terça-feira, julho 02, 2013

Subiu no telhado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 02/07

Além da tentativa tosca de se apropriar da recente popularidade da seleção brasileira, afirmando que seu governo é padrão Felipão , mesmo que não tenha ido ao Maracanã com receio das vaias, a presidente Dilma continua sem anunciar medida concreta que dependa diretamente do Executivo para mostrar que compreendeu os anseios das ruas.

Só a reunião de seu megaministério ontem no Palácio do Planalto dá a exata noção da burocracia paquidérmica de um governo paralisado, inoperante. A ideia de realizar um plebiscito para definir reformas no nosso sistema partidário e eleitoral a ponto de alterar as regras do jogo já na eleição de 2014, que parecia um grande lance político, começou a subir no telhado ontem, com uma série de movimentos da própria área governista.

A presidente Dilma, autora da proposta, sublinhou ontem que fizera apenas uma sugestão , pois quem deve definir a essência do plebiscito e sua viabilidade são o Congresso e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A mensagem que o Palácio do Planalto enviará hoje ao Congresso não conterá perguntas, mas sugestões de assuntos e temas . Entre esses, Dilma citou o tipo de financiamento em campanha eleitoral e o sistema eleitoral.

Ao mesmo tempo, o PSB do governador Eduardo Campos sugeriu que o plebiscito seja adiado para outubro do ano que vem, para se realizar juntamente com as eleições, o que parece mais razoável pelo menos em termos de organização e logística de uma consulta popular. O problema, porém, continua do mesmo tamanho, pois a complexidade da reforma política não cabe em um plebiscito - nem parece ser o melhor instrumento para conseguir a participação popular fazer com que o povo substitua seus representantes de maneira direta, em questões complexas como essa.

O referendo seria mais razoável, se se quer legitimar a reforma política a ser aprovada pelo Congresso, mas o mais importante mesmo é que deputados e senadores se sintam pressionados pelas ruas para se reinventarem como representantes do eleitorado.

A ideia da Constituinte exclusiva, que acabou sendo abandonada e substituída pelo plebiscito, parece ter sido uma tentativa malsucedida de emparedar um Congresso que se ressente de apoio popular e levar adiante uma tentativa de alterar o jogo eleitoral para obter, por meio do sistema de lista fechada, uma representação partidária que dê ao PT e a seus aliados à esquerda uma hegemonia no Congresso.

O plebiscito foi o que restou para dar início a uma democracia direta em que o partido no governo pode manipular as consultas até conseguir alterar o equilíbrio entre os poderes. Provavelmente, o recuo do governo também em relação ao plebiscito deve-se à percepção dos demais partidos, inclusive os da base governista, de que o PT manobra para ter a hegemonia do financiamento público de campanha, que vem acoplado à proposta das listas fechadas. O PMDB é dos partidos que mais bombardeiam o plebiscito.

A presidente Dilma, por seu lado, tem contra si dentro do PT o movimento para a volta de Lula, que agrada bastante à maioria da base aliada e até mesmo ao PSB, cujo presidente, Eduardo Campos, não se apresentaria como candidato nessa hipótese.

As dificuldades técnicas para a realização do plebiscito serão analisadas hoje na reunião da Ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE, com os presidentes dos TREs, e talvez a solução para o impasse esteja mesmo na avaliação técnica da questão, sem viés político. A pressão das ruas não pode justificar nem medidas que coloquem em risco as finanças do país nem decisões inviáveis.

Até hoje os plebiscitos realizados no país tiveram pelo menos seis meses para a sua realização, mesmo quando se referiam a apenas um estado, e o referendo sobre desarmamento levou três meses e meio entre a convocação e sua realização.

"Catarse temporária" - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 02/07

BRASÍLIA - O marqueteiro João Santana atribui a queda de 27 pontos na popularidade de Dilma (sem contar os 8 pré-manifestações) a uma "catarse temporária", prevendo que a presidente renascerá das cinzas qual uma fênix e vencerá no primeiro turno em 2014. Possível quase tudo é, mas não será nada fácil.

Fernando Henrique e Lula também bateram no fundo do poço e voltaram à tona, em especial Lula, que afundou no mensalão em 2005, foi reeleito em 2006 e virou o presidente mais popular da história. Mas FHC tem inteligência política, Lula tem um faro extraordinário, e ambos tinham time. Faltam a Dilma bagagem, instrumental e equipe.

Não é com Mercadante na política, Mantega na economia e Gleisi na prateleira que a presidente vai pular a fogueira e superar a crise. Muito menos contrapondo o plebiscito da reforma política aos péssimos serviços à população e aos maus índices e presságios da economia.

O Datafolha confirma que o estrago não foi só em Dilma e pegou em cheio desde governadores, como o veterano Alckmin, a prefeitos, como o promissor Haddad, mas um dado sobressai: a pior avaliação dela é entre os mais jovens. Pode significar que eles estão jogando o PT no mesmo balaio dos demais partidos e de todo o resto. Fim do sonho.

Os maiores adversários de Dilma neste momento, aliás, são a perda do encanto e o pavor do PT e da base aliada diante da perspectiva de perda de poder --e de verbas, cargos, carros, viagens, secretárias...

E o maior aliado de Dilma é o tempo. Da "catarse temporária" até a eleição serão 15 meses, mais do que suficiente para reviravoltas, especialmente se nenhum candidato real, de carne e osso, ocupar o vácuo de liderança e de expectativas.

O tempo, porém, não é tudo. É preciso saber ocupá-lo. Há dúvidas se Dilma, convocando plebiscitos e reuniões ministeriais e compensando suas fragilidades com demonstrações de força, saberá.

Celas - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 02/07

Más notícias podem também ter o seu lado bom. Não é agradável ficarmos sabendo, pelo jornal de sábado, que um deputado federal teve o exercício do mandato interrompido por ter sido punido pelo feio crime de botar no bolso dinheiro público. Aconteceu, na semana passada, com Natan Donadon, de Rondônia.

Ele foi condenado por peculato e formação de quadrilha. Especificamente, apropriou-se de verbas de publicidade da Assembleia Legislativa de Rondônia. A sentença é de três anos atrás, mas não lhe faltou, obviamente, dinheiro para pagar bons advogados que conseguiram adiar a sua prisão até a semana passada. Cidadãos com menos recursos e acusados de crimes menos sérios já estariam na cadeia há mais tempo.

É lamentável que a Justiça tenha agilidade diferente para réus diferentes, mas isso acontece no mundo todo. O importante é que Natan já está vendo o sol nascer quadrado como qualquer outro criminoso. E, embora isso possa parecer crença ingênua, há sempre a possibilidade que outros políticos desonestos – que não são poucos – vejam no seu caso um sinal de alerta e passem a ter mais respeito por recursos que não lhes são devidos.

Pessimistas poderão argumentar que o azar do deputado deve-se em parte pelo fato de representar o estado de Rondônia, e não São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados de maior peso político na federação. Mas também temos o direito, talvez ingenuamente, de acreditar que o caso de Natan sirva de exemplo e lição para o resto da federação. Paulistas e fluminenses, por exemplo. Ou alguém tem a doce esperança de que ele seja um pioneiro na arte de botar no bolso dinheiro alheio?

Donadon, quem sabe, pode ser uma espécie de pioneiro às avessas. Ele é o primeiro deputado a ser preso e condenado por desviar verbas de publicidade da Assembleia Legislativa de Rondônia. É bom lembrar: de Rondônia e de qualquer outra unidade da Federação. Policiais e membros do Ministério Público já manifestaram a esperança de que seu caso abra caminho para a punição de políticos de outros estados que tenham cometido. Mas esperanças estão longe de serem certezas.

É importante notar que ele foi condenado há três anos – e só agora os ministros do STF perderam a paciência e decidiram que não aceitarão mais os recursos de advogados de Donadon que adiavam a execução da sentença. Réus acusados de desvio de dinheiro público sempre têm recursos para contar com bons advogados.

O deputado, que não foi expulso da Câmara por seus pares – o que é pouco lisonjeiro para a reputação do Legislativo -- não foi localizado pelas autoridades: entregou-se voluntariamente a agentes da Polícia Federal e foi levado para o presídio da Papuda, onde terá o benefício de uma cela só para ele. Ao que parece autoridades temem que os condenados comuns não vejam com bons olhos o novo companheiro. Devem ter razão.

Membros do Ministério Público e policiais consideraram que o pioneirismo, digamos assim, de Donadon poderá abrir caminho para a punição de outros homens públicos acusados de botar no bolso recursos públicos. Se isso acontecer para valer, talvez não existam celas que cheguem.

O fio da navalha - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 02/07

Pela entrevista que concedeu ontem, no início da noite, a presidente Dilma Rousseff já fez sua escolha: Ser fiel ao lema “país rico é país sem pobreza”. Os programas sociais seguem sem qualquer alteração e, quanto aos cortes de despesas reclamados pelo mercado, o governo fará estudos para verificar o que é passível de redução. No mais, é tocar a vida, em um dilema que, conforme bem relatou a presidente, existe “todos os dias em uma administração pública”: gastar ou economizar.

O problema é que as prioridades do governo, hoje, conforme avaliam alguns, são de toda ordem. Para usar a linguagem das crianças, “é do tamanho do céu”. A própria Dilma deixou escapar certa vez, em uma audiência durante o seu primeiro ano de governo, que Lula havia deixado obras demais. E, para completar, ela não economizou até aqui. Só de custeio são mais de R$ 600 bilhões, incluindo parte das novas estatais.
Nos últimos tempos, há todo um esforço governamental no sentido de repassar pelo menos as obras de infraestrutura à iniciativa privada. Entraram nessa dança portos, aeroportos, estradas, ferrovias — concessões que o PT há tempos criticava e a presidente, com coragem, enfrentou de peito aberto, ao deixar parlamentares de seu próprio partido sem o velho discurso de que Fernando Henrique Cardoso havia vendido o país.

