segunda-feira, julho 01, 2013

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 01/07

Butantan amplia fábricas para exportar vacinas contra gripe e outras doenças
Como a fábrica só é informada em setembro sobre a composição da vacina contra a gripe e o instituto tem de produzi-la até janeiro ou fevereiro para campanhas em abril, há um período de ociosidade, diz Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan.

"A fabricação pode se voltar nesse período do ano para o hemisfério Norte", diz Kalil. Hoje não há produção para exportar e para viabilizá-la, o Butantan já trabalha na ampliação das fábricas.

"Calculamos investir R$ 150 milhões para obras de expansão e equipamentos a fim de aumentar a capacidade já existente no instituto." Neste ano, serão investidos cerca de R$ 80 milhões e no ano que vem, serão aproximadamente R$ 70 milhões.

Os recursos vêm dos governos federal, estadual e da Fundação Butantan.

"A Fundação Bill e Melina Gates quer também vacinas contra tétano, coqueluche, além de raiva. E também há interesse na importação da de HPV, se viermos a produzi-la", afirma. Além de expandir as unidades, novos prédios estão nos planos.

O Ministério da Saúde deve decidir neste mês a instituição parceira para produzir a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV), a primeira para efetivamente prevenir contra o câncer.

"Temos uma proposta de transferência de tecnologia com o laboratório Merck, que, por estudos publicados no mundo, faz a melhor vacina, e que está presente em 90% dos países que a compram."

O ministério tem também a opção de produzi-la com a Biomanguinhos (que é do Rio e pertence ao governo federal), em associação com a farmacêutica GFK.

PEIXE IMPORTADO 
A entrada de pescados no mercado brasileiro bateu recorde de janeiro a maio. Foram 198,6 mil toneladas. Os maiores vendedores são China, Chile e Vietnã. Na contramão, as exportações tiveram recuo --14 mil toneladas, menos de um terço do que o país vendia há dez anos.

"O envelhecimento da frota de pesca e as dificuldades na liberação de parques aquícolas são os maiores entraves", diz Armando Burle, do Conepe (conselho do setor).

O ministro da Pesca, Marcelo Crivella, diz que o governo busca saídas, como financiamento para modernização da frota e desburocratização de projetos de aquicultura.

O crescimento das importações também é impulsionado pelo interesse do brasileiro nos chamados peixes selvagens, como os provenientes do Alasca. Desde que se instalou no Brasil em 2011, o ASMI (a agência de promoção de peixes do Alasca) diz que a comercialização subiu de 31 toneladas naquele ano para 534 toneladas em 2012.

"Os números são pequenos, mas podem crescer pela demanda que há", afirma José Madeira, diretor do ASMI.

CARTA DAS TERMELÉTRICAS
O setor de carvão mineral encaminhou um documento aos governos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul para receber mais apoio na produção energética brasileira.

Os Estados concentram mais de 99% das reservas de carvão mineral e sediam parte das usinas termelétricas em operação no país.

Empresários, políticos da região e membros de entidades assinaram um pedido para a criação de políticas públicas de incentivo à indústria.

O presidente da ABCM (Associação Brasileira do Carvão Mineral), Fernando Zancan, diz que os Estados deveriam adotar a desoneração do ICMS sobre a venda da energia. No Rio Grande do Sul, a incidência é de 12%.

"Estamos pedindo isonomia em relação às outras fontes. As eólicas têm uma variedade de incentivos", diz ele.

O segmento, que foi incluído em um novo leilão para o segundo semestre após cerca de quatro anos de intervalo, também já enviou pedidos ao governo federal.

INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA
O Senai busca na Alemanha o modelo que ajudará a entidade a estruturar, no Brasil, a rede de inovação tecnológica de apoio à indústria.

Uma missão formada por presidentes de federações das indústrias de 14 Estados participa hoje e amanhã, em Berlim, de encontros com técnicos do Instituto Fraunhofer, reconhecido por seu trabalho de pesquisa aplicada.

"O Fraunhofer tem a melhor experiência no mundo em sistema de transferência de tecnologia para a indústria", diz o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, que também dirige a área de educação da Confederação Nacional da Indústria.

Inicialmente, serão 24 institutos de inovação nas diversas áreas da indústria em 14 Estados brasileiros. O primeiro, de eletroquímica, deve operar neste ano no Paraná.

A ideia é que, por meio da inovação tecnológica, os institutos auxiliem a indústria brasileira a ganhar competitividade, com produtos de maior valor agregado.

Posso... Criada pela TAM para auxiliar a responder dúvidas online, a atendente virtual batizada como Julia fez 71 mil interações com clientes em duas semanas. O canal trata de questões como compra de passagens, entre outras.

...ajudar? Foram respondidas 221.896 perguntas pelo sistema de inteligência artificial (82% dos questionamentos). A Gol, que lançou a robô Gal em dezembro do ano passado, diz registrar 250 mil atendimentos por mês.

Destino... A partir do dia 23 de julho, a companhia aérea Azul colocará em operação um voo direto entre as cidades de Belém e Carajás, no Pará. Atualmente, a ligação entre os dois municípios é feita com uma escala em Marabá.

...mineral A companhia aérea afirma que a criação da nova rota direta entre as duas cidades tem como objetivo principal impulsionar os negócios da região, que é rica, sobretudo, em projetos da área de mineração.

S.O.S. Brasília - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 01/07

Principal atingido pela queda de popularidade de governantes pós-protestos, Fernando Haddad (PT) aposta em negociações com Brasília para tirar a prefeitura paulistana da situação de "insolvência" que ele mesmo diagnosticou. A ofensiva se dará em três frentes: insistir na renegociação da dívida da cidade, apoiar pedido para reduzir de um terço para 10% a contrapartida dos municípios nos investimentos do PAC Mobilidade e propor mudanças no pagamento de precatórios.

Cofre Haddad vai levar ao STF, com Geraldo Alckmin (PSDB), uma proposta para que os precatórios não tenham de ser pagos em ordem cronológica. Essa dívida tem um impacto de R$ 18 bilhões por ano nas contas da prefeitura da capital paulista.

Consulta Cármen Lúcia (TSE) disse a Dilma Rousseff que responderá na quarta-feira sobre o prazo necessário para organizar o plebiscito da reforma política. Antes, a ministra pretende se reunir com os presidentes dos TREs.

Calendário Extraoficialmente, interlocutores do Planalto já trabalham com a data de 7 de setembro.

Rascunho Michel Temer e José Eduardo Cardozo (Justiça) passaram o sábado no Palácio do Jaburu elaborando a mensagem que será enviada ao Congresso para sugerir o plebiscito, mas sem elencar as perguntas da consulta.

Tudo a perder A despeito da histórica defesa do PT de temas como o voto em lista, a tendência de Dilma é não se envolver nos detalhes do plebiscito. A avaliação majoritária do Planalto é que, com a reforma política, a presidente recuperou um protagonismo que ficará sob risco caso ela tome partido.

Bloco na rua Na próxima quinta-feira, a direção do PT vai voltar a debater a realização de uma constituinte para a reforma política. Os petistas também definirão uma agenda de atos públicos e ações em redes sociais para divulgar suas propostas.

Em casa A pesquisa Datafolha mostra que Eduardo Campos (PSB) não conseguiu ganhar votos no Nordeste, apesar da queda de Dilma. A presidente perdeu 5 pontos ali, mas só Marina Silva e Joaquim Barbosa cresceram.

Prosa Empresários que serão recebidos por Dilma esta semana solicitaram ao Planalto encontros reservados com a presidente. A expectativa é que façam reparos ao novo pacote de concessões, previsto para agosto.

Alvos Auxiliares de Dilma também preveem queixas endereçadas a Guido Mantega (Fazenda) e ao secretário do Tesouro, Arno Augustin. O último é criticado por seu perfil intervencionista.

Satisfação Lulistas defenderam recentemente a saída de Augustin. Segundo aliados do ex-presidente, a mexida atenderia às queixas do empresariado sobre a taxa de retorno das concessões, considerada muito baixa.

Como está Dessa maneira, o governo daria uma resposta ao mercado sem precisar tirar o cargo de Mantega.

Três à mesa Ideli Salvatti telefonou sábado para Henrique Alves (PMDB-RN) e o convidou para uma reunião hoje. Quando recebeu a ligação, o peemedebista almoçava na Gávea Pequena com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e com o presidenciável tucano Aécio Neves.

Núcleo duro "O PM está com a PR." A frase de assessores do Planalto para definir reuniões de Dilma com Aloizio Mercadante indica a atual importância do ministro da Educação no governo. A sigla "PR" identifica a "presidente da República" e "PM" virou "primeiro-ministro".

tiroteio
Essa pesquisa tem o valor de uma vaia em estádio: não passa de catarse temporária. Redobro a aposta: Dilma ganha no 1º turno.
DE JOÃO SANTANA, marqueteiro de Dilma Rousseff, sobre a pesquisa Datafolha que mostra uma queda de 21 pontos da presidente e aponta para um 2º turno.

Contraponto


Semântica partidária
Após as primeiras manifestações pela redução das tarifas de transporte em São Paulo, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) esclareceu na Câmara que seu partido apoiava os protestos, mas era contrário a atos violentos.

-Nós do PSOL somos contra qualquer tipo de baderna!

Ao ouvir o vereador socialista repetir uma palavra que Geraldo Alckmin (PSDB) usou para classificar alguns manifestantes, José Américo (PT) provocou:

-Nobre vereador, só peço que não utilize a palavra "baderna", pois é uma palavra que a direita costuma usar. Melhor usar "depredação" ou outra qualquer!

Quem é jornalista? - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 01/07

A pergunta tem sido feita com maior frequência, nos últimos anos. Blogueiro é jornalista? Julian Assange se considera um jornalista e diz que a WikiLeaks é uma organização jornalística.

