompanhou de perto os momentos dramáticos que antecederam a deposição do então presidente. O livro será lançado até abril.

BAÚ
José Serra (PSDB-SP) também decidiu recentemente escrever as memórias do que viveu no período, quando era líder estudantil.

VIROU PÓ
Dias antes de negociar com os credores, a OGX, de Eike Batista, estava com o cofre quase vazio. Profissionais que participam do dia a dia da empresa dizem que ela dispunha de menos de R$ 10 milhões em caixa.

IMAGINE
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) cantou para moradores de rua da Praça da Sé na manhã do dia 24. Levou a banda Brothers of Brazil, de seus filhos Supla e João Suplicy, e a apresentadora Maria Paula. No repertório, canções de Cat Stevens e "Imagine", de John Lennon.

CONDOMÍNIO AMIGO
O número de ações de cobrança por falta de pagamento da taxa condominial na cidade de São Paulo teve queda de 7,2% de janeiro a novembro deste ano, em relação ao mesmo período de 2012. De acordo com o levantamento, feito pelo Secovi-SP, o sindicato que representa as construtoras, elas caíram de 9.833 no ano passado para 9.124 ações em 2013.

CONDOMÍNIO AMIGO 2
Dentre os fatores que contribuíram para reduzir as pendências estão os acordos extrajudiciais e as negociações amigáveis.

NO CORAÇÃO DO BRASIL
Famoso pelos retratos de celebridades de Hollywood, o fotógrafo americano Martin Schoeller desembarcou na Amazônia para fotografar, com as mesmas técnicas e luzes de estúdios, os índios caiapós do sul do Pará.

O mais famoso deles, o cacique Raoni posou para as lentes que já registraram estrelas como George Clooney e Angelina Jolie.

As imagens ilustram a reportagem de capa da edição de janeiro da revista "National Geographic" brasileira, que chega às bancas hoje.

Raoni falou dos efeitos da hidrelétrica de Belo Monte na vazão do rio Xingu, que atravessa as reservas do seu povo.

"Não gosto dos madeireiros. Não gosto dos garimpeiros. E não gosto dessa represa!", afirmou ele à publicação.

TEMPO DE FESTA
O chef Christian Montgomery e a empresária Juliana Angrisani receberam convidados em sua festa de casamento no Hotel Tivoli, nos Jardins. A mãe do noivo, Renata Conti, e o pai, o ginecologista Malcolm Montgomery, com a mulher, Carla Regina, acompanharam a cerimônia. A atriz Maria Fernanda Cândido e o marido, o empresário francês Petrit Spahija, a jornalista Julie Montgomery e a empresária Carol D'Angelo também passaram por lá.

CURTO-CIRCUITO
A The History traz a bateria da Vai-Vai para sua festa de Réveillon, às 21h. 18 anos.

A corrida anual de São Silvestre terá edição infanto-juvenil amanhã, no Ginásio do Ibirapuera, às 9h.

O filme "O Retorno", de Rodolfo Nanni, será exibido no dia 11 de janeiro, na volta do Cine Direitos Humanos, no Itaú Frei Caneca.

Guerra de posições - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 27/12

Os tucanos estão empenhados em convencer formadores de opinião e líderes políticos de que a chapa Eduardo Campos/Marina Silva não tem futuro. Mesmo que Campos dobre nas pesquisas quando Marina é a vice, os estrategistas de Aécio Neves afirmam que a chapa não chegará aos 30%. Os aecistas querem evitar a divisão das forças e uma sangria em direção ao candidato socialista.

Quem paga a conta?
Advogados estão se perguntando sobre qual é o objetivo real de transportar para Brasília os condenados no processo do mensalão. As leis brasileiras, em casos de normalidade quanto a prisões, dão direito aos condenados de escolher qual o local de cumprimento de suas penas, os quais têm preferência pela cidade onde eles e seus familiares residem. É o que está ocorrendo agora. Esses advogados citam as consequências de o STF ter levado os condenados até Brasília. A PF pagou diárias e passagens para policiais. A FAB usou aeronave e soldados da tropa. E o poder público federal está gastando com passagens de presos. Todos esses gastos poderiam ter sido evitados.


