segunda-feira, agosto 12, 2013

Olhem o balanço de pagamentos - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 12/08

Qualquer que seja a política cambial, desequilíbrios elevados na conta corrente de um país o submetem a um risco importante: o de o financiamento externo ‘secar’



Lester Thurow, antigo professor do MIT, dizia que “as sociedades têm uma tendência a cometer erros fundamentais a intervalos de 60 anos, uma vez que todo mundo com idade bastante para se lembrar do engano anterior a essa altura já está morto ou senil”. Já nosso Ivan Lessa disse a mesma coisa, mas com outra métrica, quando escreveu que “de 15 em 15 anos, o Brasil se esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”.

Independentemente do intervalo de tempo em que as sociedades esquecem o passado, é natural que aqueles que vivenciamos as agruras dele observemos o presente com olhos diferentes daqueles que só conhecem o passado pelos livros de História. E, nesse sentido, para os mais velhos, a trajetória recente do nosso balanço de pagamentos é bastante preocupante.

É verdade que o funcionamento da economia em um regime de câmbio flutuante é muito diferente da forma em que uma economia opera com câmbio fixo ou rígido. Basicamente, com câmbio flutuante, na presença de uma desvalorização entram em jogo estabilizadores automáticos que não estão presentes quando a política cambial é rígida. Primeiro, pela mudança da paridade cambial em si, que altera os preços relativos de exportações e importações e modifica com o passar do tempo o resultado da balança comercial. E, segundo, porque enquanto que numa economia com câmbio fixo ou semifixo, há um certo valor em US$ de diversos itens da despesa, com câmbio flutuante tal valor é uma função da própria cotação cambial. Um exemplo simples ajuda a entender isso: se há R$ 30 bilhões a serem remetidos por conta de lucros e dividendos a uma cotação de R$ 2 por dólar, a remessa dessa rubrica será de US$ 15 bilhões, mas, se a cotação pular, só como hipótese de raciocínio, para R$ 3, o mesmo valor na moeda local, se medido em dólares, passa a ser de US$ 10 bilhões.

De qualquer forma, qualquer que seja a política cambial, desequilíbrios elevados na conta corrente de um país submetem este a um risco importante: o de o financiamento externo “secar”. Nesse caso, o país terá que se ajustar, tão rapidamente quanto for a intensidade do movimento da conta de capitais.

O que nos mostram os números? Vejamos a trajetória do déficit em conta corrente do país. Até 2007, tinhamos um pequeno superávit. Em 2008, tivemos um déficit de US$ 28 bilhões, contido no ano seguinte para US$ 24 bilhões por conta da crise. Depois, ele só fez aumentar, chegando a US$ 54 bilhões em 2012, com perspectiva de chegar perto de US$ 80 bilhões em 2013.

Esses números, que em épocas anteriores teriam ligado o sinal vermelho da política econômica, são vistos com tranqüilidade tanto pelos gabinetes oficiais como por analistas privados, com dois argumentos. Um, de que haveria financiamento externo disponível. E o segundo, de que em termos relativos seria da ordem de 3% do PIB — percentual considerado aceitável. O problema é que ambos argumentos têm sua dose de vulnerabilidade. O financiamento externo existe até que deixa de existir — e, muitas vezes, isso ocorre subitamente. E o percentual do déficit é ele mesmo função da taxa de câmbio: se a fonte externa de recursos secar e o câmbio se desvalorizar, o valor do PIB em US$ cai e 3% do PIB podem virar 4% do PIB em pouco tempo — entrando em terreno mais delicado. Além disso, o déficit em dólares continua aumentando.

O país, que fez um ótimo ajuste externo na década passada, a ponto de ter eliminado a dívida externa líquida, parece ter se deixado seduzir pelo “canto de sereia” do financiamento externo. Tomás Eloy Martinez, autor de “La novela de Perón”, coloca em boca deste a frase que ele teria dito ao afirmar que “a História é uma piranha”, pois “sempre fica com quem paga mais”. E quem paga mais é sempre o último, porque o relato que conta na História é sempre o derradeiro. Desde 2004, a demanda doméstica avançou na frente da produção, “festa” essa financiada pelo resto do mundo. Se essa relação não for revertida, cedo ou tarde teremos uma crise. O Governo precisa tomar cuidado: se o financiamento externo “secar”, a história das gestões Lula-Dilma acabará sendo reescrita — e, se tanta gente foi para a rua mesmo com desemprego baixo, dá para imaginar o tamanho da confusão se tivermos uma crise para valer.

Tempos difíceis - PAULO GUEDES

O GLOBO - 12/08
Sob a pressão de uma carnificina sem fim, dois impérios - o austro-húngaro e o otomano - se dissolvem completamente, o kaiser alemão perde seu trono e o czar da Rússia e sua família inteira são executados. Mesmo os vitoriosos se tornam perdedores: a Inglaterra e a França contam mais de dois milhões de homens mortos e terminam a guerra com enormes dívidas. A magnitude da tragédia foi muito além do imaginável, em dimensões jamais experimentadas pelos europeus: mais de 35% dos alemães entre 19 e 22 anos e metade de todos os franceses entre 20 e 32 anos foram mortos na I Guerra Mundial , o grande choque que deveria trazer O fim de todas as guerras (2011), como relata Adam Hochschild.

A grande guerra foi uma monstruosa aberração cultural, o resultado de um incontrolável e imprudente impulso dos europeus de se tornarem uma sociedade guerreira. Podemos ver Clausewitz como o ideólogo desse cataclísmico episódio , diagnostica John Keegan, em Uma história da guerra (1994). Dois milhões de alemães não podem ter caído em vão. Nós não perdoaremos, nós exigimos vingança , fulminava Adolf Hitler menos de quatro anos após o fim da guerra. A derrota deflagrou uma sequência de eventos desastrosos sobre a Alemanha. As reparações de guerra e perdas territoriais pelo Tratado de Versalhes, uma hiperinflação, a violência política, os impactos da Grande Depressão e a ascensão dos nazistas.

O III Reich chegou ao poder em 1933 sobre as ruínas da República de Weimar, primeira e malsucedida tentativa de regime democrático na Alemanha. A guerra radicalizou a política, com revolucionários comunistas à esquerda e bandos armados como Os Capacetes de Aço e As Brigadas Livres à direita. A democracia alemã, improvisada na esteira da derrota militar, jamais teve a chance de se estabelecer sobre fundamentos estáveis , registra Richard Evans, em O III Reich no poder (2005), segunda obra de sua monumental trilogia.

Com o espírito de Bismarck, com Parsifal e Sigfried de Wagner, com a guerra total de Clausewitz, com o ressentimento por Versalhes, com o homem superior de Nietzsche e sob o comando do Führer, a Alemanha dominaria a Europa. Aqueles foram tempos terríveis. Com a morte das ideologias, para a supremacia econômica dos alemães teria bastado criar o euro.

O futuro ficou mais longe - LUÍS EDUARDO ASSIS

ESTADÃO - 12/08

Em plena gestação do Estado Novo, em 1937, Getúlio Vargas encontrava tempo para partidas de dominó, como revelam seus diários publicados em 1995. Naquele Brasil rural de 30 milhões de habitantes tudo parecia mais simples. Muitos anos depois, o delicioso diário da presidente Dilma da revista Piauí não registra, mas o que ela tem pela frente é um cabuloso jogo de xadrez.

Há poucas peças no tabuleiro, o tempo corre rápido e uma jogada errada pode ser fatal. Podemos assumir, pragmaticamente, que a política econômica de 2013 e 2014 estará subordinada aos interesses eleitorais do governo. A prevalência do que é imediato, no entanto, não pode ser levada ao paroxismo de inviabilizar a gestão de um eventual segundo mandato. A ninguém pode interessar ser o herdeiro de um legado caótico, menos ainda se ele for o seu próprio.

Há três influências não convergentes que pressionam a orientação da política econômica hoje. O ideário do mercado financeiro é uma delas. Aqui tudo ocorre em condições assépticas de laboratório. Os economistas que dão conselhos sentados do outro lado do mundo gostam de dizer que nosso crescimento no longo prazo dependerá de um choque de produtividade (que inclui investimentos em infraestrutura e educação), da promoção da concorrência (que exige abertura da economia), do corte de gastos públicos (que pressupõe a revisão de direitos adquiridos) e da redução consistente da inflação (que depende disso tudo). O problema é que o mundo é mais complexo. Não porque as conveniências políticas conspurquem as equações econômicas, mas porque são raros os governantes que pensam adiante do seu tempo.

Uma outra demanda vem das manifestações de rua. A pauta é difusa e não há por que esperar compromisso com a viabilidade do que se almeja, mas o fato é que não é possível dar uma guinada na alocação dos gastos públicos. Cobram-se, por exemplo, melhorias no sistema educacional. É justo. A divulgação recente do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi comemorada com fogos de artifício, mas ainda estamos em 85.º lugar, atrás do Peru (77.º), do México (61.º) e muito atrás da Argentina (45.º). Nosso pior indicador é a escolaridade da população, medido pelo número de anos de estudo. Estamos estagnados desde 2010 em 7,2 anos, atrás - atenção agora - do Paraguai (7,7 anos). Pois mudar esse quadro não é fácil, por mais que seja desejável.

Pode-se fugir do problema atribuindo ao governo falta de "vontade política", mas as limitações são objetivas. É frequente a avaliação de que a péssima qualidade dos serviços públicos é fruto apenas do desperdício, do descaso e da corrupção. É isso também, mas é mais do que isso. Também falta dinheiro. Não pagamos impostos da Noruega para ter serviços de Botswana (onde, a propósito, a população tem 8,9 anos de estudo). Para uma renda per capita de US$ 55,9 mil e uma carga tributária de 57%, cada norueguês paga, em impostos, US$ 31,8 mil por ano, mais de sete vezes mais do que paga um brasileiro.

Por fim, para complicar, o governo se deixou encurralar desastradamente pela sua própria base de apoio parlamentar, que hoje desempenha com louvor o papel que a oposição recusou. A agenda, aqui, é oportunista. Vale apenas o artifício da troca mesquinha de favores, dos interesses mercadejados, da chantagem vil e do miúdo jogo eleitoral, terreno onde, certamente, não viceja uma reflexão sobre o futuro do País. É dura a vida da presidente Dilma, não só por culpa dela.

No tabuleiro. Nada de bom e importante vai acontecer na política econômica até 2015. Não há espaço para mudanças. Fazer reformas estruturais a esta altura é inviável. Resta a alternativa de mexer poucas peças no tabuleiro.