Mas um momento em vídeo colocou dois jornalistas em posições tão antagônicas que profissionais aqui e na Inglaterra tomaram posições. Falo da entrevista de David Gregory, da NBC, com Glenn Greenwald, no dia 23 de junho.

Greenwald, o nova-iorquino criado na Flórida, que fez da Gávea Pequena, no Rio, a sua residência, escreve para o jornal britânico Guardian. Ele estudou direito, não jornalismo, e trabalhou num escritório de advocacia. Com Barton Gellman, do Washington Post, outro admirado jornalista que não passou pela faculdade de jornalismo, produziu as reportagens com base no vazamento de informação fornecida por Edward Snowden, uma série comparável em importância histórica aos Papéis do Pentágono, que mudou o rumo do debate sobre a Guerra do Vietnã. Enquanto escrevo, Snowden, o ex-funcionário da inteligência americana a quem devemos um panorama da vigilância sobre a vida privada pós-11 de setembro, continua no limbo do terminal de trânsito do aeroporto Sheremetyevo de Moscou.

No programa político que comanda aos domingos, David Gregory, depois de classificar Greenwald como um polemista e um advogado (profissão inicial de inúmeros jornalistas americanos), fez a seguinte pergunta: "Já que você ajudou Snowden e foi cúmplice dele, inclusive nos seus movimentos mais recentes, por que não deveria ser acusado de um crime?".

Greenwald não se despenteou ao rechaçar Gregory, dizendo que é extraordinário que um jornalista possa sugerir que um colega seja acusado de crime por fazer reportagem investigativa, sem contar o fato de que foi Snowden quem procurou os repórteres oferecendo informação. Os dois repórteres, Greenwald, no Guardian, e Gellman, no Washington Post, não deram início a nenhum crime. Junte-se a isso o fato de que Gregory nunca fez uma pergunta tão agressiva, por exemplo, ao ex-vice-presidente Dick Cheney, com quem tem contato social através de sua mulher, que trabalhou com a mulher de Cheney. Com relação à tortura, que Gregory continua a classificar de "interrogatório reforçado", não lhe ocorreu perguntar ao Dart Vader da era Bush se ele temia um processo por crimes contra a humanidade.

Na semana passada, a ofensiva de charme da Agência de Segurança Nacional, arranhada pelo vazamento de Edward Snowden, produziu pérolas como reportagens citando "fontes do governo", afirmando que terroristas munidos de novas informações, graças ao traidor Snowden, estão mudando seus métodos de comunicação. Jornalistas produzindo press-releases travestidos de reportagem, acusaram os céticos. Lembro que Osama Bin Laden morava numa casa sem telefone fixo ou internet e queimava todo o seu lixo. Estarão os terroristas usando sinais de fumaça? Ou batendo tambores?

E antes que a mídia pudesse investigar essa cortina de fumaça vazada de propósito, duas outras bombas: o Guardian revelou que o governo Obama continuou, até 2011, violando a correspondência por e-mail dos americanos e que o programa teria sido interrompido por não dar resultados na caça a terroristas.

E um general reformado, ex-número dois do Estado-Maior das Forças Armadas, se tornou objeto de uma investigação criminal por vazamento de informação. James Cartwright está sob suspeita de ter revelado ao New York Times detalhes do ataque americano com o vírus Stuxnet contra o programa nuclear do Irã, em 2010. O governo do presidente "Yes, we can" está se revelando o governo do sim, podemos punir qualquer contato não autorizado do governo com repórteres.

O problema é que definir o papel de repórter hoje não é mais privilégio exclusivo de empresas e instituições. Nas praças de Istambul ou do Cairo, nas manifestações no Brasil, não é preciso pertencer à mídia tradicional para contar a história.

Dilma, Erdogan e a opinião das ruas - JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE E ELIZABETH BALBACHEVSKY

O ESTADÃO - 01/07

Após mais uma noite com manifestações cívicas de protesto alternando com violentos assaltos contra símbolos do poder e da propriedade, após mais uma noite com os alvos públicos concentrados em prefeituras e no governo federal - este atacado no Congresso, no Palácio Itamaraty e nesses novos símbolos da opulência e do despotismo faraônico chamados, não por acaso, de arenas -, o governo Dilma Rousseff recebeu surpreendente solidariedade do primeiro-ministro turco. Para Recep Erdogan, seu governo e o governo brasileiro estariam sendo alvo de uma conspiração para destroná-los.

O primeiro-ministro turco referia-se à ocupação da Praça Taksim, no centro de Istambul, à qual ele reagiu tratando os manifestantes com desprezo e truculência. Erdogan não é um líder qualquer. Resgatou a economia turca da instabilidade e da estagnação, modernizou o país e o colocou na prestigiosa classe dos emergentes. Habilidoso e realizador, ele é também considerado excessivamente ambicioso e acusado de arrogância e truculência.

Talvez Erdogan se tenha identificado com os governantes brasileiros porque, nos dois casos, o que parecia um embate pontual entre uma minoria de classe média e um governante poderoso e com grande apoio popular adquiriu um valor simbólico, provocando a indignação generalizada de parcela relevante da população.

Em ambos os casos os manifestantes foram para a rua com reivindicações pontuais e concretas - parar a destruição de um parque em Istambul e cancelar o aumento de tarifas em São Paulo. Em ambos os casos os governos desqualificaram os interlocutores, tratando-os com truculência desproporcional.

A única explicação é que, tanto na Turquia como em São Paulo, os governantes não entenderam que aquelas reivindicações pontuais e concretas tinham um potencial simbólico capaz de servir como catalisador de todas as insatisfações, que não são poucas, mesmo em tempo de vacas gordas. E esse potencial foi desencadeado quando os governantes, nos dois países, desqualificaram o interlocutor e recusaram qualquer negociação.

No Brasil, as demandas são intratáveis não porque sejam difusas - são, na verdade, tão pontuais e concretas como uma moeda de vintém -, mas porque são unificadas por seu caráter simbólico. Em suas diferentes formas de manifestação pelo Brasil afora, o movimento é, neste momento, a expressão aberta de uma indignação generalizada contra tudo o que os governantes deste país representam. Indignação com a diferença abismal entre a sangria imposta aos contribuintes e a qualidade do que o cidadão recebe em troca; com o desperdício e a corrupção no setor público; com o tratamento abusado recebido cada vez que se é obrigado a cumprir obrigações oficiais; com o descaramento com que Suas Excelências se locupletam com benesses e privilégios; com a desfaçatez com que se apoderam do nosso voto para usar seu mandato como moeda de troca, para assim defenderem seus interesses pessoais. Essa lista sem fim é um sinal de que já se chegou ao limite da tolerância: "Nós todos estamos por aqui".

Muitas vezes os movimentos de ideias arrefecem com o tempo, não conseguem definir um objetivo viável nem apontar para um adversário preciso. Mas, em razão do seu caráter simbólico, conferem um caráter permanente à indignação coletiva, que voltará a se manifestar quando surgir a oportunidade.

Só é possível, para o poder público, satisfazer esse tipo de demandas encarando-as com firmeza para dar substância às questões concretas que elas suscitam. Para tanto existem duas condições. A primeira é o reconhecimento da legitimidade do interlocutor e, portanto, de seu direito ao dissenso. Não é possível abrir a agenda pública para incorporar novas demandas se, por princípio, tais demandas são consideradas ilegítimas.

A outra condição é a honesta disposição para negociar: significa estar disposto a ceder uma parte dos seus interesses para obter o que se deseja que o interlocutor ceda em troca. Negociar não se reduz a responder à demanda de melhor qualidade nos transportes urbanos com um "pacto nacional pela mobilidade". Ao contrário, pactos abstratos com objetivos difusos transformam uma questão específica, embora simbólica, numa resposta totalmente abstrata que, não por acaso, dilui entre milhares de municípios e dezenas de Estados a responsabilidade por sua solução.

Outro risco que se corre - fruto do recuo unilateral dos governos, que cancelaram o aumento das tarifas sem um arremedo sequer de negociação - é formar uma espécie de pacto simbólico, congelando os ajustes de tarifas numa "cláusula pétrea", que torne impossível o debate futuro sobre o transporte urbano.

No dia 24 de junho, Dilma finalmente se distanciou de Erdogan, Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, tomando a iniciativa de convocar uma reunião nacional de emergência. Mas o fez no já consagrado modelo de grandes celebrações petistas em que os participantes são chamados apenas para ouvir. Quem esperava um governo que ouvisse e absorvesse a mensagem das manifestações se decepcionou. Dilma ofereceu um pacote no qual transfere para Estados, municípios e Congresso o ônus de satisfazer a ira popular por anos de governo inoperante. E traduziu, à sua maneira, a mensagem das manifestações usurpando, assim, o mandato das ruas e convidando o povo a rasgar a Constituição.

Resta saber se os jovens que foram para as ruas tomar um banho de liberdade estão dispostos a jogar fora a democracia com a água do banho.

Acabou o recreio - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 01/07

Os petistas se apressavam ontem em dizer que a eleição ainda está longe e, portanto, não dá para afirmar que Dilma Rousseff está no pior dos mundos. Mas a queda na avaliação da presidente faz com que ela fique em situação mais delicada do que aquela em que se encontrou o próprio Lula em 2005, quando o mensalão nocauteou a direção do PT. Agora é mais preocupante porque, naquele período, a economia estava bem e não havia, dentro da base aliada, ninguém com condições de seguir carreira solo. E, para completar, o PT e o PCdoB parecem ter perdidos as condições de mobilização para empreender um fica, Dilma, da mesma forma que entoaram um fica, Lula.

