sábado, janeiro 26, 2013

DIÁRIAS TURBINADAS - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 26/01


Os valores médios das diárias de hotéis em Brasília, Fortaleza, Belo Horizonte e Salvador são os que mais subiram com a aproximação da Copa das Confederações (de 15 a 30 de junho). No DF, as tarifas oferecidas passam de US$ 127,08, em março, para US$ 227,64, aumento de 79,1% durante o evento. A variação é de 77,5% na capital cearense, 60,7% na mineira e 59,6% na baiana.

DIÁRIAS TURBINADAS 2
Os dados da pesquisa nas seis capitais que vão sediar os jogos serão discutidos com empresários do setor. O presidente da Embratur, Flávio Dino, quer agendar o encontro após o Carnaval. Recife foi onde as diárias subiram menos: 9%. O monitoramento passou a ser feito diante dos preços abusivos praticados durante a Rio+20.

PARA VER O PAPA
A prévia revela que os hotéis cariocas turbinaram menos as diárias para a Copa das Confederações (18,1%), contra 39,3% de aumento para a Jornada Mundial da Juventude (de 23 a 28 de julho). Para ver o papa Bento 16, o valor médio de hotel no Rio chega a US$ 266,16.

LUZ NO FIM DO TÚNEL
O estilista Ricardo Almeida foi parar no Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas) anteontem. Ele acompanhou funcionária que tem uma filha dependente de drogas.

A secretária da Justiça, Eloisa Arruda, recebeu-o no local e ouviu dele uma promessa: "Tenho vários tecidos antigos. Nem todos estão bons, mas para aprender a costurar dá", diz.

HORA DO RECREIO
O deputado estadual Rui Falcão (PT-SP), autor do projeto que veta publicidade infantil para alimentos e bebidas pobres em nutrientes, vai convidar o desenhista Mauricio de Sousa, que licencia a Turma da Mônica em doces e salgados, para uma conversa. "Tenho certeza de que um artista que fez tanto bem para as crianças vai mudar de opinião", diz.

MUNDO REAL
Ari Behn, escritor e marido da princesa Märtha Louise, da Dinamarca, esteve em SP na semana passada. Gravou programa que apresenta na Europa, foi a uma churrascaria e à boate Love Story.

ME O QUÊ?!
Sabrina Sato apresentou o baile de Carnaval da "Vogue", anteontem. Do palco, ela comentava as fantasias dos presentes. Apontou para uma mulher e disse: "Olha, ela veio de miss... Miss o que, gente? Me esqueci. Eu vim de miss Tupre [me estupre]", exibindo um decote até o umbigo.

A festa, no hotel Unique, foi embalada a hits de axé, como "A Dança da Bundinha", que lotaram a pista.

Ô, LÁ EM CASA
Gloria Pires, que fará a arquiteta Lota Macedo Soares no filme "Flores Raras", de Bruno Barreto, emprestou sua voz a um poema de Elizabeth Bishop, companheira da idealizadora do aterro do Flamengo, para o programa "Casa Brasileira" (GNT). A atração, que vai ao ar em 17 de fevereiro, mostrará a casa delas em Petrópolis (RJ).

ATABAQUES
A Casa do Saber vai oferecer curso sobre orixás. Marcelo Boffat coordenará as quatro aulas com trilha ao vivo. Em 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, terá banquete no restaurante de Bel Coelho.

TAMOS QUE TAMOS
Os músicos Adriano Cintra e Lucas Santtana foram ao Centro Cultural Rio Verde anteontem para a festa Tô Q Tô, que tem entre os DJs, Zé Pedro. O secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, estava na balada.

Curto-circuito
O coletivo Fora do Eixo lança às 16h, na marquise do parque Ibirapuera, a coletânea da trilha sonora do Projeto DJ Residente 2012, com músicos de todo o país.

O Paribar começa amanhã a servir brunch aos domingos, das 9h às 15h.

O grupo Grizzly Bear toca no Popload Gig em fevereiro.

LULA ARTICULA REELEIÇÃO DA DILMA - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém


O GLOBO - 26/01


Está deflagrada a sucessão presidencial. Numa conversa, ante-
ontem, no Rio, com o prefeito Eduardo Paes, Lula discutiu sincronização da campanha pela reeleição da Dilma com a eleição do sucessor de Sérgio Cabral.
Os dois principais partidos da base, o PT e o PMDB, não abrem mão dos seus respectivos candidatos, Lindbergh e Pezão.
Lula falou muito bem do Lindbergh, a quem chamou de “bem articulado e grande sedutor”. Paes contra-atacou, dizendo que Cabral e ele, juntos, não perderão eleição e criticou Lindinho por colocar a candidatura dele como fato consumado.
— Se Dilma não estiver olímpica nas eleições, palanque dividido no Rio não será bom para ela. É preciso saber o que é mais importante para o PT, se o projeto nacional ou o regional — ponderou.
Paes deixou claro, porém, que o apoio à candidatura da Dilma passa ao largo dessa disputa. Ou seja, Cabral e ele estarão com a Dilma aconteça o que acontecer.