É imprescindível, em primeiro lugar, sobriedade. A atual gestão da economia se destaca pela manipulação estabanada dos malabares. Muitas vezes, medidas equivocadas geram a necessidade de correção por meio de novas medidas equivocadas, provocando uma ciranda de desacertos. Convém comedimento nesta fase final. Fazer menos é errar menos.

Favoreceria, também, uma mudança na própria equipe econômica. Não porque novos nomes possam fazer muito mais, mas porque uma troca teria o condão de paralisar o relógio momentaneamente, o que sempre é bom para quem luta contra o tempo.

A credibilidade também ganharia pontos se o governo se dispusesse a fazer oferendas simbólicas, como formalizar a desistência de concorrer ao Prêmio Nobel de Contabilidade Criativa, ou, melhor ainda, apoiasse o projeto de lei do senador Francisco Dornelles que regulamenta a autonomia do Banco Central. Nada de existencialmente revolucionário, mas um afago que pode ter sua utilidade.

Na mesma linha, medidas pontuais de apreço à frugalidade no trato do dinheiro público podem ajudar. A maior oportunidade, no entanto, está no cronograma das concessões. Esse é o lance em que o governo não poderá falhar. Para isso, deverá aceitar a platitude de que o interesse da iniciativa privada é maximizar lucros, aqui e no mundo. O sucesso das concessões não será garantia de recuperação da economia, já que os investimentos públicos representam parcela diminuta da formação bruta de capital. Mas seu fracasso apertará ainda mais o torniquete que sufoca o nosso crescimento.

O resumo da ópera é simples. Na ausência de novos erros na condução da política econômica, teremos dois anos de crescimento medíocre, inflação relativamente alta, aumento da dívida pública bruta e nenhum avanço na solução de problemas estruturais. A pauta estará subordinada aos interesses de curto prazo, que tecem um emaranhado de artifícios que trazem saudades da simplicidade de um jogo de dominó. O futuro? Ora, o futuro fica para depois.

LUPA NOS TRILHOS - MONICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 12/08

Mais um órgão deve entrar na investigação do suposto cartel em licitações do metrô e trens em São Paulo. O MPC (Ministério Público de Contas), órgão de controle do Tribunal de Contas do Estado, pediu ao Cade, em Brasília, e ao Ministério Público Estadual acesso às apurações.

POR DENTRO
Parte das concorrências suspeitas já foi examinada pelo TCE, que tem sete conselheiros indicados pelo governador e pela Assembleia Legislativa. Um deles, Robson Marinho, foi chefe da Casa Civil no governo Mário Covas, que o indicou para o tribunal em 1997. Acusado de ter recebido propina da empresa francesa Alstom, ele nega as denúncias.

NA MIRA
O MPC funciona desde março do ano passado. São Paulo foi o último Estado a criar o órgão de controle, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). É formado por nove procuradores aprovados em concurso.

LISTA
Deputados, senadores e dirigentes do PT e de outros partidos que apoiam Dilma Rousseff vão hoje consultar com lupa o "Diário Oficial". Há notícias de que a presidente fará uma enorme dança de cadeiras em poderosos cargos de segundo escalão para acalmar a sua base de apoio parlamentar.

SOCORRO!
O diretor Aderbal Freire-Filho vai aproveitar a estreia da peça "Jacinta", em São Paulo, para se reunir hoje com a classe teatral paulista. Ele quer discutir meios de salvar a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), que, segundo um dos convidados para o encontro, está na "bancarrota".

MUTIRÃO
Do grupo fazem parte Ivam Cabral, Lauro Cesar Muniz, Hugo Possolo, Celso Frateschi e Mario Viana, que estão chamando escritores, técnicos e atores para conversar com Freire-Filho.

NAVIO
Na tentativa de recuperar a sociedade, que recolhe e distribui direitos autorais a seus associados, Freire-Filho já chegou a ter contas bloqueadas, junto com Ziraldo e Millôr Fernandes. Há alguns meses, ele disse que estava prestes a abandonar a entidade e que corria o risco de "afundar junto com o navio".

DE CAMPANA
A dupla de designers Fernando e Humberto Campana vai abrir um museu para expor suas obras em São Paulo. A pesquisadora Marcia Camargos está cuidando do projeto, que começa a sair do papel ainda neste ano.

DE CAMPANA 2
O Ministério da Cultura indeferiu a primeira parte do projeto de captação de recursos, destinados à organização, ao acondicionamento e à preservação do acervo dos irmãos. Considerou insuficientes as garantias de acesso público. A dupla já fez as alterações necessárias para enviar nova inscrição e oferecerá como contrapartida workshops de treinamento arquivístico.

AMERICANIZADO
O apresentador Pedro Andrade terá um programa na ABC Fusion, novo canal da rede, que é a principal emissora dos EUA. Em inglês e voltada para os americanos, a atração vai falar de cultura e gastronomia.

Segundo Caíco de Queiroz, agente do brasileiro, Andrade continua no "Manhattan Connection", da Globo News. Mas, em vez de estar na bancada em Nova York, fará sua participação direto de Miami, para onde se muda.

Global
A modelo gaúcha Cíntia Dicker, 27, fará sua estreia na televisão no quadro Só para Mulheres, do "Fantástico"; posa de atriz sob a direção de Luiz Fernando Carvalho e com textos baseados em Clarice Lispector

TIRA O PÉ DO CHÃO
A empresária Ana Joma Fasano, o ator e apresentador Rodrigo Hilbert e a estilista Patricia Bonaldi foram recebidos pela modelo Johanna Birman na festa de lançamento da coleção verão da Schutz e da revista da marca, na loja da Oscar Freire.

AUTOAJUDA
Luiz Calainho lançou "Reinventando a Si Mesmo - Uma Provocação Autobiográfica", na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O economista Cassio Lotaif, a administradora Judith Varandas e o produtor Roberto Verta foram à noite de autógrafos.

CURTO-CIRCUITO
Maitê Proença autografa o livro "É Duro Ser Cabra na Etiópia", hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Dom Odilo Scherer celebra missa, hoje, às 18h, no mosteiro de São Bento, na inauguração de seis sinos restaurados com apoio do grupo Comolatti.

O Iasp (Instituto dos Advogados de SP) debate lavagem de dinheiro, hoje, às 9h, em sua sede.

Situação delicada - ILONA SZABÓ DE CARVALHO E ROBERT MUGGAH

O GLOBO - 12/08
O Rio enfrenta uma crise. Os protestos que explodiram em junho estão segmentados e mais extremados. Inicialmente pacíficas e progressistas, as manifestações começaram a usar táticas mais obscuras. A situação é delicada e a continuidade do programa de segurança pública, as UPPs, está sob ameaça. Ironicamente, a crise de credibilidade acontece no momento em que evidências demonstram resultados.

É fácil de esquecer o terror diário que vivíamos há uma década atrás. Para aqueles do asfalto, o medo era real. Mas, para os moradores dos morros, o fardo era muito maior. Hoje, 33 áreas, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, são consideradas pacificadas. Embora críticas legítimas existam, é crucial dissipar os mitos.

O primeiro é que a pacificação era focada apenas nas Olimpíadas. De acordo com a PM, a pacificação começou por acaso, antes da escolha da cidade para receber os Jogos de 2016. A primeira UPP foi instalada em 2008. Além disso, os antecedentes da UPP remontam ao ano 2000 e as expectativas são de que continuem após os megaeventos.

Um segundo é que a pacificação é para beneficiar somente a Zona Sul. A primeira UPP foi no Dona Marta, com cerca de 8.000 moradores. Mas, logo depois, a pacificação foi estendida para a Zona Oeste, incluindo a Cidade de Deus e o Batan, com 90.000 habitantes. E hoje 23 das restantes 30 áreas estão fora da Zona Sul.

O terceiro é que a pacificação não está funcionando. Antes , a cidade do Rio registrava 42 homicídios por 100.000 em 2005 - a maioria deles de jovens pobres e negros. Hoje, a taxa é de 26 por 100.000, com o mesmo perfil demográfico. Enquanto a taxa ainda é altíssima, e efeitos de substituição existam, os impactos positivos são irrefutáveis.

Um último mito é que as UPPs são rejeitadas pelos moradores das favelas. Há reclamações sobre a repressão aos bailes funk e o uso excessivo da força. Mas a maioria das pesquisas confirma que a pacificação é geralmente bem recebida. Testemunhos sobre a importância das UPPs na promoção de novas formas de reciprocidade e solidariedade dentro, entre e fora das favelas são frequentes.

O programa de pacificação é mais do que recuperar territórios dominados por gangues armadas. É sobre a (re)construção do contrato social. Mais ainda, no coração do programa está a tentativa de pacificar a própria polícia. Desde o início os mais de 8.000 policiais foram capacitados em direitos humanos e policiamento comunitário. Mais treinamento é necessário.

A crítica mais legítima é que a pacificação não tem uma agenda social. A UPP Social não se concretizou. O projeto é vulnerável, não somente por não oferecer a fase seguinte à ocupação, mas também por não prever continuidade institucional. Pacificação é mais do que um programa de determinado governo. E exigirá maior investimento público e privado, e a participação de líderes sociais e jovens.

O processo de pacificação precisa ser melhorado e acelerado. Está claro que as favelas são polos de inovação. Não podemos abrir mão das conquistas já alcançadas.

E agora, José? - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 12/08

Aliados de José Serra dizem que o ex-governador esperava as primeiras pesquisas com seu nome entre os presidenciáveis para decidir se sairá ou não do PSDB para concorrer em 2014. A pesquisa Datafolha ofereceu mais dúvidas que respostas. Na sondagem, dois fatores nos quais Serra apostava não se verificaram: o recall por ter disputado duas eleições presidenciais e uma vantagem sobre Aécio Neves que lhe desse algum discurso para disputar internamente a candidatura.

É a economia Outro fator importante que incentiva Serra a disputar a terceira candidatura presidencial é ser visto como alternativa a Dilma Rousseff na gestão econômica. Mas isso também não se confirmou no Datafolha. Só 11% dos entrevistados apontam o tucano nesse quesito. Dilma tem 12%.

Otimismo Pesquisas internas que o marqueteiro João Santana mostrou a Dilma já indicavam uma recuperação de 8 pontos na aprovação ao governo (foram 6 no Datafolha), que teria subido ao patamar de 30%. A equipe próxima à presidente comemorou os resultados.