As manifestações, por mais que os petistas digam não estarem direcionadas à figura da presidente, prejudicam mais quem está no poder, conforme dito por todos os analistas desde o início do processo. Portanto, os petistas têm razão quando classificam o desgaste como natural. Mas o poço é mais profundo e, para percebê-lo, é preciso avaliar como foi a sobrevivência de Lula em 2005 e aplicá-la à situação atual.

Desde o mensalão, o PT se equilibra no poder por conta da popularidade de Lula, dos programas sociais de largo alcance e de um presidencialismo de coalizão que tratou de abarcar todos os partidos, sufocando adversários internos e externos. Esse último item só obteve sucesso à época graças ao carisma do então presidente perante a classe política e uma economia nos trilhos.

Dilma, até aqui, praticamente desprezou os políticos. Chamou-os na semana passada, quando sentiu o calor das manifestações às portas do Planalto. E foi atendida porque, na cabeça deles, dizer não a uma presidente popular pode terminar criando problemas maiores. Agora que a popularidade dela começa a dar sinais de vencimento, tem muita gente apostando que a vida dela perante os políticos ficará mais difícil ainda, especialmente no que se refere a votações no Congresso. Agora, ou modifica o estilo de não ouve e faz tudo do jeito dela ou passará por uma onda de derrotas.

No cenário atual, avaliam alguns, nem a hipótese do volta, Lula parece ser a mais viável para os partidos. O próprio ex-presidente tem dúvidas em relação a isso, daí o seu silêncio. Afinal, quando ele recebeu Dilma e Fernando Haddad em São Paulo, na segunda semana de junho, foi taxado de copresidente de seus postes. Agora que ele está praticamente calado, todos correm para dizer que Lula torce para que Dilma viré pó e o PT vá buscá-lo para reassumir uma candidatura. Aliados de Lula garantem que não é nem uma coisa nem outra. O PT vendeu tanto a imagem de Lula-Dilma/Dilma-Lula, que dissociá-los agora soaria falso. Portanto, a candidata ainda é Dilma, e o ex-presidente pretende voltar a campo para reelegê-la. Afinal, ele também, em todas as oportunidades, enfrentou eleição em dois turnos.

Para que esse jogo dê certo, a presidente terá que fazer a sua parte em ações combinadas com o partido. Não por acaso, ontem ela reuniu apenas os ministros do PT. Dilma sabe que é o grupo com que mais poderá contar para o que der e vier. Em relação aos aliados, a avaliação dos petistas é a de que a maioria dos partidos segue o próprio rumo, sem hesitar em dar um adeus ao PT, se essa for a jogada que resultará na sobrevivência.

A avaliação de muitos é no sentido de que a presidente pode recuperar o terreno se aproveitar esse segundo semestre para se dedicar de corpo e alma a medidas capazes de fazer a economia respirar melhor. Nesse quesito, está em curso a discussão da reforma ministerial na roda das conversas governamentais, incluindo aí a hipótese de enxugamento da máquina. Afinal, é preciso dar sinais positivos ao mercado e à população, concentrando os recursos nas áreas mais sensíveis, objeto da reunião ministerial de hoje.

E, nesse ínterim, calculam os petistas, Lula votará da África para ajudar a segurar a política. Falta, entretanto, combinar com os manifestantes, que continuam nas ruas pedindo melhoria dos serviços; e com a própria classe política, que vai ao Palácio, toma café, conversa, mas a cada dia se sente mais afastada do governo. Será a tarefa de Lula, agora, fazer com que os políticos se reaproximem de Dilma, da mesma forma que fez na campanha presidencial. Afinal, ele ainda continua popular. Embora (ainda) não se apresente como candidato.

Enquanto isso, nos estádios...

Essa Copa das Confederações talvez tenha servido para marcar o fim da carona que muitos na classe política sempre tiveram no futebol e vice-versa. Afinal, desde que Dilma recebeu aquela retumbante vaia no Mané Garrincha, em Brasília, os políticos preferiram não arriscar grandes investidas nessa área. Que receba os vencedores depois, que faça a foto palaciana. Mas posar na arena, parece restrito aos profissionais da área. Já não era sem tempo.

O PT vendeu tanto a imagem de Lula-Dilma/Dilma-Lula, que dissociá-los agora soaria falso. Portanto, a candidata ainda é Dilma, e o ex-presidente pretende voltar a campo para reelegê-la

'Que se vayan todos!' - MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

FOLHA DE SP - 01/06

Insatisfação com governantes mostra que PT perdeu capacidade de se descolar da "política tradicional"


Na semana passada sugeri que o solo das insatisfações que desfilam pelas ruas do país seria sobretudo o mal-estar urbano --e as respostas, portanto, deveriam partir mais do âmbito local do que da política central. Está claro, entretanto, que a insatisfação difusa catalisada pelo aumento da tarifa e pela violência policial também se dirigiu violentamente contra governos e políticos, como demonstram as pesquisas Datafolha.

A dúvida é se temos, nesse plano, uma rejeição mais de forma ou de conteúdo. O que se rechaça são partidos e mediações da democracia representativa ou o modo como atuam? Ou ambos?

A "Economist" dedicou capa na semana passada aos protestos que pipocaram pelo mundo. Para a revista, as manifestações de 2011 guardam entre si muito em comum, da mesma forma que nos anos insurrecionais de 1848, 1968 e 1989.

Num clima descrito pela reportagem como de "festa e raiva", manifestantes de São Paulo, Istambul ou Sofia estariam juntos no repúdio à corrupção, à ineficiência e à arrogância das autoridades no poder --e isso diz respeito a democracias.

Como os protestos acontecem em países que adotam diferentes sistemas, o problema parece ser menos de reforma política e mais de fundo: seja qual for o modelo representativo, políticos e partidos perdem identidade, se dissociam das demandas da sociedade e se aferram ao poder.

No Brasil, o PT surgiu como promessa de mudar o padrão. Mesmo que se discordasse da coloração esquerdista das propostas da sigla, havia no início uma impressão geral de que o discurso contra a "política tradicional" era uma novidade para valer.

Mas, com a conquista do poder, também o PT esqueceu o que tinha escrito. A "realpolitik" passou a reinar, justificada pela urgência de implementar uma pauta de desenvolvimento e combate à pobreza. E de fato isso ocorreu. O país aproveitou o ciclo mundial favorável, soltou o crédito e cresceu. A oferta de emprego disparou e houve um notável processo de inclusão --menos pela cidadania e mais pelo consumo.

Ocorre que nesse processo o PT perdeu justamente sua capacidade de se diferenciar da "política tradicional". O partido comprou o apoio dos "picaretas com anel de doutor", andou para lá e para cá com dinheiro na cueca, aliou-se a antigos inimigos e transformou o Estado num assentamento onde lobões, sarneys, collors e calheiros não têm o que temer --e podem continuar tomando conta do galinheiro.

Falar contra a corrupção tornou-se "udenismo", categoria do tempo do Simca Chambord, e Lula nos explicou que na nossa política "até Jesus teria que se aliar a Judas". Palmas! "O que importa é que somos uma nova potência global", justificavam os militantes.

Será?

O tempo passou, os ventos mudaram, a economia esfriou e aumentou a percepção de que ainda estamos muito longe de chegar lá em matéria de educação, saúde, transporte, segurança. As coisas, sim, melhoraram, mas o discurso oficial criou um bônus artificial, aquilo que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso chamou de "camada virtual de bem-estar". Como assinalou com humor o editorial de ontem desta Folha, parece que éramos infelizes e não sabíamos.

Nesse cenário de descrédito e indiferenciação, prevalece o sentimento que se manifesta no famoso slogan: "Que se vayan todos!"

Sobre o plebiscito - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 01/07

Mais uma semana terá decorrido quando for publicado o artigo que começo a escrever, como de costume, na sexta-feira. E o que posso dizer é que pouco se clarificou na matéria iniciada com a vaia ocorrida no Estádio Mané Garrincha com endereço à senhora presidente da República. Ainda bem que se tornou pública a origem da fórmula jogada ao espaço vazio do governo que a endossou.
Sabe o leitor quantas emendas à Constituição de 1988 foram promulgadas sem necessidade de nenhum plebiscito? Sem falar nas seis emendas de revisão, foram 72 as emendas aprovadas e para tanto bastou obedecer a própria Constituição em seu art. 66. Ora, a senhora presidente da República e seu marqueteiro ao que parece, trouxeram de São Paulo a fórmula sonhadora, deixar de lado a Constituição e recorrer a meios estranhos à tradição nacional, com a "vantagem" de ser até agora imprevista e obviamente mais demorada. Graças ao expediente a discussão está entre constituinte e plebiscito e referendum... Mas da reforma política que todo o mundo diz ser necessária e a ela favorável, não se diz o necessário para sequer situá-la no plano das ideias; o plebiscito tomou conta de tudo ainda que o PIB não cresça, a indústria patine no pior resultado no ano passado, e "Sob críticas, Dilma recua e desiste da Constituinte" _ "Sem apoio Dilma desiste da Constituinte para reforma política" _ Esta decisão revela a leviandade com que problema dessa importância é tratado. Cancelada a "Constituinte exclusiva" como se fosse de somenos é mantido o plebiscito inexigido pela Constituição. Destarte, ignorando a Constituição, o plebiscito, ocupa o espaço que deveria ser o plenário das questões nacionais a serem debatidas e analisadas, segundo sua importância, atualidade ou necessidade.
Mas chegou o momento de indagar de que laboratório saiu o plebiscito e as demais postulações lançadas pela senhora presidente. Sabe-se que foi depois dela, acompanhada de seu marqueteiro, ir a São Paulo entrevistar-se com seu protagonista e antecessor. Foi depois que o prefeito de São Paulo anunciara a decisão de não reduzir a tarifa dos transportes coletivos, e para salvar o governo federal revogou a decisão anterior. Como divulgado, não se trata de nenhuma concepção elaborada no calor da crise; mas a tábua redentora resultou de um congresso do PT de 2006 ou 2007, que indicava as medidas agora apontadas como salvadoras e que ficaram postergadas para as calendas gregas, permanecendo dormentes durante seis ou sete anos. Esse dado deve ser apreciado ao lado do recuo da senhora presidente no tocante à Constituinte negociada, "com líderes do Congresso e do Judiciário", (sic) segundo as manchetes das primeiras páginas dos maiores jornais do país.
Mas nesta altura se percebe a armação cavilosa relativa à "corrupção que passará a ser crime hediondo", como leio na manchete de primeira página de Zero Hora da semana finda; o leitor se agradará do alvitre porque a tisna da corrupção é repelente à imensa maioria da população brasileira. É de salientar-se que só agora a senhora presidente ficou a saber de que existe "corrupção" em seu reino? E não me causará surpresa se metade do Código Penal venha a ser de delitos hediondos.
Seria bom parar com essas tolices, antes que as licenças oficiais venham a ser consideradas crime hediondo e, assim, o feiticeiro morrer de seu próprio feitiço.

