CORREIO BRAZILIENSE - 07/07
Há duas semanas, a presidente Dilma Rousseff não faz outra coisa que não seja tentar criar pontes. Reuniu governadores, prefeitos, líderes partidários, representantes de movimentos sociais, sindicalistas e até ministros que, se brincar, alguns ela só havia encontrado no dia em que deu posse aos sujeitos.
Em todos os eventos, sem exceção, um problema: a apresentação de um pacote pronto e pouco tempo para que ela pudesse ouvir. Em política, todo mundo gosta de se sentir partícipe. E Dilma não deu muito essa oportunidade às dezenas de interlocutores que recebeu esses dias. Quanto a governadores e prefeitos, o que interessava ali era a foto de apoio a uma constituinte exclusiva que não durou 24 horas. Depois, veio o tal do plebiscito, foco das reuniões seguintes, com os presidentes de partidos, sindicados e até ministros. Mas, em todos os encontros, pelo que se pode perceber em conversas reservadas, conta-se nos dedos aqueles que saíram se sentindo valorizados ou ouvidos, embora os encontros com presidentes da República sejam tradicionalmente para passar essa ideia.
Sem essa interatividade, o que fica são conversas sem um prosseguimento. Não por acaso, o plebiscito foi, aos poucos, perdendo fôlego a ponto de chegar moribundo na quinta-feira e ser quase que engavetado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, para desgosto de Dilma. Embora seja lindo o povo opinar sobre vários temas e dizer que tipo de política deseja, há a questão dos prazos. Desrespeitar o prazo de um ano para valer nas eleições de 2014 pode ser um precedente grave. Afinal, não dá para esquecer que, como diz o ditado, onde passa boi, passa boiada. Portanto, tem que se começar respeitando as regras do jogo. Se não dá para valer para 2014, que se discuta para o futuro. Já será um avanço.
O problema é que essas respostas apenas para o futuro não interessam ao governo. Nos bastidores, Dilma e seus mais fiéis escudeiros sabem que no momento em que os deputados e senadores deixarem de discutir o plebiscito virá uma pauta bem amarga para o Poder Executivo, por exemplo, a penca de vetos pronta para sair da gaveta. E, se tomarmos por base tudo o que está para aparecer no Legislativo, a pauta do plebiscito serve hoje de tábua de salvação para escapar da agenda negativa que corre o risco de ser colocada na roda.
Enquanto isso, no Congresso…
A se tomar pelo que disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na reunião ministerial semana passada, não há mais espaço para novas desonerações de taxas e impostos do setor produtivo. Na reunião com coordenadores da bancada do PT na sexta-feira, a presidente fez apelos no sentido de ficarem atentos a fim de evitar a aprovação de projetos que ampliem gastos e derrubada de vetos presidenciais feitos para evitar novas despesas. Esses cuidados, para muitos do próprio PT, pode ser um sinal de que o governo está nos estertores em termos de ferramentas para conter os dissabores na economia. Ou seja, agora é mesmo torcer para que as medidas adotadas até aqui tenham efeito antes de chegada a hora de o povo votar para presidente mais uma vez.
Os apelos de Dilma dificilmente vão funcionar para outros partidos que não o PT. Afinal, como mencionado no início deste artigo, nenhum deles se sente parte integrante do governo, ou parceiro de um projeto a longo ou médio prazos. A partir desta semana, não será difícil, por exemplo, sair a CPI do BNDES, do Petróleo ou CPI do Eike, para apurar as nebulosas relações do Poder Público com o ex-megaempresário. O deputado Luiz Pitman é um dos que começa a reunir assinaturas para a CPI do BNDES. Ele está de saída do PMDB e agora integra a oposição.
E no PMDB…
Dilma não terá ainda todo o respaldo dos peemedebistas nesta luta para barrar novas despesas. Entre cumprir a pauta das ruas e atender a presidente, o partido de Temer e de Renan Calheiros segue firme no propósito de se mostrar antenado, apesar dos voos da FAB. Agora, os deputados brincam que se alguém na galeria levantar as mãos, são R$ 2 milhões a mais de gastos na conta do governo. Se cantar o Hino Nacional, o aumento da despesa governamental será ainda maior. Ou seja, a ampulheta se inverteu: se antes eles estavam ao lado de Dilma, agora, eles buscam é a sobrevivência.
E no Ginásio Nilson Nelson…
Por essa, nem ele esperava. O deputado Romário (PSB-RJ) estava lá, bem sentado e distraído acompanhando o jogo da Seleção de vôlei ontem em Brasília, quando, de repente, sua imagem aparece nos telões. Na hora, o público do ginásio inteiro aplaude e muitos ainda gritam “Romáriôo! Romáriôoo!”. Bem, não era um estádio, mas talvez sirva para deixar dúvidas a respeito da máxima de Nelson Rodrigues de que nos estádios se vaia até minuto de silêncio.
Dilma busca a tudo e a todos para tentar salvar o plebiscito porque, no momento em que os parlamentares deixarem de discutir esse tema, virá uma pauta bem amarga para o Poder Executivo dentro do Congress
domingo, julho 07, 2013
Assombração - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 07/07
BRASÍLIA - Lula já se reuniu com jovens líderes ligados ao PT e desenhou uma assombração: é a "direita" que está borrando a imagem do Brasil no exterior e esborrachando a de Dilma internamente.
Não que Lula não enxergue e não critique os erros na economia, a inabilidade política da pupila e a competência do governo, mas ele precisa construir um culpado, já que ela não pode ser a culpada. Comprometeria a eternização no poder.
Ok. Os críticos são sempre "adversários", adversários são "da elite" e a elite que incomoda é "de direita". A isso a gente já está acostumado. Mas o que é, quem é e que cara tem essa tal nova "direita"?
Democracias comportam tendências de esquerda, centro e direita. Os conservadores estão ganhando ousadia, até impondo uma pauta-retrocesso no Congresso, da "cura gay" ao "Estatuto do Nascituro" e ao cheiro de CPI do aborto no ar. Nada disso, porém, está dando certo, especialmente depois dos protestos de rua. Aliás, a marcha dos evangélicos encolheu 40% em relação a 2012.
E os partidos aliados reclamam de barriga cheia, as empreiteiras estão felizes da vida com Copa e Olimpíada (e jogando um bolão com Lula), os bancos sentiram a marretada nos juros, mas vêm de anos de lucros recordes e esfregam as mãos com o recrudescimento da Selic. Mais: se há alguém feliz com Dilma, é a cúpula do agronegócio.
Que outra "direita" teria organização e discurso capazes de pôr um milhão e meio de pessoas nas ruas contra tudo e contra todos?
Só restaria a Lula carimbar de "direita" a garotada, a classe média, os idosos e os internautas que exigem transporte, educação, saúde, segurança e, sobretudo, respeito. Uma péssima ideia dele, logo quando a cúpula do PT planeja fazer o inverso: infiltrar seus militantes nos movimentos independentes.
A assombração, portanto, não mete medo em ninguém.
BRASÍLIA - Lula já se reuniu com jovens líderes ligados ao PT e desenhou uma assombração: é a "direita" que está borrando a imagem do Brasil no exterior e esborrachando a de Dilma internamente.
Não que Lula não enxergue e não critique os erros na economia, a inabilidade política da pupila e a competência do governo, mas ele precisa construir um culpado, já que ela não pode ser a culpada. Comprometeria a eternização no poder.
Ok. Os críticos são sempre "adversários", adversários são "da elite" e a elite que incomoda é "de direita". A isso a gente já está acostumado. Mas o que é, quem é e que cara tem essa tal nova "direita"?
Democracias comportam tendências de esquerda, centro e direita. Os conservadores estão ganhando ousadia, até impondo uma pauta-retrocesso no Congresso, da "cura gay" ao "Estatuto do Nascituro" e ao cheiro de CPI do aborto no ar. Nada disso, porém, está dando certo, especialmente depois dos protestos de rua. Aliás, a marcha dos evangélicos encolheu 40% em relação a 2012.
E os partidos aliados reclamam de barriga cheia, as empreiteiras estão felizes da vida com Copa e Olimpíada (e jogando um bolão com Lula), os bancos sentiram a marretada nos juros, mas vêm de anos de lucros recordes e esfregam as mãos com o recrudescimento da Selic. Mais: se há alguém feliz com Dilma, é a cúpula do agronegócio.
Que outra "direita" teria organização e discurso capazes de pôr um milhão e meio de pessoas nas ruas contra tudo e contra todos?
Só restaria a Lula carimbar de "direita" a garotada, a classe média, os idosos e os internautas que exigem transporte, educação, saúde, segurança e, sobretudo, respeito. Uma péssima ideia dele, logo quando a cúpula do PT planeja fazer o inverso: infiltrar seus militantes nos movimentos independentes.
A assombração, portanto, não mete medo em ninguém.
O raro silêncio de Lula - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 07/07
Habitualmente muito loquaz e atento a todas as oportunidades para exercitar a vangloria e malhar os adversários, Luiz Inácio Lula da Silva está mudo desde o início das manifestações de rua que há semanas tomaram conta do País, Nos últimos dias, uma oportuna viagem à África tirou-o de circulação.
Enquanto isso, multiplicam-se as evidências de que, pelo menos para parte significativa dos quadros do PT, inclusive alguns solidamente instalados no Palácio do-Planalto, todos de olho em 2014, o "volta Lula", mais do que um apelo nostálgico, é a última esperança de sobrevivência; do tão acalentado projeto de perpetuação no poder.
Lula tem reafirmado que Dilma é sua candidata, portanto, a candidata do PT nas eleições presidenciais do ano que vem. De fato, pelo menos até um mês atrás tudo levava a crer que o encaminhamento natural dos acontecimentos levaria à reeleição de Dilma.
Seria muito difícil explicar politicamente a não candidatura da presidente, mesmo que para ceder o lugar" ao seu mentor. A não ser, é claro, que surgisse um inquestionável motivo de força maior. E essa força maior seria a ameaça iminente à hegemonia político-eleitoral do PT.
Pois a "força maior" está nas ruas. Apesar de o marqueteiro oficial João Santana garantir que em quatro meses Dilma terá recuperado o prestígio que despencou nas últimas semanas, os petistas já colocaram as barbas de molho.
Não os tranquiliza nem o argumento de que Lula conseguiu dar a volta por cima e se reeleger, após o escândalo do mensalão, em 2005, que lhe havia custado uma forte queda nos índices de aprovação popular.
Ocorre que Dilma, ao contrário de seu criador, não tem o menor carisma. E em 2006 o País surfava na onda da estabilidade monetária, crescimento econômico e avanços sociais. Um panorama muito diferente daquele em que está hoje mergulhado em razão, entre muitas outras, da crônica incompetência do governo lulopetista.
Antes mesmo do início das manifestações populares, o "volta Lula" já estava nas ruas. Ainda em abril, antes da aprovação pelo Congresso da MP dos Portos, que Dilma Rousseff sancionou em 5 de maio, um grupo de aproximadamente 200 militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o braço sindicai do PT, marcava sua posição em ato público na Avenida Paulista, ao coro vibrante de "Volta Lula!". Era a expressão de um sentimento que já então se percebia, embora tímido e discreto, nos círculos lulopetistas Brasil afora.
Na quarta-feira passada, em dois ambientes diferentes e em contextos distintos, duas personagens próximas de Lula vocalizaram o mesmo desejo. O cientista político André Singer, antigo porta-voz de Lula na Presidência, respondeu a uma indagação, durante debate na USP, com a afirmação de que, em consequência da queda da popularidade de Dilma, o nome de Lula, como candidato em 2014, está colocado". Singer fez a ressalva de que não estava em condições de afirmar se Lula está ou não disposto ou decidido a ser candidato. E, dizemos nós, muito provavelmente não está.
Por sua vez, o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), cuja devoção a Lula se consubstanciou na tentativa de propor um terceiro mandato consecutivo para o então presidente, que cumpria o segundo, foi bem mais explicito. Depois de criticar abertamente a presidente, afirmando que "o que falta no governo Dilma é gestão, Ribeiro foi categórico: "Já está na hora de o Lula voltar".
É claro que, mesmo a conveniente distância, Lula está perfeitamente a par das manifestações desse queremismo. Que, aliás, é muito compreensível, uma vez que, diante dos últimos acontecimentos, a companheirada vislumbra uma luz no fim do túnel e a identifica como a de uma locomotiva sem freio que ameaça atropelá-los.
Mas Lula dificilmente mete a mão em cumbuca. E não foi por outra razão que, diante do clamor da massa que perdeu a paciência com o governo, ele enfiou a viola no saco e foi cuidar de sua vida em outras paragens. Afinal, a coisa está feia. E ninguém mais do que ele é o culpado pelo que está aí.
Enquanto isso, multiplicam-se as evidências de que, pelo menos para parte significativa dos quadros do PT, inclusive alguns solidamente instalados no Palácio do-Planalto, todos de olho em 2014, o "volta Lula", mais do que um apelo nostálgico, é a última esperança de sobrevivência; do tão acalentado projeto de perpetuação no poder.
Lula tem reafirmado que Dilma é sua candidata, portanto, a candidata do PT nas eleições presidenciais do ano que vem. De fato, pelo menos até um mês atrás tudo levava a crer que o encaminhamento natural dos acontecimentos levaria à reeleição de Dilma.
Seria muito difícil explicar politicamente a não candidatura da presidente, mesmo que para ceder o lugar" ao seu mentor. A não ser, é claro, que surgisse um inquestionável motivo de força maior. E essa força maior seria a ameaça iminente à hegemonia político-eleitoral do PT.
Pois a "força maior" está nas ruas. Apesar de o marqueteiro oficial João Santana garantir que em quatro meses Dilma terá recuperado o prestígio que despencou nas últimas semanas, os petistas já colocaram as barbas de molho.
Não os tranquiliza nem o argumento de que Lula conseguiu dar a volta por cima e se reeleger, após o escândalo do mensalão, em 2005, que lhe havia custado uma forte queda nos índices de aprovação popular.
Ocorre que Dilma, ao contrário de seu criador, não tem o menor carisma. E em 2006 o País surfava na onda da estabilidade monetária, crescimento econômico e avanços sociais. Um panorama muito diferente daquele em que está hoje mergulhado em razão, entre muitas outras, da crônica incompetência do governo lulopetista.
Antes mesmo do início das manifestações populares, o "volta Lula" já estava nas ruas. Ainda em abril, antes da aprovação pelo Congresso da MP dos Portos, que Dilma Rousseff sancionou em 5 de maio, um grupo de aproximadamente 200 militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o braço sindicai do PT, marcava sua posição em ato público na Avenida Paulista, ao coro vibrante de "Volta Lula!". Era a expressão de um sentimento que já então se percebia, embora tímido e discreto, nos círculos lulopetistas Brasil afora.
