FOLHA DE SP - 27/05
Alta da Selic deve seguir no nível de abril, diz economista
A elevação da taxa Selic em 0,25 ponto percentual a cada reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) é uma política que "veio para ficar".
A análise é de Octavio de Barros, diretor do departamento de estudos econômicos do Bradesco.
Em maio, após seis meses sem alterações, a taxa subiu 0,25 ponto. Mais quatro ou seis aumentos desse porte poderiam ocorrer, afirma o economista.
"Chegaríamos a um máximo de 9% ao final do ciclo atual de normalização monetária. Cenário mais provável, 8,75% -nível mais baixo atingido na era Lula", diz.
"Se houvesse uma situação de emergência, uma mudança de ritmo possivelmente faria sentido, mas certamente não é o caso atual."
O economista acrescenta que o desânimo empresarial se agravaria -"em um momento de resignação"- caso houvesse mudanças mais bruscas na Selic.
Barros diz ainda que a inflação deve ficar em 0,37% em maio. Até agosto, deve oscilar ao redor dos 0,28%, segundo projeções do banco.
"As expectativas só vão se acalmar quando a inflação de curto prazo se mostrar efetivamente mais baixa, em um ritmo condizente com a meta central. Isso é o que esperamos de maio a agosto."
Sobre o mercado de trabalho, o economista afirma que a baixa taxa de desemprego é decorrente da desaceleração do crescimento populacional e da queda do número de jovens.
"[Os dois fatos] sustentam um já duradouro descompasso de oferta e demanda de mão de obra. Desde 2004, a oferta cresce a 1,5% ao ano, ao passo que a demanda se expande em 2,4%."
EXPANSÃO FARMACÊUTICA
A rede de farmácias Pague Menos vai inaugurar em outubro seu segundo centro de distribuição no país, próximo a Goiânia (GO), um investimento de R$ 50 milhões.
Atualmente, o centro de Fortaleza (CE) atende as 607 lojas da rede espalhadas por todos os Estados do país, além do Distrito Federal.
A obra, já com a construção em andamento, faz parte do plano de expansão da empresa, que pretende abrir mais de 70 lojas neste ano e chegar a mil em 2017, segundo o presidente da Pague Menos, Deusmar Queirós.
"Vamos investir R$ 150 milhões na criação de lojas e estoques só neste ano", diz Queirós. "Nosso foco é crescer principalmente no Centro-Oeste e no Sudeste."
A expectativa é que o novo centro de distribuição, assim que esteja concluído, atenda as duas regiões e ainda o Sul do país.
O complexo já existente, em Fortaleza, ficará responsável pelo fornecimento às farmácias localizadas da Bahia ao Acre.
O lucro líquido da empresa foi de R$ 107,4 milhões no ano passado.
Empreendedor tem dificuldade de acesso ao crédito, diz estudo
Não falta crédito no país, mas ele raramente chega aos pequenos empreendedores e às start-ups, aponta estudo da Fundação Dom Cabral.
Em escala de zero a cem -na qual cem significa maior acesso ao capital-, a avaliação de disponibilidade de crédito passou de 61,2 em 2007 para 70,9 em 2011 (último ano que tem dados disponíveis).
Em Hong Kong, região definida como referência nesse quesito, a pontuação foi de 85,6 em 2011.
Quando se trata de disponibilidade de capital de risco, porém, o resultado é diferente. Entre 2007 e 2012, a avaliação mal variou, ficando entre de 2,5 e 2,9 (a pontuação vai de um a sete).
"Existem fundos de investimentos no país, mas eles querem a certeza da viabilidade do projeto. Aí é quase um private equity, e não um venture capital (que investe em empresas iniciantes)", diz o coordenador do estudo, Carlos Arruda.
"Os investidores querem que a companhia esteja em um estágio mais avançado e não na fase inicial, na qual se encontram normalmente as start-ups", acrescenta.
O perfil do empreendedor é, de acordo com o professor, o critério principal utilizado pelos fundos na hora de decidir a empresa que receberá o aporte.
"Os investidores não se preocupam tanto com o plano de negócios. Eles buscam pessoas que consigam achar uma saída rápida caso o projeto não dê certo."
CARTEIRA ASSINADA
A parcela de empresas que contrataram novos funcionários no Brasil caiu dos 41% registrados no primeiro trimestre de 2012 para 29% no mesmo período deste ano, segundo levantamento realizado pela Grant Thornton.
O resultado ficou próximo da média global, de 24%, e o país passou do sétimo para o 17º lugar no ranking dos 44 países pesquisados.
Quando o assunto é reajuste salarial, os brasileiros ocupam a sétima posição entre os que mais pretendem dar aumento aos seus funcionários nos próximos 12 meses.
Dos 300 executivos que responderam a pesquisa, 21% disseram que devem elevar as remunerações em patamar acima da inflação -a média global foi de 15%.
Os dados refletem a preocupação do empresariado diante da baixa oferta de mão de obra qualificada.
"Boa parte dos trabalhadores mais especializados foi contratada em 2012. Agora as companhias fazem de tudo para não perder talentos", diz Leandro Scalquette, sócio da Grant Thornton.
Energia... A Finep, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, selecionou 117 empresas líderes para a primeira etapa do Inova Energia, para fomento na área energética.
...moderna O resultado final das três linhas, entre elas fontes alternativas e veículos híbridos, sairá em junho.
Parceria... O Instituto Abramundo fechará hoje nova parceria com a BG Brasil para projetos em escolas públicas de Angra dos Reis (RJ).
...matemática A iniciativa vai expandir a atuação de um programa de ciências e iniciar outro voltado ao ensino da matemática.
segunda-feira, maio 27, 2013
Ponciopilatismo - ROBERTO LUIS TROSTER
O Estado de S. Paulo - 27/05
A inflação é uma preocupação crescente para todos. O IPCA, que é o índice que mede a alta dos preços para famílias com rendimentos de até 40 salários mínimos, registrou 6,49% no acumulado em 12 meses; o INPC, que é o índice da classe de renda até 5 salários mínimos, superou-o, está em 7,16%, angustiando ainda mais os mais pobres.
Já a inflação de quem ganha salário mínimo, a da cesta básica calculada pelo Dieese, subiu 21,9% em um ano. Como essa classe de renda teve um reajuste de 9%, ficou mais pobre, a sacola da feira está mais leve do que no ano anterior. Esses dois números (21,9% e 9%) mostram que a alta descontrolada de preços prejudica mais quemganhamenos.Nãoénovidade, sempre foi assim. Tem mais.
A inflação funciona como um imposto (ruim) que diminui o poder de compra de todas as camadas de renda e com isso há impactos adversos no consumo e na inadimplência. No acumulado deste ano, as vendas em supermercados e hipermercados subiram apenas 1,8% em relação ao que passou. Feitos os devidos ajustes em razão do aumento da população e na pirâmide de rendimentos, é razoável afirmar que os mais pobres estão ficando com uma fatia menor do bolo.
Outro problema inflacionário é a inadimplência. Como a renda real caiu, alguns pagamentos são postergados. O Banco Central informa que, de cada R$ 3,00 devidos no cartão de crédito, pelo menos R$1,00 tem o pagamento atrasado em mais de 15 dias. As dificuldades financeiras já são uma preocupação da sociedade, que observa a formação de um circulo vicioso com financiamento baixo e crescimento.
Se a situação atual da inflação preocupa, as perspectivas angustiam ainda mais. Sua dinâmica está se transformando. As projeções de alta de preços subiram, e é comum que o mercado faça estimativas para mais ou para menos. Entretanto, em nove das dez últimas projeções mensais, apesar de maiores, os analistas estimaram um valor menor que o IPCA real. Subestimaram o índice 90% das vezes. É um sinal inequívoco de que a dinâmica inflacionária está piorando.
Há mais indicadores de que o processo de preços não está tão controlado comoafirmam alguns. A expansão monetária, medida pelo papel-moeda em poder do público, está crescendo 14,3% ao ano. A dívida pública aumentou de 53,3% para 59,2% do PIB em apenas dois anos e três meses do atual governo. É uma trajetória que desperta preocupações. Entretanto, há inúmeras referências de que a dívida líquida está caindo, sem mencionar que de fato a pressão fiscal na economia está aumentando. É oportuno recordar que na literatura econômica as expansões de gastos excessivas do governo têm consequências recessivas causadas pelo efeito deslocamento.
Também conhecido como crowding out, refere-se a situações em que o setor público desloca a produção e o consumodo setor privado (daí o nome deslocamento). Como a produtividade dos investimentos do governo é menor do que a dos particulares e há menos dispêndios em razão de impostos maiores, o crescimento da economia é mais baixo. Resumindo, no quadro atual, quanto maiores forem os gastos fiscais, menor será o crescimento.
Há outras distorções na economia brasileira, como a perda de competitividade da indústria e a deterioração do equilíbrio externo. O ponto é que os indicadores macroeconômicos estão piores do que poderiam estar em função de sua condução.
O título do artigo faz referência a isso. Vem do ato de lavar as mãos de Pôncio Pilatos. Em política, o termo está associado a quatro atitudes: 1) eximir-se de responsabilidades; 2) tratar como iguais coisas diferentes; 3) ceder a pressões populares para agradar à multidão de imediato; e 4) não fazer o que é claramente certo.
1) É fato que parte da deterioração do quadro econômico se deve a fatores exógenos - fora do controle do governo, como a alta de preços agrícolas (que beneficia o agro) e o que acontece no resto do mundo (que em média está crescendo mais que o Brasil). Entretanto, o restante é de responsabilidade interna. Se outros países com menos condições estão conseguindo fazer mais, indica que é possível desempenhar melhor aqui dentro. Lavar as mãos culpando o resto do mundo não é a saída.
2) Não poderia haver igualdade mais desigual que a de um criminoso conhecido como Barrabás e um inocente. É importante dar os pesos corretos quando colocados na balança uma alta temporáriados juros com um agravamento da dinâmica inflacionária ou o aumento de gastos públicos com seus benefícios para o País.
3) Há situações em que se deve ceder a pressões - não era o certo, no caso histórico. Todavia, um governante não pode ficar refém de pesquisas de opinião e de popularidade no curto prazo. Juros mais baixos e mais gastos públicos são desejos de todos, mas dentro de limites viáveis. Exageros têm o efeito oposto ao desejado no médio prazo. O desempenho recente da economia prova.
4) O receituário parafazer o Brasil crescer é conhecido, é o RT, as Reformas e o Tripé das políticas cambial, monetária e fiscal. Há espaços para uma reengenharia institucional, mas insiste-se numa lei cambial e trabalhista da década de 1930, em regulamentações que emperram a produção nacional e num arcabouço fiscal tributário que beneficia a poucos em detrimento de um futuro melhor para o País.
A economia brasileira como um todo tem mais pontos positivos do que negativos. O País vai crescer 3% este ano e um pouco mais em 2014 e o governo tem méritos. Mas é pouco, pode-se e deve-se ambicionar mais, é possível e é viável.
É paradoxal, mas um aperto monetário efiscalno atual quadro macroeconômico teria um impacto expansionista, em vez de recessivo. Sinalizaria ao setor empresarial o comprometimento do governo com o tripé. Se a isso for adicionado o início de um ciclo de reformas, pode-se esperar um desempenho compatível com o potencial do Brasil. É hora de torcer.
A inflação é uma preocupação crescente para todos. O IPCA, que é o índice que mede a alta dos preços para famílias com rendimentos de até 40 salários mínimos, registrou 6,49% no acumulado em 12 meses; o INPC, que é o índice da classe de renda até 5 salários mínimos, superou-o, está em 7,16%, angustiando ainda mais os mais pobres.
Já a inflação de quem ganha salário mínimo, a da cesta básica calculada pelo Dieese, subiu 21,9% em um ano. Como essa classe de renda teve um reajuste de 9%, ficou mais pobre, a sacola da feira está mais leve do que no ano anterior. Esses dois números (21,9% e 9%) mostram que a alta descontrolada de preços prejudica mais quemganhamenos.Nãoénovidade, sempre foi assim. Tem mais.
A inflação funciona como um imposto (ruim) que diminui o poder de compra de todas as camadas de renda e com isso há impactos adversos no consumo e na inadimplência. No acumulado deste ano, as vendas em supermercados e hipermercados subiram apenas 1,8% em relação ao que passou. Feitos os devidos ajustes em razão do aumento da população e na pirâmide de rendimentos, é razoável afirmar que os mais pobres estão ficando com uma fatia menor do bolo.
Outro problema inflacionário é a inadimplência. Como a renda real caiu, alguns pagamentos são postergados. O Banco Central informa que, de cada R$ 3,00 devidos no cartão de crédito, pelo menos R$1,00 tem o pagamento atrasado em mais de 15 dias. As dificuldades financeiras já são uma preocupação da sociedade, que observa a formação de um circulo vicioso com financiamento baixo e crescimento.
Se a situação atual da inflação preocupa, as perspectivas angustiam ainda mais. Sua dinâmica está se transformando. As projeções de alta de preços subiram, e é comum que o mercado faça estimativas para mais ou para menos. Entretanto, em nove das dez últimas projeções mensais, apesar de maiores, os analistas estimaram um valor menor que o IPCA real. Subestimaram o índice 90% das vezes. É um sinal inequívoco de que a dinâmica inflacionária está piorando.
Há mais indicadores de que o processo de preços não está tão controlado comoafirmam alguns. A expansão monetária, medida pelo papel-moeda em poder do público, está crescendo 14,3% ao ano. A dívida pública aumentou de 53,3% para 59,2% do PIB em apenas dois anos e três meses do atual governo. É uma trajetória que desperta preocupações. Entretanto, há inúmeras referências de que a dívida líquida está caindo, sem mencionar que de fato a pressão fiscal na economia está aumentando. É oportuno recordar que na literatura econômica as expansões de gastos excessivas do governo têm consequências recessivas causadas pelo efeito deslocamento.
Também conhecido como crowding out, refere-se a situações em que o setor público desloca a produção e o consumodo setor privado (daí o nome deslocamento). Como a produtividade dos investimentos do governo é menor do que a dos particulares e há menos dispêndios em razão de impostos maiores, o crescimento da economia é mais baixo. Resumindo, no quadro atual, quanto maiores forem os gastos fiscais, menor será o crescimento.
Há outras distorções na economia brasileira, como a perda de competitividade da indústria e a deterioração do equilíbrio externo. O ponto é que os indicadores macroeconômicos estão piores do que poderiam estar em função de sua condução.
O título do artigo faz referência a isso. Vem do ato de lavar as mãos de Pôncio Pilatos. Em política, o termo está associado a quatro atitudes: 1) eximir-se de responsabilidades; 2) tratar como iguais coisas diferentes; 3) ceder a pressões populares para agradar à multidão de imediato; e 4) não fazer o que é claramente certo.
1) É fato que parte da deterioração do quadro econômico se deve a fatores exógenos - fora do controle do governo, como a alta de preços agrícolas (que beneficia o agro) e o que acontece no resto do mundo (que em média está crescendo mais que o Brasil). Entretanto, o restante é de responsabilidade interna. Se outros países com menos condições estão conseguindo fazer mais, indica que é possível desempenhar melhor aqui dentro. Lavar as mãos culpando o resto do mundo não é a saída.
2) Não poderia haver igualdade mais desigual que a de um criminoso conhecido como Barrabás e um inocente. É importante dar os pesos corretos quando colocados na balança uma alta temporáriados juros com um agravamento da dinâmica inflacionária ou o aumento de gastos públicos com seus benefícios para o País.
3) Há situações em que se deve ceder a pressões - não era o certo, no caso histórico. Todavia, um governante não pode ficar refém de pesquisas de opinião e de popularidade no curto prazo. Juros mais baixos e mais gastos públicos são desejos de todos, mas dentro de limites viáveis. Exageros têm o efeito oposto ao desejado no médio prazo. O desempenho recente da economia prova.
4) O receituário parafazer o Brasil crescer é conhecido, é o RT, as Reformas e o Tripé das políticas cambial, monetária e fiscal. Há espaços para uma reengenharia institucional, mas insiste-se numa lei cambial e trabalhista da década de 1930, em regulamentações que emperram a produção nacional e num arcabouço fiscal tributário que beneficia a poucos em detrimento de um futuro melhor para o País.
A economia brasileira como um todo tem mais pontos positivos do que negativos. O País vai crescer 3% este ano e um pouco mais em 2014 e o governo tem méritos. Mas é pouco, pode-se e deve-se ambicionar mais, é possível e é viável.
É paradoxal, mas um aperto monetário efiscalno atual quadro macroeconômico teria um impacto expansionista, em vez de recessivo. Sinalizaria ao setor empresarial o comprometimento do governo com o tripé. Se a isso for adicionado o início de um ciclo de reformas, pode-se esperar um desempenho compatível com o potencial do Brasil. É hora de torcer.
O terror da ambivalência - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 27/05
A janta e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana
Você esconderia judeus em sua casa durante a França ocupada pelos nazistas? Não, não precisa responder em voz alta.
Melhor assim, para não passarmos a vergonha de ouvirmos nossas mentiras quando na realidade a janta, o bom emprego e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana. Passado o terror, todos viramos corajosos e éticos.