Marina Silva e as chances perdidas - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 01/07

Quem, melhor que Marina e a Rede, poderia dialogar com a moçada nas ruas, propondo-lhe um o caminho adequado a seu mal-estar, a seus desejos? O PSDB pouco tem a dizer e só com muita dialética tenta aproveitar a herança do movimento - mas, para disputar isso, precisa enterrá-lo; não o conseguirá enquanto estiver viva a agitação, enquanto estiver viva a vida que apareceu no País e faz que os logradouros públicos sejam o que deveriam ser: lugares públicos. O PT está desacoroçoado, divide-se entre o sentimento de que o povo é injusto com ele e a nostalgia do tempo em que era dono da rua. Quem, melhor que Marina?

Quando terminei uma aula aberta sobre o que ora acontece nas ruas dizendo que os políticos deveriam, 1º, identificar o que sucede (sem o mutilar para caber em suas velhas concepções), 2º, entrar no registro do utópico, 3º, propor mudar a política, uma pessoa exclamou: "Mas isso é a Marina!" Assim deveria ser. O projeto dos ex-verdes, agora sustentáveis, é o mais próximo dos insatisfeitos que buscam coisa nova. Dos que tomam a estabilidade monetária, herdada dos governos Itamar e FHC, e a inclusão social, façanha dos presidentes Lula e Dilma, como algo adquirido - e querem ir além. E que poderiam ver, na Rede, um projeto de gente perplexa, como eles, insatisfeita como eles com a política da presidenta petista e dos governadores tucanos, à procura de rotas que já não passem pelo bipartidarismo atenuado, com rosto humano, que o Brasil viveu estas duas décadas.

Maio de 1968 teve um único partido já existente com o qual os jovens dialogaram, e cujo papel hoje poderia ser ocupado pela Rede. Era o Partido Socialista Unificado, PSU, respeitadíssimo por suas credenciais democráticas, radicais e honestas. Não tinha o cadáver de Stálin, do qual o PC francês sempre teve dificuldade em se livrar, nem o oportunismo de Mitterrand, o líder socialista, que colaborara com o governo de Vichy e apoiara a repressão aos argelinos. O grande nome do PSU, que elegia um ou dois deputados a cada pleito, era Pierre Mendès-France.

Mendès, só ele, podia disputar com o general de Gaulle o título de mais digno dentre os políticos franceses. Somente eles mereceram, em seu longo tempo, o elogio de "estadistas". Em 1954-55, Mendès foi primeiro-ministro por meros sete meses, mas isso bastou para firmar a paz na Indochina, pondo fim à guerra francesa do Vietnã, e preparar a independência da Tunísia e Marrocos. Continuasse no governo, a guerra da Argélia teria sido curta, poupando um milhão de vidas. Mas nunca mais voltou ao poder, tornando-se o grande ativo moral da política francesa. Os jovens o admiravam, em 1968; não exercia cargos havia doze anos, não era responsável pelo desastre na Argélia nem pelo regime gaullista que eles contestavam. Era digno na política e na ética.

Marina Silva não chegou a tanto; não chefiou o governo, não associou seu nome a nenhum grande feito como ministra. Mas está na primeira linha de nossos políticos que merecem respeito ético. Também é importante o modo como seu partido está sendo constituído, já porque não se chama "partido" (que evoca divisão - e vem da ideia de uma sociedade partida), mas "rede" - o que clama pela participação de muitas pessoas, sem hierarquia, reforçando os laços entre membros e simpatizantes. Então: por que, com tais trunfos, nem ela nem seu partido ocupam o lugar que tudo lhes oferece?

É a mesma questão que surgiu dois anos e meio atrás, quando Marina teve vinte milhões de votos nas eleições presidenciais para, um mês depois, seu nome sequer ser lembrado quando alguém falava em "oposição". No primeiro turno, um brasileiro em cada cinco votou nela; um em cada três, no candidato tucano. Mas os 20% dela sumiram, enquanto os 33% dados a José Serra bastaram para manter, no PSDB, o monopólio da oposição. Muitos esperavam, na época, que a causa verde ocupasse o lugar designado pelos eleitores. Muitos poderiam esperar, agora, que a proposta sustentável preencha o vazio que tantos sentem na política. Mas nada acontece.

Parece digno Marina dizer, à "Folha", que não quer se aproveitar dos movimentos nas ruas. Mas está errada. O papel do bom político é o de agarrar a oportunidade, o kairós dos gregos - para dar nome ao que está confuso, identidade ao vago, futuro ao novo. Por que ela não fez, não faz isso? Receio que não esteja à altura dos anseios que surgiram. Tem noção deles, mas não sabe o que fazer com eles. Lamento.

"A natureza tem horror ao vácuo", dizia Aristóteles, dois mil e trezentos anos atrás. A política, mais ainda. Um lugar que fica vazio é prontamente ocupado. O espaço que pareceria pronto para um político alternativo e respeitado caberá ao aventureiro, ou à velha política, que lançar mão dele. As instituições - partidos e mídia - correm para sepultar, o mais rápido possível, os movimentos. Querendo ou não, a presidenta Dilma Rousseff contribuiu para isso ao pôr na mesa a reforma política. Já nos vemos, de novo, a falar em partidos, em governabilidade, em voto distrital ou lista fechada. Tudo isso é importante, mas é o plano B da vida social. O Plano A deveria ser aprofundar as insatisfações. Pois há meio século, pelo menos, que as instituições políticas andam muito desgarradas do mundo da vida. Não têm sequer ideia do que a vida atual é. Valeria a pena, pelo menos, aproveitarmos mais algumas semanas este magnífico laboratório da vida ao vivo, antes de retornarmos ao "business as usual". Porque Planos A são como certas paixões fortes e fugazes: não duram muito mas, para darem sentido à vida, merecem ser vividos intensamente.

Classe média - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 01/07

Se os partidos brasileiros, sem exceção, saem politicamente abalados do saudável vendaval de passeatas no país, um deles certamente se ressente mais: o PT.

A presença maciça da classe média no movimento de protesto coloca em xeque, com mais ênfase, as contradições do partido.

Pressionado a oferecer respostas ao país, o governo federal improvisou uma constituinte restrita, rapidamente abandonada, e busca, por meio da proposta de um plebiscito de complexa elaboração, aprovar uma agenda que interessa muito mais ao PT do que ao Brasil.

Assim, o governo federal patrocina manobras que visam tirar o foco das legítimas reivindicações apresentadas pela população, oferecendo justamente mais daquilo de que os brasileiros demonstram estar fartos: desrespeito.

No recente evento dos dez anos do PT, a filósofa petista Marilena Chaui afirmou, sob aplausos, que odiava a classe média. E explicou: "A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. É uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante".

O leitor ficou chocado? O vídeo está no YouTube. Juntando-se essa fala raivosa e os protestos nas ruas, a conclusão é inevitável: o PT não gosta da classe média e por ela parece estar sendo correspondido na rejeição.

Os jovens questionam a forma tradicional de fazer política quando gritam: "O povo unido governa sem partido". A grande maioria deles nada tem de fascistas ou reacionários. Estão apenas expressando suas compreensíveis frustrações. Os manifestantes se insurgem contra os aproveitadores que viraram políticos, políticos que se elegeram governantes, governantes que se esbaldaram na corrupção, corrupção que impede a melhoria do transporte, da saúde e da educação. Uma ciranda como no poema de Drummond cujo nome é "Quadrilha", muito a propósito.

Um bom contraponto à intolerância de Marilena Chaui é um texto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de 2011. Nele, foi enfatizada a necessidade de maior diálogo com a classe média: "O caminho não se constrói apenas por partidos políticos, nem se limita ao jogo institucional. Ele brota também da sociedade, de seus blogs, tuítes, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo. Não existe só uma oposição, a da arena institucional; existem vários focos de oposição, nas várias dimensões da sociedade".

Com 82 anos de idade, Fernando Henrique com certeza faria bonito na avenida Paulista, na Rio Branco ou na Afonso Pena dos dias de hoje.

A usurpação do novo - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 01/07

As ruas brasileiras apresentam uma novidade que contrasta com toda a anomia anterior, onde prevalecia o divórcio entre o Estado e a sociedade, os representantes e os representados. Pior do que a anomia, contudo, era o ambiente de desregramento moral, crise de valores, onde os signos mais visíveis eram a corrupção e o desvio de recursos públicos, alinhados com a baixa qualidade dos serviços públicos.

