sexta-feira, fevereiro 01, 2013

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 01/02

Seguro de boates é pouco frequente no Brasil
O mercado de seguros para casas noturnas é pouco aquecido no Brasil, segundo especialistas.

As condições que propiciaram o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), como o material usado no isolamento acústico, seriam recusadas por peritos de seguradoras, que pediriam ajustes antes de assinar os contratos.

Diante das altas exigências feitas pelas companhias do setor para fechar seus contratos de cobertura, as casas de menor porte se desinteressam, de acordo com o diretor-executivo da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), Neival Freitas.

"É um seguro de difícil aceitação. Muitas vezes as empresas não têm condição de cumprir. Ou, em outros casos, não se interessam. É difícil saber", afirma.

A exceção são as grandes casas de shows, que, além de um seguro empresarial de apólices semelhantes às praticadas em outros segmentos, procuram coberturas específicas para cada um dos eventos que realiza.

"O empresarial, que faz parte da carteira de riscos patrimoniais, cobre danos materiais provocados por incêndio, queda de raio e explosão", afirma Freitas.

O seguro de eventos faz parte da modalidade de responsabilidade civil e costuma ter valores maiores. O objetivo é proteger o público.

Entre as situações que passam por análise técnica das seguradoras estão a verificação de portas de emergência, a lotação máxima e o plano para saída das pessoas em caso de pânico.

O material utilizado na estrutura do local como isolamento acústico e divisórias, também são avaliados. São exigidos aparelhos modernos e em bom estado, de acordo com o executivo.

Rede do Rio investe R$ 225 mi em novos supermercados
A rede de supermercados Guanabara, que possui atualmente 23 unidades no Estado do Rio de Janeiro, planeja investir cerca de R$ 225 milhões para a construção de novas lojas.

No projeto de expansão estão previstas mais cinco unidades, todas no Rio, de acordo com Albino Pinho, diretor da companhia.

"A ideia é inaugurar todas as novas em áreas de 10 mil metros quadrados em média, por isso é tão necessário cuidar bem da escolha do local."

Por enquanto, ainda não há planos de expansão para outros Estados, afirma.

Para estimular os negócios, a companhia vai elevar também seus investimentos no Carnaval deste ano.

Serão aproximadamente R$ 12 milhões, ante R$ 7 milhões no ano passado.

Os recursos envolvem estrutura de camarotes para encontros com fornecedores e parceiros, além de programação musical no sambódromo.

No espaço para os camarotes, serão construídos escritórios com isolamento acústicos para reuniões.

FILTRO
A Mann+Hummel, que desenvolve e fornece equipamentos para a indústria de engenharia automotiva e mecânica, está finalizando a aquisição dos 50% da participação da Bosch na joint venture Filtros Purolator.

A transação passará agora pela aprovação das autoridades antitruste dos Estados Unidos, país onde a joint venture foi formada, em 2006.

No ano passado, a Purolator, que produz, desenvolve e vende filtros para automotivos, gerou negócios de aproximadamente US$ 240 milhões de dólares (cerca de R$ 478 milhões).

VENTOS EM DIREÇÃO AO NORTE
O Brasil pode se tornar um dos principais exportadores de peças e equipamentos para parques eólicos mexicanos, segundo a presidente-executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Melo.

O México, ao lado de China, Índia, Brasil e África do Sul, é um dos países onde os investimentos continuam crescentes, "ao contrário da grande maioria dos desenvolvidos", diz Melo.

O potencial eólico do país é de 50 GW -hoje apenas 1,2 GW estão instalados.

"A capacidade brasileira de produzir é grande. Poderíamos vender para fora e nos tornarmos um 'hub' exportador para México e Panamá", afirma a executiva.

O Brasil atualmente tem onze fabricantes de peças e equipamentos. Dois deles são nacionais.

"O país é o maior investidor da América Latina em energia eólica, o que atrai as fábricas. Além disso, as empresas também precisam de uma escala grande para instalar uma planta em determinado local."

O México, porém, ainda tem alguns problemas regulatórios que reduzem o ritmo de investimentos, diz Melo.

DINHEIRO EM CAIXA
A SH, fornecedora de formas para concreto, andaimes e escoramentos metálicos voltados à construção civil, disponibilizará aproximadamente R$ 60 milhões neste ano para investimentos em suas plantas e seus produtos.

Do montante, 15% serão utilizados em novos equipamentos e mais R$ 9 milhões na unidade recém-inaugurada da companhia, no Pará. O restante será injetado nas outras unidades da empresa.

O aporte deverá proporcionar um crescimento de 24% no faturamento deste ano ante 2012, que foi de R$ 200 milhões, diz a fornecedora.

O foco são as obras de infraestrutura geradas pelos eventos esportivos que o Brasil irá receber nos próximos quatro anos, além do Norte do país, que está demandando tecnologia.

"A região tem muita necessidade de desenvolver infraestrutura, existem grandes investimentos em mineração, siderurgia, obras de energia, inclusive, Belo Monte", afirma Paulo Lago, da SH.

Dinheiro... 
O percentual de famílias da região metropolitana do Rio de Janeiro com sobra no orçamento após o pagamento de todas as despesas foi de 43% em dezembro do ano passado, segundo pesquisa da Fecomércio-RJ. No mesmo mês de 2011, o percentual havia sido de 46,9%.

...sobrando 
A porcentagem de famílias em condição de pagar suas despesas foi de 39% (em 2011) para 41,6% em dezembro passado. Os principais planos para a sobra foram: guardar para consumir no futuro (34,2%), gastar com lazer (34,1%) e poupar para uma eventualidade (26,6%).

APARTAMENTO NAS ALTURAS
O Rio de Janeiro foi a décima cidade mais cara do mundo para se locar, no ano passado, um apartamento de alto padrão com três quartos, segundo pesquisa da Eca International, especializada em gestão de expatriação.

Em 2011, o Rio havia ficado em 12º lugar. São Paulo não apareceu no ranking das 20 com os maiores aluguéis.

Caracas foi a mais cara do continente americano, tendo ultrapassado Nova York.

Os preços na cidade subiram cerca de 30% no ano passado devido à falta de imóveis adequados e à crescente indústria do petróleo, de acordo com a consultoria.

Na Europa, Moscou é a cidade com os maiores preços. O aumento da população expatriada e a oferta reduzida de apartamentos elevaram as taxas de aluguéis nos últimos três anos.

Economia mais fraca já afeta mercado de trabalho - EDITORIAL VALOR ECONÔMICO

VALOR ECONÔMICO - 01/02

Apesar de ter motivos para comemorar a criação de 1,3 milhão de postos de trabalho em 2012 e a queda da taxa de desemprego para o nível recorde de 4,6% da população economicamente ativa (PEA) em dezembro, o governo precisa moderar o entusiasmo porque o que mais temia pode estar começando a acontecer: a desaceleração da economia já parece afetar o mercado de trabalho.

A influência da economia mais fraca ficou evidente no recente Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que apura a movimentação dos trabalhadores com carteira assinada. Dezembro é um mês em que as demissões costumam superar as contratações, em consequência da entressafra agrícola, término do ciclo escolar e dispensa de temporários contratados nos meses anteriores.

Desta vez, porém, a perda de empregos foi maior do que a sazonalidade sugeria e surpreendeu até os especialistas.

Foram fechadas 496.944 vagas em dezembro, principalmente em setores que vinham puxando o Produto Interno Bruto (PIB) ou estavam sendo estimulados pelo governo - serviços, construção civil, agropecuária e indústria da transformação.

Apesar da vizinhança do pleno emprego, o balanço do ano deixou a desejar. Foram criados 1,301 milhão de postos com carteira assinada em 2012, o que representou um crescimento de 3,43% em relação ao estoque existente em 2011. O governo procurou ressaltar que o total de empregos formais criados desde o início do governo do PT, em 2003, atingiu 18,928 milhões. O número de postos criados em 2012, porém, é 33% menor do que o de 2011, que foi de 1,944 milhão, e o menor desde 2009, auge da crise internacional, quando foram abertos 1,296 milhão de empregos.

Para este ano, o governo espera uma recuperação e a criação de 1,7 milhão a 1,8 milhão de empregos, chegando a 2 milhões se forem incluídas as vagas no setor público, em consequência das medidas adotadas para amenizar a crise, como o corte dos juros, as desonerações e os investimentos em infraestrutura programados.

No entanto, setores pioneiros nas desonerações tiveram desempenho ruim em produção e faturamento (Valor, 23/1) e também em contratação de mão de obra. A indústria da transformação aumentou o número de empregados com carteira assinada em apenas 1% entre 2011 e 2012, o equivalente a 86,4 mil vagas, depois de ter demitido 178 mil apenas em dezembro. Fabricantes de calçados, que contam com a desoneração da folha de pagamentos desde o fim de 2011, cortaram 9,6 mil empregos no ano passado, após terem ceifado 9,5 mil em 2011. A indústria têxtil e do vestuário, também favorecida pela desoneração, manteve o número de postos de trabalho praticamente estável - na verdade, cortou 380 vagas.

No balanço feito pelo Valor, a despeito da desoneração da folha, os setores de confecção e de calçados acompanharam o desempenho da atividade industrial. A vantagem proporcionada pela renúncia fiscal de R$ 1 bilhão, decorrente da troca da contribuição de 20% do valor da folha salarial ao INSS por uma alíquota de 1% sobre o faturamento, permitiu, contudo, um ganho de margem para as empresas ou foi usada para segurar os reajustes de preços.

O setor de serviços foi responsável pela criação do maior número de vagas no ano passado, 666,1 mil; seguido pelo comércio, com 372,3 mil; e pela construção civil, com 149,3 mil. Esses dois últimos setores foram incluídos no programa de desoneração da folha de pagamentos do Plano Brasil Maior em dezembro, e o benefício deve entrar em vigor dentro de dois meses.

A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE também foi motivo de comemoração pelo governo ao registrar a redução da taxa de desemprego de 4,7% para 4,6% da população economicamente ativa (PEA) entre dezembro de 2011 e igual mês de 2012, nas seis regiões metropolitanas avaliadas. Na série livre de efeitos sazonais, foi detectado, porém, um aumento da taxa de desemprego na margem, de 5,4% para 5,6%, entre novembro e dezembro.

No entanto, a população ocupada continua crescendo ligeiramente mais do que a PEA, 3,1% e 3%, respectivamente, sinalizando que o mercado de trabalho continua apertado, apesar do aumento do desemprego na margem, e justificando a firmeza dos salários.

A experiência dos setores de calçados e vestuário sugere, porém, que o governo deveria monitorar de perto o resultado das desonerações de modo a garantir uma contrapartida em empregos e benefícios aos consumidores.