Anos atrás, enquanto eu esperava um trem na estação de Lille, na França, para voltar para Paris, onde morava na época --ainda bem que tinha minha família comigo porque Paris é uma cidade hostil--, li a resenha de um livro inesquecível na revista "Nouvel Observateur".
Nunca li esse livro, nem lembro seu nome, mas a resenha era promissora. Entrevistas com filhos e filhas de pessoas que esconderam judeus em casa durante a Segunda Guerra davam depoimentos de como se sentiram quando crianças diante dos atos de coragem de seus pais e suas mães.
A verdade é que essas crianças detestavam o ato de bravura de seus pais. Sentiam (com razão?) que não eram amados pelos pais, que preferiam pôr em risco a vida deles a protegê-los, recusando-se a obedecer a ordem: quem salvar judeus morre com eles.
Podemos "desculpar" as crianças dizendo que eram crianças. Nem tanto. Adolescentes também sentiam o mesmo abandono por parte dos pais corajosos. Cônjuges idem.
Está justificada a covardia em nome do amor familiar? Nem tanto, mas deve-se escolher um estranho em detrimento de um filho assustado?
Tampouco dizer que os covardes também seriam vítimas vale, porque o que caracteriza a coragem é exatamente não se deixar fazer de vítima --coisa hoje na moda, isto é, se fazer de vítima.
Não foi muito diferente aqui no Brasil durante a ditadura, guardando-se, claro, as diferenças de dimensão do massacre.
No entanto, não me interessa hoje essa questão da falsa ética quando o risco já passou --a moral de bravatas. Mas sim a ambivalência insuportável que uma situação como essa desvela, na sua forma mais aguda.
Ou meu pai me ama ou ama o judeu escondido em minha casa, ou, ele me ama, mas não consegue dormir com a ideia de que não salvou alguém que considerava vítima de uma injustiça, e por isso me põe em risco. Eis a razão mais comum dada por esses pais, quando indagados, da razão de pôr em risco sua vida e família: "Não conseguia fazer diferente". Mas a ambivalência da vida não se resume a casos agudos como esses.
Freud descreveu os sentimentos ambivalentes da criança para com o pai no complexo de Édipo: amo meu pai, mas quero também me livrar dele, e também sinto culpa por sentir vontade de me livrar dele.
Independente de crer ou não em Freud plenamente (sou bastante freudiano no modo de ver o mundo, e Freud foi o primeiro objeto de estudo sistemático em minha vida), a ambivalência aí descrita serve como matriz para o resto da vida.
Os pais amam os filhos (nem sempre), mas ao mesmo tempo ter filhos limita a vida num tanto de coisas (e hoje em dia muita mulher deixa para ser mãe aos 40 por conta deste medo, o que é péssimo porque a mulher biologicamente deve ser mãe antes dos 35). Apesar dos gastos intermináveis, no horizonte jaz o possível abandono na velhice por parte destes mesmos filhos "tão" amados.
Mas, ao mesmo tempo, não ter filhos pode ser uma chance enorme para você envelhecer como um adulto infantil que tem toda sua vida ao redor de suas pequenas misérias narcísicas.
Casamento é a melhor forma de deixar de querer transar com alguém devido ao esmagamento do desejo pela lista infinita de obrigações que assola homens e mulheres, dissolvendo a libido nos cálculos da previdência privada.
Mas, ao mesmo tempo, a liberdade deliciosa de transar com quem quiser (ficar solteiro), com o tempo, facilmente fará de você uma paquita velha ridícula sozinha que confunde pagar por sexo com um homem mais jovem com emancipação feminina. E, no caso do homem, o tiozão babão espreita a porta.
E, também, terá razão quem disser que mesmo casando você poderá vir a ser uma paquita velha ou um tiozão babão.
Quantas ambivalências espera você nessa semana?
A janta e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana
Você esconderia judeus em sua casa durante a França ocupada pelos nazistas? Não, não precisa responder em voz alta.
Melhor assim, para não passarmos a vergonha de ouvirmos nossas mentiras quando na realidade a janta, o bom emprego e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana. Passado o terror, todos viramos corajosos e éticos.
Anos atrás, enquanto eu esperava um trem na estação de Lille, na França, para voltar para Paris, onde morava na época --ainda bem que tinha minha família comigo porque Paris é uma cidade hostil--, li a resenha de um livro inesquecível na revista "Nouvel Observateur".
Nunca li esse livro, nem lembro seu nome, mas a resenha era promissora. Entrevistas com filhos e filhas de pessoas que esconderam judeus em casa durante a Segunda Guerra davam depoimentos de como se sentiram quando crianças diante dos atos de coragem de seus pais e suas mães.
A verdade é que essas crianças detestavam o ato de bravura de seus pais. Sentiam (com razão?) que não eram amados pelos pais, que preferiam pôr em risco a vida deles a protegê-los, recusando-se a obedecer a ordem: quem salvar judeus morre com eles.
Podemos "desculpar" as crianças dizendo que eram crianças. Nem tanto. Adolescentes também sentiam o mesmo abandono por parte dos pais corajosos. Cônjuges idem.
Está justificada a covardia em nome do amor familiar? Nem tanto, mas deve-se escolher um estranho em detrimento de um filho assustado?
Tampouco dizer que os covardes também seriam vítimas vale, porque o que caracteriza a coragem é exatamente não se deixar fazer de vítima --coisa hoje na moda, isto é, se fazer de vítima.
Não foi muito diferente aqui no Brasil durante a ditadura, guardando-se, claro, as diferenças de dimensão do massacre.
No entanto, não me interessa hoje essa questão da falsa ética quando o risco já passou --a moral de bravatas. Mas sim a ambivalência insuportável que uma situação como essa desvela, na sua forma mais aguda.
Ou meu pai me ama ou ama o judeu escondido em minha casa, ou, ele me ama, mas não consegue dormir com a ideia de que não salvou alguém que considerava vítima de uma injustiça, e por isso me põe em risco. Eis a razão mais comum dada por esses pais, quando indagados, da razão de pôr em risco sua vida e família: "Não conseguia fazer diferente". Mas a ambivalência da vida não se resume a casos agudos como esses.
Freud descreveu os sentimentos ambivalentes da criança para com o pai no complexo de Édipo: amo meu pai, mas quero também me livrar dele, e também sinto culpa por sentir vontade de me livrar dele.
Independente de crer ou não em Freud plenamente (sou bastante freudiano no modo de ver o mundo, e Freud foi o primeiro objeto de estudo sistemático em minha vida), a ambivalência aí descrita serve como matriz para o resto da vida.
Os pais amam os filhos (nem sempre), mas ao mesmo tempo ter filhos limita a vida num tanto de coisas (e hoje em dia muita mulher deixa para ser mãe aos 40 por conta deste medo, o que é péssimo porque a mulher biologicamente deve ser mãe antes dos 35). Apesar dos gastos intermináveis, no horizonte jaz o possível abandono na velhice por parte destes mesmos filhos "tão" amados.
Mas, ao mesmo tempo, não ter filhos pode ser uma chance enorme para você envelhecer como um adulto infantil que tem toda sua vida ao redor de suas pequenas misérias narcísicas.
Casamento é a melhor forma de deixar de querer transar com alguém devido ao esmagamento do desejo pela lista infinita de obrigações que assola homens e mulheres, dissolvendo a libido nos cálculos da previdência privada.
Mas, ao mesmo tempo, a liberdade deliciosa de transar com quem quiser (ficar solteiro), com o tempo, facilmente fará de você uma paquita velha ridícula sozinha que confunde pagar por sexo com um homem mais jovem com emancipação feminina. E, no caso do homem, o tiozão babão espreita a porta.
E, também, terá razão quem disser que mesmo casando você poderá vir a ser uma paquita velha ou um tiozão babão.
Quantas ambivalências espera você nessa semana?
Aliança do Pacífico preocupa no Brasil - SERGIO LEO
VALOR ECONÔMICO - 27/05
Vista como ameaça ao Mercosul, por sua capacidade de criar uma zona de livre comércio entre México, Peru, Colômbia e Chile, com uma população equivalente a do Brasil e 33% do comércio da região, a Aliança do Pacífico é, por enquanto, um projeto, ainda que em avançada negociação, apoiado por entusiasmada declaração de intenções de engajados chefes de Estado. E já assusta os empresários brasileiros. Eles veem na iniciativa aspectos que faltam na política comercial brasileira. Enquanto o Mercosul empaca em uma agenda de acesso a mercados típica do século passado, andinos e o México buscam seu lugar nas cadeias globais de produção.
Reunidos nesta semana em Cali, na Colômbia, os chefes de Estado dos quatro aliados comemoraram a entrada da Costa Rica na aliança e a adesão, como observadores, de sete novos países (entre eles o Paraguai, que se soma ao Uruguai, já observador). Também festejaram um acordo para dispensa de visto nas viagens entre eles - algo que o Brasil pode se vangloriar de já ter com todos. Anunciaram também um acordo que reduzirá a 90% as tarifas de importação entre si, num primeiro momento, com prazo "razoável" para liberar os 10% restantes - mas falta ainda negociar os detalhes. O prazo para o acordo, já adiado uma vez, é 30 de junho.
"Nossa preocupação é que não está em pauta, não se vê pronunciamento de nenhum dos ministérios no Brasil sobre o que acontece na Aliança do Pacífico, algo que ainda não reconhecemos", desabafa o presidente do Centro Empresarial da América Latina (CEAL), Ingo Plöger. Ele e outros executivos brasileiros voltaram do último Fórum Econômico Mundial na América Latina impressionados com o entusiasmo dos empresários dos quatro países da Aliança. "Há uma dinâmica incrível, vontade política dos governantes e participação dos empresários", descreve.
Diferentemente do modelo da Organização Mundial do Comércio (OMC), as negociações da Aliança para o Pacífico têm maior senso de urgência: os acordos são assinados à medida que ficam prontos, sem esperar conclusão em todos os temas. Há 17 grupos de trabalho, com objetivos bem além do corte de taxas de importação. Discutem reconhecimento mútuo de certificações sanitárias e até propostas de liberalização de serviços em medicina, com permissão de atuação dos médicos de um país no outro.
Para Plöger, a falta de iniciativas no Mercosul capazes de polarizar as atenções como a Aliança do Pacífico mostra que o Brasil perde liderança nesse campo, e vacila na criação de uma agenda capaz de ampliar a ação das empresas brasileiras na região. Ele dá como exemplo a falta de acordos de bitributação com relevantes países sul-americanos, que obriga empresas brasileiras a criar holdings no Chile, com quem o Brasil tem acordo, se quiserem investir na Colômbia. Boa parte das conversas entre os países da Aliança do Pacífico trata exatamente da melhoria do ambiente de negócios entre os respectivos mercados.
"Eles estão com uma visão de que, ao ter um determinado ambiente institucional com características comuns, podem montar estratégias de captura de pedaços de cadeias de valor global", descreve o diretor-executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes. "É um raciocínio diferente do que prevalece do nosso lado do continente, no Atlântico", afirma.
Os aliados negociam, por exemplo, as chamadas "janelas únicas" de comércio exterior, que permitirão a exportadores e importadores realizarem transações entre os países buscando autorização em um só guichê. Também buscam regulamento único para cosméticos e farmacêuticos. Os quatro governos pretendem concluir um acordo de liberalização de serviços e proteção a investimentos até o fim de junho, incluindo o setor financeiro, transporte marítimo e aéreo, telecomunicações e serviços profissionais.
"Essas negociações vão engendrar um padrão de comércio e investimento na região que vai muito além das regras da OMC", comenta o diretor-executivo do Ceal, Alberto Pfeifer. As novas normas tendem a criar vantagens comparativas na disputa por investimentos, acreditam os empresários. "Hoje, no comércio, o que mais importa são as regras não-tarifárias, na lógica do investimento de longo prazo", diz Pfeifer, que reconhece a ameaça de extinção para as empresas menos competitivas, como as têxteis, nesses países.
Para José Augusto Fernandes, da CNI, há um lado positivo: o clima de negócios criado nos países da Aliança pode ser proveitoso para empresas brasileiras com planos de internacionalização. "Empresas como Natura e Gerdau já atuam na região", lembra. "E o Brasil aproveita oportunidades de investimento em áreas de mineração e construção pesada no Chile, por exemplo, onde tem vantagem comparativa."
A lógica no Mercosul, muito influenciada por concepções de substituição de importações, produção local e proteção de mercados, porém, parece, para os empresários, em descompasso com a tendência global de fragmentação das etapas de produção industrial.
É bom ter cautela nas comparações com os aliados do Pacífico. A exportação dos quatro países da Aliança à Ásia foi de US$ 71 bilhões em 2011, quase US$ 7 bilhões inferior às vendas do Brasil à região; já a importação de bens asiáticos, de US$ 155 bilhões, foi mais que o dobro das feitas pelo Brasil no mesmo ano. Os dados mostram como o Brasil vai bem na venda de commodities, preferidas pelos asiáticos, e como é bem mais fácil a países como México, Peru e Chile abrir-se à invasão de produtos do Oriente.
Muitos pontos da negociação ainda estão em aberto e o Brasil, que tem acordos de livre comércio com os andinos e tenta um de serviços com a Colômbia, não está obrigado a seguir exatamente o mesmo rumo dos governos excitados no litoral Pacífico. Mas precisa apontar uma alternativa viável a esse movimento, que deve criar uma zona dinâmica de comércio e investimentos capaz de abater ainda mais a competitividade de uma indústria mal abrigada pela barreira tarifária do Mercosul.
Vista como ameaça ao Mercosul, por sua capacidade de criar uma zona de livre comércio entre México, Peru, Colômbia e Chile, com uma população equivalente a do Brasil e 33% do comércio da região, a Aliança do Pacífico é, por enquanto, um projeto, ainda que em avançada negociação, apoiado por entusiasmada declaração de intenções de engajados chefes de Estado. E já assusta os empresários brasileiros. Eles veem na iniciativa aspectos que faltam na política comercial brasileira. Enquanto o Mercosul empaca em uma agenda de acesso a mercados típica do século passado, andinos e o México buscam seu lugar nas cadeias globais de produção.
Reunidos nesta semana em Cali, na Colômbia, os chefes de Estado dos quatro aliados comemoraram a entrada da Costa Rica na aliança e a adesão, como observadores, de sete novos países (entre eles o Paraguai, que se soma ao Uruguai, já observador). Também festejaram um acordo para dispensa de visto nas viagens entre eles - algo que o Brasil pode se vangloriar de já ter com todos. Anunciaram também um acordo que reduzirá a 90% as tarifas de importação entre si, num primeiro momento, com prazo "razoável" para liberar os 10% restantes - mas falta ainda negociar os detalhes. O prazo para o acordo, já adiado uma vez, é 30 de junho.
"Nossa preocupação é que não está em pauta, não se vê pronunciamento de nenhum dos ministérios no Brasil sobre o que acontece na Aliança do Pacífico, algo que ainda não reconhecemos", desabafa o presidente do Centro Empresarial da América Latina (CEAL), Ingo Plöger. Ele e outros executivos brasileiros voltaram do último Fórum Econômico Mundial na América Latina impressionados com o entusiasmo dos empresários dos quatro países da Aliança. "Há uma dinâmica incrível, vontade política dos governantes e participação dos empresários", descreve.
Diferentemente do modelo da Organização Mundial do Comércio (OMC), as negociações da Aliança para o Pacífico têm maior senso de urgência: os acordos são assinados à medida que ficam prontos, sem esperar conclusão em todos os temas. Há 17 grupos de trabalho, com objetivos bem além do corte de taxas de importação. Discutem reconhecimento mútuo de certificações sanitárias e até propostas de liberalização de serviços em medicina, com permissão de atuação dos médicos de um país no outro.
Para Plöger, a falta de iniciativas no Mercosul capazes de polarizar as atenções como a Aliança do Pacífico mostra que o Brasil perde liderança nesse campo, e vacila na criação de uma agenda capaz de ampliar a ação das empresas brasileiras na região. Ele dá como exemplo a falta de acordos de bitributação com relevantes países sul-americanos, que obriga empresas brasileiras a criar holdings no Chile, com quem o Brasil tem acordo, se quiserem investir na Colômbia. Boa parte das conversas entre os países da Aliança do Pacífico trata exatamente da melhoria do ambiente de negócios entre os respectivos mercados.
"Eles estão com uma visão de que, ao ter um determinado ambiente institucional com características comuns, podem montar estratégias de captura de pedaços de cadeias de valor global", descreve o diretor-executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes. "É um raciocínio diferente do que prevalece do nosso lado do continente, no Atlântico", afirma.
Os aliados negociam, por exemplo, as chamadas "janelas únicas" de comércio exterior, que permitirão a exportadores e importadores realizarem transações entre os países buscando autorização em um só guichê. Também buscam regulamento único para cosméticos e farmacêuticos. Os quatro governos pretendem concluir um acordo de liberalização de serviços e proteção a investimentos até o fim de junho, incluindo o setor financeiro, transporte marítimo e aéreo, telecomunicações e serviços profissionais.