As vozes da rua, de maneira difusa, deram vazão a uma inconformidade latente, fazendo valer outro discurso, totalmente distinto do oficial, ufanista e demagógico. “Nunca antes nesse país”, “saúde de qualidade” já realizada, entre outros slogans davam a impressão de que o povo estava anestesiado, desconhecia a realidade, e estava pronto para referendar mais uma vez o governo petista.

A sociedade civil acordou. Ao espreguiçar-se saindo logo correndo, derrubando o que encontrava pelo caminho, sabendo perfeitamente o que não mais queria, não conseguindo, contudo, articular ainda uma pauta propriamente positiva. O relevante, de qualquer forma, é o seu “não”: não à corrupção, não a políticos que só vislumbram seus interesses particulares, não às altas tarifas de transporte público, não a serviços públicos de baixa qualidade, não aos gastos da Copa das Confederações e do Mundial.

O movimento social assim florescente caracterizou-se pela autonomia, pelo apartidarismo, pelo não aparelhamento por partidos e por “movimentos sociais” como a CUT, o MST, a UNE e outros. Bandeiras dessas entidades foram rasgadas e seus militantes apupados. O PT, em particular, ficou atônito, pois jamais imaginou uma rua que não controlasse. O presidente do partido chegou a convocar a militância em uma manobra desastrada, mostrando o pouco preparo partidário para um contexto tão radicalmente novo.

Convém aqui fazer uma distinção da maior importância para que possamos entender o que está ocorrendo. O PT sempre entendeu os movimentos sociais enquanto “organizados”: movimentos por ele mesmo controlados. É o caso de seu braço sindical, a CUT, do seu braço social-revolucionário, MST, com suas entidades afilhadas, como a Via Campesina, o Movimento dos Atingidos pelas Barragens, o Movimento dos Pequenos Agricultores, o Movimento dos Sem Teto (esse último aparecendo nos últimos dias como protagonista). A UNE, embora controlada pelo PCdoB, apresenta a mesma forma de organização.

Ora, todos esses movimentos não foram efetivamente protagonistas das manifestações. Essas, por sua vez, se caracterizaram por serem “não organizadas” no sentido petista do termo, compostas por pessoas das mais distintas ideias e concepções, onde, mesmo, as qualificações de direita e de esquerda tornam-se difíceis de serem aplicadas. Seu instrumento de convocação foram as redes sociais. A primeira acepção pode ser dita heterônoma, pois aparelhada, a segunda autônoma, pois independente.

A ambiguidade do uso do termo “movimento social” está dando lugar agora à usurpação. Os movimentos sociais heterônomos estão procurando se colocar como os verdadeiros representantes das manifestações. Não deixa de ser risível militantes desse tipo dizerem que foram eles que estiveram presentes desde o início, tendo sido deles a iniciativas do “novo”. Eles são o “anacrônico”, que não ousa dizer o seu nome.

O governo está adotando a linha petista em sua tentativa de responder a uma crise que nem vislumbrou. O PT está tentando retomar o controle da situação. A presidente da República chamou, então, os “movimentos sociais” para conversar. Como assim? Chamou os usurpadores para uma conversa, deixando a sociedade autônoma ao léu?

A mixórdia foi total. As centrais sindicais foram chamadas para conversar, quando nada tiveram a dizer de manifestações das quais não foram protagonistas. O Movimento dos Sem Teto, outro ausente, aparece como interlocutor, forma de trazer o MST para junto do governo. A única exceção reside no Movimento do Passe Livre, que teve representatividade, embora a sua pauta seja dúbia. A pública é a de um movimento voltado para a redução da tarifa dos transportes públicos e, inclusive, pelo passe livre. A ideológica, segundo o seu próprio manifesto, é de natureza anticapitalista, contra a economia de mercado e a livre iniciativa. Do ponto de vista de suas concepções comunga com a ideologia do PT, considerando-a em situação de divórcio com o governo petista.

O governo foi além, fazendo valer outra forma de usurpação. Propôs, inicialmente, uma “Constituinte exclusiva” para a reforma política enquanto resposta, quando essa nem apareceu como agenda dos manifestantes. E o fez sob a forma de um “truque”, ou seja, a convocação de uma “Constituinte exclusiva” sob o modo de um “plebiscito”. Este conferiria uma aparência democrática à iniciativa, outorgando a uma “Constituinte” poderes ilimitados para questões políticas e, mesmo, para além delas, como a dita “democratização dos meios de comunicação”, sob o prisma “político” reformista evidentemente. Estaríamos, diante, de uma subversão da democracia por meios democráticos.

Quem controlaria uma “Constituinte” desse tipo? A resposta é óbvia: o governo, por deter o Poder, o PT, por ser o partido mais enraizado nacionalmente, e os movimentos sociais “organizados”. O processo político escaparia de qualquer marco legal, fazendo o país entrar em uma era de incerteza e insegurança. Sensatamente, o governo recuou de tal proposta, distanciando-se, novamente, das alas mais radicais de seu partido e dos movimentos sociais heterônomos.

Contudo, seria ingênuo considerar que o processo esteja terminando, nem que as formas de fazer política sejam somente essas. Os ditos “vândalos” correspondem, por sua vez, a movimentos políticos organizados, “sociais” ou não, ou de extrema esquerda, que estão apostando em uma crise institucional. Não se trata do crime organizado que se aproveita dessa situação, mas de uma forma de organização política que usa da violência para a consecução de seus próprios objetivos.

Dilma e o ketchup - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 01/07

Quando um fenômeno sem precedentes ocorre, faltam parâmetros para analisá-lo. As fórmulas gastas e os chavões não servem. Para entender o que acontece com a popularidade da presidente Dilma Rousseff é preciso combinar a ciência política com a física teórica. É exótico, mas o fato em análise também é.

Desde que se começou a sondar regularmente a opinião pública sobre o desempenho dos presidentes brasileiros, após a ditadura, nunca houve uma queda como a de Dilma. Uns governantes chegaram bem mais baixo, outros perderam mais pontos, mas ninguém caiu tão rapidamente quanto a presidente caiu em três semanas.

Dilma perde dois pontos de sua popularidade por dia, em média, desde o começo de junho. É três vezes mais rápido do que a maior perda de qualquer outro presidente desde o general Figueiredo. Colocada num gráfico (http://blog.estadaodados.com/aqueda), a curva de popularidade de Dilma vira uma queda livre, tão vertical que parece que a tinta escorreu. Não é erro.

É uma avalanche. Começou aparentemente do nada e virou um cataclismo. Na física, esses eventos inesperados de proporções gigantescas são associados ao que se chama de estado crítico: um intenso acúmulo de tensões que acabam liberadas de uma vez só.

É um fenômeno tão ubíquo que ocorre tanto na crosta terrestre (os terremotos) quanto nas garrafas de ketchup. Está presente em todos os lugares, mas é impossível de prever. Ninguém sabe quantos tapas pode dar no fundo da garrafa antes de ela despejar uma dose indesejada de ketchup no sanduíche. Quando se percebe, é tarde demais. Foi o que aconteceu com a popularidade de Dilma.

Havia estresse acumulado em várias camadas da sociedade brasileira, numa trama propícia ao deslizamento. É a inflação corroendo o poder de compra dos emergentes. É a insatisfação crescente de quem viu os de cima e os de baixo subirem enquanto ele camela no mesmo lugar. É o ônibus que não anda, a escola que não ensina, o hospital que não cura. Os protestos dos filhos da classe média foram apenas o último tapa no fundo da garrafa.

Quem viajou para o exterior no fim de maio e voltou hoje terá retornado a um País diferente do que deixou. E não são só os manifestantes bloqueando o caminho do aeroporto. O Brasil rompeu um ponto crítico. O que parecia um sólido apoio popular derreteu, o que era líquido e certo evaporou.

Uma avalanche, um terremoto, um grande incêndio, uma revolução são fruto de uma sequência de fatos aleatórios que acumula cada vez mais tensão até chegar ao estado crítico. Nesse ponto, um simples grão de areia é capaz de fazer desmoronar uma montanha. É a proverbial gota d'água que transborda e rompe o dique.

Tão mais raro é o fenômeno, maior ele é. Uma avalanche como a que atingiu Dilma só se explica pelo acúmulo por décadas de tensões históricas que não encontram mais na política a sua válvula de escape. Os mecanismos de representação ficaram insuficientes para dissipar o estresse e resolver os conflitos.

Com ou sem razão, Dilma personificou a crise. Estava bem na frente quando tudo deslizou. Acabou servindo de para-choque. Mesmo se a presidente propõe algo que tem o apoio de mais de dois terços dos brasileiros - como o plebiscito e a Constituinte para reformar a política -, isso não melhora a sua imagem.

A consequência imediata é que o drive eleitoral mudou. O desejo de continuidade virou desejo de mudança. Os 25% de simpatia que o PT sustenta apesar da crise possibilitam sonhar com um lugar na reta final de 2014, mas são insuficientes para a vitória. Aumenta a pressão para Lula sair da história para voltar à vida.

Na oposição, o cenário passa a ser de briga entre os candidatos pela outra vaga, já que o segundo turno parece garantido. Tudo parece certo, até a próxima avalanche reescrever a história.

Isso vai dar PT... - PAULO BRIGUET

GAZETA DO POVO - PR - 01/07

No jargão da polícia rodoviária e das companhias de seguro, a sigla PT quer dizer “perda total”. A expressão tem sido bastante usada na linguagem cotidiana. Por exemplo: quando um jovem vai para a balada e comete excessos, no dia seguinte comenta no Facebook: “Ontem eu dei PT”.