Megadesgaste A pesquisa de intenções de voto confirmou dado que já aparecera na de avaliação de Dilma: persiste seu desgaste nas metrópoles com mais de 500 mil eleitores. Nessas cidades, que concentraram os protestos de junho, Marina Silva lidera ou empata com Dilma, a depender do cenário.

De mal Outro dado que chamou a atenção de petistas foi a baixa adesão a Dilma na pesquisa espontânea. Ela manteve os 16% de intenção de voto quando o eleitor é questionado sem ter uma lista prévia. A presidente chegou a pontuar 35% na espontânea, no auge de sua popularidade, em março.

Frente... Fernando Haddad (PT) apresentará na quinta o pacote de reforma do sistema municipal de educação. O plano prevê R$ 1,2 bilhão para a ampliação da rede de creches e CEUs de São Paulo.

...pela educação Professores, pais e alunos participarão de uma consulta pública, que ficará aberta por um mês para receber sugestões de alterações à proposta do prefeito em temas que vão até o currículo de ensino.

Saideira 1 Roberto Gurgel enviou ao Supremo Tribunal Federal petição para que seja arquivada denúncia contra Roberto Requião, ex-governador do Paraná. Supostamente, Requião teria concedido benefícios de ICMS de forma irregular a contribuintes como Sercomtel, Hexal do Brasil, Companhia Brasileira de Bebidas e Elevadores Atlas Schindler.

Saideira 2 Segundo o procurador-geral da República, ainda que existissem indícios da prática dos delitos de peculato ou corrupção ativa, eles já prescreveram.

Saideira 3 A investigação das supostas irregularidades ocorreu em março de 2004 e a prescrição ocorreu em março deste ano, devido à idade do ex-governador. Como Requião tem 72 anos, a lei determina que o prazo máximo de prescrição desse tipo de crime (16 anos) seja reduzido à metade (8 anos).

Luz... Diante da escuridão em que ficou a plateia do encontro do PT em Bauru que lançou o ministro Alexandre Padilha candidato a governador de São Paulo, petistas brincaram que a luz baixa era porque o candidato ainda estava fechado no armário.

... para todos Até o ex-presidente Lula fez piada com a penumbra do evento. Disse a Padilha e também ao ministro Gilberto Carvalho que era necessário pedir a Dilma Rousseff que liberasse recursos do PAC para iluminar os encontros do PT.

tiroteio
"Antes, diziam que eu estava por trás da CPI da Petrobras. Agora, que sou ligado a João Henriques. O PMDB quer e eu assinarei a CPI"
DO DEPUTADO EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), rebatendo acusações de que seria ligado a ex-funcionário da estatal que denunciou esquema de corrupção

contraponto


Beijo, não me liga
Na última sessão da Câmara antes do recesso de julho, o líder do PSDB na Casa, Carlos Sampaio (SP), reuniu a bancada e deu um aviso:

--Farei uma viagem com a minha mulher para comemorarmos vinte anos de casamento. Mas estarei com o celular ligado. Quem precisar, pode telefonar.

Os deputados elogiavam a disposição do líder, quando Sampaio arrematou:

--Mas que fique claro que será contrariado e insatisfeito que atenderei a cada telefonema.

Todos gargalharam e prometeram não incomodá-los.

O gigante dormiu. De novo - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 12/08

"Acho que é o momento de acabar com o toma lá dá cá"
Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado


Previdente, esse rapaz. Sabe onde pisa. Como relator do novo regimento interno do Senado, Edison Lobão Filho (PMDB-MA), no exercício do cargo que seu pai, ministro das Minas e Energia, deixou vago, decidiu sumir com a palavra ética. Está no Houaiss: "Ética é o conjunto de preceitos sobre o que é moralmente certo ou errado". Moral "é o conjunto de regras de condutas desejáveis num grupo social".

HÁ DENTRO DO regimento um código de ética. É sobre ele que juram os parlamentares na hora em que tomam posse dos seus cargos. Se depender de Lobão Filho , a palavra desaparecerá do código. Afinal, o que é ética para você poderá não ser para ele, argumenta o senador . "A ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata" . Daí... Daí que Lobão está sendo apenas realista. E menos hipócrita do que seus colegas.

FRAUDAR NOTAS fiscais para justificar gastos com verba de gabinete é faltar com a ética ou não? E omitir da Justiça dinheiro recebido para pagar gastos de campanha? E embolsar grana por fora para votar como manda quem pode? E retardar a instalação de uma CPI à espera de que seus apoiadores desistam dela em troca de vantagens? É espantosa a quantidade de políticos que procedem assim impunemente . Quase todos .

TEM UMA CPI pronta no Senado destinada a se lambuzar com o mar de lama que escorre das obras da Copa do Mundo. Poderia estar funcionando. Mas Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, deu um tempo para que seus pares pensem melhor a respeito . Um pensou e tirou a assinatura: Zezé Perrela (PDT -MG). Outro - João Alberto de Souza (PMDB-MA) - topa tirar , desde que empregue o filho no governo.

CADÊ O GIGANTE? Ele não havia acordado? Foi em junho último que manifestações diárias sacudiram o país. Num único dia, mais de três milhões de pessoas gritaram slogans, enfrentaram a polícia e algumas botaram para quebrar . Nunca os políticos temeram tanto o povo. A presidente da República falou à Nação. O Congresso prometeu aprovar em regime de urgência um lote de benfeitorias sob o título de Agenda Positiva.

PARA AUMENTAR o sufoco dos alvos preferenciais do gigante, o Papa Francisco passou uma semana entr e nós dando lições de humildade. E, antes de ir embora, aconselhou os jovens a irem para as ruas. O gigante ganhou na internet até a companhia de um canal exclusivo de televisão só para amplificar seus maus modos. No ar , a Rede Ninja! Pois , cansado - quem sabe? -, resolveu dormir outra vez. Para quê? Quanta preguiça!

O QUE A presidente propôs fracassou - reforma política, constituinte exclusiva, plebiscito ou mesmo referendo, dois anos a serviço dos mais pobres para quem desejasse se graduar em medicina. O senador Cristovam Buarque (PDT -DF) qualificou de engodo o pacote de promessas do Congresso. Ministros e políticos voaram nas asas da FAB e ofereceram caronas a amigos e parentes. Amarildo desapareceu.

A CARA DE BOM moço do PSDB foi seriamente desfigurada pelo escândalo das licitações dirigidas. O lobista do PMDB na Petrobras chocou o distinto público com suas histórias medonhas. Uma delas sobre dinheiro para a campanha de Dilma. Outras, que aguardam publicação, sobre gente só um tiquinho menos graúda do que Dilma. Os Ninjas estão na berlinda de castigo, tamanha é a série de depoimentos que abalou sua reputação.

GIGANTE ESQUISITO, esse. Faz o maior auê, sai de cena de mãos vazias e se recolhe para pegar no sono. Não, não é hora de deitar em berço esplêndido

Dia dos Pais - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 12/08

Escrevo na manhã de domingo (11), enquanto espero pelo almoço com minha filha.

Acabei me decidindo por esse tema em função do simbolismo da data que, apesar de tão esmaecida pelo viés comercial, acaba por reforçar a constatação da velocidade dos dias e da inevitável dificuldade que muitos de nós temos em priorizar tempo, compromissos, desejos e expectativas.

Por mais diferente e única que seja cada experiência, existem algumas questões que, em maior ou menor grau, são comuns a todos os que experimentam o sentimento da paternidade.

E algumas delas foram agravadas no Brasil de hoje.

A primeira, mais óbvia, é o temor de que, em algum momento, nossos filhos acabem alcançados pela alarmante e dramática violência que se abate sobre a nossa ju- ventude. Trata-se de uma tragédia de muitas faces, entre as quais se destacam os homicídios e os acidentes de trânsito, contados aos milhares por ano, e que justificam os temores e apreensões de tantos pais e mães.

Outra preocupação é o alto desemprego entre os jovens, que destoa do discurso do pleno emprego tão alardeado pelo governo. A taxa para quem tem entre 16 e 24 anos está quase três vezes acima da média, pontuando em 15%, o que confirma que ainda devemos a eles novas portas de oportunidades para que possam construir suas vidas profissionais e conquistar sua preciosa autonomia.

A mim preocupa, sobretudo, o desafio de construção de um senso ético que faça sentido para as novas gerações e que, para ser coletivo, precisa ser, antes de tudo, individual.

Para os nossos filhos, o mundo virtual é o mundo real e chama a atenção o crescimento de relatos de bullying, da cruel e gratuita exposição da privacidade provocada por amigos na internet. Infelizmente, estão longe de constituir episódios isolados e parecem apontar para uma triste e desrespeitosa banalização das relações humanas.

Há uma geração que precisa ser ouvida para ser fortalecida em seus valores e identidades, desafio que se impõe à sociedade como um todo.

Recente pesquisa do Ipea, realizada com 10 mil jovens em todo o Brasil, mostra a forte sintonia da juventude brasileira com o conjunto de reivindicações da população: educação de qualidade; melhoria dos serviços de saúde; acesso a alimentos; governo honesto e atuante; proteção contra o crime e a violência; melhores oportunidades de trabalho; transporte eficiente e estradas.

Mas é Dia dos Pais.

Pai é para sempre. Mesmo quando não está mais entre nós. Por isso, dedico a coluna desta segunda-feira especialmente àqueles que, como eu, ainda não se acostumaram com a cadeira vazia no almoço de domingo.

Os senadores prometerão ser éticos? - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 12/08

Causou choque a recusa do senador Lobão Filho, relator do regimento do Senado, a incluir a palavra "ética" no compromisso que os membros da Casa prestam ao tomar posse. O assunto ressoou até no jornal espanhol "El País". Disse o parlamentar que ética é questão subjetiva, com significados diferentes conforme a pessoa. Ele está errado e direi por quê. Mas também erram alguns críticos seus - os que não têm dúvidas sobre o que é certo ou errado, postura que só vale numa visão bem simplista da ética.

Como professor de ética, sempre insisto que ela não consiste numa lista pronta, que nos limitaríamos a obedecer. Tal lista existe e se chama lei. Leis são votadas pelo poder competente, sendo sua violação punida pela Justiça. O que importa é cumprir a lei, pouco importando por quê.

Mas a ética é diferente. Exige muito mais. A lei pede apenas a obediência nos atos; na ética, também está em pauta a intenção. Para o sistema legal, é suficiente que eu pague os impostos, não mate, agrida ou furte ninguém; mas essa obediência externa, se faz de mim um não criminoso, não me torna uma pessoa ética. Porque, se acatei as leis só por medo do castigo, não foi por amor a elas, nem por respeito aos outros, meus próximos.