"Essas negociações vão engendrar um padrão de comércio e investimento na região que vai muito além das regras da OMC", comenta o diretor-executivo do Ceal, Alberto Pfeifer. As novas normas tendem a criar vantagens comparativas na disputa por investimentos, acreditam os empresários. "Hoje, no comércio, o que mais importa são as regras não-tarifárias, na lógica do investimento de longo prazo", diz Pfeifer, que reconhece a ameaça de extinção para as empresas menos competitivas, como as têxteis, nesses países.
Para José Augusto Fernandes, da CNI, há um lado positivo: o clima de negócios criado nos países da Aliança pode ser proveitoso para empresas brasileiras com planos de internacionalização. "Empresas como Natura e Gerdau já atuam na região", lembra. "E o Brasil aproveita oportunidades de investimento em áreas de mineração e construção pesada no Chile, por exemplo, onde tem vantagem comparativa."
A lógica no Mercosul, muito influenciada por concepções de substituição de importações, produção local e proteção de mercados, porém, parece, para os empresários, em descompasso com a tendência global de fragmentação das etapas de produção industrial.
É bom ter cautela nas comparações com os aliados do Pacífico. A exportação dos quatro países da Aliança à Ásia foi de US$ 71 bilhões em 2011, quase US$ 7 bilhões inferior às vendas do Brasil à região; já a importação de bens asiáticos, de US$ 155 bilhões, foi mais que o dobro das feitas pelo Brasil no mesmo ano. Os dados mostram como o Brasil vai bem na venda de commodities, preferidas pelos asiáticos, e como é bem mais fácil a países como México, Peru e Chile abrir-se à invasão de produtos do Oriente.
Muitos pontos da negociação ainda estão em aberto e o Brasil, que tem acordos de livre comércio com os andinos e tenta um de serviços com a Colômbia, não está obrigado a seguir exatamente o mesmo rumo dos governos excitados no litoral Pacífico. Mas precisa apontar uma alternativa viável a esse movimento, que deve criar uma zona dinâmica de comércio e investimentos capaz de abater ainda mais a competitividade de uma indústria mal abrigada pela barreira tarifária do Mercosul.
Efeitos ocultos - PAULO GUEDES
O GLOBO - 27/05
A economia e a política oferecem muitos exemplos de expedientes oportunistas cujos efeitos não intencionais acabam se revelando trágicos para seus próprios autores. Tornaram-se clássicos de boas intenções anunciadas com péssimos resultados os casos de tabelamento de preços de alimentos. As tentativas de garantir comida barata para as classes mais baixas pelo controle de preços sempre desembocam no desaparecimento de produtos alimentícios das prateleiras dos supermercados, como ocorre hoje na Venezuela dos despreparados socialistas bolivarianos.
Outro exemplo de desastrosos efeitos não intencionais para registro dos futuros manuais de ciência política é a emenda de reeleição presidencial patrocinada pelos tucanos. Preterindo reformas impopulares de modernização para investir seu capital político na emenda de reeleição, os tucanos criaram uma armadilha que se revelou letal para o próprio partido. Reeleita Dilma Rousseff, Lula pode ainda sair do banco de reservas e entrar em campo para mais dois mandatos. A emenda de reeleição teria perpetuado seus arqui-inimigos petistas no poder.
Mais um exemplo é o drama atual da economia europeia. Inconformados com o poderio dos americanos, os franceses atacaram primeiro a paridade do dólar contra o ouro. A força fiduciária da moeda americana à época reduziu o ataque especulativo à irrelevância. Em nova manobra política, apoiados pela formidável massa crítica de uma Alemanha reunificada, renovaram seu desafio ao dólar com o lançamento do euro. Os efeitos não intencionais dessa artimanha têm se revelado excruciantes: da disciplina imposta por uma moeda supranacional ao desnudamento de um conflito entre pais com aposentadorias generosas e filhos desempregados.
Preocupam-me também os riscos de uma escalada inflacionária no Brasil, após o mergulho das classes baixas nos mercados de crédito.
Particularmente pelo rápido aumento do endividamento para a compra de bens duráveis e moradias. A aceleração da alta de preços pode trazer em poucos anos os temíveis efeitos não intencionais da própria expansão excessiva do crédito. Com as prestações em alta e os empregos em risco pela reaceleração inflacionária, o relaxamento do governo com as metas de inflação cria uma enorme ameaça para o futuro.
Outro exemplo de desastrosos efeitos não intencionais para registro dos futuros manuais de ciência política é a emenda de reeleição presidencial patrocinada pelos tucanos. Preterindo reformas impopulares de modernização para investir seu capital político na emenda de reeleição, os tucanos criaram uma armadilha que se revelou letal para o próprio partido. Reeleita Dilma Rousseff, Lula pode ainda sair do banco de reservas e entrar em campo para mais dois mandatos. A emenda de reeleição teria perpetuado seus arqui-inimigos petistas no poder.
Mais um exemplo é o drama atual da economia europeia. Inconformados com o poderio dos americanos, os franceses atacaram primeiro a paridade do dólar contra o ouro. A força fiduciária da moeda americana à época reduziu o ataque especulativo à irrelevância. Em nova manobra política, apoiados pela formidável massa crítica de uma Alemanha reunificada, renovaram seu desafio ao dólar com o lançamento do euro. Os efeitos não intencionais dessa artimanha têm se revelado excruciantes: da disciplina imposta por uma moeda supranacional ao desnudamento de um conflito entre pais com aposentadorias generosas e filhos desempregados.
Preocupam-me também os riscos de uma escalada inflacionária no Brasil, após o mergulho das classes baixas nos mercados de crédito.
Particularmente pelo rápido aumento do endividamento para a compra de bens duráveis e moradias. A aceleração da alta de preços pode trazer em poucos anos os temíveis efeitos não intencionais da própria expansão excessiva do crédito. Com as prestações em alta e os empregos em risco pela reaceleração inflacionária, o relaxamento do governo com as metas de inflação cria uma enorme ameaça para o futuro.
Efeito Barroso - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 27/05
A cúpula do PMDB no Senado estuda propor emenda constitucional impondo prazos para que o presidente da República indique membros do Supremo Tribunal Federal. A ideia, discutida com advogados, é que, caso a escolha não seja feita em 30 dias pelo presidente, o Senado teria dez dias para indicar alguém para uma vaga aberta. Dilma Rousseff demorou seis meses para definir o nome do advogado constitucionalista Luís Roberto Barroso como substituto de Carlos Ayres Britto.
Onde pega A justificativa é que, sem o time completo, os demais ministros do Supremo ficam sobrecarregados e a pauta acaba travada.
2014... Silas Malafaia, um dos responsáveis por colar em Dilma a defesa do aborto durante a campanha de 2010, promete voltar à carga no ano que vem graças à indicação de Barroso para o Supremo.
... é aqui "Quando ela escolhe um cara desses, que apoia o aborto e vai contra valores que são tão caros a mim, ela está me dizendo: essa é a sinalização de ministro que você acha bom?", afirma.
Troco Ele diz ainda que na eleição terá o "direito'' de se manifestar contra a candidata do PT. "Como posso apoiar alguém que diz estar pensando o oposto de mim?"
Operação... Um dia após o anúncio de que o PMDB havia coletado assinaturas suficientes para a CPI da Petrobras, a estatal divulgou nota, na sexta-feira, anunciando desistência de vender ativos na Argentina. Deputados afirmam que o tema seria um dos objetos da comissão.
...abafa Além da desistência da Petrobras, parlamentares enxergam na antecipação do primeiro leilão do pré-sal para outubro uma estratégia do governo para esvaziar o discurso e evitar a agenda negativa da CPI.
De qualquer jeito Se a CPI for engavetada por Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), peemedebistas garantem que as investigações contra a estatal serão realizadas por uma comissão mista, com senadores e deputados.
Registro Roberto Freire quer oficializar nesta semana a fusão do PPS e do PMN na Justiça Eleitoral. O MD ainda não existe oficialmente.
Sorte Na entrevista em Adis Abeba (Etiópia), no final de semana, a fitinha do Senhor do Bonfim de Dilma se rompeu justamente quando um repórter perguntava sobre os problemas na relação do governo com o PMDB.
Pausa O feriado de quinta-feira deve adiar para a semana que vem a reunião de líderes da oposição na Câmara com o diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, para falar das investigações de boatos sobre o Bolsa Família.
Na base O ex-deputado Celso Russomanno (PRB) confirmou presença na posse de Rogério Hamam (PRB)na pasta de Desenvolvimento Social de SP, amanhã. A cerimônia foi marcada para as 12h e não vai atrapalhar a gravação ao vivo de seu quadro na TV, durante a tarde.
Comigo... A "bolsa anticrack" Cartão Recomeço deve ser uma das estrelas das propagandas estaduais do PSDB que estreiam em junho.
...não tá Geraldo Alckmin vem martelando que o governo federal é responsável pelo aumento do tráfico de drogas porque faz o policiamento das fronteiras.
Caipira Na semana passada, a sigla decidiu fazer comerciais diferentes para cada região do Estado. Serão mostradas na TV obras viárias, leitos de hospitais inaugurados e "vitrines" da gestão como unidades do Poupatempo e Fatecs de cada local.
com ANDRÉIA SADI e LUIZA BANDEIRA
tiroteio
"Esse boato foi uma jogada de marketing para promover a reestreia de um programa que, envelhecido, precisava se reapresentar."
DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO MAIA (RN), presidente do DEM, sobre a revelação de que a Caixa liberou pagamentos do Bolsa Família um dia antes dos boatos.
contraponto
Unidos venceremos
O plenário da Câmara discutia, na semana passada, uma emenda à Lei da Política Nacional de Drogas que retirava a determinação de incluir frases e imagens de advertência nos rótulos de bebidas alcoólicas.
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) defendeu a manutenção dos comunicados. Foi quando o deputado Costa Ferreira (PSC-MA), adversário ferrenho das propostas de direitos homossexuais defendidos por Jean, exclamou:
--Enfim vamos votar juntos, Jean! Não estamos assim tão distantes em tudo...
Apesar da união de opostos, a medida foi aprovada.
A cúpula do PMDB no Senado estuda propor emenda constitucional impondo prazos para que o presidente da República indique membros do Supremo Tribunal Federal. A ideia, discutida com advogados, é que, caso a escolha não seja feita em 30 dias pelo presidente, o Senado teria dez dias para indicar alguém para uma vaga aberta. Dilma Rousseff demorou seis meses para definir o nome do advogado constitucionalista Luís Roberto Barroso como substituto de Carlos Ayres Britto.
Onde pega A justificativa é que, sem o time completo, os demais ministros do Supremo ficam sobrecarregados e a pauta acaba travada.
2014... Silas Malafaia, um dos responsáveis por colar em Dilma a defesa do aborto durante a campanha de 2010, promete voltar à carga no ano que vem graças à indicação de Barroso para o Supremo.
... é aqui "Quando ela escolhe um cara desses, que apoia o aborto e vai contra valores que são tão caros a mim, ela está me dizendo: essa é a sinalização de ministro que você acha bom?", afirma.
Troco Ele diz ainda que na eleição terá o "direito'' de se manifestar contra a candidata do PT. "Como posso apoiar alguém que diz estar pensando o oposto de mim?"
Operação... Um dia após o anúncio de que o PMDB havia coletado assinaturas suficientes para a CPI da Petrobras, a estatal divulgou nota, na sexta-feira, anunciando desistência de vender ativos na Argentina. Deputados afirmam que o tema seria um dos objetos da comissão.
...abafa Além da desistência da Petrobras, parlamentares enxergam na antecipação do primeiro leilão do pré-sal para outubro uma estratégia do governo para esvaziar o discurso e evitar a agenda negativa da CPI.
De qualquer jeito Se a CPI for engavetada por Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), peemedebistas garantem que as investigações contra a estatal serão realizadas por uma comissão mista, com senadores e deputados.
Registro Roberto Freire quer oficializar nesta semana a fusão do PPS e do PMN na Justiça Eleitoral. O MD ainda não existe oficialmente.
Sorte Na entrevista em Adis Abeba (Etiópia), no final de semana, a fitinha do Senhor do Bonfim de Dilma se rompeu justamente quando um repórter perguntava sobre os problemas na relação do governo com o PMDB.
Pausa O feriado de quinta-feira deve adiar para a semana que vem a reunião de líderes da oposição na Câmara com o diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, para falar das investigações de boatos sobre o Bolsa Família.
Na base O ex-deputado Celso Russomanno (PRB) confirmou presença na posse de Rogério Hamam (PRB)na pasta de Desenvolvimento Social de SP, amanhã. A cerimônia foi marcada para as 12h e não vai atrapalhar a gravação ao vivo de seu quadro na TV, durante a tarde.
Comigo... A "bolsa anticrack" Cartão Recomeço deve ser uma das estrelas das propagandas estaduais do PSDB que estreiam em junho.
...não tá Geraldo Alckmin vem martelando que o governo federal é responsável pelo aumento do tráfico de drogas porque faz o policiamento das fronteiras.
Caipira Na semana passada, a sigla decidiu fazer comerciais diferentes para cada região do Estado. Serão mostradas na TV obras viárias, leitos de hospitais inaugurados e "vitrines" da gestão como unidades do Poupatempo e Fatecs de cada local.
com ANDRÉIA SADI e LUIZA BANDEIRA
tiroteio
"Esse boato foi uma jogada de marketing para promover a reestreia de um programa que, envelhecido, precisava se reapresentar."
DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO MAIA (RN), presidente do DEM, sobre a revelação de que a Caixa liberou pagamentos do Bolsa Família um dia antes dos boatos.
contraponto
Unidos venceremos
O plenário da Câmara discutia, na semana passada, uma emenda à Lei da Política Nacional de Drogas que retirava a determinação de incluir frases e imagens de advertência nos rótulos de bebidas alcoólicas.
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) defendeu a manutenção dos comunicados. Foi quando o deputado Costa Ferreira (PSC-MA), adversário ferrenho das propostas de direitos homossexuais defendidos por Jean, exclamou:
--Enfim vamos votar juntos, Jean! Não estamos assim tão distantes em tudo...
Apesar da união de opostos, a medida foi aprovada.
É inevitável o suicídio coletivo? - RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SP - 27/05
Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com mudança de clima que ameaça a civilização
Em 10 mil anos de história, é a primeira vez que a humanidade tem o poder de cometer suicídio coletivo. Era essa a tese central de Emmanuel Mounier em "O Grande Medo do Século 20". Publicado em 1947, o livro se referia à ameaça de uma catástrofe atômica, angústia constante na fase aguda da Guerra Fria entre EUA e URSS. Passaram-se 66 anos e conseguimos evitar o pior.
Na época de Mounier não se sabia que os homens poderiam liquidar o mundo não só com bombas, mas com o aumento desenfreado da produção econômica e do abuso dos combustíveis fósseis. Quinze dias atrás, ultrapassamos o sinal amarelo no rumo da destruição. A atmosfera registrou 400 partículas de dióxido de carbono por um milhão.
É preciso recuar 4,5 milhões de anos para encontrar concentração comparável. O clima era então muito mais quente, quatro ou cinco graus a mais em média. No ritmo atual, não existe nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento global a dois graus como decidido em Copenhague. Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com 800 partículas e mudança de clima de dimensões que ameaçam a sobrevivência da civilização tal como a conhecemos.
A violação da marca simbólica de 400 por milhão não provocou nenhuma declaração ou alerta de chefes de Estado. Um dia depois, os jornais esqueceram o assunto e voltou-se ao dia a dia como se nada tivesse acontecido. Como explicar tal indiferença diante da morte anunciada que espera o mundo dos homens?
O silêncio é inexplicável numa sociedade na qual a ciência substituiu a religião como crença unificadora. Ora, a ciência climática não permite dúvidas: de 12 mil estudos científicos sobre o tema em 20 anos, 98,4% confirmam as previsões!
Há muitas explicações para a inércia. Uma delas tem a ver com a natureza da ameaça. Crises como a dos mísseis de Cuba em 1962 precisam ser resolvidas em horas ou dias. Se o presidente Kennedy tivesse hesitado, em poucos dias seria tarde demais. Já o desastre ambiental é como um câncer de expansão lenta: sabe-se que ele está lá, que se nada se fizer, a morte é inevitável. Mas não se sabe o dia nem a hora. Isto é, uma catástrofe em futuro indeterminado carece da força para precipitar soluções difíceis.
O provável por isso é que só haverá ação decisiva para evitar o colapso definitivo depois de uma sucessão de calamidades espantosas. Quando isso suceder, muitas das consequências já se terão tornado irreversíveis como o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de cidades, a desertificação, a extinção de milhares de espécies.
Toynbee lembrava num dos seus últimos livros que nisso os homens deveriam invejar insetos como as formigas, condicionados do ponto de vista psicossomático a agir coletivamente por instinto de sobrevivência. Estudo recente comprovou que os peixes já estão migrando para o norte em busca de águas mais frias. Enquanto isso, os seres humanos se deslumbram com o avanço em produzir e queimar mais gás a partir do xisto...
A razão talvez esteja com o poeta T.S. Eliot: o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido.
Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com mudança de clima que ameaça a civilização
Em 10 mil anos de história, é a primeira vez que a humanidade tem o poder de cometer suicídio coletivo. Era essa a tese central de Emmanuel Mounier em "O Grande Medo do Século 20". Publicado em 1947, o livro se referia à ameaça de uma catástrofe atômica, angústia constante na fase aguda da Guerra Fria entre EUA e URSS. Passaram-se 66 anos e conseguimos evitar o pior.
Na época de Mounier não se sabia que os homens poderiam liquidar o mundo não só com bombas, mas com o aumento desenfreado da produção econômica e do abuso dos combustíveis fósseis. Quinze dias atrás, ultrapassamos o sinal amarelo no rumo da destruição. A atmosfera registrou 400 partículas de dióxido de carbono por um milhão.
É preciso recuar 4,5 milhões de anos para encontrar concentração comparável. O clima era então muito mais quente, quatro ou cinco graus a mais em média. No ritmo atual, não existe nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento global a dois graus como decidido em Copenhague. Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com 800 partículas e mudança de clima de dimensões que ameaçam a sobrevivência da civilização tal como a conhecemos.
A violação da marca simbólica de 400 por milhão não provocou nenhuma declaração ou alerta de chefes de Estado. Um dia depois, os jornais esqueceram o assunto e voltou-se ao dia a dia como se nada tivesse acontecido. Como explicar tal indiferença diante da morte anunciada que espera o mundo dos homens?
O silêncio é inexplicável numa sociedade na qual a ciência substituiu a religião como crença unificadora. Ora, a ciência climática não permite dúvidas: de 12 mil estudos científicos sobre o tema em 20 anos, 98,4% confirmam as previsões!
Há muitas explicações para a inércia. Uma delas tem a ver com a natureza da ameaça. Crises como a dos mísseis de Cuba em 1962 precisam ser resolvidas em horas ou dias. Se o presidente Kennedy tivesse hesitado, em poucos dias seria tarde demais. Já o desastre ambiental é como um câncer de expansão lenta: sabe-se que ele está lá, que se nada se fizer, a morte é inevitável. Mas não se sabe o dia nem a hora. Isto é, uma catástrofe em futuro indeterminado carece da força para precipitar soluções difíceis.
O provável por isso é que só haverá ação decisiva para evitar o colapso definitivo depois de uma sucessão de calamidades espantosas. Quando isso suceder, muitas das consequências já se terão tornado irreversíveis como o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de cidades, a desertificação, a extinção de milhares de espécies.
Toynbee lembrava num dos seus últimos livros que nisso os homens deveriam invejar insetos como as formigas, condicionados do ponto de vista psicossomático a agir coletivamente por instinto de sobrevivência. Estudo recente comprovou que os peixes já estão migrando para o norte em busca de águas mais frias. Enquanto isso, os seres humanos se deslumbram com o avanço em produzir e queimar mais gás a partir do xisto...
A razão talvez esteja com o poeta T.S. Eliot: o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido.
Por que os brasileiros gastam tanto no exterior? - EDMAR BACHA
O GLOBO - 27/05
Deu nos jornais que o déficit das transações correntes do Brasil com o resto do mundo atingiu níveis recordes no mês passado. Entre as razões para esse déficit, sobressaem os gastos de turistas brasileiros no exterior. Segundo pesquisa do governo americano, os turistas brasileiros estão entre os que mais gastam em compras nos Estados Unidos, só perdendo para os japoneses e os britânicos. A situação parece preocupar o governo brasileiro que, segundo os jornais, estuda aumentar os impostos e adotar outras medidas para restringir os gastos dos brasileiros no exterior.
Antes de o governo adotar mais medidas protecionistas, talvez seja bom se perguntar por que é mesmo que, em vez de desfrutarem mais das belezas desse país tropical bonito por natureza, os brasileiros preferem gastar dólares em navios-cruzeiros ou em compras nos shoppings de Miami? A resposta parece óbvia, se considerarmos que os turistas brasileiros não parecem estar atrás de bens culturais inexistentes no País. Numa enquete do governo americano, 95% dos turistas brasileiros dizem que vão lá para comprar.
O que os brasileiros compram nessas viagens aos Estados Unidos está em geral disponível no Brasil. Só que custa até o dobro ou o triplo do preço, e a qualidade é com frequência inferior.
Por isso, vale a pena pagar o custo da passagem aérea internacional, mesmo porque ela também é bem mais barata por quilômetro voado do que a nacional.
A resposta à pergunta por que os brasileiros gastam tanto no exterior é que o Brasil se tornou um país caro. Quem pode, gasta lá fora - os ricos sempre puderam e sempre o fizeram; agora a classe média ascendente vai atrás e por isso cresce o déficit nas transações correntes. Quem fica por aqui são os pobres, para quem estão reservados os produtos mais caros, a não ser quando descolam um contrabando paraguaio de qualidade duvidosa no comércio informal.
Por que o Brasil se tornou tão caro? Por muitas razões, mas uma das principais delas é o protecionismo - os altos impostos sobre bens e serviços importados, as taxas alfandegárias e os custos portuários, as regras de conteúdo nacional, os padrões diferentes de nossas tomadas elétricas e bens duráveis de consumo, e por aí a lista vai. Tudo isso faz com que os bens e serviços vendidos no país, tanto importados como nacionais, sejam caros.
Se o problema é o protecionismo, não é com mais protecionismo que o governo devia tentar resolvê-lo. É verdade que mais impostos e restrições às compras externas podem tirar a classe média de Miami. Mas isso somente faria agravar o apartheid social brasileiro, contra o qual a ascensão dessa classe média é o melhor antídoto. Que tal pensar em como produzir bens e serviços melhores e mais baratos para todos os brasileiros?
Antes de o governo adotar mais medidas protecionistas, talvez seja bom se perguntar por que é mesmo que, em vez de desfrutarem mais das belezas desse país tropical bonito por natureza, os brasileiros preferem gastar dólares em navios-cruzeiros ou em compras nos shoppings de Miami? A resposta parece óbvia, se considerarmos que os turistas brasileiros não parecem estar atrás de bens culturais inexistentes no País. Numa enquete do governo americano, 95% dos turistas brasileiros dizem que vão lá para comprar.
O que os brasileiros compram nessas viagens aos Estados Unidos está em geral disponível no Brasil. Só que custa até o dobro ou o triplo do preço, e a qualidade é com frequência inferior.
Por isso, vale a pena pagar o custo da passagem aérea internacional, mesmo porque ela também é bem mais barata por quilômetro voado do que a nacional.
A resposta à pergunta por que os brasileiros gastam tanto no exterior é que o Brasil se tornou um país caro. Quem pode, gasta lá fora - os ricos sempre puderam e sempre o fizeram; agora a classe média ascendente vai atrás e por isso cresce o déficit nas transações correntes. Quem fica por aqui são os pobres, para quem estão reservados os produtos mais caros, a não ser quando descolam um contrabando paraguaio de qualidade duvidosa no comércio informal.
Por que o Brasil se tornou tão caro? Por muitas razões, mas uma das principais delas é o protecionismo - os altos impostos sobre bens e serviços importados, as taxas alfandegárias e os custos portuários, as regras de conteúdo nacional, os padrões diferentes de nossas tomadas elétricas e bens duráveis de consumo, e por aí a lista vai. Tudo isso faz com que os bens e serviços vendidos no país, tanto importados como nacionais, sejam caros.
Se o problema é o protecionismo, não é com mais protecionismo que o governo devia tentar resolvê-lo. É verdade que mais impostos e restrições às compras externas podem tirar a classe média de Miami. Mas isso somente faria agravar o apartheid social brasileiro, contra o qual a ascensão dessa classe média é o melhor antídoto. Que tal pensar em como produzir bens e serviços melhores e mais baratos para todos os brasileiros?
Rugido ou miado? - VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 27/05
BRASÍLIA - "BC: inflação baixa, estável e previsível é condição para crescimento sustentável." Esta era a manchete do Blog do Planalto no dia 6 de janeiro de 2011, início do governo Dilma, da primeira entrevista de Alexandre Tombini como presidente do Banco Central.
Próxima de completar dois anos e meio de mandato, Dilma Rousseff viu seu governo conviver com inflação alta, instável e sem previsibilidade. Resultado: não houve crescimento sustentável no período.
Agora, às vésperas da eleição e com a oposição explorando o tema, o governo parece ter descoberto que estava brincando com fogo. Pelo menos o Banco Central.
Tanto que Tombini voltou a falar grosso desde o início do ano e retomou o tom da fala inaugural. Passou ainda a alertar que o combate à inflação vai contribuir para fortalecer a confiança de empresários e consumidores na economia.
Recado com endereço certo, o Palácio do Planalto: a inflação alta ajudou a adormecer o espírito animal de empresários e a corroer o poder de compra dos eleitores.
O BC distancia-se, assim, da imagem de alinhamento com a visão petista de que, para não sacrificar o crescimento, é possível tolerar uma certa inflação elevada.
O próprio banco flertou com tal linha no ano passado, na crença de que a inflação cederia no médio prazo. Só que ela ficou nas alturas por tempo demais e recua num ritmo aquém do recomendável.
Daí a subida de tom nas falas de Tombini, que já desperta de novo o fogo amigo no governo e levou o mercado a apostar que a taxa de juros deve subir numa dose mais salgada nesta semana --com aval e sem reação contrária do banco.
O risco é o rugido do BC virar um miado caso os juros subam no mesmo ritmo do mês passado. Nunca é demais lembrar, porém, que 2014 é ano de eleição. Ao PT, em vez de bater no BC, pode interessar mais que todo serviço seja feito agora.
BRASÍLIA - "BC: inflação baixa, estável e previsível é condição para crescimento sustentável." Esta era a manchete do Blog do Planalto no dia 6 de janeiro de 2011, início do governo Dilma, da primeira entrevista de Alexandre Tombini como presidente do Banco Central.
Próxima de completar dois anos e meio de mandato, Dilma Rousseff viu seu governo conviver com inflação alta, instável e sem previsibilidade. Resultado: não houve crescimento sustentável no período.
Agora, às vésperas da eleição e com a oposição explorando o tema, o governo parece ter descoberto que estava brincando com fogo. Pelo menos o Banco Central.
Tanto que Tombini voltou a falar grosso desde o início do ano e retomou o tom da fala inaugural. Passou ainda a alertar que o combate à inflação vai contribuir para fortalecer a confiança de empresários e consumidores na economia.
Recado com endereço certo, o Palácio do Planalto: a inflação alta ajudou a adormecer o espírito animal de empresários e a corroer o poder de compra dos eleitores.
O BC distancia-se, assim, da imagem de alinhamento com a visão petista de que, para não sacrificar o crescimento, é possível tolerar uma certa inflação elevada.
O próprio banco flertou com tal linha no ano passado, na crença de que a inflação cederia no médio prazo. Só que ela ficou nas alturas por tempo demais e recua num ritmo aquém do recomendável.
Daí a subida de tom nas falas de Tombini, que já desperta de novo o fogo amigo no governo e levou o mercado a apostar que a taxa de juros deve subir numa dose mais salgada nesta semana --com aval e sem reação contrária do banco.
O risco é o rugido do BC virar um miado caso os juros subam no mesmo ritmo do mês passado. Nunca é demais lembrar, porém, que 2014 é ano de eleição. Ao PT, em vez de bater no BC, pode interessar mais que todo serviço seja feito agora.
Boato, tomate e ferrugem - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 27/05
Nem boato, nem tomate. O que desgasta a popularidade de Dilma Rousseff é a perda de otimismo do consumidor. Sem vender esperança de que melhores ventos virão, nenhum capitão consegue manejar o leme à vontade por muito tempo. É a confiança de que o barco está no rumo certo que evita o motim da tripulação.
Boatos fabricados e tomates exorbitantes passam. Já a lenta mas constante perda de poder de compra da base eleitoral tem efeito corrosivo na imagem de qualquer governante. As ondas chacoalham, mas é a ferrugem que afunda o navio no longo prazo. Marola quase imperceptível no oceano de notícias sobre o boato, a nova queda da confiança do consumidor registrada na sexta é ferrugem.
Antes, porém, uma espiada na comoção coletiva e efeito manada.
O descomunal interesse sobre o Bolsa Família provocado pelo boato de que o programa iria acabar ficou documentado na página de tendências do Google - o Google Trends. O volume de buscas pela expressão "bolsa familia" (assim mesmo, sem acento) foi recorde no domingo 19 de maio: dez vezes maior do que de hábito. Mas durou pouco. Em três dias a preocupação voltou ao normal.
O vagalhão produzido por mensagens fraudulentas enviadas a celulares de beneficiários do Bolsa Família - por empresa de telemarketing carioca, segundo a Polícia Federal - dissipou-se tão rapidamente quanto chegou. Arrastou multidões aos caixas eletrônicos, mas deixou para trás apenas a desconfiança - menos sobre a continuidade do programa do que sobre a origem do boato.
No fim, a armação pode ter o efeito contrário ao previsto, porque o boato não encontrou respaldo na realidade. É diferente da busca coletiva pelo tomate perdido de quarenta dias antes.
Preços impagáveis elevaram o tomate à categoria de fenômeno digital em 5 de abril. As buscas por "tomate" no Google chegaram ao pico no dia seguinte, um sábado, e persistiram por mais uma semana. Embora o auge não tenha sido tão intenso quanto no boato do Bolsa Família, o efeito mais prolongado acabou gerando, no acumulado, mais buscas - um indicativo de maior interesse.
A diferença é que ao chegar à feira as pessoas encontravam o preço do tomate exorbitantemente alto. Embora isso não fosse símbolo de inflação - era apenas escassez -, dava respaldo ao que se lia na internet e na imprensa. Não era boato. Mas o interesse acabou dissipando-se quando o preço voltou ao normal.
Boato e tomate foram factoides de pouca consequência. Talvez tenham sido uma prévia do que o governo verá quando a campanha eleitoral começar para valer. Mas não tiveram força para mudar o destino de Dilma na Presidência. A queda da confiança do consumidor, porém, não é boato nem efeito manada. É tendência.
O ICC da Fundação Getúlio Vargas vem em queda desde abril do ano passado, se olhado pela média trimestral. Os últimos três índices ficaram abaixo da referência histórica. O que está arrastando a confiança do consumidor para baixo é a perda do otimismo. Ele olha para frente e já não vê tudo azul como via há alguns meses. Tem dúvidas sobre o futuro.
O fenômeno é mais agudo em São Paulo, mas a tendência se repete, ainda que com menor intensidade, em outras regiões do País - como mostra outro índice que mede a mesma coisa, o INEC da Confederação Nacional da Indústria. A ferrugem não se limita à expectativa do consumidor. As medições sobre o mercado de trabalho feitas pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostram que o desemprego segue excepcionalmente baixo, mas a oferta de vagas desacelera. E a renda dos trabalhadores está começando a cair. Some-se inflação e o resultado é perda de poder de compra.
Até o PT já percebeu que mais do mesmo não levará Dilma ao segundo mandato. A presidente vai precisar restaurar o otimismo do brasileiro se quiser arear sua popularidade.
Nem boato, nem tomate. O que desgasta a popularidade de Dilma Rousseff é a perda de otimismo do consumidor. Sem vender esperança de que melhores ventos virão, nenhum capitão consegue manejar o leme à vontade por muito tempo. É a confiança de que o barco está no rumo certo que evita o motim da tripulação.
Boatos fabricados e tomates exorbitantes passam. Já a lenta mas constante perda de poder de compra da base eleitoral tem efeito corrosivo na imagem de qualquer governante. As ondas chacoalham, mas é a ferrugem que afunda o navio no longo prazo. Marola quase imperceptível no oceano de notícias sobre o boato, a nova queda da confiança do consumidor registrada na sexta é ferrugem.
Antes, porém, uma espiada na comoção coletiva e efeito manada.
O descomunal interesse sobre o Bolsa Família provocado pelo boato de que o programa iria acabar ficou documentado na página de tendências do Google - o Google Trends. O volume de buscas pela expressão "bolsa familia" (assim mesmo, sem acento) foi recorde no domingo 19 de maio: dez vezes maior do que de hábito. Mas durou pouco. Em três dias a preocupação voltou ao normal.
O vagalhão produzido por mensagens fraudulentas enviadas a celulares de beneficiários do Bolsa Família - por empresa de telemarketing carioca, segundo a Polícia Federal - dissipou-se tão rapidamente quanto chegou. Arrastou multidões aos caixas eletrônicos, mas deixou para trás apenas a desconfiança - menos sobre a continuidade do programa do que sobre a origem do boato.
No fim, a armação pode ter o efeito contrário ao previsto, porque o boato não encontrou respaldo na realidade. É diferente da busca coletiva pelo tomate perdido de quarenta dias antes.
Preços impagáveis elevaram o tomate à categoria de fenômeno digital em 5 de abril. As buscas por "tomate" no Google chegaram ao pico no dia seguinte, um sábado, e persistiram por mais uma semana. Embora o auge não tenha sido tão intenso quanto no boato do Bolsa Família, o efeito mais prolongado acabou gerando, no acumulado, mais buscas - um indicativo de maior interesse.
A diferença é que ao chegar à feira as pessoas encontravam o preço do tomate exorbitantemente alto. Embora isso não fosse símbolo de inflação - era apenas escassez -, dava respaldo ao que se lia na internet e na imprensa. Não era boato. Mas o interesse acabou dissipando-se quando o preço voltou ao normal.
Boato e tomate foram factoides de pouca consequência. Talvez tenham sido uma prévia do que o governo verá quando a campanha eleitoral começar para valer. Mas não tiveram força para mudar o destino de Dilma na Presidência. A queda da confiança do consumidor, porém, não é boato nem efeito manada. É tendência.
O ICC da Fundação Getúlio Vargas vem em queda desde abril do ano passado, se olhado pela média trimestral. Os últimos três índices ficaram abaixo da referência histórica. O que está arrastando a confiança do consumidor para baixo é a perda do otimismo. Ele olha para frente e já não vê tudo azul como via há alguns meses. Tem dúvidas sobre o futuro.
O fenômeno é mais agudo em São Paulo, mas a tendência se repete, ainda que com menor intensidade, em outras regiões do País - como mostra outro índice que mede a mesma coisa, o INEC da Confederação Nacional da Indústria. A ferrugem não se limita à expectativa do consumidor. As medições sobre o mercado de trabalho feitas pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostram que o desemprego segue excepcionalmente baixo, mas a oferta de vagas desacelera. E a renda dos trabalhadores está começando a cair. Some-se inflação e o resultado é perda de poder de compra.
Até o PT já percebeu que mais do mesmo não levará Dilma ao segundo mandato. A presidente vai precisar restaurar o otimismo do brasileiro se quiser arear sua popularidade.
Ruy Mesquita e a imprensa sem peias - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 27/05
"O Estado de S. Paulo" é o maior, mas não o mais antigo jornal do país, embora o seja de São Paulo, pois antes dele entraram a circular e continuam circulando pelo menos duas folhas, o Diário de Pernambuco e o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Estas lembranças me vieram à mente acerca do falecimento de Ruy Mesquita que, desde a morte de seu irmão, Júlio de Mesquita Neto, passou a ser a primeira figura do grande jornal, ele que fora o fundador e diretor do "Jornal da Tarde". A morte do jornalista ensejou fosse apreciada sua dimensão entre os profissionais da imprensa, bem como a posição que lhe cabia no plano nacional e internacional. E foram de louvor, sem discrepância, as apreciações acerca de sua dedicação ao mundo do jornal.
Como uma ideia puxa a outra, dei-me conta de que o "Estadão", como veio a ser popularmente denominado, converteu-se em uma espécie de escola de jornalismo, e entre outras notas distintivas, primou em guardar acentuada homogeneidade. Esta me parece derivar da circunstância de, em mais de século, ter sido confiada a uma família de jornalistas. Sem contar os anos iniciais da propaganda, ao tempo da "Província de S. Paulo", a partir da República, esteve sob a direção sucessiva de Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho, Francisco de Mesquita, Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, à exceção do período em que o jornal, confiscado, exilados seus diretores, perdeu seu caráter próprio. A permanência da família, sem solução de continuidade, não impediu que Nestor Pestana e Plínio Barreto, jurista, homem público e jornalista, fossem seus diretores.
Em outras palavras, de 1891 a 2013 o jornal viveu sob a direção de três gerações de uma família, ligadas não só por seus laços, mas também por vínculos culturais em seu mais amplo sentido, de modo que o pecúlio imaterial que se foi formando, a despeito das imensas transformações do mundo, fosse se enriquecendo num prolongamento orgânico das linhas iniciais do empreendimento; a fidelidade aos padrões originários assegurou a homogeneidade nascente perpetuada até hoje.
Se é exato que a empresa jornalística necessita de estrutura em tudo adequada às suas necessidades, de modo a zelar por sua funcionalidade material, ela não exclui a singularidade peculiar, pois se o jornal não dispensa imprescindível saúde financeira, seu escopo não será exclusivo ou mesmo predominantemente econômico, pois não poderá desligar-se de suas preocupações específicas, marcadamente imateriais.
Por estas ou aquelas razões, o certo é que o fenômeno "Estado" aparece como uma eminência no meio em que nasceu e cresceu até tornar-se entidade nacional de expressão internacional, e Ruy Mesquita foi a derradeira personalidade da terceira geração da família Mesquita, que se confunde com a empresa centenária a partir de 1891 e, dadas suas qualidades, herdadas e adquiridas, veio a imprimir significativo contributo à antiga instituição, aditando e enriquecendo o singular patrimônio acumulado em mais de século, com naturalidade e descortino, segurança e firmeza.
Na apreciação dos que o conheceram no dia a dia de alguns anos, que não foram poucos, ele se afirmou sem alarde e quase sem esforço à altura de seus antecessores. A mim parece que o jornalismo brasileiro perde em Ruy Mesquita uma de suas expressões mais completas e harmoniosas.
Embora não passe de velharia, ainda existe entre nós quem defenda a "regulamentação" da imprensa que, em verdade, não passa de pseudônimo do domínio sobre a livre informação. Na simpática República Argentina, por exemplo, seu governo se afoita em hostilizar frontalmente o seu maior complexo noticioso, repetindo a selvagem agressão de outro governo contra dois ornamentos da nação irmã, La Nacion e La Prensa. É a razão por que foram oportunas as homenagens ao jornalista falecido por sua fidelidade à imprensa sem peias, internacionalmente reconhecido.
"O Estado de S. Paulo" é o maior, mas não o mais antigo jornal do país, embora o seja de São Paulo, pois antes dele entraram a circular e continuam circulando pelo menos duas folhas, o Diário de Pernambuco e o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Estas lembranças me vieram à mente acerca do falecimento de Ruy Mesquita que, desde a morte de seu irmão, Júlio de Mesquita Neto, passou a ser a primeira figura do grande jornal, ele que fora o fundador e diretor do "Jornal da Tarde". A morte do jornalista ensejou fosse apreciada sua dimensão entre os profissionais da imprensa, bem como a posição que lhe cabia no plano nacional e internacional. E foram de louvor, sem discrepância, as apreciações acerca de sua dedicação ao mundo do jornal.
Como uma ideia puxa a outra, dei-me conta de que o "Estadão", como veio a ser popularmente denominado, converteu-se em uma espécie de escola de jornalismo, e entre outras notas distintivas, primou em guardar acentuada homogeneidade. Esta me parece derivar da circunstância de, em mais de século, ter sido confiada a uma família de jornalistas. Sem contar os anos iniciais da propaganda, ao tempo da "Província de S. Paulo", a partir da República, esteve sob a direção sucessiva de Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho, Francisco de Mesquita, Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, à exceção do período em que o jornal, confiscado, exilados seus diretores, perdeu seu caráter próprio. A permanência da família, sem solução de continuidade, não impediu que Nestor Pestana e Plínio Barreto, jurista, homem público e jornalista, fossem seus diretores.
Em outras palavras, de 1891 a 2013 o jornal viveu sob a direção de três gerações de uma família, ligadas não só por seus laços, mas também por vínculos culturais em seu mais amplo sentido, de modo que o pecúlio imaterial que se foi formando, a despeito das imensas transformações do mundo, fosse se enriquecendo num prolongamento orgânico das linhas iniciais do empreendimento; a fidelidade aos padrões originários assegurou a homogeneidade nascente perpetuada até hoje.
Se é exato que a empresa jornalística necessita de estrutura em tudo adequada às suas necessidades, de modo a zelar por sua funcionalidade material, ela não exclui a singularidade peculiar, pois se o jornal não dispensa imprescindível saúde financeira, seu escopo não será exclusivo ou mesmo predominantemente econômico, pois não poderá desligar-se de suas preocupações específicas, marcadamente imateriais.
Por estas ou aquelas razões, o certo é que o fenômeno "Estado" aparece como uma eminência no meio em que nasceu e cresceu até tornar-se entidade nacional de expressão internacional, e Ruy Mesquita foi a derradeira personalidade da terceira geração da família Mesquita, que se confunde com a empresa centenária a partir de 1891 e, dadas suas qualidades, herdadas e adquiridas, veio a imprimir significativo contributo à antiga instituição, aditando e enriquecendo o singular patrimônio acumulado em mais de século, com naturalidade e descortino, segurança e firmeza.
Na apreciação dos que o conheceram no dia a dia de alguns anos, que não foram poucos, ele se afirmou sem alarde e quase sem esforço à altura de seus antecessores. A mim parece que o jornalismo brasileiro perde em Ruy Mesquita uma de suas expressões mais completas e harmoniosas.
Embora não passe de velharia, ainda existe entre nós quem defenda a "regulamentação" da imprensa que, em verdade, não passa de pseudônimo do domínio sobre a livre informação. Na simpática República Argentina, por exemplo, seu governo se afoita em hostilizar frontalmente o seu maior complexo noticioso, repetindo a selvagem agressão de outro governo contra dois ornamentos da nação irmã, La Nacion e La Prensa. É a razão por que foram oportunas as homenagens ao jornalista falecido por sua fidelidade à imprensa sem peias, internacionalmente reconhecido.
Semana de serviço - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 27/05
O ano pré-eleitoral já está quase pela metade e a sensação dos políticos é a de que Dilma parece prescindir deles para conquistar 2014. Daí, os problemas do governo no Legislativo
Basta surgir um feriado entre dois dias úteis para que a maioria dos brasileiros tenha aquela sensação de nove dias de férias. Essa calmaria, entretanto, será apenas aparente, pelo menos no que diz respeito ao governo federal. Especialmente, na seara política, é um tempo crucial para que a presidente Dilma Rousseff tente organizar a sua base aliada, a fim de pular fogueiras em junho.
Entre os partidos, voltou a pulsar aquela vontade não expressa verbalmente (literalmente nas entrelinhas!) de gerar turbulências para ver se Dilma pede para sair. E sua equipe em nada tem contribuído para aplainar os terrenos. Ao contrário. A visita da ministra de Relações Institucionais ao Congresso na semana passada foi considerada um desastre. Ideli, só para lembrar aqueles que não prestaram atenção no lance, disse que o Congresso naqueles dias votaria apenas quatro medidas provisórias e mais nada. Bastou isso para colocar a oposição de cara para o gol, sem goleiro e com o zagueiro mal posicionado. O discurso, “Epa! Olha a ministra mandando nos deputados, gente!” ganhou pernas. A tendência é essa frase continuar ecoando hoje pelo plenário, que ainda não votou todas as medidas anunciadas pela ministra e nada garante que votará hoje.
Que Dilma gosta de mandar e de ver as coisas acontecendo do jeito dela não é segredo para ninguém, mas, em política, como na vida, nada ocorre exatamente da forma como as pessoas desejam a interatividade muda rumos, altera planos e é preciso um jogo de cintura que o governo não demonstra ter. Por isso, tudo vira um parto arriscado.
Esse modus operandi e os problemas enfrentados na seara política foram objeto da conversa de três horas entre Dilma e Lula na última quinta-feira, no Palácio da Alvorada. A avaliação de aliados do governo e também dos petistas próximos ao ex-presidente é a de que o governo acertou a mão na comunicação direta com o eleitor, mas ainda não encontrou o ponto da massa na política. Na tevê, Dilma surge sempre segura, bonita e direta, com frases e entonações que inspiram confiança. Essa mesma Dilma, entretanto, não surge para os políticos de uma maneira geral. Seu governo quebra acordos, bate o pé e sua equipe apenas transmite aos congressistas broncas e negativas sem qualquer filtro.
O problema é que o tempo começa a correr contra presidente nesse campo, sob pena de os prejuízos logo ali na frente serem maiores. O ano pré-eleitoral já está quase pela metade e a sensação dos políticos é a de que Dilma parece prescindir deles para conquistar 2014. E, sendo assim, eles perdem aquele sentimento de fazer parte do jogo. E, quando não têm compromisso como governo, apresentam pedidos de CPI da Petrobras, fazem corpo mole no plenário, buscam criar todos os tipos de dificuldades até que haja uma séria em que o governo precise rever seus planos.
Por falar em dificuldades...
O quadro se agravará se a economia não der sinais de recuperação. Embora alguns sintomas tenham surgido na indústria, é preciso que a população perceba um recuo na inflação de alimentos, o que ainda não ocorreu nos supermercados e feiras espalhadas pelo país. E o grave é saber que, nesse momento, o tomate está longe de ser o único vilão. Talvez, diante dessa semana com ares de feriadão para muitos, alguns voltem ainda mais irritados com os preços. E se isso acontecer, é bom Dilma criar logo o seu anteparo na política. Afinal, do jeito que a coisa vai, se a avaliação dela perante o povo sofrer abalos, a turma do Congresso não servirá de rede. E é aí que mora o perigo das falhas na política. Essa história está apenas começando. Nesse momento, ela precisa cuidar ainda da proteção do Bolsa Família e da CPI da Petrobras. Essa sim, é outra história.
Basta surgir um feriado entre dois dias úteis para que a maioria dos brasileiros tenha aquela sensação de nove dias de férias. Essa calmaria, entretanto, será apenas aparente, pelo menos no que diz respeito ao governo federal. Especialmente, na seara política, é um tempo crucial para que a presidente Dilma Rousseff tente organizar a sua base aliada, a fim de pular fogueiras em junho.
Entre os partidos, voltou a pulsar aquela vontade não expressa verbalmente (literalmente nas entrelinhas!) de gerar turbulências para ver se Dilma pede para sair. E sua equipe em nada tem contribuído para aplainar os terrenos. Ao contrário. A visita da ministra de Relações Institucionais ao Congresso na semana passada foi considerada um desastre. Ideli, só para lembrar aqueles que não prestaram atenção no lance, disse que o Congresso naqueles dias votaria apenas quatro medidas provisórias e mais nada. Bastou isso para colocar a oposição de cara para o gol, sem goleiro e com o zagueiro mal posicionado. O discurso, “Epa! Olha a ministra mandando nos deputados, gente!” ganhou pernas. A tendência é essa frase continuar ecoando hoje pelo plenário, que ainda não votou todas as medidas anunciadas pela ministra e nada garante que votará hoje.
Que Dilma gosta de mandar e de ver as coisas acontecendo do jeito dela não é segredo para ninguém, mas, em política, como na vida, nada ocorre exatamente da forma como as pessoas desejam a interatividade muda rumos, altera planos e é preciso um jogo de cintura que o governo não demonstra ter. Por isso, tudo vira um parto arriscado.
Esse modus operandi e os problemas enfrentados na seara política foram objeto da conversa de três horas entre Dilma e Lula na última quinta-feira, no Palácio da Alvorada. A avaliação de aliados do governo e também dos petistas próximos ao ex-presidente é a de que o governo acertou a mão na comunicação direta com o eleitor, mas ainda não encontrou o ponto da massa na política. Na tevê, Dilma surge sempre segura, bonita e direta, com frases e entonações que inspiram confiança. Essa mesma Dilma, entretanto, não surge para os políticos de uma maneira geral. Seu governo quebra acordos, bate o pé e sua equipe apenas transmite aos congressistas broncas e negativas sem qualquer filtro.
O problema é que o tempo começa a correr contra presidente nesse campo, sob pena de os prejuízos logo ali na frente serem maiores. O ano pré-eleitoral já está quase pela metade e a sensação dos políticos é a de que Dilma parece prescindir deles para conquistar 2014. E, sendo assim, eles perdem aquele sentimento de fazer parte do jogo. E, quando não têm compromisso como governo, apresentam pedidos de CPI da Petrobras, fazem corpo mole no plenário, buscam criar todos os tipos de dificuldades até que haja uma séria em que o governo precise rever seus planos.
Por falar em dificuldades...
O quadro se agravará se a economia não der sinais de recuperação. Embora alguns sintomas tenham surgido na indústria, é preciso que a população perceba um recuo na inflação de alimentos, o que ainda não ocorreu nos supermercados e feiras espalhadas pelo país. E o grave é saber que, nesse momento, o tomate está longe de ser o único vilão. Talvez, diante dessa semana com ares de feriadão para muitos, alguns voltem ainda mais irritados com os preços. E se isso acontecer, é bom Dilma criar logo o seu anteparo na política. Afinal, do jeito que a coisa vai, se a avaliação dela perante o povo sofrer abalos, a turma do Congresso não servirá de rede. E é aí que mora o perigo das falhas na política. Essa história está apenas começando. Nesse momento, ela precisa cuidar ainda da proteção do Bolsa Família e da CPI da Petrobras. Essa sim, é outra história.
Uma mentira engole a outra - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 27/05
"Nós temos partidos de mentirinha".
Joaquim Barbosa, presidente do STF
O que foi que, semana passada, a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, atribuiu à central de notícias da oposição?, Dilma chamou de "desumano e criminoso"?, Lula, de ação praticada por "gente do mal"?, José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, de "manobra orquestrada"?, e Ruy Falcão, presidente do PT, de "terrorismo eleitoral"?
NO SÁBADO 18 e no dia seguinte, em 13 estados, um milhão de clientes do programa Bolsa Família invadiram agências lotéricas para sacar suas mesadas fora do dia marcado. Boatos davam conta de que o programa seria extinto ou suspenso. Ou de que Dilma autorizara o pagamento de um bônus.
A MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO corrigiu-se poucas horas depois de ter dito o que disse. Qualificou de "singela" sua opinião. E garantiu: "Não quero politizar". Ora, quem, por meio de uma "manobra orquestrada", poderia fazer "terrorismo eleitoral"? Aliados do governo? Uma vez politizado, o episódio politizado está. Só que, aos poucos, ameaça voltar-se contra o governo. Teria sido má gestão embrulhada em mentiras.
ENTRE AS TARDES DO SÁBADO e do domingo, quando pessoas em desespero depredaram agências lotéricas na caça ao tesouro do Bolsa Família, dois gerentes regionais da Caixa Econômica sugeriram que um erro do sistema de pagamento seria o responsável pela liberação do dinheiro em desacordo com o calendário. Um deles, Hélio Duranti, do Maranhão, foi mais preciso.
"OS BOATOS SURGIRAM após um atraso no pagamento do benefício ocorrido em todo o país. A situação foi normalizada, mas muita gente procurou os caixas eletrônicos ao mesmo tempo, e o dinheiro acabou", disse ele. "Quem não encontrou ficou revoltado e quebrou os caixas". A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, preferiu observar: "Não existe qualquer motivação para que a gente pudesse gerar esse tipo de intranquilidade para a população."
A DIREÇÃO DA Caixa Econômica atravessou a semana negando que tivesse mexido no calendário de pagamento. Até que, na última sexta-feira, a Folha de S. Paulo encontrou na região metropolitana de Fortaleza a dona de casa Diana dos Santos. Uma semana antes, ela fora a um caixa eletrônico sacar os R$ 32 do Bolsa Família referentes a abril. Ao inserir seu cartão, sacou os R$ 32 de abril e os R$ 32 de maio.
"RECEBO O BOLSA FAMÍLIA há anos, e nunca pagaram antecipadamente", comentou Diana. "Acho que outras pessoas receberam também, avisaram aos conhecidos, e virou essa confusão". A Caixa inventou, então, outra história: "A Caixa Econômica Federal esclarece que vem realizando diversas melhorias no Cadastro de Informações Sociais. Em consequência, na sexta-feira (17), primeiro dia do calendário de pagamentos de benefícios do mês de maio, o banco disponibilizou o saque independentemente do calendário individual."
O PAGAMENTO É FEITO levando-se em conta o último número do cartão magnético de cada bolsista. A Caixa soltou o dinheiro para pagar de vez a todo mundo, mas não avisou a ninguém. Ela não explica como uma operação dessas melhora seu Cadastro de Informações Sociais.
NO DIA EM que a Folha pegou a mentira da Caixa, uma fonte da Polícia Federal, mediante a garantia de anonimato, revelou ao GLOBO que fora localizada a central de telemarketing responsável pela difusão dos boatos. Não disse como a central teve acesso aos números de telefones dos inscritos no Bolsa Família.
Sem acesso aos números de telefones como a central poderia disseminar boatos?
Enquanto a Polícia Federal não revelar o nome da empresa e não apresentar o criminoso que encomendou o serviço, sobreviverá a suspeita de que ela mente para livrar a cara da Caixa Econômica.
Mensalão da internet - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 27/05
Na última sexta-feira, neste mesmo espaço, a ex-senadora Marina Silva fez uma corajosa abordagem sobre um tema que impressiona a quem frequenta o mundo das redes sociais. Classificado por ela como "Mensalet" ou "mensalão da internet", trata-se da atuação de uma indústria subterrânea voltada a disseminar calúnias e a tentar destruir reputações.
Ninguém discute os benefícios da internet, que carrega o sonho de um mundo mais plural e democrático. Tamanha transformação exige, porém, um novo senso ético e de responsabilidade compartilhada.
Infelizmente, sob os novos horizontes tornados reais, existe um campo cinzento onde se instalou, no Brasil, um verdadeiro exército especializado em disseminar mentiras e agressões. Fingindo espontaneidade, perfis falsos inundam as áreas de comentários de sites e blogs com palavras-chaves previamente definidas; robôs são usados para induzir pesquisas com o claro objetivo de manipular os sistemas de busca de conteúdo; calúnias são disparadas de forma planejada e replicadas exaustivamente, com a pretensão de parecerem naturais.
Absurdas acusações que jamais serão comprovadas, por serem falsas, são postadas e repostadas diariamente. A vítima pode ser um magistrado, um político ou um cidadão comum. Pode ser um jornalista, uma atriz, não importa. Os objetivos são constranger, forjar suspeições, levantar dúvidas, transformar em verdade a mentira repetida mil vezes.
O mais grave é que esse roteiro se repete para buscar desconstruir a imagem de qualquer um que ouse defender ideias divergentes dos interesses daqueles que mantêm plugada essa verdadeira quadrilha virtual. E, quando alguém recorre à Justiça para se defender de ataques infundados, é acusado de exercer censura, invertendo, assim, as posições. A vítima passa à posição de réu.
Esse tipo de ação covarde é um lado da moeda que, na outra face, tenta controlar a imprensa, impedir a formação de novos partidos, defender a remoção do direito de investigação do Ministério Público e a submissão das decisões do STF à maioria governista no Congresso Nacional.
A boa notícia é que esse movimento, cuja origem e objetivos ficam cada vez mais claros, ganha crescente descrédito, fazendo com que certas vilanias fermentem apenas nas trincheiras dos espaços ocupados, e eventualmente pagos, pela má-fé.
Até porque não é apenas o conteúdo da internet, a mais importante revolução do nosso tempo, que deve permanecer para sempre. A honra das pessoas também deveria.
Liberdades de imprensa, de informação e de opinião são conquistas definitivas da nossa sociedade. Calúnia, injúria e difamação são crimes. E assim devem ser tratados.
Na última sexta-feira, neste mesmo espaço, a ex-senadora Marina Silva fez uma corajosa abordagem sobre um tema que impressiona a quem frequenta o mundo das redes sociais. Classificado por ela como "Mensalet" ou "mensalão da internet", trata-se da atuação de uma indústria subterrânea voltada a disseminar calúnias e a tentar destruir reputações.
Ninguém discute os benefícios da internet, que carrega o sonho de um mundo mais plural e democrático. Tamanha transformação exige, porém, um novo senso ético e de responsabilidade compartilhada.
Infelizmente, sob os novos horizontes tornados reais, existe um campo cinzento onde se instalou, no Brasil, um verdadeiro exército especializado em disseminar mentiras e agressões. Fingindo espontaneidade, perfis falsos inundam as áreas de comentários de sites e blogs com palavras-chaves previamente definidas; robôs são usados para induzir pesquisas com o claro objetivo de manipular os sistemas de busca de conteúdo; calúnias são disparadas de forma planejada e replicadas exaustivamente, com a pretensão de parecerem naturais.
Absurdas acusações que jamais serão comprovadas, por serem falsas, são postadas e repostadas diariamente. A vítima pode ser um magistrado, um político ou um cidadão comum. Pode ser um jornalista, uma atriz, não importa. Os objetivos são constranger, forjar suspeições, levantar dúvidas, transformar em verdade a mentira repetida mil vezes.
O mais grave é que esse roteiro se repete para buscar desconstruir a imagem de qualquer um que ouse defender ideias divergentes dos interesses daqueles que mantêm plugada essa verdadeira quadrilha virtual. E, quando alguém recorre à Justiça para se defender de ataques infundados, é acusado de exercer censura, invertendo, assim, as posições. A vítima passa à posição de réu.
Esse tipo de ação covarde é um lado da moeda que, na outra face, tenta controlar a imprensa, impedir a formação de novos partidos, defender a remoção do direito de investigação do Ministério Público e a submissão das decisões do STF à maioria governista no Congresso Nacional.
A boa notícia é que esse movimento, cuja origem e objetivos ficam cada vez mais claros, ganha crescente descrédito, fazendo com que certas vilanias fermentem apenas nas trincheiras dos espaços ocupados, e eventualmente pagos, pela má-fé.
Até porque não é apenas o conteúdo da internet, a mais importante revolução do nosso tempo, que deve permanecer para sempre. A honra das pessoas também deveria.
Liberdades de imprensa, de informação e de opinião são conquistas definitivas da nossa sociedade. Calúnia, injúria e difamação são crimes. E assim devem ser tratados.
Lula e Cristina - dize-me com quem andas... - SERGIO FAUSTO
ESTADÃO - 27/05
Em sua passagem por Buenos Aires, na semana retrasada, Lula deu endosso público à guerra que a presidente argentina move contra a liberdade de imprensa em seu país. Disse, com outras palavras, que lá, como aqui, a imprensa "conservadora" não se conforma com o sucesso de governos "populares".
Pelo menos no caso do país vizinho, falar em sucesso é abuso de linguagem. O balanço de dez anos dos Kirchners no poder tem pontos positivos, mas os negativos vêm se multiplicando ao longo do segundo mandato de Cristina: inflação em alta, crescimento em baixa, investimento em queda, saldo externo em deterioração, inconsistência cada vez maior na gestão das políticas públicas. Parece familiar, não é mesmo? Mas seria injusto dizer que os governos Néstor-Cristina descrevem trajetória igual à dos governos Lula-Dilma. Sem negar semelhanças, a escala dos erros e dos problemas é muito maior lá do que aqui. Grande parte da diferença se explica pela desenfreada arbitrariedade do governo de Cristina Kirchner, tanto na economia quanto na política, inseparavelmente.
Na Argentina não são apenas verbais e localizadas as investidas contra grupos de comunicação não alinhados ao governo. O mais recente torpedo governamental consistiu em proibir supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios em jornais e canais de televisão. Válida para todos, a medida atinge principalmente os veículos que não contam com os recursos da publicidade oficial. O alvo principal é o Grupo Clarín.
Ele passou de amigo a inimigo do governo depois de assumir posição favorável aos protestos de agricultores contrários à criação de um tributo adicional sobre as exportações de seus produtos. Cristina cumpria o primeiro ano de seu primeiro mandato e acabou derrotada no Congresso. Jamais deglutiu o revés. Desde então, constituir um aparato de mídia sob seu controle e destruir o Clarín se tornou prioridade para seu governo. Com esse duplo propósito, Cristina não poupou recursos públicos nem esforços, entre os quais a tentativa, em andamento, de estatizar a única empresa importadora de papel imprensa do país.
Na guerra contra o Clarín, esbarrou na resistência do Poder Judiciário. Uma liminar concedida há mais de um ano protege o grupo dos efeitos da chamada "Lei da Mídia", cuja aplicação obrigaria o Clarín a vender parte de seus canais de televisão e rádio. Inconformada, Cristina conseguiu aprovar uma lei que reforma o Judiciário, tornando eletivos os assentos no Conselho da Magistratura, órgão incumbido de escolher os juízes dos tribunais argentinos. Assim como no caso da "Lei da Mídia", essa nova iniciativa é apresentada como "democratizadora".
Que o objetivo da reforma do Judiciário não é democratizar a Justiça argentina fica claro pelos limites que impõe à obtenção de liminares contra decisões do governo e pelo empenho sistemático dos Kirchners em bloquear as investigações e decisões judiciais que têm por objeto as várias denúncias de enriquecimento ilícito que pesam contra o casal, sua família e seus aliados. Da mesma forma, o modo discriminatório como o governo trata os veículos de imprensa, de acordo com sua maior ou menor proximidade com o governo, revela não ser democrático o propósito da "Lei da Mídia". Naquela mesma semana, Cristina chegou ao cúmulo de determinar que a transmissão dos jogos do campeonato argentino de futebol no domingo à noite se inicie uma hora mais tarde, para coincidir com o horário em que vai ao ar o programa do jornalista Jorge Lanata, que se tem destacado por denúncias de corrupção contra o governo.
Criar regras que limitem a concentração dos veículos de mídia nas mãos de um mesmo grupo e tornem viável a ampliação da oferta de fontes alternativas de informação é, sim, um passo na direção de maior democracia. Porém, quando a iniciativa parte de governos e partidos cuja prática política consiste em sistematicamente enfraquecer as instituições que garantem o equilíbrio do jogo democrático e põem limites ao uso discricionário do poder pelo governo de turno, é preciso não se deixar iludir pelas belas palavras e nobres intenções. Não é coincidência que iniciativas para promover o "controle social da mídia" e "a democratização da Justiça" surjam sempre irmanadas nas ações dos governos da Venezuela, da Bolívia, do Equador e na cada vez mais "bolivariana" Argentina de Cristina Kirchner.
As declarações de Lula em Buenos Aires não são surpreendentes. Pouco mais de um mês antes, gravou mensagem de apoio a Nicolás Maduro, herdeiro do projeto chavista do "socialismo do século 21". Quem ainda nutre ilusões sobre o que se esconde por trás dessa fachada deveria ouvir o diálogo gravado entre um assessor cubano e o principal ventríloquo do "jornalismo" chavista, Mario Silva, apresentador do programa La Hojilla. O diálogo tornou-se público na semana passada. Desnuda-se ali o confronto interno entre a facção civil e ideológica e a facção militar-cleptocrática do chavismo, aquela inspirada por Cuba e esta, pelas oportunidades de enriquecimento e poder que um regime arbitrário oferece.
Pela influência que tem em seu partido e no governo de sua sucessora, a palavra de Lula não é apenas uma opinião singela. As oposições devem cobrar da presidente Dilma Rousseff uma posição clara quanto às manifestações de seu antecessor. Concorda com elas ou não? Basta de ambiguidades em relação a temas tão essenciais à convivência civilizada e democrática: liberdade de expressão, autonomia do Judiciário, para não falar em direitos humanos, área em que Dilma esboçou mudanças ao início de seu mandato para logo voltar à política de vista grossa e boca fechada.
Não é aceitável dizer-se democrata em casa e solidarizar-se com toda sorte de arbitrariedades na vizinhança. É mais do que hora de acabar com isso.
Em sua passagem por Buenos Aires, na semana retrasada, Lula deu endosso público à guerra que a presidente argentina move contra a liberdade de imprensa em seu país. Disse, com outras palavras, que lá, como aqui, a imprensa "conservadora" não se conforma com o sucesso de governos "populares".
Pelo menos no caso do país vizinho, falar em sucesso é abuso de linguagem. O balanço de dez anos dos Kirchners no poder tem pontos positivos, mas os negativos vêm se multiplicando ao longo do segundo mandato de Cristina: inflação em alta, crescimento em baixa, investimento em queda, saldo externo em deterioração, inconsistência cada vez maior na gestão das políticas públicas. Parece familiar, não é mesmo? Mas seria injusto dizer que os governos Néstor-Cristina descrevem trajetória igual à dos governos Lula-Dilma. Sem negar semelhanças, a escala dos erros e dos problemas é muito maior lá do que aqui. Grande parte da diferença se explica pela desenfreada arbitrariedade do governo de Cristina Kirchner, tanto na economia quanto na política, inseparavelmente.
Na Argentina não são apenas verbais e localizadas as investidas contra grupos de comunicação não alinhados ao governo. O mais recente torpedo governamental consistiu em proibir supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios em jornais e canais de televisão. Válida para todos, a medida atinge principalmente os veículos que não contam com os recursos da publicidade oficial. O alvo principal é o Grupo Clarín.
Ele passou de amigo a inimigo do governo depois de assumir posição favorável aos protestos de agricultores contrários à criação de um tributo adicional sobre as exportações de seus produtos. Cristina cumpria o primeiro ano de seu primeiro mandato e acabou derrotada no Congresso. Jamais deglutiu o revés. Desde então, constituir um aparato de mídia sob seu controle e destruir o Clarín se tornou prioridade para seu governo. Com esse duplo propósito, Cristina não poupou recursos públicos nem esforços, entre os quais a tentativa, em andamento, de estatizar a única empresa importadora de papel imprensa do país.
Na guerra contra o Clarín, esbarrou na resistência do Poder Judiciário. Uma liminar concedida há mais de um ano protege o grupo dos efeitos da chamada "Lei da Mídia", cuja aplicação obrigaria o Clarín a vender parte de seus canais de televisão e rádio. Inconformada, Cristina conseguiu aprovar uma lei que reforma o Judiciário, tornando eletivos os assentos no Conselho da Magistratura, órgão incumbido de escolher os juízes dos tribunais argentinos. Assim como no caso da "Lei da Mídia", essa nova iniciativa é apresentada como "democratizadora".
Que o objetivo da reforma do Judiciário não é democratizar a Justiça argentina fica claro pelos limites que impõe à obtenção de liminares contra decisões do governo e pelo empenho sistemático dos Kirchners em bloquear as investigações e decisões judiciais que têm por objeto as várias denúncias de enriquecimento ilícito que pesam contra o casal, sua família e seus aliados. Da mesma forma, o modo discriminatório como o governo trata os veículos de imprensa, de acordo com sua maior ou menor proximidade com o governo, revela não ser democrático o propósito da "Lei da Mídia". Naquela mesma semana, Cristina chegou ao cúmulo de determinar que a transmissão dos jogos do campeonato argentino de futebol no domingo à noite se inicie uma hora mais tarde, para coincidir com o horário em que vai ao ar o programa do jornalista Jorge Lanata, que se tem destacado por denúncias de corrupção contra o governo.
Criar regras que limitem a concentração dos veículos de mídia nas mãos de um mesmo grupo e tornem viável a ampliação da oferta de fontes alternativas de informação é, sim, um passo na direção de maior democracia. Porém, quando a iniciativa parte de governos e partidos cuja prática política consiste em sistematicamente enfraquecer as instituições que garantem o equilíbrio do jogo democrático e põem limites ao uso discricionário do poder pelo governo de turno, é preciso não se deixar iludir pelas belas palavras e nobres intenções. Não é coincidência que iniciativas para promover o "controle social da mídia" e "a democratização da Justiça" surjam sempre irmanadas nas ações dos governos da Venezuela, da Bolívia, do Equador e na cada vez mais "bolivariana" Argentina de Cristina Kirchner.
As declarações de Lula em Buenos Aires não são surpreendentes. Pouco mais de um mês antes, gravou mensagem de apoio a Nicolás Maduro, herdeiro do projeto chavista do "socialismo do século 21". Quem ainda nutre ilusões sobre o que se esconde por trás dessa fachada deveria ouvir o diálogo gravado entre um assessor cubano e o principal ventríloquo do "jornalismo" chavista, Mario Silva, apresentador do programa La Hojilla. O diálogo tornou-se público na semana passada. Desnuda-se ali o confronto interno entre a facção civil e ideológica e a facção militar-cleptocrática do chavismo, aquela inspirada por Cuba e esta, pelas oportunidades de enriquecimento e poder que um regime arbitrário oferece.
Pela influência que tem em seu partido e no governo de sua sucessora, a palavra de Lula não é apenas uma opinião singela. As oposições devem cobrar da presidente Dilma Rousseff uma posição clara quanto às manifestações de seu antecessor. Concorda com elas ou não? Basta de ambiguidades em relação a temas tão essenciais à convivência civilizada e democrática: liberdade de expressão, autonomia do Judiciário, para não falar em direitos humanos, área em que Dilma esboçou mudanças ao início de seu mandato para logo voltar à política de vista grossa e boca fechada.
Não é aceitável dizer-se democrata em casa e solidarizar-se com toda sorte de arbitrariedades na vizinhança. É mais do que hora de acabar com isso.
Impotentes x Batalhadores - VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 27/05
SÃO PAULO - A corrida de multidões para agências da Caixa, em meio ao boato sobre o fim do Bolsa Família, foi um evento exemplar do Brasil contemporâneo, embora um de seus aspectos remonte a antigas discussões sobre psicologia das massas.
O debate entrou na agenda da academia e da política na virada do século 19 para o 20. A urbanização galopava, e as metrópoles europeias tornavam-se aglomerados de populações desenraizadas.
Na multidão, dizia-se, diluem-se a identidade e o autogoverno do indivíduo, que passa a agir por impulso e imitação. Suscetíveis, as massas devem ser diligentemente manipuladas pela elite da nação.
Lideranças fascistas lambuzaram-se nesse melado. Investiram no carisma hipnotizador do Führer e na propagação metódica das mentiras que lhes interessavam.
Para espalhar boatos e calúnias, não dispunham de acesso telefônico instantâneo a dezenas de milhões de pessoas. Agora, a tecnologia está à mão. Mesmo que não tenha havido ação orquestrada no caso da Caixa, ficou evidente o potencial dessa ferramenta chamada telefone celular.
Também ressalta no episódio o grau de dependência de largas fatias da população em relação ao governo federal. Será que mamãe Dilma vai cortar a mesada? Melhor correr e raspar a conta já.
Resplandece a ética do impotente, de quem espera do governo remédio para seus problemas. De quem encara como dádiva a migalhice recebida dos políticos na assistência, na saúde e na educação.
Mas esse é apenas um polo dos arquétipos em conflito na sociedade brasileira. O outro é o dos batalhadores. De quem acredita que a recompensa individual diferenciada deve decorrer do esforço diferenciado. De quem exige dos governos o retorno eficiente dos impostos que paga.
Batalhadores e impotentes vão bater chapa no ano que vem, na disputa mais profunda pelo poder federal.
SÃO PAULO - A corrida de multidões para agências da Caixa, em meio ao boato sobre o fim do Bolsa Família, foi um evento exemplar do Brasil contemporâneo, embora um de seus aspectos remonte a antigas discussões sobre psicologia das massas.
O debate entrou na agenda da academia e da política na virada do século 19 para o 20. A urbanização galopava, e as metrópoles europeias tornavam-se aglomerados de populações desenraizadas.
Na multidão, dizia-se, diluem-se a identidade e o autogoverno do indivíduo, que passa a agir por impulso e imitação. Suscetíveis, as massas devem ser diligentemente manipuladas pela elite da nação.
Lideranças fascistas lambuzaram-se nesse melado. Investiram no carisma hipnotizador do Führer e na propagação metódica das mentiras que lhes interessavam.
Para espalhar boatos e calúnias, não dispunham de acesso telefônico instantâneo a dezenas de milhões de pessoas. Agora, a tecnologia está à mão. Mesmo que não tenha havido ação orquestrada no caso da Caixa, ficou evidente o potencial dessa ferramenta chamada telefone celular.
Também ressalta no episódio o grau de dependência de largas fatias da população em relação ao governo federal. Será que mamãe Dilma vai cortar a mesada? Melhor correr e raspar a conta já.
Resplandece a ética do impotente, de quem espera do governo remédio para seus problemas. De quem encara como dádiva a migalhice recebida dos políticos na assistência, na saúde e na educação.
Mas esse é apenas um polo dos arquétipos em conflito na sociedade brasileira. O outro é o dos batalhadores. De quem acredita que a recompensa individual diferenciada deve decorrer do esforço diferenciado. De quem exige dos governos o retorno eficiente dos impostos que paga.
Batalhadores e impotentes vão bater chapa no ano que vem, na disputa mais profunda pelo poder federal.
Sem sentido - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 27/05
A proposta de alteração da Lei da Anistia não é nova. Com a chegada ao poder de ex-perseguidos pela ditadura militar, no Executivo federal e Legislativo, o tema passou a ser tratado com maior frequência. Até que, no final da gestão Lula, o assunto foi contrabandeado para a terceira versão do Programa de Defesa dos Direitos Humanos. Houve um início de crise no Ministério da Defesa, contornado pelo então ministro Nelson Jobim, com a ajuda de Lula e o providencial recuo do governo.
O assunto retorna, agora, por meio da Comissão da Verdade, criada em 2010 e empossada há um ano pela presidente Dilma Rousseff, para apurar o paradeiro dos desaparecidos e fatos ocorridos nos porões da repressão política na ditadura militar.
Embora não seja incumbência da comissão propor alterações na lei, alguns de seus representantes têm dado declarações favoráveis a mudanças para que agentes públicos envolvidos naquela “guerra suja” possam ser processados, julgados e condenados.
Um avanço de sinal. Os ministros da Defesa, Celso Amorim, e da Justiça, José Eduardo Cardozo, se apressaram, em boa hora, a afastar a possibilidade de o governo encaminhar qualquer proposta ao Congresso neste sentido.
Entre outras consequências negativas, a medida iria contra um veredicto do Supremo Tribunal Federal, de 2010, segundo o qual improcedia o entendimento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de que a lei não poderia beneficiar torturadores. A Ordem foi derrotada por sete votos a dois.
Se tentasse rever a lei, o Executivo cometeria uma ilegalidade, pois foi referendado pela mais alta Corte do país o caráter amplo, geral e recíproco da anistia, enviada ao Congresso pelo último governo de generais, o de João Baptista Figueiredo, e aprovada em 1979.
Mesmo elaborada, encaminhada e aprovada ainda na ditadura, a Lei da Anistia foi fruto de intensa negociação entre os militares e a oposição. Tem, portanto, uma legitimidade não existente em leis semelhantes de países vizinhos, também ex-ditaduras. Nestes, o alcance da anistia foi calibrado a favor dos militares. Houve contestações, mudanças, e agentes públicos puderam ser processados e condenados. Caso diferente do brasileiro.
Quando a proposta da lei foi redigida, o Brasil já se encontrava na última etapa do processo de redemocratização, formulado e executado na sua parte mais difícil, o início, pelo antecessor de Figueiredo, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, seu chefe da Casa Civil. Os “porões” em que se abrigava a “tigrada” da repressão foram vencidos no governo Geisel, responsável pela escolha de Figueiredo.
Houve, então, espaço de negociação sobre a Lei da Anistia, como parte do processo mais amplo de redemocratização, a base do atual período de 28 anos de regime estável, de liberdades garantidas pela Constituição, a fase mais longa ininterrupta de estado de direito democrático na República. Se juridicamente já é impossível, do ponto de vista político e histórico não faria qualquer sentido reabrir a questão.
A proposta de alteração da Lei da Anistia não é nova. Com a chegada ao poder de ex-perseguidos pela ditadura militar, no Executivo federal e Legislativo, o tema passou a ser tratado com maior frequência. Até que, no final da gestão Lula, o assunto foi contrabandeado para a terceira versão do Programa de Defesa dos Direitos Humanos. Houve um início de crise no Ministério da Defesa, contornado pelo então ministro Nelson Jobim, com a ajuda de Lula e o providencial recuo do governo.
O assunto retorna, agora, por meio da Comissão da Verdade, criada em 2010 e empossada há um ano pela presidente Dilma Rousseff, para apurar o paradeiro dos desaparecidos e fatos ocorridos nos porões da repressão política na ditadura militar.
Embora não seja incumbência da comissão propor alterações na lei, alguns de seus representantes têm dado declarações favoráveis a mudanças para que agentes públicos envolvidos naquela “guerra suja” possam ser processados, julgados e condenados.
Um avanço de sinal. Os ministros da Defesa, Celso Amorim, e da Justiça, José Eduardo Cardozo, se apressaram, em boa hora, a afastar a possibilidade de o governo encaminhar qualquer proposta ao Congresso neste sentido.
Entre outras consequências negativas, a medida iria contra um veredicto do Supremo Tribunal Federal, de 2010, segundo o qual improcedia o entendimento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de que a lei não poderia beneficiar torturadores. A Ordem foi derrotada por sete votos a dois.
Se tentasse rever a lei, o Executivo cometeria uma ilegalidade, pois foi referendado pela mais alta Corte do país o caráter amplo, geral e recíproco da anistia, enviada ao Congresso pelo último governo de generais, o de João Baptista Figueiredo, e aprovada em 1979.
Mesmo elaborada, encaminhada e aprovada ainda na ditadura, a Lei da Anistia foi fruto de intensa negociação entre os militares e a oposição. Tem, portanto, uma legitimidade não existente em leis semelhantes de países vizinhos, também ex-ditaduras. Nestes, o alcance da anistia foi calibrado a favor dos militares. Houve contestações, mudanças, e agentes públicos puderam ser processados e condenados. Caso diferente do brasileiro.
Quando a proposta da lei foi redigida, o Brasil já se encontrava na última etapa do processo de redemocratização, formulado e executado na sua parte mais difícil, o início, pelo antecessor de Figueiredo, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, seu chefe da Casa Civil. Os “porões” em que se abrigava a “tigrada” da repressão foram vencidos no governo Geisel, responsável pela escolha de Figueiredo.
Houve, então, espaço de negociação sobre a Lei da Anistia, como parte do processo mais amplo de redemocratização, a base do atual período de 28 anos de regime estável, de liberdades garantidas pela Constituição, a fase mais longa ininterrupta de estado de direito democrático na República. Se juridicamente já é impossível, do ponto de vista político e histórico não faria qualquer sentido reabrir a questão.
Exploração política de Libra - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 27/05
O primeiro leilão do petróleo do pré-sal sob regime de partilha anunciado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ofertará a maior reserva já leiloada em um único pregão em todo o mundo. Ela pode ser quatro ou cinco vezes maior do que o maior campo atualmente em produção no País. Os novos dados geológicos sugerem que essa área - Libra, no pré-sal da Bacia de Santos - pode ter reservas de 8 bilhões a 12 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, que equivalem a dois terços de todas as reservas provadas do País.
Duas decisões indicam que o governo não resistiu a usar esses dados com objetivos político-eleitorais. A primeira foi o anúncio, pela ANP, de que, inicialmente marcado para novembro, o leilão da área gigante de Libra será antecipado para outubro. Com isso, será adiado para novembro a 12.ª rodada de licitações, com áreas com potencial para produção de gás, antes prevista para outubro. O governo quer explorar publicitariamente o leilão do pré-sal o mais depressa possível.
Até a realização, há pouco, da 11.ª rodada de licitação, a ANP tinha ficado cinco anos sem realizar nenhum leilão, o que resultou no declínio da produção interna de petróleo, pelo natural esgotamento dos campos em exploração e por problemas que a Petrobrás enfrentou, assim como o afastamento do País de empresas que estavam interessadas em investir no setor, mas não encontravam oportunidades.
Após um período de letargia que coincidiu com o aprofundamento da crise financeira e operacional da Petrobrás, a agência reguladora mostra uma grande disposição de dinamizar o setor. Entusiasmada com os novos dados de Libra, chega a empregar linguagem semelhante à utilizada pelo então presidente Lula há seis anos, quando anunciou a descoberta do petróleo do pré-sal. A diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, disse que ela e o governo ficaram "deslumbrados" com o potencial de Libra. "É muito grande, muito maior do que tínhamos na mão até agora."
Até abril, a ANP estimava que Libra teria entre 4 bilhões e 5 bilhões de barris recuperáveis. Os novos dados mostram o dobro disso. É bem mais do que o maior campo em exploração no Brasil, o de Marlim, com 2 bilhões de barris recuperáveis, e o campo gigante de Lula, no pré-sal, que tem entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris. Entre 2020 e 2030, Libra será a principal área produtora do País, superando a Bacia de Campos, que responde por 80% do petróleo brasileiro.
"Face ao porte que temos, faz-se absolutamente necessária a presença da presidente da República numa licitação como essa", disse ainda a diretora-geral da ANP, ao anunciar que, ao contrário da 11.ª rodada de licitação, realizada no Rio de Janeiro, o leilão da área de Libra será em Brasília, com a presença da presidente Dilma. É a segunda decisão que mostra a intenção de explorar politicamente o fato.
Dado o potencial de Libra, é muito provável, como prevê a diretora-geral da ANP, que apenas grandes empresas participem do leilão. Elas terão à sua disposição um grande número de informações sobre a área, o que aumentará sua segurança e tenderá a elevar o valor de sua oferta pela concessão.
O marco legal para a exploração do petróleo do pré-sal assegurou à Petrobrás um papel central. Mesmo que não participe originalmente do consórcio vencedor, a estatal tem assegurada a participação de pelo menos 30% do empreendimento. A contrapartida desse direito é a obrigação de a Petrobrás participar, na mesma proporção, de todos os investimentos que terão de ser feitos em Libra e que, segundo estimativas iniciais, podem superar US$ 250 bilhões.
Recorde-se que esse valor é próximo do total do plano de investimento da Petrobrás para os próximos anos - plano que, obviamente, não inclui as necessidades financeiras que surgirão para a exploração de Libra. Se a empresa já enfrenta dificuldades para cumprir seu plano sem Libra, maiores elas serão para participar da exploração da nova área.
O primeiro leilão do petróleo do pré-sal sob regime de partilha anunciado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ofertará a maior reserva já leiloada em um único pregão em todo o mundo. Ela pode ser quatro ou cinco vezes maior do que o maior campo atualmente em produção no País. Os novos dados geológicos sugerem que essa área - Libra, no pré-sal da Bacia de Santos - pode ter reservas de 8 bilhões a 12 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, que equivalem a dois terços de todas as reservas provadas do País.
Duas decisões indicam que o governo não resistiu a usar esses dados com objetivos político-eleitorais. A primeira foi o anúncio, pela ANP, de que, inicialmente marcado para novembro, o leilão da área gigante de Libra será antecipado para outubro. Com isso, será adiado para novembro a 12.ª rodada de licitações, com áreas com potencial para produção de gás, antes prevista para outubro. O governo quer explorar publicitariamente o leilão do pré-sal o mais depressa possível.
Até a realização, há pouco, da 11.ª rodada de licitação, a ANP tinha ficado cinco anos sem realizar nenhum leilão, o que resultou no declínio da produção interna de petróleo, pelo natural esgotamento dos campos em exploração e por problemas que a Petrobrás enfrentou, assim como o afastamento do País de empresas que estavam interessadas em investir no setor, mas não encontravam oportunidades.
Após um período de letargia que coincidiu com o aprofundamento da crise financeira e operacional da Petrobrás, a agência reguladora mostra uma grande disposição de dinamizar o setor. Entusiasmada com os novos dados de Libra, chega a empregar linguagem semelhante à utilizada pelo então presidente Lula há seis anos, quando anunciou a descoberta do petróleo do pré-sal. A diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, disse que ela e o governo ficaram "deslumbrados" com o potencial de Libra. "É muito grande, muito maior do que tínhamos na mão até agora."