O fato de o PT ter perdido esse discurso é o de menos, e ainda não resolveu o problema da escassez de recursos. As próprias concessões são difíceis e Dilma terá que terminar muita coisa, em especial, estradas, com o Orçamento da União, onde o cobertor é curto e, as votações, lentas. Para se ter uma ideia da lentidão, há três semanas, o relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2014, deputado Danilo Forte (PMDB-CE), tenta levar adiante seu parecer sobre o tema. Não consegue porque, simplesmente, a base governista não dá quorum às reuniões. Há alguns dias, ele não tinha sequer com quem conversar a respeito, porque o Planalto não tinha designado um interlocutor dentro do Congresso. A LDO define as regras que valerão para elaborar o orçamento do próximo ano e é a proposição que, se não for aprovada até 15 deste mês, prorroga automaticamente os trabalhos da Casa.

Uma das razões pelas quais a LDO travou é a “greve” não declarada dos parlamentares, até que sejam convocadas sessões do Congresso para apreciação dos vetos. E nestes tem de tudo: fator previdenciário, Código Florestal e uma gama de dispositivos legais que aumentam as despesas públicas, algo que o governo não quer nem ouvir falar ou ver aprovado. Para completar esses problemas orçamentários, vem por aí o tal Orçamento impositivo para as emendas de deputados e senadores. Geralmente, essas referem-se a pequenas obras que o governo se acostumou a liberar em conta-gotas, por dois motivos: primeiro fazer economia e, segundo, é sempre uma forma de “prender” o voto do deputado ou senador ao que deseja o Planalto. E a tendência é a de que o Orçamento impositivo seja votado em breve, criando mais uma despesa obrigatória para um governo pressionado em duas frentes — as ruas exigindo mais gastos e gestão dos serviços e os economistas cobrando parcimônia nas despesas. Até aqui, Dilma tem garantido que as duas coisas não são excludentes, e nem a reunião ministerial conseguiu definir os limites de gastos.

Enquanto isso, no Planalto…

Com a popularidade em baixa, Dilma dificilmente terá voz ativa o suficiente para fazer segurar a vontade dos congressistas em defender os recursos para as bases via Orçamento impositivo. Também não abandonará a política de desonerações do setor produtivo para tentar dinamizar a economia. Isso tudo, somado à contabilidade política de não arredar um milímetro dos problemas sociais do governo, põem Dilma no fio da navalha. Ela sabe, entretanto, que a classe mais pobre está a seu lado, suas pesquisas indicam isso. Portanto, é esse público que a presidente atenderá primeiro. Sendo assim, resta, segundo seus assessores mais diretos, torcer para que as manifestações, ainda que em número bem menor do que há 15 dias, não mantenham a sensação de descontrole total sobre o país.

Uma das formas que o governo acredita que funcionará no sentido de passar a sensação de controle é uma agenda ativa no Planalto. Reuniões com ministros e até entrevistas coletivas devem ser mais recorrentes e divulgadas. Aliás, a conversa de ontem entre a presidente e os jornalistas foi umas das primeiras a ocorrer de forma organizada em solo brasileiro. Geralmente, essas entrevistas são restritas aos cafés da manhã de final de ano, ou concedidas em viagens internacionais, com pauta restrita aos temas tratados nos eventos dos quais Dima participou. Seja reunião dos Brics seja Assembleia Geral da ONU. Talvez, ela devesse usar essas entrevistas de forma mais frequente, com a mesma serenidade na voz que demonstrou ontem.

A aparição da presidente tem um efeito positivo em todo sos sentidos. Passa a sensação de que ela não está tão acuada, como querem fazer crer até mesmo parte dos aliados interessados em arrancar um algo mais do governo. Ou mesmo os petistas saudosos de Lula. Aliás, a entrevista de Lula ao jornal Valor Econômico deixa claro a essa parcela que ele não é candidato. Seja para o bem ou para o mal, dentro do PT, a candidata é Dilma. E o discurso é pelos mais pobres. Dentro da base aliada, entretanto, há quem diga que é bom tomar cuidado para não voltar ao tempo dos discursos em defesa dos “descamisados”, empreendido no governo Collor. Afinal, como todos sabem, o resultado ali não foi dos melhores.

Marketing padrão Fifa - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 02/07

SÃO PAULO - No Brasil, hoje, poucas pessoas entendem tanto de como ganhar eleição quanto o jornalista -tornado marqueteiro- João Santana. Seu retrospecto recente inclui a reeleição de Lula no pós-mensalão e a vitória dos desconhecidos Dilma Rousseff, em 2010, e Fernando Haddad, dois anos depois.

Diante dos apuros em que se encontram os dois "postes" que ajudou Lula a iluminar, Santana "redobra a aposta'', como disse ao Painel após o Datafolha apontar queda de 27 pontos na avaliação da presidente: "Dilma ganha no primeiro turno''.

São da lavra do marqueteiro todas as peças de comunicação usadas pela presidente neste ano para comemorar a redução na conta de luz e os dez anos do PT no poder e, agora, responder aos protestos de junho.

O otimismo do Brasil se descolando da Terra e alçando voo rumo ao espaço, levado ao ar no programa do PT em maio, em nada combina com as cenas de milhares de pessoas indo às ruas no mesmo país para reclamar contra tudo e contra todos.

Mas já ali, no texto do próprio João Santana, Dilma enunciava que não basta economia dinâmica'' sem educação, saúde e segurança de qualidade. "Aliás, todos os serviços públicos têm de estar à altura do novo Brasil.''

Lula dizia que o Brasil aprendeu a transformar o demorado em rápido, o impossível em possível''. De fato, como se veria logo em seguida.

Ao refazer sua aposta na vitória da presidente sem segundo turno, apesar do cenário hoje adverso, o marqueteiro do PT deve crer que, passada o que chamou de "catarse emocional'', as reivindicações das ruas serão canalizadas para algo racional como a fala de Dilma em maio.

Resta saber se, depois de 12 anos de PT no poder e com a economia não tão dinâmica, a cliente de Santana terá credibilidade para vender ao eleitor não os efeitos especiais de um blockbuster chamado "Brasil'', mas os tais serviços padrão Fifa'' que os criadores dos cartazes de rua batizaram de forma tão genial. E de graça.

O País acordou, Dilma não - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 02/07
Já era esperado que as manifestações que sacudiram o País - e ainda continuam a fazê-lo em menor intensidade - levassem a uma queda tanto do índice de aprovação do desempenho da presidente Dilma Rousseff como dos que se mostram dispostos a votar por sua reeleição em 2014. O que surpreendeu e assustou foi o tamanho da queda, registrada na última pesquisa do Datafolha. Em apenas três semanas, a porcentagem dos que consideram seu governo ótimo ou bom despencou de 57% para 30%, Uma perda de 27 pontos - a maior registrada por aquele instituto desde que o ex-presidente Collor, em 1990, congelou a poupança - em tão pouco tempo realmente impressiona.

Aquilo que Dilma e seus aliados parecem não ter percebido é que, se nem todas as insatisfações que levaram às manifestações foram ainda identificadas, entre elas dificilmente deixarão de estar o mau desempenho da economia - com a inflação crescente assustando principalmente as camadas de baixa renda, as mais prejudicadas por ela - e as difíceis relações entre a presidente e sua vasta e heterogênea base de sustentação no Congresso. Esses dois ingredientes, que já seriam suficientes para provocar mal-estar, para não dizer crise, foram potencializados pela ira das mas.

Descontente em especial com a má qualidade dos serviços pelos quais paga caro e com a corrupção que continua a correr solta, e há muito tempo, o povo acordou e está dando seu recado de forma em geral ordeira. Já Dilma e seu governo ainda parecem entorpecidos pela ilusão de que tudo ia pelo melhor dos mundos. Embora se dizendo disposta a ouvir a voz das ruas, a presidente não deu mostras até agora de ter entendido, como deveria, o seu recado. As medidas de natureza administrativa e econômica anunciadas para aplacar a ira dos manifestantes são quase todas requentadas e pouco animadoras. O mesmo se pode dizer das destinadas a combater a corrupção, que não tocaram, nem de leve, em áreas sombrias de seu governo, que voltaram a ser ocupadas pelos correligionários dos que delas foram afastados pela faxina promovida no início de seu mandato.

É tudo isso - mais a constatação de que a presidente não está à altura do cargo - que está por trás do tombo de Dilma na apreciação do povo. E, como a queda diz respeito à eleição de 2014, na qual Dilma está abertamente empenhada, seus efeitos desorientam ainda mais a já desorientada presidente. No cenário em geral considerado mais provável da sucessão - tendo como candidatos Dilma, Marina Silva, Aécio Neves e Eduardo Campos a presidente perdeu 21 pontos em relação à última pesquisa, caindo de 51% para 30% na preferência dos ouvidos pelo Datafolha.

Assustados com o futuro, que começa a ficar incerto, seus aliados - até mesmo o PT - tomam precauções, pedem mudanças no governo e na articulação política e insinuam possíveis rompimentos. O próprio líder no PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI), foi tão direto quanto possível para alguém em sua posição. Lembrando os exemplos dos ex-presidentes Fernando Henrique e Lula, que estavam bem colocados antes de se candidatarem à reeleição, afirmou que, "se ela (Dilma) estiver bem posicionada em 2014, será a nossa candidata. Isso é o que estamos sentindo nas reuniões do PT". Senão... Isso explica os movimentos ainda velados de "Volta Lula".

De imediato, Dilma tem de enfrentar o descontentamento de sua base aliada no Congresso - que já existia e cresceu com o susto das manifestações e sua queda nas pesquisas -com o desempenho dos ministros da Fazenda, Guido Mantega, da encarregada da articulação política, Ideli Salvatti, e da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Já é notória a incapacidade das duas ministras na articulação da base parlamentar, que se soma à falta de aptidão da presidente para os entendimentos políticos.