Nosso país vem dando PT há muito tempo – mas por que só agora as pessoas acham que existe alguma coisa errada? A resposta é simples: porque neste momento as manifestações serão utilizadas como pretexto para reforçar o poder do grupo governante. A tentativa de golpe de Estado proposta por dona Dilma, no calor dos protestos, é um exemplo dos perigos que nos cercam. Outras panaceias venenosas virão por aí: financiamento público de campanha (também conhecido como bolsa-candidato); voto em listas (devidamente organizadas pelos chefões partidários); controle social da mídia (o nome esquerdista para censura); eliminação de qualquer candidato ameaçador à hegemonia petista. Não custa lembrar que todas as grandes ditaduras modernas foram precedidas – e reforçadas – por movimentos de massa.

Por mais que apareçam bons resultados – uma PEC 37 derrubada aqui, um deputadozinho preso ali –, no fim essa democracia plebiscitária vai dar PT. E vai dar PT porque a oposição não existe, porque os liberais e conservadores mal conseguem lotar uma Kombi, porque os partidos de extrema-esquerda só dizem e fazem besteira, porque é impossível atender à infinidade de slogans e sandices propaladas na rua, porque não se constrói um país civilizado com histeria demagógica e chilique ideológico.

Entre os que hoje me hostilizam por não aderir à Revolução dos Vinte Centavos – esse reality show das massas, esse Big Brother coletivo sem Pedro Bial –, vejo vários cidadãos que ajudaram a dar PT na minha cidade e no país. Ficaram quietinhos quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa e da Olimpíada, fingiram-se de mortos durante o mensalão, ajudaram a eleger dona Dilma e agora se acham campeões da moralidade pública. É compreensível que estejam bravinhos com quem se lembra desses fatos; só que também é ridículo.

Quando citei minha experiência pessoal para dizer por que não participo das atuais passeatas, disseram que eu fui “egocêntrico” e “vaidoso”. Quando citei autores que criticaram movimentos de massa, a acusação passou a ser de covardia e falta de originalidade. Mas quem disse que eu sou contra toda e qualquer marcha cívica? Eu sou apenas contra as marchas a ré – aquelas que dão PT.

Zonzo e dividido - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 01/07

BRASÍLIA - Zonzo com o tombo na pesquisa Datafolha, o governo Dilma finge tranquilidade e difunde o discurso ensaiado com o marqueteiro de que o "terremoto" político atingiu a todos os chefes do Executivo, sem exceção.

Tem lá suas razões, endossadas inclusive pelo tucano Aécio Neves, de que a insatisfação da voz das ruas é contra todo o mundo político.

Só que a queda de popularidade não adveio somente de quem foi para as ruas. Quem ficou em casa, teve a loja depredada, ficou preso no trânsito também está irritado.

O fato é que o governo não está apenas zonzo com o tamanho do recuo na popularidade e na intenção de voto presidencial, mas também dividido sobre o diagnóstico do tombo e a melhor forma de reação.

Uma ala diz que há uma sensação de "falta de pulso e autoridade" vinda da autoridade máxima, que teria sido muito tímida ao condenar os vândalos e arruaceiros. A hora seria de agir com mais energia.

Outra diz que o governo não pode nem pensar em passar a imagem de que irá reprimir a liberdade de expressão. E que é preciso calma quando se está entre dois fogos --críticas ao vandalismo, de um lado, e ao excesso de policiais, de outro.

Há quem garanta que a pesquisa captou tão somente um impacto político-emocional do momento, dado que não teria havido mudança na vida das pessoas, como aumento do desemprego e queda da renda e do consumo no país.

Visão não compartilhada por outro grupo, que defende mudanças na política econômica, inclusive de nomes na equipe, por pressentir que o cenário na economia está desandando e pode se agravar em breve.

Enfim, algo está fora do lugar. Até aqui, Dilma Rousseff não havia sido testada. Agora, fragilizada, mesmo que momentaneamente, terá de ceder e agregar. Caso contrário, vai se isolar. Hoje, a verdade é que há muita gente bem próxima a ela saboreando seu momento ruim.

Luzes acesas - PAULO GUEDES

O GLOBO - 01/07
As pesquisas de opinião após a onda de protestos nas ruas indicam queda abrupta da popularidade da presidente Dilma Rousseff e forte elevação das intenções de voto em Marina Silva. O também candidato Aécio Neves tem uma boa leitura do fenômeno: "Uma insatisfação dos brasileiros com a classe política, em razão da ausência de respostas efetivas aos problemas enfrentados pelas pessoas ao longo de anos." Marina Silva é identificada pelos eleitores como uma outsider do establishment político, assim como foi sempre um "trabalhador" o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva.

A concentração de recursos públicos no governo federal contrasta com a necessidade de descentralização dos sistemas políticos abertos. Daí as reclamações por mais e melhores escolas, hospitais e transporte público, em vez de novos estádios. Governadores, prefeitos e suas bancadas exercem pressões legítimas. Eduardo Paes e Fernando Haddad acabam de sugerir novo regime para megacidades, um grito pela diástole representativa, pela descentralização administrativa e pela reforma fiscal. No governo federal, por falta da reforma administrativa, sobra dinheiro para a política e falta para saúde e educação.

"A raiz dos grandes problemas brasileiros é a crescente e absurda concentração de poder financeiro e político no governo federal. Precisamos resgatar a Federação", diagnosticou o mesmo Aécio Neves como exigência de nossa democracia emergente. As manifestações populares "contra a corrupção e a roubalheira" registram um cansaço histórico com a degeneração das práticas políticas. "As enormes quantias de dinheiro que passavam pelas mãos do Estado davam oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero", denunciava Marx. "O absolutismo do Antigo Regime desabou, mas permaneceram seus alicerces: a concentração de recursos e a centralização administrativa", advertia Tocqueville.

A hipertrofia do Estado e o aparelhamento da máquina pública têm consequências desastrosas sobre as práticas políticas e os valores morais da sociedade. São os ingredientes da fábrica de escândalos e da desmoralização dos partidos. As redes sociais e as manifestações das ruas são luzes acesas em uma sociedade aberta.

Dissintonia crônica - RUBENS BUENO

GAZETA DO POVO - PR - 01/07

A importação de médicos pretendida pela presidente Dilma é daquelas propostas que aferem a dissintonia crônica entre o governo federal e a “voz das ruas”. Enquanto as pessoas continuam sem acesso à medicina de qualidade e permanecem estacionadas em hospitais e ambulatórios públicos à espera de atendimento, eis que agora prescreve-se a contratação de médicos de Portugal, Espanha e Cuba como solução para a saúde.

Acontece que o diagnóstico da presidente Dilma para um dos mais graves problemas do país, solução já criticada pelos conselhos e associações médicas, não encontra apoio nem sequer no PT. Se por um lado ela e o ministro Alexandre Padilha querem trazer sem restrições médicos estrangeiros, temos na Câmara Federal um projeto, pronto para ser votado, que proíbe a criação de novos cursos de Medicina e a ampliação de vagas naqueles já existentes. A proposta é do líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, do mesmo PT de Dilma e de Padilha, o primeiro a divulgar a ideia em audiência na Câmara no mês passado.

Na justificativa do projeto, aliás, o autor fala ainda em proteger o médico brasileiro “da invasão do mercado de trabalho por diplomados em Medicina sem a adequada condição de exercê-la”. Ocorre que, ao contrário do escopo do projeto de Chinaglia, o governo quer justamente expandir vagas e cursos e franquear a vinda de médicos do exterior sem submetê-los a uma aferição mínima de suas qualidades profissionais. Em resumo, o projeto petista é duplamente incoerente com o discurso do governo.

Ademais, essa proposta de abrir o mercado para médicos estrangeiros é uma ação puramente de mídia. Mesmo que o ingresso de médicos fosse viabilizado sem a necessidade da revalidação de diplomas – numa declaração ao portal Terra, o ministro da Saúde fez alusão a liberar os médicos de fora do exame de revalidação de certificados –, esses profissionais precisariam de tempo para se adaptar ao aprendizado da língua portuguesa. É que, além de saber o português, seria preciso aprender expressões regionais usadas na designação de doenças, sintomas e de órgãos do corpo humano. Em alguns rincões do país, por exemplo, a hipertrofia da glândula tireoide é chamada de “estruma” ou “papeira”. A panturrilha é a “batata da perna” ou “barriga da perna” e por aí em diante.

O PPS propõe a criação de uma carreira federal de profissional de saúde para médicos, enfermeiros e odontólogos com atuação prioritária em áreas de baixa renda no interior do país. Além disso, defende a instituição de um piso nacional de salário para esses profissionais a fim de garantir uma qualidade mínima de remuneração. Essas duas medidas são importantes para algo que devemos almejar: a fixação de médicos fora dos grandes aglomerados urbanos. Além disso, sugerimos a instalação de cursos médicos descentralizados com a implantação de novas escolas em cidades do interior. E, para evitar a “invasão” de maus profissionais, apoiamos o Revalida, uma prova nacional que afere as habilidades do estrangeiro interessado em trabalhar no país, implantada em 2011.

Não é preciso ser contra a vinda de médicos estrangeiros, nem, num outro extremo, recebê-los sem testar seus conhecimentos. Bastam bom senso e propostas seguras e coerentes numa só direção: a de salvaguardar a qualidade da estrutura do atendimento médico ao povo brasileiro, estejam as pessoas onde estiverem.

O grande embuste - RICARDO BALTHAZAR

FOLHA DE SP - 01/07

SÃO PAULO - Se Dilma Rousseff quiser realmente fazer alguma coisa para aplacar o clamor das ruas e recuperar a popularidade perdida, poderia começar abandonando a ideia de mudar as regras do jogo eleitoral às vésperas do início da partida.