Coragem
Antigamente, a geopolítica dividia o país apenas entre Norte e Sul. Os políticos nordestinos gostavam de provocar os sulistas, com o jargão “Há macho no Norte”.
Se o Brasil ainda estivesse dividido ao meio, e eu dissesse “Há macho também no Sul”, Eduardo Paes responderia solenemente:
— Esse cara sou eu!
Olho no olho com Lula, o prefeito exorcizou o fantasma Lindbergh. E, depois, foi se vangloriar, por telefone, com Cabral:
— Fui macho para caramba! Disse ao Lula tudo o que eu acho sobre a candidatura Lindbergh. E deixei claro que não há hipótese de abandonarmos o nosso “Bigfoot”.

Bandeira
Lula não faz um elogio pessoal ao Lindbergh. Mas destaca sua capacidade política. E se rasga em elogios pessoais a Pezão.


Meio século
Estranhei a ausência de Cabral nos encontros com Lula e perguntei a Paes se ele estava em Paris.
— O governador estava no 4º andar do Palácio Guanabara, trabalhando, como sempre. Aliás, domingo ele faz 50 anos — respondeu-me.
Pensei: vou pegar esse prefeito agora. E joguei a casca de banana:
— Mas ele voltará a tempo de comemorar o aniversário no Rio?
E o Paes, caindo feito um Jobim:
— Voltará sim. E vai comemorar comigo. Domingo cedo ele já estará aqui.

Família íntegra
Mirian Carvalho começou com uma lojinha, tendo o pai Gilberto como balconista, nas horas vagas. Agora abriu um restaurante, com suor e humildade.
Filha e pai nunca usaram o poder para obter vantagens.

Big Brother
Padilha implantou câmeras online nos principais hospitais do país.
Foi mostrar o feito a Dilma. Escolheram aleatoriamente, acredito, o hospital GHC, de Porto Alegre. E viram uma idosa com o rosto contraído por dores. Depois de 20 minutos, voltaram e viram a mesma cena.
— Padilha, liga para lá agora e diz que estou exigindo um tratamento digno para essa pobre senhora!
A velhinha foi internada na hora.

Prejuízo
Desafiei Eduardo Paes para um teste de popularidade. Levei-o para jantar no movimentado Terzetto da praça General Osório. Foi muito assediado e cumprimentado. Na saída, várias pessoas que estavam na praça o cumprimentaram.
Quem se deu mal fui eu. O jornal — que absurdo! — não reembolsa minhas despesas de restaurantes no Rio. 

“Sonho meu”
Manuela D’Ávila sonhou que Pedro Bial escreveu-lhe esta poesia:
“Gosto das sobras de Manuela /
Sobrou Verdade, /
Tinta no Cabelo, /
Crença na humanidade./ Gosto das sobras de Manuela.”
Comentou com o namorado Duca Leindecker que deveria ligar para o Bial para contar o sonho. E Duca, às gargalhadas:
— Se foi sonho, quem escreveu a poesia foi você, não o Bial.
Férias
O sucesso da cantina “Sanfelice” da Mirian deve-se à famosa campanha do boca a boca do papai. Nessa mídia, não existe ninguém melhor do que Gilbertinho, que, a partir de hoje, ficará livre de mim. Mas só por um mês.

Compreensão do futuro - MARCOS CARAMURU DE PAIVA

FOLHA DE SP - 26/01


Mesmo que o governo não tenha propensão a reformas corajosas, a China está sempre se transformando


No início desta semana, o chinês Jack Ma, 48 anos, dono dos famosíssimos "Alibaba" e "Taobao", sites de vendas na internet, anunciou que passará o comando de suas empresas à geração dos anos 70 e 80 porque "ela tem uma melhor compreensão do futuro".

Os asiáticos do leste, de uma maneira geral, estão sempre mais propensos a pensar no futuro do que a revisitar o passado.

Há exceções: os japoneses não se enquadram exatamente nesse perfil. Mianmar, até há pouco, valorizou deliberadamente o atraso. Mas a regra geral é olhar adiante e antecipar o que for possível.

Vale para os grandes temas e para o dia a dia. Os chineses, por exemplo, costumam chegar antes da hora aos compromissos. Estão sempre buscando negócios para fazer dinheiro rapidamente. Quando revelam a idade, acrescentam um ano ao tempo real de vida. A tradição é mudar de idade na virada do calendário lunar, não no aniversário.

A fixação no futuro explica os trens-bala, a ousadia arquitetônica, a falta de cerimônia ao derrubar construções ou mudá-las de lugar, levantando-as pelos alicerces e as movendo por inteiro, para encaixá-las no desenho urbano moderno.