A presidente pode se enganar mais uma vez, se achar, como dá mostras, que vai melhorar sua situação a curto prazo, agarrando-se ao plebiscito da reforma política, porque ele tem a simpatia de 68% da população. Em vez disso, deveria ouvir a advertência - não sem uma dose de ironia involuntária - de seu aliado Carlos Luppi, presidente do PDT, afastado por ela do governo: "Quando o navio naufraga, os ratos saltam".

Interlocutores chapas-brancas - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 02/07

Ao ouvir apenas entidades alinhadas com o petismo, Dilma não tem como saber quais são as reais aspirações dos brasileiros que vão às ruas


Demorou, mas a presidente Dilma Rousseff começou a mostrar interesse em tentar compreender o que está acontecendo no Brasil, tomado por manifestações de rua, e oferecer algumas respostas à população brasileira. À medida que os protestos passaram a resvalar em sua popularidade, a presidente passou a convocar reunião atrás de reunião, a última delas ocorrida ontem, com quase todos os seus inacreditáveis 39 ministros. A presidente já flertou com a convocação (inconstitucional) de uma assembleia constituinte específica para a reforma política, ideia aparentemente descartada; agora, quer que a população decida, por plebiscito, quais os temas que o Congresso deve abordar para a mesma reforma.

Na sexta-feira passada, Dilma teve o que houve de mais parecido com um encontro com representantes da sociedade civil. Mas basta observar o elenco das entidades convocadas para observar algo curioso: estiveram em Brasília o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, (Ubes), o Movimento dos Sem-Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Marcha Mundial das Mulheres, a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), o Levante Popular da Juventude, a Rede Fale, o Hip Hop, o Fórum de Juventude de Belo Horizonte, a União da Juventude Socialista (UJS), a Juventude do PT (JPT), a Juventude Socialista Brasileira (JSB), a Juventude Socialista do PDT (JSPDT), a Juventude do PMDB (JPMDB), a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Pastoral da Juventude (PJ), a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Marcha das Vadias, o Fora do Eixo e a Agência Solano Trindade. No começo da semana passada, Dilma já havia recebido representantes do Movimento Passe Livre (MPL). O que todas essas entidades têm em comum é o alinhamento praticamente incondicional (críticas, quando há, são pontuais) com as plataformas do petismo.

Encontrar apenas a juventude chapa-branca pouco serve para que a presidente possa entender o que está indignando o país. No máximo, o encontro serve para reforçar algumas reivindicações que destoam do sentimento geral da sociedade brasileira – representantes da Marcha das Vadias, por exemplo, pediram mais uma vez a legalização do aborto, rejeitada por ampla maioria dos brasileiros. Partidos de oposição, como o Democratas e o PSDB, também têm suas alas jovens, que, coincidência ou não, estavam ausentes do encontro. Esses jovens também não teriam algo a dizer? Aliás, não são apenas os setores “J” dos partidos de oposição que estão sendo ignorados por Dilma. A presidente havia falado em receber essas legendas, mas até agora só houve um convite a outro partido de esquerda, o PSol.

Se Dilma quer realmente adquirir uma compreensão verdadeira dos problemas do país, precisa ouvir aqueles que não prestam a vassalagem que o petismo costuma exigir. E não se trata apenas dos partidos de oposição, mas da sociedade como um todo: confederações e federações nacionais da indústria, do comércio, dos serviços, da agricultura e pecuária, dos transportes; entidades de classe das mais diversas categorias profissionais; associações de consumidores, de aposentados; universidades; confissões religiosas de âmbito nacional, entre tantas outras entidades. Nesse momento, são justamente os grupos mais críticos ao governo Dilma que deveriam estar na agenda do Planalto – e desses grupos se espera, claro, a disposição de expor claramente quais são suas demandas.

Até o momento, as respostas que Dilma ofereceu ao Brasil foram vagas, como o pacto com governadores e prefeitos para que todos façam exatamente aquilo para o qual foram todos eleitos – o que houve de mais específico foi a tentativa de reciclar a polêmica e criticada proposta de vinda de médicos estrangeiros. Ainda que os ânimos nas ruas esfriem, o Brasil segue esperando que seu governo demonstre sensibilidade em relação às demandas dos cidadãos, mas após um verdadeiro esforço de diálogo. Até o momento, apenas as entidades alinhadas ao PT foram ouvidas. A essa altura, tentar impor plataformas petistas alegando que “a sociedade foi ouvida” seria uma grande desonestidade.

A falsa solução do plebiscito - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 02/07

A ideia da reforma política via consulta popular encobre reclamações objetivas contra gastos públicos mal feitos, desperdícios, descaso com Saúde e Educação



Resultado de um lance de oportunismo de alas do PT embevecidas pela “democracia direta” chavista, a Constituinte exclusiva, ideia afastada por flagrante ilegalidade — não pode haver constituinte para rever apenas partes da Carta — foi convertida em plebiscito. Ao vislumbrar uma brecha na crise das manifestações de rua para contrabandear este antigo sonho do partido — oficialmente, desde 2007, segundo documentos internos do PT —, a legenda desembocou numa consulta que o governo Dilma precisa viabilizar junto ao Congresso.

A tarefa é impossível de ser cumprida, se a ideia for realizar uma consulta séria à população. Como o tema do plebiscito, a reforma política, não pode ser traduzido em perguntas simples e objetivas, exigência de qualquer sondagem popular, a presidente Dilma tem mais um problema sério sobre a mesa para resolver.

E tudo isso para pretensamente atender a uma das reivindicações das ruas, afirmam o governo e o partido. Ora, num sentido bastante amplo, pode-se entender que as críticas aos políticos e governos em geral, feitas nas manifestações, podem ser atendidas por uma reforma política. É duvidoso, porém. Mais ainda quando se sabe que, entre as mudanças arquitetadas por petistas, está o voto em lista fechada, em que os candidatos são escolhidos pelos caciques partidários, em barganhas nada transparentes, distantes do povo em nome do qual se pretende fazer as mudanças. Ironia pura. E enquanto o plebiscito vai tomando conta da agenda política, o governo finge não entender críticas reais feitas nas ruas: prioridades erradas nos gastos públicos, desperdícios, mais recursos para Educação e Saúde, por exemplo. É a tradução dos ataques aos estádios para a Copa e à baixa qualidade do sistema de transporte público urbano.

Em vez de uma incerta e etérea reforma política, o Planalto deveria responder às manifestações com ações objetivas e certeiras. Como a suspensão do mirabolante e bilionário projeto do trem-bala entre Rio e São Paulo, com o último orçamento em mais de R$ 30 bilhões — cifras sempre revistas para cima —, e a transferência do que houver de dinheiro público envolvido na empreitada para viabilizar projetos de trens suburbanos e metrôs nas duas regiões metropolitanas.

Os tais “pactos” com os quais Dilma se compromete — a reforma política é um deles — correspondem a despesas de R$ 50 bilhões. Em entrevista ao GLOBO, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, promete cortes em gastos de custeio e/ou aumento de impostos a fim de compensar estas despesas. Chega a ser um acinte admitir aumentar a já elevada carga tributária, quando o governo gasta R$ 611 bilhões por ano — ou quase US$ 300 bilhões — para manter uma enorme máquina burocrática, com 39 ministérios, quase 1 milhão de funcionários e 22 mil servidores apaniguados, donos de cargos ditos de confiança, para os quais são nomeados por afinidades pessoais e ideológicas. Explica-se o mau humor demonstrado nas manifestações. Vandalismo à parte.

Sinais de mudança - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 02/07

Com recuperação nos EUA e indícios promissores na Europa, emergentes precisam mostrar boa condução da economia para atrair capitais


Tornou-se clichê, nos últimos anos, afirmar que os países emergentes seriam a fonte do crescimento econômico mundial. Estados Unidos, Europa e Japão, por seu turno, estariam presos a amarras estruturais, como a demografia desfavorável, e ao endividamento público que restou da crise.

Ainda que não existam motivos para revisar a tendência de longo prazo, os últimos meses revelaram sobressaltos nesse caminho. O cenário é de recuperação dos países desenvolvidos, EUA à frente.

Espera-se que o crescimento americano se aproxime de 2% neste ano e supere 3% em 2014. Os preços de imóveis começam a subir, o que reanima boa parte do sistema financeiro. O país também passa por um choque de produtividade e redução de custos, inclusive com energia mais barata.

Embora os problemas sejam maiores na Europa, as notícias recentes também têm sido favoráveis. Na semana passada, houve avanços para implantar uma supervisão financeira única. Abre-se o caminho, com isso, para uma união bancária maior, passo decisivo para superar a desconfiança no euro.

Há evidências, ainda, de tênue recuperação nos países mais afetados pela crise, como Espanha, Irlanda, Itália e Portugal. Depois de quase um ano de recessão, a previsão é de alguma expansão do PIB europeu no segundo semestre.

Parece estar chegando ao fim o pior momento da crise no mundo rico. Em si, trata-se de evidente boa notícia. O crescimento global será maior, supõe-se, o que beneficia a todos. Os estímulos que aumentaram a oferta de capitais tornam-se menos necessários. Como consequência, os juros, hoje perto de zero, voltarão a subir.

O desafio dos emergentes, beneficiários da fuga de capitais dos países ricos, é se ajustar à nova realidade. Brasil, Índia e China passam por um período de crescimento menor do que o esperado.

Em um ambiente de relativa escassez de recursos, bons fundamentos econômicos (como inflação baixa e contas públicas equilibradas) e coerência nas ações internas serão ainda mais essenciais.