“A doação compromete a normalidade e a legitimidade do pleito eleitoral, compromete seriamente a independência dos representantes”
Joaquim Barbosa
Presidente do STF, em defesa da proibição de doações pelas pessoas jurídicas para financiar as campanhas eleitorais

Dando de ombros
O Planalto não enxerga peso eleitoral nas críticas à sua intervenção na economia. A assessoria da presidente Dilma diz que o governo intervém na defesa do bem comum, como no caso da redução dos preços da energia e dos combustíveis.

A pão e água
Os socialistas terminaram o ano irados com a ministra Ideli Salvatti. O PSB não criou problemas para votar o Orçamento nem faz oposição sistemática. Mas, na hora de liberar emendas, seus parlamentares só foram atendidos em 50%. O PMDB liberou acima de 80%. “Eles são rancorosos e vingativos”, critica o líder do partido, deputado Beto Albuquerque (RS).

Voo solo
Cortejado, o PSC resiste ao assédio. Seu presidente, Pastor Everaldo, garante que ele será candidato ao Planalto. Diz que, em suas pesquisas, seu nome chega a 4% e que em janeiro vai percorrer o Maranhão, a Bahia e São Paulo.

Em ritmo de eleição
O Planalto vai incrementar seu “Gabinete Digital”. O objetivo é dar visibilidade aos 36 programas prioritários da presidente Dilma e contestar as críticas de má gestão. O governo quer mostrar que as metas estão ao alcance da mão. “Passamos o mandato trabalhando. Tem muita entrega para fazer”, diz a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil).

Faltam ‘DEPUTADOS’ em São Paulo
A assessoria da Assembleia paulista explica que criar uma CPI não passa pelo presidente da Casa, Samuel Moreira (PSDB). Uma CPI precisa de 32 assinaturas. E não há 32 deputados dispostos a investigar suspeitas de desvios na obra do metrô.

Empurrando com a barriga
A sucessão presidencial está atropelando o calendário eleitoral. Mesmo assim, o governador Renato Casagrande (PSB-ES) só quer tratar da montagem de seu palanque em maio. O seu principal aliado, o PT, transpira impaciência.

NA AGENDA da presidente Dilma para janeiro, está prevista sua participação na inauguração dos estádios para a Copa em Manaus e Natal.

Praia para depois - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 27/12

O pedido de demissão de Geddel Vieira Lima da vice-presidência da Caixa Econômica Federal, via Twitter, fez com que Dilma Rousseff interrompesse o descanso na Bahia. De lá, ela orientou Michel Temer a convencer Geddel a enviar uma nova carta de demissão no lugar da anterior, datada de setembro. O governo pretendia antes analisar o nome de Roberto Desiree, indicado para o posto na Caixa, mas o ex-deputado precipitou sua exoneração, que sairá no "Diário Oficial" hoje.

Pôquer 1 Num primeiro momento, Geddel não aceitou mandar uma nova carta. Temia que a saída do cargo apenas na reta final de 2013 fosse usada pelo PT da Bahia contra ele nas eleições do ano que vem, quando deve fechar aliança com PSDB e DEM.

Pôquer 2 Diante da insistência de Temer e de Gleisi Hoffmann (Casa Civil) sobre a necessidade de o pedido de demissão ser recente, o peemedebista tascou um "reitero'' logo no primeiro parágrafo da nova versão do texto.

Já volto E os telefonemas do caso Geddel não foram a única pausa nas férias presidenciais: Dilma deve ir hoje ao sul de Minas para verificar os estragos causados pela chuva na região. Depois, volta para a base de Aratu.

Currículo Pesou na decisão de Fernando Haddad de indicar seu secretário João Antonio (Relações Governamentais) para o Tribunal de Contas do Município o fato de o petista ter Mestrado em Direito e Filosofia e ser o interlocutor da gestão com a sociedade civil, como presidente do Conselho da Cidade.

Fogo... O presidente da Câmara Municipal de São Paulo, José Américo (PT), só deve marcar as sabatinas dos candidatos à vaga no TCM para fevereiro. Só então haverá a votação na Comissão de Justiça e no plenário da Casa.

... brando A disputa será entre João Antonio e o vereador Roberto Tripoli (PV), que conta com o apoio das bancadas do PSD e do DEM e já oficializou sua inscrição.

Prospecção O presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), Ricardo Patah, obteve ontem em almoço o aval de Gilberto Kassab para articular sua pré-candidatura ao Senado pelo PSD. O plano A do ex-prefeito era o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que hesita em topar a empreitada.