Facilita também entender a lógica de certas políticas: a da previdência social, sobretudo. Na China, as mulheres aposentam-se aos 55 anos, os homens aos 60.

O Estado deve focar sua atenção nas novas gerações. Os idosos são principalmente responsabilidade dos jovens. A tal ponto que vários governos locais mantêm programas de auxílio financeiro regular para quem perdeu o seu filho único. Estima-se que haja dez milhões de famílias nessa situação.

Na administração pública, prefeitos aposentam-se aos 60 anos, líderes provinciais aos 65, sendo que vice-líderes não podem ascender se tiverem mais que 60.

O Partido Comunista, no entanto, no último Congresso, contornou a sua própria inclinação. Dos sete novos membros do Comitê Permanente, a mais alta instância decisória, se excluirmos os dois primeiros, Xi Jinping e Li Keqiang, que têm 60 e 58 anos respectivamente, a idade média é 66,6 anos.

Talvez muitos se indaguem: que compreensão do futuro terá o governo que se inicia em março?

Um fato é seguro: fora Xi e Li, os demais membros do Comitê permanecerão por, no máximo, cinco anos. Ou seja, o peso dos dois mais jovens, que ficarão por uma década, será mesmo grande.

Outro fato: mesmo que o Comitê não tenha propensão a promover reformas corajosas, a China está sempre se transformando.

Os dados de 2012, divulgados nos últimos cinco dias, parecem sinalizar novas tendências: crescimento menos vigoroso do PIB (7,8%), setor industrial crescendo menos do que em anos anteriores (8,1%), queda de 4% do investimento direto externo -reflexo de custos de produção mais elevados-, aumento expressivo dos investimentos chineses no exterior (28%), maior peso do consumo interno no PIB (51%), redução, pela primeira vez, da população em idade de trabalho.

Ou seja: é possível que o futuro também se tenha antecipado e, por si só, force a liderança a inovar.

Sob desconfiança - AGOSTINHO GUERREIRO


O GLOBO - 26/01

Após mais de uma década, o fantasma do apagão novamente amedronta os brasileiros. As últimas seqüências de queda no fornecimento de energia elétrica, nas regiões Norte e Nordeste do país, expõem um problema que parece estar muito longe de ser resolvido: a falta de investimentos maciços no setor energético.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou um estudo, no fim do ano passado, prevendo que serão necessários R$ 1,097 trilhão em investimentos em energia para sustentar o nosso crescimento até 2021, em um panorama de crescimento de demanda de 4,7% ao ano. Desse valor, R$ 269 bilhões serão para a energia elétrica, sendo R$ 213 bilhões em geração e R$ 56 bilhões em transmissão. Em 2012, a demanda dos segmentos de comércio e serviços e as residências cresceram acima do ritmo do PIB, e esse descolamento deve continuar. Enquanto a estimativa para o PIB é de crescimento de até 1%, o país consumiu 3,6% mais energia até novembro, em relação aos mesmos meses de 2011.

Os apagões trazem um clima de desconfiança sobre como o governo lida com as questões de infraestrutura, o que pode espantar investidores. Ao mesmo tempo em que se fala em redução das tarifas, para não onerar ainda mais o setor econômico e o chamado Custo Brasil, é preciso ampliar a oferta, preferencialmente de fontes limpas. A expansão do consumo sem o adequado desenvolvimento destas fontes traz como conseqüência o aumento do uso de energia gerada por  termelétricas, mais caras e poluentes, o que deixa o país na contramão do que tem defendido em debates internacionais para o desenvolvimento sustentável.

É fato que a situação atual dos reservatórios de água, com níveis mais baixos dos últimos dez anos, é concreta e preocupante. Mas é preciso concentrar esforços para a modernização de todo o sistema de fornecimento de energia, desde a preservação de seu maquinário e das linhas de transmissão e distribuição, até medidas de segurança e proteção, que são cruciais para que falhas sejam reduzidas. O governo afirma que o sistema elétrico é um dos maiores de transmissão do mundo e trabalha com um bom nível de confiabilidade. É inadmissível que esse sistema falhe a ponto de deixar nove estados brasileiros e o Distrito Federal sob total escuridão durante horas, como ocorreu no fim do ano passado.

Superar esses entraves será crucial para que consigamos dar um salto na competitividade. 

