quinta-feira, julho 18, 2013

Não têm juízo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 18/07
Mesmo com alguns sinais positivos, como a aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do fim do voto secreto para a eleição do presidente do Senado e das comissões, permanecem mostras preocupantes de que deputados e senadores insistem em velhos hábitos já rejeitados pela voz das ruas.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, por exemplo, voltou a usar um avião da FAB para ir de Natal a Brasília, dando carona. Mesmo que esteja dentro da norma, pois ia de seu estado para Brasília, e que as caronas nada acrescentem ao custo do voo para a FAB, falta ao presidente da Câmara o bom senso de não dar demonstrações de arrogância num momento em que qualquer passo dos políticos está sob a lupa da opinião pública.

Não há qualquer necessidade de usar um avião da FAB quando os voos comerciais normais são acessíveis, e o deputado tem cota de passagens a seu dispor. Só mesmo o hábito de utilizar mordomias, juntamente com a necessidade de demonstrar força política no seu reduto eleitoral, explica decisão tão equivocada.

Outro que demonstrou que está no cargo para cuidar de seus interesses pessoais foi o suplente da ministra Marta Suplicy, o senador Antonio Carlos Rodrigues, do PR paulista, que, aliado do mensaleiro Valdemar Costa Neto, impediu a votação de proposta de emenda à Constituição que torna automática a perda do mandato de parlamentar nas hipóteses de improbidade administrativa ou de condenação por crime contra a administração pública, conhecida como a PEC dos Mensaleiros.

Com o pedido de vista, conseguiu adiar para agosto a discussão da mudança que colocaria imediatamente na cadeia, além de seu cupincha, os deputados petistas José Genoino e João Paulo Cunha, e Pedro Henry, do PP. Por fim, mesmo sabendo que no Congresso a tendência majoritária, da qual fazem parte muitos petistas, é que as reformas só valham a partir da eleição municipal de 2016, a presidente Dilma continua na defesa intransigente do plebiscito para a realização de reformas ainda em 2014, jogando para o Congresso a culpa de não termos reformas imediatas, quando não há mesmo prazo para aprová-las em tempo hábil, dentro das atuais regras constitucionais.

Agindo assim, a presidente arrisca-se a ter o Congresso contra o Executivo na volta dos trabalhos, piorando a crise política em que seu governo está envolvido. Parece faltar a todos juízo para enfrentar os momentos tensos que temos pela frente.

Quem fala fino

Chico Buarque, ao apoiar a candidatura de Dilma Rousseff em 2010, disse uma frase sobre o governo brasileiro que ficou famosa: "Ele não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia". O que parecia uma qualidade de nossa política externa mostrou-se, no entanto, um defeito, pelo menos em relação a nossos vizinhos bolivarianos.

De fato, não falamos grosso com a Bolívia, nem com o Paraguai, nem com a Venezuela, mas deveríamos fazê-lo em algumas situações. Se antes tínhamos um "complexo de vira-lata" nas relações internacionais, segundo diagnóstico do ex-presidente Lula, hoje temos um "complexo de gorila".

Temos receio de sermos vistos como imperialistas na América do Sul e nos submetemos a vários vexames desnecessários e inaceitáveis. Agora mesmo ficamos sabendo que aviões da FAB usados por autoridades brasileiras, inclusive o ministro da Defesa, Celso Amorim, foram revistados abusivamente por agentes antidrogas do governo da Bolívia.

O acinte aconteceu não uma única vez, mas três, e somente então o governo brasileiro fez um protesto formal, que só se tornou público dois anos depois, quando o fato foi revelado pela imprensa.

A Bolívia já expropriou uma refinaria da Petrobras, e ficou por isso mesmo. Agora, recusa-se a permitir que o senador oposicionista Roger Pinto Molina, asilado há mais de um ano na embaixada em La Paz, embarque para o asilo político em Brasília. E nós, no nosso "complexo de gorila", vamos falando fino com nossos vizinhos.

Carapuças para brindar - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 18/07

A maioria dos conselheiros do governo é formada por patronos da criticada difusão do 'pessimismo'


Seria uma reunião muito especial, por marcar os dez anos do Conselho de Desenvolvimento. Mas marcar por quê? Lula encheu aquela boa ideia com tantas "figuras de destaque", empresários em abundância, que as centenas apenas formaram um auditório em que se igualam o tamanho e a inutilidade. A reunião foi especial, no entanto. Uma espécie de celebração pelo avesso.

Sempre a principal oradora, como Lula em seu tempo, Dilma Rousseff foi aguda na defesa do governo contra o que chamou de afirmações inverdadeiras sobre a inflação e sobre a situação econômica em geral. Ei-la, em duas frases de conclusão crítica:

"A informação parcial, da forma como é explorada, confunde a opinião púbica." E: "A informação parcial visa a criar um ambiente de pessimismo".

Poderia completar, mas não o fez, talvez por entender que o óbvio é desnecessário, ao fim da primeira ou da segunda frase: "Com objetivos eleitorais". Nas frases, aliás, "parcial" é um bom duplo sentido, tanto para passar como referência a uma parte, como para apontar parcialidade, tendenciosidade intencional. Sutileza incomum em Brasília.

A carapuça podia ajustar-se muito bem aos meios de comunicação, que nunca superaram sua nostalgia dos tempos neoliberais --o que, por sinal, só permanece no Brasil. Mas o que deu caráter especial à situação foi o fato de que justamente a maioria dos ali presentes, conselheiros do desenvolvimento e do governo, é formada por patronos da criticada difusão do "pessimismo" e da "informação que confunde a opinião pública". O conselho orienta mais o que, na opinião de Dilma, desorienta.

De outra parte, no governo ninguém pediu demissão depois da fala presidencial. Se o propagado sobre a inflação e a economia falseia a verdade e perturba o país, é dever do governo prestar esclarecimento permanente à opinião pública. O governo tem dispositivos específicos para tal obrigação, no topo do qual estão um cargo e um dos 39 títulos de ministro. Apesar disso, este governo tem a peculiaridade de não se comunicar, nem diante do que considera perturbador e pernicioso. É como se dissesse: os interessados que aproveitem.

Não se pode criticar a ministra Helena Chagas porque não se tem ideia do que faz. Nem vale a pena ressaltar a inacreditável inexistência, já a meio do terceiro ano de governo, de uma política de comunicação da Presidência e, secundariamente, das extensões da administração. Jamais me constou, ao menos, uma iniciativa que desse sinal da ação esperável, em todo governo, da função tão necessária e às vezes até decisiva da comunicação. E o que fica por conta da marquetice dá, sempre, nas aparições provincianas e nos discursos ainda piores.

Como nos aniversários infantis, nos dez anos do chamado Conselhão houve farta distribuição de presentes. Carapuças.

ANEDÓTICA

Celulares são um serviço privado e lucrativo. A menos que estivesse a soldo das empresas de telefonia, a exigência de que inscritos no Bolsa Família tenham celulares, para fornecer o número ao governo, é uma das ideias mais desatinadas já surgidas entre os nossos desatinos anedóticos.

Nem se precisa considerar a desinteligência de exigir celular de quem recebe o Bolsa Família para sobreviver. Só por demonstrar a ignorância de que não há base legal para exigir a posse de celular, a quem quer que seja, Tereza Campello atesta total falta de condições para ser ministra --uma dos 39.

O papa ouviu as ruas - PAULA CESARINO COSTA

FOLHA DE SP - 18/07

RIO DE JANEIRO - Os gritos dos jovens manifestantes que ocuparam as ruas de muitas cidades brasileiras chegaram ao Vaticano e foram ouvidos pelo papa Francisco.

Os discursos que fará aqui na semana que vem, durante a Jornada Mundial da Juventude, foram reformulados. E devem ir "ao encontro do que pedem os manifestantes", afirma Frei Betto, amigo há 15 anos do cardeal d. Cláudio Hummes, um dos principais articuladores da eleição de Francisco e o brasileiro mais próximo do novo pontífice na estrutura de poder do Vaticano.

O papa já mostrou que é contra luxos e privilégios e deu sinal de que fará reformas éticas em Roma. Mas só aqui ele vai se revelar ao mundo e dizer a que veio, avalia Frei Betto. "Será a semana inaugural de seu papado", diz o dominicano, autor do recém-lançado "O Que a Vida me Ensinou".

Os protestos esperados deixam em alerta máximo os responsáveis pela segurança papal. Mas não será surpresa se os gestos de Francisco forem de simpatia e aproximação com os manifestantes, por mais que se preveja que nem todos lhe serão favoráveis.

Temas como legalização do aborto e ampliação de direitos dos homossexuais devem ser objetos de protesto. Pode ser uma oportunidade para o papa começar a tratar de questões complicadas como o uso de preservativos e o celibato clerical.

Em clima de pré-Jornada, jovens peregrinos dormem no aeroporto, circulam pela cidade, tiram fotos dos preparativos. No alto dos andaimes de ferro em Copacabana, homens de amarelo, azul e laranja correm contra o tempo. São católicos, evangélicos, católicos não praticantes, "meio evangélicos" e sem-religião, que não demonstram emoção ao construir o palco principal da festa nada franciscana que se arma no Rio.

O desinteresse do homem comum sobre a igreja e a desvinculação da igreja da vida do homem comum são alguns dos desafios de Francisco.

Distrital é voto direto para vereadores e deputados - ROBERTO MACEDO

ESTADÃO - 18/07

Há tempos defendo o voto distrital para eleger esses parlamentares. É de longe muito melhor que o sistema usado no Brasil para eleger os tais "representantes" do povo. O difícil é aprová-lo, pois a decisão legal cabe a eleitos pelo sistema atual que temem pôr reeleições em risco.

A pressão, portanto, deve vir de fora para dentro do Congresso Nacional. Na sequência das manifestações de rua, o momento é oportuno para pautar o voto distrital nas discussões sobre a reforma política. Li várias análises desses movimentos e ressaltam que o cidadão carece de representatividade política. Ora, essa é a essência do voto distrital. Ele aproxima o eleitor dos candidatos e do eleito, que passa a representar todo o distrito e a ter de prestar conta do que faz, sem o que sua reeleição fica comprometida. E mais: o eleito também atua por aqueles que não o sufragaram.

Hoje o contato entre o eleitor e "seu" vereador ou deputado lembra um cometa que passa a cada quatro anos. Após a eleição muitos se esquecem do distante candidato em que votaram. No mesmo dia os eleitos se despedem para voltar quatro anos depois à cata de votos. E os que votaram em perdedores ficam ainda mais órfãos da representatividade.