Até abril, a ANP estimava que Libra teria entre 4 bilhões e 5 bilhões de barris recuperáveis. Os novos dados mostram o dobro disso. É bem mais do que o maior campo em exploração no Brasil, o de Marlim, com 2 bilhões de barris recuperáveis, e o campo gigante de Lula, no pré-sal, que tem entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris. Entre 2020 e 2030, Libra será a principal área produtora do País, superando a Bacia de Campos, que responde por 80% do petróleo brasileiro.
"Face ao porte que temos, faz-se absolutamente necessária a presença da presidente da República numa licitação como essa", disse ainda a diretora-geral da ANP, ao anunciar que, ao contrário da 11.ª rodada de licitação, realizada no Rio de Janeiro, o leilão da área de Libra será em Brasília, com a presença da presidente Dilma. É a segunda decisão que mostra a intenção de explorar politicamente o fato.
Dado o potencial de Libra, é muito provável, como prevê a diretora-geral da ANP, que apenas grandes empresas participem do leilão. Elas terão à sua disposição um grande número de informações sobre a área, o que aumentará sua segurança e tenderá a elevar o valor de sua oferta pela concessão.
O marco legal para a exploração do petróleo do pré-sal assegurou à Petrobrás um papel central. Mesmo que não participe originalmente do consórcio vencedor, a estatal tem assegurada a participação de pelo menos 30% do empreendimento. A contrapartida desse direito é a obrigação de a Petrobrás participar, na mesma proporção, de todos os investimentos que terão de ser feitos em Libra e que, segundo estimativas iniciais, podem superar US$ 250 bilhões.
Recorde-se que esse valor é próximo do total do plano de investimento da Petrobrás para os próximos anos - plano que, obviamente, não inclui as necessidades financeiras que surgirão para a exploração de Libra. Se a empresa já enfrenta dificuldades para cumprir seu plano sem Libra, maiores elas serão para participar da exploração da nova área.
Coalizão do atraso - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 27/05
Ainda a 16 meses do pleito presidencial, Congresso paralisa reformas para elevar o preço da fatura por apoio à reeleição de Dilma Rousseff
No que depender do Congresso, o país seguirá parado. Reformas para tornar os tributos mais eficientes, a mineração mais moderna, as finanças estaduais e municipais menos amarradas terão de esperar --ao que indica a hipótese mais otimista-- as eleições nacionais de outubro do ano que vem.
Dezesseis meses é um longo período para uma nação de renda apenas média cujos indicadores econômicos se deterioram em ritmo lento, mas contínuo. A expectativa de desempenho do PIB em 2013 iniciou o ano na faixa de 3% a 3,5%. Um terço do caminho percorrido, já baixou para 2,5% a 3%.
Após mais de uma década no azul, o vermelho começa a prevalecer no resultado das transações comerciais com o exterior. O deficit se amplia se forem computadas as balanças de turismo e das remessas e repatriações de lucros. A inflação custa a desacelerar.
O desemprego continua baixo, mas não por muito tempo caso siga exposto a esse ritmo frustrante de atividade econômica. A China, esteio do boom brasileiro no final da década passada, já cresce menos e coloca freio na demanda pelos produtos básicos nos quais o Brasil se especializou.
Que justamente neste momento o Congresso se anule como fórum de deliberação sobre as questões importantes da economia é algo que desvela a natureza da inchada coalizão de partidos governistas. Estão juntos não para encetar um programa comum, mas para garantir nacos privilegiados da portentosa máquina federal.
Põem-se de acordo apenas sobre a eleição do ano que vem. Postam-se ao lado de quem tem o poder incontrastável de cooptar. E chantageiam o governo que dizem defender em quase tudo o mais.
O PMDB, sócio majoritário da aliança, é preponderante nos endossos para criar a CPI da Petrobras. A estatal fez negócios suspeitos no exterior, de fato. Mas os governistas do PMDB querem mesmo é acertar contas com o Planalto.
A oposição, que se queria sufocar por meio da ampla cooptação governamental, com a oferta de 39 ministérios e mais de 20 mil cargos na administração, estaria de volta sob a forma recalcada de pequenos motins clientelistas na base?
O extravio do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ainda apoiador e já um rival, seria outra sequela da obsessão hegemônica do PT. Esta, como um vírus atenuado, parece capaz de vir a causar dano maior talvez apenas diante de deterioração mais forte da economia, por ora improvável.
Interpretações à parte, o fato, demonstrado à exaustão, é que esse modelo de aliança política inibe a modernização da economia e da sociedade. É a coalizão do atraso.
Ainda a 16 meses do pleito presidencial, Congresso paralisa reformas para elevar o preço da fatura por apoio à reeleição de Dilma Rousseff
No que depender do Congresso, o país seguirá parado. Reformas para tornar os tributos mais eficientes, a mineração mais moderna, as finanças estaduais e municipais menos amarradas terão de esperar --ao que indica a hipótese mais otimista-- as eleições nacionais de outubro do ano que vem.
Dezesseis meses é um longo período para uma nação de renda apenas média cujos indicadores econômicos se deterioram em ritmo lento, mas contínuo. A expectativa de desempenho do PIB em 2013 iniciou o ano na faixa de 3% a 3,5%. Um terço do caminho percorrido, já baixou para 2,5% a 3%.
Após mais de uma década no azul, o vermelho começa a prevalecer no resultado das transações comerciais com o exterior. O deficit se amplia se forem computadas as balanças de turismo e das remessas e repatriações de lucros. A inflação custa a desacelerar.
O desemprego continua baixo, mas não por muito tempo caso siga exposto a esse ritmo frustrante de atividade econômica. A China, esteio do boom brasileiro no final da década passada, já cresce menos e coloca freio na demanda pelos produtos básicos nos quais o Brasil se especializou.
Que justamente neste momento o Congresso se anule como fórum de deliberação sobre as questões importantes da economia é algo que desvela a natureza da inchada coalizão de partidos governistas. Estão juntos não para encetar um programa comum, mas para garantir nacos privilegiados da portentosa máquina federal.
Põem-se de acordo apenas sobre a eleição do ano que vem. Postam-se ao lado de quem tem o poder incontrastável de cooptar. E chantageiam o governo que dizem defender em quase tudo o mais.
O PMDB, sócio majoritário da aliança, é preponderante nos endossos para criar a CPI da Petrobras. A estatal fez negócios suspeitos no exterior, de fato. Mas os governistas do PMDB querem mesmo é acertar contas com o Planalto.
A oposição, que se queria sufocar por meio da ampla cooptação governamental, com a oferta de 39 ministérios e mais de 20 mil cargos na administração, estaria de volta sob a forma recalcada de pequenos motins clientelistas na base?
O extravio do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ainda apoiador e já um rival, seria outra sequela da obsessão hegemônica do PT. Esta, como um vírus atenuado, parece capaz de vir a causar dano maior talvez apenas diante de deterioração mais forte da economia, por ora improvável.
Interpretações à parte, o fato, demonstrado à exaustão, é que esse modelo de aliança política inibe a modernização da economia e da sociedade. É a coalizão do atraso.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
" Eu sei que eles vão me jogar na cerca, mas eu vou arrebentá-la"
Eduardo Campos (PSB-PE),ao acusar o PT de tentar impedir sua candidatura em 2014
PMDB leva guerras estaduais com PT para Câmara
Se a presidenta Dilma acha que teve trabalho na votação da MP dos Portos, pode armar tropas para a batalha. A bancada do PMDB agora ameaça, além de negar apoio à sua reeleição, descarregar as broncas estaduais com o PT dificultando a votação de matérias de interesse do governo. O PT trava cabo de guerra com PMDB em Pernambuco, no Rio, Maranhão, Bahia, Mato Grosso do Sul, Ceará e Rio Grande do Sul
Missão impossível
O vice-presidente Michel Temer escalou o ex-ministro Eliseu Padilha (RS) para tentar reestabelecer a relação entre o governo e a bancada.
Problema dele
Líder do PMDB, Eduardo Cunha disse semana passada, em alto e bom som, para Eliseu Padilha ouvir: “Estou pouco me lixando para o Michel”.
Quer distância
A presidenta Dilma se negou a pisar em jantar do PMDB com ministros e governadores para evitar Eduardo Cunha, de quem tem horror.
Mexeu comigo
Dilma ficou irritada com os ataques do líder peemedebista à ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) após votação da MP dos Portos.
OAB entra na briga contra calote de precatórios
A OAB vai entrar de sola contra a flexibilização do pagamento de precatórios, pretendida pelo governador paulista Geraldo Alckmin. De acordo com Marco Antonio Innocenti, presidente da Comissão de Precatórios da OAB nacional, a entidade vai brigar pela impugnação da chamada “modulação” dos precatórios. O Estado de São Paulo deve R$ 29 bilhões em precatórios. A prefeitura paulistana, R$ 28 bilhões.
Me errem
Pedro Simon (PMDB-RS) destaca que o chanceler Antonio Patriota some até nas viagens internacionais de Dilma. Já Aloizio Mercadante...
Mal-me-quer
O PSB-RN torce para que Eduardo Campos (PE) desista de disputar à Presidência em 2014, o que melaria aliança com PT no Estado.
Conveniência
De Abelardo Camarinha (PSB-SP) sobre a relação do PT com aliados: “Nas eleições, o PT é igual ao Cristo Redentor: Vinde a mim!”, ironiza.
Ninguém viu
Dados da organização britânica Campanha Contra Comércio de Armas revelam que o Reino Unido emitiu licenças no valor de R$426 milhões, só no ano passado, para exportar equipamentos militares ao Brasil.
Racha interno
Deputados do PR garantem que faltam apenas três assinaturas para retirar Garotinho (RJ) da liderança do partido. A pedido do Planalto, o dono do PR, Valdemar da Costa Neto, tenta segurá-lo no cargo.
Coincidência?
O governador Camilo Capiberibe defendeu que seu partido, o PSB de Eduardo Campos (PE), apoie a reeleição da presidenta Dilma um dia depois de o BNDES liberar empréstimo de R$ 2,8 bilhões ao Amapá.
É fria
O Itamaraty diz que vai apurar denúncia dos funcionários do consulado em Atlanta (EUA), obrigados pelo então embaixador Adalnio Ganem a furar o bloqueio de uma nevasca. Vizinho do consulado, ele trabalhou.
É fogo
Petrogold, cujos tanques explodiram matando uma pessoa em cenário de horror em Caxias, foi denunciada com outras duas pelo Ministério Público do Rio em 2010 por suposta sonegação fiscal de R$2,3 milhões
Pelo cano
O Ministério da Cultura procura “em local incerto e não sabido” o vereador e ex-presidente da UNE Gustavo Petta (PCdoB-SP) para devolver R$252 mil de um convênio da entidade em Mato Grosso.
Aperto
O ministro do Comércio da Venezuela, Alejandro Fleming, se contorceu para explicar no jornal El Universal o vexame da importação urgente de papel higiênico: “É para acalmar os níveis de ansiedade da população.”
Confusão à vista
A ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos), o presidente da frente LGBT, Jean Wyllys e o pastor Marco Feliciano participarão da exibição, dia 6, na Câmara, do documentário ‘Mais Náufragos que Navegantes, de Guillermo Planel’. O tema: direitos humanos e sexualidade.
Pensando bem...
... Sérgio Cabral meteu o Pezão na porta da Dilma.
Poder sem pudor
Memória afiada
Em 1994, o senador Áureo Mello passou o carnaval no Rio. Certo dia, ele viu nos jornais a famosa fotografia de Itamar Franco com a modelo Lílian Ramos, no Sambódromo. Ela vestia só uma camiseta, exibindo toda a sua intimidade. Um amigo puxou conversa com o senador:
- Que papelão do Itamar na avenida...
Áureo ajeitou os óculos, aproximou o jornal do rosto e exclamou:
- Meu Deus! Se não me falha a memória, isto aí é a dita cuja!
Era.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Infância abandonada – Só 10% das crianças em abrigos podem ser adotadas
- Folha: Miséria ainda persiste na educação, diz índice oficial
- Estadão: Preço menor de produtos tira US$ 20 bi de exportações
- Correio: Nova ação na Câmara para abolir voto secreto
- Valor: Dilma impõe tolerância zero para atraso em obras
- Estado de Minas: Profissão: lobista
- Zero Hora: 108 prefeituras não fiscalizam projetos com risco ambiental
- Brasil Econômico: Galeão só para as Olimpíadas
domingo, maio 26, 2013
Já para o armário - GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA
A causa gay, como todo mundo sabe, virou um grande mercado comercial e eleitoral. Hoje, qualquer político, empresário ou vendedor de qualquer coisa tem orgulho gay desde criancinha. Se você quer parecer legal perante seu grupo ou seu público, defenda o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você ganhará imediatamente a aura do libertário, do justiceiro moderno. Você é do bem. Em nome dessa bondade de resultados, o Brasil acaba de assistir a um dos atos mais autoritários dos últimos tempos. Se é que o Brasil notou o fato, em meio aos confetes e serpentinas do proselitismo pansexual.
O Conselho Nacional de Justiça decidiu obrigar os cartórios brasileiros a celebrar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Tudo ótimo, viva a liberdade de escolha, que cada um case com quem quiser e se separe de quem não quiser mais. Só que a bondade do CNJ é ilegal. Trata-se de um órgão administrativo, sem poder de legislar e o casamento, como qualquer direito civil, é uma instituição fundada em lei. O CNJ não tem direito de criar leis, mas tem Joaquim Barbosa.
Joaquim Barbosa presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça é o super-herói social. Homem do povo, representante de minoria, que chegou ao topo do Estado para "dizer as verdades que as pessoas comuns querem dizer". O Brasil é assim, uma mistura de novela com jogo de futebol. Se o sujeito está no papel do mocinho, ou vestindo a camisa do time certo, ele pode tudo. No grito.
O Conselho Nacional de Justiça decidiu obrigar os cartórios brasileiros a celebrar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Tudo ótimo, viva a liberdade de escolha, que cada um case com quem quiser e se separe de quem não quiser mais. Só que a bondade do CNJ é ilegal. Trata-se de um órgão administrativo, sem poder de legislar e o casamento, como qualquer direito civil, é uma instituição fundada em lei. O CNJ não tem direito de criar leis, mas tem Joaquim Barbosa.
Joaquim Barbosa presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça é o super-herói social. Homem do povo, representante de minoria, que chegou ao topo do Estado para "dizer as verdades que as pessoas comuns querem dizer". O Brasil é assim, uma mistura de novela com jogo de futebol. Se o sujeito está no papel do mocinho, ou vestindo a camisa do time certo, ele pode tudo. No grito.
Justiceiro, Joaquim liberou o casamento gay na marra e correu para o abraço. Viva o herói progressista! Se a decisão de proveta for mantida, o jeito será rezar para que o CNJ seja sempre bonzinho e não acorde um dia mal-humorado, com vontade de inventar uma lei que proíba jornalistas de criticar suas decisões. Se o que o povo quer" pode ser feito no grito, o que o povo não quiser também pode. O Brasil já cansou de apanhar do autoritarismo, mas não aprende.
E lá vai Joaquim, o redentor, fazendo justiça com as próprias cordas vocais. Numa palestra para estudantes de Direito, declarou que os partidos políticos brasileiros são "de mentirinha". Uma declaração absolutamente irresponsável para a autoridade máxima do Poder Judiciário, que a platéia progressista aplaude ruidosamente.
Se os partidos não cumprem programas e ideias claras, raciocinam os bonzinhos, pedrada neles. Por que então não dizer também que o Brasil tem uma Justiça "de mentirinha"? Juízes despreparados, omissos e corruptos é que não faltam. Quantos políticos criminosos militam tranquilamente nos partidos "de mentirinha", porque a justiça não fez seu papel? A democracia representativa é baseada em partidos políticos. Com todas as suas perversões e são muitas -, eles garantem seu funcionamento. E também legitimam a ação de gente séria que cumpre programas e ideias, pois, se fosse tudo de mentira, um chavista mais esperto já teria mandado embrulhar o pacote todo para presente, com Joaquim e tudo.
A resolução do CNJ sobre o casamento entre homossexuais é uma aberração, um atropelo as instituições pelo arrastão politicamente correto. A defesa da causa gay está ultrapassando a importante conquista de direitos civis para virar circo, explorado pelos espertos. Um jogador de basquete americano anuncia que é homossexual, e isso se torna um espetáculo mundial, um frisson planetário. Como assim? A esta altura? A relação estável entre parceiros do mesmo sexo já não é aceita na maior parte do Ocidente? Por que, então, a decisão do jogador é uma bomba? Simples: a panfletagem pró-gay virou um tiro certo.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, dá declaração solene até sobre a opção sexual dos escoteiros. Talvez, um dia, os gays percebam que foram usados demagogicamente, por um presidente com sustentação política precária, que quer se safar como herói canastrão das minorias.
Ser gay não é orgulho nem vergonha, não é ideologia nem espetáculo, não é chique nem brega. Não é revanche.
Não é moderno. Não é moda. É apenas humano.
A luta contra o preconceito precisa ser urgentemente tirada das mãos dos mercadores da bondade. Eles semeiam, sorridentes, a intolerância e o autoritarismo. Já para o armário!
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