Quanto a esses aspectos, o Brasil não atravessa bom momento. Reflexo disso, a aprovação da gestão econômica caiu, em menos de um mês, de 49% para 27%, segundo o Datafolha --e, para 44%, o desemprego vai crescer, ante 36% na pesquisa anterior. A avaliação é pior do que a do conjunto do governo da presidente Dilma Rousseff, que recuou de 57% para 30%.

No mesmo ponto de seu mandato, em junho de 2005, Lula tinha 36% de aprovação na área econômica --apesar de taxa de juros, desemprego e inflação mais elevados.

Para reverter esse quadro, é preciso restaurar a confiança na política econômica, o que demanda coragem para reavaliar a estratégia dos últimos anos. A insatisfação que se manifestou nas ruas oferece boa ocasião também para isso.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Esse é um problema que não é nosso. Mas o PT já está vivendo”
Aécio Neves (PSDB) sobre o “Volta, Lula”, que é mortal para as chances do tucano


JOÃO DE ABADIÂNIA FEZ ‘CIRURGIA ESPIRITUAL’ EM LULA

O ex-presidente Lula fez há dias “cirurgia espiritual” de câncer com o médium João de Deus, em Abadiânia (GO), a 78 km de Brasília, na Casa Dom Inácio de Loyola, que atrai enfermos de todo o mundo. Lula já havia visitado o médium, como noticiou esta coluna em 8 de junho. Com a cirurgia, houve ao menos três encontros dos dois. O primeiro se deu no Hospital Sírio Libanês, quando Lula iniciou o seu tratamento.

CELEBRIDADES

Entre as celebridades que fizeram “cirurgias espirituais” com João de Deus, o ex-vice José Alencar, Tom Jobim e Silvio Santos.

PARA O MUNDO

A apresentadora de TV americana Oprah Winfrey revelou-se “maravilhada” com João de Deus, após entrevistá-lo há um ano.

É GUERRA!

Com jacaré nadando em rio de piranha no Brasil, a Marinha mandou 240 homens à Força Interina Marítima da ONU para a paz...no Líbano.

LIVRE ESCOLHA

A tirada genial do inesquecível Stanislaw Ponte Preta sugere um belo plebiscito; restaure-se a moralidade (­_ ) locupletemos todos (_ ).

CARDOZO TEM 15 DIAS PARA DECIDIR SOBRE BATTISTI

Por lei, o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) tem quinze dias se pronunciar sobre a expulsão do terrorista Cesare Battisti, após o Superior Tribunal de Justiça negar o pedido de revisão da condenação pelo uso de falsos carimbos da Imigração brasileira no passaporte. De acordo com o Estatuto do Estrangeiro, terrorista deve ser expulso do país que o acolheu e cujas leis ele ofendeu. O bandido é réu confesso.

QUATRO ASSASSINATOS

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália por vários homicídios, e obteve asilo de Lula mesmo após infringir o Código Penal brasileiro.

UM FARSANTE

Na Itália, Battisti executou quatro inocentes a sangue frio. Por aqui, fraudou carimbos da imigração, crime previsto na Lei 6815/80.

DEVAGAR E SEMPRE

Tal como Lula que o abrigou, caberá a Dilma decidir se o meliante “companheiro” deverá ser expulso e quando. Ou seja, talvez nunca.

PRODÍGIO

A filha de Lula, Lurian, festejou no Facebook o talento do filho, que comprou o livro Gemas do Brasil numa livraria em São Paulo, “para aprender sobre pedras preciosas! Kkkkk. Esse menino vai longe!”.

MUNDO DA LUA

Enquanto povo clama por mais saúde e educação, a Câmara pôs na pauta de votações projeto do mensaleiro João Paulo Cunha (PT-SP) que anistia trabalhadores rurais de Rondônia punidos no “Massacre de Corumbiara”, e outro que cria aposentadoria especial dos garçons.

EU NO FUTURO?

Resta saber como os mensaleiros José Genoino (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP) votarão na Comissão de Constituição e Justiça sobre a cassação do mandato de Natan Donadon, que já está atrás das grades.

BOCA DE ESPERA

Amir Lando (PMDB-RO), suplente, já escolhe o terno da posse na vaga de Natan Donadon, que deverá ser cassado. O ex-ministro Lando e Lula foram acusados de improbidade em 2011, pelo Ministério Público.

PÊNDULO

O DEM até se inclinou para o lado do presidenciável Eduardo Campos (PSB), mas recuou após avaliar que será difícil ele decolar em 2014. Já está na cola novamente do PSDB de Aécio Neves (MG).

SUBIU NO TELHADO

Após recuo de seus aliados, subiu no telhado a filiação do tucano José Serra ao Mobilização Democrática, fruto da fusão PPS-PMN. A virtual nova sigla deposita as esperanças no apoio de Eduardo Campos (PSB).

TIRO NO PÉ

O Planalto avalia que a ex-senadora, ex-ministra e presidenciável Marina Silva só não tentou tirar mais proveito dos protestos porque se queimou com ala considerável dos manifestantes, após defender o deputado Pastor Marco Feliciano.

BECO SEM SAÍDA

Apesar da má vontade de sua presidência, a Câmara terá de cassar Natan Donadon, já no xilindró. O artigo 55 da Constituição Federal determina perda de mandato em caso de sentença transitada em julgado.

PENSANDO BEM...

...com 39 ministros falando uma hora, a reunião com Dilma na Granja do Torto acaba na quarta-feira.


PODER SEM PUDOR

A CORES É OUTRO PAPO

O cabo eleitoral João da Bocaína, de Lajes (SC), sempre pedia presentes aos políticos, por isso ganhou uma TV preto & branco de um deputado estadual que ajudou a eleger, Ivan Ranzolim. Mas vivia reclamando:

- Não consigo fazer funcionar aquelas 'botãozeiras'. Quando tem semblante não tem sotaque, quando tem sotaque não tem semblante.

Ranzolim eleito presidente da Assembleia, Bocaína pediu uma TV a cores:

Pode até faltar o sotaque, mas o semblante eu quero colorido.

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Resistência a plebiscito de Dilma cresce no Congresso
- Folha: Caminhoneiros travam rodovias em nove Estados
- Estadão: ‘Não farei demagogia no corte de gastos’, diz Dilma
- Correio: Dilma tem pressa para o plebiscito. E o Brasil?
- Valor: OGX fracassa na Bacia de Campos e ação cai a R$ 0,56
- Estado de Minas: De carona com os caminhoneiros
- Jornal do Commercio: Motorista mantém greve
- Zero Hora: Ele voltou
- Brasil Econômico: Petroleiras levam choque de realidade

segunda-feira, julho 01, 2013

O clamor das ruas e o cabeleireiro - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA


Torturar o eleitorado com ura plebiscito sobre reforma política equivale a repassar-lhe um problema de física. Plebiscitos se fazem com enunciados simples, que envolvem no máximo rudimentares cálculos aritméticos. Por exemplo:

Em nove oportunidades, uma cliente pagou 400 reais ao profissional que lhe fez. o penteado e a maquiagem. Na décima, pelo mesmo serviço, foram-lhe propostos 3125 reais. A cliente deve concordar com a proposta? Sim ou não?

Dizer que reforma política não é problema a apresentar ao eleitorado não é menosprezá-lo. Ninguém é obrigado a saber o que é voto distrital, voto distrital misto, lista fechada, lista aberta, cláusula de barreira, financiamento público de campanha ou coligações em eleição proporcional.

Isso para não falar em quociente eleitoral e em método de D"Hondt, que a qualquer momento também podem entrar em campo. Para bem votar num plebiscito desses, o eleitor precisaria fazer um curso de direito constitucional. (Atenção, donos de cursinhos: eis uma oportunidade.) Não basta, porém, saber o que significa tal palavrório. Para complicar, cada coisa implica outras. Tome-se o tão alardeado voto distrital. De que forma viria ele — convivendo com os atuais limites máximo e mínimo de deputados para cada estado? Ou seriam revistos tais limites?

Para quem não sabe (vamos começar nós mesmos o cursinho), a Constituição prevê que nenhum estado pode ter menos de oito deputados nem mais de setenta. A consequência é uma grande distorção na representação da população. Cada um dos setenta deputados de São Paulo vale 600.000 habitantes (população de 42 milhões dividida por setenta), enquanto cada um de Roraima vale 58 750 (população de 470.000 dividida por oito). Adotado o voto distrital, e mantidos os limites máximo e mínimo, a distorção continua igual na aritmética, mas no plano simbólico assume enormes proporções: haverá deputados de distrito de 600.000 pessoas e outros de distrito de 58.750. Deputados que valem mais e valem menos. Os de inquestionáveis credenciais e os questionáveis. O eleitor consciente, antes de cravar "sim" no voto distrital, precisa saber se os limites máximo e mínimo vão ser mantidos. Se vão, recomenda-se que caia fora. (Nos EUA. onde a representação é mais ajustada às populações, nove estados, além do Distrito de Colúmbia, elegem apenas um deputado. No Brasil, dez estados pouco populosos, além do Distrito Federal, estão super-representados com oito deputados cada um.)

É duvidoso que vingue a ideia do plebiscito, como não vingou a da tal "Constituinte exclusiva". Reforma política é assunto que, como nem o Executivo, nem o Congresso, nem o Supremo Tribunal conseguem resolver, o governo tenta agora enfiar goela do eleitor abaixo. Se o plebiscito vingar, arrisca gerar um monstrengo constitucional das proporções de bicho pré-histórico. Acresce que a proposta foi engendrada não como resposta, mas como tergiversação ao clamor das ruas. Bem auscultada, a voz da rua não é difícil de ser decifrada. Tirante os grupelhos que, à esquerda, por puro reflexo condicionado, se conduzem pela miragem de abalar o capitalismo e, à direita, por confundir democracia com má gestão e roubalheira, flertam com ditadura militar, o que a rua pede é um governo decente, que não se acumplicie com a corrupção, cuide bem do Erário e invista nas coisas certas. Vale dizer que o tema não é a política, mas a administração. Ou, mais precisamente: não é o arcabouço constitucional das instituições políticas, mas os métodos administrativos.