Na quarta-feira passada, em dois ambientes diferentes e em contextos distintos, duas personagens próximas de Lula vocalizaram o mesmo desejo. O cientista político André Singer, antigo porta-voz de Lula na Presidência, respondeu a uma indagação, durante debate na USP, com a afirmação de que, em consequência da queda da popularidade de Dilma, o nome de Lula, como candidato em 2014, está colocado". Singer fez a ressalva de que não estava em condições de afirmar se Lula está ou não disposto ou decidido a ser candidato. E, dizemos nós, muito provavelmente não está.
Por sua vez, o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), cuja devoção a Lula se consubstanciou na tentativa de propor um terceiro mandato consecutivo para o então presidente, que cumpria o segundo, foi bem mais explicito. Depois de criticar abertamente a presidente, afirmando que "o que falta no governo Dilma é gestão, Ribeiro foi categórico: "Já está na hora de o Lula voltar".
É claro que, mesmo a conveniente distância, Lula está perfeitamente a par das manifestações desse queremismo. Que, aliás, é muito compreensível, uma vez que, diante dos últimos acontecimentos, a companheirada vislumbra uma luz no fim do túnel e a identifica como a de uma locomotiva sem freio que ameaça atropelá-los.
Mas Lula dificilmente mete a mão em cumbuca. E não foi por outra razão que, diante do clamor da massa que perdeu a paciência com o governo, ele enfiou a viola no saco e foi cuidar de sua vida em outras paragens. Afinal, a coisa está feia. E ninguém mais do que ele é o culpado pelo que está aí.
Sinais negativos para os potenciais investidores - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 07/07
Mesmo com o baixo crescimento dos últimos anos, a economia brasileira ainda tem enorme demanda reprimida em alguns segmentos, especialmente os de infraestrutura. Mobilizar investimentos para atender a essa demanda já seria, por si só, uma alavanca capaz de impulsionar a economia como um todo, sem necessidade de malabarismos para manter o consumo artificialmente aquecido, o que já se mostrou, na prática, uma política insustentável.
O setor público tem não só sérias limitações financeiras como gerenciais, para conduzir os investimentos que lhe caberiam. E esse quadro é agravado porque o Estado também se mete onde sua presença não se faz mais necessária, pois há capitais disponíveis ou atraídos pelos mercados privados, em condições de cumprir esse papel, por meio de concessões ou alienação de companhias estatais.
Serviços públicos sob regime de concessão geralmente são regulados por significarem quase sempre monopólios naturais ou decorrentes de antigas estruturas estatais. É o caso de segmentos de transporte, do saneamento básico, da energia elétrica, telecomunicações, gás natural, petróleo, etc. O PT rejeitou, por motivos ideológicos, a alternativa das concessões, ao assumir o poder, porque fez da luta contra as privatizações uma das suas principais bandeiras políticas. Mas teve que se render ao óbvio e retomou, à sua maneira, e ainda que timidamente, os processos licitatórios. Mas, diante da constatação que é preciso estimular vigorosamente investimentos para a economia brasileira voltar a crescer, o governo Dilma agora pôs o pé no acelerador, o que é louvável, nas concessões. E espera chegar ao fim do mandato com uma série de novos contratos que repassarão ao setor privado a administração de aeroportos, rodovias, ferrovias, áreas onde possam existir reservas de petróleo e gás, e condicionando-os a exigências de investimentos. Estão em jogo centenas de bilhões de reais.
Muitas das premissas que balizam essas exigências são discutíveis, mas o investidor tem condições de avaliar se, diante delas, vale a pena correr o risco ou não. Riscos econômicos e financeiros fazem parte do jogo, mas o terrível é quando são amplificados pela insegurança regulatória.
Como resposta aos manifestantes, autoridades de todos os níveis de governo vêm pondo em xeque regras de contratos em vigor, suspendendo reajustes, já autorizados, de tarifas de transporte, energia elétrica, água e esgotos, e postergando outros mais. A conta acabará no bolso do contribuinte, e da pior forma possível, que é a do subsídio, nem sempre perceptível para a sociedade. O sinal transmitido aos potenciais candidatos às concessões é negativo. Com tantos riscos envolvidos, e acrescidos de mais esses, o número de interessados pode se reduzir, e quem deixará de ser beneficiada de uma salutar competição nas licitações é a população - pretensamente favorecida por medidas demagógicas tomadas por governantes.
O setor público tem não só sérias limitações financeiras como gerenciais, para conduzir os investimentos que lhe caberiam. E esse quadro é agravado porque o Estado também se mete onde sua presença não se faz mais necessária, pois há capitais disponíveis ou atraídos pelos mercados privados, em condições de cumprir esse papel, por meio de concessões ou alienação de companhias estatais.
Serviços públicos sob regime de concessão geralmente são regulados por significarem quase sempre monopólios naturais ou decorrentes de antigas estruturas estatais. É o caso de segmentos de transporte, do saneamento básico, da energia elétrica, telecomunicações, gás natural, petróleo, etc. O PT rejeitou, por motivos ideológicos, a alternativa das concessões, ao assumir o poder, porque fez da luta contra as privatizações uma das suas principais bandeiras políticas. Mas teve que se render ao óbvio e retomou, à sua maneira, e ainda que timidamente, os processos licitatórios. Mas, diante da constatação que é preciso estimular vigorosamente investimentos para a economia brasileira voltar a crescer, o governo Dilma agora pôs o pé no acelerador, o que é louvável, nas concessões. E espera chegar ao fim do mandato com uma série de novos contratos que repassarão ao setor privado a administração de aeroportos, rodovias, ferrovias, áreas onde possam existir reservas de petróleo e gás, e condicionando-os a exigências de investimentos. Estão em jogo centenas de bilhões de reais.
Muitas das premissas que balizam essas exigências são discutíveis, mas o investidor tem condições de avaliar se, diante delas, vale a pena correr o risco ou não. Riscos econômicos e financeiros fazem parte do jogo, mas o terrível é quando são amplificados pela insegurança regulatória.
Como resposta aos manifestantes, autoridades de todos os níveis de governo vêm pondo em xeque regras de contratos em vigor, suspendendo reajustes, já autorizados, de tarifas de transporte, energia elétrica, água e esgotos, e postergando outros mais. A conta acabará no bolso do contribuinte, e da pior forma possível, que é a do subsídio, nem sempre perceptível para a sociedade. O sinal transmitido aos potenciais candidatos às concessões é negativo. Com tantos riscos envolvidos, e acrescidos de mais esses, o número de interessados pode se reduzir, e quem deixará de ser beneficiada de uma salutar competição nas licitações é a população - pretensamente favorecida por medidas demagógicas tomadas por governantes.
Retomada - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 07/07
Ainda que, até agora, pouco tenha sido feito de proveitoso, protestos levaram políticos a procurar respostas para demandas das ruas
Pior seria se não tivesse havido resposta nenhuma. De forma confusa, precipitada ou insuficiente, mas ainda assim real, os governantes e o sistema político brasileiro procuraram reagir à maré de descontentamento que se revelou nas manifestações do último mês.
Seria cedo para entrar num espírito triunfalista, entretanto. Nem o desejo dos manifestantes nem a ação administrativa são capazes de tudo. O tempo das reivindicações não é o tempo das medidas de governo, e o tempo das medidas de governo não é o dos processos sociais de horizonte distante.
Ainda assim, o curto prazo contabilizou vários êxitos, surpresas e mudanças desde que as manifestações, inicialmente minoritárias e em torno de bandeiras irrealistas, foram ganhando adeptos e causas em grande monta.
A primeira surpresa --e o primeiro êxito-- deu-se quando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) concordaram no que dias antes parecia impensável: a revogação no aumento das tarifas de ônibus e metrô em São Paulo.
Vitória incontestável do movimento, ainda que de consequências no mínimo ambíguas para a sociedade --que deverá arcar com algum atraso nos investimentos pela guinada decisória imposta pelas ruas.
Apesar de súbita, a reversão do aumento das tarifas veio tarde. Superada a bandeira inicial, as manifestações ainda ganhavam ímpeto.
A luta contra a PEC 37 teve o condão de resumir, numa sigla até há pouco tempo acessível apenas aos iniciados do meio jurídico e legislativo, a aspiração geral de dar fim à corrupção e à impunidade no país.
Pretendendo restringir a atuação do Ministério Público na investigação criminal, a proposta de emenda constitucional caiu num sopro. Foram 430 votos contra 9, numa sessão parlamentar marcada por comemorações e pelo cinismo de quem antes apoiava a iniciativa.
Com igual velocidade fez-se o funeral da pretensa "cura gay". A retrógrada medida legislativa --que autorizaria o tratamento para a homossexualidade, consagrando o preconceito e abrindo espaço para charlatães-- foi arquivada, não sem antes dar notoriedade ao folclórico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
Os parlamentares, é claro, não trataram apenas de derrubar propostas impróprias. Puseram em curso uma hiperatividade legislativa talvez nunca antes vista.
Ainda que deputados e senadores estivessem acostumados ao ritmo acelerado de trabalho, a sociedade não estaria livre de ver transformadas em lei ideias que, com a devida reflexão, terminariam abandonadas ou ao menos modificadas.
Um projeto que transforma a corrupção em crime hediondo, por exemplo, não vai além do populismo barato na esfera punitiva, mas contribui para tornar ainda menos coerente o sistema penal.
Há ainda projetos que embutem riscos nada desprezíveis para as finanças públicas. Inscrevem-se nesse rol a mudança do indexador das dívidas de Estados e municípios com a União e a proposta de destinar, de maneira obrigatória, 10% do PIB para a educação.
Se o país amanheceu menos atrasado, menos empulhado, mais criativo e livre depois desses dias --quando surgiam, com humor e improviso, cartazes e lemas novos a cada manifestação-, é verdade que os motivos mais profundos da insatisfação popular não poderiam ter resposta tão pronta quanto as que se acertaram para esses temas pontuais.
A crise do sistema de representação política está ainda por ser resolvida -e tudo indica que não o será de pronto. Mas o senso de pressa, que veio das ruas e ocasionou uma sucessão de deslizes da Presidência da República, impõe-se sobre o Congresso Nacional. Ainda que não já em 2014, a revisão das regras eleitorais ganhou força no debate público.
Muito pouco se fez no que seria mais simbólico e menos polêmico no momento: a diminuição dos ministérios, dos cargos de confiança, dos privilégios que os acompanham. Não só no Executivo federal, mas em todos os níveis da administração, esse passo se impõe.
Mobilidade urbana, educação, saúde: também aqui o Planalto costurou o que tinha, a fim de apresentar alguma coisa em vez de nada. No nível estadual e municipal, viu-se menos do que isso.
O país quer mais. O país quer tudo, é verdade -e não é realista achar que tudo esteja ao alcance da mão, agora, sem custo nenhum.
Inegável, entretanto, é ter conquistado algo mais importante: retoma, de pleno e de fato, o seu vigor político -que a ação conjunta de mistificadores, oportunistas e parasitas de todos os partidos entorpecia havia duas décadas.
Ainda que, até agora, pouco tenha sido feito de proveitoso, protestos levaram políticos a procurar respostas para demandas das ruas
Pior seria se não tivesse havido resposta nenhuma. De forma confusa, precipitada ou insuficiente, mas ainda assim real, os governantes e o sistema político brasileiro procuraram reagir à maré de descontentamento que se revelou nas manifestações do último mês.
Seria cedo para entrar num espírito triunfalista, entretanto. Nem o desejo dos manifestantes nem a ação administrativa são capazes de tudo. O tempo das reivindicações não é o tempo das medidas de governo, e o tempo das medidas de governo não é o dos processos sociais de horizonte distante.
Ainda assim, o curto prazo contabilizou vários êxitos, surpresas e mudanças desde que as manifestações, inicialmente minoritárias e em torno de bandeiras irrealistas, foram ganhando adeptos e causas em grande monta.
A primeira surpresa --e o primeiro êxito-- deu-se quando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) concordaram no que dias antes parecia impensável: a revogação no aumento das tarifas de ônibus e metrô em São Paulo.
Vitória incontestável do movimento, ainda que de consequências no mínimo ambíguas para a sociedade --que deverá arcar com algum atraso nos investimentos pela guinada decisória imposta pelas ruas.
Apesar de súbita, a reversão do aumento das tarifas veio tarde. Superada a bandeira inicial, as manifestações ainda ganhavam ímpeto.
A luta contra a PEC 37 teve o condão de resumir, numa sigla até há pouco tempo acessível apenas aos iniciados do meio jurídico e legislativo, a aspiração geral de dar fim à corrupção e à impunidade no país.
Pretendendo restringir a atuação do Ministério Público na investigação criminal, a proposta de emenda constitucional caiu num sopro. Foram 430 votos contra 9, numa sessão parlamentar marcada por comemorações e pelo cinismo de quem antes apoiava a iniciativa.
Com igual velocidade fez-se o funeral da pretensa "cura gay". A retrógrada medida legislativa --que autorizaria o tratamento para a homossexualidade, consagrando o preconceito e abrindo espaço para charlatães-- foi arquivada, não sem antes dar notoriedade ao folclórico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
Os parlamentares, é claro, não trataram apenas de derrubar propostas impróprias. Puseram em curso uma hiperatividade legislativa talvez nunca antes vista.
Ainda que deputados e senadores estivessem acostumados ao ritmo acelerado de trabalho, a sociedade não estaria livre de ver transformadas em lei ideias que, com a devida reflexão, terminariam abandonadas ou ao menos modificadas.
Um projeto que transforma a corrupção em crime hediondo, por exemplo, não vai além do populismo barato na esfera punitiva, mas contribui para tornar ainda menos coerente o sistema penal.
Há ainda projetos que embutem riscos nada desprezíveis para as finanças públicas. Inscrevem-se nesse rol a mudança do indexador das dívidas de Estados e municípios com a União e a proposta de destinar, de maneira obrigatória, 10% do PIB para a educação.
Se o país amanheceu menos atrasado, menos empulhado, mais criativo e livre depois desses dias --quando surgiam, com humor e improviso, cartazes e lemas novos a cada manifestação-, é verdade que os motivos mais profundos da insatisfação popular não poderiam ter resposta tão pronta quanto as que se acertaram para esses temas pontuais.
A crise do sistema de representação política está ainda por ser resolvida -e tudo indica que não o será de pronto. Mas o senso de pressa, que veio das ruas e ocasionou uma sucessão de deslizes da Presidência da República, impõe-se sobre o Congresso Nacional. Ainda que não já em 2014, a revisão das regras eleitorais ganhou força no debate público.