Vestida de campanha - LEONARDO CAVALCANTI

CORREIO BRAZILIENSE - 26/01


A oposição tem toda a razão para chiar, afinal, o pronunciamento na TV tem cheiro de eleição. Mas há poucas coisas tão eficientes para um candidato governista como reduzir a conta de luz. Qualquer movimento da oposição, por mais legítimo, corre o risco de ser desprezado pelo eleitor

No início da semana, um assessor do Palácio do Planalto deu pequena e preciosa dica sobre o plano que seria colocado em prática 48 horas depois por Dilma Rousseff: “Temos de virar o jogo. Nas três últimas semanas, enfrentamos uma agenda negativa. E a única forma de mudar é pela comunicação”, disse ele, enquanto reclamava da maquiagem dos números federais sobre o cumprimento da meta de superavit, que, segundo o camarada, foi um erro e serviu de estopim para a saraivada de críticas à petista. Na noite de quarta-feira, o que era gestado interna e silenciosamente com a ajuda de marqueteiros apareceu sob a forma de pronunciamento em cadeia de rádio e televisão. O plano de redução da conta de luz foi anunciado com ataques diretos à oposição. Dilma se vestiu de campanha.

O discurso, antecipado pelos jornalistas Ivan Iunes e Helena Mader ainda na manhã de quarta-feira no site do Correio, foi um ato contra a oposição. Ou pelo menos partes do texto, lido para ser visto e ouvido na sala do eleitor. Em um dos pontos, a ofensiva é explícita: “Aqueles que são sempre do contra vão ficar para trás”. O relato, como se sabe, foi entremeado por palavras contra “pessimistas que falam em racionamento de energia”, os que “erraram previsões”. Aqui, temos mais do que o dedo de um marqueteiro. Temos João Santana — o homem responsável pela campanha do segundo mandato de Lula e do primeiro de Dilma — de corpo inteiro. Se, na semana passada, no Piauí, a presidente vestiu o gibão e o chapéu de cangaceiro, na televisão, preferiu a cor vermelha. A de campanha.

A oposição chia e deve chiar, afinal, tudo tem cheiro de campanha antecipada. Mas há poucas coisas tão eficientes para um candidato à reeleição como a ação de reduzir a conta de uma família. Qualquer movimento da oposição, por mais legítimo, corre o risco de ser desprezado pelo eleitor. Assim, o próprio DEM, mais escaldado do que nunca, preferiu um tom mais brando. O presidente do partido, José Agripino, lamentou o fato de o governo anunciar uma ação sem ter certeza de que conseguirá mantê-la no futuro. O PSDB foi mais enfático, pois. É fato: há um proselitismo de Dilma e um discurso que tenta dividir “os que são a favor da redução da conta” e “os que são contrários”. É reduzir o debate ao nada, mas uma campanha sempre esteve longe de discussões e próxima da pura marquetagem.

Coisa de Lula

Antes do anúncio da queda no preço da conta de luz, assessores palacianos estavam acuados com as críticas na condução da economia. A proporção dos ataques da oposição — e de analistas sérios, diga-se — aumentava a cada dia, algo quase incontrolável. Ao modelo de crescimento, aproveitou-se o risco distante de racionamento para estocar o governo federal. A questão era como se defender de tais coisas. Se o presidente fosse Lula, seria até mais fácil. Durante uma inauguração, o petista faria um discurso emocionando, criticando supostos especuladores insatisfeitos com o governo, e acusaria a oposição de querer atrapalhar a administração. Com Dilma, é impossível tal coisa, até por conta do próprio perfil, muito mais racional. Assim, nada melhor do que aproveitar o anúncio da conta de luz para atacar.

A partir de agora, a estratégia governista é aguentar o aguaceiro pelas ventas, um termo marinheiro para definir que o melhor a fazer quando não há nada a fazer é esperar a tempestade passar. A tempestade trata-se das críticas da oposição ao pronunciamento de Dilma. Ao conseguir manter o preço da luz até o fim do mandato, vai tentar faturar — agora, sim — no horário eleitoral. Enquanto isso, a presidente adapta-se aos figurinos de campanha. Se na sexta-feira da semana passada foi a roupa de vaqueira, na última quarta, ficou com uniforme vermelho de campanha. O tailleur, a partir de agora, deve ficar cada vez mais no guarda-roupa do Palácio da Alvorada.

Outra coisa
Hoje é dia do Suvaco da Asa, o bloco mais democrático de uma cidade sem carnaval. Pelo menos um sábado animado de prévia momesca a gente tem direito, né não? A festa, no Cruzeiro Velho, começa às 10h, com o Suvaquinho, para as crianças. Depois, é a vez dos suvaqueiros profissionais. A alegria é de graça. Torça para o Sol aparecer e brinque na paz, pois.


Um retrovisor trincado - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 26/01


BRASÍLIA - Se a arquitetura e o urbanismo espelham o estado psíquico da nação, duas polêmicas em curso revelam um pouco da esquizofrenia da alma brasileira.

Na antiga capital, o Rio que tanto sofre por seu passado luminoso hoje travestido em esperança de mascates, Estado e município querem derrubar um prédio do século 19. A defesa da antiga sede do Museu do Índio, contudo, está fora de ordem.