Quero entrar 1 Empresas estrangeiras procuraram o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para sondagens de investimentos. Querem entrar no país, mas enfrentam limitações legais. Renan já tem em mãos estudo completo dessas amarras, principalmente na mineração e energia.

Quero entrar 2 A japonesa Toshiba, por exemplo, quer construir oito usinas nucleares no país, mas a lei impede que a iniciativa privada atue nesse negócio. Os recursos, cujos valores não foram revelados, seriam de investidores russos. O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) também recebeu o grupo.

E se... Do presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, Wadih Damous, sobre mais uma pichação da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana: "Em vez de gastar dinheiro com tinta, os pichadores deveriam gastar os mesmos recursos para comprar e ler um livro do poeta".

Fixa 1 Luiz Fernando Pereira, advogado eleitoral de Gleisi Hoffmann, é favorável à proposta feita pelo presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, de transformar a Justiça Eleitoral brasileira em corte permanente.

Fixa 2 "Há um protagonismo da Justiça Eleitoral que é incompatível com a atual estrutura do TSE e seus juízes emprestados do STF e do STJ, pouco dedicados pelo acúmulo de funções", disse Pereira. Marco Aurélio criticou recentemente o fato de juízes se dividirem entre os tribunais de origem e o TSE.

com ANDRÉIA SADI, BRUNO BOGHOSSIAN e JULIO WIZIACK

tiroteio
"O governo entregou o jogo. O problema dos aeroportos não é de capital. Privatizaram para dar a gestão a quem tem competência."

DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO (DEM-RN) sobre a entrada do BNDES como sócio no consórcio liderado pela Odebrecht TransPort, que levou o Galeão (RJ).

contraponto


Para baixo, todo santo ajuda
Ao inaugurar um parque ontem em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) relembrou recente caminhada que fez com assessores na reabertura da trilha Caminho do Mar, que liga São Bernardo do Campo a Cubatão pela Estrada Velha de Santos.

--O trajeto total é de 10,5 km. Para descer, ainda vai --contou o tucano, aos risos.

Depois, virou-se para o secretário Bruno Covas (Meio Ambiente), que o acompanhou no percurso e ostenta uma saliente barriguinha, e arrematou:

--Fizemos os 10,5 km, não é Bruno? Tivemos que dar ponto facultativo no outro dia, mas fizemos.

A mudança de Gleisi - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 27/12

A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, já requisitou o apartamento funcional do Senado para ocupar a partir de 13 de janeiro. A expectativa é que, até lá, ela esteja dispensada das atribuições atuais para curtir uma quinzena de férias e, depois, cuidar exclusivamente da campanha ao governo do Paraná e do mandato de senadora. Com o PMDB paranaense rachado, é hora de tentar se posicionar com mais afinco no estado em que Dilma perdeu as eleições em 2010 e atrair aliados. A missão dela é ganhar terreno sobre os tucanos. E é nisso que começará a trabalhar em breve. Hoje, ela recebe jornalistas em um café da manhã para um último balanço de suas ações na Casa Civil.

Ideli fica
A cada dia crescem as apostas de que Ideli Salvatti continuará no governo Dilma Rousseff. Isso porque a vaga de candidato ao Senado em Santa Catarina está mais para Cláudio Vignatti, que tem cada dia um espaço maior no diretório estadual.

Que não se repita I
Os deputados que passaram ontem por Brasília atrás das emendas ao Orçamento deste ano, não escondiam a alegria com a sanção da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). “No ano que vem, com o Orçamento impositivo, estaremos livres dessa humilhação”, comentou o deputado Danilo Forte (PMDB-CE).

Que não se repita II
O que mais irritou as excelências foi o fato de a Secretaria de Relações Institucionais ter enviados apenas às vésperas do Natal a lista de emendas a serem atendidas. Resultado: todo mundo foi obrigado a ficar em Brasília para se certificar do empenho e da liberação dos recursos.

É ele!
O PSD dá como certa a chapa pura para o governo paulista, com Gilberto Kassab candidato a governador e com o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles ao Senado. O papel de Kassab será o de defender sua gestão em meio à onda de denúncias que tomou conta da capital paulista.

Hora da política
Quando Gleisi assumiu o cargo de ministra da Casa Civil, a ordem de Dilma foi trabalhar muito e falar o menos possível, porque queria mais gestão e menos política por ali. Agora, 10 em cada 10 ministros do governo apostam num perfil mais político — leia-se Aloizio Mercadante. Se Dilma mudar de ideia no recesso e quiser deixar a Casa Civil mais técnica, o nome será o de Carlos Gabas.