Daí não ser à toa que esteja posta, aí em cima, a história dos preços do cabeleireiro. A história é real. A cliente em questão é a presidente Dilma Rousseff. e os preços foram apurados pela reportagem da Folha de S. Paulo. Em nove ocasiões, desde o início do mandato de Dilma, a Presidência pagou 400 reais pela preparação de seu visual, antes das aparições na televisão. Na décima, em dezembro do ano passado, foi-lhe apresentada uma conta de 3 125 reais. O governo disse sim ou não? Adivinhe o leitor. Adivinhou: disse sim. E continuou dizendo sim nas duas vezes seguintes, a última das quais na semana passada, quando pagou os mesmos 3 125 reais. Ora. direis, é uma mera conta do cabeleireiro. Se a conta do cabeleireiro, tão simples de calcular, é administrada desse jeito, imagine-se a da transposição do São Francisco.


O fim do resto - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

Um caderno de anotações sobre os fatos que vêm acontecendo no Brasil durante as três últimas semanas poderia conter, com bastante precisão e dentro da "margem de erro" tão útil aos institutos de pesquisa, o registro das seguintes realidades:

A presidente Dilma Rousseff simplesmente não está à altura da situação que tem o dever de enfrentar. Não sabe o que fazer, o que acha que sabe está errado, e, seja lá o que resolva, ou diga que está resolvendo. não vai ser obedecida na hora da execução. O momento exige a grandeza, a inteligência e os valores pessoais de um estadista. Dilma não tem essas qualidades. O autor deste artigo também não sabe o que deveria ser feito — para dizer a verdade, não tem a menor ideia a respeito. Em compensação, ele não é presidente da República.

A mais comentada de todas as propostas que a presidente anunciou para enfrentar a crise foi um misterioso plebiscito, do qual jamais havia falado antes, para aprovar uma nova Assembleia Constituinte destinada exclusivamente a fazer uma "profunda reforma política". Não houve, também aqui, a mínima preocupação em pensar antes de falar, para ver se existiria alguma ligação entre essa ideia e a possibilidade real de executá-la dentro das leis vigentes. Não existia, é claro. Resultado: a proposta de Dilma morreu em 24 horas, afogada num coro de gargalhadas. A hipótese otimista é que o governo esteja a viver, mais uma vez, um surto agudo de desordem mental e descontrole sobre seus próprios atos. A pessimista é que o PT, sob o comando do ex-presidente Lula. esteja querendo empurrar Dilma para uma aventura golpista.

A única "reforma política" que o PT quer fazer, como se sabe há anos, é a seguinte: tirar do eleitor brasileiro o direito de escolher os deputados nos quais quer votar, obrigando a todos a votar numa "lista fechada" e composta exclusivamente de nomes que os donos dos partidos escolherem; "financiamento público" para as campanhas, ou seja, sacar dinheiro do Tesouro Nacional e entregá-lo diretamente aos políticos nos anos eleitorais. Além dos milhões que já recebem pelo "caixa dois" das empresas privadas (e que o próprio Lula. numa "entrevista" armada durante o mensalão. considerou algo perfeitamente normal), receberiam também dinheiro que vem direto do contribuinte.

A "reforma" Lula-PT não propõe nenhuma mudança, uma única que seja. em nada daquilo que a população realmente quer que mude. e que tem sido um dos alvos principais da ira das ruas: o fim de qualquer dos privilégios grotescos dos parlamentares, como carro privado para cada um, casa de graça, verbas que podem gastar como quiserem, e que acabam sistematicamente no próprio bolso ou no de sua família. Podem faltar quanto quiserem. Vendem ou alugam seus assentos a "suplentes". A reforma petista mantém o absurdo sistema eleitoral que nega ao cidadão brasileiro o direito universal de "um homem, um voto". Recusa o voto distrital, adotado em todas as democracias verdadeiras do mundo. Nada disso: num ambiente de catástrofe, em que até uma criança de 10 anos sabe que o povo tem pelos políticos uma mistura de asco, desprezo e ódio, o PT quer dar ainda mais dinheiro a eles.

A presidente disse que "está ouvindo" os indignados que foram às ruas. Mas não está. Se estivesse, não existiria, em primeiro lugar, o inferno que é a vida diária de milhões de brasileiros, a quem o governo ignora; porque dá o Bolsa Família, anuncia vitórias imaginárias e acha que governar é fazer truques de marquetagem, convenceu-se de que o povo está muito bem atendido. Escutando os protestos? Ainda em março, Dilma recusou uma suíte de 80 metros quadrados num hotel de luxo da África do Sul, por achar que era pequena demais. A culpa, é claro, foi passada ao Itamaraty. Mas, quando o fato se tornou conhecido, a presidente não disse nenhuma palavra de desculpa, nem mandou o Itamaraty tomar alguma providência para que um fato assim não se repita. Foi adotada uma única medida: de agora em diante o governo não vai mais revelar nenhum dado das viagens presidenciais.

Ao longo de vinte dias, Dilma, seus 39 ministros e os mais de 20.000 altos funcionários de "livre nomeação" do governo não vieram com uma única ideia que pudesse merecer o nome de ideia. Suas propostas demoraram até a semana passada para aparecer — e, quando enfim vieram, anunciaram coisas desconectadas com a realidade ou entre si próprias, pequenas na concepção e nos objetivos, incompreensíveis ou apenas tolas. Foram tirando ao acaso de uma sacola, e jogando em cima do público, as miudezas que passaram por seu circuito mental nestes dias de ira: mudar a distribuição de royalties do petróleo, importar 10.000 médicos estrangeiros, punir a "corrupção dolosa" como "crime hediondo" (Dilma, pelo jeito, imagina que possa haver algum tipo de corrupção não dolosa), dar "mais recursos" para isso ou aquilo, melhorar a "mobilidade urbana". É puro PAC.

No jogo jogado, tudo isso quer dizer três vezes zero. Numa hora dessas eles vêm falar em royalties, assunto técnico que exigirá meses ou anos para ser reformulado? Importação de médicos? Só agora descobriram que faltam médicos no serviço público por causa da miséria que lhes pagam? Só depois que o povo foi para a rua perceberam que a corrupção é um crime abominável? Se os que mais roubam estão dentro da máquina do governo, como acreditar num mínimo de sinceridade nesse palavrório todo? A presidente e seu entorno anunciaram medidas que só o Congresso pode aprovar. Outras dependem do Judiciário, ou de estados e prefeituras. O que sobra é o fim do resto.

Os números apresentados até agora não fazem nenhum sentido. Falou-se em aplicar "50 bilhões" de reais em obras de "mobilidade urbana". Que raio quer dizer isso? Parece que se trata de melhorar o transporte em metrô, trens e ônibus — mas não existe a mais remota informação concreta sobre como fazer isso na prática, nem onde, nem quando. Não é uma providência de verdade; é apenas uma cifra chutada e um amontoado de dúvidas. O trem-bala. por exemplo — será que entra nessa conta? Há algum projeto de engenharia pronto para alguma obra a ser feita? Alguém no governo sabe dizer onde estão os tais "50 bilhões"? Não é surpresa que um grupinho de garotos do Movimento Passe Livre tenha saído de um encontro com Dilma dizendo que ela é "completamente despreparada" no assunto. Os números citados para a saúde são igualmente desconexos: 7 bilhões de reais para "20.000" unidades de atendimento médico. Quais unidades? Onde? Esses "7 bilhões", se existissem, equivaleriam a 20% do que se estima que será gasto nas obras para a Copa de 2014. Dá para entender? É a fé cega na incapacidade do povo brasileiro em fazer contas.

A marca mais notável da defesa que o governo fez de si próprio, durante estes dias de revolta, é que não há uma defesa. Pedem que o povo reconheça as "transformações" que fizeram no país. Quais? Após dez anos de governo popular do PT, o Brasil está em 85° lugar no IDH — subiu apenas 5% em todo esse tempo, e teve crescimento praticamente nulo durante os anos Dilma. Isso ocorreu num período de dramáticos avanços na renda de todos os países pobres: apenas entre 2005 e 2011, 500 milhões de pessoas saíram da pobreza em todo o mundo. O governo do petismo transformou o Brasil num país com 50 000 assassinatos por ano, e onde 75% da população não é capaz de entender plenamente o que lê. A rede pública de saúde foi transformada num monstro em que o cidadão pode esperar seis meses, ou um ano, por um exame clínico, e pacientes aguardam atendimento jogados no chão de hospitais, como se vivessem num país em guerra. A transformação do sistema portuário criou um Brasil que não consegue embarcar o que produz nem desembarcar o que compra lá fora. Conseguiram, até, transformar o significado da palavra "corrupção", ao venderem a ideia de que qualquer denúncia contra a roubalheira do governo é "moralismo" — ou seja, o erro é denunciar o erro.

As ruas iradas de junho deixaram à vista de todos um fato que muita gente já sabe, mas quase nunca é mencionado: o ex-presidente Lula é um homem sem coragem. Líderes corajosos jamais se escondem nas horas de dificuldade brava. Ao contrário, vão para a frente, tomam posição nos lugares mais arriscados, e assumem a luta em defesa do que acreditam. Não ficam escondidos da população, fazendo seus pequenos cálculos para descobrir o lucro ou prejuízo que teriam ao aceitar suas responsabilidades — pensam, apenas, no seu dever moral, nos seus princípios e nos seus valores. Coragem é isso — e isso Lula não foi capaz de mostrar. Onde está ele? Na hora em que o Brasil mais precisou de uma liderança em sua história recente, o homem sumiu. Vive dizendo que não há no mundo ninguém que saiba, como ele. subir no carro de som ou no palanque e "virar" qualquer situação de massas. Na hora de agir, trancou-se na segurança do seu esconderijo. E a "negociação" — na qual também se julga um ás incomparável —, onde foi parar? Para quem tem certeza de que negociou "a paz no Oriente Médio", Lula teria de estar desde os primeiros momentos tratando de montar algum tipo de negociação. Na vida real, limitou-se a cochichar com subalternos, dar palpite e falar mal dos outros. Lula sempre fez questão de achar "inimigos". Pois achou, agora, todos os que poderia querer.