Não é o caso apoiar a invasão da edificação por indígenas sem-teto; eles têm de sair, aquilo não é a pretensa "aldeia". Mas qualquer projeto urbano relativo à Copa na área do Maracanã, onde fica o prédio, deveria integrá-lo de alguma forma.

Repetem assim o paradigma paulistano de destruição em nome do progresso. Prédios antigos são as rugas que dão gravidade à face de uma cidade e, como qualquer projeto de revitalização europeu demonstra, podem e devem ser parte do futuro.

Em Brasília, a grita vai na direção contrária. O governo local contratou sem licitação e de forma milionária um escritório de Cingapura para pensar soluções aplicáveis ao entorno da cidade nos próximos 50 anos.

Em vez de achar suspeitos os meandros da contratação ou avaliar a qualidade do escritório, a guilda dos arquitetos levantou sua voz com um argumento xenofóbico tosco: deveriam ser brasileiros, esses gênios únicos da raça, a cuidar do futuro de sua capital erguida no meio do nada.

Volte à Europa e veja a contribuição de estrangeiros, a começar pelo próprio Oscar Niemeyer, ao contexto urbano de diversas cidades. Frank Gehry? Renzo Piano? Seriam vistos como intrusos aqui, e esse é talvez o mais nefasto legado do mestre brasileiro dos prédios bonitos e disfuncionais -para não falar da falência urbanística de Brasília, mas aí a conta fica mais com Lucio Costa.

Ambos os casos demonstram, com sinais trocados, a dificuldade do "país do futuro" em usar o retrovisor, cada vez mais trincado.

Fala, Gilberto Carvalho - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 26/01


O secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, diz que não há surpresa no
Planalto com a reação ao anúncio da redução da tarifa de energia. Ele diz: “A Dilma está fazendo coisas que o Lula não fez. A presidente está botando a mão no bolso dos caras. Primeiro foi a redução das taxas de juros e agora a da tarifa de energia. Não dava para imaginar que não haveria reação”.

O PSDB no divã
Tucanos de alta plumagem têm conversado sobre as eleições de 2014. Avaliam que o cenário é preocupante. Para eles, não há dúvida que a única alternativa para o Planalto é o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Mas causa apreensão o fato dele não assumir a candidatura desde já, para encurtar o campo de ação de Marina Silva (sem partido) e Eduardo Campos (PSB). Temem pelo futuro do PSDB em São Paulo, pois avaliam que o governo Geraldo Alckmin ainda não convenceu.
E consideram que o ex-governador José Serra é uma fonte permanente de constrangimento.


“A pulverização do ajuizamento de medidas judiciais possui efeito contrário ao de proteção estimulando-se a perpetuação de conflito social”
Arthur Pinheiro Chaves
Juiz da 9ª Vara da Seção Judiciária do Pará, sobre as 15 ações contra a construção da Usina de Belo Monte, no Rio Xingu

A palavra de ordem é objetividade
A presidente Dilma proibiu o uso de PowerPoint pelos ministros no encontro dos prefeitos. Ela também não quer saber de balanços e longos discursos. Os ministros devem se concentrar nos programas e ações para atender aos municípios.

Contra a anistia
A procuradora da República Sandra Cureau recebe, segunda-feira, apoio do PV à liminar que pede a declaração de inconstitucionalidade dos artigos do Código Florestal que reduzem as áreas de preservação e dão anistia aos desmatadores.

Os socialistas contra o PMDB
O PSB trabalha para convencer o PT e a presidente Dilma que o PMDB não tem peso político, no Parlamento e na sociedade, para ter o vice-presidente da República e as presidências da Câmara e do Senado. Dizem que o PMDB não tem mais governos estaduais importantes e estaria, portanto, vivendo das glórias do passado.

Afago
Reunida com auxiliares, na quinta-feira, para tratar dos anúncios para os prefeitos, a presidente Dilma fez elogios ao sistema de monitoramento de ações e obras on-line implantados na gestão do ministro Gastão Vieira (Turismo).

A versão do futuro ministro
O vice-governador Afif Domingos (PSD-SP) ligou para dizer que na audiência no Planalto tratou de PPPs. A Casa Civil informa que a reunião tratou só de PPPs e, oficialmente, desconhece “parecer jurídico” sobre acumulação de função e cargo.

COORDENADOR da tendência Movimento PT, Romênio Pereira informa que a corrente terá chapa e candidato próprio à presidência do partido.

Estetoscópio do voto - FÁBIO ZAMBELI - PAINEL


FOLHA DE SP - 26/01


Em gestação, o projeto que autoriza a atuação temporária de médicos formados em outros países no Brasil já é visto pelo Planalto como potencial marca da gestão de Dilma Rousseff na Saúde. De quebra, o pacote, que tem como objetivo reduzir filas para consultas, beneficiará Alexandre Padilha, pré-candidato em São Paulo. O ministro receberá 2.000 secretários municipais cobrando a medida na próxima semana. Antes de decidir, ouvirá também entidades contrárias à proposta.