O plebiscito que a presidente sugeriu para discussão da reforma política é um engodo. O que os petistas querem é aproveitar o clima de insatisfação popular para constranger o Congresso Nacional, forçando-o a promover mudanças cujo efeito mais imediato seria aumentar o poder de fogo da coalizão montada para reeleger Dilma, asfixiando a oposição.

O PT defende um sistema de financiamento público para as campanhas eleitorais, em que o dinheiro seria dividido de acordo com a composição das bancadas na Câmara dos Deputados e a captação de doações das empresas passaria a ser ilegal. Se o modelo começar a valer nas próximas eleições, como o governo quer, a campanha oficial ficará com mais de dois terços do dinheiro disponível.

Nos próximos dias, Dilma promete apresentar ao Congresso os temas que gostaria de submeter à consulta popular. O governo acha possível realizar o plebiscito em agosto e aprovar tudo a toque de caixa no Congresso antes de outubro, para garantir que as novas regras entrem em vigor a tempo de beneficiar Dilma.

Se o objetivo da presidente e de seu partido fosse mesmo ouvir a voz das ruas e aperfeiçoar o sistema político do país, eles estariam empenhados em assegurar que a população terá tempo para se informar sobre as mudanças propostas e debatê-las antes de apontar suas preferências.

As passeatas de junho indicaram que muita gente está farta dos políticos que elegeu, mas não se viu ninguém gritando nas ruas pelas reformas que os petistas defendem. Como mostrou a mais recente pesquisa do Datafolha, as pessoas estão angustiadas com os rumos da economia e se preocupam mais com a saúde e a educação do que com a sobrevivência política de Dilma Rousseff.

Não é solução - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 01/07

O tema e outros referentes à muito falada e nunca executada reforma política ganham realce agora que o PT e a presidente Dilma decidiram aproveitar o espaço político aberto pelas históricas manifestações iniciadas há semanas para, sob a justificativa de interpretar a voz da rua, para colocá-la na agenda do país.

Ao largo da discussão sobre a equivocada, por inconstitucional, proposta de uma “Constituinte exclusiva” para executar as mudanças na legislação político-eleitoral supostamente pedidas pelo povo, é certo que, sob inspiração petista, o governo incluirá, com ou sem plebiscito, o chamado financiamento público de campanha na lista de alterações.

É bandeira antiga do partido no poder e aliados, erguida com mais vigor depois do escândalo do mensalão, como se a estatização total das finanças político-eleitorais pudesse funcionar como antídoto infalível contra desvios de dinheiro público para o caixa dois da política. Não passa de ilusão.

A autópsia feita nos dois mensalões — o tucano, do então governador mineiro Eduardo Azeredo, e o petista, sob o comando de José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoíno — desvendou o uso de sofisticada engenharia de lavagem de dinheiro. Como provaram as investigações que fundamentaram as acusações encaminhadas pelo Ministério Público Federal ao Supremo, há tecnologia disponível no submundo financeiro da política capaz de driblar os débeis sistemas de controle da Justiça Eleitoral.

Indo ao ponto: aprovado o financiamento total das campanhas, o contribuinte, além de gastar mais com políticos e partidos, pagará duas vezes — via os impostos escorchantes que já recolhe ao Tesouro e, de maneira indireta, no superfaturamento no fornecimento de bens e serviços a governos por financiadores de caixas dois eleitorais. Como sabido, os provedores finais de todos os gastos são, de maneira dissimulada ou não, o contribuinte, ou seja, a população inteira.

Há, inclusive, uma visão distorcida implícita na proposta do “financiamento público”. Na verdade, público ele já é, e em uma parcela que não é pequena. O Fundo Partidário, a que todos os partidos têm direito, movimentou, ano passado, mais de R$ 300 milhões — dinheiro do contribuinte. Há, ainda, uma despesa não desprezível correspondente à isenção tributária concedida a emissoras de rádio e TV em troca do “horário gratuito” eleitoral. Ele é “gratuito”, esclareça-se, para candidatos e partidos. Não para o pagador de impostos. Vende-se a ilusão de que a corrupção será banida se os bilionários gastos de campanha forem bancados por um cheque único do Tesouro Nacional. Mais gastos em troca de nada.

Em vez da fórmula ilusória, que haja mais transparência compulsória nas cifras da política e que a legislação eleitoral seja reforçada para punir os desvios. Por exemplo, para retirar da vida pública o “conta-suja”, o fraudador da prestação de contas depois de cada eleição.

Por melhores serviços públicos - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 01/07

A inquietação manifestada pelos brasileiros nas últimas três semanas teve como estopim um problema de dramática atualidade: as altas tarifas e a má qualidade do serviço de transporte urbano. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) com 3,7 mil pessoas em 212 municípios em 2011 sugere que se trata de dilema que afeta a população brasileira de forma desigual, mas extensiva. Dos entrevistados com renda familiar per capita mensal de zero a cinco salários mínimos, 99% declararam-se usuários cativos ou exclusivos do transporte público. Segundo o mesmo levantamento, a avaliação negativa do serviço cresce à medida que aumenta o tamanho da cidade: apenas 27% dos entrevistados em municípios com menos de 20 mil habitantes consideraram o transporte ruim ou muito ruim, enquanto essa mesma fatia sobe para 41% nas concentrações com mais de 100 mil habitantes.
Logo os manifestantes incluíram também na sua pauta de reivindicações outros serviços públicos deficientes, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Também nesse aspecto, mostraram ter com o restante da população uma sintonia raras vezes atingida por representantes eleitos nos parlamentos. Conforme o Datafolha, em levantamento realizado no dia 21, dois em cada três paulistanos eram favoráveis à continuidade das manifestações e propunham como principais bandeiras a saúde (40%), a educação (20%) e o combate à corrupção (17%). As demandas nessas áreas essenciais são urgentes, pois ninguém suporta mais ver filas de doentes nas emergências dos hospitais, pessoas esperando meses por consultas especializadas e cirurgias, falta de médicos em locais remotos, escolas sucateadas, professores desmotivados e mal pagos, índices constrangedores de reprovação e evasão escolar e violência desenfreada nos centros urbanos e até mesmo nas localidades interioranas.
Mais grave ainda do que essas falhas do Estado, que interferem diretamente na vida das pessoas, é a cultura da negligência, que permeia a máquina pública. É sabido que, nos últimos 10 anos, o Brasil experimentou uma redução significativa em sua histórica desigualdade social. Como lembra o presidente do Ipea, Marcelo Neri, nesse período a renda dos 10% mais pobres cresceu 550% mais rápido do que a dos 10% mais ricos. É compreensível que, pelo menos nos grandes centros urbanos, o ingresso massivo de brasileiros no universo do trabalho e do consumo ocorrido na última década provoque demandas adicionais sobre o conjunto dos serviços públicos e que a percepção de suas deficiências também seja acentuada com o aumento do acesso à educação e à informação. Se o país não estiver preparado para receber esse novo contingente de beneficiários de serviços e de políticas públicas com um incremento na qualidade da saúde, da educação e da segurança, estará apenas preparando o caldo de cultura para mais descontentamento.

O BC se resguarda - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 01/07

Para melhorar suas análises econômicas, o Banco Central (BC) deixará de utilizar em seus estudos o conceito de superávit primário no qual o governo baseia sua política fiscal.

Da forma como vem sendo calculado e apresentado, o superávit primário não permite avaliar com mais precisão os efeitos das ações do governo na área fiscal - como estímulos tributários ao consumo, a redução de impostos em alguns setores, o aumento ou a redução de gastos em determinadas áreas - sobre a atividade econômica e sobre os preços.

Por isso, o Banco Central passará a utilizar outro conceito, o de superávit estrutural, para projetar a evolução das variáveis econômicas e os efeitos das políticas econômicas.

Embora justificada numa nota de natureza técnica inserida no Relatório de Inflação - na qual expõe a mais recente atualização dos modelos que utiliza para simular cenários e efeitos das políticas econômicas, com o objetivo de subsidiar as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) -, a mudança promovida pelo Banco Central tem efeitos práticos que vão muito além da criação de balizas mais adequadas para a definição do nível dos juros básicos.

Ela constitui uma crítica à maneira como o governo vem conduzindo a política fiscal e anunciando seus resultados, falseados por manobras contábeis. E, ao deixar de utilizar os dados apresentados pelo Ministério da Fazenda e pela Secretaria do Tesouro Nacional, o BC afasta-se mais um pouco da gestão da política econômica do governo Dilma.

Vem fazendo isso há algum tempo de maneira discreta, para reconstruir as partes de sua credibilidade que foram corroídas quando se rendeu ao discurso ufanista do governo num momento em que já eram nítidos os sinais de deterioração do ambiente econômico.

O próprio Relatório de Inflação, divulgado na quinta-feira passada, mostra um BC com uma visão da realidade econômica diferente daquela que tem o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Enquanto Mantega disse que a inflação está em queda - neste ano, poderá ser inferior à do ano passado -, o BC admite que ela poderá ser maior. Em março, o BC projetava inflação de 5,7% para este ano; agora, prevê 6%. Entre as fontes de pressão inflacionária, a instituição relacionou a "política fiscal expansionista" (isto é, gastos excessivos do governo), demanda forte demais em relação à oferta (mas o governo continua a estimular a demanda) e mercado de trabalho aquecido. Quanto ao desempenho da economia em 2013, o BC reviu para baixo sua projeção para o crescimento do PIB, de 3,1% para 2,7%.

A instituição, por compreensíveis motivos, não quer explicitar esse afastamento - que, destaque-se, é necessário para restabelecer não apenas sua credibilidade, mas também a de sua política, indispensável para, em sua esfera de influência, conter as pressões inflacionárias.