Comédia de erros - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 01/02

Não foi por falta de aviso. Inúmeros analistas alertaram para o jogo de perde-perde que o governo estava jogando na área de combustíveis. O consumidor acha que paga demais, o investimento no setor de transporte perdeu uma fonte de arrecadação, os produtores de etanol ficaram confusos. A Petrobras tem perdas, o déficit externo da empresa cresceu, a poluição aumentou.
O governo vem errando há anos no setor de combustíveis. Deu incentivo anos seguidos, através de redução do IPI, para o carro particular, sem investir na melhoria das vias urbanas e nas rodovias. Uma fonte importante para esse financiamento era a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, a Cide. Ela foi sendo reduzida para não aumentar o preço da gasolina na bomba.
O fato é que o consumidor não sentiu alívio porque ora foi o álcool que ficou mais caro, ora foram os postos de gasolina que elevaram preços. Mas a Petrobras ficou na estranha situação de ter que importar gasolina a um preço maior do que poderia cobrar das distribuidoras. Para diminuir a perda da estatal, o governo foi reduzindo impostos que incidem sobre o produto e assim o consumo foi aumentando. Incentivou o aumento da demanda de um combustível que precisava ser importado.
Incentivar a gasolina, cuja produção interna é insuficiente, já é bem esquisito, mas fazer isso aumentando o prejuízo da Petrobras e o seu déficit da balança comercial é realmente sandice. No ano passado, o Brasil importou US$ 9,1 bilhões a mais do que exportou no grupo combustíveis e lubrificantes. O rombo, na verdade, é maior, porque a Receita alterou as regras para o envio das estatísticas e grande parte das importações feitas em 2012 será contabilizada em 2013.
Além disso, esse produto cujo consumo o governo incentivou durante tanto tempo tem dois efeitos colaterais ruins: piora a qualidade do ar, aumentando doenças respiratórias; torna incerto o planejamento das empresas que fazem o combustível derivado da cana-de-açúcar. Canavieiros deixaram de investir em renovação de canavial, usinas programadas deixaram de ser instaladas, usineiros preferiram exportar açúcar. O etanol ficou mais escasso e, portanto, mais caro, até porque a gasolina estava subsidiada. Todo investimento feito em ter uma frota de carros flex foi inútil porque os carros, tendo duas opções, preferiam a gasolina. Houve um tempo tão maluco que o Brasil começou a importar etanol após passar anos brigando para derrubar barreiras ao etanol brasileiro no mercado americano.
Os equívocos da política energética vão muito além do setor em si. O vice-presidente da Abimaq, José Velloso, explicou que 35% das 1500 empresas que participam da associação estão direta ou indiretamente ligadas à cadeia de óleo e gás. Por isso, o fraco desempenho da Petrobras, com atrasos em projetos importantes, e também o travamento do setor sucroalcooleiro afetaram as encomendas de máquinas nacionais.
- Há cinco anos não há rodadas de licitação decampos de petróleo, a refinaria Abreu e Lima sofre atrasos constantes, o Comperj ainda não saiu do papel. O setor de álcool travou, porque o subsídio à gasolina tirou competitividade do produto. Mais de um terço das empresas da Abimaq têm relação com o setor de petróleo e gás. Então os equívocos da política energética nos afetaram bastante nos últimos anos. Houve menos encomendas de máquinas por causa disso - disse Velloso.
E como se tudo isso não bastasse, as ações da Petrobras despencaram durante esse período porque o mercado está convencido de que ela é usada para objetivos que não têm racionalidade econômica. Nada justifica, por exemplo, o gasto com uma refinaria feita sob encomenda para o petróleo venezuelano e na qual a Venezuela se negou a fazer os investimentos prometidos.
Os subsídios e isenções tributárias são dados para informar à economia sobre a direção que o governo pensa ser a mais adequada ao longo prazo. Até agora, os sinais dados foram que se deve consumir bastante gasolina, abandonar o álcool, emitir mais gases de efeito estufa, gastar o volume de dinheiro que for necessário para que o petróleo da Venezuela tenha uma usina no Brasil, e reduzir a tributação que seria destinada aos investimentos das rodovias e transportes coletivos. E o dono do carro continua achando a gasolina cara demais. Não teve o efeito político desejado.

Disputa acirrada no PT - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADO DE S. PAULO - 01/02
Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro José Dirceu e o presidente do PT, Rui Falcão, para seguir a efetiva ordem de importância de cada um na hierarquia da agremiação, parecem ter tirado o dia, anteontem, para disputar entre si um acirrado torneio de primarismo, descaramento c mistificação. Em Cuba, participando de um daqueles convescotes ideológicos cheios de ar quente e vazios de idéias - no caso, uma "Conferência pelo Equilíbrio Mundial", no Palácio de Convenções de Havana -, Lula demonstrou surpreendente sintonia com o espírito já um tanto fanado da new age, ao pedir ao público que mandasse "energia positiva" para o caudilho venezuelano Hugo Chávez. Se ele porventura superar as seqüelas da operação a que se submeteu na ilha em meados de dezembro para extirpar o câncer de que padece, Lula bem poderá se gabar de haver contribuído para a sua miraculosa recuperação. Pelo menos seria coerente com a sua propensão a tratar de proezas alheias como se delas fosse o autor.

Mas o apelo ao despacho de energia cósmica para revigorar o autocrata de Caracas até que passa, com um pouco de caridade. O que fica é o exemplo confeccionado por Lula para a ocasião, a fira de ilustrar a sua enésima diatribe contra as "elites" em geral c a imprensa em particular por seu suposto "ódio" contra Chá- vez, a argentina Cristina Kirchner, o uruguaio Pepe Mujica c o boliviano Evo Morales pelo bem que fariam aos pobres. (Ele omitiu o equatoriano Rafael Corrêa.) "No Brasil", afirmou, voando baixo, "a imprensa não suporta que os pobres viajem de avião." O que os viajantes, ricos, remediados ou pobres, não suportam - e o que a imprensa denuncia - é a situação dos obsoletos aeroportos brasileiros, que o lulismo no poder não cuidou de apetrechar para o aumento do número de vôos e passageiros. A mídia, a mesma que o ajudou a decolar do sindicalismo para a grande política - como certa vez, em um momento de franqueza, ele admitiu -, é o bode expiatório de há muito escolhido para livrar o PT do acerto de contas com seus próprios malfeitos.

Desde o julgamento do mensalão, ela tem a companhia da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF), que impôs aos mensaleiros penas compatíveis com o crime de lesa-República que se esbaldaram em cometer, e o titular do Ministério Público Federal, Roberto Gurgel, por ter encaminhado à instância adequada as acusações do publicitário Marcos Valério contra Lula, em vez de lançá- las ao lixo, capitaneiam a "ofensiva da direita contra o nosso projeto político", nas palavras de Dirceu (10 anos e 10 meses de prisão, além de multa de RS 676 mil). Em um ato da CUT, no Rio, "pela anulação do julgamento do mensalão", o mensaleiro- chefe acusou o STF de violar os direitos individuais e a democracia. No seu vale-tudo mental, atribuiu o noticiário da imprensa sobre as mazelas dos políticos ora à intenção de "amanhã dar um golpe", ora à intenção de inibir o Congresso de regular a mídia. Às vezes, nessas horas, a verdade assoma cm meio à fabulação. No caso, a pouca vontade do próprio PT em mobilizar as massas para a defesa dos mensaleiros.

"Aonde (sic) estão os nossos?", perguntou retoricamente Dirceu para se queixar de que ninguém "foi para a tribuna denunciar" a decisão de Curgel de dar curso às denúncias de Marcos Valério. Por sua vez, Andréa Haas, mulher do condenado ex-dirigente do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato (14 anos, 8 meses, R$ 1,3 milhão), pediu aos companheiros "que não sejamos esquecidos, como até hoje fomos". Não será o desalento petista que motiva as exortações de Dirceu c a campanha que promete encetar contra o STF? Não será também o que leva o deputado Rui Falcão a abrir ao máximo a sua "torneira de asneiras", como fazia a boneca Emília das histórias de Monteiro Lobato? São tantas que não é fácil escolher a que merece ir ao pódio. Entre a imputação ao Ministério Público de ter "atuação partidária" e o imperativo de combater a oposição "sem cara, mas com voz" que "tenta interditar a política no Brasil", o Oscar vai para esta obra de arte: "Quando desqualificamos a política (...), a gente abre campo para experiências que, no passado, levaram ao nazismo e ao fascismo" (apud, Rui Falcão).

Aquecido demais - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 01/02
O governo continua comemorando o pleno emprego - no que tem razão. Mas não se mostra nem um pouco empenhado em resolver os problemas criados pelo aquecimento excessivo do mercado de trabalho - e, nisso, mostra mais uma de suas omissões.

O IBGE apontou ontem desemprego no Brasil de apenas 4,6% em dezembro - o mais baixo desde 2002, quando foi adotada a atual metodologia de avaliação do mercado de trabalho.

Dezembro é mês atípico. Completa o período em que quase todo o comércio contrata mão de obra temporária para dar conta das vendas de final de ano. Mesmo levando isso em conta, a situação é de pleno emprego. Corresponde a uma desocupação de 5,3% da força de trabalho num mês "normal". Não há quem não queira o pleno em prego. Nessas condições, seria preciso que o governo compensasse o aumento dos custos da mão de obra com providências que reduzissem o impacto inflacioná- rio. Mas o que tem feito é quase nada.

Há meses, o Banco Central denuncia a existência de um mercado desequilibrado de mão de obra. Portanto, o governo reconhece o problema, mas ignora o quanto estrangula a capacidade de crescer.

Alguns analistas insistem em que há, no Brasil, espaço enorme para o avanço do PIB da indústria apenas porque há capacidade ociosa que pode ser ocupada sem necessidade de novos investimentos. Esquecem-se de que não basta dispor de instalação industrial. Para elevai" a produção, é preciso muito mais: fornecimento adequado de insumos e de matérias-primas; infraestrutura barata e funcional; custos compatíveis; e disponibilidade de mão de obra. Infelizmente, não é o que temos.

Sobra hoje no mercado mão de obra de baixa qualificação, cuja contratação poderia enfeitar estatísticas de emprego, mas derrubaria índices de produtividade.

À parte a falta de mão de obra qualificada, o Brasil enfrenta outro estrangulamento estrutural. O crescimento do emprego é maior do que o da força de trabalho - veja o Confira. De acordo com o IBGE, em apenas um ano (de dezembro a dezembro) a força de trabalho cresceu 1,7% e a população em idade para trabalhar, 1,2%. Enquanto isso, o emprego cresceu 3,1%.

Para que o aumento do custo de mão de obra não provoque inflação, o governo precisaria adotai- medidas compensatórias que garantissem redução das despesas públicas. Mas o entendimento é o oposto. Como o ministro Guido Mantega disse quarta-feira, o governo se empenha em tomai" medidas anunciadas. No entanto, seu resultado é aumento do consumo sem crescimento correspondente.

Não há política do governo que busque aumentar a produtividade do trabalho. Também não há políticas que se destinem a baixar o impacto da elevação dos custos produzidos pelo aquecimento excessivo do mercado de trabalho.

Nesse campo, não há remédio de curto prazo. O aumento da produtividade do trabalho exige mais educação, mais instrução, mais treinamento e, eventualmente, desburocratização do processo de imigração de mão de obra qualificada.

Com esse mercado tão estreitado e sem novos esforços de incremento de produtividade, fica comprometida a meta do governo de crescer sustentadamente mais de 3,5% ao ano.

Surfando no crescimento mundial - LUCIANO NAKABASHI

GAZETA DO POVO - PR - 01/02

Esse título parece estranho pelo momento em que se encontram as economias nacional e mundial. No entanto, o atual cenário explicita o que foi dito por muitos analistas na era Lula: o país estava surfando na onda do crescimento mundial, além de aproveitar os frutos de reformas que tinham sido realizadas no governo anterior e no início do primeiro mandato do governo Lula.

Aproveitar o crescimento da economia mundial foi positivo para o país, pois foi um período em que presenciamos uma significativa redução no desemprego, melhora nos níveis salariais e na distribuição da renda, estímulo ao “espírito animal” dos empresários com elevação dos investimentos, melhora na autoestima dos brasileiros, entre outros fatores.

O problema é que reformas e investimentos importantes deixaram de ser realizados para que o país pudesse manter uma razoável taxa de crescimento. Os grandes méritos do governo Lula, na parte econômica, foram: manter a política macroeconômica do governo anterior; unificar e estimular os programas de transferência de renda que não são custosos e atingem parte da população que realmente é mais vulnerável; e elevar o crédito às famílias.

No entanto, a redução do crescimento mundial, a falta de reformas e de investimentos relevantes na era Lula – como fortalecimento das agências reguladoras, redução da burocracia e da carga tributária, combate à corrupção, melhora na infraestrutura e na qualidade educacional –, além de erros adicionais na política econômica do governo Dilma redundam no período de baixo crescimento por que estamos passando.

O atual governo vem adotando políticas econômicas de médio e curto prazos voltadas, sobretudo, ao estímulo da demanda agregada para reverter o cenário de baixo crescimento. No entanto, a mudança de regime cambial, a redução do superávit primário e dos juros, os estímulos fiscais para determinados setores da economia, e a injeção de grandes somas de recursos no BNDES, entre outras medidas, não foram suficientes para recolocar a economia em uma trajetória de razoável crescimento.

Ao se observar a convivência de um baixo nível de desemprego com um crescimento medíocre nos dois últimos anos, fica evidente que estímulos adicionais à demanda irão se traduzir em pressões no mercado de trabalho, sendo que este já se encontra em uma situação próxima do pleno emprego. Como consequência, iremos presenciar uma elevação da inflação e das importações.

O problema atual do país vem da oferta, sobretudo do fraco desempenho da produtividade. É preciso estimular os investimentos produtivos através da garantia dos direitos de propriedade, com especial ênfase ao retorno dos investimentos realizados e da garantia e estabilidade das “regras do jogo”. O governo federal deve priorizar um ambiente que incentive o bom funcionamento do mercado sem interferências que prejudicam ainda mais as expectativas dos empresários. Os investimentos públicos devem ser realizados em áreas que são complementares aos investimentos privados e em parceria com estes, devido à restrição orçamentária – como, por exemplo, em infraestrutura.

Como enfatizado recentemente por Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central e professor da PUC-RJ) em um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, “o governo orienta, cuida do estádio e do gramado e não se mete a cobrar escanteios”.


Percepções por vezes enganosas - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 01/02

Estima-se que a demanda global de energia venha a crescer aproximadamente 50% nos próximos 25 anos


Um tema que sempre nos desafia é descobrir para onde caminha a humanidade, avaliar as principais tendências e tentar projetar o futuro. Mas isso não é tarefa fácil nem tampouco segura, até porque a análise pode embutir premissas nem sempre óbvias e por vezes enganosas.

Para começar, pensemos na presença do homem na terra nos últimos 12 mil anos. De 10 mil a.C. até o ano 1800 da era cristã, a expectativa de vida no nosso planeta ficou estável e próxima a apenas 25 anos de idade.

Esse fator foi certamente o maior limitador não só do crescimento da população como de geração de riqueza. Nos últimos 200 anos, esse tempo médio de vida subiu gradualmente para 65 anos graças à urbanização e aos avanços da medicina, permitindo que a população mundial saísse de 1 bilhão para os cerca de 7 bilhões de habitantes de hoje.

Uma rápida extrapolação dessa tendência recente poderia nos levar a acreditar que o planeta chegaria rapidamente a uma superpopulação, mas não é bem isso o que deverá acontecer.

A taxa de crescimento populacional tem sido reduzida significativamente nas últimas décadas, em maior escala nos países desenvolvidos, em boa parte devido ao avanço do planejamento familiar, que passou a ocupar o lugar da pura e simples vontade de Deus.

Assim, a população mundial deverá continuar a crescer e atingir 9,5 bilhões de habitantes em meados deste século, mas não deverá ultrapassar a marca dos 10 bilhões até o final dele.

O que também será observado é um aumento do percentual de pessoas idosas no perfil da população.

Esse tipo de análise alimenta também o questionamento em relação a até quando será possível a manutenção das espantosas taxas de crescimento observadas na China.

Por um lado, vemos alguns indicadores que demonstram existir um mercado interno com potencial fantástico. Hoje, apenas 1% da população do país controla 70% da riqueza. Enquanto para cada grupo de 1.000 habitantes existem 961 automóveis nos Estados Unidos e 606 na Europa, na China esse número é de apenas 41.

Mas a população chinesa é uma das que em média mais rapidamente envelhecem no mundo, cerca de três vezes mais rápido do que a dos Estados Unidos. E isso pode fazer com que em poucas décadas a percentagem de pessoas que compõem a população economicamente ativa seja significativamente reduzida, tendo ela ainda que arcar com o peso de sustentar a população mais velha.

Não menos complexas são as análises voltadas a recursos estratégicos como energia. Mas a maior distribuição da riqueza no mundo, gerada pelo facilitado acesso a capital, pela universalização dos meios de produção e pela enorme e silenciosa revolução provocada pela tecnologia da informação, vem reduzindo o desequilíbrio existente entre o padrão de consumo dos países ricos e pobres, criando pressões nos preços das commodities.

Estima-se que a demanda global de energia venha a crescer aproximadamente 50% nos próximos 25 anos, de algo como 500 quatrilhões de BTUs (British Thermal Unit) para cerca de 750 quatrilhões.

Apesar de todas as iniciativas voltadas para o incentivo à adoção de projetos de energia renovável, a sua participação percentual no mix global ainda deverá ficar abaixo dos 15%, enquanto os combustíveis fósseis como o petróleo, o carvão e o gás natural permanecerão fornecendo mais de 75% das necessidades de energia mundial.

E as oportunidades para a produção de petróleo estão cada vez mais complexas.

O mundo deverá ver o consumo de petróleo aumentar de 86 milhões de barris por dia para 108 milhões nos próximos 20 anos e projetos convencionais de extração deverão responder por menos da metade desse crescimento.

A produção em águas profundas, a extração de óleos ultrapesados e os projetos de "shale oil", todos com elevados custos de implantação e operação, serão os maiores responsáveis pelo aumento da oferta.

A realidade é que o uso de petróleo no mundo está longe de ser reduzido e a probabilidade de termos no futuro baixos preços desse produto de forma sustentável é quase inexistente.


A política econômica da reeleição - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 01/02

Evitar o Plano B do PT é o grande desafio de Dilma Rousseff em 2013



A política econômica de 2013 estará pautada pela corrida contra o tempo em que agora está empenhada a presidente, tendo em conta que, em 15 meses, se verá na cabeceira da pista da reeleição. Dilma Rousseff sabe que, como o desempenho da economia na primeira metade do mandato foi altamente decepcionante, seu grande desafio é conseguir mostrar, em tempo hábil, melhora substancial desse desempenho. Para poder visualizar o fio condutor da política econômica em 2013, é preciso entender com clareza o cálculo político envolvido nesse desafio.

Dilma Rousseff sabe que a reeleição depende de avaliações favoráveis de sua performance em dois foros distintos. A avaliação mais óbvia, claro, é a que deverá ser feita pelo eleitorado em outubro de 2014. Mas, bem antes disso, a presidente terá de obter avaliação favorável dentro do próprio PT e junto à base aliada. O desempenho da economia nos últimos dois anos disseminou desalento com o projeto da reeleição. Certos segmentos do PT, e da própria base aliada, já não escondem sua preocupação com os riscos que poderiam estar envolvidos na tentativa de reeleger a presidente.

Sobram evidências de que boa parte do senso de urgência que se observa no governo, quanto à melhora de desempenho da economia, decorre da necessidade de convencer o PT de que a reeleição é um projeto menos arriscado do que agora pode parecer. Analistas políticos sugeriram que o tom de comício que marcou o pronunciamento oficial da presidente, para anunciar a redução de tarifas de energia elétrica, teria sido mais voltado para o público interno do PT do que para o País como um todo. Chegou até a ser noticiado (Valor, 24/1), que a presidente se viu obrigada a esclarecer a um interlocutor no Planalto que "meu mandato é de oito anos".

No pronunciamento oficial, Dilma Rousseff afirmou em tom de desafio que é "a presidente que corta juros, reduz tarifa e protege as pessoas". O que ainda lhe falta é poder alardear também que é a presidente que faz o País crescer. Sem isso, vai ser difícil convencer o PT de que a reeleição é a solução natural. Perceber que esse é o grande desafio que a presidente tem pela frente é a chave para entender o que deverá nortear a condução da política econômica de 2013.

De acordo com a Pesquisa Focus do Banco Central, a expectativa hoje dominante é a de que a taxa de crescimento do PIB em 2013 seja de 3,1%, que, à primeira vista, parece bastante razoável. Mas o que talvez não esteja sendo devidamente percebido é que uma expansão da economia da ordem de 3% neste ano parece muito aquém do que Dilma Roussef precisa mostrar para convencer o PT de que não vai precisar de um plano B para 2014. E mais aquém ainda do que seria necessário para dissuadir a fragmentação da base aliada e permitir à presidente disputar a reeleição com tranquilidade. É improvável que uma expansão de 3% possa vir a ser apresentada como evidência convincente de quebra do regime de crescimento entravado de 2011-12. Com esse desempenho em 2013, a taxa anual média de crescimento do PIB no primeiro triênio do mandato será de apenas 2,2%.

Essa constatação leva a uma conclusão inescapável. Tudo indica que o Planalto terá grande resistência a trabalhar com uma meta de crescimento do PIB da ordem de 3% em 2013. Tendo em conta o cálculo político que deverá pautar a condução da política econômica nos próximos meses, o governo estará fortemente tentado a apostar todas suas fichas na tentativa de assegurar uma taxa de crescimento do PIB bem mais alta em 2013.

Não obstante todas as advertências – agora, até mesmo do Banco Central – de que, dadas as restrições do lado da oferta, tal aposta poderá ter consequências funestas, tudo indica que o governo está pronto para partir para tudo ou nada, numa grande escalada de estímulo à demanda. No balanço dos riscos envolvidos, a presidente, na situação difícil em que se encontra, tem razões para se deixar convencer de que os benefícios esperados da aposta superam os custos por larga margem.

Sem argumentos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 01/02

O melhor argumento do senador Renan Calheiros para o retorno à presidência do Senado, sete anos depois do escândalo que o apeou do mesmo cargo, era que já havia sido absolvido pelo Conselho de Ética e que nenhuma denúncia da época havia prosperado, por falta de base. Era inocente, portanto, e tinha o caminho livre para reassumir o cargo que lhe fora tirado indevidamente.

Essa conversa ainda poderia prosperar se o procurador-geral da República não o denunciasse criminalmente, poucos dias atrás, justamente pelas provas que apresentou para justificar a capacidade de pagamento de uma pensão alimentícia de um filho fora do casamento. Com notas de vendas de gado, que estão sendo apontadas como frias, Calheiros queria provar que não precisava pedir a um lobista amigo ligado à empreiteira Mendes Júnior para pagar a pensão de seu filho, conforme a acusação original. Estamos, portanto, de volta à estaca zero. As mesmas denúncias que levaram o senador alagoano a renunciar à presidência do Senado poderão transformá-lo em réu de ação criminal, o que virtualmente o impediria de continuar presidindo a Casa. Ao menos nunca houve caso desses para se contar.

Até ser denunciado pelo procurador-geral da República, Renan Calheiros tinha um discurso bem montado, que previa superar as desconfianças generalizadas fazendo uma administração "transparente" no Senado. No entanto, com as acusações contra ele retornando ao centro do cenário político, o mais difícil para ele será ser "transparente”

Tanto que até hoje, dia da votação, não anunciou oficialmente que é candidato, embora tenha negociado com os partidos, por baixo dos panos, a composição da Mesa Diretora. E teve que recorrer a um expediente restritivo para impedir que seus pares se pronunciassem na hora da votação. Apenas os candidatos poderão fazer discursos, e os senadores dissidentes pretendem se anunciar candidatos para ter possibilidade de registrar seus protestos. Na internet, no entanto, já são quase 300 mil assinaturas contra sua indicação. Mesmo que aleguem que o regimento interno determina que a eleição ocorra assim, não é tradição do Senado impedir que qualquer de seus membros se pronuncie, o que prenuncia uma gestão que começa tendo de se utilizar de métodos autoritários para poder se impor.

Dificilmente Renan Calheiros terminará seu mandato novamente, pois no decorrer das investigações — se o STF aceitar a denúncia — surgirão fatos novos que o colocarão permanentemente em primeiro plano, e não por motivos nobres. Ao mesmo tempo, sua candidatura deu à oposição oportunidade de exercer sua função, mesmo que aparentemente a contragosto. O PSDB viu-se acuado pela opinião pública a se mover em direção oposta à candidatura oficial, apoiando a dissidente de Pedro Taques (PDT). Mas o fez principalmente para se igualar ao PSB, que saiu da candidatura oficial da base como mais um passo para criar um espaço próprio de atuação.

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, passou a fazer críticas diretas à preponderância do PMDB na coligação oficial, dando a impressão de que disputa com ele essa posição, realçada pela vice-presidência da República. Mas o governador deixa claro com quem conversa que não está em busca de um cargo, mas de uma posição política mais independente. Da mesma maneira trata a candidatura dissidente na Câmara do socialista Júlio Delgado, que não tem chance de vencer, mas serve para marcar uma posição também naquela Casa. Os primeiros movimentos para a sucessão presidencial foram feitos pela presidente Dilma Rousseff, que se adiantou não só para controlar os que, dentro do PT, querem a volta de Lula como para constranger seus aliados, especialmente o PSB.

Mas o efeito foi contrário, e Campos sentiu-se desimpedido para colocar-se em campo, sem ainda ter oficializado sua candidatura, mas cada vez construindo-a com mais afinco. Atribui-se ao ex-presidente Lula manobra que poria Campos na vice da chapa de Dilma e daria ao PMDB a chance de concorrer ao governo de São Paulo com o PT na vice. É uma armação política engenhosa, que testará a real intenção do governador de Pernambuco.


Bicho criado em casa - DORA KRAMER

O ESTADO DE S. PAULO - 01/02
O PT faz acordo para levar um denunciado e um investigado pelo Ministério Público às presidências do Senado e da Câmara, financia partidos para atraí-los à base governista, correligionários de altas patentes são condenados à prisão e, segundo o presidente do partido, a "oposição apartidária" é que desmoraliza a política. Que tal?

Isso para falar do presente, sem contar o passado de uma vida dedicada a desancar Deus, o mundo e seu Raimundo.Os correligionários de hoje eram os "picaretas", "ladrões" e "bandidos"de ontem, contra os quais o PT prometia combate ferrenho quando, e se, chegasse ao poder.

Pois há dez anos chegou e é o que se vê: não bastasse se aliar, festeja os piores tipos, elevando o que antigamente formava o baixo clero à condição de cardinal ato do Congresso.

E com a tranquilidade dos puros, mas a sagacidade dos astutos, Rui Falcão, o presidente do PT, acusa Ministério Público e meios de comunicação independentes de tramarem contra a atividade política.

Oferece lições que dariam ensejo a preocupações quanto à sanidade do professor, não flertassem firmemente com o ridículo. Diz Falcão: "São esses a quem nomeei que tentam interditar a política no Brasil.Quando desqualificamos a política a gente abre espaço para aventuras golpistas. A gente abre espaço para experiências que no passado levaram ao nazismo e ao fascismo".

Faltou acrescentar um fator essencial na desconstrução do valor democrático numa sociedade: o populismo (ovo da serpente do autoritarismo), ao qual o PT se dedica com afinco no estímulo ao culto da personalidade e à desmoralização da massa crítica.

A ofensiva é clara: o petista ataca a "oposição apartidária" porque sabe que a partidária está dominada, nas cordas, sem força para preservar o indispensável exercício do contraditório sem o qual restam o silêncio, a concordância, a eliminação do debate, a alternância.

E o objetivo é esse mesmo: exercer o poder sem ser contraditado em nada e por coisa alguma, a fim de que apenas a voz do poder da vez prevaleça.

O PT, contudo, deve tomar cuidado com seus impulsos de eliminação porque, quando não há oposição de lado algum, as posições antagônicas tendem a nascer e a crescer dentro da situação. E aí, alertam os que já viveram essa situação em passado não muito distante mais especificamente no governo Fernando Henrique, personificada na figura de Antonio Carlos Magalhães instala-se um verdadeiro inferno.

É hoje o dia. O Senado, que é um pálido retrato do que já foi e agora caminha rumo ao lixo da História, perde autonomia,autoridade moral e também legitimidade na representação dos Estados.

Há 21 suplentes entre os 81 parlamentares da Casa. É isso: um quarto do Senado exerce mandato sem ter recebido um voto.

A suplência ali é composta por dois nomes indicados pelo titular da chapa e escolhidos entre amigos, parentes e financiadores de campanha que não passam pelo crivo das urnas.

Na maioria dos casos assumem a cadeira devido a licenças pedidas para garantir ao substituto biônico uma temporada no paraíso.

Compressor. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga, lá por meados do segundo semestre de 2012 chegou a pensar seriamente em concorrer à presidência da Casa.

Chegou a fazer algumas consultas informais sobre sua chance contra o desejo de Renan Calheiros de voltar.Hipótese,na ocasião, que aos de bom senso parecia absurda.

Braga é ovelha desgarrada do grupo de senadores independentes do PMDB que resiste a se entregar ao Palácio do Planalto e à dupla Calheiros Sarney.

Solidariedade tributária - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 01/02

SÃO PAULO - A manchete da Folha de domingo, assinada por Flávia Foreque, informava que a arrecadação de igrejas no Brasil alcança a imponente cifra de R$ 21 bilhões por ano, que são constitucionalmente imunes a qualquer tributação. O montante representa mais ou menos a metade do Orçamento da cidade de São Paulo, ou 90% do que o governo gasta com o Bolsa Família.

A pergunta aqui é se faz ou não sentido que os templos gozem da imunidade tributária que lhes é ofertada pelo artigo 150 da Carta. Sei que muitos me tomam por um ateu desalmado, mas acredito em liberdade de culto. Nesse contexto, o mecanismo constitucional tem (ou pelo menos teve) uma lógica. Ele visa a evitar que o Estado embarace as atividades de religiões não oficiais impondo-lhes ou a seus membros uma carga tributária diferenciada. Taxas desse gênero existiram desde a Antiguidade, recaindo preferencial mas não exclusivamente sobre os judeus. Elas atenderam por nomes tão diversos como "fiscus judaicus", "jiziat", "rav akçesi", "Toleranzgebührer".

Os otimistas interpretam esse tipo de imposto como um avanço civilizatório, já que falamos de tempos em que o mais comum era simplesmente matar os seguidores de outros credos. É inegável, contudo, que ele resultava numa discriminação punitiva contra os membros da religião não majoritária

A questão é saber se o dispositivo da imunidade continua fazendo sentido em pleno século 21. Hoje, por uma série de outros mecanismos constitucionais, seria impossível taxar templos de minorias preservando o culto da maioria.

Também acho difícil justificar que a fé seja imune a impostos quando outros itens, talvez ainda mais essenciais à vida, como alimentos e remédios, são às vezes pesadamente onerados. Penso que já é hora de prevalecer o princípio da solidariedade tributária, pelo qual todos pagam para que as alíquotas sejam menores.

300 picaretas e uma pá de cal - FERNANDO GABEIRA

O ESTADO DE SÃO PAULO  - 01/02

Num dos meus primeiro mandatos de deputado federal defendi na tribuna da Câmara Os Paralamas do Sucesso, acusados de caluniar o Congresso Nacional com a música Luís Inácio (300 picaretas'). Os primeiros versos diziam: “Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou/ são trezentos picaretas com anel de doutor!'.

Defendi-os em nome da liberdade de expressão. Não concordava inteiramente com Lula. Talvez fossem 312 ou 417. Reconheço que 300 é um número redondo, mais fácil de inserir nos versos de uma canção popular. Além do mais, nem todos têm anel de doutor. Mas isso são detalhes. O mais importante é registrar que estávamos na véspera da chegada do PT ao governo federal, início da era do “nunca antes neste país”. E aonde chegamos, agora, uma década depois?

Renan Calheiros deve assumir a presidência do Senado, Henrique Eduardo Alves, a da Câmara e o deputado Eduardo Cunha, a liderança do PMDB. Caso se concretizem, esses eventos representam um marco na História do Congresso. Significa que, para muitas pessoas informadas, o Congresso deixa de existir. É o fim da picada...

Conheço os passos dessa estrada porque transitei nela 16 anos. O mensalão significa o ato inaugural, a escolha do tipo e da natureza de alianças políticas do novo governo. O mensalão significa a compra de votos dos partidos, uma forma de reduzir o Congresso a um balcão de negócios. Em seguida vieram as medidas provisórias (MPs). Governar com elas é roubar do Congresso tempo e energia para seus projetos. A liberação das emendas parlamentares era a principal compensação pelo espaço perdido.

Mas deputados e senadores não cedem o espaço porque são bonzinhos ou temem o governo. As MPs são uma forma simplificada de o governo realizar seu objetivo. Os parlamentares tomaram carona nesse veículo autoritário. E inserem as propostas mais estapafúrdias no texto das MPs. Com isso querem aprovar suas ideias sem o caminho democrático que passa por debates em comissão, audiências públicas, etc.

Na Câmara essas inserções oportunistas são chamadas de jabuti O nome vem da frase “jabuti não sobe em árvore, alguém o coloca-lá”. O nome jabuti pressupõe que há interesses econômicos diretos por trás de cada uma dessas emendas.

A perda de espaço para o governo não é o problema, desde que todos os negócios continuem fluindo, das MPs às emendas ao Orçamento. O espaço não interessa, o que interessa é o dinheiro. Espaço por espaço, o Congresso já abriu uma grande avenida para o Supremo Tribunal Federal julgar casos polêmicos, como aborto e união gay.

Os negócios, como sempre, são o centro de tudo. Negócios, trambiques, maracutaias e, como diziam Os Paralamas em 2003, “é lobby, é conchavo, é propina e jeton”. Uma década depois, vendo o Congresso idêntico à sua caricatura, pergunto quando é que nos vamos dar conta dessa perda, desse membro amputado de nossa anatomia democrática.

A saída da minoria - chamada, com uma ponta de razão, de Exército Brancaleone - foi pressionar por dentro e estabelecer uma tensão entre ala e a opinião pública. Na definição do voto aberto para cassar deputados, vencemos o primeiro turno porque a imprensa e eleitores estavam de olho. Vitória esmagadora, contra apenas três abstenções. Agora até esse caminho está bloqueado. Todos os dispositivos internos foram reforçados e passaram a impedir tais votações. Com a cumplicidade do PT, os piores elementos foram ascendendo aos postos estratégicos e agora o esquema chega ao auge, com a escolha de Calheiros e Alves.

De um lado, interessa-me avaliar como será o futuro do País sem um Congresso que possa realmente ser chamado por esse nome. De outro lado, um olho na saída. Não sei se repetiria hoje a campanha contra Renan, os cartazes com chapéu de cangaceiro e a frase: “Se entrega, Corisco”. Nem se gostaria de ver de novo aqueles bois se deslocando pelos campos alagoanos para as terras de Renan, para comprovar que era dono de muitas cabeças de gado. O ideal, hoje, seria poupar os bois dessa nova viagem inútil. Passar o vídeo, criar uma animação, substituir toneladas de carne de boi por milhões de pixels.

Henrique Alves destinou dinheiro a uma empresa fantasma de um assessor dele. No lugar deserto onde a empresa funcionava havia apenas um bode, chamado Galeguinho. O bode foi dispensado depois de sua estreia. Os bois mereciam o mesmo. “Parabéns, coronéis, vocês venceram”, diz a letra de Luís Inácio. Deixaram-nos monitorando bois de helicóptero e pedindo ao bode que nos levasse ao gerente da empresa.

Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou. Mas foi o primeiro a passar para o lado deles e a contribuir com algumas novas espécies para a fauna já diversa que encontramos em 2003.

A vitória dos cavaleiros do apocalipse recoloca a urgência de salvar o Congresso dele mesmo. A maneira de potencializar o trabalho da minúscula oposição é a maior transparência possível e uma ajuda da opinião pública. A partir dessa vitória, Calheiros, Alves e seus eleitores no Parlamento dizem apenas à sociedade: somos assim, e daí? Depois do descanso merecido, o bode que é o porteiro da empresa favorecida por Alves deveria ser colocado na porta do Congresso.

É impensável que 300, 312 ou 417 - não importa o número exato - picaretas enfrentem o Brasil sem uma represália dura. O espírito do “eles lá, nós aqui”, de distância enojada, no fundo, é bom para eles, que querem total autonomia para seus negócios. Será preciso mostrar que toda essa farsa é patrocinada pelo dinheiro público. E que sua performance será amplamente divulgada agora e no período eleitoral. O instinto de sobrevivência da instituição não existe. Mas o do político é muito grande. É preciso que ele sinta o desgaste pessoal produzido por suas escolhas.

Muitas pessoas vão trabalhar nisso, cada uma no seu posto, às vezes em manifestações. A eleição direta para presidente foi uma conquista. A perda do Congresso para o ramo dos secos e molhados é uma dolorosa ferida em nossa jovem democracia.

Nós demos um boi para não entrar nessa luta. Daremos um bode para não sair dela.

Desafios do futuro - CRISTOVAM BUARQUE

GAZETA DO POVO - PR - 01/02

O Senado do Chile tem uma comissão que se dedica a pensar o futuro, sem compromisso com o dia a dia. Nela reúnem-se senadores e público em geral para imaginar as alternativas adiante e orientar o país na sintonia com os rumos do mundo.

Nos dias 17, 18 e 19 de janeiro, essa comissão organizou o II Congresso do Futuro, com 52 pensadores e políticos e um público de cerca de 300 pessoas, para discutir quais os cenários futuros em áreas tão distintas quanto a nanobiotecnologia, que vai revolucionar o próprio conceito de medicina; a política e suas novas formas de participação no futuro; a saúde dos oceanos e dos rios; o mundo pós-energia fóssil; as novas fronteiras da vida, inclusive com a inteligência artificial e o potencial das células-tronco; as novas fronteiras do universo, inclusive o potencial de viagens espaciais e exploração do espaço; os desafios da alimentação, tanto para eliminar a fome como para evitar a obesidade e o envenenamento por comidas prejudiciais à saúde; a nanotecnologia e a sua importância para o futuro em todas as áreas da tecnologia; e a evolução da moral e da conduta humana.

O evento possibilitou aos senadores situarem suas atividades e responsabilidades em defesa do Chile, levando em conta o que vai mudar no mundo nos próximos anos. Os que defendem que a economia é a base da razão de ser do progresso humano ficaram surpresos com os limites do crescimento e com o risco de mais uma vez ver o continente latino-americano fora das grandes mudanças no mundo.

Para um brasileiro, com o sentimento da dimensão de sermos a sexta economia do mundo, ficou a sensação de frustração porque corremos o risco de perder a chance de participar de mercado de cerca de US$ 100 bilhões, só na produção dos vetores e equipamentos da biotecnologia; ficar de fora da exploração espacial e do domínio das novas fontes de energia; do aproveitamento de todas as invenções ao redor do potencial da inteligência artificial; além do risco de perder o que já temos como exportadores de alimentos, diante das novas formas de alimentação.

Depois de três dias de debates, os senadores chilenos presentes e os que tomarão conhecimento dos conteúdos pela televisão perceberam o enorme esforço que devem fazer para que o Chile tente se sintonizar com a realidade mutante do mundo em direção ao futuro. Inclusive como fazer política, em um tempo no qual a comunicação entre eleitor e eleito já não é mais feita a cada quatro anos por comícios, mas instantaneamente, on-line, na qual o presente já é parte do futuro de um bom político.

Mas, se os senadores chilenos ficaram angustiados, imagine o senador brasileiro que, depois de sua palestra sobre o futuro, volta para participar de uma eleição para eleger a nova Mesa Diretora do Senado Federal; de total alienação nas últimas décadas em relação às responsabilidades para com o país, presa num dia a dia frustrante, sem poder e às vezes também sem pudor. Um Senado sem consciência de sua responsabilidade para com o futuro, como se a política fosse apenas acordos – nem sempre lícitos – para manter as vantagens que os cargos oferecem. Uma eleição que ocorre quando o mundo está mudando ao redor e se elege uma Mesa Diretora para nada mudar, simplesmente para manter o costume do velho ritmo de pensar apenas nas artimanhas políticas em que o passado nos viciou.

Saudade do dr. Ulysses - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 01/02

BRASÍLIA - O PMDB mantém hoje o terceiro cargo na linha sucessória (presidência do Senado) e ganha o segundo (a da Câmara) na próxima segunda-feira, mas pode começar a perder o primeiro (a Vice-Presidência da República) a partir da terça.

Reportagem de Natuza Nery, ontem na Folha, dá contornos ao mapa que Lula desenha para as eleições de 2014 e aponta uma linha cruzada: Michel Temer sai da Vice-Presidência e Gabriel Chalita entra na cabeça de chapa para destronar os tucanos do governo de São Paulo. O PMDB trocaria a vice pelo Bandeirantes.

Tudo para pôr Eduardo Campos (PE) na vice e explodir sua pretensão de sair da base aliada para se lançar candidato contra Dilma. Ele é o eixo sobre o qual todos os demais atores de 2014 se movem.

A construção não parece nada fácil, com resistências de todos os lados, a começar dos principais interessados: PT, PMDB, Temer e Campos. Mas as histórias das candidaturas de Dilma Rousseff ao Planalto e de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo desautorizam o descrédito de analistas e o desdém dos que sonham com o Bandeirantes. Quando Lula quer, Lula pode.

Ele sabe que Campos, a favor, quebra o maior galho, mas, contra, vira um problemão. Tanto que é disputado a tapa por Dilma, a favorita, e por Aécio Neves, virtual nome do PSDB. Com uma diferença: os petistas têm muito mais cacife para segurar Campos do que os tucanos para atraí-lo.

Mas, ao admitir trocar Temer (e o PMDB) por Campos (e o PSB), Lula eleva o passe do pernambucano à estratosfera. Com chance de ser vice da chapa mais forte, por que ele aceitaria ser na mais fraca? A ideia de ser vice de Dilma pode até lhe dar a chance de tentar inverter a chapa de oposição para Campos-Aécio.

Dê o que dê a roleta de Lula, o PMDB é vencedor. Deve ter o Senado com Renan, a Câmara com Henrique Alves e -dúvida atroz- disputar a Vice-Presidência ou o governo de São Paulo. E seja o que Deus quiser.

Os 21 anos de existência do PPS - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 01/02


Herdeiro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido Popular Socialista (PPS) nasceu em 26 de janeiro de 1992, no Teatro Záccaro, em São Paulo, por decisão majoritária de 2/3 dos delegados em um congresso que reuniu não apenas dirigentes e militantes comunistas, mas também simpatizantes com concepções políticas afins, filiados ou não a agremiações partidárias. Por ser produto de uma visão diferenciada que a esquerda brasileira tinha sobre a melhor forma de atuação, o PPS surgiu com a perspectiva de construir uma nova formação política dentro de uma outra realidade do mundo, já que a experiência do socialismo real havia chegado ao fim.

Logo fomos convidados a participar da construção do curto, mas exemplar, governo do presidente Itamar Franco, pelo qual atuei, com muita honra, como líder na Câmara dos Deputados.

Foi uma rica experiência de um governo de centro-esquerda que deixou uma marca histórica no país, ao criar as bases de uma gestão democrática, republicana e reformista. Foi na gestão de Itamar que se forjou o Plano Real, colocando fim à inflação galopante que atormentava os brasileiros.

Nas eleições presidenciais seguintes,em 1994, apoiamos a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e, a partir de 1995, fizemos oposição construtiva ao presidente Fernando Henrique Cardoso, reivindicando a realização de reformas estruturais e defendendo uma composição menos conservadora na sustentação de seu governo. Em 1998, lançamos candidatura própria, com Ciro Gomes, e apresentamos aos brasileiros uma proposta de um projeto para um Novo Brasil, obtendo mais de 10% dos votos, o que se repetiu na eleição de 2002. No 2º turno daquele pleito, apoiamos Lula.Mesmo fazendo parte do primeiro escalão do governo Lula inicialmente, o apoiávamos de forma crítica e exigente. Tanto que, após dois anos, rompemos com o governo por entender que o PT e Lula não tinham o projeto de mudar o Brasil e queriam apenas a manutenção do poder a qualquer preço.O escândalo do mensalão, recentemente julgado de forma exemplar pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mostrou que nossa opção foi correta.

Partido que se inspira na herança humanista, libertária e solidária dos movimentos sociais e das lutas dos trabalhadores no Brasil e em todo o mundo, e que não usa o povo, mas se propõe a funcionar como instrumento para que cada cidadão seja sujeito de sua própria história, o PPS procura ser plural e aberto à participação dos que acreditam que é possível a todos os seres humanos viverem livremente e em igualdade. Às vésperas de mais uma eleição presidencial, que acontecerá em 2014, o PPS renova seu compromisso histórico com o legado da ética na política e se apresenta à sociedade brasileira como real alternativa da esquerda democrática, em oposição ao desgastado, ineficiente e corrupto modelo lulo-petista. Com firmeza de princípios, decência e coerência inegociáveis, além de uma inequívoca vocação para profundas transformações, nosso partido acredita na construção de um novo caminho para que o Brasil se torne um país mais digno e justo. Este é nosso desafio e nossa missão.


O delírio totalitário de Rui Falcão - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 01/02

Ao dizer que a imprensa e o MP abrem espaço para práticas que se assemelham ao nazismo, o presidente do PT ignora que é justamente o seu projeto para a mídia que se assemelha ao programa hitlerista


O deputado estadual paulista Rui Falcão, presidente estadual do PT, já tem um extenso repertório de declarações de cunho totalitário em seu currículo, várias delas inclusive comentadas neste espaço. Mas, anteontem, ele superou-se ao comparar a imprensa e o Ministério Público aos regimes fascistas da primeira metade do século passado. “São esses [imprensa e setores do MP] a quem nominei que tentam interditar a política no Brasil e fazem com que ao mesmo tempo desqualifiquem a política. Quando desqualificamos a política, a gente abre campo para as aventuras golpistas, para experiências que no passado levaram ao nazismo e ao fascismo, que devemos definitivamente afastar do nosso país”, afirmou em reunião da bancada petista na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Para justificar a afirmação de que o PT precisa combater imprensa e MP, Falcão usou uma declaração de Judith Brito, hoje diretora da Associação Nacional de Jornais (ANJ). “Sejamos francos: quem é a oposição no Brasil? Há oposição dos partidos políticos, mas há oposição mais forte, mas que não mostra a cara, quando poderia fazê-lo. É o que chamo de oposição extrapartidária, que se materializa numa declaração que a imprensa veiculou de Judith Brito, que disse com todas as letras: ‘como a oposição não cumpre seu papel, nós temos de fazer’. E vem fazendo”, disse o presidente do PT, distorcendo as palavras ditas em 2010 pela então presidente da ANJ. A declaração completa de Judith era a seguinte: “A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo”.

É fato que a oposição partidária no Brasil está enfraquecida, não só pelo rolo compressor petista, mas também por escolhas próprias feitas ao longo destes dez anos. Mas está claro que o “papel da oposição” a que Judith Brito se refere é o de fiscalização, não o de política partidária. Mesmo assim, compreende-se a indignação de Falcão com a imprensa e o MP; afinal, sem eles, a legenda que criou o mensalão, o escândalo dos aloprados, o Rosegate e vários outros escândalos menores teria sinal verde para seguir colocando o Estado a serviço do partido.

A data que Rui Falcão escolheu para comparar a imprensa e o MP ao nazismo é emblemática. Exatos 80 anos antes, em 30 de janeiro de 1933, Adolf Hitler se tornava chanceler da Alemanha, levando o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães ao poder – e nem seria preciso lembrar que dali surgiu um dos piores totalitarismos da história. Não se sabe se o presidente do PT estava consciente da coincidência, que aliás não para por aí. Afinal, o ódio de Rui Falcão e de boa parte dos petistas de alto coturno pela imprensa livre encontra paralelo justamente no programa do Partido Nazista, proclamado por Hitler já em 1920. O 23.º dos 25 pontos do programa menciona explicitamente o controle da imprensa, com frases como “Exigimos que se lute pela lei contra a mentira política deliberada e a sua divulgação através da imprensa” e “Os jornais que colidirem com o interesse geral devem ser interditados”. Obviamente, por “interesse geral” se entendiam os interesses do próprio partido, e “mentira política deliberada” era o eufemismo para designar qualquer informação prejudicial ao partido. Daí se conclui que Falcão, ao imputar sobre a imprensa brasileira e o MP a acusação de “abrir campo” para “experiências que no passado levaram ao nazismo”, está apenas adotando a velha estratégia do “acuse-os do que você é”.

Em diversas ocasiões, comentando não apenas afirmações de Rui Falcão, mas também os sucessivos escândalos em que o PT está envolvido, esta Gazeta do Povo lembrou que há muitos petistas comprometidos com a ética e a moralidade no trato com a coisa pública, e ressaltou a importância de essas pessoas se manifestarem. O presidente do PT dá, agora, outro pretexto para que os petistas que valorizam uma imprensa e um Ministério Público livres e independentes se façam ouvir e deixem claro que discordam do chefe da legenda. É justamente a omissão dos bons militantes que permite que o partido seja dominado pelas maçãs podres, aquelas que acabam contaminando todo o cesto.


Aumento abusivo - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 01/02

Ao antecipar o reajuste da gasolina e exagerar nos preços, os postos reafirmam as práticas de um setor pouco afeito às virtudes da livre concorrência.


A livre concorrência transforma-se numa formalidade inútil em situações como a provocada pelo anúncio do aumento da gasolina pelo governo. Foi só a informação ser tornada pública para que os consumidores pagassem até 10% a mais pelo combustível em várias cidades. Pelos cálculos do próprio governo, a correção, ao redor de 4,4%, somente deveria ser repassada depois do Carnaval, quando os revendedores já terão recebido o produto com preços mais elevados. Mas a ganância falou mais alto, ferindo claramente o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe reajustes injustificados de valores.
Em relação aos combustíveis, nada é novidade. O consumidor estava, na verdade, desacostumado com essa prática, porque o último reajuste havia ocorrido há um ano e meio. Embora num regime de mercado livre, como felizmente existe no país, qualquer comerciante possa cobrar o que bem entende pelas suas mercadorias _ desde que não cometa abusos _, os aumentos e a cartelização dos postos de combustíveis deixam o consumidor desamparado. Nada justifica que, por antecipação, um aumento chegue ao varejo quando ainda não entrou em vigor nas distribuidoras. E, mesmo que já estivesse vigorando, os postos ainda estão vendendo produto de estoques anteriores ao aumento.
Ninguém pode supor que, diante de tais abusos, seja defensável qualquer controle sobre os preços dos combustíveis, como chegou a ocorrer por um longo tempo no país. Mas é evidente que o setor é um dos mais atrasados em termos de competição e de exercício de fato das virtudes de um mercado desregulamentado. O que o anúncio do reajuste da gasolina proporcionou foi a chance para que os varejistas ampliassem seus ganhos, sob o argumento de que precisam readequar seus custos.
O ministro Edison Lobão, informado dos exageros, disse de forma categórica que o governo irá investigar o que ocorreu, diante da suspeita de que distribuidoras já teriam repassado o reajuste aos postos. É a mesma ameaça feita em ocasiões anteriores por outras autoridades, sem nenhum efeito. A venda de combustíveis é, em muitas cidades brasileiras, uma confraria de varejistas pouco afeitos à competição. São muitas as evidências, reunidas pelos Procons e pelo Ministério Público, de que os empresários combinam preços. E não são poucas as denúncias feitas à polícia pelos que, refratários a esses acordos escusos, passam a ser ameaçados por colegas de atividade.
Consumidores das capitais têm como consolo o fato de que os órgãos fiscalizadores estão, com frequência, denunciando as condutas do varejo. Não há, com a mesma intensidade, ações fiscalizadoras em cidades do Interior. O lamentável é que, apesar de os Procons e o MP estarem cumprindo com seus deveres, seus esforços são praticamente inconsequentes, porque os denunciados _ como todos os que se especializaram em se manter impunes no país _ se valem de todas as manobras possíveis para continuar alegando que participam de um livre mercado.


A frágil "solidez" de Mantega - EDITORIALO ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 01/02

Reconheça-se ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, o direito de, em defesa da política que vem praticando o governo ao qual serve com obediência incondicional, dizer o que lhe passar na cabeça a respeito de questões econômicas e financeiras nacionais. Reconheça-se também, no entanto, o direito de cidadãos responsáveis de discordar do ministro quando afirma, como fez logo após conhecidos os dados consolidados das contas públicas de 2012, que "a política fiscal brasileira é sólida e vai continuar". Mais do que discordar, talvez seja prudente precaver-se: quanto mais o governo do PT persistir nessa política, pior ficará a situação.

Diante de números divulgados nas últimas semanas do ano passado e de diversos atos e decisões do governo para evitar a explicitação de uma deterioração ainda mais aguda das finanças públicas, era previsível que os resultados fiscais de 2012 seriam ruins. Pois os dados consolidados agora divulgados pelo Banco Central, envolvendo as contas do governo central, dos Estados, dos municípios e das empresas estatais (exceto Petrobrás e Eletrobrás) mostram que a situação é pior do que se pensava.

O setor público consolidado alcançou, no ano passado, superávit primário de RS 104,951 bilhões, resultado equivalente a 2,38% do Produto Interno Bruto (PIB), inferior ao de 2011, de 3,11% do PIB.

Esse resultado ficou também abaixo da meta definida pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), de R$ 139,8 bilhões. Mas a LDO previa que, em caso de necessidade, o governo poderia abater da meta o total ou parte dos investimentos inscritos no PAC. Para cumprir a meta, o governo lançou mão dessa possibilidade com largueza.

A lei permitia que, por esse mecanismo, o governo reduzisse a meta do superávit primário em até R$ 40,6 bilhões. Na véspera da divulgação dos resultados consolidados, o Tesouro Nacional anunciou os resultados do governo central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) em 2012, mostrando que os investimentos do PAC totalizaram R$ 39,3 bilhões. Como investiu menos do que o abatimento permitido, este será menor, mas alcançará R$ 34,849 bilhões. Esse valor eqüivale a praticamente 90% do total de investimentos do PAC no ano passado.

Esta é apenas uma das manobras do governo para cumprir a meta do superávit primário, que deveria ser usado para reduzir sua dívida. Nos últimos meses de 2012 foram autorizadas duas operações de antecipação de pagamento de dividendos pela Caixa Econômica Federal, no total de R$ 6,19 bilhões. O BNDES antecipou pagamentos de dividendos, no valor de R$ 5,36 bilhões. Além disso, o governo retirou R$ 124 bi
lhões do Fundo Soberano, criado em 2008 para ser utilizado em momento de maior dificuldade econômica ou de baixo crescimento, não como fonte de recursos para o Tesouro tentar equilibrar suas contas. Essas e outras manobras contábeis engordaram as receitas do Tesouro em RS 40,4 bilhões no ano passado. Sem elas e sem o abatimento dos investimentos do PAC, o resultado seria bem menor, mas refletiria com mais clareza a política fiscal do governo Dilma.

O governo "cumpriu rigorosamente todas as determinações legais", justificou-se o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Quanto a isso, ele não tem com o que se preocupar. Nem ele nem seus superiores ou subordinados estão sujeitos a sanções administrativas ou judiciais por causa da condução da política fiscal, pois o que fizeram está, de fato, dentro da lei.

O que se pergunta é por que, num período de dificuldades - principalmente para o setor público, que viu sua receita crescer bem menos do que vinha crescendo, o que dificultou a obtenção das metas fiscais -, os problemas não foram reconhecidos com clareza. Diante da desorganização das finanças públicas que as maquiagens provocam e de declarações infelizes das autoridades, resultados como os que acabam de ser divulgados alimentam as desconfianças que já paralisam os investimentos e tendem a manter a economia estagnada.

Congresso rebaixado - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 01/02


Escolha de políticos do PMDB sem estatura para presidir o Senado e a Câmara mergulha em descrédito um Legislativo perdulário e domesticado


A começar pelo Senado, hoje, o Congresso Nacional renova seus presidentes para dois anos de mandato. Renova, ressalte-se, só no sentido formal do termo -raras vezes, como agora, os favoritos representaram tão bem o que há de atrasado na política brasileira.

Renan Calheiros é o favorito para voltar a presidir o Senado. O peemedebista de Alagoas, cabe lembrar, não conseguiu concluir sua primeira passagem pelo posto. Renunciou, em 2007, quando foram expostos vínculos comprometedores, ainda não esclarecidos, entre ele e um lobista de empreiteira.

Nem se questione a atitude de um homem público capaz de inscrever-se novamente para tarefa da qual abriu mão em circunstância tão constrangedora. O alheamento diante do anseio da sociedade por lisura e caráter na política tornou-se um traço indelével de certas figuras nacionais.

O que não deveria ser mais tolerado é a conduta coletiva de alçar políticos sem estatura aos cargos mais importantes. Esse endosso irresponsável -que inclui a presidente Dilma Rousseff e mesmo setores da oposição- mergulha em descrédito o Legislativo.

Não bastasse o longo e notório currículo de Calheiros, uma pequena dose de pragmatismo e bom-senso bastaria para evitar sua indicação. Ele é alvo de denúncia no Supremo Tribunal Federal, em torno do escândalo que o levou à renúncia em 2007. Há probabilidade de que se torne réu e enfrente julgamento em pleno exercício da presidência. O Senado deveria poupar-se desse desgaste.

Melhor destino dificilmente se reserva para a Câmara, que elege na segunda-feira seu presidente. Conhecido como "Henriquinho" no ambiente de Brasília, não é pelo epíteto que Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), o candidato favorito, inspira expectativas reduzidas.

Uma série recente de reportagens desta Folha ilustrou como ele trafega há décadas no circuito paroquial de verbas, obras e cargos da administração federal. Dinheiro de suas emendas foi parar na conta da empreiteira de um assessor seu -cuja sede oficial, depauperada, era guarnecida pelo bode Galeguinho, que terminou como emblema da história diminutiva.

O orçamento anual de R$ 8,5 bilhões do Congresso, que emprega 21 mil pessoas, supera a disponibilidade somada de recursos para Salvador e Recife, onde vivem 4,2 milhões. A despesa mensal de R$ 130 mil por deputado equivale a 72 vezes o salário médio do trabalhador nas principais metrópoles.

Câmara e Senado precisam de lideranças que compreendam e revertam tamanho divórcio entre representados e representantes, além de eliminar a atual subordinação ao Executivo. Esse é o requisito para o resgate da imagem do Legislativo, tarefa que passa por um drástico corte de despesas e privilégios nas duas Casas.

Não se espere dos favoritos nas eleições legislativas tal choque de sobriedade. O que falta à dupla em estatura para o cargo sobra na disposição de manter tudo como está.

México ameaça desbancar o Brasil - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 01/02

Governo Peña Nieto atrai oposição para fazer reformas, a economia cresce 4% com inflação baixa e o país aprimora o ambiente de negócios para atrair investimentos


Em grave crise de segurança pública, o México há tempos deixou de frequentar o noticiário econômico. Passada a euforia do início da década de 90, no período de Carlos Salinas de Gortari — depois, abatido politicamente por várias denúncias de corrupção —, o país entrou num ciclo de incertezas, amplificadas por mais uma grave crise financeira. O fortalecimento da China atraiu linhas de montagens que o Nafta havia levado para a fronteira mexicana com os Estados Unidos, e o país estacionou, enquanto o Brasil, impulsionado pela estabilização econômica do Real, ganhou grande força.

Agora, por uma trapaça das conjunturas históricas dos dois países, as situações se invertem: o México renasce — apesar dos problemas de segurança —, e o Brasil rateia no esgotamento dos efeitos positivos das reformas da Era FH e não consegue criar condições para outro salto.

O elemento catalizador desta nova fase mexicana tem sido o novo presidente, o jovem Peña Nieto, 46 anos, eleito pelo velho PRI, mas com uma agenda animadora de governo, por reformista. E assumiu com grande trunfo: um documento, “Pacto pelo México”, com as reformas, assinado também pelos partidos de oposição. É como se fosse FH em 1995, sem um PT para mover-lhe dura oposição. O entendimento se reflete na composição da equipe de governo, em que há representantes de várias correntes.

Estão na mira de Nieto mudanças para dar flexibilidade à economia: o fim de monopólios, como o das telecomunicações e energia, revitalização da Pemex (a petroleira estatal), inspirada no que foi feito com a Petrobras (pré-PT); reforma tributária, na Educação, etc.

Ajuda o plano de governo de Peña Nieto o fato de a economia do México já se encontrar em boa fase. Somado ao mal momento da economia brasileira, esta circunstância chama ainda mais a atenção dos investidores para o país.

Os números mexicanos são de causar inveja a brasileiros: a economia cresceu algo na faixa dos 4% no ano passado — o dobro da média verificada na última década —, com uma inflação também no nível dos 4%. Para comparar: o Brasil sai de 2012 com um “pibinho” no nível de 1% de expansão, uma inflação já próxima dos 6% e lépida.

Mesmo com juros de 4,5% (7,25% no Brasil), o mercado financeiro do México, segundo o “Financial Times”, atraiu, nos primeiros nove meses de 2012, US$ 57 bilhões, mais que cinco vezes o fluxo para o Brasil. (O Brasil, registre-se, procurou afastar este dinheiro, devido ao câmbio, mas não deixa de ser um dado para análise).

O jornal inglês chama o México de um “Tigre Asteca” que sai “da sombra do Brasil”. A considerar que o governo brasileiro tem assustado os investidores com ações intervencionistas e se aliado no continente a bolivarianos chavistas, enquanto o México se junta, além dos EUA, ao Chile, Colômbia e Peru, para abrir-se ainda mais ao exterior, a diferença entre os dois países tende a ficar mais nítida. Em prejuízo do Brasil.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Era, sem dúvida, rosa chiclete Ping-Pong”
Celso Kamura, cabeleireiro de Dilma, sobre roupa “vermelho-PT” usada por ela na TV


PSB ARTICULOU ‘RASTEIRA DE FACHADA’ CONTRA RENAN

A tentativa do PSB de lançar ontem, de última hora, o senador Antônio Carlos Valadares (SE) candidato ao Senado contra Renan Calheiros (PMDB-AL) foi uma jogada dupla do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Segundo senadores, Campos quis marcar posição contra o PMDB, forte concorrente para 2014 e, ao mesmo tempo, se distanciar do PSDB, que apoiou Pedro Taques (PDT-MT).

JOGO DUPLO

Eduardo Campos quer sair candidato em 2014, com apoio do PSDB, ou desbancar o PMDB da vice-presidência de Dilma.

FORA DE HORA

A ideia de lançar Valadares nos 45 do segundo tempo, são indícios de jogo apenas para “marcar posição”.

ALVO COMUM

Adversário político de Renan em Alagoas, o senador Benedito de Lira (PP) foi um dos primeiros a incentivar Valadares a entrar na disputa.

PRA BOM ENTENDEDOR

Valadares reclamou à presidente Dilma, em voo de Sergipe a Brasília, das condições em que Renan disputaria. Dilma ficou em silêncio.

GURGEL ADMITE QUE MP NÃO TEM COMO INVESTIGAR

Para disfarçar a intenção de detonar a candidatura de Renan Calheiros (PMDB) à presidência do Senado, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que só denunciou o senador sexta (25), a uma semana da eleição, por falta de tempo, alegando o julgamento do mensalão em 2012. Se só pode cuidar de um caso por vez, está demonstrado que o Ministério Público não tem mesmo condições nem a devida qualificação para dar uma de polícia e investigar crimes.

PERGUNTA NO CONGRESSO

Além de analisar provas e oferecer denúncia – seu trabalho –, o Ministério Público ainda quer investigar. A próxima bandeira será julgar?

MUITO TRABALHO

Fechadas em janeiro, as principais boates com “mulheres de luxo” de Brasília ficaram lotadas por três dias do encontro nacional de prefeitos.

MABEL LIDERA

O PMDB fez as contas, ontem, e concluiu que Sandro Mabel (GO) já tem sete votos de vantagem sobre Eduardo Cunha (RJ), o segundo na corrida pela liderança do partido na Câmara, a ser definida domingo.

VIROU PIADA

Informado pela secretária que o líder do PTB Jovair Arantes “foi ver a Rose [de Freita]”, o candidato a presidente da Câmara, Júlio Delgado (PSB-MG), não resistiu: “Ah, está me traindo com a Rose”.

TESTANDO

A equipe de informática aproveitou o dia ontem para testar os 539 tablets instalados nas bancadas do Plenário, a serem inaugurados nas eleições para presidente da Câmara, segunda. O custo: R$ 609,7 mil.

JÂNIO DISPUTADO

Jânio Quadros Neto desmentiu a notícia do eterno candidato Levy Fidelix de que a Fundação Jânio Quadros poderá abrigar o acervo do ex-presidente, “cedido” à Secretaria de Cultura de Minas. Também desautoriza o nome de Jânio na Fundação de Fidelix.

SEGURA A LÍNGUA

O PMDB ameaça desbancar o PSDB da Primeira Secretaria do Senado caso os tucanos façam alarde sobre a decisão de retirar apoio ao peemedebista Renan Calheiros a presidente do Senado.

E AS REGRAS?

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) questiona a legitimidade de candidaturas que não são do maior partido, o PMDB, ao comando do Senado: “É jogar no lixo o critério da proporcionalidade”.

JOGO DE CENA

Inúteis as viagens de Rafael Correa (Equador), Cristina Kirchner (Argentina) e do ex-presidente Lula a Cuba: médicos cubanos impedem visitas ao moribundo Hugo Chávez, apesar da constante “recuperação”.

GO NUTS

Os investidores estrangeiros que já não entendem a política cambial gangorra do ministro Guido Mantega (Fazenda) começam também a desconfiar da Petrobras, em seu pior momento desde Getúlio Vargas.

QUEM AVISA...

Os bombeiros do DF deveriam checar o Anexo 1 da Câmara. E o corredor de acesso ao arquivo, perto da TV Câmara. Uma “ratoeira”.

PENSANDO BEM...

...o Brasil está precisando de um “fiscalizador-geral de incêndios da República”.


PODER SEM PUDOR

REALIDADE E FICÇÃO

Logo após deixar o governo, em 2002, FHC fez uma viagem de férias com dona Ruth. Os dois apenas, sem seguranças ou assessores. Escolheram uma remota ilha dos mares gregos. Num restaurante, um grupo de turistas olhava insistentemente e cochichava. Um rapaz fortão do grupo se dirige ao casal, que temia alguma provocação.

- Desculpe - perguntou o rapaz -, o senhor trabalha na TV Globo, não?

E Fernando Henrique, com aquele sorriso mordaz:

- Trabalhava, meu filho, trabalhava. Meu contrato terminou.

- Ah, sim... Valeu, tchau.

FHC ainda ouviu o rapaz se gabar com a turma:

- Num falei? Num falei? É ele mesmo!

O caso foi analisado pelo sociólogo FHC e pela antropóloga Ruth.

Concluíram que, no Brasil, a força da TV é tão poderosa que realidade (Jornal Nacional) e ficção (novela das 9) se misturam facilmente.

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: Rio começa a fechar hoje teatros sem segurança
- Folha: Desemprego é o menor em 10 anos; renda sobe
- Estadão: Alvo de 3 inquéritos, Renan deve ser eleito hoje
- Correio: Tragédia Santa Maria – 235 razões para não esquecer
- Valor: Petrobras vence licitação e volta a investir na Bolívia
- Estado de Minas: Vai sair hoje à noite? Cuidado
- Jornal do Commercio: PCR fecha casas noturnas
- Zero Hora: Polícia Civil investiga empresa de bombeiro

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Se mexer, mate - LUCAS MENDES

BBC - 31/01

No meio da entrevista, o veterano do Vietnã foi atrás do enorme alto-falante, tirou um maço de Marlboro, abriu e nos ofereceu. Meu colega, da revista Stern, e eu acendemos os cigarros e levamos um susto. Pelo maço ou pelo cigarro, era impossível distinguir. Maconha vietnamita. Para um primário como eu, parecia da melhor qualidade e potência. Isto foi em 71 ou 72.

A entrevista foi inútil e não por culpa da maconha. Os depoimentos do veterano que mais tarde se tornou amigo íntimo e professor de vinho - era um provador profissional - não tinham sido testemunhados por ele. Não estava envolvido em combate. As histórias pavorosas foram contadas a ele por outros soldados que participaram e viram chacinas no chão ou dos helicópteros: "fuzilavam tudo que mexia", conforme ordens dos comandantes.

Um dos massacres mais chocantes foi o de My Lai, onde entre 347 e 504 vietnamitas, na maioria crianças, mulhers e velhos, foram fuzilados por soldados do Exército americano comandados por um tenente, William Calley. O jornalista que levantou a história, Seymour Hersh, bateu de porta em porta na grande imprensa. Rejeição em massa. Quem teve coragem de publicar a matéria foi uma nova e ainda obscura agência de notícias, Dispatch News Service - 32 jornais publicaram. Uma bomba.

Houve até punições, mas a máquina de propaganda do Exército era poderosa. O massacre, na versão oficial, foi uma atrocidade isolada: "Infelizmente, acontecem".

Nick Turse, escritor e jornalista, quase por acaso, tropeçou em uma coleção de documentos no porão do Arquivo Nacional. Eram casos encerrados. Na época, ele era um estudante escrevendo uma tese de pós-graduação sobre o Vietnã e já estava na página 200 quando encontrou as pastas. Todo dinheiro que tinha, mais o que o professor deu a ele, gastou copiando páginas às pressas. Dormia no carro no estacionamento, era o primeiro a entrar e o último a sair, com medo que fossem recolhidas. E sumiram das estantes quando publicou o primeiro artigo.

O resultado é o livro Kill Anything That Moves: The Real American War in Vietnam. Enquanto o país ainda está chocado com as cenas de tortura do filme Zero Dark Thirty (no Brasil, A Hora Mais Escura) e debate se os Estados Unidos perderam a liderança moral no mundo, a história da desumana crueldade americana no Vietnã é uma leitura repugnante que Hollywood jamais vai colocar nas telas.

A estratégia, ditada pelo secretário (de Defesa, Robert) McNamara, era a "contagem de corpos".

Pela lógica empresarial dele, se os vietnamitas vissem diariamente os números de mortos comparados com os americanos, perceberiam que estavam perdidos.

Para o secretário americano, quanto maior o número, melhor. Um comandante no Delta do Mekong era o campeão da contagem. Seus comandados saíam de helicópteros e sobrevoavam as plantações de arroz cheias de camponeses nas colheitas. Os helicópteros baixavam até apavorar os vietnamitas que corriam em busca de abrigos. Eram metralhados com a justificativa: "guerrilheiro tentou ação evasiva". Mexia, morria.

No final do dia, centenas de vietnamitas mortos. Armas capturadas: uma dúzia.

A matança de civis deixou mais de 2 milhões de mortos, 5,3 milhões de feridos, 11 milhões de refugiados e mais de 4 milhões expostos ao agente tóxico desfolhador laranja.

Dezenas de americanos denunciariam a violência e centenas foram investigados pelo Exército, mas arquivados. Foram as pastas que Nick Turse encontrou no porão.

Quase na mesma semana do lançamento do livro sobre a violência e o fracasso americano no Vietnã, foi lançado The Insurgents: David Petraeus and the Plot to Change the American Way of War, do escritor e jornalista Fred Kaplan, que escreve a coluna War Stories para o siteSlate.

O foco é no general hoje em desgraça por conduta imoral quando dirigia a CIA e teve um affair com uma biógrafa. Kaplan acompanha o general da guerra na Bósnia, as guerras do Iraque e Afeganistão. Enquanto os americanos enfrentavam insurreições diárias em quase todo país, o território comandado por Petraeus, um dos mais perigosos, estava pacificado e próspero. Ele reabriu as escolas, a universidade e a fronteira com a Síria. A população apoiava o Exército e apontava os terroristas.

Mais tarde, no comando de toda a operação no Iraque, teve resultados excepcionais que permitiram a saída dos americanos, mas a situação já voltou à instabilidade. Petraeus estava conseguindo resultados parecidos no Afeganistão quando foi chamado de volta para dirigir a CIA.

A fórmula dele, ao contrário dos americanos no Vietnã e nos primeiros anos no Iraque, não era capturar e/ou matar insurgentes. O importante era mudar as condições sociais, o que agora se chama "nation building", construir nação, que exige sensibilidade cultural, convivência com as pessoas no território ocupado, proteção e conquista da confiança da população. Os comandantes que sucederam Petraeus não tiveram o mesmo talento de liderança e administração. O futuro é incerto e perigoso nos dois países.

Como em todas situações de conflitos, há oportunistas e empreendedores do bem e do mal como o fabricante do Marlboro com maconha que pode voltar a qualquer momento. Pouco depois daquele encontro com o veterano do Vietnã, levei um maço de Marlboro para o Brasil com um cigarro vietnamita que dei, sem prevenir, para meu pai. Estávamos num restaurante e depois da primeira tragada, ele olhou o cigarro, cheirou a fumaça: "Marlboro diferente este, tem um cheirinho gostoso de mato". Algumas pessoas na mesa sacaram e começaram a rir. A querida velha, muito esperta, percebeu algo errado e jogou o cigarro fora. Pena.

Anos depois, ele ainda perguntava se ainda existia aquele Marlboro especial.