Importação Ainda embrionária, a medida já despertou interesse de profissionais da medicina em Cuba. Interlocutores do Planalto trabalham com a possibilidade de abertura de vagas para 2.000 médicos temporários, caso a proposta vingue.

Dobradinha A equipe do Ministério da Saúde fará hoje "brainstorm" com técnicos de Fernando Haddad. O objetivo é tirar do papel a parceria do governo federal com a prefeitura para a rede "Hora Certa", promessa de campanha do petista.

Cativa Em evento ontem com Dilma, o cerimonial do Palácio dos Bandeirantes reservou a primeira fila de cadeiras para ministros. Acomodaram-se Aloizio Mercadante (Educação), Marta Suplicy (Cultura) e Padilha. Ao lado, sentou o deputado Gabriel Chalita (PMDB), cotado para assumir a Ciência e Tecnologia em fevereiro.

Todos... Ungido candidato a novo mandato no PT ontem pela majoritária CNB, Rui Falcão pretende consultar correntes minoritárias em busca do que chama de "unidade eleitoral". O presidente petista esteve ontem com Lula e Dilma em São Paulo.

...contra um A ala Mensagem ao Partido, liderada pelo governador Tarso Genro (RS) e que ocupa posições de destaque no governo de Haddad, estuda lançar o deputado federal Paulo Teixeira (SP) à disputa interna prevista para novembro.

Pegou Jorge Hage (CGU) vê "efeito multiplicador" da Lei de Acesso à Informação. Para ele, ministérios tornaram dados púbicos por conta própria. Cita novos documentos da ditadura liberados pelo Arquivo Nacional e a lista de empresas autuadas por biopirataria pelo Ibama.

Rastreamento O ministro deseja aperfeiçoar o cadastro para traçar o perfil dos que recorrem à lei. Hoje, para evitar constrangimentos, são poucos os dados obrigatórios no preenchimento dos formulários de pedidos.

Fantasia Depois da semana de tensas tratativas envolvendo a partilha do Fundo de Participação dos Estados e a eleição para a Mesa da Câmara, Eduardo Campos (PSB-PE) reservou a agenda de hoje para o Baile Municipal de Recife, que abre o Carnaval na capital pernambucana.

Horizontal Em seu congresso, que começa segunda-feira, o PSDB-SP pretende ampliar o colégio eleitoral nas disputas por cargos executivos. Pelo projeto em discussão, delegados escolherão o novo presidente da sigla. "A ideia é radicalizar a democracia interna", diz César Gontijo, secretário-geral.

Multiuso O governo paulista acertou ontem com a Fifa a cessão de áreas da escola técnica do Estado em construção ao lado do Itaquerão para abrigar centros de credenciamento e treinamento de voluntários para a Copa.

Visita à Folha José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Ana Paula Zacarias, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil, Hugo Sobral, membro do gabinete do presidente, e Leonor Ribeiro da Silva, porta-voz do presidente.

tiroteio
O Brasil se tornou um país macrocéfalo. Tem hoje uma cabeça grande e um corpo muito pequeno. Tudo é para a União.
DO SECRETÁRIO DA CASA CIVIL DE GOIÁS, VILMAR ROCHA (PSD), sobre a possível mudança nas regras de partilha do Fundo de Participação dos Estados.

Contraponto


Junto e misturado


Assim que Geraldo Alckmin se levantou para discursar, ontem, em evento de lançamento do Centro Paraolímpico Brasileiro, no Bandeirantes, Dilma Rousseff chamou Guilherme Afif (PSD), favorito para o Ministério da Micro e Pequena Empresa, e disse:

-Está tudo combinado, né?

O vice-governador acenou com a cabeça. A presidente seguiu a conversa, desta vez, ao pé do ouvido.

Afif, em seguida, tratou de explicar que se tratava de uma discussão de propostas para PPPs.

-Estamos num trabalho conjunto para desatar nós!

Qual o caminho? - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 26/01
O Brasil já passou por várias situações aqui em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Já foi o destaque da semana, nos tempos do Plano Real e em alguns anos do governo Lula. O próprio ex-presidente já foi a grande estrela de Davos, mas em anos de baixo crescimento já houve até quem sugerisse que se retirasse a letra B do acrônimo BRICS, deixando para a Rússia, índia, China e agora a África do Sul as glórias de liderarem os mercados emergentes. Mas este ano está diferente, não há uma compreensão exata da situação do Brasil.

O fato é que não somos o foco de nenhum painel, ninguém está muito preocupado com o país. Mas também ninguém tem a coragem de dizer que o Brasil não tem importância. Houve até uma ou outra voz em painéis sobre a América Latina que garantiu que o Brasil sempre será o país do futuro, incapaz de realizar a promessa. Mas esse pensamento não reflete uma tendência.

A declaração da diretora-geral do FMI Christine Lagarde de que tem dúvidas sobre a capacidade de crescimento do Brasil reflete a sensação generalizada. Todos querem entender para onde está indo o país. Ontem, num painel coordenado pela BBC, o presidente do Banco Central Alexandre Tombini foi questionado sobre o intervencionismo do governo Dilma Rousseff, culpado pela falta de investimentos dos últimos anos.

Tombini garantiu que o país está preparando um ambiente favorável aos investidores, tanto estrangeiros quanto nacionais. Confrontado com o crescimento pobre do PIB brasileiro nos últimos dois anos, o presidente do Banco Central garantiu que as medidas que estão sendo tomadas nos últimos meses, como redução das tarifas de energia elétrica, redução de encargos em folhas salariais, redução de impostos para estimular o consumo, tudo prepara um ambiente favorável aos investimentos, para garantir um crescimento mais robusto a partir deste ano.

No entanto, persistem entre os empresários sensações de insegurança com relação ao futuro do país num governo que dá sinais de ser mais intervencionista do que incentivador dos investimentos privados. A mesma redução de tarifa de energia elétrica dada como medida favorável aos investimentos pode ser usada como exemplo de intervenção governamental que deu prejuízos às companhias de energia que aderiram ao plano imposto. A ponto de a estatal

Eletrobrás estar prestes a ser extinta justamente pelos prejuízos que teve que assumir com a medida imposta pelo governo. A proximidade do governo brasileiro com a Venezuela de Chávez é outro ponto que chama a atenção dos empresários internacionais, que querem entender até onde vai a simpatia do governo brasileiro pelos métodos bolivarianos espalhados pela região.

Esse paradoxo de uma região onde a democracia predomina ser dominada politicamente por governos de características autoritárias, quando não puras ditaduras, se reflete na comissão que reúne países da América Latina e do Caribe, que passará a ser presidida por ninguém menos que o ditador cubano Raul Castro. Será ele o porta-voz da região nas negociações com a União Européia que serão realizadas este fim de semana no Chile.

A América Latina era até há bem pouco tempo dividida em dois grupos, os países capitalistas onde estão Peru, Chile, Colômbia, e os da órbita chavista, entre os quais Equador, Bolívia e até mesmo a Argentina. O Brasil, sempre colocado entre os de economia aberta, desta vez ficou no meio termo em um painel sobre a América Latina, como se com um capitalismo de Estado cada vez mais presente, e a sistemática intervenção do governo nas questões econômicas, já não fosse mais possível identificar-se imediatamente o país com o capitalismo liberal, com o capital privado tendo papel preponderante no processo econômico.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, garantiu que o governo vê um papel importante do capital privado nas obras de infraestrutura que precisam ser feitas no país. Pelo ambiente arredio revelado aqui em Davos, vão ser necessários atos concretos, mais que declarações oficiais, para convencer o empresariado de que não estamos nos transformando em uma Argentina.

Dinâmica é para valer - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - PR - 26/01


Deus não votou nestas eleições israelenses; sabiamente deixou que a dinâmica democrática fizesse o que lhe competia. O exemplo vem do outro lado do mundo, mas suas lições são tão nítidas que não convém desperdiçá-las.

Todos os prognósticos apontavam para uma vitória expressiva do radical-direitista Bibi Netanyahu e uma grande abstenção nos grandes centros, geralmente à esquerda do eleitorado. O arrogante premiê estava tão convencido da sua invencibilidade que se demitiu e provocou uma antecipação das eleições, a fim de consolidar a supremacia da coligação de extrema-direita e ultrarreligiosos que o sustenta.

Bibi ganhou, mas foi uma vitória de Pirro, pífia: sob o ponto de vista moral e político, equivaleu a uma fragorosa derrota. O herói é um centrista, convictamente secular, o telejornalista Yahir Lapid. A esquerda também brilhou e, embora a questão da criação do Estado palestino não aparecesse nos palanques, os primeiros resultados levaram um dos líderes pacifistas a comentar, esperançoso: “não precisaremos cortar os pulsos como temíamos, a hora é de arregaçar as mangas”.

As negociações para uma nova coligação apenas começaram, mas os observadores concordam que a inesperada reviravolta eleitoral equivale a uma primavera, apesar do geladíssimo inverno israelense. O clima pessimista e apocalíptico foi exportado para outras paragens.

Os expoentes do governo brasileiro e da coligação partidária que o sustentam desperdiçaram o último ano embalados em sondagens, estatísticas e na infalibilidade do seu guia, o ex-presidente Lula da Silva. Não prestaram atenção à dialética do movimento. A vitória de Fernando Haddad em outubro reforçou a inércia daqueles que se acostumaram a triunfar esquecidos dos desafios do dia seguinte.