Muito pouco se fez no que seria mais simbólico e menos polêmico no momento: a diminuição dos ministérios, dos cargos de confiança, dos privilégios que os acompanham. Não só no Executivo federal, mas em todos os níveis da administração, esse passo se impõe.
Mobilidade urbana, educação, saúde: também aqui o Planalto costurou o que tinha, a fim de apresentar alguma coisa em vez de nada. No nível estadual e municipal, viu-se menos do que isso.
O país quer mais. O país quer tudo, é verdade -e não é realista achar que tudo esteja ao alcance da mão, agora, sem custo nenhum.
Inegável, entretanto, é ter conquistado algo mais importante: retoma, de pleno e de fato, o seu vigor político -que a ação conjunta de mistificadores, oportunistas e parasitas de todos os partidos entorpecia havia duas décadas.
Concordo, mas não é comigo - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 07/07
Deve-se prestar atenção na expressiva parcela de jovens empobrecidos nos protestos
As pesquisas sobre o perfil dos participantes das manifestações de rua têm deixado os brasileiros boquiabertos. Com razão. Os dados revelam concordância maciça com os protestos, pondo a nocaute a imagem de país apático, deitado em seu berço esplêndido de problemas. Os índices confirmam também que boa parcela dos manifestantes vem das classes médias, contrariando a máxima de que esse grupo não sabe o que é pegar ônibus nem dar valor a R$ 0,20. Essa leitura ligeira, contudo, corre o risco de reduzir o movimento a algo juvenil e conservador, impedindo de ver o que os fatos podem nos revelar para além dos rótulos.
Há outros dados que precisam ser colocados com urgência na planilha. Tomando como base pesquisas do DataFolha, Ibope, Data Popular e Paraná Pesquisas, pode-se afirmar com alguma segurança que quase metade dos manifestantes estrearam agora na passeata, inaugurando uma prática social em suas vidas. Outro dado de ponta é que a convocação se deu pelas redes sociais, o que põe de orelha em pé as instituições, como a família, as igrejas, as escolas e, claro, a imprensa. O grito de alerta vem de outro lugar, sem forma e sem tradição.
Por fim, há um filtro de renda e escolaridade alta em parte expressiva dos manifestantes. É o bastante para saber que a classe média anda nos cascos e que, com índices para cima de 89% (Ibope), não se sente representada por ninguém: 2014 promete.
Dois sintomas revelados nas pesquisas feitas até agora merecem atenção. Está nas entrelinhas dos que apoiam as manifestações, mas que não saíram às ruas, uma suspeita já expressa em aferições de outra natureza. É como se essas pessoas dissessem algo como “entendo, reconheço, mas esse problema não é meu”. Um exemplo de escapismo semelhante aparece na pesquisa de índices de felicidade feita pelo DataFolha em 2006. As pessoas se diziam felizes, mas afirmavam que os outros não eram.
Os especialistas viram nessa contradição um filtro social. Apesar do anonimato da pesquisa, muita gente se nega a creditar a si mesmo algo de negativo, ou a se nivelar com grupos que considera inferiores. Parece haver sintoma semelhante em meio às manifestações – os insatisfeitos devem ir para as ruas, dizem os números, “mas não sou um deles”, afirma a maioria. Ora, a dedução é de que os descontentes são os outros. Resta tornar público quem são esses outros, sob perigo de a conversa cair no vazio. E por que a classe média está lá (são os 81% de liberais e conservadores indicados pelo DataFolha)? Por solidariedade à classe operária? Estamos diante de uma histeria coletiva de fogo de palha?
Apesar do layout marcante dos jovens ativistas – garotos descolados que parecem recém-chegados de Amsterdã –, as pesquisas mostram que o levante é sobretudo dos jovens da classe emergente. Passou o tempo em que vestiam chinelas de dedo e camisetas de postos de gasolina, daí parecerem ausentes. Esse foi um grupo parcialmente atendido pelos governos nas últimas décadas. De qualquer modo, o descaso se tornou criminoso. Sabe-se, e não é de hoje, do bônus demográfico. Ou o país investia na adolescência e juventude ou não veria desenvolvimento nenhum. Sim, aumentaram as vagas nas faculdades classe C, como se diz, fazendo a população universitária saltar para 13%. Mas não se verificaram melhoras na qualidade do ensino médio e, muito menos, um projeto social para que a sociedade se engajasse de fato na promoção da juventude mais à margem.
O resultado desse tropeço tende a ser nefasto. De acordo com dados do Instituto Data Popular, 30% da classe C é formada por jovens; chegam a 41% das classes D e E. Sem escola de qualidade, limitado pelo sistema de ônibus – portanto, longe dos equipamentos culturais –, parte desse grupo perdeu o bonde da história. Enquanto isso, preferiu-se carros novos na rua, dando impressão de que pode haver reviravolta econômica sem reviravolta cultural.
Estamos tentando entender o que os jovens bem nascidos faziam nas ruas – uma nova revolução burguesa, como a da década de 1960? O tempo dirá. Quanto aos mais de 40% empobrecidos ali presentes, é fácil entender do que reclamam. Resta saber agora se um projeto de verdade em prol da juventude consegue nascer nos bastidores de Brasília. E com que cara quem deixou a caravana passar vai se explicar para 42 milhões de eleitores que tinham tudo pela frente.
Deve-se prestar atenção na expressiva parcela de jovens empobrecidos nos protestos
As pesquisas sobre o perfil dos participantes das manifestações de rua têm deixado os brasileiros boquiabertos. Com razão. Os dados revelam concordância maciça com os protestos, pondo a nocaute a imagem de país apático, deitado em seu berço esplêndido de problemas. Os índices confirmam também que boa parcela dos manifestantes vem das classes médias, contrariando a máxima de que esse grupo não sabe o que é pegar ônibus nem dar valor a R$ 0,20. Essa leitura ligeira, contudo, corre o risco de reduzir o movimento a algo juvenil e conservador, impedindo de ver o que os fatos podem nos revelar para além dos rótulos.
Há outros dados que precisam ser colocados com urgência na planilha. Tomando como base pesquisas do DataFolha, Ibope, Data Popular e Paraná Pesquisas, pode-se afirmar com alguma segurança que quase metade dos manifestantes estrearam agora na passeata, inaugurando uma prática social em suas vidas. Outro dado de ponta é que a convocação se deu pelas redes sociais, o que põe de orelha em pé as instituições, como a família, as igrejas, as escolas e, claro, a imprensa. O grito de alerta vem de outro lugar, sem forma e sem tradição.
Por fim, há um filtro de renda e escolaridade alta em parte expressiva dos manifestantes. É o bastante para saber que a classe média anda nos cascos e que, com índices para cima de 89% (Ibope), não se sente representada por ninguém: 2014 promete.
Dois sintomas revelados nas pesquisas feitas até agora merecem atenção. Está nas entrelinhas dos que apoiam as manifestações, mas que não saíram às ruas, uma suspeita já expressa em aferições de outra natureza. É como se essas pessoas dissessem algo como “entendo, reconheço, mas esse problema não é meu”. Um exemplo de escapismo semelhante aparece na pesquisa de índices de felicidade feita pelo DataFolha em 2006. As pessoas se diziam felizes, mas afirmavam que os outros não eram.
Os especialistas viram nessa contradição um filtro social. Apesar do anonimato da pesquisa, muita gente se nega a creditar a si mesmo algo de negativo, ou a se nivelar com grupos que considera inferiores. Parece haver sintoma semelhante em meio às manifestações – os insatisfeitos devem ir para as ruas, dizem os números, “mas não sou um deles”, afirma a maioria. Ora, a dedução é de que os descontentes são os outros. Resta tornar público quem são esses outros, sob perigo de a conversa cair no vazio. E por que a classe média está lá (são os 81% de liberais e conservadores indicados pelo DataFolha)? Por solidariedade à classe operária? Estamos diante de uma histeria coletiva de fogo de palha?
Apesar do layout marcante dos jovens ativistas – garotos descolados que parecem recém-chegados de Amsterdã –, as pesquisas mostram que o levante é sobretudo dos jovens da classe emergente. Passou o tempo em que vestiam chinelas de dedo e camisetas de postos de gasolina, daí parecerem ausentes. Esse foi um grupo parcialmente atendido pelos governos nas últimas décadas. De qualquer modo, o descaso se tornou criminoso. Sabe-se, e não é de hoje, do bônus demográfico. Ou o país investia na adolescência e juventude ou não veria desenvolvimento nenhum. Sim, aumentaram as vagas nas faculdades classe C, como se diz, fazendo a população universitária saltar para 13%. Mas não se verificaram melhoras na qualidade do ensino médio e, muito menos, um projeto social para que a sociedade se engajasse de fato na promoção da juventude mais à margem.
O resultado desse tropeço tende a ser nefasto. De acordo com dados do Instituto Data Popular, 30% da classe C é formada por jovens; chegam a 41% das classes D e E. Sem escola de qualidade, limitado pelo sistema de ônibus – portanto, longe dos equipamentos culturais –, parte desse grupo perdeu o bonde da história. Enquanto isso, preferiu-se carros novos na rua, dando impressão de que pode haver reviravolta econômica sem reviravolta cultural.
Estamos tentando entender o que os jovens bem nascidos faziam nas ruas – uma nova revolução burguesa, como a da década de 1960? O tempo dirá. Quanto aos mais de 40% empobrecidos ali presentes, é fácil entender do que reclamam. Resta saber agora se um projeto de verdade em prol da juventude consegue nascer nos bastidores de Brasília. E com que cara quem deixou a caravana passar vai se explicar para 42 milhões de eleitores que tinham tudo pela frente.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Não está quebrada. Digamos que desafinou um pouco”
José Guimarães, Líder do PT sobre a base de apoio ao governo no Congresso
BASE DE AÉCIO EM MINAS TORRA GRANA PÚBLICA
O senador Aécio Neves (PSDB), postulante ao cargo de candidato à Presidência, mantém alugado um escritório político em seu Estado natal de Minas Gerais que custa R$ 16,5 mil por mês aos contribuintes. Entre os gastos estão o aluguel (R$ 8.362) e o condomínio (R$ 719), além de telefone fixo, celular, internet, material de escritório e até segurança 24h, além de tributos e impostos. Tudo na nossa conta.
E A INTERNET?
Só em despesas de jornais e revistas, o escritório político de Aécio Neves em Minas Gerais gasta cerca de R$ 220 por mês.
VOU DE TÁXI
A assessora Maria Heloísa Cardoso Neves é recordista entre os gastos com táxi no gabinete de Aécio Neves: cerca de R$ 1.000 por mês.
COM JEITO, VAI
“Aparelhada” desde a redemocratização, a FAB tem 15 sofisticados aviões para transporte de autoridades, mas não tem caças modernos.
CARONAS DA FAB GANHAM ‘PIZZA’ DE SOBREMESA
Políticos, seus amigos e agregados podem apertar o cinto para voar sem medo: apenas um ex-ministro, já falecido, foi condenado por improbidade administrativa por voos particulares em aviões da FAB, e obrigado a devolver R$ 25 mil: Clóvis Carvalho (Casa Civil) no governo Fernando Henrique. A prática disseminada nos últimos 20 anos se beneficia de uma firula legal que dissolve a má-fé na “praxe legal”.
LOCUPLETEMOS
O ex-chanceler de FHC, Luiz Felipe Lampréia, escapou na Justiça de improbidade, após fim de semana em Fernando de Noronha.
UNIÃO DA ILHA
Ex-ministro de FHC, Ronaldo Sardenberg foi absolvido de dano ao erário por usar aviões da FAB e ficar em hotel militar com família.
NO RADAR
O Supremo Tribunal Federal ainda não julgou ação contra o ex-ministro de FHC, Raul Jungman (PPS-PE), por carona indevida na FAB.
VALE-TRANSPORTE
Não é a toa que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acha viável implantar o passe livre no país. Segundo estudos, 80% das passagens de transporte público hoje são pagas pelo empregador.
REFÉM BOLIVIANO
Asilado há 14 meses na Embaixada do Brasil em La Paz, o senador de oposição, Roger Pinto, apelou ao presidente do Peru, Ollanta Humala, na Unasul, para que o presidente Evo Morales dê o salvo-conduto.
DISTRAÇÃO
Presidente do Instituto Teotônio Vilela, Sérgio Guerra (PSDB) defende que a oposição afine o discurso sobre uma proposta comum de reforma política: “Esse plebiscito da Dilma foi só para tirar foco da crise”, critica.
SOB CENSURA
Diretores da associação de servidores da Agência Nacional de Petróleo respondem a processo administrativo instaurado pela diretora do órgão, Magda Chambriard, por terem noticiado multa e processos contra OGX.
EM DIA
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) estava no cartório eleitoral de Londrina na sexta à tarde, para fazer seu recadastramento biométrico.
O VALOR DO PREÇO
O Tribunal Regional Federal da 2ª Região vai pagar R$ 36,2 mil à Fundação Getulio Vargas, por três dias do curso “Pesquisa de Preço nas Compras Governamentais”. Preço da notória especialização.
CULTURA INÚTIL
Aos grandes enigmas juntam-se dois: a investigação da Polícia Federal sobre o boato do fim do Bolsa Família e supostos € 25 milhões que Rose Noronha, a “assessora” de Lula, teria depositado em Portugal.
TUDO PELA...
Após derrotar a PEC 37, o Ministério Público agora tenta impedir a PEC 75, que prevê a demissão de membros por meio de processo administrativo no Conselho Nacional, sem depender de decisão judicial.
... CORPORAÇÃO
Procuradores espalham, nos corredores do Congresso, que a medida não passa de retaliação do autor, senador Humberto Costa (PT-PE), investigado pelo Ministério Público no Escândalo dos Sanguessugas.
NÃO CUSTA LEMBRAR
O primeiro-ministro da Noruega viaja pela Europa sozinho, sem segurança, em avião de carreira, com um laptop. Povo esquisito...
PODER SEM PUDOR
ERA SÓ UM GAROTÃO
O deputado Miguel Arraes (PSB-PE) tinha 86 anos quando ainda perguntavam quando ele pretendia se aposentar. E sempre recordava o dia em que tentaram convencê-lo a não se candidatar a governador aos 77 anos, em 1993. Arraes respondeu:
- Vou pensar sobre isso. Mas só tomo a decisão depois...
- Depois de quê, deputado?
- ...depois de falar com a minha mãe.
José Guimarães, Líder do PT sobre a base de apoio ao governo no Congresso
BASE DE AÉCIO EM MINAS TORRA GRANA PÚBLICA
O senador Aécio Neves (PSDB), postulante ao cargo de candidato à Presidência, mantém alugado um escritório político em seu Estado natal de Minas Gerais que custa R$ 16,5 mil por mês aos contribuintes. Entre os gastos estão o aluguel (R$ 8.362) e o condomínio (R$ 719), além de telefone fixo, celular, internet, material de escritório e até segurança 24h, além de tributos e impostos. Tudo na nossa conta.
E A INTERNET?
Só em despesas de jornais e revistas, o escritório político de Aécio Neves em Minas Gerais gasta cerca de R$ 220 por mês.
VOU DE TÁXI
A assessora Maria Heloísa Cardoso Neves é recordista entre os gastos com táxi no gabinete de Aécio Neves: cerca de R$ 1.000 por mês.
COM JEITO, VAI
“Aparelhada” desde a redemocratização, a FAB tem 15 sofisticados aviões para transporte de autoridades, mas não tem caças modernos.
CARONAS DA FAB GANHAM ‘PIZZA’ DE SOBREMESA
Políticos, seus amigos e agregados podem apertar o cinto para voar sem medo: apenas um ex-ministro, já falecido, foi condenado por improbidade administrativa por voos particulares em aviões da FAB, e obrigado a devolver R$ 25 mil: Clóvis Carvalho (Casa Civil) no governo Fernando Henrique. A prática disseminada nos últimos 20 anos se beneficia de uma firula legal que dissolve a má-fé na “praxe legal”.
LOCUPLETEMOS
O ex-chanceler de FHC, Luiz Felipe Lampréia, escapou na Justiça de improbidade, após fim de semana em Fernando de Noronha.
UNIÃO DA ILHA
Ex-ministro de FHC, Ronaldo Sardenberg foi absolvido de dano ao erário por usar aviões da FAB e ficar em hotel militar com família.
NO RADAR
O Supremo Tribunal Federal ainda não julgou ação contra o ex-ministro de FHC, Raul Jungman (PPS-PE), por carona indevida na FAB.
VALE-TRANSPORTE
Não é a toa que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acha viável implantar o passe livre no país. Segundo estudos, 80% das passagens de transporte público hoje são pagas pelo empregador.
REFÉM BOLIVIANO
Asilado há 14 meses na Embaixada do Brasil em La Paz, o senador de oposição, Roger Pinto, apelou ao presidente do Peru, Ollanta Humala, na Unasul, para que o presidente Evo Morales dê o salvo-conduto.
DISTRAÇÃO
Presidente do Instituto Teotônio Vilela, Sérgio Guerra (PSDB) defende que a oposição afine o discurso sobre uma proposta comum de reforma política: “Esse plebiscito da Dilma foi só para tirar foco da crise”, critica.
SOB CENSURA
Diretores da associação de servidores da Agência Nacional de Petróleo respondem a processo administrativo instaurado pela diretora do órgão, Magda Chambriard, por terem noticiado multa e processos contra OGX.
EM DIA
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) estava no cartório eleitoral de Londrina na sexta à tarde, para fazer seu recadastramento biométrico.
O VALOR DO PREÇO
O Tribunal Regional Federal da 2ª Região vai pagar R$ 36,2 mil à Fundação Getulio Vargas, por três dias do curso “Pesquisa de Preço nas Compras Governamentais”. Preço da notória especialização.
CULTURA INÚTIL
Aos grandes enigmas juntam-se dois: a investigação da Polícia Federal sobre o boato do fim do Bolsa Família e supostos € 25 milhões que Rose Noronha, a “assessora” de Lula, teria depositado em Portugal.
TUDO PELA...
Após derrotar a PEC 37, o Ministério Público agora tenta impedir a PEC 75, que prevê a demissão de membros por meio de processo administrativo no Conselho Nacional, sem depender de decisão judicial.
... CORPORAÇÃO
Procuradores espalham, nos corredores do Congresso, que a medida não passa de retaliação do autor, senador Humberto Costa (PT-PE), investigado pelo Ministério Público no Escândalo dos Sanguessugas.
NÃO CUSTA LEMBRAR
O primeiro-ministro da Noruega viaja pela Europa sozinho, sem segurança, em avião de carreira, com um laptop. Povo esquisito...
PODER SEM PUDOR
ERA SÓ UM GAROTÃO
O deputado Miguel Arraes (PSB-PE) tinha 86 anos quando ainda perguntavam quando ele pretendia se aposentar. E sempre recordava o dia em que tentaram convencê-lo a não se candidatar a governador aos 77 anos, em 1993. Arraes respondeu:
- Vou pensar sobre isso. Mas só tomo a decisão depois...
- Depois de quê, deputado?
- ...depois de falar com a minha mãe.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: EUA espionaram milhões de e-mails e ligações de brasileiros
- Folha: Popularidade em baixa de Dilma freia alianças para 2014
- Estadão: Dilma vê risco de desmanche da base em ano pré-eleitoral
- Correio: A reforma política que dorme no Congresso
- Estado de Minas: O País das mordomias
- Jornal do Commercio: Fim da greve dos motoristas
- Zero Hora: Por que a reforma política emperrou
sábado, julho 06, 2013
Aumenta o risco de populismo - GUSTAVO LOYOLA
O ESTADÃO - 06/07
As manifestações que tomaram conta das ruas nas últimas semanas não são por si sós um elemento de risco para a economia brasileira. Ao contrário, mostram a vitalidade da sociedade e podem ser elemento essencial ao aperfeiçoamento das instituições no País. Porém, o que deve ser temido é a qualidade da resposta dos políticos eleitos às legítimas demandas da sociedade vocalizadas nas diversas manifestações que tiveram lugar nas principais cidades brasileiras. O maior risco é o apelo ao populismo econômico como forma de calar, ainda que de forma precária e temporária, a voz do povo das ruas. Nesse sentido, o congelamento das tarifas de ônibus, metrô, trens e dos pedágios é um mau augúrio.
Não é necessária muita sabedoria e discernimento para antecipar o futuro sombrio do transporte urbano que resultaria da prática continuada de subsídios generalizados ou da manutenção das tarifas em patamares não realistas. A má qualidade do transporte nas principais cidades brasileiras é fruto direto da insuficiência de investimento público e privado ao longo das últimas décadas. De fato, há problemas de toda sorte no relacionamento dos governos estaduais e prefeituras com os concessionários de serviços públicos, mas não se pode correr o risco do sucateamento de um serviço já deficiente com a cobrança de tarifas irrealistas que inviabilizem investimentos adicionais no setor.
Vale ressaltar que é possível subsidiar de maneira racional, sustentável e transparente o transporte público. Mas há condições essenciais para tanto. Tais subsídios devem se adequar à capacidade fiscal do governo e se direcionar para grupos da sociedade que de fato necessitam dele. Hoje em dia, uma parte relevante dos usuários do transporte coletivo se beneficia do vale-transporte pago pelos empregadores ou já conta com isenções, como é o caso dos idosos. Desse modo, não parece indicado o congelamento do preço da passagem, mesmo que com eventual aumento dos repasses de recursos pelas prefeituras às empresas como forma de compensação.
No caso dos pedágios, foi equivocada a decisão do governo paulista de não aplicar os reajustes programados, ainda que sem prejuízo para as empresas concessionárias, pois os ônus da medida foram assumidos pelo setor público. As melhores estradas brasileiras são justamente aquelas que estão sob concessão e a manutenção das regras do jogo é fundamental para que investimentos privados continuem fluindo para o setor, notadamente quando há em jogo um amplo e oportuno programa de concessões patrocinado pelo governo federal. Por óbvio, é necessária a devida transparência nos contratos e a existência de mecanismos que evitem a cobrança de preços abusivos. Contudo, tais cuidados não podem desaguar em aumento de incertezas para os empreendedores privados. Nesse contexto, a sinalização representada pela medida foi negativa, pois trouxe à tona a possibilidade de que, no futuro, medidas assemelhadas possam impactar os concessionários e não apenas o erário.
Por outro lado, há também implicações sérias do populismo tarifário sobre as contas públicas, notadamente numa situação de graves dificuldades para o aumento do investimento público em infraestrutura. Por exemplo, na região metropolitana de São Paulo, está em marcha um gigantesco e louvável esforço do governo do Estado para ampliar a rede do metrô. Tal esforço somente poderá ser levado a cabo e ampliado para outras linhas caso haja um mínimo de equilíbrio na operação do sistema, sob pena de os prejuízos engolirem toda a capacidade de investimento do governo, sem contar os riscos de degradação da qualidade dos serviços.
Desse modo, a resposta das autoridades, das três esferas de governo, às demandas da sociedade não deve implicar o agravamento de uma situação que já é complicada no que tange à mobilidade urbana e à infraestrutura em geral. No caso específico dos transportes urbanos, parece-me que o estopim das manifestações teve muito mais a ver com a persistente má qualidade dos serviços do que com o preço da tarifa, muito embora a aceleração inflacionária recente - que deveria ter sido oportuna e adequadamente atacada pela política macroeconômica - tenha desempenhado um papel relevante na insatisfação popular.
As manifestações que tomaram conta das ruas nas últimas semanas não são por si sós um elemento de risco para a economia brasileira. Ao contrário, mostram a vitalidade da sociedade e podem ser elemento essencial ao aperfeiçoamento das instituições no País. Porém, o que deve ser temido é a qualidade da resposta dos políticos eleitos às legítimas demandas da sociedade vocalizadas nas diversas manifestações que tiveram lugar nas principais cidades brasileiras. O maior risco é o apelo ao populismo econômico como forma de calar, ainda que de forma precária e temporária, a voz do povo das ruas. Nesse sentido, o congelamento das tarifas de ônibus, metrô, trens e dos pedágios é um mau augúrio.
Não é necessária muita sabedoria e discernimento para antecipar o futuro sombrio do transporte urbano que resultaria da prática continuada de subsídios generalizados ou da manutenção das tarifas em patamares não realistas. A má qualidade do transporte nas principais cidades brasileiras é fruto direto da insuficiência de investimento público e privado ao longo das últimas décadas. De fato, há problemas de toda sorte no relacionamento dos governos estaduais e prefeituras com os concessionários de serviços públicos, mas não se pode correr o risco do sucateamento de um serviço já deficiente com a cobrança de tarifas irrealistas que inviabilizem investimentos adicionais no setor.
Vale ressaltar que é possível subsidiar de maneira racional, sustentável e transparente o transporte público. Mas há condições essenciais para tanto. Tais subsídios devem se adequar à capacidade fiscal do governo e se direcionar para grupos da sociedade que de fato necessitam dele. Hoje em dia, uma parte relevante dos usuários do transporte coletivo se beneficia do vale-transporte pago pelos empregadores ou já conta com isenções, como é o caso dos idosos. Desse modo, não parece indicado o congelamento do preço da passagem, mesmo que com eventual aumento dos repasses de recursos pelas prefeituras às empresas como forma de compensação.
No caso dos pedágios, foi equivocada a decisão do governo paulista de não aplicar os reajustes programados, ainda que sem prejuízo para as empresas concessionárias, pois os ônus da medida foram assumidos pelo setor público. As melhores estradas brasileiras são justamente aquelas que estão sob concessão e a manutenção das regras do jogo é fundamental para que investimentos privados continuem fluindo para o setor, notadamente quando há em jogo um amplo e oportuno programa de concessões patrocinado pelo governo federal. Por óbvio, é necessária a devida transparência nos contratos e a existência de mecanismos que evitem a cobrança de preços abusivos. Contudo, tais cuidados não podem desaguar em aumento de incertezas para os empreendedores privados. Nesse contexto, a sinalização representada pela medida foi negativa, pois trouxe à tona a possibilidade de que, no futuro, medidas assemelhadas possam impactar os concessionários e não apenas o erário.
Por outro lado, há também implicações sérias do populismo tarifário sobre as contas públicas, notadamente numa situação de graves dificuldades para o aumento do investimento público em infraestrutura. Por exemplo, na região metropolitana de São Paulo, está em marcha um gigantesco e louvável esforço do governo do Estado para ampliar a rede do metrô. Tal esforço somente poderá ser levado a cabo e ampliado para outras linhas caso haja um mínimo de equilíbrio na operação do sistema, sob pena de os prejuízos engolirem toda a capacidade de investimento do governo, sem contar os riscos de degradação da qualidade dos serviços.
Desse modo, a resposta das autoridades, das três esferas de governo, às demandas da sociedade não deve implicar o agravamento de uma situação que já é complicada no que tange à mobilidade urbana e à infraestrutura em geral. No caso específico dos transportes urbanos, parece-me que o estopim das manifestações teve muito mais a ver com a persistente má qualidade dos serviços do que com o preço da tarifa, muito embora a aceleração inflacionária recente - que deveria ter sido oportuna e adequadamente atacada pela política macroeconômica - tenha desempenhado um papel relevante na insatisfação popular.
Respostas de Mantega - MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 06/07
O ministro Guido Mantega define como "excepcional" a política de empréstimos ao BNDES. "Como resultado, tivemos um aumento de pequena monta na dívida pública bruta, de 3 pontos percentuais. Sem isso, o país teria tido recessão de 6%, como outros países. É a política acertada." Mantega não detalhou os cortes nos gastos, mas disse que os anunciará em breve.
A inflação estourou o teto da meta pela décima vez em 30 meses de governo Dilma, chegando a 6,7%, em junho, mas o ministro disse que ela está sob controle, que a "trajetória é positiva" e deu destaque ao que o indicador trouxe de bom:
- A inflação de junho foi menor do que em maio, caiu a inflação de alimentos e bebidas.
O ministro nega que o PIB este ano esteja murchando, mas falou que o país deve crescer entre 2,5% e 3%. Antes, falava em 4% e até 5%. Na visão dele, o Brasil está sendo vítima da política monetária americana:
- O Fed criou uma turbulência internacional que afetou bolsas e o câmbio.
Lembrei que ele criticava a política expansionista americana, que teria criado um "tsunami" monetário, uma guerra cambial. E que, agora, os EUA estão dando os primeiros sinais de que podem diminuir esses estímulos. Ele, de novo, critica:
- De fato, fomos atingidos pelas duas coisas, uma forte liquidez internacional, que fez com que o Brasil fosse um dos alvos da entrada excessiva de dólares; e agora esse movimento que causa turbulência e derruba bolsa e eleva o dólar. O câmbio vai ajudar o exportador mais adiante, mas este momento de volatilidade não é bom e vai causar pressão inflacionária dependendo do tempo que fique.
Afirmou que sempre houve empréstimos do Tesouro ao BNDES e que o volume ficará menor daqui para frente. Em 2007, o total de empréstimo era R$ 6,6 bi. Agora, é R$ 378 bi. Os dividendos pagos ao Tesouro saíram de 900 milhões para R$ 13 bi. Isso é visto por nove em cada dez analistas como truque que tem inflado receitas. O ministro discorda.
- Aumentaram os dividendos pagos pelo BNDES porque aumentou o lucro, que no passado era de R$ 1 bilhão e agora é de R$ 10 bilhões. Todos os bancos públicos estão dando muito lucro - disse o ministro.
O lucro, na verdade, em 2012, foi de R$ 8,2 bi. Menor, portanto, que o dividendo pago. Todos têm tido empréstimos ou capitalizações pelo governo, o que contradiz, na prática, essa interpretação. Se os lucros são maiores, não deveriam precisar de mais capitalizações ou empréstimos.
Mantega discordou da coluna de ontem, que trouxe a visão da S&P, com criticas à política econômica, e afirmou que "essa agência elevou o nosso rating em 2011".
- A crítica na coluna é feita como se não estivéssemos vivendo a maior crise de todos os tempos, como se não houvesse problemas como este que o Fed criou este ano, não leva em consideração que a China desacelera. Bom, com tudo isso nós crescemos mais no primeiro trimestre do que EUA, México, Colômbia, Chile.
As comparações de crescimento têm outro lado. Enquanto o Brasil cresceu 1,2% nos 12 meses até março, o Chile cresceu 5,3%, a Colômbia, 3,3%, o México, 2,9%, os EUA, 2%. Apenas no primeiro tri, isoladamente, fomos melhores, mas não muito: 0,6%, contra 0,5% do Chile e do México, 0,4% dos EUA e 0,3% da Colômbia. Mantega acha injustas as críticas à deterioração fiscal.
- As três grandes despesas, Previdência, pessoal e juros, têm caído. O que sobe é gasto de custeio, com educação e saúde, mas isso precisa subir mesmo. E o déficit nominal tem caído. Em outros tempos chegou a 6%, agora é 2,5% do PIB. Temos agora fundamentos mais sólidos e reservas cambiais maiores.
Segundo Mantega, as despesas caíram durante o seu período no governo. Este ano, no entanto, as despesas estão subindo mais que as receitas e os investimentos públicos estão em retração.
A inflação estourou o teto da meta pela décima vez em 30 meses de governo Dilma, chegando a 6,7%, em junho, mas o ministro disse que ela está sob controle, que a "trajetória é positiva" e deu destaque ao que o indicador trouxe de bom:
- A inflação de junho foi menor do que em maio, caiu a inflação de alimentos e bebidas.
O ministro nega que o PIB este ano esteja murchando, mas falou que o país deve crescer entre 2,5% e 3%. Antes, falava em 4% e até 5%. Na visão dele, o Brasil está sendo vítima da política monetária americana:
- O Fed criou uma turbulência internacional que afetou bolsas e o câmbio.
Lembrei que ele criticava a política expansionista americana, que teria criado um "tsunami" monetário, uma guerra cambial. E que, agora, os EUA estão dando os primeiros sinais de que podem diminuir esses estímulos. Ele, de novo, critica:
- De fato, fomos atingidos pelas duas coisas, uma forte liquidez internacional, que fez com que o Brasil fosse um dos alvos da entrada excessiva de dólares; e agora esse movimento que causa turbulência e derruba bolsa e eleva o dólar. O câmbio vai ajudar o exportador mais adiante, mas este momento de volatilidade não é bom e vai causar pressão inflacionária dependendo do tempo que fique.
Afirmou que sempre houve empréstimos do Tesouro ao BNDES e que o volume ficará menor daqui para frente. Em 2007, o total de empréstimo era R$ 6,6 bi. Agora, é R$ 378 bi. Os dividendos pagos ao Tesouro saíram de 900 milhões para R$ 13 bi. Isso é visto por nove em cada dez analistas como truque que tem inflado receitas. O ministro discorda.
- Aumentaram os dividendos pagos pelo BNDES porque aumentou o lucro, que no passado era de R$ 1 bilhão e agora é de R$ 10 bilhões. Todos os bancos públicos estão dando muito lucro - disse o ministro.
O lucro, na verdade, em 2012, foi de R$ 8,2 bi. Menor, portanto, que o dividendo pago. Todos têm tido empréstimos ou capitalizações pelo governo, o que contradiz, na prática, essa interpretação. Se os lucros são maiores, não deveriam precisar de mais capitalizações ou empréstimos.
Mantega discordou da coluna de ontem, que trouxe a visão da S&P, com criticas à política econômica, e afirmou que "essa agência elevou o nosso rating em 2011".
- A crítica na coluna é feita como se não estivéssemos vivendo a maior crise de todos os tempos, como se não houvesse problemas como este que o Fed criou este ano, não leva em consideração que a China desacelera. Bom, com tudo isso nós crescemos mais no primeiro trimestre do que EUA, México, Colômbia, Chile.
As comparações de crescimento têm outro lado. Enquanto o Brasil cresceu 1,2% nos 12 meses até março, o Chile cresceu 5,3%, a Colômbia, 3,3%, o México, 2,9%, os EUA, 2%. Apenas no primeiro tri, isoladamente, fomos melhores, mas não muito: 0,6%, contra 0,5% do Chile e do México, 0,4% dos EUA e 0,3% da Colômbia. Mantega acha injustas as críticas à deterioração fiscal.
- As três grandes despesas, Previdência, pessoal e juros, têm caído. O que sobe é gasto de custeio, com educação e saúde, mas isso precisa subir mesmo. E o déficit nominal tem caído. Em outros tempos chegou a 6%, agora é 2,5% do PIB. Temos agora fundamentos mais sólidos e reservas cambiais maiores.
Segundo Mantega, as despesas caíram durante o seu período no governo. Este ano, no entanto, as despesas estão subindo mais que as receitas e os investimentos públicos estão em retração.
Plebiscito! De FAB ou de TAM? - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 06/07
E o Joaquim Barbosa também foi ao Maracanã com dinheiro público. Não tem virgem na zona!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
O Peru Acordou! "Estudantes enfrentam a polícia em protesto contra a Lei Universitária." Precisa ver se o Peru é Gigante!
E a Farra Aérea Brasileira! Folgados A Bordo!
E o site Eramos6 revela que o povo brasileiro mandou o Renan pra PQP! Mas ele só vai se for em jatinho da FAB!
E o tuiteiro Fernando Duartina: "Os políticos brasileiros sempre inventam moda: agora estão cagando e VOANDO pra população brasileira!". Rarará!
E um amigo quer um jatinho da FAB pro batizado do sobrinho em Fortaleza!
E adorei a agenda da Dilma: "Dilma recebe índios, MST, evangélicos e movimentos negros". Puxado!
Na próxima semana recebe as Panicats, ex-BBBs e anões de jardim. A Dilma virou mãe de santo: só recebe!
E adorei a Dilma com os cantores. A Dilma tá em baixa, mas conseguiu o que toda as coroas brasileiras queriam: ficar 20 minutos a sós com o Roberto Carlos. A pedido dele!
"Quem é que pensa em você toda hora/e no meio da noite te chama de presidenta?/ Esse cara sou eu."
E um leitor me disse que a Dilma tem andar de alicate. Rarará!
E esse plebiscito sai ou não sai? Fica só cantando pneu!
Em todo caso, encerra-se hoje a minha enquete: "Qual pergunta você acha que não pode faltar no plebiscito?". "Débito ou crédito?" "CPF na nota?" "Com ou sem borda recheada?" "No carro ou no motel?" "Joelma ou Daniela Mercury?"
E mais outras perguntas fundamentais: "Gelo e limão?", "Comum ou aditivada?", "Luz acesa ou apagada?", "Pode ser Pepsi?".
E mais esta bombástica: "Quem matou Odete Roitman?". Rarará!
Outra: "De FAB ou de TAM?". De camburão! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E um leitor me disse que o Michel Temer tá parecendo aquela máscara do "vem pra rua": em todo lugar tá sempre com a mesma expressão e esfregando as mãozinhas!
E o Joaquim Barbosa também foi ao Maracanã com dinheiro público. E o filho dele vai trabalhar no "Caldeirão do Huck". Não tem virgem na zona! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E o Joaquim Barbosa também foi ao Maracanã com dinheiro público. Não tem virgem na zona!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
O Peru Acordou! "Estudantes enfrentam a polícia em protesto contra a Lei Universitária." Precisa ver se o Peru é Gigante!
E a Farra Aérea Brasileira! Folgados A Bordo!
E o site Eramos6 revela que o povo brasileiro mandou o Renan pra PQP! Mas ele só vai se for em jatinho da FAB!
E o tuiteiro Fernando Duartina: "Os políticos brasileiros sempre inventam moda: agora estão cagando e VOANDO pra população brasileira!". Rarará!
E um amigo quer um jatinho da FAB pro batizado do sobrinho em Fortaleza!
E adorei a agenda da Dilma: "Dilma recebe índios, MST, evangélicos e movimentos negros". Puxado!
Na próxima semana recebe as Panicats, ex-BBBs e anões de jardim. A Dilma virou mãe de santo: só recebe!
E adorei a Dilma com os cantores. A Dilma tá em baixa, mas conseguiu o que toda as coroas brasileiras queriam: ficar 20 minutos a sós com o Roberto Carlos. A pedido dele!
"Quem é que pensa em você toda hora/e no meio da noite te chama de presidenta?/ Esse cara sou eu."
E um leitor me disse que a Dilma tem andar de alicate. Rarará!
E esse plebiscito sai ou não sai? Fica só cantando pneu!
Em todo caso, encerra-se hoje a minha enquete: "Qual pergunta você acha que não pode faltar no plebiscito?". "Débito ou crédito?" "CPF na nota?" "Com ou sem borda recheada?" "No carro ou no motel?" "Joelma ou Daniela Mercury?"
E mais outras perguntas fundamentais: "Gelo e limão?", "Comum ou aditivada?", "Luz acesa ou apagada?", "Pode ser Pepsi?".
E mais esta bombástica: "Quem matou Odete Roitman?". Rarará!
Outra: "De FAB ou de TAM?". De camburão! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E um leitor me disse que o Michel Temer tá parecendo aquela máscara do "vem pra rua": em todo lugar tá sempre com a mesma expressão e esfregando as mãozinhas!
E o Joaquim Barbosa também foi ao Maracanã com dinheiro público. E o filho dele vai trabalhar no "Caldeirão do Huck". Não tem virgem na zona! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Dilma e a girafa - JOSÉ HORTA MANZANO
CORREIO BRAZILIENSE - 06/07
Faz vários anos, tive um funcionário, gente fina, pau pra toda obra. Às vezes eu tinha de confiar-lhe alguma tarefa mais ingrata, mais maçante. Com tato, eu pedia: "Então, Jorge, você não se importa de fazer isto?". E a resposta vinha, certeira: "Oh, imagine! Fazer isso ou pintar a girafa é a mesma coisa, tanto faz".
Até hoje estou sem saber que diabo era aquela história de pintar a girafa. Mas a mensagem era clara: ao velho Jorge, pago para trabalhar, pouco importava qual fosse a tarefa. Se era para fazer, arregaçava as mangas e fazia. Lembrei-me dele estes dias.
Dois anos e meio atrás, os brasileiros elegeram uma presidente para sua República. Iludidos ou conscientes, bem ou mal informados, ricos ou pobres, poderosos ou dominados, pouco importa a razão da escolha. Dilma foi ungida pelas urnas. Foi ela, mas, tivesse sido outra pessoa, no fundo, tanto faz.
Os tempos absolutistas em que um único medalhão mandava e desmandava sozinho já sumiram na névoa do passado, junto com a guilhotina e a caixinha de rapé. A presidente que temos é essa, e com essa ficaremos. Mesmo poderoso, um presidente não é dono do país nem governa sozinho. Felizmente.
Pensando bem, mais vale ter no topo da República uma personagem menos brilhante, pouco exuberante, nada carismática. Se não é a melhor figura política que o Brasil já conheceu, a presidente atual tampouco é a pior. Tem suas carências, mas quem não as tem? Falta-lhe jogo de cintura, é verdade. Ainda assim, mais vale a rigidez de uma Dilma - ainda que tisnada de rudeza e de rispidez - que a exagerada plasticidade de seu antecessor, dono de uma indulgência que frisava a leniência e que abria caminho para toda sorte de desvios e "malfeitos".
Já vai para quase um mês que a sociedade brasileira está em efervescência. O que querem os manifestantes? O que dizem as ruas? Como deve o governo lidar com essa cena não prevista no roteiro original? Dizem que ninguém sabe ao certo por que os manifestantes manifestam. Não sejamos hipócritas. Sabemos bem o que querem. Querem o que queremos todos. Exatamente aquilo que está escrito bem no meio da bandeira verde-amarela: ordem e progresso.
Queremos um país em que os representantes do povo exerçam seu papel com seriedade. Queremos que a bandalheira deixe de ser a regra e volte a ser exceção. Queremos que malfeitores sejam punidos. Queremos que condenados cumpram suas penas. Queremos que enfermos sejam atendidos com dignidade. Não queremos ser república de bananas nem fazer parte do sinistro clube de países autoritários, sanguinários, populistas, irrelevantes. Queremos ordem. Uma vez instalada, o progresso fluirá naturalmente.
Não precisamos de plebiscitos para nos distrairmos. Nosso país reclama um gesto forte e imediato, um sinal claro que indique uma guinada real na governança. Nosso regime não permite à presidente destituir parlamentares. Mas ela pode, sim, demitir ministros. A nomeação (e a exoneração) de auxiliares diretos é prerrogativa pessoal da mandatária.
Sabem todos que Dilma Rousseff não faz parte do clube dos corruptos. Aliás, sua popularidade foi às alturas quando, de uma vassourada, mandou meia dúzia de ministros plantar batata.
Para grandes males, grandes remédios. Se ela quiser resgatar sua imagem - que se esfarela dia após dia - só lhe resta um caminho: exigir que todos os titulares de seu inchado corpo ministerial apresentem sua demissão. Todos, sem exceção. Ninguém poderá dizer que foi demitido, as aparências serão salvas e estará feita a tábula rasa. O sinal enviado à nação será tremendo. Todos entenderão que, por fim, a presidente realmente ouviu a voz das ruas e está disposta a recomeçar com o pé direito.
Para seguir a lógica até o fim, Dilma deverá escolher os novos titulares não mais por afiliação partidária ou por apadrinhamento, mas pela competência. Pisará o pé de muita gente, mas, é certeza, mostrará sua coragem, vencerá a parada.
E o Congresso? E a base aliada? Vão todos desertar? Ora, que bobagem. A grande massa de nossos representantes funciona na base da cooptação e de seu corolário, o medo. O pavor de não serem reeleitos é maior que qualquer ideologia. Todos se bandearão para o lado vencedor. Qual dos representantes ousará contestar a audácia da presidente?
Em vez de pintar a girafa ou de planejar plebiscitos, dona Dilma deveria assumir com firmeza as rédeas do governo. Pulso, intrepidez e energia não lhe faltam. Que diga adeus a gurus, marqueteiros e messias. Seguindo essa via sem tergiversar, apaziguará as ruas e garantirá sua reeleição.
Aqui não tem tarifa zero - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
FOLHA DE SP - 06/07
Jovens da região de Hollywood, que levam vida vazia, só querem saber de consumir e de roubar
Eles não pedem redução de tarifa, nunca usaram transporte público, se bobear não sabem nem que existem ônibus e trens.
Também não querem saber quem está no governo, não se preocupam com a democracia ou com a falta dela, não apanham da polícia, nunca viram uma passeata.
Ignoram os estudos e nem para sexo ligam muito.
Querem, isso sim, cultuar celebridades, melhor ainda, querem ser celebridades. Vivem para consumir, e é o seguinte: não pretendem pagar.
Eles são o "Bling Ring" ("A Gangue de Hollywood", na pouco sutil tradução brasileira), retratados no novo filme de Sofia Coppola. Estreia no dia 2 de agosto no Brasil. Vi há algumas semanas nos EUA.
"Ring", aqui, não é "anel", significado mais comum. É "bando", ou, mais precisamente, "patota". E "Bling" é uma onomatopeia, o "plim-plim" metálico das joias quando resvalam umas nas outras.
O nome original do filme resume a principal atividade dessa patota adolescente: fazer furtos, preferencialmente de joias e acessórios de alto valor, nas casas de celebridades.
Aconteceu de verdade. Entre 2008 e 2009, quatro garotas e um menino, todos de famílias ricas da região de Los Angeles, descobriram um novo tipo de diversão. Pela internet, ficavam sabendo quando seus famosos preferidos estavam fora da cidade. E, pela mesma rede, encontravam facilmente os endereços das estrelas.
Para brasileiros, pode parecer estranho, mas essas celebridades, quando iam viajar, não se dignavam nem a trancar a casa. Também não tinham um staff de funcionários 24 horas, ou seguranças.
Assim, ficava fácil para o "Bling Ring" atacar. Entre as vítimas, Paris Hilton, Orlando Bloom e Lindsay Lohan. Foram mais de R$ 6 milhões em mercadorias furtadas.
Para as filmagens, Paris cedeu a própria mansão, uma espécie de masmorra kitsch cuja estética faz Hebe Camargo parecer uma campeã do minimalismo. Só por mostrar esse monumento à opulência sem noção, o filme já vale.
O que torna essa história tão interessante, a meu ver, é o perfil social dos ladrõezinhos. No padrão americano, são de classe média alta. Mas muito diferentes, por exemplo, da juventude do romance "Abaixo de Zero", de Bret Easton Ellis, também ambientado em Los Angeles, só que nos anos 80.
Os jovens de "Abaixo de Zero" já são a elite da elite de L.A. Não precisam cultuar celebridades, porque convivem com elas. Se, em uma festa, veem a atrizinha do momento jogada no chão com uma seringa de heroína espetada no braço, passam direto, ocupados de si próprios.
O pessoal de "Bling Ring", não. A turma mora em Los Angeles, verdade. Mas é uma outra L.A., aquela do lado de lá das montanhas, o chamado Vale de San Fernando. Onde também existe muita grana, mas faltam o glamour e a tradição de Beverly Hills. Mal comparando, se Beverly Hills é a zona sul do Rio, o Vale é a Barra da Tijuca.
É nessa pequena diferença entre o mundo do "Bling Ring" e o mundo das celebridades (tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante do Vale de San Fernando) que está a força do filme.
Os mais velhos talvez se lembrem de "Valley Girl" ("Garota do Vale"), canção de Frank Zappa que retrata exatamente esse universo. As jovens de Zappa, como as de Sofia Coppola, só pensam em joias, roupas e sapatos. E precisam explicar que moram no Vale, "mas na parte boa".
Coppola tomou algumas decisões radicais para construir o filme. A fim de retratar a ausência dos pais na criação da molecada, ela os fez literalmente ausentes. Com uma única exceção, pais e mães simplesmente não aparecem. Só mesmo no último ato do longa, quando cai a casa dos jovens ladrões, é que os coroas surgem. Como perfeitos patetas, sem a menor ideia do que está acontecendo.
Outra decisão importante da diretora tem a ver com o perfil psicológico dos adolescentes. Ela optou por não investir nisso. Os personagens são como são, ponto. Sem explicações. Especialmente no caso de Rebecca, a líder da gangue, tão jovem e já tão fria e manipuladora, senti falta de um aprofundamento maior.
Para os padrões de Sofia Coppola, discípula de Antonioni pouco chegada a diálogos, "Bling Ring" tem até muitas falas. E, como sempre nos filmes dela, a fotografia é deslumbrante.
Entre poucos erros e muitos acertos, uma estreia e tanto. Não perca.
Jovens da região de Hollywood, que levam vida vazia, só querem saber de consumir e de roubar
Eles não pedem redução de tarifa, nunca usaram transporte público, se bobear não sabem nem que existem ônibus e trens.
Também não querem saber quem está no governo, não se preocupam com a democracia ou com a falta dela, não apanham da polícia, nunca viram uma passeata.
Ignoram os estudos e nem para sexo ligam muito.
Querem, isso sim, cultuar celebridades, melhor ainda, querem ser celebridades. Vivem para consumir, e é o seguinte: não pretendem pagar.
Eles são o "Bling Ring" ("A Gangue de Hollywood", na pouco sutil tradução brasileira), retratados no novo filme de Sofia Coppola. Estreia no dia 2 de agosto no Brasil. Vi há algumas semanas nos EUA.
"Ring", aqui, não é "anel", significado mais comum. É "bando", ou, mais precisamente, "patota". E "Bling" é uma onomatopeia, o "plim-plim" metálico das joias quando resvalam umas nas outras.
O nome original do filme resume a principal atividade dessa patota adolescente: fazer furtos, preferencialmente de joias e acessórios de alto valor, nas casas de celebridades.
Aconteceu de verdade. Entre 2008 e 2009, quatro garotas e um menino, todos de famílias ricas da região de Los Angeles, descobriram um novo tipo de diversão. Pela internet, ficavam sabendo quando seus famosos preferidos estavam fora da cidade. E, pela mesma rede, encontravam facilmente os endereços das estrelas.
Para brasileiros, pode parecer estranho, mas essas celebridades, quando iam viajar, não se dignavam nem a trancar a casa. Também não tinham um staff de funcionários 24 horas, ou seguranças.
Assim, ficava fácil para o "Bling Ring" atacar. Entre as vítimas, Paris Hilton, Orlando Bloom e Lindsay Lohan. Foram mais de R$ 6 milhões em mercadorias furtadas.
Para as filmagens, Paris cedeu a própria mansão, uma espécie de masmorra kitsch cuja estética faz Hebe Camargo parecer uma campeã do minimalismo. Só por mostrar esse monumento à opulência sem noção, o filme já vale.
O que torna essa história tão interessante, a meu ver, é o perfil social dos ladrõezinhos. No padrão americano, são de classe média alta. Mas muito diferentes, por exemplo, da juventude do romance "Abaixo de Zero", de Bret Easton Ellis, também ambientado em Los Angeles, só que nos anos 80.
Os jovens de "Abaixo de Zero" já são a elite da elite de L.A. Não precisam cultuar celebridades, porque convivem com elas. Se, em uma festa, veem a atrizinha do momento jogada no chão com uma seringa de heroína espetada no braço, passam direto, ocupados de si próprios.
O pessoal de "Bling Ring", não. A turma mora em Los Angeles, verdade. Mas é uma outra L.A., aquela do lado de lá das montanhas, o chamado Vale de San Fernando. Onde também existe muita grana, mas faltam o glamour e a tradição de Beverly Hills. Mal comparando, se Beverly Hills é a zona sul do Rio, o Vale é a Barra da Tijuca.
É nessa pequena diferença entre o mundo do "Bling Ring" e o mundo das celebridades (tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante do Vale de San Fernando) que está a força do filme.
Os mais velhos talvez se lembrem de "Valley Girl" ("Garota do Vale"), canção de Frank Zappa que retrata exatamente esse universo. As jovens de Zappa, como as de Sofia Coppola, só pensam em joias, roupas e sapatos. E precisam explicar que moram no Vale, "mas na parte boa".
Coppola tomou algumas decisões radicais para construir o filme. A fim de retratar a ausência dos pais na criação da molecada, ela os fez literalmente ausentes. Com uma única exceção, pais e mães simplesmente não aparecem. Só mesmo no último ato do longa, quando cai a casa dos jovens ladrões, é que os coroas surgem. Como perfeitos patetas, sem a menor ideia do que está acontecendo.
Outra decisão importante da diretora tem a ver com o perfil psicológico dos adolescentes. Ela optou por não investir nisso. Os personagens são como são, ponto. Sem explicações. Especialmente no caso de Rebecca, a líder da gangue, tão jovem e já tão fria e manipuladora, senti falta de um aprofundamento maior.
Para os padrões de Sofia Coppola, discípula de Antonioni pouco chegada a diálogos, "Bling Ring" tem até muitas falas. E, como sempre nos filmes dela, a fotografia é deslumbrante.
Entre poucos erros e muitos acertos, uma estreia e tanto. Não perca.
Salvo pelo gongo - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 06/07
Nove entre 10 petistas, a começar pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acreditam que somente a substituição do ministro da Fazenda, Guido Mantega, será capaz de restabelecer a confiança dos investidores e evitar que a economia mergulhe numa recessão neste segundo semestre. A presidente Dilma Rousseff, porém, ainda resiste. Por quê?
Porque até o ascensorista do Ministério da Fazenda sabe que o chefe cumpre as ordens da presidente da República, que é a principal responsável pela rota em que a economia se encontra, combinando inflação alta, crescimento baixo e risco maior de desemprego. Foi ela que, aconselhada pelos ministros Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e Aloizio Mercadante (Educação), insistiu no modelo de crescimento baseado no consumo das famílias e nos juros derrubados a fórceps. Um pouquinho mais de inflação até ajudaria a bombar o Produto Interno Bruto (PIB), mas o que se viu foi exatamente o contrário. O alto custo de vida derrubou a atividade econômica.
No mercado, cresce a opinião de que Dilma até poderia ter mantido os estímulos ao consumo e forçado o Banco Central a baixar os juros, desde que o Tesouro Nacional fechasse os cofres e evitasse os desequilíbrios oriundos da gastança. É possível que Mantega tenha ganhado uma sobrevida com a queda da inflação (IPCA) de junho, a menor em um ano: desacelerou de 0,37% em maio para 0,26%. Mas o horizonte é puro nevoeiro. Os preços ainda sentiram o baque da alta do dólar e o mercado de trabalho está perdendo o fôlego com muita velocidade.
Desarticulação
Ontem, na reunião com os coordenadores da bancada petista, Dilma ouviu críticas à condução da economia, mas fez a defesa do ministro Guido Mantega, reiterou o discurso de que a inflação está sob controle e de que não haverá recessão. Reconheceu, porém, a desarticulação do governo no Congresso, apontada por todos que se pronunciaram, inclusive o líder da bancada, José Guimarães (foto), do PT-CE.
Corte
Pressionado pelo mercado e com a cabeça a prêmio entre os petistas, Guido Mantega anunciou ontem um corte no Orçamento da União de R$ 15 bilhões
Cariocando
O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (foto), participou ontem de um debate promovido pelo Instituto Teotônio Vilela para o desenvolvimento de um projeto para o Rio de Janeiro. Organizado pelo centro de estudos do partido, o encontro reuniu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os economistas Edmar Bacha e Armínio Fraga e representantes de vários setores da sociedade.
Vai pagar
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), resolveu devolver o dinheiro equivalente ao custo pela utilização de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) em 15 de junho, da ordem de R$ 32 mil. Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o senador usou a aeronave para ir ao casamento da filha do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), em Porto Seguro (BA). Renan alegou que havia usado avião como presidente do Senado.
Petrobras
O PSDB resolveu centrar fogo na gestão da Petrobras para desgastar o governo. A tese é de que a estatal foi aparelhada pelo PT e que é preciso investigar as operações da empresa no exterior. Ontem, o líder da bancada tucana na Câmara, Carlos Sampaio (SP), disparou: “É assustadora a notícia de que a companhia teve a menor cotação em oito anos, tanto que seus papéis são o destaque negativo da bolsa de valores hoje (ontem)”, criticou.
Guru
O marqueteiro João Santana é o principal defensor da estratégia adotada por Dilma Rousseff em relação às manifestações de protesto. Acredita que a presidente da República pode virar uma espécie de “titia” da garotada que vai para as ruas.
A fonte
Para o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, Wadih Damous, a reforma política é imprescindível para qualificar a representação parlamentar e criar formas de financiamento de campanha que impeçam as doações por parte de pessoas jurídicas. Segundo ele, nesses itens reside a fonte de toda a corrupção.
Azebudsman
A OAB retifica a nota publicada na terça-feira passada sobre o Exame da Ordem: os únicos beneficiados com a pontuação de 2,5 foram os candidatos de civil tão somente, ou seja, os da área tributária não, ao contrário do que havíamos publicado.
Pediu a cabeça
Embora negue, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva realmente sugeriu à presidente Dilma Rousseff que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles substituísse o ministro Guido Mantega na Fazenda. Segundo Lula, seria um sinal de que o combate à inflação e à responsabilidade fiscal estariam acima de tudo.
Desaforo não aceita dinheiro - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém
O GLOBO - 06/07
Acredita-se que os convidados foram escolhidos a dedo, pois estava ali, sem tirar nem pôr, o chamado sacro colégio que faz a cabeça do Congresso. Sem o aval desses cardeais, nada passa pelo Legislativo.
Pois bem, ao final do jogo, Alves anunciou:
— Eu vou para a final! Temer gritou:
— Mas não no jatinho da FAB.
Alves argumentou que tinha direito a esse tipo de transporte. Mas o colegiado, por unanimidade, considerou a intenção uma provocação desnecessária ao atual sentimento político das ruas.
Alves resolveu pagar para ver. Pagou, literalmente, quase dez mil reais e acha que resolveu o problema.
Morcego negro
Já quanto a Renan Calheiros, há um pequeno detalhe que reforça o seu argumento de que fora ao casamento da filha do líder do governo, Eduardo Braga, em missão oficial.
É que não existe relação pessoal entre os dois.
Renan simplesmente odeia o senador Braga, por motivos que não cabem aqui. Vive pedindo sua cabeça.
Agora, com a repercussão da desastrada viagem, deve estar odiando muito mais.
Show
Ao ver o senador Humberto Costa na tribuna e os senadores, de costas, conversando entre si, Caetano Veloso não suportou:
— Calem a boca! Vamos prestar atenção no discurso!
E a atenta Paula Lavigne:
— Caetano, aqui não é casa de show, onde todos prestam atenção no artista. Aqui não tem plateia. Só artistas.
Dança dos famosos
A “dança dos tangarás” — um passo à frente, um passo atrás — da dupla Temer/Cardozão foi muito bem resolvida internamente, embora, externamente, tenha exposto as vísceras da desorganização do governo. Depois do imbróglio, Dilma ligou para acariciar Michel Temer.
Mecânicos
Por motivações diferentes, os principais líderes do PT, Vaccarezza e José Guimarães à frente, uniram-se ao líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, e criaram uma empresa de desmanche do governo Dilma no Congresso.
Volta por baixo
Dilma já sabe que seu antecessor fica docemente constrangido com o crescente movimento “Volta, Lula”. E sabe também que, em agosto, quando o STF mandar os mensaleiros para a cadeia, surgirá o “Fica, Dilma!”.
Alívio
Na reunião ministerial em que brilharam Paulo Bernardo, condenando a intempestividade petista sobre o controle da mídia, e Gilberto Carvalho, peitando publicamente o Guido Mantega, quem arrancou gargalhadas foi o ministro da Previdência, Garibaldi Alves:
— Olha, eu vou contar pra vocês. Toda vez que eu ligava a TV e via um velhinho, eu pensava: “Xi, agora vão reclamar da Previdência.” Vocês não sabem o alívio que foi ouvir que eles só estavam reclamando da Saúde, da Educação, do Transporte e da corrupção.
Febem
Entre os vândalos que incitaram a desproporcional reação da PM em frente à casa do Cabral, no Leblon, estava um bando de garotinhos.
Foi essa “garotinhada” que teria jogado pedras contra as janelas dos apartamentos dos moradores do bairro.
Nota triste
Na entrevista ao programa de Geneton Moraes Neto na Globo News, o senador gaúcho Pedro Simon surpreendeu o jornalista ao revelar que está deixando a vida pública ao final deste mandato.
Incansável
A bela colunista Sonia Racy revelou que Fernando Cavendish criou a Técnica Construção e está disputando duas licitações do Alckmin.
Plano de voo
O político brasileiro tem uma estranha mania sempre que é flagrado em malfeitorias. Em vez de se defender, procura saber primeiro quem o denunciou para poder desqualificar a denúncia. E sempre erra na mosca. Como Alves, que acusa o PT de tê-lo denunciado sobre o jatinho da FAB.
MÃOS AO ALTO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 06/07
O GRITO
Ele caminhava com a namorada, a promotora Ana Beatriz de Oliveira, em direção à sede do Ministério Público, no centro, quando foram abordados. O assaltante pediu carteiras e relógios, mas fugiu quando ela começou a gritar.
PEDRA
"Corri atrás dele mantendo uma distância segura, para não perdê-lo de vista. Podia não ter acabado bem, mas deu certo." No caminho, Porto encontrou uma viatura da GCM (Guarda Civil Metropolitana), que alcançou o autor da ameaça.
BARRADOS NO BAILE
O cartunista Laerte não conseguiu entrar na festa promovida pela editora Companhia das Letras, em Paraty, na quinta. Seu nome não estava na lista. Produzido para a noite no estilo crossdressing (ver fotos ao lado), ao qual aderiu há alguns anos, foi tietado à porta. Esperou por 40 minutos na entrada do restaurante fechado para os convidados. E foi embora com o grupo de amigos que o acompanhava.
REALISMO FANTÁSTICO
No ar com "Saramandaia", Ricardo Linhares contou com um helicóptero, disponibilizado pela Globo, para se deslocar do Rio para Paraty e poder participar da Casa do Autor Roteirista, evento paralelo à Flip.
Ontem, ao lado dos atores José Wilker e Lima Duarte, ele prestou homenagem a Dias Gomes, autor da novela que reescreve agora para o horário das 23 horas.
DUAS VERSÕES
Adriana Calcanhotto aceitou o convite de Liz Calder para participar da FlipSide, a versão inglesa da feira literária de Paraty, em outubro. A cantora vai apresentar em Suffolk, na Inglaterra, um show de voz e violão e também seu lado curadora, exibido agora na Flipinha, com o lançamento da "Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira" para crianças. Além da seleção dos poemas, Adriana fez as ilustrações da obra.
POSITIVO
Liz Calder, uma das fundadoras da Flip, tem exaltado publicamente a postura de Dilma Rousseff diante das manifestações por todo o país.
"Vocês têm uma presidente que recebe os movimentos sociais e dialoga com eles. Isso é raro", elogia a inglesa, radicada no Brasil há anos.
NAS PEDRAS DE PARATY
O segundo dia de Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) reuniu, na quinta, o cartunista da Folha Laerte Coutinho, o empresário e advogado Pierre Moreau, o economista Gustavo Franco, o poeta Mano Melo, o editor Leandro Sarmatz, a agente literária Lucia Riff, a escritora Simone Campos e a editora Sofia Mariutti.
CURTO-CIRCUITO
O musical "Avenida Q" reestreia hoje, às 16h, no teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista. 14 anos.
A Galeria de Arte da Hebraica, em Pinheiros, abre hoje a exposição coletiva "Personificação", às 12h.
A banda Pollo se apresenta hoje na Ballroom, na rua Augusta. 18 anos.
Tiê recebe em casa amanhã a dupla Peixoto & Maxado e transmite o show em vídeo, pelo Twitter, a partir das 17h.
O gigante fala dormindo - GUILHERME FIÚZA
O GLOBO - 06/07
O Brasil deu para dizer a si mesmo que mudou. Que nada mais será como antes das manifestações de rua, que agora vai. Que se os governantes e os políticos em geral não entenderem o recado das ruas, estão fritos. É um fanfarrão, esse Brasil.
Qual é mesmo o recado das ruas? Vamos falar a verdade: ninguém sabe. Nem as ruas sabem. Ou melhor: não há recado. O gigante continua adormecido em berço esplêndido — o que se ouviu foi um ronco barulhento, misturado com palavras desconexas. Esse gigante fala dormindo.
Há alguns anos, a imprensa vem contando aos gritos o que está acontecendo com o gigante, sem que ele mova um músculo. E o que está acontecendo é devastadoramente simples: em uma década, o ciclo virtuoso do país foi jogado fora pela indústria do populismo. A crise das tarifas de ônibus (estopim dos revoltosos) é só uma unha do monstro: o descontrole inflacionário causado pelo derrame de dinheiro público. País rico é país com 40 ministérios.
A economia estabilizada nos anos 90, e a posterior enxurrada de capital para os países emergentes, deram ao Brasil sua grande chance. E ela foi queimada por um governo que investiu tudo numa máquina eleitoral sem precedentes. Planejamento zero. Investimento quase zero. Infraestrutura abandonada em terra, mar e ar, com trem-bala, Belo Monte e outras assombrações bilionárias encobrindo a realidade: o PAC entregue à pirataria da Delta e quadrilheiros associados. A CPI do Cachoeira chegou a levantar esse véu, mas o gigante não acordou e a CPI foi assassinada (pelo PT e seus sócios).
Os governos Dilma e Lula bateram todos os recordes de arrecadação, com impostos escorchantes (entre os maiores do mundo) que empobrecem os brasileiros e enriquecem o império do oprimido. Nem um gemido das ruas sobre isso. Dilma anuncia um “pacto” sem nada dentro, e ainda diz que para bancar o recheio do pastel de vento terá que aumentar impostos. É o escárnio. E não aparece nenhum Robespierre da Candelária para mandar a presidente engolir o seu deboche.
Enquanto isso, a maquiagem das contas públicas vai bem, obrigado — com mais um truque contábil no incesto entre o BNDES e o Tesouro, para forjar superávit e legalizar a gastança. É pedra na vidraça do contribuinte, que nada ouve e nada vê. Deve estar na passeata, exigindo cidadania.
Pensando bem, foi o governo popular quem melhor entendeu o recado das ruas: os cães ladram e a caravana passa. Ou talvez: os revoltados passam e a quadrilha ladra.
Para checar se o gigante estava dormindo mesmo, o estado-maior petista chamou um dos seus para ir até o ouvido dele e chamá-lo de otário, bem alto. Assim foi feito. Como primeira reação oficial às passeatas, Dilma escalou Aloizio Mercadante para dizer ao povo que ele ia ganhar um plebiscito. E que com esse plebiscito, ele, o povo, ia fazer a “reforma política” (o Santo Graal dos demagogos). Claro que o governo sabia que isso era uma troça, uma piada estilo “Porta dos fundos”. Tanto que caprichou nos ingredientes.
Para começar, a escolha criteriosa do porta-voz. No governo da “presidenta”, cercada de ministras mulheres por todos os lados, a aparição do ministro da Educação — cuja pasta não tinha nada a ver com nada (nem reforma política, nem plebiscito, nem transportes, nem orçamento, nada) — já seria impactante. E não era qualquer ministro. Era o famoso Mercadante, figura tostada em casos como o dossiê dos aloprados e a “renúncia irrevogável” da liderança do PT no Senado, quando o partido decidiu acobertar o tráfico de influência de Sarney (Mercadante revogou sua própria renúncia em menos de 24 horas).
E o porta-voz foi logo anunciando um “plebiscito popular”, só faltando dizer que era uma decisão de “governo governamental”. Enfim, um quadro de “Zorra total”.
Com toda essa trágica palhaçada gritada em seu ouvido, o gigante permaneceu estático. Sono profundo. Nem um “basta”, nem um “#vem pra rua”, nem um “que m... é essa”. Depois daquele incrível ensaio de Primavera Árabe (ou seria Inverno Tropical?), com milhões nas ruas em todo o território nacional, o Brasil revolucionário mordeu a isca como um peixinho de aquário. E está até agora discutindo, compenetradamente, o plebiscito popular e irrevogável do Mercadante. Contando, ninguém acredita.
O país se zangou, foi para as ruas, tuitou, gritou, quebrou e voltou para casa sem nem arranhar quem lhe faz mal. O projeto de privatização política do Estado, que corrói a sociedade e seu poder de compra, está incólume. A prova disso? A popularidade de Dilma caiu, mas quem surgiu nas pesquisas para 2014 vencendo a eleição no primeiro turno, e escolhido “o mais preparado para cuidar da economia nacional”? Ele mesmo: Luiz Inácio, a nova esperança brasileira.
Ora, senhor gigante: durma bem! Mas, por favor, ronque baixo. E pare de bloquear as ruas com seus espasmos inconscientes.
O Brasil deu para dizer a si mesmo que mudou. Que nada mais será como antes das manifestações de rua, que agora vai. Que se os governantes e os políticos em geral não entenderem o recado das ruas, estão fritos. É um fanfarrão, esse Brasil.
Qual é mesmo o recado das ruas? Vamos falar a verdade: ninguém sabe. Nem as ruas sabem. Ou melhor: não há recado. O gigante continua adormecido em berço esplêndido — o que se ouviu foi um ronco barulhento, misturado com palavras desconexas. Esse gigante fala dormindo.
Há alguns anos, a imprensa vem contando aos gritos o que está acontecendo com o gigante, sem que ele mova um músculo. E o que está acontecendo é devastadoramente simples: em uma década, o ciclo virtuoso do país foi jogado fora pela indústria do populismo. A crise das tarifas de ônibus (estopim dos revoltosos) é só uma unha do monstro: o descontrole inflacionário causado pelo derrame de dinheiro público. País rico é país com 40 ministérios.
A economia estabilizada nos anos 90, e a posterior enxurrada de capital para os países emergentes, deram ao Brasil sua grande chance. E ela foi queimada por um governo que investiu tudo numa máquina eleitoral sem precedentes. Planejamento zero. Investimento quase zero. Infraestrutura abandonada em terra, mar e ar, com trem-bala, Belo Monte e outras assombrações bilionárias encobrindo a realidade: o PAC entregue à pirataria da Delta e quadrilheiros associados. A CPI do Cachoeira chegou a levantar esse véu, mas o gigante não acordou e a CPI foi assassinada (pelo PT e seus sócios).
Os governos Dilma e Lula bateram todos os recordes de arrecadação, com impostos escorchantes (entre os maiores do mundo) que empobrecem os brasileiros e enriquecem o império do oprimido. Nem um gemido das ruas sobre isso. Dilma anuncia um “pacto” sem nada dentro, e ainda diz que para bancar o recheio do pastel de vento terá que aumentar impostos. É o escárnio. E não aparece nenhum Robespierre da Candelária para mandar a presidente engolir o seu deboche.
Enquanto isso, a maquiagem das contas públicas vai bem, obrigado — com mais um truque contábil no incesto entre o BNDES e o Tesouro, para forjar superávit e legalizar a gastança. É pedra na vidraça do contribuinte, que nada ouve e nada vê. Deve estar na passeata, exigindo cidadania.
Pensando bem, foi o governo popular quem melhor entendeu o recado das ruas: os cães ladram e a caravana passa. Ou talvez: os revoltados passam e a quadrilha ladra.
Para checar se o gigante estava dormindo mesmo, o estado-maior petista chamou um dos seus para ir até o ouvido dele e chamá-lo de otário, bem alto. Assim foi feito. Como primeira reação oficial às passeatas, Dilma escalou Aloizio Mercadante para dizer ao povo que ele ia ganhar um plebiscito. E que com esse plebiscito, ele, o povo, ia fazer a “reforma política” (o Santo Graal dos demagogos). Claro que o governo sabia que isso era uma troça, uma piada estilo “Porta dos fundos”. Tanto que caprichou nos ingredientes.
Para começar, a escolha criteriosa do porta-voz. No governo da “presidenta”, cercada de ministras mulheres por todos os lados, a aparição do ministro da Educação — cuja pasta não tinha nada a ver com nada (nem reforma política, nem plebiscito, nem transportes, nem orçamento, nada) — já seria impactante. E não era qualquer ministro. Era o famoso Mercadante, figura tostada em casos como o dossiê dos aloprados e a “renúncia irrevogável” da liderança do PT no Senado, quando o partido decidiu acobertar o tráfico de influência de Sarney (Mercadante revogou sua própria renúncia em menos de 24 horas).
E o porta-voz foi logo anunciando um “plebiscito popular”, só faltando dizer que era uma decisão de “governo governamental”. Enfim, um quadro de “Zorra total”.
Com toda essa trágica palhaçada gritada em seu ouvido, o gigante permaneceu estático. Sono profundo. Nem um “basta”, nem um “#vem pra rua”, nem um “que m... é essa”. Depois daquele incrível ensaio de Primavera Árabe (ou seria Inverno Tropical?), com milhões nas ruas em todo o território nacional, o Brasil revolucionário mordeu a isca como um peixinho de aquário. E está até agora discutindo, compenetradamente, o plebiscito popular e irrevogável do Mercadante. Contando, ninguém acredita.
O país se zangou, foi para as ruas, tuitou, gritou, quebrou e voltou para casa sem nem arranhar quem lhe faz mal. O projeto de privatização política do Estado, que corrói a sociedade e seu poder de compra, está incólume. A prova disso? A popularidade de Dilma caiu, mas quem surgiu nas pesquisas para 2014 vencendo a eleição no primeiro turno, e escolhido “o mais preparado para cuidar da economia nacional”? Ele mesmo: Luiz Inácio, a nova esperança brasileira.
Ora, senhor gigante: durma bem! Mas, por favor, ronque baixo. E pare de bloquear as ruas com seus espasmos inconscientes.
A presidente se afunda enganando a si mesma - ROLF KUNTZ
O ESTADO DE S. PAULO - 06/07
Mentir para os outros pode ser pecado.
Pode também ser crime, em algumas circunstâncias.Mentir para si mesmo é insânia.Os brasileiros, têm, portanto, mais um sério motivo para se inquietar.
O governo, tudo parece indicar, mente para si mesmo e continuará mentindo para se isolar da realidade. É muito difícil explicar de outra forma a reação da presidente Dilma Rousseff e de sua equipe às manifestações de rua e ao tsunami de más notícias. O governo tentou, mas como deslocar os problemas para o Congresso, quando até fontes oficiais continuam despejando informações assustadoras sobre a economia? Até os aliados, a começar pelo vice-presidente Michel Temer, têm resistido à manobra, Mesmo sem essa resistência, a situação desastrosa do País continuaria atraindo as atenções.
O Banco Central (BC), uma das fontes oficiais, diminuiu de 3,1% para 2,7% o crescimento econômico projetado para o ano, além de reduzir de US$ 15 bilhões para US$ 7 bilhões o saldo comercial estimado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reestimou de 3,2% para 2%a expansão do produto interno bruto (PIB). Na semana passada estava em 2,4% a mediana das projeções do mercado financeiro. Não só as bolas de cristal mostram cenários tenebrosos.Os dados já conhecidos alimentam no dia a dia as previsões negativas.
Um bom exemplo: a produção industrial caiu 2% de abril para maio, depois de modesta recuperação nos meses anteriores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O saldo comercial do trimestre foi um déficit de US$ 3 bilhões, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento.
Mas o número seria bem pior sem as exportações fictícias de plataformas de petróleo no valor de US$ 2,4 bilhões.
A inflação continua elevada e especialistas apontam um resultado próximo de 6% até o fim do ano. A desinflação dos alimentos acabou e o custo das matérias-primas poderá em breve pressionar de novo os preços ao consumidor.
Em junho, o índice oficial de inflação, o IPCA, calculado pelo IBGE, perdeu impulso e subiu 0,26%, principalmente por causa da menor pressão dos preços dos alimentos. Mas no atacado os preços agrícolas aumentaram 1,46%, depois de recuarem 0,75% em maio, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Também no atacado a alta dos preços industriais chegou a 0,62%. Ainda em junho, o índice de commodities do BC, o IC-Br, subiu 5,34%, com variação de 5,72% para agropecuária, 4,3% para metais e 4,39% para energia.
O repasse desses aumentos ao varejo dependerá de fatores como o nível de emprego,a renda e a disposição dos consumidores,a possibilidade de substituição de bens, as condições do crédito e,naturalmente,a situação das contas públicas.Os consumidores andam mais ressabiados e cautelosos. Mas o emprego permanece elevado,os salários ainda acumulam ganhos reais, embora menores que os dos últimos anos, o crédito ainda aumenta e a política fiscal permanece,como afirma o pessoal do BC, "expansionista".
Nas ruas,manifestantes protestaram contra as tarifas e a qualidade do transporte urbano e cobraram melhores padrões de serviços essenciais,como educação e assistência à saúde. Diante dessas pressões a presidente propôs um plebiscito fora de hora, sobre temas políticos, e convocou os ministros para exigir maior empenho na execução de seus programas - os mesmos programas condenados nas ruas pela baixíssima qualidade de seus resultados.
Os ministros da área econômica estavam prontos, como sempre, para esse tipo de jogo.
Afinal, continuam prometendo mais do mesmo-uma péssima gestão das finanças públicas, mal disfarçada com novos lances de contabilidade criativa, já famosa até na imprensa estrangeira. A quem pensam enganar? Só podem enganar a si mesmos, é claro, porque até os muito trouxas acabam percebendo,embora com algum atraso, os sinais do desarranjo.
A presidente, dizem fontes de Brasília,está isolada.Decerta forma,sempre esteve.Desde o começo de seu mandato cercou-se de assessores incapazes -por incompetência ou por falta de coragem - de ajudá-la a examinar os fatos e a planejar as ações de governo com base em diagnósticos realistas.
A maior parte de sua política administrativa e econômica é mero desdobramento da herança deixada por Luiz Inácio Lula da Silva.Nenhuma alteração essencial ocorreu na diplomacia econômica. Na prática, as prioridades têm sido as mesmas. O País continua amarrado ao mundo estreito e medíocre do Mercosul. Enquanto isso, negociam-se novas alianças e novas perspectivas de comércio e integração econômica são abertas em quase todas as regiões, incluída a América Latina. A Aliança do Pacífico é um bom exemplo.
A administração continua tão ineficiente quanto na fase do antecessor, quando o Brasil foi arrastado pela prosperidade mundial e o País pareceu tornar-se uma potência de peso.A grande novidade, naquele período, foi a rápida incorporação de massas ao mercado consumidor.Como nada se fez para modernizar o País e fortalecer sua capacidade produtiva, a mágica da expansão do mercado se esgotou. A dramática perda de produtividade geral da economia deixou o País desarmado para enfrentar a concorrência estrangeira.
Os resultados são evidentes nas contas externas, mesmo com algum disfarce.Aparentemente sem perceber esses fatos, a presidente insistiu numa política baseada principalmente no estímulo ao consumo. O resultado foi uma combinação de pior a das contas fiscais,erosão do balanço de pagamentos, inflação sempre alta e indústria estagnada.Na administração federal, direta e indireta.aparelhamento e loteamento continuam predominando.
Vai-se consertar tudo isso com um plebiscito improvisado?
Negri e Chávez, tudo a ver - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 06/07
Uma das mais importantes contribuições à integridade da democracia brasileira foi dada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na nota em que mostrou a impossibilidade de realizar o plebiscito sobre reforma política em tempo de obedecer aos prazos legais estabelecidos pela Constituição para valer na eleição de 2014.
Ao colocar como barreira a Constituição, e salientar que não é possível perguntar ao povo questões que ele não pode resolver, como as que exigem emendas constitucionais no Congresso, o TSE deu balizamento para eventuais tentativas de alterar a Constituição através de plebiscitos, sonho de consumo permanente de um grupo influente do petismo.
Nesse contexto, o desespero da presidente Dilma para levar adiante a proposta de plebiscito sobre a reforma política pode gerar uma crise de graves consequências, com o Palácio do Planalto, acobertado pelo PT, tentando jogar a população contra o Congresso, como se a solução das reivindicações das ruas dependesse do plebiscito. O grau de periculosidade aumenta quando o PT decide não só levar para as ruas centrais sindicais e organizações populares ligadas a ele, como insistir na convocação de uma Constituinte. No dia 25 do mês passado, escrevi a coluna "Democracia direta", sobre o perigo de utilizar consultas populares para ultrapassar o Congresso, e disse que a tendência dominava países da América Latina ditos "bolivarianos", sob a liderança da Venezuela chavista, que se inspirara no livro "Poder Constituinte - ensaio sobre as alternativas da modernidade", do filósofo italiano Antonio Negri.
Pois bem, o professor de Direito Constitucional Adriano Pilatti, tradutor do livro para o português, postou no Facebook nota contra o que escrevi. Juntamente com Toni Negri e Giuseppe Cocco, publicou um artigo no jornal "Valor" supostamente para rebater "as sandices" que escrevi, segundo Pilatti. Nesse artigo, afirmam que nunca falaram especialmente sobre a Venezuela, mas sobre o surgimento de novos governos na América do Sul, e, analisando as manifestações dos últimos dias no país, escrevem que "a teoria do poder constituinte e sua realidade (aquela que está abertamente nas ruas do Brasil inteiro) é uma teoria da democracia radical. Não é contra a representação, mas contra a separação dessa de sua fonte: a soberania popular".
A íntima relação de Toni Negri com Hugo Chávez, o falecido protoditador venezuelano, no entanto, está registrada em um encontro que tiveram em Cumaná, Estado de Sucre, num domingo 5 de fevereiro de 2006, e gravado para o programa Alô Presidente número 246. Quem quiser ver a íntegra pode ir ao Google e, a partir da página 59, encontrará diálogos do que Negri e Chávez entendem por "democracia". Chávez conversa com Toni Negri e diz que o conheceu primeiro através de livros como "O Poder Constituinte", que o fez compreender "o que é o poder constituinte original". Negri agradece e diz que teve "muita sorte" de o seu livro cair "em excelentes mãos. Mãos que levaram a cabo não somente um processo democrático, mas também que puderam levar a cabo com esse livro uma revolução, que é a essência de uma verdadeira Constituição, esse amor que nasce e se transmite através da prática da Constituição".
Negri diz que " é interessantíssimo ver como se desenvolve este processo, esse é o essencial, o que você chama de dar o poder ao povo. Quer dizer, transformar este processo revolucionário em uma verdade, em um processo verdadeiro de dar poder ao povo, o que chamo de uma ação verídica até o povo". Outro aspecto importante, diz Negri, é que um grupo de companheiros, tanto na Itália quanto em toda a Europa e América Latina, está vendo "com muito interesse a experiência venezuelana, a proposta bolivariana, e como se está estendendo pela América Latina". Para Negri, "é importante ver que o inimigo somente pode ser vencido através da luta de classes, da luta de todos nós. A luta de classes nos continentes é minha esperança, poder continuar aprofundando este debate, esta proposta que se está formulando hoje que você chama de socialismo do século XXI e eu poderia também chamar de comunismo".
Chávez agradece a Negri e torna a dizer que a partir do livro "O Poder Constituinte", que o fez entender o poder constituinte originário, está se desencadeando um processo na Venezuela e na Bolívia. "Estamos aqui levando adiante um processo democrático, revolucionário, pacífico. Mas, como já disse antes, é uma revolução "alerta e armada", para destruir a traição à Pátria".
Ao colocar como barreira a Constituição, e salientar que não é possível perguntar ao povo questões que ele não pode resolver, como as que exigem emendas constitucionais no Congresso, o TSE deu balizamento para eventuais tentativas de alterar a Constituição através de plebiscitos, sonho de consumo permanente de um grupo influente do petismo.
Nesse contexto, o desespero da presidente Dilma para levar adiante a proposta de plebiscito sobre a reforma política pode gerar uma crise de graves consequências, com o Palácio do Planalto, acobertado pelo PT, tentando jogar a população contra o Congresso, como se a solução das reivindicações das ruas dependesse do plebiscito. O grau de periculosidade aumenta quando o PT decide não só levar para as ruas centrais sindicais e organizações populares ligadas a ele, como insistir na convocação de uma Constituinte. No dia 25 do mês passado, escrevi a coluna "Democracia direta", sobre o perigo de utilizar consultas populares para ultrapassar o Congresso, e disse que a tendência dominava países da América Latina ditos "bolivarianos", sob a liderança da Venezuela chavista, que se inspirara no livro "Poder Constituinte - ensaio sobre as alternativas da modernidade", do filósofo italiano Antonio Negri.
Pois bem, o professor de Direito Constitucional Adriano Pilatti, tradutor do livro para o português, postou no Facebook nota contra o que escrevi. Juntamente com Toni Negri e Giuseppe Cocco, publicou um artigo no jornal "Valor" supostamente para rebater "as sandices" que escrevi, segundo Pilatti. Nesse artigo, afirmam que nunca falaram especialmente sobre a Venezuela, mas sobre o surgimento de novos governos na América do Sul, e, analisando as manifestações dos últimos dias no país, escrevem que "a teoria do poder constituinte e sua realidade (aquela que está abertamente nas ruas do Brasil inteiro) é uma teoria da democracia radical. Não é contra a representação, mas contra a separação dessa de sua fonte: a soberania popular".
A íntima relação de Toni Negri com Hugo Chávez, o falecido protoditador venezuelano, no entanto, está registrada em um encontro que tiveram em Cumaná, Estado de Sucre, num domingo 5 de fevereiro de 2006, e gravado para o programa Alô Presidente número 246. Quem quiser ver a íntegra pode ir ao Google e, a partir da página 59, encontrará diálogos do que Negri e Chávez entendem por "democracia". Chávez conversa com Toni Negri e diz que o conheceu primeiro através de livros como "O Poder Constituinte", que o fez compreender "o que é o poder constituinte original". Negri agradece e diz que teve "muita sorte" de o seu livro cair "em excelentes mãos. Mãos que levaram a cabo não somente um processo democrático, mas também que puderam levar a cabo com esse livro uma revolução, que é a essência de uma verdadeira Constituição, esse amor que nasce e se transmite através da prática da Constituição".
Negri diz que " é interessantíssimo ver como se desenvolve este processo, esse é o essencial, o que você chama de dar o poder ao povo. Quer dizer, transformar este processo revolucionário em uma verdade, em um processo verdadeiro de dar poder ao povo, o que chamo de uma ação verídica até o povo". Outro aspecto importante, diz Negri, é que um grupo de companheiros, tanto na Itália quanto em toda a Europa e América Latina, está vendo "com muito interesse a experiência venezuelana, a proposta bolivariana, e como se está estendendo pela América Latina". Para Negri, "é importante ver que o inimigo somente pode ser vencido através da luta de classes, da luta de todos nós. A luta de classes nos continentes é minha esperança, poder continuar aprofundando este debate, esta proposta que se está formulando hoje que você chama de socialismo do século XXI e eu poderia também chamar de comunismo".
Chávez agradece a Negri e torna a dizer que a partir do livro "O Poder Constituinte", que o fez entender o poder constituinte originário, está se desencadeando um processo na Venezuela e na Bolívia. "Estamos aqui levando adiante um processo democrático, revolucionário, pacífico. Mas, como já disse antes, é uma revolução "alerta e armada", para destruir a traição à Pátria".
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