Quanto aos eleitos, também como cometas desaparecem na escuridão em que exercem seus mandatos. Pergunto ao leitor: quem é o seu vereador ou deputado? Quando recorreu a ele? O que ele fez ou faz e quando prestou contas do seu trabalho?

Hoje o "representante" fica distante do "representado" e, dessa maneira, sem amarras para o que der e vier. Ou mesmo para quem vier e der. E soltos tanto no que não fazem como no que fazem. Ou aprontam. Há exceções, mas cada vez mais excepcionais.

Há outras vantagens do distrital. Elimina o que chamo de efeito Enéas-Tiririca, em que candidatos muito bem votados arrastam, com o voto na legenda, outros mal sufragados, ou mesmo indesejáveis. Aliás, puxadores de votos como esses nem mesmo seriam eleitos em distritos, pois o foram com votos minoritários em cada localidade, mas somados por todo o Estado. No distrital as campanhas individuais não seriam tão caras, pois Estados e municípios seriam divididos em distritos. Na eleição de deputados federais, por exemplo, o Estado de São Paulo teria 70 distritos, número que lhe cabe na Câmara. E na dimensão de um distrito seria menos difícil apurar irregularidades eleitorais, como o caixa 2 e a distribuição de cestas básicas em troca de votos.

Com o distrital também seria maior o número de eleitos que lutariam por reivindicações de seus eleitores, e não pelas de corporações e de outros interesses que atuam no espaço maior das eleições atuais. E em Brasília seria fortalecido o lobby distrital para obter mais recursos tributários para cidades e regiões, hoje excessivamente concentrados na União. Mais perto dos cidadãos carentes de serviços públicos, falta aos Estados e, principalmente, aos municípios uma representação mais efetiva no Congresso. A relutância da presidente Dilma Rousseff em dar às cidades parcela maior dos impostos foi um dos motivos das vaias que levou ao falar recentemente a prefeitos de todo o País reunidos em Brasília.

O distrital também limitaria o número de candidatos a um por partido, e a uma meia dúzia de viáveis, se tanto. Isso ao contrário do sistema atual, em que o eleitor escolhe um entre uma multidão de candidatos sobre os quais não dispõe de maiores informações, não sendo assim possível confrontá-los uns com os outros no embate eleitoral. Na eleição de 2010 havia 1.169 candidatos paulistas à Câmara dos Deputados. Como escolher um entre tantos?

Nesse contexto, ao optar por um candidato, pode-se eleger outro, até um indesejável da mesma legenda. Ademais, sem vínculo com os cidadãos do espaço bem mais limitado de um distrito, vale repetir que é comum um eleito pelo sistema atual privilegiar a representação de quem votou nele em todo o Estado ou município, como uma categoria profissional ou um grupo econômico.

Há parlamentares que se elegem com votação concentrada regionalmente em seus Estados ou municípios, o que lhes dá um traço de distritais. Mas se aceitarem um cargo no Executivo, que sobre eles exerce atração irresistível, seus lugares de origem perdem seu eleito, pois em geral o suplente tem outra origem geográfica. No distrital o substituto viria do próprio distrito.

Não tenho espaço nem assegurada a paciência do leitor para seguir com as vantagens do voto distrital. Ele não é uma panaceia, mas sofre de menos males que o sistema atual. Por serem tantas as suas vantagens, em particular a de permitir ao eleitor, no jogo da representação, a marcação dos candidatos e do eleito, estou convencido de que, se adequadamente difundidas, ganhariam suporte popular, até mesmo manifestações de rua e apoio nas redes sociais.

Mas sei também o quanto é difícil difundir a ideia a ponto de convencer uma maioria capaz de levar o Congresso a aprová-la. Assim, não se pode sair por aí defendendo o voto distrital apenas com referência a esse nome. É preciso transmitir seu significado de forma clara. E na arte da comunicação é útil a associação de uma novidade a algo já bem conhecido e incorporado à vida das pessoas a quem a mensagem é levada.

É por isto que recorro a mensagens como a do título deste artigo. Insisto: é preciso difundir o voto distrital como eleição direta de vereadores e deputados. O distrito é apenas o espaço ou o campo da disputa. O brasileiro sabe o que é eleição direta e tem pendor por ela.

Aliás, há 30 anos nascia o movimento Diretas-Já. Ele teve papel importante na redemocratização do País. Mas a eleição de vereadores e deputados carece de efetiva democratização.

Diretas neles. E já. É o caminho a seguir.

Névoa seca - TEREZA CRUVINEL

CORREIO BRAZILIENSE - 18/07
O quadro eleitoral, que tinha competidores bem definidos antes dos protestos de junho, foi tomado pelas brumas da indefinição. Já se fala, sem qualquer cerimônia no meio político, na hipótese de a presidente Dilma Rousseff não disputar a reeleição. Já se admite um racha no PSDB, que Aécio Neves acreditava ter unificado, com José Serra concorrendo por outro partido. E ninguém sabe, com certeza, que rumo tomará esse navio de muitas bandeiras que é o PMDB: a aliança com o PT está por um triz. Sobre esse cenário, pairam as indagações sobre o que fará o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, que viajou para o exterior no início dos protestos, ficou fora três semanas, conversou por três horas com Dilma após o retorno, guarda silêncio, mas não está parado. Pelo contrário, tem conversado muito. Inclusive com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do qual andou afastado. É certo também que Lula, no mais recôndito da intimidade política, tem se queixado da "teimosia" de Dilma, de seu centralismo e de sua dureza no trato político. "Agora que a popularidade caiu, talvez ela nos ouça mais", disse a um ministro de seu governo. Mas ele tem se queixado também do PMDB, que ele levou para o governo em 2006, entregando-lhe pastas poderosas. Ajudou a eleger governadores do partido, como Sérgio Cabral, no Rio, cujo governo irrigou com apoio e verbas. Depois, costurou a coligação para eleger Dilma, tendo Michel Temer como vice. 

Os protestos jogaram o quadro eleitoral nas brumas da indefinição, e sobre elas pairam as indagações sobre o que fará o ex-presidente Lula

Hoje, Lula participa do encerramento de uma conferência sobre a política externa brasileira no período 2003-2013, vale dizer, no seu governo e no de Dilma, na Universidade Federal do ABC (UFABC). Será a primeira aparição pública depois dos protestos, o que alimenta alguma expectativa no meio político sobre o que dirá. Sabe-se, por petistas, que ele já se queixou de Dilma também nessa área. Acha que ela poderia estar aproveitando o vazio deixado pela morte de Hugo Chávez para ampliar a própria influência e a do Brasil. Isso exigiria uma ofensiva regional maior e mais solidária. Certo é que Lula fez duas inflexões recentes: uma em relação a Dilma, externando, ainda que reservadamente, algumas restrições (depois de ouvir tantas reclamações de empresários, políticos e movimentos sociais), e outra em relação a Campos, retomando o diálogo, por mais que os amigos do governador digam que eles nunca deixaram de se falar. Campos, por sua vez, está mais contido, optando por falar de problemas econômicos nos eventos políticos. A saúde de Lula é uma preocupação para todos os que vêm nele a continuidade possível da esquerda no governo central. Apesar dos boatos, amigos dele garantem que ele está bem e livre do câncer. Por tudo, desperta interesse sua fala de hoje em São Bernardo do Campo (SP). Em Brasília, é tempo de névoa seca.

Tocaia grande
O jantar de anteontem à noite na casa do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), era pelo encerramento do semestre legislativo, mas transformou-se em sessão de protestos contra o tratamento recebido do governo. Compareceram mais de 70 deputados, mas foram de 15 a 20 os que ficaram até mais tarde e pressionaram o presidente da Câmara e o presidente em exercício do partido, Valdir Raupp, por definições em relação ao governo. O vice-presidente, Michel Temer, que também está auscultando a bancada da Câmara, bem como o líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), já haviam saído. "O que estamos fazendo nesse governo débil e arrogante, que precisa do PMDB e trata o partido como capacho?" A frase resume os resmungos da noite. Raupp marcou outro jantar para ontem à noite, prometendo que, daqui para a frente, fará reuniões periódicas para tratarem de política, e não de ação parlamentar. Mas, como disse o líder Eduardo Cunha na entrevista ao Correio publicada no domingo, a bancada, por ora, briga para entrar no governo, não para sair. Isso, porém, depende da evolução da popularidade da presidente, que teve quedas confirmadas pela CNT-MDA.

Certo é que o PMDB está de tocaia: violou a Constituição, decretando um recesso branco sem aprovar a LDO, porque planeja aprovar, em 6 de agosto, a liberação impositiva de emendas parlamentares. Agora alguns peemedebistas já se dão ao luxo de recusar a liberação de emendas pelo governo, apostando no futuro. Como explica um notável do partido, a regra impositiva é que garantirá condições mais iguais de disputa, em 2014, pelo menos entre os partidos da base. E sobrará, por tabela, benefícios para a oposição, que, naturalmente, apoia a iniciativa.

Dilma: humana e comovida
A Dilma racional, objetiva e durona foi tocada em algum ponto sensível, no encontro de segunda-feira com as líderes evangélicas que se encontraram com ela, com a mediação do ministro da Pesca, Marcelo Crivella. A oração de mãos dadas "pelo momento difícil do país" e o marejar dos olhos durante alguns cânticos já foram registrados. Antes, porém, todas elas falaram das adversidade que enfrentaram como mulheres. A bispa Sônia Hernandez impressionou muito ao falar da prisão nos EUA e do filho em coma. Não sendo feministas, disseram entender que Dilma enfrenta restrições porque é mulher e porque não abdica da autoridade. Foi nessa parte da conversa que Dilma as levou para o gabinete, conferindo mais intimidade ao encontro, onde chegaram a prometer uma campanha com mote já usado: "Mexeu com Dilma, mexeu comigo".

Mercador do apocalipse - ALAN GRIPP

FOLHA DE SP - 18/07

SÃO PAULO - O prefeito Fernando Haddad (PT) tem usado o termo "insolvente" para definir a situação financeira de São Paulo.

Ontem, ele reuniu o conselho recheado de celebridades criado para assessorá-lo na tarefa de governar e pintou um horizonte financeiro nebuloso para a cidade, a depender de algumas variáveis em jogo.

Em conversas reservadas, as tintas ainda são mais dramáticas. Juntando a gigantesca dívida paulistana, na casa dos R$ 60 bilhões, a um possível novo revés, a prefeitura terminaria o ano "quebrada".

A maior preocupação são os famigerados precatórios, dívidas com contribuintes que a Justiça já mandou pagar e que formam uma fila maior do que a de carros na avenida Rebouças sexta-feira à tarde.

Esse buraco é, hoje,de R$ 16,9 bilhões, quatro vezes mais que o valor devido por todos os demais 5.564 municípios do país. Juntos.

A bola está com o STF (Supremo Tribunal Federal), que dirá, em breve, exatamente como a fatura deve ser honrada. Se a corte decidir que o pagamento deve ser feito imediatamente, diz o discurso catastrofista, é melhor passar a chave na prefeitura e atirar pelo viaduto do Chá.

O prefeito está na dele. O jogo de pressões é legítimo, especialmente em tempos de protesto. Mas o discurso do caos deve ser relativizado.

Vem aí, até o fim do ano, uma enxurrada de dinheiro federal. Ao menos R$ 6 bilhões desembocarão em São Paulo, dizem os mais bem informados das coisas federais.

Nem poderia ser diferente. Mesmo com a economia claudicante, Dilma Rousseff terá de mostrar algo em seu principal palanque, se quiser continuar a comandar o país.

Sobre os precatórios, poucos acreditam que o STF vai querer arcar com o ônus de empurrar a maior cidade do país precipício abaixo.

Trocando em miúdos, Haddad comporta-se como mercador do apocalipse, mas está de olho no título de salvador da pátria.

Evo, o travesso - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 18/07
A diplomacia companheira trata a Bolívia como aquele irmão menor que, por mais inconveniente que seja, deve sempre ser perdoado por suas traquinagens. Resultado: Evo Morales, o menino travesso, sente-se cada vez mais à vontade para afrontar o Brasil Em sua última pirraça, o governo boliviano mandou seus agentes vistoriarem três aviões da Força Aérea Brasileira que estavam no aeroporto de La Paz - uma das aeronaves estava a serviço do ministro da Defesa, Celso Amorim, em viagem oficial Todos os casos ocorreram em 2011 - dois em outubro e um em novembro - e só agora vieram a público. Em nenhum desses episódios os agentes bolivianos pediram autorização a representantes do governo brasileiro, Simplesmente invadiram os aviões, em busca sabe-se lá de quê - os agentes eram da divisão antinarcóticos, mas há suspeitas de que as autoridades bolivianas estivessem à procura do senador Roger Pinto Molina, opositor que há mais de um ano está refugiado na Embaixada do Brasil em La Paz.

Tais atos de violência teriam tido uma resposta à altura se o país ofendido fosse governado por dirigentes cientes de suas atribuições primárias. Mas o Brasil sob o lulopetismo é um Dais prisioneiro da fantasia ideológica bolivariana, que manda fechar os olhos para o comportamento irresponsável autoritário e errático de governantes como Evo Morales e o venezuelano Nicolás Maduro, para ficar somente nos personagens latino-americanos que mais amiúde frequentam o noticiário por seus atentados contra a democracia e as boas relações internacionais.

A diplomacia nacional limitou-se a advertir a Bolívia, em dezembro de 2011, de que poderia adotar o "princípio da reciprocidade" caso houvesse nova vistoria em aviões brasileiros. Foram necessárias nada menos que três violações de soberania - porque é disso que se trata - para que o Brasil governado por Dilma Rousseff afinal se abalasse a reagir.

Quando o fez, porém, usou o mesmo tom complacente adotado nas crises anteriores, nas quais Evo Morales, de peito estufado, bradou que suas decisões, mesmo as flagrantemente ilegais, só diziam respeito à Bolívia.

Os exemplos dessa assimetria se multiplicam, Em 2006, pouco tempo depois de ter assistido à ocupação militar boliviana de uma instalação da Petrobrás, e ainda ouvir Evo acusar a empresa de "atividades ilegais", sendo esta apenas uma entre tantas bravatas anti-brasileiras na ocasião, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em vez de reagir com firmeza à humilhação pública, pediu orações à Bolívia, "um país muito pobre, que precisa de ajuda".

A genuflexão do Brasil não comoveu Evo. Ao contrário: estimulou-o a acreditar que teria sempre o respaldo do "irmão mais velho". No caso do senador Molina, o presidente Evo Morales negou permissão para que o opositor saia do país e ainda acusou o embaixador brasileiro, Marcel Biato, de trabalhar para a oposição boliviana.

Em vez de reagir, o governo brasileiro trocou de embaixador, segundo informa o jornal Valor. Além disso, o mesmo Evo que não pede permissão de ninguém para inspecionar aviões oficiais brasileiros foi objeto de ruidosa solidariedade do Mercosul por ter tido seu avião oficial retido na Europa, por suspeita de que estivesse transportando Edward Snowden, procurado nos Estados Unidos após vazar informações confidenciais.

A imagem altiva da diplomacia lulopetista - aquela que vive a dizer que seus diplomatas não se submetem a revistas nos aeroportos dos Estados Unidos - não condiz com a humilhação de ver cães farejadores bolivianos fuçando num avião oficial do governo brasileiro.

Agora que a imprensa revelou o caso, Amorim disse que foi um procedimento "lamentável", mas o entrevero estava sendo mantido em sigilo certamente para não expor em público mais um exemplo do mau comportamento do presidente boliviano, aquele que é um dos símbolos da chamada "revolução bolivariana".

O preço da estabilidade - CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 18/07
O mês começou com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciando um corte de R$ 15 bilhões nos gastos federais e reafirmando o compromisso do governo de cumprir a meta de superavit primário, de 2,3% do PIB. Cerca de uma semana antes, a presidente Dilma Rousseff havia apresentado ao país proposta de cinco pactos, sendo o primeiro deles o de responsabilidade fiscal e controle da inflação. Não é para menos: ou isso, ou arrisca-se abalar ainda mais a estabilidade econômica duramente conquistada a partir do Plano Real. Resta saber se a necessidade do arrocho falará mais alto do que os interesses político-eleitorais imediatos.
Com um porém: estejam alertas os governantes de plantão, pois responsabilidade fiscal é lei no país (Lei Complementar nº 101) desde 4 de maio de 2000. Aliás, nas comemorações da primeira década da legislação, Mantega a festejou, acertadamente, como um marco, destacando ter ela permitido estancar "a hemorragia dos gastos dos estados". Não só, ministro: também a gastança da União precisa ser brecada. E o caminho dos truques contábeis, pelo qual o Tesouro Nacional tem trilhado nos últimos anos para ajustar as contas à meta de superavit, é construído com a mais pura areia movediça, sobre a qual nenhum Estado pode se sustentar.

Portanto, com a aproximação do prazo final para o contingenciamento, que termina na segunda-feira, todas as expectativas se voltam para o corte de despesas no Orçamento Federal. Se a decisão deixará o governo em delicada circunstância política, a ausência dela mergulhará de vez a economia na incerteza. E tem mais: há que se ter ousadia, sem ignorar a cautela. A primeira qualidade, na hora de passar a tesoura em despesas de custeio da máquina pública. A segunda, para preservar investimentos e não comprometer a já combalida expansão da economia, o que resultaria num tiro pela culatra, com perda de receita.

As apostas hoje estão abaixo dos R$ 15 bilhões projetados por Mantega no início do mês: vão de R$ 11 bilhões a R$ 14 bilhões - R$ 5 bilhões dos quais seriam tirados das emendas parlamentares, nada menos do que 72% do total previsto para o ano, mas o governo recuou, por temer as reações da base aliada. Ora, aliados têm a obrigação de quem está no poder, que é a de administrar a escassez. Por sua vez, mesmo do ponto de vista político-eleitoral, é mais vantajoso assumir medidas amargas agora do que chegar às urnas com a inflação comendo o salário do trabalhador. Se olharem com atenção a acentuada queda de popularidade da presidente, os governistas chegarão fácil à conclusão de que manter um dos 39 ministérios não paga o preço de passar à história como responsáveis pela desestabilização econômica do país.

Roteiro para a comissão da reforma - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/07

A classe política deveria aproveitar a chance de uma efetiva alteração na legislação político-eleitoral para fazer poucas mudanças, mas de grande efeito na vida pública



O grupo de trabalho da reforma política, instalado terça na Câmara, antes do recesso, pode ser a materialização da conhecida regra cultivada no setor público de se criar uma comissão toda vez que não se deseja resolver alguma coisa. Ou não.

A comissão, a funcionar a partir de agosto, cumpre, de qualquer forma, a necessária função de ordenar o ativismo quase maníaco que tomou conta do Planalto e do próprio Congresso, diante da pressão das ruas. Naquele momento, cada um metabolizou as pressões conforme o próprio interesse. O caso mais evidente foi o de alas do PT interessadas em instalar mecanismos de “democracia direta” no país, inspiradas no caudilho Hugo Chávez. Surgiu daí, do bolso de um colete ideológico, a ideia da “Constituinte exclusiva”. Estabelecida a sua inconstitucionalidade, ela foi convertida num plebiscito — por sua vez, desaconselhável, por não ser a legislação político-eleitoral adequada a este tipo de consulta popular.

Sob a presidência do deputado petista Cândido Vaccarezza (SP) — consta que escolhido por Lula, numa disputa do paulista com a ala gaúcha do partido —, a comissão deverá examinar a possibilidade do plebiscito, algo como uma fixação obsessiva do Planalto e parte da legenda. O melhor desfecho, neste ponto, é a opção por um referendo sobre aquilo que o Congresso vier a decidir. Outra proposta petista é o financiamento público total de campanha, algo que, para ser efetivado, forçará a mudança do sistema eleitoral para listas fechadas de candidatos, o sonho de todo cacique político. Vai ser preciso muito discurso para convencer a população a gastar ainda mais com políticos — os mesmos execrados nas manifestações — e que uma boa alternativa é ela não mais escolher em quem votar, delegando este poder à cartolagem partidária.

A comissão contribuirá para o aperfeiçoamento da vida pública se não abrir demais o leque de temas, buscar alterações mínimas, porém de grande efeito na oxigenação da política brasileira. O fim das coligações nos pleitos proporcionais — para as Casas legislativas — tem este poder. Os próprios petistas sabem o quanto lhes custa manter na base parlamentar legendas de pouca expressão, interessadas apenas em negociar — literalmente — apoios e, em especial, seu tempo no programa eleitoral gratuito. O mensalão deriva, em parte, da pulverização do quadro partidário.

A comissão é mais uma oportunidade para também se discutir a sério a definição de alguma cláusula de barreira palatável ao Supremo, outra ajuda na despoluição do quadro partidário.

À primeira vista, o grupo de trabalho que começará a funcionar em agosto é mais do mesmo — muito barulho para nada. É bom que não seja. O país se move, o campo político no poder há mais de 10 anos perde apoio popular, e a comissão é uma chance de toda a classe política restaurar alguma credibilidade no Congresso, crucial para a governabilidade.

Protestar não é pecado - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 18/07

Desde que sem violência, manifestações durante a visita do papa precisam ser tratadas como um fenômeno que faz parte da democracia

Menos mal que seja assim. Entre as possíveis fontes de ameaça à visita do papa Francisco ao Brasil na próxima semana, somente a ação de "grupos de pressão" mereceu alerta vermelho da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Questões por certo mais graves, como o crime organizado ou a hipotética atuação de grupos terroristas, não chegam a preocupar tanto a Abin quanto o risco de confrontos durante a passagem do pontífice pelo Rio, onde participará da Jornada Mundial da Juventude.

O que deveria provocar certo alívio, porém, converteu-se em motivo de preocupação para as autoridades nacionais, ainda desconcertadas diante da recente predisposição dos brasileiros para o protesto.

Responsáveis pela segurança do papa no Brasil, a Abin, o Exército e a Polícia Federal conversam com a equipe do Vaticano acerca de alterações que poderiam ser feitas na agenda oficial a fim de aumentar a proteção oferecida ao pontífice e a sua comitiva.

Estão em estudo a suspensão de compromissos e até mudanças, feitas de última hora, nos locais de alguns encontros.

A principal modificação diria respeito à recepção do papa Francisco, no dia 22. A solenidade, com a presença do governador e do prefeito do Rio, está marcada para o Palácio Guanabara, sede do governo fluminense. Para policiais, o local --que tem sido alvo de agressivos protestos-- não é seguro.

Até aqui, entretanto, o chefe da Igreja Católica não deu sinais de ter se sensibilizado com os temores brasileiros. Dois dias atrás, o Vaticano pediu para a Polícia Federal dispensar o uso de fuzis pelos agentes que acompanharão Francisco em Copacabana --haverá apenas policiais com pistolas.

Ontem, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que o pontífice manterá a programação original e acrescentou que as manifestações nada têm de específico contra o papa ou a igreja.

O argumento não é preciso. Pelo menos um ato contra os gastos públicos no megaevento católico já foi convocado pela internet, e há muito tempo militantes da causa gay ou feminista, por exemplo, têm seus motivos para protestar.

Parece prevalecer na declaração e nas atitudes do Vaticano, ainda assim, a percepção de que manifestantes, no exercício pacífico de seu direito, não representam ameaça nem podem ser confundidos com criminosos.

Essa é uma lição que as autoridades brasileiras, perdidas entre o abuso da força contra protestos não violentos e a omissão diante de atos de vandalismo, ainda precisam assimilar.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Nós não impusemos ao Brasil esta Copa”
Joseph Blatter, presidente da Fifa, que já cogita erro na escolha da sede do mundial


DILMA SABIA DE ‘MANOBRA’ NO TRANSPORTE PÚBLICO

Após queda drástica em sua popularidade, a presidente Dilma Rousseff finalmente decidiu agir e anunciou ontem (17) que negociará a revisão da planilha de cálculo das tarifas do transporte público. Técnicos do Ministério da Fazenda alertam o Planalto desde o ano passado, por meio de relatórios, que as empresas utilizam método defasado, de 1993, para maquiar os gastos e aumentar o preço das passagens.

ESPERTEZA

O atual modelo utilizado pelas empresas de transporte levam em conta apenas os custos, e não a eficiência do serviço, para obter lucro.

NÃO RESOLVE

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), enviou projeto à Fazenda sugerindo a destinação de royalties do petróleo ao transporte.

VAI DAR TRABALHO

Dilma prometeu se reunir com governadores, prefeitos, empresários e líderes de movimentos sociais para tentar negociar a troca da planilha.

MUDA, BRASIL

Custou quase R$ 7 milhões a mudança de dois adidos da PF removidos de Londres ao Brasil. Dava para comprar um estúdio na capital inglesa.

SERVIDORES DENUNCIAM ESPIONAGEM NA ANP

A Associação dos Servidores da Agência Nacional do Petróleo pediu à diretora-geral do órgão, Magda Chambriard, a instauração de processo para investigar a violação de dados do servidor Kerick Robery Leite de Sousa, envolvido na polêmica autuação da OGX, do empresário Eike Batista. Segundo o ofício, entregue no dia 2 de julho, cópias dos discos rígidos dele foram enviadas irregularmente a duas instâncias da ANP.

CONDUTA SUSPEITA

Os dois DVDs com os dados teriam sido entregues ao superintendente Raphael Moura (Segurança Operacional) e Alex Mattos (Inteligência).

PERSEGUIÇÃO

A assessoria de Inteligência da ANP é a mesma que teria feito grampos clandestinos contra o ex-diretor do órgão Victor de Sousa Martins.

RETALIAÇÃO

Kerick foi transferido de setor após defender Pietro Mendes, que autuou OGX por não instalar válvula de segurança em poço submarino.

A MARCA DA CHANTAGEM

O episódio do avião do ministro Amorim (Defesa) retido na Bolívia ressalta o “poder de fogo” do presidente cocaleiro Evo Morales: impede Brasil de tirar da embaixada o senador de oposição asilado Roger Pinto e seus segredos e expõe possível conivência brasileira com a farsa.

DE VOLTA...

Animado com as últimas pesquisas, José Serra (PSDB) está em plena articulação para 2014. Pediu a Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Pedro Taques (PDT-MT) que o chamem para reuniões sobre cenário político.

... AO JOGO

O senador Jarbas Vasconcelos garante que José Serra em nenhum momento falou sobre os planos para 2014, mas já adianta: “Ele sabe que eu fechei com Eduardo Campos, não terei como apoiá-lo”.

VIDA DE RAINHA

Em plena quarta-feira de trabalho, a deputada Gorete Pereira (PR-CE) já estava em ritmo de férias. Participou ontem, de óculos escuros e roupas esportivas, da instalação de comissão especial e saiu voando para pegar o voo do tão merecido descanso.

MADAME X

Quase dois meses e meio depois do pedido da coluna, o ministério do Desenvolvimento Social ainda não sabe como Dilma recebeu doação de R$ 520 de beneficiária do Bolsa Família registrada com nome e CPF.

JOAQUIM FRANCISCO

O prefeito Eduardo Paes (PMDB-RJ) foi o primeiro alvo de “petardo” do Joaquim Barbosa do Vaticano: ao contrário do que Paes pediu aos cariocas, o papa Francisco avisou que protestos serão bem-vindos.

SUBDESENVOLVIDO...

Dados do Portal da Transparência mostram que o governo federal destinou até junho R$ 200 mil para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas; R$ 40,9 mil para fabricar combustível nuclear e R$ 300 mil para difusão do conhecimento científico e tecnológico.

...E BOBO ALEGRE

Já o governo de Sérgio Cabral (PMDB-RJ) ganhou R$ 7,7 milhões para “fortalecer a Cultura” e R$ 955,1 mil para abastecimento de água. O Instituto Pasteur, de pesquisa em saúde, levou merreca de R$ 26,3 mil.

PENSANDO BEM...

...#vemprarua, papa Francisco!


PODER SEM PUDOR

CARA DE PAU À MINEIRA

O general Costa e Silva foi fulminado por uma trombose, em agosto de 1969, e os militares ficaram inquietos: não queriam empossar o vice civil, Pedro Aleixo. Outro mineiro ilustre, José Maria Alkmin, telefonou ao vice:

- É preciso resistir. Volte para Minas e vamos organizar um contragolpe. Não adiantou: Aleixo não tomou posse. Tempos depois, Alkmin foi procurado pelo general Sizeno Sarmento, comandante do II Exército, com a gravação do telefonema a Aleixo. Alkmin não perdeu a naturalidade:

- Esse (Renato) Azeredo (então deputado do PSD, como ele) é terrível! Sabia que imitava minha voz com perfeição, mas desta vez ele foi muito longe!

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Depois das ruas: TCM recua e faz devassa em empresas de ônibus
- Folha: PMDB quer corte de 14 ministérios já, diz Henrique Alves
- Estadão: Mantega diz que não há mais espaço para corte de imposto
- Correio: Nas mãos de Deus
- Valor: Consórcio ameaça desistir de ampliar Santo Antônio
- Estado de Minas: Motoristas atropelam campanha educativa
- Jornal do Commercio: Mais luzes na rua contra a violência
- Zero Hora: Burocracia atrasa obras para desafogar a BR-116
- Brasil Econômico: Uso do porto definirá compra da CSA

quarta-feira, julho 17, 2013

Imagens 'recuperadas' - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 17/07

RIO DE JANEIRO - Na sequência de algum quiproquó em campo, o narrador do futebol pela TV anuncia com orgulho que vai passar as "imagens recuperadas" do jogador X dando uma banana para a torcida. Ou do bandeirinha Y tirando ouro do nariz. Dá a entender que há câmeras por todo o estádio e que até o menor detalhe está sendo capturado. E está mesmo. Mas por que dizer que essas imagens foram "recuperadas"?

Imagens "recuperadas" deveriam ser aquelas que se julgavam perdidas há décadas ou que nem se sabia que existiam. Como cenas a partir do convés do Titanic durante seu afundamento, em 1912, que tivessem ido para o fundo do mar junto com os Laliques e Gallés, e só há pouco descobertas. Ou as de Getúlio Vargas, já de pijama e chinelo, a minutos de se matar com o tiro no peito, em 1954, tomadas por Virginia Lane, por acaso debaixo da cama de Getúlio no Catete. Ou o áudio e o vídeo de Vicente Celestino cantando o clássico da bossa nova "O Pato", com pompa operística, num programa de auditório em 1960.

Nada disso se aplica a mostrar o que jogadores, treinador, juiz ou torcedores fizeram tão pouco antes. E, como estas não eram imagens perdidas, não têm como ser "recuperadas". Mas me divirto quando o narrador usa a expressão. Reflete nosso esforço para dar um verniz em tudo que fazemos, por mais banal.

E, de fato, há passagens no futebol que, se chegaram a ser filmadas, imploram para ser recuperadas --de verdade. Uma delas, a suposta bofetada do uruguaio Obdulio Varela no rosto do nosso Bigode, na final da Copa de 1950. Ou Garrincha, enquanto profissional (não depois de ter parado), chamando algum adversário de "João". Ou o alvoroço em torno de Ronaldo na concentração do Brasil, a duas horas do jogo contra a França na Copa de 1998.

Essas, sim, seriam "recuperações" a se anunciar em estéreo e Dolby.

Encontros e reencontros - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 17/07

Hoje tem Olimpia x Atlético e Corinthians x São Paulo, no mesmo horário. E mais a Copa do Brasil


Hoje, fora de casa, contra o Olimpia, começa a decisão para o Atlético-MG. A segunda partida será no Mineirão. Quem jogou toda a competição em um estádio deveria, pelo regulamento, fazer também, no mesmo local, a final. O Atlético-MG preferiu o Independência ao Mineirão por razões técnicas, supersticiosas e psicológicas, e não econômicas. O trabalho, agora, é diminuir o desamparo, a dependência emocional, de Cuca e dos jogadores.

O Atlético-MG tem mais chances que o Olimpia de ser campeão, mas os jogadores não podem acreditar no oba-oba de alguns comentaristas, de que o Galo é um supertime e que deu aula de futebol, contra o Corinthians. Contra o Tijuana e o Newell's Old Boys, o Atlético-MG esteve muito perto da desclassificação.

Faltou dizer, na coluna anterior, que o estilo Galo Doido, de pressionar quem está com a bola, em todo o campo, só é possível se os jogadores estiverem envolvidos emocionalmente e muito bem fisicamente. O preparador físico do Atlético-MG é Carlinhos Neves.

O desenho tático, 4-2-3-1, usado pelo Atlético-MG, pela seleção e pela maioria das equipes, brasileiras e de todo o mundo, é, na prática, o mesmo e antigo 4-4-2, criado pela Inglaterra, campeã do mundo em 1966. São quatro defensores, dois volantes, um meia de cada lado, que atacam e voltam para marcar ao lado dos volantes, formando uma linha de quatro no meio-campo, além de um centroavante e de um meia, pelo centro, mais recuado, como Ronaldinho, no Atlético-MG, ou mais avançado, um ponta de lança, como Neymar, na seleção.

As coisas vão e voltam, com nomes e números diferentes. Quase todos os encontros, no futebol e na vida, são reencontros. Mudam apenas os personagens. Só os gênios, raríssimos, são originais.

Teremos hoje São Paulo e Corinthians, pela decisão da Recopa. O grande desafio de Paulo Autuori será desvendar o mistério, fazer Ganso brilhar. Ou será que isso nunca vai acontecer, por causa de uma avaliação equivocada sobre o jogador?

Nenhuma equipe do mundo joga com dois meias ofensivos (Ganso e Jadson), dois volantes e dois atacantes. Não se deve confundir essa formação com o tradicional 4-4-2, com dois volantes e um meia de cada lado, que marcam e atacam.

Uma tentativa seria colocar Ganso ou Jadson mais perto do centroavante ou recuar um dos dois para atuar de uma intermediária à outra, com funções defensivas e ofensivas, como fazem Schweinsteiger, Pirlo, Xavi, Paulinho e outros. Ganso nunca demonstrou mobilidade para ter dupla função.

Se Paulo Autuori desvendar o enigma, será muito mais reconhecido. Há muitos jornalistas e torcedores que não gostam do treinador, muito mais por sua bela voz, por seu português correto e por suas explicações professorais do que por seu bom trabalho.

Pompa e circunstância - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 17/07

É provável que tenha sido um dos casamentos mais caros do ano, R$ 2 milhões, e o mais inadequado para o momento em que a onda de protestos teve como motivação inicial o alto preço e a má qualidade dos transportes públicos. É que o avô da noiva, Jacob Barata, é ninguém menos que o empresário conhecido no Rio como Rei dos Ônibus, e o pai do noivo, o ex-deputado Francisco Feitosa, é seu sócio em negócios no Ceará. A união do poder econômico, a pompa ostensiva e algumas infrações soaram como deboche: os dois Mercedes que conduziam os pais e padrinhos dos nubentes, por exemplo, carregavam 22 multas e permaneceram duas horas estacionados debaixo da placa “proibido estacionar”. Assim, antes da cerimônia, na entrada da Igreja do Carmo, no Centro da cidade, cerca de 100 “espectadores” organizaram protestos, mas pacíficos e bem-humorados. Além de cartazes gozando o acontecimento — “Uuuuu, todo mundo pra Bangu”; “Hahaha, o noivo vai broxar” —, um casal encenava uma paródia em que ela de branco, véu e grinalda, oferecia baratas de plástico em bandeja. A polícia manteve distância e não precisou intervir.

A recepção no Copacabana Palace, porém, degenerou. Enquanto os manifestantes vaiavam os que iam chegando, alguns convidados de dentro do hotel revidavam lançando cédulas de real. Até que alguém jogou da sacada um cinzeiro na cabeça do jovem Ruan Martins do Nascimento, que estava protestando. Ferido, ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde recebeu seis pontos. O principal acusado da agressão, reconhecido pela vítima, é o sobrinho-neto de Barata, Daniel, de 18 anos, que nega, assumindo apenas como erro ter jogado um aviãozinho feito de R$ 20 sobre os que estavam lá embaixo.

Para agravar a situação, faltava um personagem, que ultimamente tem estado presente em todas as ocorrências desse tipo: a Tropa de Choque, que chegou exibindo toda a sua truculência. Embora o ato de violência tivesse partido de dentro da festa, não dos que protestavam do lado de fora, os PMS desembarcaram espalhando spray de pimenta e apontando seus fuzis com bombas de efeito moral contra os manifestantes. Pelo menos dessa vez não jogaram gás lacrimogêneo no interior de clínica médica, como na semana passada. Por que tanto despreparo?

Ontem, o secretário de Direitos Humanos, Zaqueu Teixeira, reconheceu os excessos da polícia, prometeu punição e disse que o governo vai criar cursos de aperfeiçoamento e capacitação para os PMs. Ótimo. Mas alguma providência mais urgente precisa ser tomada para disciplinar as tropas que estão saindo às ruas.

Ueba! Luan espanta o papa! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 17/07

E os manifestantes rogavam uma praga: "Ha, ha, ha, o noivo vai brochar". Rarará! Praga de manifestante pega.


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Pensamento do dia do tuiteiro Victor Costa: "O Eike perde 92% da fortuna e continua bilionário. Se eu perder 8% da minha, sobram R$ 19". E como diz o outro: "Eu nem tenho 92% pra perder". E como digo eu: dinheiro não traz felicidade, mas acalma os nervos. Rarará!

E atenção! Todos para o abrigo! Salve-se quem puder! Alerta vermelho! "Quarenta mil argentinos virão ao Rio de ônibus." Isso configura invasão. Eles vieram pra rezar ou pra invadir? Rarará!

E esta: "Luan Santana vai cantar pro papa". Nenhum argentino merece isso. Quanto mais um papa. Mas não foi a igreja que inventou a penitência? Rarará!

Eu sugiro show da Anitta com participação do Naldo! Aí sim!

E mais outra notícia: "Papa dispensa o papamóvel". UFA! Ainda bem. Aquele papamóvel parece van de cachorro-quente. Sabe aquelas vans de cachorro-quente de porta de balada? Dogão com maionese, batata palha e milho, com suco grátis. Papa Dog!

E um leitor acha que o papa devia andar de caveirão! Papa troca o papamóvel por um caveirão! Rarará!

E nesta visita do papa eu acho que vai ter mais Polícia Militar do que católico! Rarará!

E o papa vai ficar uma semana. PAPA WEEK!

E mais notícias do casamento do ano, alvo de protestos! O casamento da Dona Baratinha, a neta do Rei do Ônibus! E o irmão da noiva jogava aviãozinho de R$ 20 pros manifestantes. E vai ser processado pelo Silvio Santos. Por plágio.

E o site Sensacionalista: "Empresas de casamentos para os ricos já oferecem pacotes com manifestantes". E os manifestantes ainda rogavam uma praga: "Ha, ha, ha, o noivo vai brochar". Rarará! Praga de manifestante pega. A Dilma que o diga! Rarará!

E este cartaz: "Dona Baratinha, vai de ônibus para o Copacabana Palace". Aí já é muita humilhação! É melhor o noivo brochar! Rarará! Rico pode dar festa? Pode! Mas não o Rei do Ônibus. Nesse momento!

E o Rei do Ônibus se chama Barata porque ele oferece passagens mais baratas: passagem + baratas subindo nas pernas dos usuários! Rarará!

Jogaram Baygon no casamento da dona Baratinha! Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

CAIXA ABERTA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 17/07

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, teve nova derrota na tentativa de impedir a divulgação de detalhes sobre gastos de sua gestão com itens como carros e iPads. A ministra Cármen Lúcia indeferiu, no STF (Supremo Tribunal Federal), pedido dele para que não seja obrigado a mostrar as informações para o Conselho Nacional do Ministério Público, que fiscaliza a procuradoria.

CAIXA 2
A ministra manteve, assim, decisão anterior do colega Teori Zavascki, que já tinha negado pedido de liminar de Gurgel para o caso.

CAIXA 3
Gurgel alega que o pedido de informações não poderia partir de um só conselheiro, sem qualquer denúncia que o embase. O autor do requerimento de informações é Luiz Moreira. Ele é amigo de José Genoino (PT-SP), e por isso procuradores ligados a Gurgel apontam retaliação por causa do mensalão. Moreira diz que apenas cumpre seu papel fiscalizador.

MAIS MÉDICOS
O hospital Albert Einstein deve investir R$ 50 milhões para a construção da faculdade de medicina que planeja abrir em 2014. O prédio ficará ao lado da instituição, no bairro do Morumbi.

MAIS MÉDICOS 2
Além de vestibular, o Einstein quer incluir uma entrevista para selecionar os alunos. A ideia é fazer um exame semestral para preencher 50 vagas em cada período. As mensalidades "vão ser caras", admite Claudio Lottenberg, presidente do hospital. Mas haverá um sistema de bolsas ou incentivos para "atrair os melhores alunos".

TEMPORÃO
Para organizar os blocos de rua do Carnaval, SP quer aprender com as experiências do Rio, Pernambuco e Bahia. A Secretaria Municipal de Cultura planeja conversar com organizadores da folia nesses Estados sobre planejamento e segurança. Também serão encomendados estudos de consultorias.

NOVA DIREÇÃO
Pedro Abramovay está deixando a ONG Avaaz, que faz campanhas e abaixo-assinados pela internet. Vai assumir a direção da Open Society Foundation para a América Latina. A entidade, criada por George Soros, lida com temas como política de drogas, direitos humanos e liberdade na internet.

NOVA DIREÇÃO 2
Abramovay é professor da FGV-Rio e ocupou a Secretaria Nacional de Justiça no governo Lula. Deixou Brasília depois de defender penas alternativas para pequenos traficantes, o que desagradou à presidente Dilma Rousseff. Foi indicado para a fundação de Soros por Fernando Henrique Cardoso, um entusiasta da descriminalização das drogas.

CABO DE GUERRA
O clima é de disputa no clube Aramaçan, em Santo André --um dos mais tradicionais do ABC, com 20 mil associados e receita anual de R$ 15 milhões. O conselho deliberativo faz reunião emergencial hoje para discutir o novo estatuto. E a derrubada do artigo que permite à diretoria vetar atos do conselho. O presidente José Eduardo Barbosa diz: "É assim em todo lugar. A Dilma [Rousseff] tem direito a veto".

OS MANOS
O novo disco do rapper MV Bill, do selo Chapa Preta, conta com os DJs paulistas Caique e Luciano SP em algumas faixas. O lançamento é no fim do mês.

CAIXA A DOIS
Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert evitam posar de casal em campanhas publicitárias. "Chega muita proposta. Tentamos não ficar aceitando tudo por dinheiro", afirma a apresentadora.

"Filtro e escolho as melhores. Senão a gente enjoa da própria cara!", diz ela, que abriu uma exceção para estrelar anúncios da grife Forum com o ator e apresentador do canal a cabo GNT.

A sessão foi feita em uma pizzaria do Rio, cidade onde são alvo de paparazzi.

Sobretudo agora, morando no Leblon com os filhos, João e Francisco, 5.

A mãe levou os meninos para ver o protesto em frente à casa do vizinho Sérgio Cabral. "Eles estavam curiosos", diz ela, que apoia as manifestações de rua, mas prefere não opinar sobre o governador.

CONCURSO DISPUTADO
A pré-estreia do filme "O Concurso", anteontem, no Cinemark do shopping Eldorado, reuniu os atores Sabrina Sato, Fábio Porchat, Danton Mello, Anderson di Rizzi e Rodrigo Pandolfo. O escritor Fábio Porchat, pai do comediante, e a apresentadora de TV Marina Mantega também assistiram ao longa.

CURTO-CIRCUITO
A atriz Djin Sganzerla está em cartaz até 1º de agosto com o espetáculo "O Belo Indiferente", no CIT-Ecum, na rua da Consolação. Hoje e amanhã, às 21h. 12 anos.

O trio Hips 2 Tits, dos DJs Guga Guizelini, Marcelo Botelho e Phillip Alves, anima hoje a pista da Disco, a partir das 23h30, no Itaim Bibi. 18 anos.

A cantora Maria Rita apresenta o show "Redescobrir", em homenagem à mãe, Elis Regina, sexta e sábado, às 22h, no Credicard Hall. 14 anos.

Sem luz no caminho - LUIZ FELIPE LAMPREIA

O GLOBO - 17/07
A deposição do presidente Mohamed Mursi pelo exército egípcio foi o sinal, para muitos, de que as aspirações libertárias da praça Tahrir, em 2010, foram definitivamente enterradas. Afinal, Mursi tinha sido eleito, ainda que por margem mínima, no primeiro pleito democrático da história do país. Teria a primavera árabe acabado aí?

Tom Friedman, o excelente colunista do New York Times , perguntou-se recentemente se a deposição do presidente filiado à Irmandade Muçulmana, não seria o começo de um refluxo do Islã político. Outros sinais seriam os protestos da juventude urbana de Istanbul contra o partido islamista no poder, a eleição do moderado Hassan Rouhani no Irã, a evolução da Tunísia para uma constituição moderada e a primeira eleição livre na Líbia que viu a derrota dos candidatos fundamentalistas. Mesmo assim,Friedman foi cauteloso evitando concluir que a onda passou. Eu tenho aqui as minhas dúvidas.

Aquilo que veio a ser conhecido como a primavera árabe suscitou, sem a menor dúvida, uma enorme esperança de quebra do padrão generalizado de autoritarismo e corrupção dos governantes árabes. A derrubada e posterior enxovalhamento dos ditadores Mubarak, no Egito, e Ben Ali, na Tunísia, ecoaram em todo o mundo árabe como um toque de clarim, anunciando uma nova era de liberdade. Daí a prever que todos os autocratas teriam o mesmo fim era um passo apenas. Sucede porém que isso não ocorreu. Mesmo no caso de Tunísia, Líbia e Iêmen, onde os tiranos foram expulsos, as esperanças de um transição democrática viram-se frustradas. Cada país árabe está passando por um processo próprio, as várias ditaduras foram, por vezes, capazes de contrapor às massas uma força militar considerável, ainda que estrangeira, como foi o caso no Bahrein. O erro dos otimistas consistiu em achar que a primavera seria uniformemente florida.

Dizia-me um amigo turco, na época, que em seu país a democracia só se enraizara décadas depois do fim do Império Otomano e de toda sorte de oscilações políticas. Claramente, muita água vai passar sob as pontes do Nilo antes que os países árabes cheguem, como a nossa própria América Latina, a ser um espaço quase uniformemente democrático. As ditaduras salgaram a terra, impediram a criação de partidos e instituições democráticas, fomentando o surgimento dos ovos de serpente do radicalismo de todo tipo.

Em recente artigo, Francis Fukuyama notou que, sempre que ela surgiu, uma classe média moderna tem causado fermentação política, mas muito raramente conseguiu, por si mesma, provocar mudanças políticas duradouras . Trata-se de outro prisma interessante para buscar compreender as convulsões do mundo islâmico. As sociedades muçulmanas do Oriente Médio estão conseguindo gradualmente romper o fatalismo da desigualdade social , mas há enormes diferenças entre a Turquia moderna e os palestinos de Gaza ou Ramalá, entre a Síria brutalizada e o Marrocos, e assim por diante. Fukuyama não descobriu a chave mestra para entender o impasse árabe.

Outra discussão importante trata da relação entre fundamentalismo religioso e democracia na região. No Egito, que é o mais importante país árabe, a eleição do líder da Irmandade Muçulmana foi um teste importante: este fato político seria capaz de fortalecer a democracia, com a cooptação de um partido forjado na clandestinidade por oitenta anos e dotado de uma filosofia operacional conspiratória? A resposta foi negativa.

Chegando ao poder, a Irmandade radicalizou, fechando-se em copas, e mostrou-se incapaz de governar para o bem comum, o que levou a imensas manifestações contra Mohamed Mursi e enfim à decisão do Exército de intervir mais uma vez na política egípcia. Isso, naturalmente, não quer dizer que a Tunísia ou a Jordânia não possam apresentar melhores experiências de pragmatismo e flexibilidade política. Mas o episódio egípcio poderá levar os fundamentalistas a concluir que a democracia é apenas uma armadilha contra eles, com a conclusão, para eles lógica, de que é necessário ter uma conduta ainda mais combativa.

Não há um único farol a iluminar o caminho. Com todas as nuances de cada país árabe, nenhum deles conseguiu despontar como a prova de que a democracia pode vingar, nem sequer que haja um exemplo, um único exemplo, de que os povos árabes podem finalmente esperar gozar de liberdade e de melhores horizontes sociais. Por isso, é necessário concluir, pelo menos provisoriamente, que a primavera árabe não conduziu ao verão.

A Turquia e o Egito - GILLES LAPOUGE

O Estado de S.Paulo - 17/07

Nos confrontos que não chegam ao fim no Egito, depois do golpe dado ao mesmo tempo pelo povo e pelo Exército egípcio contra o poder islâmico da Irmandade Muçulmana, grupo liderado por Mohamed Morsi, a Turquia toma claramente partido pelo presidente deposto.

A agência de notícias oficial turca Anatólia retransmite ao vivo todas as manifestações organizadas no Cairo pelos partidários do líder destituído contra a nova equipe levada ao poder pelos militares. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, também islamista, declarou: "Meu presidente no Egito é Mohamed Morsi, porque ele foi eleito pelo povo. Considerar as coisas de maneira diferente seria menosprezar o povo."

É um comportamento lógico. Há algumas semanas, revoltas violentas eclodiram em Ancara contra Erdogan. Ele temeu que seu poder fosse abalado pelos revoltosos. No entanto, o premiê não é um ditador. Chegou ao poder por meio de eleições. Portanto, é natural que, no caso do Egito, e pensando talvez em sua própria situação, Erdogan invoque a "legitimidade democrática" de Morsi e recrimine o fato de o Exército do Egito ter atropelado os princípios sagrados da democracia.

Outro motivo explica a solidariedade do turco Erdogan com o presidente Morsi: ambos são islamistas. Erdogan foi analisado com frequência e apresentado como o homem que, dez anos atrás, lançou uma vasta operação para apagar a marca deixada na Turquia pelo patriarca da república turca moderna, Mustafá Kemal Ataturk.

Em 1923, Ataturk pôs fim ao Império Otomano, substituiu o alfabeto árabe pelos caracteres latinos, impôs trajes ocidentais, aboliu a poligamia, laicizou a sociedade turca e colocou o Exército no próprio coração da nova Turquia.

Tudo isso forma um quadro coerente. Entretanto, analistas um pouco mais refinados desmontam toda essa construção e explicam que, contrariamente a essa visão sedutora e simplista, Erdogan, longe de ser o demolidor de Ataturk, é, na realidade, seu admirador.

Étienne Copeaux, do grupo de estudos sobre o Mediterrâneo, escreve que "os dirigentes do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, de Erdogan) adaptaram-se aos moldes da educação kemalista".

Mudanças. Segundo o jornalista e romancista Ahmet Altan, o AKP, partido islamista e conservador, reaproximou-se dos símbolos patrióticos e republicanos. A partir de 2014, Erdogan quer impor um regime presidencialista na Turquia.

"Desde que decidiu se tornar presidente, Erdogan virou general. Ele marcha como os generais dos quatro golpes de Estado que ocorreram na Turquia. Tem o mesmo estilo brutal, as mesmas teorias conspiratórias e o mesmo ódio pela oposição. Detesta a Europa e deseja se voltar para a Rússia e para a China. Vemos agora o nascimento de um novo kemalismo, só que religioso", afirmou Altan.

Resta a questão do Exército, que foi a espinha dorsal secularista do sistema de Mustafá Kemal. No entanto, Erdogan fez o que faltava para submeter os militares. "Ele dotou a polícia de poder. O Exército foi obrigado a obedecer. E já exerce sua força em benefício exclusivo do governo - e não, como nos tempos de Ataturk, está a serviço de uma ideologia turca", declarou Altan.

"Desde que Erdogan nomeou um novo chefe de Estado-Maior, o general Necdet Ozel, o Exército não é mais dirigido por sua ala nacionalista e laica. O Exército já é dirigido por generais que rezam", disse o escritor turco./
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

NSA, Sivam, Dilma e Obama - JULIA SWEIG

FOLHA DE SP - 17/07

Pode ser instrutivo para Brasil e EUA recordar a boa experiência do Sivam ao discutir sobre o caso NSA


No ano passado, o Departamento de Defesa dos EUA destinou US$ 100 milhões --de um orçamento de US$ 682 bilhões-- à ciberdefesa. Mas o Pentágono gastou meros US$ 8,9 milhões, menos que o valor que alguns dos membros do grupo de 1% mais ricos gastam com suas casas de praia.

Recentemente, o ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, observou que os recursos para a ciberdefesa do Brasil chegam a US$ 40 milhões de um orçamento de defesa de US$ 33 bilhões --uma alocação proporcionalmente muito maior que a do Pentágono.

Você pode fazer as contas, mas, a julgar pelos números, podemos concluir que, embora seja vulnerável a ciberataques, o Brasil não perde muito para os EUA em termos de preparar sua ciberdefesa.

É claro que as grandes assimetrias estão na área da cibersegurança e da vigilância, onde, como sugerem as revelações recentes sobre a NSA, os EUA, em parceria com empresas privadas de telefonia, estão à frente não apenas do Brasil mas, bem, de todo o sistema solar.

Para crédito das autoridades seniores do Brasil e dos EUA e da seriedade com que elas tratam o relacionamento entre nossos dois países, as revelações feitas por Snowden não criaram uma crise diplomática. Mas abriram uma oportunidade.

Faltam agora três meses para a visita que a presidente Dilma fará a Washington. Nos últimos anos, os grandes temas inacabados na agenda bilateral têm sido o comércio e o Conselho de Segurança. Não a defesa.

Um acordo de cooperação em defesa assinado em 2010, embora a tensão em torno do Irã pudesse tê-lo frustrado, gerou algumas oportunidades de longo prazo lucrativas para firmas de defesa brasileiras e americanas ingressarem nos mercados umas das outras. Os avanços feitos nesse espaço são notáveis, embora possam ser incômodos para alguns, dada a história de desconfiança mútua em questões de segurança.

Agora a arena da cibersegurança e da governança da internet --soberana e global-- também possui o potencial de criar conversas presidenciais muito interessantes sobre as tensões que esses dois líderes enfrentam entre privacidade, direitos humanos, liberdades civis e segurança e sobre as diferenças e potenciais sinergias em nossas culturas de inovação e política industrial.

O tópico também abre uma porta sobre as personalidades globais dos dois países em relação aos méritos e deméritos das instituições multilaterais para reger a internet.

Finalmente, existem lições a serem aprendidas relativas à América do Sul e à segurança regional? A experiência do Brasil com o Sivam é não apenas um exemplo de extensa cooperação e partilha de tecnologia entre Brasil e EUA--por meio da gigante Raytheon--, mas também uma instância em que o Brasil parece ter evitado provocar seus vizinhos com um sistema de vigilância cujo impacto potencial não se limita necessariamente às fronteiras brasileiras.

Embora os paralelos sejam imperfeitos, pode ser instrutivo para os presidentes das duas maiores democracias das Américas recordar a experiência positiva do Sivam quando tiverem a inevitável discussão sobre as revelações a respeito da NSA.

Dissimulação - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 17/07

A economia brasileira não está nos seus melhores dias, mas as coisas poderiam ficar um pouco mais fáceis se o governo admitisse a existência dos problemas.

Insistir em que o PIB vai cavalgar acima de 3% neste e nos próximos anos; que a inflação não é esse monstro antropófago apontado por economistas obsessivos e que, ao contrário, está em reversão; que a política fiscal não é tão expansionista quanto se propala nem geradora de serviços de baixa qualidade; que os investimentos, embora um pouco atrasados, estão sendo agilizados e mudando tudo...

Num momento de enorme déficit de confiança, essa retórica de dissimulação, que, em princípio, pretende manter elevado o moral da tropa e tudo o que consegue é esconder os problemas, dificulta o diagnóstico correto, impede a procura de soluções adequadas e aumenta o desânimo (veja o Confira).

Parece óbvio que o potencial do crescimento da economia brasileira esbarra em obstáculos estruturais. A crise externa não pode ser tomada como a principal limitação quando o consumo interno cresce a mais de 3% ao ano (descontada a inflação) e tem de ser suprido cada vez mais com importações.

Os investimentos não fluem por diversos motivos. O principal deles é que o governo federal não sabe o que quer e sempre reluta a confiar ao setor privado os investimentos dos quais o Tesouro não consegue dar conta.

Embora algo menos aquecida do que há meses, a situação do emprego também é um limitador da expansão da atividade econômica. Se com esse crescimento aí, provavelmente inferior a 2% ao ano, a economia vive momento próximo do pleno emprego, mais apertado estaria o mercado de trabalho se o PIB se expandisse a 3,0% ou 4,0%.

A cada sinal de desaceleração, o governo reage com aumento do gasto público, como se o que faltasse fosse apenas combustível para as máquinas. E, no entanto, o motor vai queimando óleo porque a qualidade da despesa pública é ruim.

Se houve uma mensagem clara das manifestações de junho foi a de que o Estado está emperrado e é ineficiente. Como pode funcionar um governo com 39 ministérios? Que empresa privada tem tantas diretorias? E, no entanto, também aí o governo quer estar sempre com a razão e se mostra avesso a autocríticas.

Se insistir em ampliar ainda mais suas despesas, tirará eficácia à política de juros. Nessas condições, o Banco Central terá de redobrar o aperto monetário para tentar compensar com mais juros o jogo contra da política fiscal.

A falta de sinceridade das autoridades é fator adicional que mina as expectativas. Se insiste em pintar a paisagem de rosa ou em negar a verdadeira dimensão dos fatos, não há como mobilizar a sociedade para os desafios que estão aí. As incertezas parecem ainda maiores do que são, o empresário se fecha na retranca, os investidores externos se desfazem de negócios para fazer caixa e repatriar capitais. O resultado é retração da demanda e o adiamento das soluções.

O reconhecimento da existência desses problemas seria o melhor recomeço.

O fracasso órfão - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 17/07

Por qualquer ângulo que se olhe, a 'nova matriz econômica' tem sido um fiasco retumbante


"Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu."

Enorme (astronômica mesmo) é a distância que vai de Guido Mantega a Albert Einstein, mas não pude deixar de me lembrar dessa frase ao ler a tentativa patética de ilustres representantes do "keynesianismo de quermesse" de renegar modelo econômico adotado recentemente no país, buscando também se distanciar do falante ministro da Fazenda.

Durante os anos em que o país adotou o chamado "tripé macroeconômico", caracterizado pelo câmbio flutuante, pelo compromis- so com as metas de inflação e pelo cumprimento das metas do superavit primário, autodenominados "desenvolvimentistas" não se vexaram de prometer um desempenho melhor caso sua estratégia fosse adotada.

Segundo esse pessoal, seria possível crescer muito mais caso a taxa de câmbio fosse administrada, a taxa de juros, reduzida, o grau de intervenção do governo na economia aumentasse (via políticas setoriais) e a política fiscal fosse relaxada.

Não é necessário nenhum grande salto de imaginação para notar que essas têm sido as vigas mestras do que se convencionou chamar de "nova matriz econômica", que entrou paulatinamente em vigor nos anos finais do governo Lula, ganhando força considerável nestes dois anos e meio da administração Dilma. Diga-se, aliás, que a transição foi aplaudida entusiasticamente por todos os que defendiam essa alternativa ao "tripé".

Os resultados dessa política estão nas manchetes de todos os jornais: crescimento pífio, inflação acima do topo da meta, deficit externos crescentes e desarticulação do investimento. Por qualquer ângulo que se olhe, a "nova ma- triz econômica" tem sido um fiasco retumbante.

Sob condições ideais, nem tudo estaria perdido. Conhecidas as consequências da experimentação "desenvolvimentista", pesquisadores sérios tentariam entender o que estava errado em sua formulação original e, no processo, ganhariam algum conhecimento.

Nada que economistas mais bem treinados não soubessem, posso assegurar, mas certamente novidades para os que não tiveram esse privilégio.

No entanto, como diria um amigo, de onde menos se espera é que não vem nada, mesmo. Em vez de reconhecer os erros e buscar entendê-los, testemunhamos a abjuração deslavada, como se a política governamental fosse mesmo distinta daquela preconizada por esse grupo.

O problema do governo, afirmam, foi não ter percebido que a desaceleração corrente seria distinta da observada na crise de 2008/09.

O argumento, porém, pena com sua suposta justificativa para a diferente natureza da fraqueza atual, já que --por formação ou ignorância, mesmo-- deixam de lado o fato mais óbvio: a economia operando próxima ao pleno emprego, em contraste com o período da crise, e insistem na tese de o anêmico desempenho nacional resultar do baixo crescimento mundial.

É duro de engolir. À parte a desaceleração global ser uma pálida sombra do enfarte econômico de 2008/09, não se pode ignorar o desempenho dos demais países emergentes, em particular os latino-americanos, cujo crescimento tem sido bem mais vigoroso que o brasileiro e sem os nossos desequilíbrios, como mostra a inflação muito mais baixa nesses países.

Partindo de um diagnóstico equivocado, tentam se diferenciar das políticas adotadas como se estas tivessem atuado na direção correta, apenas em intensidade insuficiente. Em outras palavras, defendem gastos ainda maiores, sem aparentemente levar em conta que o dispêndio federal está no nível mais alto da história, muito menos perceber as consequências desse tipo de política sobre a inflação e as contas externas.

Nada esqueceram e nada aprenderam; exceto talvez que a derrota é uma órfã que precisa ser abandonada no primeiro artigo que se tenha chance.

Uma política econômica "padrão Fifa" - PEDRO FERREIRA E RENATO FRAGELLI

VALOR ECONÔMICO - 17/07

A má gestão, prioridades equivocadas e inflação no topo da meta manterão a insatisfação elevada por bom tempo

Os recentes protestos no Brasil, em oposição aos observados na Europa, e também nos EUA com o movimento Occupy Wall Street, não tiveram motivações macroeconômicas, como desemprego e desigualdade de renda. Evidência disso foi que a queda da popularidade da presidente veio acompanhada da de governadores e prefeitos. Embora a política econômica adotada a partir da crise do subprime em 2008 tenha elevado a inflação e reduzido o crescimento, é fato que o desemprego brasileiro encontra-se baixo - parcialmente por motivos demográficos, é bom lembrar -, a pobreza diminuiu nas últimas duas décadas, e o consumo ampliou-se. Como a política econômica não teve como foco a qualidade de vida dos eleitores, mas sim a visão ideológica de alguns tecnocratas, a insatisfação eclodiu nas ruas.
O estopim das manifestações foi a correção das tarifas de ônibus. Mas logo se ampliaram os pleitos por melhores serviços de transporte, educação e saúde, bem como reclamações contra a brutalidade policial. Havia também questões comportamentais, como a cura gay em absurda discussão no Congresso. Os protestos contra a corrupção foram também muito fortes. As faraônicas reformas dos estádios esportivos exigidos pela Copa do Mundo, em contraste com a depauperada infraestrutura de suporte aos serviços públicos essenciais, cunhou a irônica expressão "padrão Fifa" para adjetivar o que se almeja para os hospitais e escolas públicas.
Aqui entra a ligação indireta entre os protestos e a economia. Ao longo dos últimos dezoito anos, a arrecadação tributária brasileira cresceu dez pontos percentuais, alcançando 36% do PIB, de longe a maior da América Latina. Grande parte desse aumento decorreu dos gastos sociais criados pela Constituição de 1988. No entanto, especialmente nas grandes áreas metropolitanas, os serviços públicos permanecem muito insatisfatórios, pois aqui os gastos foram modestos quando comparados às necessidades.
Acrescente-se a isso o fato de, nos últimos cinco anos, o governo ter insistido numa mal sucedida "mudança do modelo econômico", priorizando áreas muito distantes das aspirações e necessidades quotidianas da população. A ressurreição do nacional-desenvolvimentismo gerou enormes transferências e subsídios para os chamados "campeões nacionais", bem como para alguns setores considerados estratégicos pelos tecnocratas, mas não pelos eleitores. Houve todos os tipos de incentivos para a indústria, mas muito pouco para os serviços, sobretudo os públicos. A Copa do Mundo no Brasil custará mais do que as três copas anteriores juntas, legando muito pouco em infraestrutura de transporte urbano.
Embora a regulação de serviços públicos tenha mudado muitas vezes, assim como as regras das licitações e concessões, as estradas continuam ruins, os portos caros e lentos, os aeroportos superlotados, e o transporte público urbano caótico. Há uma percepção de que a administração dos hospitais públicos é medíocre, na melhor das hipóteses, que são insuficientemente equipados e mal administrados, bem como acusados de mau uso dos seus fundos. Pouco se fez para melhorar os serviços públicos, em parte porque isso nunca foi prioridade em todos os níveis de governo, em parte devido à má gestão, e, como inúmeras denúncias - e investigações dos Tribunais de Conta - parecem indicar, parte devido à corrupção. Não é muito difícil entender a insatisfação.
Uma corrente de analistas sustenta, com alguma razão, que a atual estrutura de gastos públicos decorre da Constituição de 1988, refletindo uma escolha legítima dos eleitores, um contrato entre cidadãos que buscam transferências e governos que delas se beneficiam eleitoralmente. Assim, muito pouco poderia ser feito sem que se mude a Constituição e se implemente medidas impopulares como, por exemplo, uma reforma da previdência. Esse argumento, entretanto, além de induzir ao imobilismo e conformismo políticos, desconsidera que o acordo de 1988 não contemplava gastos concebidos vinte anos depois por uma visão ideológica equivocada, como os R$ 15 bilhões anuais de subsídios implícitos do BNDES, os R$ 30 bilhões em excesso ao custo original da refinaria Abreu Lima, os R$ 40 bilhões do trem bala, os 22 mil cargos comissionados a nível federal (e 500 mil a nível municipal!) para se citar apenas alguns. Há muito espaço, não só para uma melhor gestão, mas também para mudanças de prioridade em inúmeras dimensões, sem que se precise alterar o pacto de 1988.
Em vez de se ater de forma convincente aos problemas concretos levantados pelas ruas, a presidente respondeu com uma malfadada proposta de reforma política. Sua nova taxa de aprovação, de apenas 30%, voltou ao nível histórico registrado por seu partido, um sinal de que a população a culpa e à sua coligação pelos seus problemas diários. A julgar pela resposta do governo aos protestos, pode-se prever que as prioridades equivocadas, a má gestão e a política econômica geradora de baixo crescimento e inflação no topo da meta manterão a insatisfação elevada por um bom tempo. O Brasil precisa de novas políticas, de uma política econômica "padrão Fifa".

Milagre - ANTONIO DELFIM NETTO

FOLHA DE SP - 17/07

Há muitos anos, quando o Brasil era capaz de humor pedagógico exercido por um inesquecível Chico Anísio, havia uma personagem na escolinha do professor Raimundo que afirmava: "quero um vestido Dior e uma viagem a Paris". O professor então lhe perguntava: "mas se quer por que não tem"? E ela respondia: "me falta só uma coisinha, o dinheiro".

É essa questão que parece estar na cabeça da "manada irracional" que, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, levou alguns prefeitos a vaiarem a presidente Dilma Rousseff, depois de terem recebido 15,7 bilhões de reais de repasses para melhorar basicamente os serviços de saúde e 4,7 bilhões para a construção de 135 mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida.

Ela não se alterou, mas não deixou por menos. Disse à manada, "Vocês são prefeitos como eu sou presidenta. Vocês sabem que não tem milagre. Quem falar que tem milagre na gestão pública sabe que não é verdade".

Foi confortador ouvi-la, porque às vezes o governo e o Congresso parecem transacionar com milagres. O pânico revelado na tumultuada resposta de ambos à "voz das ruas" mostrou que em situação de estresse eles também podem confundir "desejos" com "recursos", com sérias consequências sobre o equilíbrio econômico sem, ao fim, corrigir os desequilíbrios sociais.

A enfática declaração de Dilma de que não há milagre na gestão resume-se no seguinte: só podem ser distribuídos e utilizados internamente os recursos que foram produzidos (PIB), somados aos eventuais ganhos na relação de troca e ao que tomamos emprestado no exterior, que dependem, respectivamente, da conjuntura e da paciência dos credores.

Entre 2003 e 2010, a renda interna cresceu mais do que o PIB (4,1%) devido à melhoria da relação de troca. Entre 2011 e 2013, o PIB crescerá talvez, 2,0% (2,5% para 2013) e a renda ainda menos, pela sua inversão. É urgente, portanto, cooptar o Congresso para uma agenda positiva de reformas microeconômicas que aumentem a produtividade total da economia. Descoordenado como está, sua propensão à demagogia nas vésperas da eleição poderá levá-lo a continuar a namorar com "milagres"...

A volta ao crescimento está ligada à expansão dos investimentos privados em infraestrutura e à maturação das reformas no campo da energia e nos portos. A primeira depende de leilões bem projetados, apoiados em minuciosos "planos de trabalho" que estimulem a competição e determinem a menor taxa de retorno. Isso exige a superação da pretensão de saber que alimenta o amadorismo que os tem dominado. A segunda vai ocorrer em dois ou três anos.

Desmatamento continua - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 17/07

O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon detectou um aumento impressionante do desmatamento em junho. Chegou a 184 Km² na Amazônia Legal em um mês, uma elevação de 437% em relação a junho de 2012. Outra má notícia é que o estado do Amazonas, que não costuma estar entre os maiores desmatadores, foi o segundo que mais perdeu cobertura florestal no mês.

O Imazon também monitora a degradação florestal, que é o primeiro estágio, quando os madeireiros entram para tirar as melhores madeiras e a cobertura florestal vai se degradando. Foi registrada degradação florestal em 169 Km² em junho, comparado ao mesmo mês do ano passado. É definida como desmatamento a supressão total da floresta. De toda a região da Amazônia, o Pará desmatou 42% do total, e o Amazonas, 32%. No acumulado de dez meses, o Amazonas está em quarto lugar.

O SAD é o sistema de processamento dos dados que são enviados pelos satélites. Eles são analisados em tempo real. O desmatamento no período de agosto de 2012 a junho de 2013 teve um aumento de 103%, indo a 1.838 quilômetros quadrados.

A maior parte do desmatamento (63%) ocorreu em áreas privadas. O resto ocorreu em assentamentos de reforma agrária e em unidades de conservação. Os municípios críticos continuam sendo Itaituba, no Pará, em primeiro lugar; depois, Lábrea e Apuí, no Amazonas; Colniza e Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso; Altamira e Novo Progresso, no Pará; Novo Aripuanã, Presidente Figueiredo e Maués, no Amazonas.

Os números de junho são espantosos porque mostram que por mais que avance a consciência do Brasil de que é preciso preservar os recursos naturais da Amazônia, o desmatamento - caracterizado pelo corte raso das árvores - e a degradação florestal, o primeiro passo da destruição, permanecem crescendo. E esse é o começo da temporada. Nos próximos meses, se for mantido o mesmo ritmo, o país pode colher um resultado adverso no ano, quando os dados forem consolidados.

Esses números captados em junho pelo Imazon mostram que, tanto na comparação de dez meses quanto na de junho contra junho, houve um aumento forte. Os resultados são preliminares, mas calculados por um instituto científico que tem larga experiência técnica na análise dos dados gerados pelos satélites. As mesmas informações servem de base para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que faz o monitoramento oficial. Ao fim de um ano, o Inpe consolida e divulga os dados, mas a menos que haja uma reverão este mês e nos próximos, desta temporada de desmatamento, o país pode ver uma inversão da curva de queda da destruição da Amazônia. O Inpe registrou aumento de janeiro a maio de 28% no desmatamento.

Atente-se para o fato de que o que se tem comemorado no país é a redução da taxa de destruição anual. Isso vinha permitindo que os ambientalistas, as ONGs, os institutos científicos, e as pessoas preocupadas com o tema começassem a sonhar com o desmatamento líquido zero, ou seja, que o balanço do replantio fosse o mesmo do corte de árvores. Esse dado é um banho de água fria em quem estava apostando que o desmatamento continuasse sendo reduzido anualmente.

Uma grande parte desse desmatamento é ilegal e ocorre de uma forma de exploração totalmente irracional, com o uso do correntão. Quem já viu uma área dessas totalmente desmatada, para ser depois abandonada, não deixa de se afligir quando aparecem esses dados agregados. Olhar de perto essa destruição captada por satélites e processadas por computadores dá a sensação de que o Brasil optou pela insensatez. É uma cena que não se esquece.