Em "nota de esclarecimento" divulgada na sexta-feira em resposta à reportagem do jornal Valor mostrando as mudanças técnicas, o BC diz que "a metodologia de apuração de resultados fiscais é universal, padronizada e estabelecida pelo Fundo Monetário Internacional", e que a sua utilização nos seus modelos de simulação e estudos econômicos "em nada afeta o conceito de resultado primário padronizado".

É tudo verdade. Mas não nega a troca da variável fiscal nos estudos da instituição. É, aliás, o que se lê no Relatório de Inflação. Segundo o BC, as atualizações nos modelos e nas variáveis que utiliza são necessárias "para manter o elevado nível de transparência das ações de política monetária" e, nas mudanças feitas agora com esse objetivo, "passou-se a utilizar o superávit primário estrutural como variável fiscal (...) em substituição ao superávit primário consolidado do setor público".

A diferença entre um conceito e outro é simples, mas essencial para tornar menos obscuros os resultados fiscais. O primeiro, diz a nota do BC, "é ajustado pelo ciclo econômico e exclui os efeitos de receitas e despesas extraordinárias". Já no cálculo do superávit primário, para cumprir a meta fixada na Lei de Diretrizes Orçamentárias, o governo tem lançado muitas receitas extraordinárias, obtidas por meio de artifícios contábeis, como a antecipação de dividendos de empresas estatais e outras manobras.

Depois do tsunami - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 01/07

Datafolha registra queda expressiva na popularidade de Alckmin e Haddad; prognósticos para 2014 tornam-se mais difíceis


Reproduz-se, nos índices de popularidade do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT), o efeito devastador que as manifestações de junho tiveram sobre a avaliação do governo federal.

Em menos de um mês, segundo pesquisa Datafolha, caiu de 52% para 38% a proporção dos que consideram "bom" ou "ótimo" o desempenho do governador. Quanto ao prefeito, a queda, no mesmos quesito, foi de 34% para 18%.

Mais enfático, entretanto, é o fenômeno da rejeição a Haddad. Se Alckmin viu aumentar de 15% para 20% a proporção dos que consideram seu governo "ruim" ou "péssimo", no caso do mandatário municipal o salto foi de 21% para 40% na mesma rubrica.

Foi Haddad, afinal, o administrador em cujas mãos se inflamou o estopim das mobilizações. Diferentemente do governador ou da presidente, bem ou mal escorados numa imagem política mais consolidada, o prefeito enfrentou seu primeiro teste político real.

Seja como for, a perda na aprovação da dupla é comparável à que atingiu Dilma Rousseff, cuja aprovação caiu de 57% para 30%. Confirma-se a impressão de que, mais do que uma simples turbulência motivada pela questão dos ônibus ou do descontrole policial, são os políticos brasileiros de modo geral, naquilo em que todos se parecem, os vitimados pela inundação popular de junho.

O fenômeno se percebe com mais clareza quando se analisam os números relativos à preferência eleitoral dos entrevistados. Flutuam mal e mal, entre os destroços do tsunami, figuras atualmente desvinculadas de cargos administrativos --como o ex-governador tucano Aécio Neves, em torno de 15% nos diversos cenários da sucessão presidencial-- ou relativamente alheias à atividade política representativa.

Este é o caso do presidente do STF, Joaquim Barbosa --que passa a um patamar equivalente aos de Marina Silva e Aécio Neves. É também o caso, em certa medida, do peemedebista Paulo Skaf, que chega a 19% em alguns cenários para a sucessão estadual, sem destituir, entretanto, o favoritismo, ainda que abalado, de Alckmin.

Cabe ainda apontar, o que faz sentido no atual contexto, um notável aumento dos votos brancos e nulos. Praticamente dobrou a sua proporção, tanto no plano federal quanto no estadual.

O cenário mudou e mais do que nunca mostra-se indefinido. Convém lembrar, ademais, que, na pesquisa de intenção espontânea de voto para presidente, 55% ainda dizem não ter candidato. Se cabe a ironia, o mais sábio neste momento talvez seja nada saber.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Ouvindo o povo, nosso sistema político poderá se renovar"
Ex-presidente Lula,ao negar críticas à decisão de Dilma sobre reforma política


Abin culpa general por desinformação de Dilma

Acusada de desinformada e por deixar o governo ser surpreendido pelas manifestações de rua, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) se defende. Dirigentes arapongas garantem (em off, claro) que enviam ao Planalto informes que nem sempre contêm boas notícias, por isso não são entregues à presidenta pelo general José Elito, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). É que ele morreria de medo de Dilma.


Toma que o filho é teu

José Elito sempre devolve à Abin informes sobre temas graves, e pede mais detalhes. Afinal, sem informe, não há despacho com Dilma.


Cautela e caldo de galinha

Amigos do general o consideram cauteloso. Pelo sim, pelo não, o chefe do GSI não mantém despacho privado com a presidenta há meses.


Sim, senhora

O chefe do GSI começou mal no governo, quando Dilma o obrigou a desdizer o que de fato havia dito, contra a Comissão da Verdade.


Aqui, não

Dilma não parece ter o general em alta conta. Assessores palacianos relatam que certa vez ela o expulsou do seu elevador privativo.


Brasil quase patrocina provocação a palestinos

A presidenta Dilma vetou integralmente uma lei proposta pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) que seria uma provocação, não fosse produto da desinformação que levaria o Brasil ao ridículo. A lei definia 29 de novembro como o “Dia da Celebração da Amizade Brasil-Israel”. Mas justo nesse dia se celebra o “Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina”, criado pela Assembleia Geral da ONU.


Comeram mosca

Deu mancada a assessoria legislativa do chanceler bananão Antônio Patriota, que não foi capaz detectar o projeto tramitando desde 2005.


Põe na conta

A estatal Furnas está liberando funcionários do turno da manhã mais cedo para “poupá-los dos transtornos das manifestações no Rio”.


Hora é agora

Líder do PT, José Guimarães (CE) defende inclusão do Plano Nacional de Educação no pacote que Câmara votará em resposta aos protestos.


Pata Manca

Na reunião de deputados do PT, há dias, em que Dilma foi duramente criticada pelos erros e negligência com os grandes eventos, a turma do “Volta, Lula” dizia que ela virou “pata manca”, numa alusão ao “Lame Duck”, termo americano para indicar presidente em final de mandato.


Déjà vu

O PMDB marcou mais uma vez reunião da Executiva Nacional no Hotel Nacional de Brasília, refutado em cima da hora no último encontro da sigla por não ter alvará de funcionamento nem saídas de emergência.


Ação conjunta

Relator da MP 612, que sepulta licitação para abertura de portos secos, Alfredo Kaefer (PSDB-PR) se reúne hoje com Vicente Cândido (PT-SP) e Ronaldo Medina, assessor da Receita Federal, para arrematar texto.


Tarso, o gestor

A empresa pública recém-criada pelo governador Tarso Genro, só para cobrar pedágios dos gaúchos em rodovias, tem um engenheiro como presidente e dentista como diretor técnico. Não há perigo de dar certo.


Resta um

Com as saídas do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e da ex-presidenta do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie, do conselho da OGX, restou a Eike Batista se aconselhar com o seu pai, Eliezer.


Bola da vez

Cotado para dar palanque ao presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE) no Rio em 2014, o ex-jogador de futebol Romário também tem sido alvo de assédio de outros partidos para sair candidato ao Senado.


Baú de ideias

O cientista político Murillo de Aragão, da Arko Advice, vai propor lei de iniciativa popular – como o Ficha Limpa: o “financiamento eleitoral cidadão”: só indivíduos, com limite para doação e teto de gastos.


Planeta água

Só no Estado de São Paulo, 12 milhões de veículos e 9 milhões de pessoas utilizaram o transporte aquaviário em 2012. Por isso a prefeita de Guarujá (SP), Maria Antonieta de Brito, sugeriu à Casa Civil e ao Senado a desoneração para o transporte por barca, catraias e balsas.


Caiu na rede

Lula, que quer adotar a rede social para conquistar “as ruas”, ganhou uma conta ontem no território (ainda) livre do Twitter: “lula@brasil”.

Poder sem pudor

Mentir não pode

A então deputada Maria Conceição Tavares (PT-RJ) debatia um pacote fiscal do governo FHC com o colega baiano Benito Gama, na TV Câmara, quando de repente ela perdeu a paciência e aplicou um sonoro tapa nas costas do adversário. Diante do perplexo apresentador, Luiz Augusto Gollo, e de um Benito assustado, ela gritou, bem ao seu estilo:
- Não mintas, ó Benito, isto é uma deslavada mentira!
Por pouco o debate não acaba nas mãos da segurança.

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Olé Brasil bate Espanha por 3 a 0 e conquista Copa das Confederações em jogo eletrizante
- Folha: Popularidade de Alckmin cai; 40% rejeitam Haddad
- Estadão: Após pesquisa, base endurece com Dilma e faz cobranças
- Correio: E o Brasil deitou, e rolou
- Estado de Minas: Em atuação histórica, Brasil arrasa a Espanha no Maracanã
- Zero Hora: O campeão voltou
- Brasil Econômico: “Corrupção começa na eleição”
- Valor Econômico: Desvalorização de commodities ameaça balança

domingo, junho 30, 2013

Lula versus Dilma - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo?

Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa? Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar? O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que "Sarney não pode ser julgado como homem comum"... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, "o novo"... O Lula que se uniu "aos picaretas do Congresso"... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas? Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.

A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de "mãe do PAC". Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de re-presentatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.
O Lula presidente se lamentava da "herança maldita" de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo. Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT. E por tantas bandeiras no ar. A ética. A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos. As creches, o transporte de massa. Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.
Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz. Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.
Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão - e os dólares - com a política partidária? Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um "recall" nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos? Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros? Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares. Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de "evangélica". Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.
E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer "barbeiragens" na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente.