segunda-feira, setembro 09, 2013

Um país sem espelho - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 09/09

“De tanto ver triunfar nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” (Ruy Barbosa)

Certa vez, conheci uma pessoa que morava num cantão suíço e não soube me dizer o nome do Chefe de Estado. Isso não era importante: a Suíça é a Suíça, independentemente do governo de plantão. Em muitas sociedades desenvolvidas, os governantes raramente se destacam. Tais países andam sozinhos. Neles, em condições normais, os governantes são quase anônimos e agem de acordo com um padrão de honestidade e eficiência que corresponde à maioria avassaladora da população.

Já em países com instituições mais frágeis, a liderança é importante. São países que precisam se espelhar em alguém. Na Argentina, que ao contrário do Brasil teve vários heróis no século XIX — com destaque para San Martín e Belgrano — há uma frase em um dos livros da literatura local dos anos 70, em que um garoto, perplexo com os desmandos que começava a perceber no país nos seus primeiros passos da juventude, pergunta ao pai: “Se no século passado todos eram heróis, que diabos aconteceu depois?”

O Brasil também se ressente da falta de espelhos. Há uma carência de lideranças inspiradoras e há muito tempo experimentamos uma enorme leniência em relação a hábitos que outras sociedades condenam com vigor. É por isso que nossa política privilegia o acerto com os espertos à cultura do diálogo com o adversário. Somos o país da malandragem e do jeitinho para driblar a regra. Se na cena política assistimos a um desfile de personagens que em outros países estariam atrás das grades, isso reflete os critérios morais elásticos de uma parte não desprezível da sociedade. Mesmo deixando de lado o fato de que tais personagens não foram eleitos em Marte, quem não tem algum amigo que, podendo fazer uso de algum tipo de relacionamento pessoal, não tenta obter alguma benesse oficial indevida?

Costumo tomar táxi — motoristas de táxi são um ótimo termômetro do país — e me causa espanto a dissociação que existe entre a atitude severa de muitos em relação ao país e a régua moral diferenciada que têm em relação a atitudes individuais. Isso vai desde a dificuldade de muitos deles para respeitarem as regras de convivência no trânsito, até o reconhecimento de uma irregularidade própria ou de um conhecido referente a uma esperteza com recursos públicos, geralmente associada à figura do “encostado no INSS”.

Que não se pense que os desvios de caráter são exclusivos de uma categoria profissional ou grupo social. Os exemplos, entre as pessoas de maior renda, também abundam, indo desde a aparentemente inofensiva tentativa de sonegar impostos, até — no Rio de Janeiro — a convivência com bicheiros, com seus laços com outros (sub)mundos da sociedade local.

É como se a separação do que é certo do errado fosse mais tênue entre nós. Quando morei nos EUA, ficava impressionado quando via as caixas metálicas para comprar jornal, em que com 50 centavos de dólar se abria a tampa de vidro e qualquer um podia levar todos os exemplares, apesar do que todos os usuários levavam apenas um. Na Escandinávia, fiquei maravilhado numa viagem vendo como num restaurante as pessoas pesavam o prato, colocavam o dinheiro numa mesa e pegavam o troco de uma pilha de moedas, sem qualquer fiscalização e sem que ninguém ousasse roubar um centavo. E em vários lugares da Europa é comum ver nas estações de trem centenas de bicicletas sem cadeado, que os passageiros deixam de manhã na praça, para procurar no fim do dia no retorno às suas casas. Se concluirmos que tais cenas são impensáveis no Brasil, entenderemos por que nossa representação política é o que é.

Não estamos aqui falando de indivíduos. De um modo geral, nossos últimos presidentes são pessoas em relação às quais não há dúvida acerca de sua honestidade. Isso não basta, porém. O que as passeatas de junho talvez estejam nos dizendo é que uma parte do país não quer conviver mais com nossas mazelas morais. Distinguir o certo do errado talvez se torne mais necessário a partir de agora, no Brasil. Se for assim, a tolerância com a corrupção deverá diminuir. O país ficará melhor quando os corruptos tiverem vergonha de sair na rua.

Metástases - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 09/09

A deformação tem se ampliado a outros setores como a Petrobras e o Banco do Brasil



Depois dos episódios gerados pela intemperança bolivariana nas relações com o nosso país, que, aliás, as vem suportando com insensibilidade córnea, assim como por sua benquerença em relação à prática agressiva, levou o governo ao silêncio. Se esta foi a reação na esfera oficial, fora dela não desapareceu o desconforto. Deste, pode ser apontado programa que teve marcante repercussão dada a qualificação de seus participantes. Trata-se do programa Painel, semanalmente produzido sob a direção de William Waack, profissional de larga experiência local e internacional.
A ideia central não poderia ser mais objetiva acerca do que aconteceu com o Itamaraty e a política externa do Brasil nos últimos anos. Note-se que da conversação participavam o embaixador Rubens Antônio Barbosa, que encerrou sua atuação diplomática à frente das duas mais importantes embaixadas, em Londres e em Washington, o professor e historiador Marco Antônio Villa e o cientista Guilherme Casarões. Como seria de esperar, durante uma hora, as questões pertinentes foram examinadas de maneira impecável. O embaixador começou dizendo que não ocorrera mudança na política geral, que continuava voltada aos mesmos objetivos, mas que ocorreram certas preferências antes inexistentes, de inspiração ideológica e o que é mais, por vezes contrárias aos interesses brasileiros, o que é muito grave; exemplificou com o procedimento dado ao Paraguai, quando por muitas razões merece um tratamento especial, fatores antigos e atuais como os milhões de brasileiros que lá vivem e trabalham, a necessária energia elétrica gerada em Itaipu, e assim por diante; no entanto, o Brasil contribuiu para a suspensão paraguaia do Mercosul, sem uma justificativa e contra os interesses do Brasil; não é tudo, a Bolívia tem feito poucas e boas em desfavor do Brasil e, não obstante, não lhe cessam as blandícias por parte do nosso governo, lembrou a brutal expulsão da Petrobras e suas instalações, a revogação do acordo de fornecimento de gás e o consequente agravamento do preço a níveis quase insuportáveis, o incidente em avião do Ministério da Defesa revistado arbitrariamente, o afastamento de três embaixadores de postos importantes em solidariedade à Bolívia, em razão da revista em avião de Evo na Europa, e por fim, a recusa de salvo conduto ao senador boliviano asilado pelo Brasil, descumprindo cláusula expressa na disciplina internacional do asilo e que veio a motivar o desencontro atual. Isto sem falar na reiterada submissão à Argentina, como agora está ocorrendo novamente.
E para encerrar, o sumaríssimo afastamento do embaixador a quem fora confiada a chefia do Itamaraty, em horas, coisa jamais vista, sem precedente. Teria sido a derradeira mesura de homenagem ao governante boliviano. Tudo isso era a consequência de uma novidade inserida na estrutura da instituição, quebrando mais de século de observância, a política externa é nacional, e não partidária. Para não gastar palavras, o ministro de Estado das Relações Exteriores sempre foi o conselheiro, aliás, constitucional, da presidência da República no tocante, e agora, desde o governo passado, um assessor do presidente, estranho aos quadros do Itamaraty inominado e apelidado “Chanceler B”, faz as vezes de chanceler particularmente com relação à América do Sul.
Por uma espécie de metástase que se propaga, a deformação tem se ampliado a outros setores como a Petrobras e o Banco do Brasil, e de outros ainda de maior expressão transformados em sucursal de um partido.
Para encerrar, recorro a que disse o professor Marco Antônio Villa, o Itamaraty foi atingido como instituição e parece não saber o que quer.

Uma política externa à altura do Brasil - GUILHERME CASARÕES

O Estado de S.Paulo - 09/09

Entre as análises de primeira hora sobre a diplomacia do governo Dilma Rousseff, não foram raras as menções ao seu aparente desinteresse por questões globais - ressalvado, pela própria biografia da presidente, o tema dos direitos humanos. Esperava-se uma mudança de forma, sem o ativismo dos anos anteriores, mas mantendo as linhas substantivas essenciais. O perfil mais técnico do então chanceler Antonio Patriota, nomeado por Dilma, indicava a preferência por uma política exterior sem voos altos nem o risco de tropeços ou atritos, mantendo-se o lastro institucional do Itamaraty.

Abdicando do exercício da diplomacia presidencial, parcialmente responsável pela (re)construção da imagem do Brasil nos 15 anos anteriores, a presidente mostrou-se muito pouco engajada nos temas internacionais - para além do óbvio protocolar, como reuniões de cúpula e algumas visitas a países amigos. No entanto, ao contrário do que se esperava, deixou pouco espaço para o Itamaraty trabalhar.

Isso parecia relacionar-se com as prioridades governamentais em tempos de crise e desaceleração da economia. O envio de estudantes brasileiros ao exterior, no desejo de qualificá-los nas áreas de ciência e tecnologia, virou bandeira governamental e ativo diplomático. Projetos de infraestrutura, sobretudo no nosso entorno geográfico, ganharam prioridade sobre as grandes estratégias costuradas nas duas décadas anteriores. Aos poucos, foram mudando os parceiros preferenciais e os temas centrais.

A despeito de conquistas maiúsculas, como a eleição do embaixador Roberto Azevêdo na Organização Mundial do Comércio (OMC), ou tentativas de avanços conceituais, como a "responsabilidade ao proteger" diante dos levantes árabes, a generalizada ausência de protagonismo internacional e o desencontro de interesses entre o Ministérios das Relações Exteriores e outros setores do governo reforçaram a avaliação de um importante jornalista: "O mundo de Dilma é o Brasil".

Não haveria problema algum caso se tratasse somente de uma questão de prioridades. Historicamente, em tempos difíceis, a redução do ativismo global é natural e esperada. Mas o estilo de governar de Dilma Rousseff, além de enfraquecer o Itamaraty, revelou um profundo dissenso sobre visões de mundo. A introspecção forçada da diplomacia dilmista entra em choque com duas dimensões essenciais da política externa do Brasil.

A primeira delas é histórica e mais profunda. Somos um país cuja identidade foi parcialmente forjada pela obra diplomática, que também nos logrou respeitável reputação internacional. Se hoje o Brasil é um ator global, isso é graças ao esforço coletivo do serviço exterior na construção permanente de uma sedutora narrativa de "quem somos" e "o que queremos" para o mundo.

Como estamos falando de um país cuja trajetória é marcada pela escassez de recursos tradicionais de poder - como dinheiro ou armas -, a projeção brasileira deu-se, de maneira geral, pela empatia global. Esse fato trouxe efeitos tangíveis, que vão desde a profusão de acordos bilaterais de cooperação com numerosas nações até o vertiginoso aumento do comércio internacional brasileiro na última década; e também intangíveis, que se traduzem em aspectos da liderança do Brasil em certos temas multilaterais, ou, se quisermos, na superação de um antigo complexo de vira-latas que por muito tempo nos definiu.

A segunda dimensão diz respeito ao chamado "insulamento burocrático" do Itamaraty. Ao longo do século 20, a Casa de Rio Branco foi-se profissionalizando e ganhando autonomia, seja com relação ao presidente da República, ao Congresso Nacional ou às forças sociais. Isso permitiu que se consolidasse uma espécie de repertório permanente da política externa, corporificado no serviço diplomático e, em geral, identificado com a bem-sucedida inserção internacional do Brasil.

Se, por um lado, as decisões diplomáticas permaneceram relativamente fechadas mesmo num contexto democrático, a ênfase na "tradição" foi capaz de blindar a política exterior de críticas profundas nas últimas décadas - limitando-se, desconsiderados os excessos retóricos, a contestações pontuais. Não à toa, no último meio século a enorme maioria de nossos chanceleres veio da própria carreira diplomática - ou, quando não era o caso, eles estavam afinados com as tradições e o legado do barão do Rio Branco.

Os eventos dos últimos dias jogaram, numa só tacada, toda essa narrativa por terra. As inesperadas tensões com a Bolívia fugiam de um script diplomático que prezava pela amizade - e pela cautela - com os vizinhos. A inédita quebra de hierarquia enfraquece, por sua vez, a reconhecida condição de infalibilidade do Itamaraty, sobre a qual assenta boa parte da reputação brasileira.

A pronta demissão do ministro Antonio Patriota, um dos melhores quadros de sua geração, revela, por fim, as dificuldades que a nossa tradicional diplomacia vem sofrendo no contexto de um governo para o qual o imediatismo dos resultados tangíveis e quantitativos precede o planejamento de longo prazo e a razão de Estado. Como se a política externa pudesse ser traduzida em planilhas ou balancetes.

E enquanto Antonio Patriota se prepara para retornar a Nova York (para assumir a chefia da representação brasileira nas Nações Unidas), onde suas habilidades certamente serão valorizadas, devemos desejar bons augúrios ao seu sucessor, Luiz Alberto Figueiredo Machado - um grande negociador, que terá diante de si o maior dos desafios: superar as amarras governamentais para fazer uma política externa que esteja à altura do Brasil.

Excelência, com equidade - ILONA BECSKEHÁZY

O GLOBO - 09/09

O processo acanhado de redemocratização que vivemos no Brasil há alguns anos, que tem como marco legal a Constituição Federal de 1988, caracteriza-se pela criação de uma ampla gama de expectativas de superação de privações sociais e econômicas legadas por recorrentes períodos de escassez de espaço de negociações políticas transparentes.

Embora essas expectativas venham, bem aos poucos, se materializando, aparentemente ganharam doses extras de energia com as manifestações de junho. Tomados de surpresa por esse despertar democrático tardio, gestores e legisladores do setor público reagem, envergando, agora, a vara para o populismo, em uma tentativa de se distanciar da ponta oposta de inércia e indiferença em que se instalaram há tempos.

Na área de educação, o máximo que conseguimos especificar até agora foi um certo padrão Fifa que ninguém sabe como traduzir em política pública. A dificuldade em objetivar o que desejamos para a educação tem raízes no próprio processo de redemocratização, porque em sua trilha vieram dois dogmas: o da descentralização da gestão dos serviços públicos e o da autonomia irrestrita a todos os seus níveis de comando - prefeitos, diretores de escola e professores são donos de seu nariz.

Se não fosse a criação intencional de uma cultura de avaliação externa iniciada no governo Fernando Henrique Cardoso/Paulo Renato, expandida e aprofundada por Lula/Fernando Haddad, estaríamos hoje completamente no escuro quanto ao que se passa em nossas escolas. A avaliação externa, hoje, é a única forma que temos de saber, mesmo que de maneira incompleta, no que resultam os recursos humanos e materiais investidos em educação.

E é a única porque até hoje não tivemos coragem de estabelecer padrões de infraestrutura escolar, de acervo e acesso a bibliotecas escolares, do número de alunos por turma, do perfil profissional e pessoal da equipe escolar e, finalmente, dos itens de currículo a serem ensinados tanto aos alunos do Leblon, Zona Sul do Rio, quanto em Melgaço, no estado do Maranhão.

Graças à autonomia de alguns prefeitos, começam a surgir estruturas locais com padrões de qualidade mais exigentes que os de seus governadores e, principalmente, que os do próprio Ministério da Educação. Aos poucos, algumas redes escolhem currículo, o traduzem em material de aulas estruturado, o refletem na formação e avaliação de professores e alunos. Finalmente começam a pipocar ciclos de qualidade educacional em nosso país, mesmo que esporádicos.

Nesse contexto de incipiência e fragilidade, a reação precipitada ao que se pede de forma inespecífica na rua pode representar uma ameaça àquilo que, mesmo sem conseguir verbalizar por absoluta falta de referências, desejamos: o alinhamento dos padrões conceituais e operacionais de qualidade do Brasil com os dos países desenvolvidos. Justamente o tal padrão Fifa que saímos de nossas casas para exigir.

Neste tempo de sonhos democráticos é preciso deixar claro que o que queremos é a excelência, com equidade. 

Baile dos mensaleiros - RUBEM AZEVEDO LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - 09/09
O Correio Braziliense de sábado 31 de agosto fez a melhor das manchetes da imprensa brasileira, sobre o escândalo mencionado acima. Aliás, uma denúncia do falecido jurista Clovis Ramalhete (1912-1995) completa o que lhe pareceu outro escândalo: a política indigenista admitida na revisão da Constituição de 1988, mantida em 1995.Ramalhete, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e da Corte Permanente de Arbitragem de Haia, denunciou em artigo no extinto Jornal do Brasil, lembrado, agora, no boletim da Solidariedade Ibero-americana. Sua denúncia, na revisão constitucional de 1995, sustentou que "a organização do país, sua integridade e desenvolvimento foram sectários, radicais e antinacionais".
Ramalhete achou que "ninguém lera a Constituição de 1988". "Agora, (1995), para apenas 240 mil índios, destinam-se 793 mil quilômetros quadrados. E o lavrador sem terra!" Para ele, "ali, onde havia tanto índio, na Amazônia, pululam mais de 30 Orgs financiadas por organizações não-governamentais, mas pelo capital estrangeiro". "Essa minha denúncia dirige-se ao Congresso", disse Ramalhete, ao morrer, pouco depois.

Josemar Dantas, editor do suplemento Direito&Justiça, do Correio Braziliense, profissional excelente, não poderia solicitar a um de seus colaboradores que reabrisse a questão levantada por Clovis Ramalhete? Este seu amigo, advogado que não advoga, apreciaria, como todo leitor, ver o assunto debatido pelo atualSupremo Tribunal Federal, de alto mérito, como ficou demonstrado no julgamento dos mensaleiros. No STF, esse seria um processo como os Due scandali politici: Pro Murena + Pro Sestio, de Cícero. Os atuais ministros do STF fariam debates brilhantes, como os do mensalão. A revisão constitucional de 1995 foi comandada por um gaúcho do PMDB, que admitiu ter feito, ele mesmo, mudanças pessoais, que Ramalhete não chegou a ver.

O Correio Braziliense deu bom exemplo. O jornal abriu-se para os leitores se manifestarem. O Globo arrepende-se, por ora, do passado, de 1925, para chegar a 1964, com honestidade, até na vida política do Brasil, na ditadura Bernardes, no levante do Forte de Copacabana; no de São Paulo, em que Friendereich, o maior futebolista do Brasil, lutou contra Vargas, em 1932; este quis apoiar a marcha de Prestes, que recebeu dinheiro do governo, mas não apoiou Vargas. O Globo, até agora, dos debates na Câmara dos Deputados, não viu a pequena oposição que defendeu a liberdade de imprensa, nos anos 1925 do Rio e em todos os jornais do país. Assis Chateaubriand destacou esse líder, o que impediu o governo a fazer isso.

Agronegócio - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 09/09

Semana passada vi de perto, dessa vez na cidade de Sorriso (MT) --considerada a capital nacional do agronegócio e nosso maior produtor individual de soja--, exemplos práticos das contradições que comprometem o desempenho da nossa economia.

Ao mesmo tempo em que nos orgulham os ganhos formidáveis de produtividade no campo, é desoladora a descrença dos produtores na capacidade do governo federal de prover investimentos mínimos, em logística e em infraestrutura, que garantam menores custos e maior competitividade no momento de escoar a produção.

A frustração é de tal ordem que ouvi de muitos deles o desejo de plantar menos, já na próxima safra, por não haver sequer condições adequadas de armazenagem.

Com o crescimento do PIB projetado ao redor de apenas 2% ao ano, o setor rural resiste de forma heroica e produz resultados que devem ser reconhecidos e saudados pelos brasileiros: no segundo trimestre, em comparação com o primeiro, o PIB agropecuário cresceu mais que o dobro do PIB. O crescimento foi de 14,7% no primeiro semestre, se comparado com o mesmo período de 2012, enquanto o setor de serviços cresceu 2,1% e a indústria, 0,8%.

A grande performance reflete as transformações ocorridas quando a estabilização da economia decretou o fim do uso especulativo da terra e inaugurou a fase da busca pela eficiência na produção.

É notável, desde então, a crescente utilização de novas tecnologias e métodos de manejo, tornando produtivo e eficiente o setor, da porteira para dentro.

As dificuldades a serem superadas estão da porteira para fora e são as mesmas que outros setores enfrentam. O Programa de Investimento em Logística acaba de completar um ano sem realizar nem sequer um leilão para obras em rodovias, ferrovias e portos.

Esse é o terceiro ano consecutivo em que o Brasil cai no Índice de Competitividade Mundial, divulgado pelo Institute for Management Development: em 2010, ocupávamos o 38º lugar; em 2011, o 44º; em 2012, 46º. Na edição 2013, o Brasil caiu mais cinco posições --está em 51º lugar entre 60 países.

O resultado são montanhas de grãos ao ar livre (principalmente soja e milho) por falta de armazenagem; quilométricas filas de carretas para chegar aos portos; escassez de ferrovias, além de navios e contêineres parados nos portos, multiplicando custos e reduzindo competitividade.

É uma realidade que penaliza a economia como um todo e atinge intensamente o setor do agronegócio, cuja cadeia produtiva contribui com 22% na formação do PIB nacional.

A ausência de planejamento, o improviso e a prioridade dada ao marketing têm condenado os desafios do Brasil real ao esquecimento.

Diplomacia e ideologia - DENIS LERRER ROSENFIELD

O ESTADO DE S. PAULO - 09/09

A diplomacia é uma arte de defesa dos interesses nacionais, no que tradicionalmente se considera a soberania de cada país. Como toda arte, tem de demonstrar habilidades, no caso, nas negociações. E, certamente, noção precisa de limites que não podem ser ultrapassados, sob pena de tomar inviável uma negociação diplomática e, no mundo atual, uma negociação comercial.

Historicamente, a diplomacia sempre esteve associada a guerras, sendo um instrumento quer para evitá-las, quer para conduzir negociações que levassem ao seu fim. Nesse sentido é que foi criado o instituto da inviolabilidade de embaixadas, mesmo em situações extremas de conflito, para que canais de negociação permanecessem abertos. Hoje em dia, além de suas funções clássicas, temos a entrada em pauta de organismos internacionais na regulação de questões comerciais e financeiras, que se tomaram poderoso instrumento de exercício do poder das nações.

Negociações comerciais entraram também com mais força na pauta diplomática, fazendo diplomatas se tomarem "mercadores" dos interesses econômicos de seus países, algo muito claro na política americana e de vários países europeus e asiáticos, como China e Japão. Apesar de a diplomacia brasileira ainda resistir parcialmente a essa tendência, deverá a ela resignar-se, pois, como dizia Hegel, estamos diante do "espírito do tempo". Assim, não há lugar para devaneios ideológicos como alinhamentos em concepções que retomam pautas esquerdistas, antieconomia de mercado, há muito ultrapassadas.

O Brasil nos governos petistas, contudo, segue um alinhamento ideológico que contraria mesmo políticas pragmáticas, de corte social-democrático, adotadas por esses governos em várias questões internas e em reorientações de órgãos governamentais. É como se na política externa o País resistisse a um aggiornamento necessário. Doutrinariamente, a política externa brasileira permanece presa a dogmas do PT, abandonados em outras áreas. A troca de chanceleres poderia propiciar uma mudança de atitude. Não é isso, porém, que parece estar sendo sinalizado.

O episódio de espionagem da presidente Dilma Rousseff pelo governo dos EUA é um exemplo em que o antiamericanismo está sendo potencializado, usado como uma espécie de bode expiatório de fracassos da política externa brasileira, como os ocorridos recentemente na Argentina e na Bolívia. Não se trata, evidentemente, de justificar o injustificável: o fato de os EUA interferirem na soberania nacional, espionando o governo brasileiro, e até além dele, buscando obter informações comerciais que beneficiariam seus interesses. Nesse aspecto, a reação brasileira de considerar tal invasão inadmissível e inaceitável é plenamente condizente com uma resposta altiva e necessária.

Entretanto, o tom acima do apropriado pode levar a uma situação insustentável. O Brasil, é evidente, não poderia dar-se ao luxo de cancelar uma viagem de Estado da presidente aos EUA, em vista da maior relevância das relações entre os dois países. Muito menos poderia chamar seu embaixador para consultas, numa exacerbação da resposta. Inimaginável cortaras relações. Logo, o jogo de cena está atingindo o limite.

Já passa da hora de o Brasil revisar as suas prioridades e defender os interesses nacional obrigando as duas partes a um faz de conta que permita a retomada das relações normais. O país do norte é a maior potência do planeta - na verdade, a única -, tem uma insuperável força militar, inigualável desenvolvimento científico e tecnológico e a economia mais pujante do mundo. Não é com o Mercosul que o Brasil equilibraria suas relações comerciais.

Melhor faria o País em olhar para o lado. O Mercosul é um projeto hoje inviável, constituído por países que têm horror à economia de livre-mercado, se aferram a ideias socialistas, pregam maior intervenção estatal na economia e se comprazem com diatribes "anti-imperialistas". A Argentina está praticamente falida, sem acesso a financiamentos internacionais, gastando suas reservas internacionais, submetida a processos em Cortes norte-americanas pelo calote dado a credores e em pouco tempo terá problemas para honrar compromissos de suas importações. Ou seja, o mercado argentino importará cada vez menos do Brasil e não se vislumbra nenhuma saída. É a crônica de uma falência anunciada. Apesar disso, o Brasil continua se alinhando à Argentina em foros internacionais, tomando posição conjunta contra o livre-comércio, como acabamos de ver,na reunião do G-20, em São Petersburgo.

Já no caso da Bolívia, a omissão brasileira, que se tornou completa indiferença, foi a tônica no episódio do salvo-conduto para o senador Roger Pinto Molina, abandonado à própria sorte num cubículo da embaixada. De acordo com tratados internacionais assinados pelos dois países, o salvo-conduto deveria ter sido expedido imediatamente. O governo Evo Morales participou de um faz de conta com o Itamaraty, levando um diplomata digno a insurgir-se contra tal desprezo à lei internacional e à mínima consideração pelos direitos humanos. O fiasco do Itamaraty foi total, levando a uma crise que culminou na demissão do ministro das Relações Exteriores.

A comunhão ideológica em tomo do projeto bolivariano/socialista preponderou, como já se havia expressado na lamentável participação brasileira na suspensão do Paraguai do Mercosul, dando ensejo ao ingresso da Venezuela. Goste-se ou não da Constituição paraguaia, todos os trâmites foram seguidos na destituição do ex-presidente Lugo, o que não foi o caso dos trâmites venezuelanos que levaram Maduro a ascender ao poder, na agonia e morte de Chávez. Com tudo isso o País compactuou em nome de uma ideologia comum.

Já passa da hora de o Brasil revisar as suas prioridades e adotar a defesa pragmática de seus interesses nacionais e comerciais, dando adeus a ideologias de antanho.

Cenários espelhados - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 09/09

O quadro pré-eleitoral de São Paulo é um dos mais claros até o momento e tem várias características muito semelhantes ao nacional, com quatro pré-candidatos intrincados num jogo de tirar votos e aliados uns dos outros



Todos os políticos acompanham atentamente o que se sucede na política paulista nos últimos meses. E antes que os paulistas fiquem “se achando”, essa atenção toda ocorre porque o cenário pré-eleitoral por lá atualmente é o nacional visto pelo espelho. No comando do país, a presidente Dilma Rousseff está certa de que enfrentará um segundo turno. Tal e qual o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, que já prepara seu jogo para 2014 pensando em dois rounds no ano que vem. E, até aqui, essas duas eleições terão quatro candidatos. No Brasil, despontam Dilma, o senador Aécio Neves, do PSDB; a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, da Rede; e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pelo PSB. Em São Paulo, há Geraldo Alckmin, do PSDB; o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, do PT; o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, do PMDB; e o ex-prefeito Gilberto Kassab, pelo PSD.

No plano dos adversários de Dilma e Alckmin, as situações são parecidas. O presidente do PSDB, Aécio Neves, explora o antipetismo da mesma forma que o ministro Alexandre Padilha tenta explorar um sentimento antitucano, ou seja, aquela parcela dos paulistas que não vota no PSDB e quase levou Celso Russomano ao segundo turno na eleição para prefeito da capital.

Tanto em São Paulo quanto no plano nacional, essa fase da disputa apresenta personagens meio fora da curvatura normal da política bem situados nas pesquisas e que podem surpreender lá na frente. A ex-ministra Marina Silva surge no plano nacional da mesma forma que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, do PMDB, aparece no cenário paulista. Guardadas as devidas proporções, são opções do eleitorado fora do veio tradicional, meio “alternativos” e prontos para atrapalhar os planos de quem é considerado especialista na articulação.

Marina e Skaf hoje tiram fôlego e reduzem o potencial de atores que já apresentaram grande capacidade de articulação política e têm um pé no governo federal. Na cena nacional, esse lugar é ocupado pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que também preside o PSB. E, em São Paulo, quem está nessa posição é o ex-prefeito da capital Gilberto Kassab, habilidoso a ponto de ter transformado o que era para ser um partido pequeno em uma bancada expressiva na Câmara dos Deputados. O PSD é o quarto maior partido da Casa, com 45 deputados.

Kassab foi criado à sombra do PSDB de José Serra, da mesma forma que Eduardo Campos cresceu politicamente sob as asas do PT de Lula. Hoje, entretanto, ambos não têm as melhores relações com os sucessores de Serra e de Lula. Eduardo não é melhor amigo de Dilma da mesma forma que Kassab não vive uma relação das mais amigáveis com Geraldo Alckmin. E, além de precisar de alguns votos da massa que elegeu Dilma e Alckmin, tanto Eduardo quanto Kassab têm de “engolir” outros adversários para ter alguma chance real.

Marina hoje tira votos de Eduardo Campos, assim como Paulo Skaf tira votos de Gilberto Kassab. Entre os estrategistas de Eduardo Campos e de Gilberto Kassab há quem diga que para terem chances reais Eduardo precisa engolir Marina e ainda tirar alguns votos de Aécio Neves, quem tem hoje a melhor e maior estrutura eleitoral para concorrer contra a presidente Dilma. No plano estadual, Kassab precisa ultrapassar Skaf e ainda tirar votos do petista Alexandre Padilha. Não por acaso, o ex-prefeito e atual presidente do PSD avisa desde já que apoiará Dilma na sucessão presidencial e que sua dívida com Serra está quitada. Kassab tem ciência de que alguns eleitores do PT em São Paulo serão fundamentais para seus projetos eleitorais e busca a neutralidade da presidente na disputa estadual.

Eduardo Campos, por sua vez, também busca votos de simpatizantes de Lula desiludidos com Dilma. Por isso, sempre que se refere ao governo exalta os ganhos obtidos pelo país no período pós-redemocratização. Mas alerta que é preciso fazer mais, centrando as crítica ao período da atual presidente. Trabalha ainda no sentido de tirar apoiadores do PT e de Aécio Neves, embora tenha relações cordiais com o presidente tucano. Na Bahia, por exemplo, Eduardo espera ter o apoio do PMDB de Geddel Vieira Lima, que já deu sinais de aproximação. A propaganda peemedebista em Salvador exibida recentemente apresentava que a Bahia não merecia o governo que tinha (de Jaques Wagner, do PT) e falava maravilhas da gestão de Pernambuco.

Além de todos esses movimentos, os pré-candidatos não tiram os olhos de São Paulo por um outro motivo: José Serra. Seus amigos dizem que um dia ele se olha no espelho e diz que fica no PSDB. No outro, a mesma imagem revela a decisão pela partida. Ainda bem que 5 de outubro, o prazo final para filiação de candidatos em 2014, está logo ali.

Faz-me rir - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 09/09

SÃO PAULO - O que dá vontade de rir? Eis uma pergunta cuja resposta pode ser difícil. Nossos avós gargalhavam das estripulias ingênuas de Carlitos, do Gordo e do Magro, dos Três Patetas. Eram personagens desajustados, deslocados pela modernização e pela urbanização.

Algo parecido cativava a garotada brasileira no início dos anos 1980, com "Os Trapalhões". As primeiras gerações de crianças nascidas em cidades inchadas deliciavam-se com a trupe de Renato Aragão, ele próprio oriundo do interior do Ceará.

Os adultos riam das caricaturas criadas por outro artista cearense, Chico Anysio, ou da paródia política "O Bem-Amado", da lavra de Dias Gomes, egresso do Partido Comunista Brasileiro. Eram os estertores da ditadura e de um arranque de 30 anos na economia, que transformara um país pobre e rural numa nação urbana de renda média.

A seguir, o mal-estar com a estagnação, a inflação e o início atribulado da democratização refletia nos tipos atualizados de Jô Soares alguma contrapartida humorística. A renovação da esquerda, mais afastada da influência soviética, encontrou no PT o seu representante --e em grupos de jovens humoristas, como o TV Pirata, uma parte de sua estética.

A decadência do "Casseta & Planeta" --que elegeu como alvos diletos os presidentes FHC e Lula-- talvez tenha marcado o fim da era dos programas humorísticos partilhados em escala nacional por diversas classes de renda. O riso agora está segmentado, seja na TV, seja na internet.

Fenômeno na rede, o grupo Porta dos Fundos fala de e para um mundo restrito. Seu universo é o da elite brasileira, a "velha classe média" de jovens brancos e bem nascidos.

A temática variada dispensa os assuntos públicos e a política, como regra, para recair em situações absurdas. É de um estilo de viver e pensar que estamos rindo. De um estilo em transformação, à medida que novos atores batem na porta da frente.

Emenda Black Bloc - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 09/09

Os políticos sobreviveram ao 7 de Setembro. E até ganharam mais independência. Sem gritar, apostaram na surdina que os protestos do Dia da Independência não alcançariam o mesmo nível da maré humana de junho. De fato, não chegaram nem perto. Foi uma onda violenta, mas sem volume.

Do ponto de vista da opinião pública, os protestos viraram um estorvo provocado por um punhado de indignados mascarados. São cada vez mais violentos e reprimidos cada vez com mais violência pela polícia. Prisões se multiplicam, mas a reação aos excessos policiais não é ampla nem solidária ao ponto de inibir a ação da tropa de choque. A repressão está ganhando essa.

A primeira manifestação em massa da classe média em duas décadas foi sequestrada pelos Black Blocs e assemelhados. Perdeu a força de uma ação coletiva. As imagens de bombas, correrias e apedrejamentos transmitidas sem cortes pela internet vão se repetindo até perderem a novidade, o interesse e a audiência.

Os anarquistas são bons de tática, mas péssimos de estratégia. Ao radicalizarem suas ações, capturaram o movimento e alienaram as outras facções que davam volume às manifestações. Perderam a massa que os protegia. Isolados, são alvo fácil da polícia.

Salvo aparecer um mártir, o ciclo das manifestações tende a se fechar da mesma maneira que começou. Com a narrativa dos protestos enfatizando cada vez mais a violência. Em vez de baderneiros, agora eles são identificados como Black Blocs - mesmo quando não são. Mudou a palavra, não o significado.

Em meio à fumaça, repórteres são hostilizados por manifestantes e agredidos por policiais. Quando o narrador é vítima, seu relato ganha ênfase na descrição da violência. Tudo isso afasta os pacatos marchadores de junho do palco dos protestos.

Perde-se a rua - mesmo que temporariamente - como catalisadora de uma mobilização ampla da sociedade. Sem ela, perdem força as reivindicações por reformas da estrutura de poder. Os políticos, com raras exceções, estão em dívida com os Black Blocs.

A RESSACA
À medida que a onda reflui, os efeitos da ressaca se tornam visíveis. Pichações e vitrines quebradas são de menos. O maior estrago ainda está por vir. É que alguns dos alvos dos protestos saíram deles mais poderosos do que entraram - e sem tomar pedrada nem respirar gás lacrimogêneo. Congresso e partidos estão mais fortes e, possivelmente, endinheirados.

No meio da confusão que virou a base governista depois que a popularidade de Dilma Rousseff despencou, deputados aprovaram o Orçamento impositivo. É um nome pomposo para garantir a destinação de até R$ 7 bilhões por ano aos seus currais eleitorais - além, é claro, de comprar novos.

Se passar no Senado, a proposta vai criar, na prática, 594 Casas da Moeda. Os 513 deputados e 81 senadores vão dispor de R$ 12 milhões cada um. O resultado será o aumento da desigualdade regional e a perpetuação, no poder, de quem imprime esse dinheiro.

Levantamento de Daniel Bramatti e Diego Rabatone, do Estadão Dados, mostra que, atualmente, menos da metade dos municípios brasileiros recebe recursos de emendas parlamentares. Só recebem aqueles lugares onde o deputado eleito é bem votado ou onde ele pretende cooptar o prefeito para se reeleger. Os outros 51% de municípios não veem um tostão sequer.

Com o Orçamento impositivo a desigualdade vai piorar, porque o valor destinado pelos parlamentares vai aumentar ridiculamente. Uma minoria vai receber muito e muitos não receberão nada. Pior, a força de quem já está no poder será ainda maior do que a dos aspirantes ao cargo, diminuindo a renovação do Congresso.

Por agradecimento, os parlamentares deveriam mandar uma emendinha para ajudar o movimento Black Bloc.

Confusão de sinais - OSMAR TERRA

CORREIO BRAZILIENSE - 09/09
Um dos pontos positivos do governo Dilma tem sido a posição firme no enfrentamento às drogas, demonstrada na criação do Programa Crack, é possível vencer, em dezembro de 2011. Também ficou clara sua postura quando a ministra Gleisi Hofmann, da Casa Civil, e os ministros Cardoso, da Justiça, e Padilha, da Saúde, debateram pontos e apoiaram a proposta de mudança na legislação sobre drogas.
Essas mudanças, propostas no Projeto de Lei nº 7663/2010, aumentaram o rigor das penas para o tráfico, criaram internação involuntária, incluíram as comunidades terapêuticas e acolhedoras na rede de atendimento e estabeleceram incentivos à ressocialização dos dependentes. Elas já foram aprovadas na Câmara e estão agora para votação no Senado.

No entanto, o governo carrega dentro de si uma espécie de ovo da serpente. Infiltrados no Ministério da Saúde, na Área de Saúde Mental, e no Ministério da Justiça, dentro da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), existem defensores ostensivos da liberação das drogas. Além de dificultar a execução da proposta governamental, esses setores promoveram há pouco tempo um seminário internacional, em Brasília, que funcionou, na prática, como a convenção de um partido pró-liberação das drogas, pregando sua liberação total! Isso seria compreensível, numa democracia, se o tal seminário não tivesse sido realizado graças ao patrocínio pesado de órgãos do governo federal.

Agora a Senad e a Área de Saúde Mental preparam outro seminário internacional, para trazer as políticas "inovadoras" do Uruguai e de Portugal, e a opinião de figuras conhecidas, que defendem a liberação das drogas. Serão três dias, este mês, em que terão palanque nacional. Mais uma vez, com patrocínio governamental.

A bem da verdade, não existem "políticas inovadoras" em relação às drogas. A liberação já aconteceu no passado em alguns países, como a China e a Suécia, e o resultado foi tão trágico que eles voltaram atrás e hoje as combatem com muito mais rigor. Aliás, todos os 198 países membros da ONU proíbem a fabricação e a venda das drogas consideradas ilícitas também no Brasil. Foi a experiência concreta de vida e o sofrimento das sociedades que ensinaram isso aos governos de todo o mundo.

É uma situação esquizofrênica. O primeiro escalão do governo federal com posições firmes contra as drogas, e outra parte do mesmo governo defendendo sua liberação! Esse conflito interno já produziu a demissão de dois secretários da Senad: Pedro Abramovay, que defendia "não prender traficantes", e Paulina Duarte, que proclamava a epidemia de o crack ser "uma bobagem". Ambos saíram do cargo, mas continuam militando pela liberação, agora na OEA, onde Paulina tem um cargo e Abramovay presta consultoria.

Acredito na isenção do atual secretário, Vitore Maximiano, acho que é importante dar-lhe tempo (pois recém assumiu) e crédito (pois fez andar convênios parados há tempo, em especial com as comunidades acolhedoras). Mas a questão em tela atinge também a sua alçada.

Aliás, o tema das drogas já vem sendo exaustivamente dissecado. O Congresso Nacional o vem debatendo nos três últimos anos. Foram mais de 100 audiências públicas, seminários com a participação de entidades favoráveis e contrárias à liberação das drogas, governos, pesquisadores, organismos internacionais e nacionais, além de mais de 20 países e de todos os estados brasileiros visitados. Na verdade, o assunto está para lá de debatido, e já foi formada uma posição majoritária no Congresso a esse respeito, que é por maior rigor no enfrentamento às drogas.

O único sentido do seminário proposto pela Senad e o Ministério da Saúde, na prática, será patrocinar a divulgação de teses liberacionistas. Nada mais. O drama das drogas, e em particular da epidemia do crack, se agrava a cada dia no país. Milhões de brasileiros estão adoecendo ou morrendo em função dessa tragédia, sem falar na participação das drogas no recorde mundial de homicídios protagonizado pelo Brasil. Certamente, não é facilitando sua disseminação que diminuiremos o tamanho dessa catástrofe.

Não sei como o governo se comportará diante dessa insistência de seus próprios subordinados em passar uma dupla mensagem sobre o enfrentamento às drogas. O que menos precisamos agora é de uma confusão de sinais, mais ainda nessa área, por si só tão tumultuada, e que envolve o maior problema de saúde pública e de segurança que o Brasil tem hoje.

A socialização do fracasso - WANDA CAMARGO

GAZETA DO POVO - PR - 09/09

A socialização do fracasso acontece sempre que qualquer tentativa de fazer algo melhor do que o mínimo passa a representar uma ofensa mortal a quem se satisfaz com o ínfimo, e afirma que nada mais pode ser feito.

O teólogo São Tomás de Aquino, um dos grandes pensadores do Cristianismo, afirmou que “se a meta principal de um capitão fosse preservação de seu barco, ele jamais sairia do porto”. Isso se aplica a praticamente todas as atividades humanas. Vemos com frequência atitudes timoratas serem tomadas em empresas, escolas, famílias, governos, e que buscam apenas uma segurança enganosa.

A manutenção do status quo, o medo do risco, a recusa à exposição daquele que deveria estar na linha de frente, que parte do princípio de que quem não realiza não erra, mas também não acerta, esconde um confortável limbo de mediocridade.

O Ministério da Educação está, com justiça, preocupado com a enorme quantidade de jovens entre 15 e 17 anos que ainda estão no ensino fundamental e para enfrentar o problema, sério e merecedor de atenção, criou o Programa Nacional de Adequação de Idade/Ano Escolar, com o objetivo de “acelerar” a educação desses jovens e possibilitar que eles acessem o ensino médio.

A proposta tem grandes méritos, inclui qualificação especial de professores para escolas de ensino fundamental que tenham muitos estudantes com distorção idade/série, a produção de materiais didáticos específicos e eventual ampliação de jornada escolar para uma modalidade de ensino integral e profissionalizante.

Onde o plano peca é na ideia de “induzir a produção de uma proposta curricular específica para os jovens acessarem o ensino médio”. Infelizmente, são muitos os exemplos de redução de expectativas em avaliação, quando convém a quem avalia apresentar resultados meramente quantitativos. Educação é dever do Estado, essencial que siga sendo o caminho para a melhoria de vida e perspectivas futuras da população, e isso não será atingido reduzindo as esperanças em relação ao educando desperiodizado.

Essa defasagem acontece devido a muitos motivos, entre eles, possivelmente a situação financeira da família, a necessidade da inserção precoce no mercado de trabalho, o desestímulo pelas funções intelectuais, o legado cultural deficiente que não favorece a integração na comunidade escolar.

Produzir novos currículos com a finalidade única de promoção, reduzindo as exigências, leva o aluno ao período correto, mas ainda carente de conhecimentos, claudicante no processo educacional.

Inflar estatísticas, sem suprir lacunas de formação, gerará diplomados sem conhecimento, trabalhadores sem cidadania, e mantenedores de um velho país que todos conhecemos.

A favor de quem? - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 09/09

BRASÍLIA - Cada um é livre para fazer aquilo que considera mais adequado, mas quando se está, de fato, a serviço de uma causa, é bom refletir um pouco sobre o resultado e a eficácia de suas ações.