Ficou claro que o governo está errando há dez anos na avaliação que faz da imprensa livre. Confundiram tudo: acharam que a internet, com a sua audiência sem limites, estava anulando jornais e revistas, quando na verdade tem feito exatamente o contrário: reproduz o que sai na imprensa para milhões de pessoas que não leram o noticiário escrito. E agora? A internet mostrou-se um multiplicador incontrolável do conteúdo da imprensa, e a mais poderosa alavanca de notícias que jamais se viu no país. Vídeos amadores, diversos deles falados em inglês com legendas em português e dirigidos aos internautas do mundo todo, apresentaram denúncias devastadoras e bem articuladas sobre a insânia governamental que levou o povo à rua. Em apenas uma semana, de 14 a 21 de junho, um desses vídeos, entre dezenas de outros, teve mais de 1.3 milhão de visualizações. Todas as informações que estão ali foram tiradas da imprensa livre. O governo não entendeu nada. Mas desta vez não teve como mentir: não conseguiu dizer que as manifestações eram invenção da "imprensa de direita".

Os descontentes de junho mostraram mais uma vez. como a Bíblia nos diz em Provérbios 16:18, que "a soberba vem antes da queda". Nunca, possivelmente, o Brasil esteve sob o comando de gente tão soberba quanto Lula. Dilma e os barões do PT, e tão à vontade em exibir sua arrogância. Estão levando, agora, o susto de suas vidas, ao descobrirem que marquetagem, demagogia e exploração da ignorância não são mais suficientes para desviar a atenção do povo para o desastre permanente que causam ao país. Espantam-se que o povo faça contas — e se sinta roubado com uma Copa do Mundo que pode acabar custando até 35 bilhões de reais, mais do que as últimas três somadas. Espantam-se que as suas esperanças de livrar da cadeia, com velhacaria jurídica, os mensaleiros mais graúdos estejam desabando. Espantam-se ao saber que muita gente está cada vez mais cheia de gastar cinco horas diárias para ir ao trabalho e voltar para casa. Desafiaram o ensinamento básico de Abraham Lincoln: "Pode-se enganar a todos durante algum tempo; pode-se enganar alguns durante todo o tempo; mas não se pode enganar a todos durante o tempo todo". Estão colhendo o que semearam.


E a notícia foi à passeata - EUGÊNIO BUCCI

REVISTA ÉPOCA


"A dor da gente não sai no jornal." Ainda hoje, o verso antigo de Chico Buarque ecoa na imaginação de muito jornalista. Não sem motivo: por mais que se esforce, um repórter não é capaz de trazer para dentro do noticiário o sofrimento vivo de toda gente - especialmente dos mais pobres, como a "Joana de Tal" do samba que tentou a morte "por causa de um tal João". A imprensa ainda não conseguiu representar o país de verdade. "Gente humilde" só aparece na manchete quando serve para apimentar o submundo cão. Fora isso, tome celebridade sorridente e outras frugalidades.

Sabemos todos que o jornalismo no Brasil precisa melhorar, precisa marcar um encontro com o Brasil, olho no olho. O difícil, ao menos até aqui, tem sido saber a data e o local desse encontro. Foi então que vieram as passeatas de junho e, aí, no meio das passeatas, insinuou-se uma pergunta que também é uma proposta séria: por que não agora?

Se olharmos pelo avesso o verso de Chico Buarque, entenderemos melhor essa pergunta e esse encontro. Sim, a tragédia dos humildes continua não saindo nos jornais, mas muito, muito mesmo do que a imprensa andou publicando de uns tempos para cá foi para as ruas e desfilou junto com a dor dos rebelados. Os milhares de cartazes que marcham sobre o asfalto trazem como palavra de ordem, como reivindicação, o que até outro dia era apenas uma notícia ruim.

Para dar aqui um único exemplo: como os brasileiros souberam da PEC 37 - derrotada na terça-feira numa Câmara dos Deputados aflita para "mostrar serviço" ao povo brasileiro? Simples: os cidadãos entenderam a gravidade dessa emenda constitucional, que pretendia tirar do Ministério Público poderes de investigação, porque o assunto entrou no noticiário. Não há como não reconhecer que, sem o trabalho da imprensa, as passeatas não teriam uma boa (e consistente) lista de reivindicações.

É verdade que são as redes sociais - e não os diários, as revistas ou as emissoras de rádio - que convocam os protestos. Mas as investigações jornalísticas que deram origem a cada bandeira, a quase todas as faixas e cartazes, estas apareceram em reportagens da imprensa sobre as bandalheiras praticadas com o dinheiro público. Foi o jornalismo crítico, o jornalismo que soube resistir ao assédio das autoridades que gostariam de domesticá-lo, que forneceu boa parte do repertório dessa imensa revolta popular: os gastos de aloprados deslumbrados com a Copa do Mundo, as mazelas da Saúde, a caixa-preta do sistema de transporte urbano. O levante foi obra de gente bem informada, que agiu em rede e, principalmente, que agiu por sua própria conta, sem precisar de partidos, de sindicatos ou de ONGs. É bom não esquecer: as entidades tradicionais do movimento social (centrais sindicais, as grandes agremiações estudantis, sindicatos rurais) ficaram de fora, ocupadas que estavam em bater palmas para a propaganda do governo. As multidões foram às ruas sem ser tuteladas. Foram às ruas porque têm informação.

Também por aí podemos perceber que a imprensa livre é um componente essencial dos protestos. Existem uns poucos que não entenderam esse fato. São os que saíram por aí quebrando prédios públicos e ateando fogo em carros de emissoras de televisão. Alguns desses pensam que são anarquistas. São apenas fascistas, quando não provocadores pagos por bandidos, interessados em inviabilizar as manifestações. Embora uma dose de violência sempre apareça em grandes mobilizações públicas (trata-se de um dado previsível), as depredações têm sido, nas passeatas de junho, um incidente deplorável - e sua face mais fascista se volta contra as unidades móveis de TV.

Por mais que uma emissora bajule ministros ou promova o sensacionalismo policial, ela não é meramente um símbolo do poder. Ela também representa a liberdade de imprensa, sem a qual não haveria informação sobre coisa nenhuma. A grande maioria dos manifestantes sabe muito bem disso e exibe confiante seus cartazes para as câmeras. Sabe que o mesmo jornalismo que lhe contou sobre os abusos das autoridades constituídas agora conta ao mundo a história de um levante que mudará o país.

A dor do Brasil saiu às ruas sem medo de desbancar o sorriso falso dos políticos. Saiu às ruas graças aos brasileiros de coragem e aos jornalistas que cumprem seu dever. E vem mais por aí. A dor das ruas quer ser alegre, como nos sambas que são feitos com beleza. E a imprensa, a imprensa que conta, quer se encontrar com a dor e a alegria dos brasileiros.


Plebiscito é golpe - CARTA AO LEITOR - REVISTA VEJA


O plebiscito proposto pelo governo e pelo PT é um golpismo por diversos motivos. Primeiro porque, se ninguém de bom-senso discorda da tese de que o Brasil precisa de uma reforma do sistema político, também não se encontra ninguém igualmente sensato que ache que isso deva ser feito via consulta popular. Segundo, porque a iniciativa é uma tentativa rasteira do PT e do governo de mudar de assunto, de lançar uma cortina de fumaça entre eles e os clamores populares. Se há uma coisa que os manifestantes têm demonstrado à exaustão é que os brasileiros estão cansados de golpes baixos e promessas vãs. Terceiro, porque não se faz plebiscito para jogar nos ombros das pessoas o peso de decisões sobre o funcionamento de coisas complexas. As pessoas não podem ser obrigadas a decidir exatamente como as instituições devem funcionar. Elas querem simplesmente que as instituições funcionem bem, que os funcionários públicos sejam honestos, imparciais e eficientes. que os políticos representem seus eleitores nas assembleias e no Congresso. Uma reportagem desta edição revela que o PT e o governo não estão genuinamente interessados na consulta popular. Eles querem mesmo é usar o tempo de televisão destinado à discussão das questões a ser propostas no plebiscito para colocar Lula fazendo propaganda da presidente Dilma Rousseff, a candidata do partido à reeleição em 2014. Isso é inaceitável.

Os brasileiros foram às ruas exigir a reforma dos políticos, não uma reforma política. Com seus cânticos, suas faixas e cartazes, as pessoas cobraram honestidade, transparência e eficiência dos políticos e das autoridades de todos os níveis e partidos. Elas exigiram, principalmente, o fim da corrupção. Ora. não requer muito tirocínio concluir que esses anseios podem e precisam ser atendidos imediatamente, na vigência do atual sistema político. Não há razão alguma para que os políticos e as autoridades não possam começar desde já a ser e parecer honestos e funcionais. É escárnio fingir que isso só é possível depois de um plebiscito em que se vai exigir dos brasileiros uma opinião sobre tecnicalidades de funcionamento das engrenagens eleitorais. Isso equivale a médicos perguntarem a familiares de um paciente de UTI se eles estão de acordo com os remédios perfundidos ou com a porcentagem de oxigênio no tubo traqueal. Obviamente, eles não vão saber responder. Mas isso não torna menos justo seu direito de que o paciente tenha o tratamento adequado. Assim deve ser em relação às instituições. Não se pode colocar como pré-requisito para a honestidade, eficiência e transparência delas que as pessoas sejam experts em detalhes de seu funcionamento. Erigir isso é iludir a plateia. E a plateia tem demonstrado com todo o vigor que se cansou de ser iludida.