Fila I/ O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, teve que correr para o gabinete depois da entrevista sobre as ações de emergência para auxílio aos desabrigados no Espírito Santo. É que a sala de visitas estava apinhada de deputados atrás das emendas ao Orçamento deste ano.

Fila II/ “Quando vier o Orçamento impositivo, no ano que vem, a Saúde terá que mudar o seu sistema. Eles são hoje os mais atrasados na liberação das emendas”, contou o deputado Guilherme Campos (PSD-SP). O ministro Padilha, entretanto, diz que está tudo bem na liberação das emendas de sua pasta.

Por falar em .../ Guilherme Campos (foto), ele fez um périplo ontem pela Esplanada a fim de liberar as suas emendas. “Faltaram algumas que ele pretende liberar ainda esse ano. Sabe como é, quem torce para a Ponte Preta acredita em qualquer coisa!”

Fim decisivo/ A ministra Laurita Vaz estabeleceu uma meta para sua equipe de gabinete no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até o fim deste mês, quer intensificar os trabalhos com o objetivo de diminuir o número de processos à espera de decisão. Desde que assumiu o cargo, em setembro de 2012, ela já reduziu por volta de 30% a quantidade de ações que estavam paradas. Agora, pretende diminuir mais 10% desse volume até a virada do ano. Ou seja, lá não teve moleza nessa quinzena.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 27/12

Atraso em leilões freia a venda de máquinas  
Se por um lado programas do governo ajudaram a impulsionar a venda de equipamentos para construção em 2013, por outro, o atraso em leilões de rodovias impediu um avanço maior.


A avaliação é da Sobratema (Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração).

Depois de ter enfrentado uma queda de 16% na comercialização de máquinas no ano passado, o setor fechará 2013 com um crescimento de 5% em relação a 2012.

Apesar da expansão, o número total de unidades (74,1 mil) ainda ficará distante das 83,5 mil vendas que foram registradas em 2011.

"Havia leilões [de rodovias] esperados para o primeiro semestre, mas que ocorreram só agora. Isso segurou um pouco [a alta]", diz Mario Humberto Marques, vice-presidente da associação.

A área de infraestrutura é a principal compradora de máquinas, com quase a metade de participação do total.

O segmento com o pior desempenho neste ano é o de caminhões destinados à construção, cujas vendas terão um decréscimo de 7% na comparação com 2012.

A chamada linha amarela, por sua vez, que reúne veículos como retroescavadeiras e motoniveladoras, terminará 2013 com um avanço de 13%.

"Uma das ações do governo que compensou parcialmente o atraso [nos leilões] foi a grande encomenda de máquinas feita pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário", afirma Marques.

Até a primeira quinzena de outubro, foram cerca de 6.000 equipamentos repassados pelo ministério por meio do programa que beneficia pequenos municípios.

O setor projeta um crescimento médio anual de 5,5% no período de 2014 a 2018.

O QUE ESTOU LENDO
Jean-Marc Etlin, vice-presidente-executivo do Itaú BBA

"Moment d' un Couple" (Momento de um Casal), de Nelly Alard, é o livro que Jean-Marc Etlin, vice-presidente-executivo do Itaú BBA, acaba de ler.

"É uma reflexão perturbadora, inteligente e bem-humorada sobre as relações amorosas de hoje. A leveza inicial vai se transformando numa teia complexa de comportamentos, reações e atitudes com um final surpreendente", afirma o executivo.

"Discours de Guerre", de Winston Churchill, (edição bilíngue), é a leitura que ele começou perto do Natal.

Seguro pessoal tem maior crescimento em dez anos
O segmento de seguros de pessoas deve fechar o ano com um crescimento de 20% em receita de prêmios acumulados, segundo a FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida).

O incremento será o maior registrado pelo setor nos últimos dez anos.

De janeiro a outubro de 2013, foram movimentados R$ 21,3 bilhões em apólices.

"Esse é o primeiro seguro patrimonial que a pessoa adquire quando passa a ter suas necessidades básicas atendidas", diz Osvaldo Nascimento, presidente da entidade.

Em número de novas adesões, a expansão foi puxada pelo ramo de auxílio funeral (75,36%), seguido pelo de viagem (51,85%) e pelo educacional (37,52%).

"São produtos que protegem a família do segurado de eventuais dívidas."

Têm maior volume de receita o de vida (R$ 9 bilhões), o prestamista (R$ 5,9 bilhões) --para compras em rede de varejo-- e o de acidentes pessoais (R$ 3,6 bilhões).

META ENCURTADA
A rede de lanchonetes Subway pretende antecipar em ao menos seis meses a meta de alcançar 2.000 unidades em todo o país. Hoje são 1.370.

Para 2014, estão previstas de 360 a 400 novas lojas. O interior paulista, o Distrito Federal, o Norte e o Nordeste serão o foco da expansão.

A companhia estima chegar à marca de 8.000 lanchonetes no Brasil em dez anos.

O projeto passou a incluir cidades menores, com 40 mil habitantes, que tenham perfil universitário ou que sejam polos comerciais.

"Hoje, 80% dos novos pontos são em postos de gasolina ou supermercados", diz Roberta Damasceno, executiva da marca no país.

1.370
é o total de restaurantes

30%
deverá ser o crescimento anual

Os burocratas ricos - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 27/12

No capitalismo, quem fica rico são os capitalistas. Mas, para isso, eles precisam empreender, produzir e servir ao público, oferecendo bens e serviços que o consumidor queira comprar. No socialismo, quem fica rico são os políticos e os burocratas. Mas a riqueza deles só é possível por duas vias: ou votando gordos benefícios para si mesmos ou praticando a corrupção.

Quando o império soviético desmoronou e, um a um, seus ditadores foram depostos, descobriu-se algo já suspeitado: não havia um único ditador pobre; todos eram muitos ricos e, claro, sua riqueza estava investida no exterior. Mas não é preciso ir longe, nem é necessário estar em um país socialista para comprovar que muitos altos burocratas do governo, antes de servirem ao público, servem-se do público.

No Brasil, as histórias de políticos que enriqueceram na função e de funcionários cheios de privilégios habitam as páginas dos jornais o tempo todo. São os “marajás” das Assembleias Legislativas com proventos astronômicos; burocratas ganhando R$ 20 mil, R$ 30 mil ou R$ 50 mil; aposentados ganhando até R$ 60 mil por mês e acumulando mais de uma aposentadoria; funcionários fantasmas, que ganham sem trabalhar etc.

Faz pouco tempo foi divulgado que um assessor da biblioteca da Assembleia em um estado pobre tinha salário igual ao teto permitido – perto de R$ 27 mil por mês –, quando um trabalhador equivalente no setor privado não passava de R$ 5 mil. A resposta é sempre a mesma: tudo está na lei. Mas a questão não é essa! Há leis claramente imorais, a exemplo daquelas com que os políticos e os burocratas aprovam benefícios em favor de si mesmos.

Mário Covas, político que ocupou vários cargos relevantes, dizia: “O Brasil é o país dos privilégios, não dos direitos”. Conhecido o histórico de corrupção e de privilégios no governo, toda lei sobre salários, vantagens e aposentadorias de políticos e servidores públicos deveria ser submetida a um quarto poder: a sociedade, por meio de representantes sem mandato, sem salário e sem carreira, uma espécie de Conselho Nacional que se reuniria somente para aprovar aquela lei.

O Ipea, que é um instituto do governo federal, publicou estudo provando que o Estado brasileiro é concentrador de renda. Segundo o estudo, a remuneração dos servidores públicos é 23% acima da média do setor privado (para as mesmas funções) e a aposentadoria no governo é bem maior que a do INSS. Mesmo com os programas sociais, a exemplo do Bolsa Família, o estudo diz que o governo é responsável por 1/3 da concentração de renda no país.

O Brasil não é um país socialista no sentido clássico (no qual não há propriedade privada dos meios de produção nem liberdade para empreender), mas também está longe de ser um país capitalista clássico. Embora por aqui o direito de propriedade privada e a liberdade de empreender existam, o tamanho do Estado, os controles estatais e as intervenções do governo na vida privada são tão grandes que é ilógico falar em “capitalismo neoliberal”.

O grande desafio da sociedade brasileira é limitar os poderes do governo, impedir a máquina pública de virar um gigante insustentável e conter os privilégios que criam políticos e burocratas ricos. O país precisa de mais capitalistas e mais empreendedores que sirvam ao público... e que eles fiquem ricos disputando e concorrendo no mercado pela preferência do consumidor.