Se o desejo é, realmente, chacoalhar a classe política e forçá-la a sair da zona de conforto, os protestos de Sete de Setembro mostraram que os manifestantes se perderam no caminho desde junho.

Faltou gente na rua, sobrou baderna. A fantasia junina deu lugar à raiva e ao medo. Mistura que pode até estimular arruaceiros, mas serve exatamente à classe política que eles dizem querer combater.

Seguindo nesta toada, as ruas ficarão cada vez mais vazias. E o coro em defesa da repressão aos baderneiros só aumentará. De novo, algo que só presta aos donos transitórios de palácios, acostumados a este tipo de jogo, no qual se perpetuam.

Talvez por isso seja o momento de tirar as máscaras dos mascarados. Não de todos, mas de alguns, que se intitulam defensores de causas genéricas e estão mais preocupados em causar em causa própria.

Por sinal, o uso da máscara nos protestos, que de início serviu para animar o conjunto de alegorias e fantasias dos manifestantes, tornou-se símbolo do medo e do desejo de depredar camufladamente.

Defendê-las pode ter um sentido carnavalesco e descompromissado, mas, neste momento, serve aos que já não estão mais servindo a um movimento que tendia a ser higienizador da nossa velha classe política.

Desde muito a máscara serviu, na maior parte das vezes, aos que não têm coragem de enfrentar a luz do dia. Precisam se esconder para dar sequência a seus atos. Nada a ver com aquele sentimento de heróis mascarados dos quadrinhos.

O fato é que os nossos mascarados de hoje estão fazendo um jogo que acaba interessando aqueles que, pretensamente, seriam seus alvos. Fica a pergunta: exatamente a favor de quem eles estão?

O desafio da produtividade - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 09/09

Os ganhos sociais obtidos nos últimos anos poderão ser perdidos se a produtividade não aumentar, e esta não aumentará sem investimentos pesados na infraestrutura



O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é condição necessária para que o padrão de vida médio da população aumente. Para permitir que a renda média por habitante cresça e propicie elevação do bem-estar social, o PIB tem de crescer a uma taxa superior ao aumento da população – o que, no Brasil, anda em torno de 1,2% ao ano. O crescimento do PIB se dá por vários caminhos. O mais comum é pelo aumento do número de pessoas trabalhando, pois, mantidas inalteradas as demais condições, a incorporação de mais pessoas ao processo produtivo resultará em mais produção. O outro caminho, mais difícil, é pelo aumento da produtividade, isto é, pelo aumento da produção por hora de trabalho humano.

Perseguir o crescimento do produto pela incorporação de mais pessoas ao processo produtivo não é solução para melhorar o padrão médio de bem-estar, pois, em geral, só há mais gente disponível para se empregar quando a população cresce. E uma população maior anula o aumento do PIB, ou pelo menos de parte dele, muitas vezes mantendo inalterado o PIB por habitante. Diante disso, a saída adequada é buscar o aumento da produtividade.

Cabe, então, descobrir por que meios a produtividade por hora de trabalho pode ser elevada. Uma das formas é pela melhoria da qualificação das pessoas, o que resulta em melhor habilidade profissional, logo mais produção. Conseguir isso é papel da educação e do treinamento dos trabalhadores. Todavia, essa tarefa não é obtenível em prazo curto; pelo contrário, não se faz revolução educacional e não se consegue resultado expressivo senão em, no mínimo, uma geração.

O segundo caminho, e o mais certeiro, para elevar a produtividade é através do investimento em infraestrutura física. Um exemplo simples é o caso de um motorista de caminhão. Transitando por uma estrada esburacada e congestionada e ficando dias parado na boca do porto, um motorista pode fazer umas três viagens mensais transportando grãos do centro do Brasil até o porto. Se o mesmo motorista transitasse em uma estrada boa, sem congestionamento, e conseguisse descarregar a mercadoria tão logo chegasse ao porto, poderia fazer não três, mas nove viagens em um mês.

Não é preciso ser especialista em economia para entender que a infraestrutura insuficiente – pela falta de estradas, armazéns, portos estrangulados e aeroportos em colapso – é responsável pela baixa produtividade, logo pela pobreza. Também não é difícil entender que investimentos capazes de ampliar a infraestrutura e consertar o que está sucateado teriam efeito imediato na produtividade hora do trabalho humano e permitiriam a elevação rápida da renda média por habitante. Por aí, a melhoria do padrão de vida médio seria possível em prazo relativamente curto.

Perante tal panorama, a aceitação de taxas baixíssimas de investimento público em infraestrutura é um erro que vai custar caro demais ao país. O setor público geral – municípios, estados e União – não consegue investir mais que 2,5% do PIB, quando deveria investir pelo menos 6%. Os ganhos sociais obtidos nos últimos anos poderão ser perdidos se a produtividade não aumentar, e esta não aumentará sem investimentos pesados e urgentes na infraestrutura.

Apesar desse diagnóstico relativamente consensual, parece que a classe política, em todos os níveis, não se dá conta de que aí está a encruzilhada que pode levar o Brasil à glória econômica ou a um fracasso histórico. Salvadas as exceções de praxe, a discussão sobre a escolha errada que o país está fazendo em relação ao investimento em infraestrutura é praticamente ausente do dia a dia dos políticos no Poder Legislativo em todos os níveis da Federação.

A presidente Dilma, infelizmente, a cada discurso e a cada entrevista em cadeia nacional, tem demonstrado enorme disposição para reclamar e criticar o que ela chama de “eles, os que vivem apregoando o pior”, quando ela deveria agradecer a todos quantos analisam e criticam o governo e suas políticas. Tomar as críticas e as previsões negativas como sendo algo pessoal contra a figura presidencial é um comportamento errado e prejudicial ao país, pois impede que o governo se beneficie das boas ideias, que são muitas.

Ventos do Norte - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 09/09


Ainda fragilizada, economia europeia segue rota de lenta recuperação; dados são melhores nos EUA, que podem ganhar vigor em 2014


Não é por acaso que as taxas de juros de longo prazo sobem na Europa e nos EUA. A perspectiva mais favorável para o crescimento das economias desenvolvidas tem se consolidado nos últimos meses.

Os piores efeitos da crise financeira parecem, de fato, ter ficado para trás, sobretudo nos EUA. São muitos os desafios, contudo, e os principais bancos centrais preocupam-se em demonstrar que serão cautelosos no manejo da política monetária, a fim de não descarrilar a incipiente recuperação.

No caso europeu, o crescimento de 0,3% no segundo trimestre marcou a saída da mais longa recessão das últimas décadas. Os indicadores apontam para aceleração no restante do ano.

O retorno ao crescimento também veio nos países mais afetados, como Portugal, Itália e Espanha. Para 2014, o Banco Central Europeu (BCE) projeta crescimento de 1% na zona do euro.

O principal fator para a melhora é o sucesso do BCE em reduzir temores de ruptura do euro e reverter a fuga de capitais da periferia. Houve avanços na arquitetura da moeda única, com a criação de mecanismos comuns de financiamento e de supervisão bancária.

Por fim, o aperto fiscal recessivo deve amainar a partir de 2014, pois foi alongado o período para que os países com maiores deficit façam seus ajustes.

Mesmo assim, a sensação é de fragilidade. Permanece o alto desemprego, e o crédito bancário continua estagnado. Por isso, o crescimento ainda deve ser lento.

É melhor o cenário nos EUA. Neste ano, o crescimento deve ficar próximo de 2%, por causa da forte contração fiscal em curso. Quando esse ajuste diminuir, em 2014, a alta do PIB poderá superar 3%. A força da economia americana poderá puxar a Europa e, em alguma medida, também os emergentes.

Eis por que a grande questão, para os mercados, diz respeito ao ajuste da política monetária americana, depois de quase cinco anos de taxas de juros perto de zero.

Ainda neste mês, o Fed (banco central dos EUA) deve dar o primeiro passo, bastante esperado --começará a reduzir o montante de dinheiro que põe na praça, hoje US$ 85 bilhões ao mês.

A etapa seguinte será aumentar os juros. O Fed tem se preocupado em dizer que a primeira alta só virá com o desemprego abaixo de 6,5%, ou até menos. Isso só ocorreria em 2015. Qualquer ajuste, por isso, ainda parece distante.

Não se pode ignorar, porém, que os custos de financiamento subirão nos próximos anos, com impactos para os emergentes. Daí o comunicado do G20 pedir que os bancos centrais dos países desenvolvidos "calibrem cuidadosamente e comuniquem claramente" as mudanças na política monetária.

Embora a cooperação seja sempre positiva, não custa lembrar que cabe a cada país a responsabilidade de cuidar bem de seu quintal.

A vez de voltar às penas alternativas - CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 09/09
"Prefiro a morte à pena em prisão brasileira", disse o ministro da Justiça em novembro de 2012. José Eduardo Cardozo respondia a perguntas sobre pena de morte, prisão perpétua e castração química em casos de estupro ou pedofilia. A declaração provocou polêmicas, mas não oposição. É dispensável acionar a imaginação para apontar a causa de tão desalentadoras palavras. As cadeias, de norte a sul do país, não são a antessala do inferno. São o inferno.
Daí por que causa preocupação a notícia da queda na aplicação de penas alternativas. Punições como prestação de serviços à comunidade e pagamento de cestas básicas caíram 30%, apesar de o número de detentos crescer em proporção quase geométrica. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça, na primeira década deste século, os recursos previstos no ordenamento jurídico para evitar a privação de liberdade saltaram mais de 500%.

 Nos crimes de pequeno potencial ofensivo, o condenado é submetido ao regime semiaberto ou à prestação de serviços sociais. Em alguns casos, à indenização. São formas modernas de aplicar a reprimenda penal a infratores que não representam risco à lei e à ordem. Não se trata de impunidade, como muitos pensam. Trata-se de forma diferente de pagar a dívida com a Justiça. A pena, vale lembrar, não significa vingança, mas a oportunidade para que o infrator reflita, se reeduque e se torne apto a se comportar no meio social de acordo com as regras impostas.

Ao ignorar as opções ao regime fechado, o Judiciário contribui para a tragédia em que se transformou o sistema prisional do país. A preferência pelo regime fechado vai na contramão das expectativas. Provoca a superlotação no confinamento penitenciário, fomenta a violência e deixa de conceder ao preso ambiente capaz de recuperá-lo e devolvê-lo ao convívio da sociedade. As imagens veiculadas pela mídia impressa ou digital assustam. Em vez de homens, mostram feras.

Assustador deficit de vagas constitui prova irrefutável da necessidade urgente de corrigir rumos. Para abrigar mais de 500 mil presos, o Brasil tem ao todo 511 estabelecimentos prisionais, somando aproximadamente 60 mil leitos para presos. Mais: existem quase 300 mil mandados de prisão expedidos e não cumpridos. Construir presídios, como alardeiam as autoridades a cada crise que explode, é secar gelo. Além de não atender a demanda nem os objetivos, impõe alto custo de manutenção. Calcula-se que cada preso custa, por mês, 4,5 salários mínimos.

O desafio da produtividade - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 09/09
Para continuar a crescer nos próximos anos, o Brasil terá de se tornar bem mais produtivo, pois se esgotaram os fatores demográficos e a farta disponibilidade de mão de obra que permitiram a contínua expansão da produção nos últimos anos, a despeito da baixa evolução da produtividade. A capacidade de produzir mais com a mesma quantidade de recursos será essencial, doravante, para fazer o País crescer e para assegurar melhores condições de vida para a população.
Esta é a principal conclusão de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre produtividade, que marca o início de uma série a respeito dessa questão. O objetivo desses trabalhos é avaliar a evolução da produtividade brasileira nos últimos anos, compará-la com o que ocorreu e está ocorrendo em outros países, identificar os fatores que afetam a eficiência produtiva nos diferentes setores e, consequentemente, oferecer elementos para a definição de políticas públicas nesse campo.

Os resultados apresentados no primeiro trabalho da série são preocupantes e já dão a dimensão das imensas tarefas que o País terá nos próximos anos para continuar a crescer num ritmo adequado para suprir gradualmente suas carências econômicas e sociais.

Na análise da evolução recente dos indicadores de produtividade no Brasil, os pesquisadores do Ipea constataram que, entre 1992 e 2001, o crescimento do PIB per capita foi assegurado quase inteiramente pelo aumento da produtividade do trabalho.

No início da década passada, porém, a evolução do PIB per capita se descolou da variação da produtividade. Enquanto o primeiro indicador continuou a crescer velozmente (aumento de cerca de 20% entre 2001 e 2009), a produtividade avançou menos de 10%. O crescimento do PIB per capita na última década deveu-se basicamente ao aumento da taxa de ocupação, isto é, ao aumento do número de empregados em relação à população total.

Mas esse fator, estreitamente vinculado ao novo padrão demográfico do País e à expansão do mercado de trabalho, sobretudo o formal, já não terá mais tanta influência na elevação da renda per capita. Por isso, daqui para a frente, a melhora dependerá essencialmente dos ganhos de produtividade.

No entanto, a evolução recente da produtividade tem sido muito fraca. Embora varie muito de um setor da economia para outro, a produtividade média nas duas últimas décadas apresentou uma trajetória estável de crescimento, mas a um ritmo lento, de cerca de 1% ao ano. Na indústria de transformação, o resultado ficou abaixo disso; em alguns segmentos, houve queda de produtividade.

O que os dados preliminares sugerem é que, depois da crise financeira mundial iniciada em 2008, a produtividade brasileira, que crescia pouco, pode ter se estagnado.

Se se confirmar essa estagnação, o Brasil ficará em situação ainda pior na comparação com outros países. Um dos estudos do Ipea compara a evolução da produtividade no Brasil com a observada na Coreia do Sul, na China e nos Estados Unidos a partir de 1960, quando a produtividade americana já era alta.

Depois de evoluir numa velocidade superior à dos demais países nos primeiros 20 anos, a produtividade brasileira. perdeu vigor e passou a crescer menos. A da China, ao contrário, passou de uma evolução lenta nos primeiros 20 anos para um vigoroso crescimento a partir de meados da década de 1980 e mantém esse ritmo até agora. A da Coreia do Sul igualmente adquiriu vigor na década de 1980 e continuou a crescer desde então, embora a um ritmo inferior ao da China. É surpreendente o caso da produtividade americana. De longe a mais alta do mundo, ela continua a evoluir de maneira constante e, nos últimos 20 anos, mais do que a brasileira.

Em resumo, a produtividade brasileira - que cresce menos do que a de outros países - já não conta mais com os impulsos que asseguraram sua expansão nos últimos anos. Isso impõe um duplo desafio para o País: definir novas fontes de aumento da produtividade e conseguir fazê-la crescer mais depressa do que crescia.

Filtro eficiente - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 09/09

Apesar das melhoras dos últimos anos, a qualidade do ensino nas universidades brasileiras ainda é medida, em grande parte dos cursos, por avanços pontuais. De um modo geral, o desempenho acadêmico tem atendido mais a malabarismos estatísticos do que a demandas do mundo real.

A timidez dos progressos acadêmicos do país, em comparação com outras nações, está expresso em números. Num ranking divulgado em fevereiro pelo Conselho Superior de Investigações Científicas, da Espanha — o Webometrics Ranking of World Universities, uma listagem dos mais importantes centros de ensino superior do planeta — a instituição brasileira mais bem colocada, a USP, aparece em 19º lugar. Segunda colocada, a UFRGS, fica em 129º lugar num quadro em que o Brasil tem apenas 12 universidades entre as 500 mais bem credenciadas do mundo. A pesquisa, avalizada pela União Europeia, cobre mais de 21 mil universidades e institutos de ensino superior.

Resultados como estes ajudam a expor a ainda tíbia reação do país ao desafio de melhorar o seu perfil acadêmico, mas, meramente estatísticos, pouco apontam quais os caminhos para incrementar mais qualidade no ensino nas universidades. É preciso buscar as razões em fatores como as crônicas deficiências do ensino fundamental, currículos nem sempre à altura dos desafios, tibieza nos critérios de aferição dos alunos etc.

Iniciativa importante nesse sentido ocorre na área do Direito, com a obrigatoriedade da prestação das provas de aferição de saber organizadas pela Ordem dos Advogados do Brasil. A aprovação nesses exames é pressuposto para o bacharel exercer a prática advocatícia. As enormes taxas de reprovação nessas medições são um eficiente termômetro: elas indicam que o ensino jurídico na maioria das faculdades brasileiras destoa das demandas do mercado.

De novo, os números ajudam a compor um quadro de crise. Há no país 1.200 cursos de Direito, com 800 mil alunos matriculados — seis vezes mais do que há vinte anos. Há, ainda, problemas como a exploração do ensino jurídico como mero negócio lucrativo, prática nociva acobertada por interesses corporativistas ou mesmo eleitoreiros. De tal forma é a situação que o MEC anunciou recentemente que pretende adotar medidas para combater a ineficiência de cursos de Direito em funcionamento. Não é de estranhar que, em algumas edições dos exames, o percentual de reprovação tenha alcançado mais de 90% dos candidatos.

Se os exames são ou não rígidos demais, é uma questão a ser debatida no âmbito de uma eventual discrepância entre o que se ensina nas faculdades e o conteúdo que a Ordem julga fundamental para manter a qualidade da atividade advocatícia. Mas não se discute a importância desse termômetro, um filtro que contribui para preservar a profissão e o mercado das deficiências acadêmicas do setor.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

INQUÉRITO NO MP-RJ INVESTIGA PRESIDENTE DA CNC

O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar gestão do presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Antonio Oliveira Santos. Ele e Luiz Gil Siuffo Pereira, diretor do Sesc, são responsabilizados pelos gastos suspeitos de R$ 200 milhões em obra na Barra da Tijuca que nem tem condições de uso. Também o Tribunal de Contas da União apontou graves anomalias na operação.


CONTAS REJEITADAS
Antonio de Oliveira Santos deveria ter sido afastado da CNC desde 2004, quando teve as contas rejeitadas. É o que manda o regimento.


OMISSÃO CÚMPLICE
A rejeição das contas de Antonio de Oliveira Santos, pelo Tribunal de Contas da União, jamais foi publicada. É a condição seu afastamento.


RIO É ESTRATÉGICO
Lideranças do PSB defendem o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para vice do governador Eduardo Campos (PSB) nas eleições de 2014.


PENSANDO BEM…
…restará a guerra na Síria, se falharem todas as desculpas mágicas do ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre a escalada da inflação.


BRECHA JURÍDICA PODE LIVRAR IVO CASSOL DA CADEIA
Primeiro senador condenado no Supremo Tribunal Federal, Ivo Cassol (PP-RO) poderá se livrar dos quatro anos e oito meses de cadeia legando que o crime está prescrito. Sua condenação ocorreu dias antes de 17 de agosto, 8 anos depois da denúncia, mas a “sentença ou acórdão condenatórios recorríveis” até agora não foi publicado, como prevê o inciso IV art.117 do Código Penal para interromper prescrição. Ele foi condenado, em decisão unânime, por fraudar licitação pública.


ANTES DA PUBLICAÇÃO
A relatora Cármen Lúcia (STF) disse, na sessão que o condenou, em 8 de agosto último, que o prazo prescricional acabava naquele momento.


IMPASSE
A decisão da ministra colidiria com uma lei de autoria de Magno Malta (PR-ES), que incluiu o dispositivo no Código Penal em 2007.


SÓ ESPERANDO
Após a publicação do acórdão, a defesa do senador Ivo Cassol terá cinco dias para apresentar recurso alegando a prescrição do crime.


FRENTE BOLIVARIANA
O Brasil pode ficar tranquilo se declarar “guerra” aos EUA: a Bolívia mandará sementes de quinoa, o Equador dará bananas, mas a Venezuela não poderá mandar nada porque falta até papel higiênico.


VIDA QUE SEGUE
Quem conhece José Dirceu desconfia dos planos públicos do ex-ministro mensaleiro de “cozinhar na prisão”: ele confia que conseguirá reduzir a pena e ganhar o semiaberto. Ou indulto, a cargo de Dilma.


DILEMA
José Serra recuou desistiu do PPS para disputar a Presidência. Aliados como o senador Aloysio Nunes (SP) e Jutahy Junior (BA) têm advertido que ele acabará inviabilizando até mesmo a candidatura ao Senado, seu verdadeiro projeto político para 2014.


DE SAÍDA
Em Brasília, a deputada distrital Eliana Pedrosa, que já foi do DEM e agora se encontra filiada ao PSB, está de malas prontas para o PPS. O partido deve anunciar sua filiação ainda nesta semana.


DESPEDINDO PATRÃO
Assessor do líder do PR, Anthony Garotinho (RJ), o jornalista André Couto acertou com o deputado Antônio Reguffe filiação ao PDT-DF, partido pelo qual planeja sair candidato a deputado distrital em 2014.


CASA CIVIL PREGA AVISO
Eduardo D’Oliveira tem se apresentado como coordenador-geral de projetos especiais da Casa Civil e membro da Subchefia de articulação e monitoramento, para tentar audiências com parlamentares e até banqueiros. A Casa Civil nega qualquer vínculo dele com o Planalto.


COMO PILATOS
Até correligionários falam mal do presidente da Câmara, Henrique Alves, pela repulsa à sessão não cassou Natan Donadon. Criticam-no por “lavar mãos” e jogar a decisão apenas na conta do plenário.


VAI CONTANDO
Os governos do Pará, Sergipe, São Paulo e Bahia espetaram quase US$ 700 milhões de dólares em “papagaios” no BIRD em menos de um mês para projetos diversos. Com o dólar subindo, o problema é pagar.


OS ‘ALIADOS’ DE DILMA
O silêncio de Maduro na Venezuela e de Morales, na Bolívia, fala mais que cem espiões no rolo da espionagem americana no Brasil.

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Brasil monitorado- Petrobras foi alvo de espionagem americana
Folha: Sul e Sudeste têm 19 das 25 melhores universidades
Estadão: PF já investiga mais desvio de verba pública do que tráfico
Correio: Entidades repudiam abuso da PM no Sete de Setembro
Valor: Atrasos encarecem Jirau e hidrelétrica espera perdão
Jornal do Commercio: EUA espionam Petrobras
Zero Hora: Divulgar deputados custa o mesmo que 1,9 mil moradias
Brasil Econômico: ‘Planejamento perdeu status no governo’

domingo, setembro 08, 2013

ÍNDICE DAS POSTAGENS DE HOJE NO BLOG

Trocas íntimas entre estranhos - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 08/09


Alguns poucos leitores às vezes me confundem com conselheira sentimental e me revelam seus conflitos internos, acreditando que eu possa apontar um caminho para que eles vivam melhor. Logo eu! Escrevo sobre assuntos que me interessam e, se servirem para alguém, é uma honra, mas não me sinto à vontade e nem tenho preparo para entrar na intimidade de cada leitor em particular já me atrapalho o suficiente comigo mesma.

Mas já que todos gostam de conselhos, eu inclusive, uma dica posso dar: leia o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed.

Já falei dessa autora antes. Foi ela que percorreu sozinha uma trilha nos Estados Unidos e narrou a experiência no aclamado Livre, que frequentou a lista dos best-sellers. Eu nem imaginava que ela escrevia uma coluna de aconselhamentos. Pois me tornei fã declarada dessa mulher.

Pequenas Delicadezas é uma seleção de perguntas e respostas publicadas no site The Rumpus, mas de forma alguma é literatura de bisbilhotice, aquela coisa de olhar pelo buraco da fechadura dos dramas alheios, o que tantas vezes revela-se piegas.

Cada carta gera um ensaio em que Cheryl conta experiências próprias para ilustrar seu pensamento sobre as questões levantadas. Esbanjando sensatez (coisa que não anda sobrando por aí), ela equaliza causas e efeitos com docilidade, mas sem abusar do bom mocismo e sem encontrar solução para tudo.

Ao contrário, ela reconhece que a vida é bem sacana às vezes. Nossos pais nem sempre foram uns anjos, nossa infância “feliz” pode ter sido uma farsa e a maneira como estamos narrando nossa história para nós mesmos pode estar cheia de ficções que já não conseguimos sustentar. Dá para mudar o passado? Não dá. A única coisa que dá para mudar é a maneira como enxergamos tudo o que nos aconteceu (e ainda acontece) e ver o que é possível perdoar, esquecer ou redimensionar.

É comum considerar o escritor como uma espécie de guru – parece que ele é imune a problemas. Cheryl se atreve no papel e se dá como exemplo justamente porque sua vida não foi um passeio de carrossel.

Porém, ela encontrou suas ferramentas de superação – a própria coluna deve ser uma delas. Sem constrangimento e com absoluta empatia, envolve-se com a dor de quem lhe escreve, mesmo suspeitando que todos sabem direitinho o que devem fazer de suas vidas, só estão aguardando que alguém, mesmo um desconhecido, lhes dê uma espécie de licença. “Se é por falta de licença, sinta-se autorizado”, é o que ela parece dizer.

Pequenas Delicadezas não explora as churumelas do amor nem pretende ser um oráculo. Apenas confirma que viver não é fácil, mas é o que temos pra hoje.

Osso pensa? - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 08/09

O filósfo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, enquanto o poeta, não: ele só quer registrar o inexplicável


Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.

Recentemente, tentei encontrar o texto em que o filósofo fazia tal afirmação e descobri que era no "Teeteto", quando atribui essa afirmação a Sócrates. Descobri também que a palavra grega que usa para espanto é "thaumázein", que significa também assombro, perplexidade, admiração.

Sim, é a mesma coisa que sinto quando me encontro na condição de escrever o poema. Espanto é realmente a palavra que define esse estado mental em que, de repente, a realidade se mostra inexplicada.

Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?".

Possivelmente, nem mesmo Platão seria capaz de responder a essas indagações, ou as responderia, mas depois de surpreender-se com essa espantosa descoberta: eu não sou apenas consciência, ideias, a pessoa que fala e pensa; sou também um enorme osso que bate no outro do mesmo modo que uma pedra se choca com outra pedra. E isso sou eu? Até onde o meu fêmur participa dessa minha indagação? Osso pergunta? Não, não pergunta.

Então devo concluir que sou uma consciência que pergunta e um osso que nada tem a ver com isso, é só matéria burra, como um mineral qualquer? Sou um ser consciente apoiado em osso que não tem nada a ver comigo? Mas como, se o sinto, se ele dói quando algo o atinge, e posso até morrer se quebra e infecciona? Ao que tudo indica, eu sou esse osso. Eu sou minha imaginação, meus desejos, minha reflexões, meus afetos e lembranças --e esse osso também.

Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.

Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.

Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?

A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.

É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.

Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".

E um beijo agradecido ao Caetano Veloso.