Pobre Dilma! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 01/08


"É como se os políticos e os poderes estivessem na era analógica e a sociedade, no sistema digital."
 Eduardo Campos


Receita simples de um experiente observador da política brasileira para que o governo de Dilma se recupere já e vença as eleições do próximo ano:

- É preciso mudar e muito a relação política com a sociedade, o Congresso, os partidos, os governadores e prefeitos, as entidades empresariais, sindicais e populares. Além de mudar sua comunicação e a gestão e execução dos principais programas do governo.

E por fim:

- É preciso reavaliar prioridades e manter o rumo da política econômica para crescer sem inflação e distribuindo renda. É preciso também ouvir as críticas, demandas e reivindicações da cidadania. Além de ouvir as ruas e ir para as ruas defender e debater com o povo o plebiscito e a reforma política. No mais, é preciso mobilizar a base social e política do governo para defendê-lo e defender a obra do PT.

Que tal? Moleza?

Apresento-lhes o autor da receita para salvar o governo que mais perdeu pontos de uma única vez desde que pesquisas começaram a ser aplicadas no país: José Dirceu de Oliveira, ex-coordenador da campanha vitoriosa de Lula em 2002 para presidente da República, ex-ministro-chefe da Casa Civil, deputado federal cassado por seus pares, e finalmente condenado pela Justiça como chefe da quadrilha do mensalão.

Em resumo, ele recomenda uma mudança radical de comportamento do governo faltando 15 meses para a eleição que poderá estender o mandato de Dilma por mais quatro anos – ou não.

A mudança não é radical porque seus ingredientes sejam. É radical porque implica em virar o governo pelo avesso, a presidente pelo avesso.

Mudar a relação com a sociedade... Com os políticos, os líderes sindicais, o povo...

Perguntem a Dilma se ela enxerga problemas na sua relação com a sociedade, os políticos seus parceiros, os líderes sindicais, e o povo que até recentemente a sustentava no mais alto pedestal jamais alcançado por um presidente.

Talvez admita que enfrente alguns problemas com os políticos, sim, mas por culpa deles. Os políticos querem empregos e dinheiro sem limite. E chantageiam o presidente.

Pobre Dilma!

Os sindicalistas se parecem com os políticos. E se ela ceder aos seus apelos será o fim. De resto, não disfarçam seu despreparo. E falam muitas bobagens.

Mais de uma vez – pobre Dilma! – ela foi obrigada a mandar alguns deles calarem a boca. Ou a interromper a reunião com eles porque tinha mais o que fazer. Admira a paciência de Lula, mas a dela é menor. Fazer o quê?

José Dirceu propõe a mudança da gestão e da execução dos principais programas do governo. O que quer dizer com isso? Que os programas, verdadeiras joias da coroa do governo, estão sendo mal conduzidos?

Até aqui só quem dizia uma coisa dessas era a oposição.

Os principais programas do governo são mal geridos e mal executados...

Quero só ver Dilma concordar. Caso concorde assinaria o atestado de óbito de sua administração.

Agora é fácil falar em ouvir as críticas e demandas das ruas porque elas começaram a gritar. Mas quem foi capaz de prever que todo esse desmantelo ocorreria? Quem foi?

Não é justo cobrar das pessoas o que elas não estão preparadas para dar.

Jamais passou pela cabeça de Dilma aspirar à presidência.

Ela não pediu para suceder Lula. Acreditou que poderia dar conta do recado se contasse com os conselhos inteligentes dele.

Enganou-se.

Lula não esconde dos mais íntimos que também se enganou ao indicar como candidata a mulher que dizia ser melhor gestora do que ele.

Dilma está ameaçada de passar à História como a presidente que marcou o fim da Era do PT no poder.

Pobre Dilma!

Lula versus Dilma - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo?


Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa? Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar? O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que "Sarney não pode ser julgado como homem comum"... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, "o novo"... O Lula que se uniu "aos picaretas do Congresso"... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas? Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.

A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de "mãe do PAC". Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.

O Lula presidente se lamentava da "herança maldita" de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo. Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT. E por tantas bandeiras no ar. A ética. A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos. As creches, o transporte de massa. Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.

Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz. Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.

Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão - e os dólares - com a política partidária? Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um "recall" nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos? Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros? Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares. Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de "evangélica". Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.

E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer "barbeiragens" na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente.


Tourada em Madri I - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 01/07

O saldo desta Copa das Confederações é que o brasileiro fez bonito no campo, na arquibancada e nos protestos das ruas, em que pese alguns vândalos.
Imagina na Copa!

Lula Schumacher
Antes de Dilma despencar nas pesquisas, Lula vinha repetindo, a quem o incentivava a se candidatar em 2014, que não queria ser o Michael Schumacher da política.
Como se sabe, em 2009, o alemão, heptacampeão na Fórmula 1, resolveu, aos 41 anos, voltar a correr sem repetir o êxito anterior.

Tourada em Madri II
Ontem, no Maracanã, a exemplo do que ocorreu em outras arenas nesta Copa, era raro encontrar preto e, provavelmente, pobre, entre o público.
Teve madame indo para o jogo de salto alto e usando bolsa da grife americana Michael Kors, aquela da Carminha, de “Avenida Brasil”.

Que é isso, Paulinho?
Presidente da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, saiu insatisfeito da reunião das centrais sindicais com a presidente Dilma Rousseff, na última quarta-feira.
Em meio às reclamações, disparou uma grosseria: “Ela parece a mulher da gente.” Na roda, ninguém entendeu, e ele explicou: “Chata!”

Arbitragem trabalhista
A Comissão de Juristas que examina o novo anteprojeto da Lei de Arbitragem e Mediação, presidida pelo ministro Luís Felipe Salomão, vai propor a possibilidade de arbitragem por terceiros, nas causas trabalhistas, mas só quando o empregado quiser.

As partes ficariam longe da Justiça do Trabalho, que é, por sua natureza, lenta. 

Gois na Flip I
Baixa importante na Flip 2013, que começa quarta, agora, em Paraty.

Por causa dessa proposta de Dilma pedindo a convocação do plebiscito para aprovar uma reforma política, a ministra Cármen Lúcia, que já tinha comprado ingressos e reservado hotel para assistir à festa literária, ficará em Brasília.
Em quase todas as edições anteriores da Flip, a presidente do TSE era uma presença discreta nas filas e na plateia.

Gois na Flip II
Antes de cada mesa da Flip, será exibido um depoimento em vídeo sobre Graciliano Ramos.
Ao todo são 20 filmes dirigidos por Marcelo Machado e Fernando Fonini, com críticos e escritores, como Raimundo Carrero, Marçal Aquino, Antonio Torres, Luiz Costa Lima, e também moradores de Paraty.

Gois na Flip III
Um dos depoimentos é do escritor e artista plástico Nuno Ramos, que comenta a ligação de Graciliano com o Partidão.
Apesar de militante de carteirinha, diz Nuno, a obra de Graciliano é marcado pelo horror ao poder:
— Talvez fosse preciso hoje pesquisar e descobrir um Graciliano anarquista.
Faz sentido.

Tourada em Madri III
A audiência prévia da transmissão do jogo de Brasil e Espanha ontem, pela TV Globo, foi de 34 pontos, com 54% de share. Isto é 16 pontos acima da audiência do horário.

Falta dinheiro
Há quem estime em R$150 milhões o déficit nas contas da Jornada Mundial da Juventude.
O Kit Peregrino — foram colocados à venda 750 mil — está encalhado. Ele inclui mochila, camiseta, boné, guia do peregrino, livro e guia turístico.

Diário de Justiça
A 4ª Vara Criminal da Capital começa a julgar amanhã os ex- policiais civis Bruno Souza da Cruz e Bruno Rocha Andrade.
Em outubro de 2010, eles estavam numa blitz, na Grajaú-Jacarepaguá, no Rio, e atiraram num carro que deu ré. Era o veículo onde estavam o juiz Marcelo Alexandrino e parte de sua família.
Duas crianças foram atingidas.

Tourada em Madri IV
Teve gente reclamando que o Juizado Especial Criminal do Maracanã ficou às moscas por um tempo. O pessoal de serviço teria saído para ver o jogo.
Deus perdoa.

Diplomata e cinéfilo
Hoje, ao meio-dia, haverá no Parque Lage um encontro de amigos do embaixador Arnaldo Carrilho, de 76 anos, falecido semana passada.

“Ele foi um diplomata muito importante para a difusão do cinema brasileiro no exterior”, diz Cacá Diegues, um dos organizadores da homenagem.

FH, o imortal
A posse de FH na ABL será no dia 9 de setembro. 


Tourada em Madri V 
Obrigado, Padim Ciço. 

A química da democracia - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 01/07

A química das massas é volátil, incendiária e instável, apesar de a maioria ser pacífica


Estamos diante de uma crise de representação política. A democracia moderna se caracteriza por ser representativa e não direta. Elegemos representantes e eles nos representam no Executivo e no Legislativo. Há muito tempo que este vínculo representativo no Brasil opera mal --vive-se a mesma coisa na Europa ocidental.

Julgo importante momentos como o que vivemos, não somente para chamar nossos representantes de volta a suas funções (eles trabalham para nós e pagamos os salários deles), como para refletir sobre os riscos deste mesmo colapso de representação e o desordenamento político-social que dele decorre a médio prazo: sem supermercados, sem escolas, sem estradas, sem chegar ao trabalho, sem lazer, sem policiamento.

A "química das massas" é volátil, incendiária e instável, e apesar de a imensa maioria ter uma intenção pacífica, a interrupção contínua e crescente da ordem político-social, por definição, rompe esta mesma ordem trazendo à tona riscos.

Mas nem todos os clássicos em política concordam com esta visão de risco do desgaste da ordem político-social. Alguns entendem que devemos buscar este desgaste e leem este mesmo desgaste como oportunidade criativa. Esta "química das massas" pode ser interpretada de diferentes formas.

Hobbes, por exemplo, que não é bem visto pela política contemporânea por ser posto "no saco" dos autoritários, entende que quando a ordem político-social se interrompe, "nossa química", que tem uma vocação latente para a desordem, a contingência e, por tabela, a violência (o que comumente se traduz dizendo que para Hobbes o homem é mau e a sociedade faz ele ser menos mau), entrará em ebulição a qualquer momento e a representatividade tem que retornar a funcionar, se não, caímos no caos social.

Este é o chamado pessimismo hobbesiano, que tende a valorizar a ordem a tudo custo e defender o monopólio legítimo da violência na mão do Estado.

Posições como a de Hobbes têm um defeito claro que é reprimir excessivamente qualquer tentativa de renovação das formas de representação. Daí ele ser mais afeito a temperamentos temerosos com relação a crises políticas agudas.

Rousseau, por outro lado, entende este desgaste como necessário para o surgimento da criatividade em política (Marx não está muito longe disso), daí ele ser típico de temperamentos mais revolucionários em política. Neste sentido, a violência decorrente da interrupção da ordem político-social é entendida como espaço para momentos de democracia direta.

Alguns defendem esta posição falando de "violência criativa" ou mesmo "a política será feita nas ruas e não nas instituições" porque elas não mais representam os representados e seus anseios. Aqui esquerda radical e direita radical se encontram na condenação da representação (os partidos).

O defeito desta opção está no fato de a democracia direta ou "das ruas" tender facilmente (todo mundo sabe disso) à violência, linchamento e julgamentos populares sumários. Neste caso, enquanto hobbesianos tendem a temer a "química das massas", rousseaunianos parecem torcer para esta química fazer novas receitas de "bolo social".

O que pensa Tocqueville sobre esta mesma química da democracia?

Tocqueville pensava que esta mesma química deve ser "cuidada" via mecanismos de pesos e contrapesos institucionais que reúnem desde assembleias muito locais, passando pelas instâncias de razão pública (tribunais, universidades, escolas, mídia), chegando ao Legislativo e Executivo estadual e federal.

Pare ele, não podemos abrir mão deste processo institucional de mitigação da "química da democracia" sob risco de esmagar o indivíduo sob a bota da tirania da maioria, de uma liberdade destrutiva e de uma igualdade com vocação para mediocridade, que elimina a própria criatividade cotidiana.

Por exemplo, no seu "Democracia na América", ele já dizia que não pode haver reeleição de representantes na democracia, se não dá em corrupção. Podemos começar a reforma por aí. Voto em Tocqueville.

PS. Não estou no Facebook, se você "falar" comigo no Face, não sou eu.

Melhor é impossível - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 01/07

Após a vitória sobre o Uruguai, escrevi que o Brasil estava com pinta de campeão. Nem imaginava que seria ganhando de 3 a 0 da Espanha. A atuação, individual e coletiva, do time brasileiro foi excepcional. O Brasil, durante toda a partida, marcou e atacou com vários jogadores.

Um bom início era tudo o que o Brasil precisava para ter mais espaços para contra-atacar com velocidade. Assim, criou inúmeras chances de gol. Fez três e poderia ter feito mais. Novamente, tudo deu certo, com um gol no início do jogo, outro no fim do primeiro tempo e um terceiro nos primeiros minutos da segunda etapa.

A Espanha ainda perdeu um pênalti. A atuação do time espanhol foi fraquíssima, muito pelo ótimo futebol mostrado pelo Brasil. Vicente del Bosque deve ter lamentado não escalar Martínez, no lugar de Xabi Alonso, para manter o esquema tático das últimas conquistas. A defesa era mais protegida.

A fraca atuação da Espanha não significa que não tenha um excelente time. Depois de vencer a Copa de 2010, a Espanha foi goleada por Portugal e Argentina. Na Copa das Confederações anterior, foi eliminada pelos Estados Unidos e, depois, ganhou o Mundial.

O Barcelona, base da seleção da Espanha, foi goleado, recentemente, duas vezes, pelo Bayern. Estaria decadente o estilo espanhol, de posse de bola e de trocas curtas de passe? O futuro dirá.

Todos os jogadores brasileiros tiveram atuações excepcionais, especialmente Neymar, Fred e Luiz Gustavo.

A conquista da Copa das Confederações, de uma maneira brilhante, não significa que, subitamente, o Brasil passou a ter um timaço ou que estava melhor do que se dizia. Significa que a seleção formou um time com uma maneira definida de jogar e que usou muito bem a vantagem de atuar em casa.

Há milhares de exemplos de times e seleções que, em casa, apoiados pela torcida, crescem e ganham títulos em campeonatos curtos, com jogos mata-mata, contra adversários superiores.

Nos últimos 30 dias, de treinos e jogos, o Brasil atingiu um nível técnico muito maior do que se esperava. Antes do Mundial, com os 20 dias de treinos, poderá recuperar o nível atual. Mas, dificilmente, estará melhor do que hoje.

Parabéns aos jogadores e à comissão técnica. Temos de ficar contentes com a belíssima atuação do Brasil, mas não podemos esquecer que a seleção ganhou, fora de casa, as duas últimas Copas das Confederações e foi mal nos Mundiais. Nada de oba-oba.

Muita tributação e muito gasto - GUSTAVO LOYOLA

VALOR ECONÔMICO - 01/07

As manifestações que tomam conta de diversas cidades do país nas últimas semanas comportam várias leituras. Manda a prudência que não tiremos delas conclusões apressadas, nem que encontremos soluções simples para problemas que são complexos e multifacetados. Contudo, não há como deixar de registrar o contraste abismal entre os anseios e as expectativas da cidadania, explicitados nessas manifestações, e a atuação do Estado brasileiro, que arrecada praticamente 40% do PIB nacional e oferta serviços públicos de baixa qualidade em áreas críticas como saúde e educação.

Nos últimos meses, ao lado de muitos outros economistas, tenho manifestado nesta coluna minha preocupação com a deterioração da gestão da política fiscal, cuja execução se tornou menos transparente e mais relaxada no que tange ao controle dos gastos públicos. Isso porque, caso seja mantida essa trajetória, há grande risco de o país ingressar num quadro de instabilidade macroeconômica, voltando a um passado que julgávamos superado pelas conquistas das últimas décadas.

Muito embora a gestão prudente das contas públicas seja condição necessária ao crescimento econômico, não se deve jamais esquecer que os aspectos qualitativos do sistema tributário e da estrutura de gastos públicos são fundamentais para o progresso econômico e social da nação, como nos lembram os milhões de brasileiros que se manifestam nas ruas. Na pauta diversificada e ampla dos manifestantes sobressaem-se temas como o da insatisfatória qualidade da educação, da saúde e dos transportes públicos urbanos, assim como o da ausência de priorização correta dos gastos do governo para atividades essenciais.

A Constituição de 1988 consagrou a ideia de se implantar no Brasil um abrangente Estado de bem-estar social, com extensão universal de direitos à educação, saúde e aposentadoria, entre outros. Por óbvio, a contrapartida a esses direitos é a necessidade de o Estado se financiar junto à própria sociedade, por meio de taxação. Foi o que de fato ocorreu, já que a carga tributária cresceu cerca de 50% no último quarto de século, igualando-se à praticada em muitos países europeus. Contudo, a "europeização" da carga tributária não impediu a "africanização" dos serviços públicos essenciais. Ademais, para piorar a situação, e ao contrário do que se observa nos países desenvolvidos, a carga tributária aqui cresceu com base na expansão da taxação indireta, do que resulta um sistema tributário com características marcadamente regressivas.

Certamente não há uma "bala de prata" que solucione as mazelas das políticas públicas no Brasil, construídas historicamente desde o período colonial. Porém, é necessário navegar na direção correta, levando em consideração que os anseios e as expectativas da sociedade brasileira estão se alterando nos últimos anos, mudanças que são fruto dos próprios avanços obtidos nos campos político, social e econômico a partir da redemocratização do país.

Lastimavelmente, as prioridades das políticas públicas no período recente pareceram se encaminhar na direção errada, ao reforçar a intervenção do Estado em áreas em que sua participação é dispensável e ao distribuir subsídios generosos que agravam o caráter regressivo da política fiscal no Brasil. Poderíamos mencionar vários exemplos dessas políticas equivocadas, mas, por razão de espaço, ficamos aqui apenas com o tema que funcionou como estopim para as manifestações: o transporte público.

Nesse sentido, basta recapitular, brevemente, alguns aspectos da política do governo federal nos últimos três anos: (a) redução do IPI para aquisição de automóveis; (b) redução da Cide, inclusive sobre a gasolina; (c) manutenção do preço doméstico da gasolina abaixo de seu preço internacional, trazendo prejuízos crescentes para a Petrobras; (d) estímulo, inclusive com recursos dos recolhimentos compulsórios, ao financiamento para aquisição de veículos. Nessas quatro medidas, há clara manifestação da preferência revelada do governo pela disseminação do transporte individual, em detrimento da ampliação e melhoria da qualidade do transporte público coletivo.

O atendimento às reinvindicações da população passa necessariamente pela mudança de eixo da política de alocação dos gastos públicos, nas três esferas de governo. Sabemos que isso não depende exclusivamente da vontade do Executivo, pois o Legislativo tem sido cúmplice recorrente da deterioração da qualidade da despesa. Da mesma forma, não subestimamos a importância do combate à corrupção e ao desperdício. Porém, a visível insatisfação com a baixa qualidade dos serviços prestados pelo Estado à população indica que o modelo brasileiro de muita tributação e muito gasto público para pouco resultado está esgotado. Assim como a paciência dos brasileiros.