Por ser exigente, a ética incomoda. Ética é antes de mais nada isso: uma enorme perturbação. Interpela os indivíduos, para que eles se tornem pessoas. Eu me explico. Cada um de nós é, em seu corpo, um ser único, indivisível. Isso é o indivíduo. Mas, dizendo isso, só descrevo um fato. Já a palavra "pessoa" é mais que isso. Designa um titular de direitos e obrigações. Saio da descrição e entro na prescrição. Um indivíduo nunca chegará a pessoa, se não assumir seus deveres e direitos. O que a ética cobra de cada um de nós é esta responsabilidade pelos atos.

Não basta, pois, cumprir ordens. Há pessoas, sobretudo as de religiosidade superficial, para quem tudo o que deve ser feito está nos mandamentos divinos. Elas os cumprem à risca. Mas, quando se limitam a obedecer o que está escrito, sem pôr nada em questão, não chegam ao nível ético. Uma coisa é tratar os Dez Mandamentos como lei - outra, como preceitos morais ou éticos. Porque, quando você os considera pela ética, tem de aprofundar. Por exemplo, o que quer dizer "não matarás"? É apenas "não tire a vida de outro ser humano" - ou deve incluir "socorra quem estiver ameaçado de morte"? É consenso que não devo matar ninguém, salvo legítima defesa; mas, se deixo matarem alguém, não estarei sendo cúmplice de assassinato? Essa conclusão me parece lógica, mas não é trivial ou óbvia. E mais ainda: e se "matar" também for "deixar uma pessoa morrer, quando tenho condições de ajudá-la", por exemplo, saciando sua fome? Neste caso, se não contribuo para minorar a fome mesmo de quem eu não conheço, estou matando. Ou ainda: se voto num candidato ou partido indiferente à fome, também estaria matando. Pode haver divergências nestas conclusões, mas vale o princípio de que "matar" não é apenas o que é óbvio (você usar a faca ou o revólver para tirar uma vida), porém pode significar várias outras coisas.

Mais um ponto. A maior parte dos dez mandamentos começa pelo "não": isso sugere que, para ser ético, seria suficiente nada fazer de mau. Mas vamos expandir. Num regime ditatorial, não colaborar com a repressão é digno; mas basta? Não fará parte da ética lutar contra a ditadura? Num país assolado pela miséria e marcado pela corrupção, é ético o indiferente? Ou, para ser ético, tenho que combater esses dois flagelos?

A corrupção, como insistimos alguns há muitos anos, mata. Corruptos podem ser pessoalmente adoráveis, porque não enfiam a faca ou atiram em ninguém. Mas matam. Igualmente a miséria. Pode haver diferenças políticas no modo como enfrentamos miséria e corrupção, mas enfrentá-las é um imperativo ético.

Por isso, quando discutimos a ética, ela não é nada óbvia. Daí, a inanidade de expressões como "ética vem do berço", como se as pessoas nascessem já decentes ou não (se assim fosse, não teríamos por que condenar quem é antiético, porque a pessoa teria nascido desse jeito - e nada poderia mudar...). Ou mesmo o absurdo de supor que a ética vem só da família - o que dispensaria quem cresceu sem família, ou com má formação familiar, da responsabilidade de ser ético. De modo geral, quem tem muita certeza sobre a ética é porque obedece ao que lhe foi ensinado como se lei fosse. Ou seja, não percebe o que a ética é, nem que ela é mais exigente do que qualquer lei.

Mas este campo de incerteza que há na ética, quando saímos da superfície e do óbvio, não justifica o senador. Ele deveria saber que é bem essa imprecisão do ético, essa sua capacidade de expansão, esse progresso para cobrir sempre novos significados, que lhe confere valor. Nestas décadas, muitos avanços nossos, como o desprezo que passamos a ter pelo assédio sexual ou moral, pelo preconceito racial ou de gênero, decorreram de questionamentos éticos. Nossa sociedade foi cedendo no moralismo, na moral das aparências, para se tornar mais exigente na ética dura. É um "work in progress", um trabalho em andamento, e é um dos grandes motores do desenvolvimento social. Já se tornou obsceno tolerar a miséria. A carteirada perdeu a graça. A corrupção se tornou feia. A exigência ética em relação a políticos obviamente introduz um elemento de insegurança jurídica, mas isso é essencial na ética, não é secundário nela. Faz parte da ética nos interpelar, nos tirar da zona de conforto, nos questionar. Por isso mesmo, ela precisa estar presente no compromisso dos senadores.

Despolarização eleitoral - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 12/08

Despolarizar é perder os polos, mas é também perder o rumo. O termo se aplica ao cenário eleitoral brasileiro de hoje. Nem uma, nem duas, mas uma série de pesquisas evidencia que a polarização PT-PSDB está moribunda. Não é pouca coisa matar uma tradição que domina as eleições presidenciais desde 1994.

A disputa tucanopetista marcou cinco das seis corridas ao Planalto na redemocratização. Políticos e marqueteiros ficarão saudosos do velho duelo. Não parece ser o caso dos eleitores.

Na pesquisa Datafolha deste final de semana, a soma das intenções de voto da candidata do PT, Dilma Rousseff, com as do PSDB, Aécio Neves, não chega a 60% dos votos válidos. Nos pleitos anteriores, petistas e tucanos, juntos, ficaram com pelo menos 80% dos votos, às vezes com 95% no primeiro turno.

Dilma e, principalmente, Lula reconquistaram parte do eleitorado petista. O problema está no outro polo. O candidato do PSDB não decola. Aécio Neves perdeu terreno e está mais perto do quarto colocado, Eduardo Campos (PSB), do que da segunda posição de Marina Silva (sem partido), segundo o Datafolha. Pior, os tucanos seguem divididos. Emissários de José Serra fizeram gestões junto aos institutos de pesquisa para incluir o nome do ex-governador nas sondagens de intenção de voto, apesar de o PSDB já ter, teoricamente, escolhido Aécio como candidato.

Quando as gestões foram feitas ainda não havia estourado o escândalo da formação de cartel e pagamento de propina envolvendo metrô e trens urbanos paulistas. Resultado da pesquisa: o lançamento simultâneo de Aécio e Serra (caso este saia do PSDB para disputar a Presidência por outra sigla) seria um abraço de afogados. Um tiraria votos do outro, submergindo as chances dos dois de chegar ao segundo turno.

A perda de protagonismo eleitoral não é de agora. O PSDB encolheu nas eleições municipais de 2012. Elegeu menos prefeitos do que tinha. As prefeituras são importantes bases de apoio para deputados, governadores e presidenciáveis. E não fica nisso.

Os tucanos, pelo que mostra o Datafolha, também pagaram pedágio às manifestações contra o status quo da política. As suspeitas de superfaturamento das obras sobre trilhos construídas durante os governos do partido descarrilaram sua imagem. Como um tuiteiro escreveu: "O que aconteceu com o PSDB? Virou PT?"

Não adianta os caciques tucanos dizerem que os partidos vêm de sacos diferentes. A opinião pública vê uma farinha só. Quando as duas siglas se igualam negativamente no imaginário do eleitor, o PSDB perde mais porque seu eleitorado cativo é menor. Tanto é assim que os petistas mostraram resiliência no Datafolha.

A despolarização ajuda Marina Silva. Ela provou novamente que é a maior beneficiária dos protestos de rua. Seu discurso de "horizontalidade", de defesa de um novo jeito de fazer política, é o mesmo de boa parte dos manifestantes. Como consequência, ela é a única que cresce sem parar depois que as ruas efervesceram.

O que lhe sobra de popularidade, falta de consistência à candidatura. Não tem nem partido ainda. A Rede de Marina está enroscada junto aos cartórios eleitorais, que tardam em reconhecer as assinaturas necessárias à fundação da legenda. Mesmo que consiga, lhe faltará base parlamentar de apoio.

Presidentes eleitos por siglas nanicas no Brasil não costumam durar. Veem-se logo dependentes de um grande partido para sobreviver no Congresso. Foi assim com Jânio Quadros e a UDN, com Fernando Collor e o PFL. Uma hora o presidente se rebela, perde sustentação e dá no que deu.

O cenário despolarizado é um sonho para o PMDB. Se Dilma ganhar, o partido está na chapa. Se der Marina, a nova presidente cairia por gravidade no seu colo. A política brasileira pode perder os polos, mas o centro continua onde sempre esteve.

Dilma em pane - RUBEM AZEVEDO LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - 12/08
A presidente do Brasil financia ditaduras africanas que não beneficiam seus pobres. Tais aplicações passam de bilhões de dólares, cujos fins poderiam ser aplicáveis na solução de alguns problemas até hoje não resolvidos, apresentados em nosso Congresso, por senadores e deputados.
Por que não tratar da pobreza brasileira, apoiando iniciativas que aqui se resolveriam, se nosso governo exigisse vigiar, sem retirar, o que as ditaduras da África embolsam criminosamente de seu povo?

Ao que sei, entre outros parlamentares, o senador Cristovam Buarque, do PDT, apresentou projeto para a federalização do ensino primário em todos os municípios e estados do país. É um achado fantástico para o ensino de alto nível, uma vez que se criem escolas normais, extintas, no passado, pelo ministro Roberto Campos, achando que deveriam formar-se professores ou professoras só em universidades, para atender à infância nacional, em vez de recorrer às escolas normais.

O deputado Reguffe, filho de um militar da Marinha, representante dos interesses dessa força no Congresso, parece muito fiel à missão paterna, qual seja a de propiciar aos brasileiros saúde para estudarem.

Seu filho propôs, em lugar de imposto baixo para os interessados comprarem carros estrangeiros e encherem as ruas e avenidas de Brasília, a redução de tributos para baratear remédios que atendam à saúde dos brasileiros.

Dilma está em fase demagógica: resolveu, agora, conceder favores a jovens de 15 anos a 39 anos, custeados pelas empresas estaduais ou de vários municípios.

Os presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, estavam preparados para aprovar, no Congresso, um projeto que cerceie o poder de qualquer governo federal absolutista contra o que decidam os congressistas constitucionalistas legítimos.

Não, nunca mais admitir Getúlios. Esses governavam como queriam, não como os que respeitavam as instituições democratas. Não, Getúlio nenhum. Ou nenhuma. Henrique e Calheiros têm o dever de preservar o que devem fazer. Ninguém pode brincar com a democracia.

De médicos e letras - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 12/08

Por motivos ignorados, o governo, ou sua chefe, interferiu ostensivamente no setor elétrico ao antecipar a renovação das concessões e impor a redução das contas de luz; deixou para o futuro prover os meios para a solvência da medida simpática. Agora parece ter chegado a hora das dificuldades aparecerem em sua real expressão; alguns alvitres sugeridos foram afastados e o problema continuou insoluto. Até quando não se sabe. O caso revela o que tem sido dito. O governo tem gasto e muito. Mas de maneira inadequada, deixando de lado setores fundamentais. Baseando sua concepção de política econômica no aumento do consumo, desprezou investimentos ditos de base ou de infraestrutura, e só agora, segundo divulgado, teria se convencido da necessidade de rever seu traçado teórico; ora, os seus efeitos dessa revisão, quando efetivada, não se colhem no dia seguinte; enquanto isso, o termo de quadriênio se aproxima, a reeleição tem data certa e os resultados podem ser tardios. Esse raciocínio parece explicar sinais de desconforto supostamente experimentado pela chefe de governo aferrada à modesta queda da taxa inflacionária; longe de mim contraditá-la, mas me permito notar que enquanto a presidente dá ao fato caráter de permanência, seu ministro da Fazenda ao mesmo tempo alude à tendência de aumento da inflação no segundo semestre do ano em curso. E esta foi, em editorial, observa sensatamente que “seria irresponsabilidade negar a existência de pressões inflacionárias…”
Mudo de assunto. Semana passada, participei do lançamento de mais um livro, e era o terceiro em período que não fora longo. Dei-me então conta de que os autores eram altas expressões da medicina, ao mesmo tempo que frequentavam as boas letras. Pela ordem dos lançamentos são eles o Dr. Nei Mário Amaral, autor de Desesperadamente Vivo, elegante edição da “Buqui”, o Dr. Fernando Lucchese, Não Sou Feliz Por Quê?, e cuja copiosa produção é editada pela L&PM, e o Dr. James Freitas Fleck, o último a ingressar nas cidades das letras, com o volume Conexão Anticâncer, as múltiplas faces do inimigo interno, em bela edição da Movimento.
Desnecessário dizer que todos os três volumes têm traços mais ou menos acentuados com as atividades profissionais dos autores. Na roda de médicos a que cheguei, ocorreu-me lembrar que parece que os médicos voltaram a ser escritores, pois se vários fundadores da Academia de Letras eram médicos ilustres e ao longo do primeiro centenário a prática se repetiu, o mesmo ocorreu no Rio Grande do Sul; no jornalismo, Fábio de Barros e Raul Pilla, ambos professores de Medicina, Fábio de Barros sob o pseudônimo de Vitoriano Serra durante anos exerceu o jornalismo, dominava as letras antigas, gregas e latinas e a literatura ocidental, predominantemente francesa e alemã; Raul Pilla, durante decênios, escreveu na imprensa no Rio Grande, São Paulo e Rio de Janeiro artigos preferencialmente de natureza política, pois durante toda sua vida também exerceu atividade política, sendo parlamentar e dirigente partidário; sua linguagem tinha a correção, nobreza e limpidez, assim como invejável poder de síntese que o caracterizava. Outro consumado mestre da pena foi Olintho de Oliveira, como crítico de arte, Ramiro Barcelos, o autor da insuperável sátira Antônio Chimango, mais adiante Cyro Martins e Dionélyo Machado, médicos e autores consagrados; e pedindo perdão pelas omissões e para encerrar com um contemporâneo, o Dr. José A. Camargo, notabilidade cirúrgica nacional e internacional e que semana por semana escreve admiráveis crônicas em sua simplicidade e humanidade. Teria muito a dizer mas o tempo acabou, quer dizer, o tempo não, o papel.
*Jurista, ministro aposentado do STF

Fogo de palha - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 12/08

BRASÍLIA - Na hora certa para o Palácio do Planalto. Cedo demais para a base governista no Congresso. Diria que assim foi recebida a pesquisa Datafolha, que mostra a recuperação de Dilma Rousseff.

Entre os aliados de Dilma no Legislativo, o receio manifesto em conversas reservadas é que a melhora na popularidade presidencial venha a afetar a súbita disposição da petista em abrir as portas do Palácio do Planalto ao diálogo.

Os governistas estavam adorando o tombo dilmista nas pesquisas. Obrigou-a a vestir figurino mais humilde no trato com os aliados diante do risco de derrotas no Congresso.

Antes da recuperação da popularidade da petista, por sinal, governistas falavam em dar um voto de confiança de um mês à presidente para ela mostrar que sua mudança não era simples fogo de palha.

Agora, o relógio corre contra os aliados. Se a melhora dilmista nas pesquisas for crescente, ela ganha força e tira poder de sua base aliada no Congresso. Talvez o tempo da desforra dos apoiadores de Dilma esteja se encurtando cedo demais.

Por outro lado, a recuperação presidencial ainda é lenta e recomenda à dona do Planalto manter seu estilo mais afável. Ninguém sabe o dia de amanhã. Cada vez mais incerto, apesar da crença oficial de que está tudo dominado.

Não está. A inflação deu refresco, mas o ritmo do crescimento ainda é fraco. E a retomada da economia americana, que pode ser mais forte em 2014, vai pressionar ainda mais o dólar no ano da eleição, jogando mais lenha na fogueira da inflação.

Enfim, a vida ficou um pouco melhor para a petista, mas o cenário pela frente contém desafios. Um deles em seu quintal. Qualquer vacilo e o coro do "volta, Lula" ganha força.

Afinal, o Datafolha mostrou que ele ganharia a eleição presidencial no primeiro turno. Ela, não. Coincidência ou não, Lula teve o aval de sua equipe médica neste sábado para enfrentar qualquer batalha.

Eles gostam mesmo é de uma ‘boa’ ditadura - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 12/08

Nos países bolivarianos, a “democracia” está sendo instrumentalizada para a implementação de seu projeto socialista, destroçando as liberdades



O uso equivocado ou dúbio de palavras não apenas dificulta a compreensão como é potente fator de desorientação da ação humana. Quando mal conceitualizamos um evento, tanto menos somos capazes de entender o que está acontecendo. Os juízos moral e político ficam sem parâmetros, ziguezagueando ao sabor das conveniências ideológicas.

Um caso particularmente relevante concerne ao modo mediante o qual o dito “golpe” egípcio é avaliado e, para além dele, a como a diplomacia brasileira “compreende” o que vêm a ser os “progressos” da América Latina em sua vertente socialista, bolivariana. Ainda recentemente, o Brasil sediou o Foro de São Paulo, entidade esquerdista latino-americana, que se caracteriza pelo seu apreço a toda política liberticida, em nome, pasmem, de uma nova “democracia”. Gostam mesmo é de uma “boa” ditadura. Os representantes ideológicos do passado procuram se travestir de um manto politicamente aceitável, ferramenta para enganar os incautos.

A propósito do juízo político sobre os eventos do Egito, alguns analistas fizeram um uso muito curioso dos conceitos de “democracia” e “liberalismo”, como se lá tivesse ocorrido uma colisão entre ambos. Mais comezinhamente, deveríamos dizer que lá ocorreu um divórcio entre um resultado eleitoral e os que defendem direitos e liberdades, que vinham sendo usurpados por um governo islamista. Este, progressivamente, sufocava as liberdades, implantando sua particular interpretação dos valores islâmicos, os defendidos pela Irmandade Muçulmana.

Não convém esquecer que essa mesma organização religiosa foi a responsável pelo assassinato do presidente egípcio Anuar El Sadat, participou da fundação da al-Qaeda e apoia o terrorismo do Hamas na Faixa de Gaza. Aliás, o atual líder da al-Qaeda é também ele egresso da mesma Irmandade Muçulmana. As credenciais “democratas” deste “partido” são de difícil aceitação!

Há um problema conceitual de monta aqui envolvido. A democracia, assim entendida, viria a significar exclusivamente a realização de eleições e a adesão incondicional aos eleitos, como se, doravante, tivessem eles o “direito” de tudo fazer, estando a sociedade submetida ao seu arbítrio. A democracia seria um mero instrumento de conquista do Poder que, uma vez garantido, asseguraria aos seus detentores a prerrogativa de tudo decidir, sendo soberanos no sentido ilimitado do termo. Nenhuma lei os limitaria, salvo aquela de fachada que eles mesmos se outorgam. O próprio Poder Judiciário torna-se um mero joguete em suas mãos, nada decidindo verdadeiramente, devendo se subordinar aos ditames do Executivo.

Logo, os direitos individuais são abolidos, valores burgueses nos dizeres bolivarianos, valores ocidentais nos dizeres islamistas. As liberdades são progressivamente sufocadas, em nome desses “outros” valores socialistas/islamistas segundo os casos, com o Estado aspirando por todos os poros mediante os quais uma sociedade respira. Normalmente, os seus alvos mais diretos são os grupos de mídia e imprensa, pois quem procura impor os seus valores e ideias tem como objetivo eliminar toda liberdade de expressão. Não espanta, pois, que advoguem por uma “democratização dos meios de comunicação”, que é uma forma velada de controlar as cabeças das pessoas e, por meio delas, a sociedade em geral. Ainda no Foro de São Paulo, o presidente Evo Morales julgou — na ausência de juízo que o caracteriza — que “sobra” liberdade de imprensa na América Latina. Ou seja, o que “sobra” é o que ainda não conseguiram eliminar. Teve a adesão dos “companheiros”.

Se a democracia é definida apenas em termos eleitorais, ela é reduzida a uma de suas condições, eliminando todas as outras. A própria alternância de Poder termina por não ocorrer, pois os que detêm as rédeas de comando da máquina do Estado eliminam tal possibilidade. Medidas arbitrárias são tomadas contra os opositores, tratados como se criminosos fossem. São comuns os processos contra os que se rebelam contra tal situação, uma vez que são tidos por inimigos a serem aniquilados.

A liberdade de imprensa, condição fundamental de toda sociedade livre, vê-se confrontada a restrições crescentes, como vemos na Venezuela, com empresas sendo fechadas ou vendidas a “empresários” amigos. Observe-se, neste sentido, a nova lei de controle da imprensa e dos meios de comunicação que acaba de ser aprovada no Equador, doravante submetidos ao governo, que passará a agir por intermédio de “censores legais”.

Nos países bolivarianos, a “democracia” está sendo instrumentalizada para a implementação de seu projeto socialista, destroçando as liberdades, destruindo as instituições, inviabilizando as oposições, calando os meios de comunicação e implantando a dominação do “Líder máximo” e de seu partido. Embora ditos não religiosos, sua ideologia se caracteriza por concepções teológico-políticas. No caso do presidente Maduro, da Venezuela, não lhe falta nem sua comunicação espiritual como ex-protoditador Chávez, que “fala” com ele através de uma “pomba”. É um homem abençoado, particularmente bem aventurado!

Acrescentem-se as restrições impostas pelos que procuram impor normas religiosas ao conjunto da população, mediante o controle absoluto dos costumes, atingindo mulheres e homossexuais, para que se tenha uma melhor visão de como a democracia é, assim, pervertida. Ou seja, os que dissociam democracia de liberalismo, dizendo defender a primeira, possuem um forte pendor liberticida. Mascaram-no, porém, ao atribuírem ao liberalismo uma característica não democrática.

Eis o contexto ideológico no qual se move a diplomacia brasileira, acatando todas as medidas liberticidas dos países bolivarianos e islâmicos, conivente com os desmandos que lá ocorrem de subversão da democracia por meios democráticos. O país termina se alinhando à escória mundial em nome da democracia e, os mais afoitos, em nome da luta contra o neoliberalismo. O Foro de São Paulo é a sua celebração!

Relações nebulosas - RAFAEL ALCADIPANIE E MARCO ANTONIO CARVALHO TEIXEIRA

ESTADÃO - 12/08

Nos últimos dias veio à tona o que parece ter sido uma decisão da Siemens de denunciar supostos desvios e fraudes em licitações para a venda de equipamentos e serviços de manutenção ao Metrô de São Paulo e ao do Distrito Federal e de colaborar com as autoridades brasileiras a esse respeito. A empresa fazia parte de um cartel que, acredita-se, fraudaria licitações. Convém lembrar que a Siemens também tem frequentado o noticiário internacional por implicação em diversos casos de pagamento de propina para obtenção de contratos vantajosos no setor de telecomunicações em vários países, o que já lhe rendeu condenação - e pagamento de multas - na Justiça alemã e na americana, por envolvimento em corrupção. Isso revela o quanto a questão ética nas relações entre as corporações empresariais e agentes governamentais é um problema mundial e independe do estágio de desenvolvimento de cada país.

Para além desse caso, na imprensa internacional surgiram denúncias de pagamento de propinas a médicos e membros do governo chinês com o intuito de abrir novos canais de vendas e aumentar as receitas da gigante GlaxoSmithKline, multinacional britânica do setor farmacêutico. Em julho, suspeitas também foram levantadas acerca de um esquema da Google, da Apple e da Amazon para sonegar impostos, nos Estados Unidos e na Europa.

Estima-se que o Brasil deixe de arrecadar anualmente cerca de R$ 415 bilhões apenas por causa da sonegação. Num momento em que no País as pessoas começam a despertar para cobrar de governos e políticos boa conduta no tocante a gastos públicos, os casos acima citados evidenciam que não são somente os nossos governantes que merecem atenção. As empresas, cujo discurso corporativo ao longo dos últimos 20 anos se voltou para questões ligadas à responsabilidade social, precisam também ser escrutinadas e questionadas pela opinião pública quanto à conduta que adotam para a realização de seus negócios, muitas vezes feitos com governos, que são seus grandes clientes. Como se vê, algumas práticas no campo empresarial parecem guardar pouca relação com o discurso de cuidado com a sociedade - e também com o meio ambiente.

O peso das grandes empresas e das corporações empresariais pode ser verificado de diferentes maneiras. Em 2011, das 100 maiores entidades econômicas mundiais, 51 eram corporações. As receitas de grandes empresas como a Shell e o Wall-Mart superam o produto interno bruto de países como Argentina, Tailândia e África do Sul. A força econômica de grandes empresas possibilita que elas influenciem fortemente governos para conseguirem ambientes de negócios mais favoráveis aos seus interesses. Em contextos como esses, as relações entre empresas e governos podem ficar bastante nebulosas.

Por exemplo, pesquisa realizada pelo professor Steve Barley, da Universidade Stanford, mostra que nos Estados Unidos corporações podem tornar-se uma ameaça à democracia e ao interesse público quando se voltam para o lobby por legislações que as beneficiam em detrimento do interesse coletivo e capturam agências regulatórias, que deveriam controlar suas ações. No Reino Unido, o colunista Seumas Milne, do jornal The Guardian, advertiu recentemente que a influência e o excesso de poder das grandes corporações junto à classe política tinham o potencial de corromper o governo. A proximidade entre parlamentares e financiadores de campanhas políticas em troca da aprovação de benefícios legais para seus conglomerados, no Reino Unido, mostrou que dar transparência às relações entre doadores e políticos não é um problema exclusivamente brasileiro, como eventualmente muitos possam pensar. O caso Siemens, que como vimos tem alcance internacional, acaba sendo bem ilustrativo.

O ponto central é que as empresas existem para maximizar o retorno financeiro a seus proprietários ou acionistas e a História mostra que muitas vezes elas atropelam a ética e o benefício maior da sociedade em nome de lucros mais altos. Em tese defendida na FGV-SP sobre Crimes Corporativos, Cintia Rodrigues mostra como empresas agem de maneira pouco ética na tentativa de evitar sanções do governo por práticas que tenham causado a morte de pessoas. E em Capitalismo de Laços Sergio Lazzarini expõe a influência do Estado no controle acionário e no financiamento das corporações brasileiras. O caso Eike Batista-império X é apenas um desses exemplos.

Nessa mesma linha, estudos internacionais mostram como executivos ocupam posições ora na iniciativa privada, ora no governo e agem em ambas as organizações com o intuito de beneficiar as corporações. Estados e corporações, quando amalgamados, criam dificuldade para regular o poder das empresas. Se há agente público corrupto, existe um corruptor que em geral trabalha do outro lado, numa empresa interessada em fechar contratos vantajosos.

Os supostos casos do Metrô de São Paulo e do Distrito Federal demonstram a urgente necessidade de lançar luzes e esclarecer, para o bem do interesse público, essa possível relação obscura. Entretanto, para além da investigação, é preciso aperfeiçoar mecanismos que dificultem ações que ameacem a integridade dos bens públicos. Um bom começo seria debater alterações na forma como as campanhas políticas são estruturadas e financiadas. Afinal, grande parte dos escândalos de corrupção no Brasil, e no mundo, têm que ver com o financiamento e o custo da política.

Há, ainda, a necessidade de regulamentar a atividade do lobby no Brasil. Tema espinhoso, mas que tem de ser enfrentado. E, por fim, as empresas precisam praticar o seu discurso no dia a dia.

O teste dos protestos - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 12/08

SÃO PAULO - Que fatores terão contribuído para a dispersão da impressionante onda de protestos da última quinzena de junho?

É melhor apostar num conjunto de vetores. O recuo das autoridades nas tarifas de ônibus; a falta de líderes e objetivos condutores; o cansaço do exercício cívico reiterado; a violência, latente e explícita, dos episódios; o fechamento da janela global da Copa das Confederações.

E as férias escolares. A atração gravitacional de lugares como Maresias, Búzios, Porto Seguro e Machu Picchu deve ter agido aqui mais ou menos como o inverno russo para as tropas de Napoleão.

Não parece coincidência que o Movimento Passe Livre tenha esperado a volta às aulas para tentar reacender a centelha da revolta maciça --já que grupelhos menos ou mais violentos continuam a bloquear vias e a depredar nas grandes cidades.

O ato marcado para depois de amanhã nesta capital será um teste interessante. O MPL, um movimento juvenil conectado com sindicatos, teses e grupos de esquerda, passou a não gostar da brincadeira que havia iniciado justamente quando ela ganhou corpo e conotação apartidária.

Fazendo beicinho, o MPL chegou a anunciar sua retirada das manifestações --o que não faria diferença àquela altura-- quando o PT foi criticado pela tentativa de embarcar nos protestos. O disfarce oposicionista falhou: nas ruas de São Paulo, porta-bandeiras petistas foram lembrados, nem sempre com bons modos, de que sua sigla governa a cidade e o país.

O MPL volta à carga cercado dos companheiros de sempre, incluindo o PT. A pauta da convocação, centrada no metrô, é uma tentativa de ataque aos tucanos.

O teste da quarta-feira será de duas ordens. O MPL conseguirá arregimentar multidão comparável em tamanho e perfil --mais de 80% sem preferência partidária-- às do final de junho? Em caso afirmativo, conduzirá a pauta da indignação?

Resultado é o oposto - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/08

O termo sugere um tratamento especial, VIP, para a casta de políticos e autoridades. É provável que, por isso mesmo, a revogação do chamado “foro privilegiado” tenha entrado em alguma das “agendas positivas” que o Congresso formulou às pressas, para atender à onda de manifestações de rua em que o combate à corrupção e, em sentido amplo, privilégios na vida pública foram uma das bandeiras.

Infelizmente, como quase sempre, o senso comum erra ao considerar o foro privilegiado um instrumento a serviço da impunidade, um dos graves males do país. Pois é o oposto.

Inevitável lembrar, neste debate, que o primeiro movimento feito pela defesa de mensaleiros no julgamento do Supremo foi pedir a transferência para a primeira instância dos processos de seus clientes não enquadrados formalmente no foro privilegiado.

A intenção era evidente: apostar na prescrição dos crimes. Uma aposta com cem por cento de possibilidade de acerto, dada a conhecida e resistente característica de lentidão e burocracia do Judiciário — apesar da atuação do Conselho Nacional de Justiça contra o atravancamento da máquina dos tribunais, um mal a ser combatido não apenas com aperfeiçoamentos legais, mas também aprimoramentos administrativos.

A lerdeza da Justiça tanto é uma salvação para políticos e autoridades que já houve quem renunciasse no Congresso para escapar do STF e poder se beneficiar do longo, tortuoso e infindável trajeto entre a primeira instância e a última.

Por este motivo, a Lei da Ficha Limpa estabeleceu como parâmetro para a não concessão de registro a candidatos uma condenação por colegiado, na Justiça e na esfera administrativa. A lei acabou com a boia salva-vidas do “transitado em julgado”, ou seja, da última sentença. A que demora tanto que poucas vezes é lavrada.

Também beneficiados pela lentidão com que os processos tramitam, donos de prontuários policiais e/ou volumosos e ricos registros no Judiciário costumavam buscar proteção nas imunidades concedidas aos parlamentares. E tinham sucesso até a Ficha Limpa.

Acabar com o foro privilegiado é colocar à disposição de políticos e autoridades acusados de delitos este escudo poderoso da impunidade, por meio da prescrição forçada pela demora na tramitação dos processos. É certo que a Justiça precisa ser menos lenta, ganhar velocidade em suas decisões, sem, óbvio, precarizar direitos. Mas, mesmo num Judiciário eficiente, faz sentido o tratamento especial a representantes do poder público.

Não só por ser impossível protegê-los de vendetas políticas engendradas na Justiça e no Ministério Público, mas também porque a rapidez nos julgamentos — claro, garantido o direito pleno de defesa — de qualquer agente público, dos três poderes, é básica para impedir o corrosivo sentimento de impunidade, incentivo infalível à criminalidade continuada.

Pretensão equivocada - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 12/08

Na busca de temas que lhes garantam destaque no debate político, líderes estudantis, dirigentes de associações comunitárias e parlamentares apelam cada vez mais para discursos e iniciativas em favor da ampliação das vinculações constitucionais de verbas orçamentárias.

Há três anos, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) passou a pressionar o Congresso para aprovar projetos de lei que obriguem o Executivo a gastar o equivalente a 10% do valor do PIB em educação. Atualmente, os investimentos públicos no setor educacional correspondem a 5,8% do PIB. Japão, China e Coreia do Sul investem menos de 5%. Em seu artigo 212, a Constituição obriga a União a aplicar em educação 18% de sua receita tributária e os Estados e municípios, 25%. A UNE também quer que 100% dos royalties do petróleo sejam destinados à educação. Com apoio de movimentos sociais, sindicatos de professores e ONGs, a entidade alega que o aumento da vinculação orçamentária na educação, por meio de emendas constitucionais, é uma forma de "reverter injustiças históricas".

A mais nova ofensiva para aumentar as vinculações constitucionais do orçamento vem da área da saúde. Constituído por mais de 100 entidades, o Movimento Nacional em Defesa da Saúde Pública/Saúde+10 entregou ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Alves, um projeto de lei de iniciativa popular que impõe à União a obrigação de repassar à saúde pública o equivalente a 10% de sua receita bruta. Isso aumentaria em R$ 40 bilhões o que o governo federal já gasta no setor. Apoiado por centrais sindicais e ONGs, o movimento coletou 1,9 milhão de assinaturas - 400 mil a mais do que é exigido pela Constituição para a apresentação de projetos de iniciativa popular.

Na Câmara e no Senado, os relatores das comissões criadas para debater o financiamento da saúde pública - deputado Rogério Carvalho (PT-SE) e senador Humberto Costa (PT-PE)- apresentarão seus pareceres nas próximas semanas. Eles já anunciaram que proporão um porcentual de vinculação da receita corrente líquida da União, e não da receita bruta, como pretende o Movimento Nacional em Defesa da Saúde Pública. Para Carvalho e para Costa, isso facilitaria o cálculo do montante a ser destinado para a saúde pública. Mas, para o coordenador do Saúde+10, Ronald Santos, as manifestações de protesto favorecerão a aprovação do projeto de iniciativa popular. Alegando que a receita fiscal é insuficiente para financiar todas as suas atividades e encargos, o governo é contra o projeto.

Propostas como essas dão muita visibilidade política aos seus autores, mas pecam pelo irrealismo e pela irracionalidade, que sempre geram resultados desastrosos. Verbas vinculadas retiram dos municípios, dos Estados e da União margem de manobra para a tomada de decisões. Receitas vinculadas provocam rigidez orçamentária, na medida em que não podem ser utilizadas para financiar despesas diferentes daquelas para as quais foram criadas. Receitas vinculadas também desestimulam os setores beneficiados a melhorar sua gestão. O hábito de esperar que o aumento dos gastos públicos resolva qualquer problema dificulta a modernização de setores estratégicos da máquina governamental.

Isso fica claro no caso da educação, onde o problema não é a escassez de dinheiro, mas a gestão inepta e perdulária dos recursos existentes, com a abertura de universidades públicas onde não há demanda e a expansão de cursos noturnos sem que haja candidatos qualificados para frequentá-los, por exemplo. Como a educação, a saúde também precisa de uma revolução gerencial e de prioridades. A ampliação das vinculações orçamentárias pode agradar a determinadas corporações, mas, do ponto de vista do interesse público, não faz sentido jogar mais dinheiro em sistemas que não conseguem realizar as tarefas para as quais foram criados. A saúde e a educação não melhorarão com a vinculação de verbas. A qualidade de seus serviços depende, isso sim, de reformas estruturais - sobre as quais autoridades e militantes pouco falam.

Liberdade para empreender - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/08

Enquanto Austrália e Bélgica se orgulham de levar menos de uma semana para a constituição de uma empresa, o Brasil segue na prática suicida de exigir meses para o mesmo processo



De vez em quando, algumas expressões começam a ser repetidas, passam a ser usadas fora do contexto e, ato seguinte, perdem até mesmo a relevância que tinham inicialmente. Duas expressões que assumiram a frente do palco econômico foram “sustentabilidade” e “empreendedorismo”. Ambas precisam ser salvas de seu uso como panaceia para todos os males, a fim de preservar-lhes a verdadeira importância para a prosperidade das nações.

Em relação especificamente ao empreendedorismo, o polêmico economista Ha-Joon Chang, professor na Universidade de Cambridge e autor de vários livros, em discussão sobre a contribuição da educação para o crescimento econômico, fez a seguinte afirmação: “O que realmente importa na determinação da prosperidade nacional não é o nível de instrução das pessoas e sim a capacidade da nação de organizar pessoas em empreendimentos com uma elevada produtividade”.

O professor Chang não estava querendo dizer que a educação não tem importância no aumento da produção de um país; ele estava apenas alertando que, sem a capacidade de gerar empreendimentos de alta produtividade, a educação ficaria apenas em sua função de elevar o nível intelectivo e cultural de um povo, sem conseguir, por si só, gerar a prosperidade e a superação da pobreza. Sua intenção foi realçar o empreendedorismo eficiente como motor central do crescimento econômico.

Polêmicas à parte, é sabido e notório que uma das tarefas principais de qualquer governo é engendrar políticas públicas capazes de, além de não atrapalhar, produzir o máximo incentivo possível à livre iniciativa e à capacidade empreendedora dos indivíduos. O mundo oferece vastos exemplos de que o motor do desenvolvimento é o setor privado e que o governo não substitui o indivíduo como máquina de criar riquezas, cabendo-lhe manter um ambiente institucional favorável ao empreendedorismo, ao investimento, à invenção e à livre iniciativa.

Aprovar leis e regras para o funcionamento adequado dos mercados, proteger o direito de propriedade privada dos meios de produção, garantir os contratos juridicamente perfeitos e promover a estabilidade da moeda são papéis relevantes do Estado, necessários à prosperidade material. Se não cumpre bem seu papel, o governo passa a ser obstáculo à prosperidade e à capacidade empreendedora dos indivíduos. Em boa medida, isso vem ocorrendo na maioria dos países da América Latina, entre eles o Brasil.

Quando o governo impõe uma carga tributária pesada e complexa, faz leis confusas e instáveis, cria todo tipo de empecilho à criação de empreendimentos e inferniza a vida dos indivíduos que querem montar seus negócios, ele acaba por boicotar o desenvolvimento econômico que apregoa uma das razões de sua existência. Em todos os levantamentos internacionais, o Brasil aparece como um dos piores lugares do mundo para alguém abrir e fechar um negócio. Enquanto países como Austrália e Bélgica se orgulham de levar menos de uma semana para a constituição de uma empresa, o Brasil segue na prática suicida de exigir meses para o mesmo processo.

Governo, políticos e sociedade precisam responder a algumas perguntas, a fim de que sejam buscadas as soluções necessárias. Por que razões o Brasil continua com o fardo burocrático imposto a quem deseja abrir um negócio? Por que o país continua exigindo que o empreendedor percorra uma dezena de órgãos para constituir uma simples casa comercial? O fato é que não há sentido algum que a sociedade brasileira seja submetida a tantas esferas federativas e a tantas instâncias governamentais para fazer aquilo que todo mundo deseja: criar empreendimentos para produzir, gerar empregos, pagar impostos e contribuir com o desenvolvimento nacional.

No ano que vem, o país elegerá governadores e o presidente da República; seria bom se a imprensa e as entidades de classe começassem a exigir dos candidatos que se comprometam de fato com o empreendedorismo, com medidas capazes de estimular os empreendedores. É dado por óbvio que as empresas devam obedecer às leis comerciais, trabalhistas, tributárias e ambientais. Mas, conforme dezenas de países evoluídos já mostraram, é possível fazer tudo isso e, ao mesmo tempo, aliviar a mão pesada do Estado sobre o indivíduo que queira empreender.

Petróleo na balança - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 12/08

Deficit externo do setor atinge recorde e expõe falhas de planejamento energético e da política econômica do governo Dilma Rousseff


Cresce, desde 2009, a dependência brasileira de combustíveis importados. O deficit externo do setor, portanto, aumenta. Não chega a preocupar em termos econômicos, dadas as dimensões do PIB e do intercâmbio do Brasil com o exterior, mas o resultado evidencia problemas na gestão desse item estratégico para qualquer país.

O deficit no primeiro semestre deste ano foi de US$ 15,4 bilhões, três vezes mais que no mesmo período de 2012. O aumento decorre do maior consumo de gasolina e diesel para veículos e de óleo e gás para usinas termelétricas, além de baixas de produção da Petrobras e de um problema contábil (importações petrolíferas do ano passado apenas agora são contabilizadas).

Quanto às usinas, elas foram ligadas devido à baixa dos reservatórios das hidrelétricas e ao risco, remoto, de racionamento de energia. Trata-se, em certo sentido, de simples contingência.

É outro o caso da elevação do consumo de gasolina e diesel, provocado pelo crescimento da frota de veículos e pelo preço relativamente baixo desses combustíveis, represado pelo governo para conter artificialmente a inflação.

Esse controle postiço de preços é um despropósito que resulta do fracasso da política econômica. Sua consequência é o desarranjo desse mercado. Gasolina e diesel baratos ajudaram a avariar a indústria do etanol.

Descapitalizado, o setor sucroalcooleiro passou a produzir menos, com o que o país veio também a importar etanol dos Estados Unidos. Há, no médio prazo, efeitos negativos para esse importante negócio, que articula a agricultura brasileira com a indústria por meio de inovações tecnológicas nacionais.

A Petrobras é obrigada a importar gasolina cara e a revendê-la pelo "preço de tabela" do governo. O prejuízo diminui a capacidade de investimento da empresa. Além disso, anos de administração de qualidade duvidosa e a prioridade dada ao pré-sal, sem contar manutenção de plataformas e baixa de produção em campos antigos, reduziram a produção da petroleira.

O recurso a usinas termelétricas e o uso excessivo de diesel demonstram insuficiências da política de substituição de combustíveis poluentes por fontes renováveis, como atrasos nas obras de geração e transmissão de energias mais limpas e falta de condições econômicas para o uso do etanol.

Em termos financeiros, o Brasil não atingiu a autossuficiência em petróleo, como alardeado em meados do governo Lula. Deficit moderados na balança de combustíveis, porém, não são em si mesmos um problema.

A presente situação mostra deficit mais grave: de planejamento no setor de energia e de racionalidade na política econômica.

Fora da escola - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 12/08

É preocupante a informação de que cerca de 1,5 milhão de jovens entre 19 e 24 anos, concentrados nas faixas mais pobres da população brasileira, não trabalham, não estudam nem procuram emprego. Extraído de pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas, o dado reflete um fenômeno já abordado em outros estudos: o de uma geração que, de tão expressiva, já vem sendo designada pelo neologismo “nem-nem-nem”. Segundo o levantamento, esses jovens, excluindo donas de casas e mulheres com filhos, passaram de 8% da população total nessa faixa etária em 2006 para 10% em 2011. Os nem-nem-nem estão expostos a uma fragilidade tripla. Em primeiro lugar, cerca da metade deles (46%) podem ser considerados pobres, uma vez que vivem em domicílios situados entre os 40% mais pobres na distribuição de renda. Em segundo, a maioria possui baixa escolarização e qualificação, o que certamente limitará suas opções caso desejem procurar emprego depois dos 24 anos. Por último, são consideráveis as chances de que, ao chegar à idade madura, venham a se tornar dependentes de benefícios sociais, como programas de transferência de renda do governo.
Os nem-nem-nem são um fenômeno relativamente recente no país. Ao deixarem de procurar emprego, tornam-se invisíveis para as pesquisas de emprego e se colocam fora do alcance de políticas sociais que permitiriam sua preparação para inclusão no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, sua inatividade é um fator a torná-los presas mais fáceis para a delinquência e o crime. Por mais difícil que seja o acesso a esses jovens, é urgente contatá-los para que sejam recuperados para uma vida produtiva. No momento em que assiste a uma melhoria significativa de seus indicadores sociais, especialmente os que se referem à escolaridade média da população, o Brasil não pode se dar o luxo de acalentar uma geração perdida.

A visita de John Kerry - CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 12/08
O secretário de Estado americano, John Kerry, chega ao Brasil amanhã em visita oficial, que coincide com o escândalo provocado pelas denúncias de espionagem feita por agências norte-americanas. Ele e o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, vão ter uma agenda calcada na diplomacia, mas, com certeza, tensa. Na pauta, a visita oficial da presidente Dilma Rousseff a Washington, em 23 de outubro.
Contudo, o prato principal serão as acusações do ex-agente norte-americano Edward Snowden sobre a bisbilhotice global, que atingiu em cheio o Brasil. Em razão delas, o Congresso Nacional iniciou investigação. Na semana passada, ouviu o jornalista Glenn Greenwald, colunista do jornal britânico The Guardian, a quem Snowden entregou vários documentos. Glenn afirmou que a intercepção de dados eletrônicos e telefônicos no mundo todo é usada pelos EUA não só para combater o terrorismo mas também para obter vantagens comerciais e industriais.

Kerry e Patriota levarão à mesa do encontro os aspectos da relação entre os dois países, com ênfase no comércio. Se Kerry vai tentar superar o incidente e retomar a agenda positiva com a América Latina, iniciada este ano pelo presidente Barack Obama, não se sabe, mas fatalmente deve chegar preparado para responder a questões a respeito das acusações de Snowden. Há uma semana, Patriota esteve em Nova York e declarou que o Brasil ainda está insatisfeito com as justificativas apresentadas por Washington.

O diplomata brasileiro afirmou que a ação fere direitos individuais e internacionais e precisa ser esclarecida. Na Organização das Nações Unidas (ONU), os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) entregaram ao secretário-geral, Ban Ki-moon, nota de repúdio ao procedimento americano. No mesmo documento, os chanceleres expressaram indignação por países europeus não terem permitido a aterrissagem do avião em que viajava o presidente da Bolívia, Evo Morales, suspeito de levar Edward Snowden a bordo.

É passivo que John Kerry, na primeira viagem à América do Sul, vem com o propósito de aparar arestas. O terreno precisa ser preparado para Dilma Rousseff acertar com o colega Barack Obama a melhoria do fluxo de comércio bilateral e dos investimentos norte-americanos no Brasil. No roteiro de Kerry está também a Colômbia, onde vai discutir com o presidente Juan Manuel Santos o apoio da Casa Branca às conversações de Bogotá para um acordo de paz com a guerrilha, que mina o país há décadas. É possível que, depois da visita, Washington passe a ver a América do Sul com a merecida atenção e importância no cenário mundial.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

RIO É O ESTADO QUE MAIS RECEBE VERBAS FEDERAIS

O governo do Rio de Janeiro, que enfrenta grave instabilidade, também é o que mais recebeu recursos do governo Dilma, em 2013. Só este ano, foram R$ 5,1 bilhões, segundo levantamento do governo federal ao qual esta coluna teve acesso, grande parte referente a royalties de petróleo. O segundo “ente” mais beneficiado com transferências do Tesouro é o Banco do Brasil, com um total de quase R$ 5 bilhões.



POUCO PARA MUITOS

Maior e mais importante unidade da Federação, São Paulo recebeu 3,4 menos repasses federais que o Rio de Janeiro, este ano: R$ 1,5 bilhão.


INIMIGO SATISFEITO

Eduardo Campos (PE) e Antonio Anastasia (MG), de oposição, não se queixam muito: receberam R$ 2,7 e 2,5 bi federais, respectivamente.


TAMOS AÍ

O vice Pezão adorou a hipótese de renúncia antecipada do governador Sergio Cabral (PMDB): ele disputaria o governo no exercício o cargo.


PSD DESEMBARCA

Após decidir integrar a base de Dilma, diretórios do PSD de Kassab têm recuado na decisão devido à queda na avaliação da petista.


BRASÍLIA: AEROPORTO VIRA ‘MINA DE OURO’ IMOBILIÁRIA

Ninguém entendeu quando o consórcio Inframérica ofereceu 674% a mais que o pretendido pelo governo federal para assumir a gestão do aeroporto de Brasília por 25 anos. O governo queria só meio bilhão, mas o consórcio ofereceu R$ 4,501 bilhões. Agora, faz sentido: a Inframérica vai lançar um mega-empreendimento imobiliário, na área do aeroporto, que deve render-lhe pelo menos R$ 2 bilhões.


ESTÁ NO DNA

A Inframérica, que administra o aeroporto de Brasília, tem como sócia a gigante de construções Engevix, que hoje atua em múltiplos setores.


SÓCIO PORTENHO

Além da Engevix, que controla a Infravix Participações, a argentina Corporación America SA também é sócia do consórcio Inframérica.


GARANTIDO

José Antunes Sobrinho, CEO da Engevix, havia dito que contava com taxas nominais de retorno de dois dígitos para “alavancar o projeto”.


ESSA ‘GESTORA’…

É difícil a vida de ministro de Dilma, mesmo para os mais prestigiados, como Alexandre Padilha (Saúde). Ele desabafou a deputados aliados que há projetos dele esperando definição da presidenta há seis meses.


CAMINHO DO ATRASO

Com apenas 11.056km de asfalto (do total de 151.571km), o Rio Grande do Sul é o Estado que tem menos rodovias pavimentadas: 7,29%. A média nacional é de 12,97%. O governo Tarso Genro (PT) fez muito pouco para melhorar isso, e ainda cancelou parcerias privadas.


SEM ESPAÇO

Após reação dos diretórios contra prévias no PSDB, o ex-governador José Serra (SP) disse a aliados que não vê qualquer possibilidade de disputar a Presidência pelo partido. Suas opções seriam PPS ou PSD.


AÉREAS MANDAM MUITO

O mais recente êxito do lobby das empresas aéreas foi a decisão do governo Dilma de comprar passagens diretamente, sem agências de viagem. Ao contrário do que parece, não haverá economia: o governo pagará tarifa cheia, pois não haverá quem busque preços melhores.


LAVANDO AS MÃOS

Durante jantar com a bancada do Paraná, a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) garantiu que nada tem com o bloqueio de recursos do Fundo de Participação dos Municípios. Só faltou acusar sua chefe.


TEM PRESTÍGIO

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, convidou o advogado Nabor Bulhões para ser curador na segunda fase do julgamento do mensalão, quando os ministros julgarão os embargos.


POR NOSSA CONTA

A comitiva da ministra da Defesa da Venezuela, Carmen Meléndez, voou ida e volta ao Rio nas asas da FAB, apesar de seu governo dispor de aeronaves. Ela assinou acordos com o nanoministro Celso Amorim.


TAREFA DIFÍCIL

O palhaço Tiririca (PR-SP) espera aprovar pelo menos dois projetos em seu mandato: “Meu trailer, minha vida” e a inclusão da atividade circense na Lei Rouanet, ambas aprovadas nas comissões de mérito.


PENSANDO BEM…

…tem batata assando, mas também há um certo cheiro de pizza no forno dos mensaleiros, no Supremo Tribunal Federal.


O SUICIDA COM CHIFRES

Em 1948, o vereador Jânio Quadros saía da Câmara Municipal na rua Líbero Badaró, em São Paulo, quando deparou com cena inédita: um jovem no alto de um prédio tentando se matar porque a mulher o traíra. Jânio gritou lá de baixo:

- Não faça bobagem. O que tua mulher te arrumou foi um par de chifres, não um par de asas. Desça daí, já!

Convencido, o rapaz desistiu de voar para a morte.

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Saúde pública – Cariocas esperam até 4 meses por consulta
- Folha: Qualidade do serviço  de ônibus cai em SP
Estadão: Dilma gasta mais do que Lula em propaganda
Valor: Erro de ministério limita o uso de energia do Madeira
Zero Hora: Estrangeiros não salvam o Mais Médicos no Estado
Brasil Econômico: ‘Inflação no centro da meta, só em 2015’
Correio Braziliense: Zumbis do crack afundam no crime