Vitórias contínuas fabricam fadiga e onipotência, são viciosas e enganadoras porque pressupõem uma inevitabilidade que em regimes democráticos jamais se confirma. O estrago causado pelo julgamento do mensalão pode não ter afetado o resultado das eleições municipais, mas a visível revolta contra a indicação dos novos presidentes da Câmara e do Senado (Henrique Alves e Renan Calheiros) poderá acionar uma indignação popular ainda intacta e ainda insatisfeita, sobretudo porque é dirigida contra um poder da República cada vez mais desacreditado.

A fama de gerentona da presidente Dilma não se sustentará apenas com o seu timbre de voz cortante (ou os rumores sobre as broncas que passa nos auxiliares). O fantasma dos apagões não vai evaporar apenas com as notícias – ainda confusas e contraditórias – sobre a baixa das tarifas elétricas. Mesmo porque o aumento no preço da gasolina já está sendo embutido em orçamentos e projeções para os próximos meses.

A presidente não foi prudente ao declarar que fora eleita para “um mandato de oito anos”, esqueceu os caprichos da dinâmica política. Ao contrário do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, atentíssimo às oportunidades que se oferecem a cada alteração da conjuntura.

Barack Obama esperou ser reeleito para se reinventar; a presidente Dilma precisará reinventar-se muito antes de se recandidatar.

O fiasco econômico do realismo abstrato - KOLF KUNTZ


O ESTADO DE S. PAULO - 26/01
Sem uma história de sucesso para contar em Davos, brasileiros preferem ficar em casa...

Davos - A economia global continua um cenário ideal para quem curte as emoções da incerteza e do perigo iminente. Talvez por isso poucos empresários brasileiros e altos funcionários federais tenham aparecido em Davos, onde se reuniram meia centena de chefes de Estado e de governo e mais de 2 mil banqueiros, ministros, acadêmicos e figuras do mundo dos negócios. No Brasil, a maior parte do empresariado já tem emoções mais que suficientes. Quanto aos governantes, podem dispensar as discussões e conversas do Fórum Econômico Mundial. Para eles, o ambiente hostil do mercado internacional é mais que um dado indiscutível. É um pressuposto útil, porque serve para explicar os infortúnios, embora a economia seja muito fechada. Davos retribui a esnobação e concentra o foco nas economias avançadas ainda em apuros e naquelas emergentes governadas por equipes mais humildes e mais afeitas ao receituário prosaico. Curiosamente, esses países têm crescido muito mais que o Brasil.embora mais expostos à crise global, e exibem taxas de inflação menores.

A valorização cambial afetou vários desses países, em 2012, enquanto o real se depreciou. Apesar disso, muitos apresentaram contas correntes superavitárias ou com déficits proporcionalmente menores que o brasileiro - 2,8% do produto interno bruto (PIB). Seu crescimento econômico foi geralmente maior que o do Brasil ou, nos piores casos, muito parecido. Alguns exemplos: República Checa, Hungria, Rússia, Malásia, Cingapura, Coréia do Sul, Tailândia, México e Israel.

Governantes e empresários desses países poderiam ter feito um barulhão contra a guerra cambial denunciada pelos brasileiros e agora intensificada pelo Banco do Japão. As autoridades japonesas poderiam refutar a acusação, como têm feito as americanas e européias. Poderiam justificar a expansão da moeda (um tsunami, segundo a presidente Dilma Rousseff) como um esforço para reanimar a economia. Mas a explicação seria inútil, porque os líderes brasilienses continuariam gritando. As autoridades daqueles outros emergentes talvez tenham julgado mais prático deixar de lado a retórica defensiva e cuidar de tarefas mais humildes e mais cansativas. Nesses países, a maior parte das taxas de inflação ficou entre 1,8% (Israel) e 5,1% (Rússia). O caso da Hungria (5,7%) seria provavelmente descritível como o famigerado "ponto fora da curva".

Déficits em contas correntes, ensinavam os velhos manuais, têm como contrapartida o ingresso de financiamentos necessários à aceleração da economia. Casos como o da China, com superávit igual a 2,7% do PIB e crescimento econômico estimado em 7,7%, eram em geral negligenciados, por serem muito raros ou facilmente explicáveis por um taxa de poupança muito alta. Muito mais interessante seria dedicar um capítulo à estranha combinação brasileira de conta corrente deficitária, investimento inferior a 20% do PIB (somados recursos internos e externos) e crescimento econômico de 2,7% em 2011 e cerca de 1% em 2012. Seria preciso, naturalmente, confrontar o tempo de construção de um estrada no Brasil e na maior pane dos outros emergentes, assim como os custos da obra e a eficiência da gestão pública.

Manuais de economia seriam mais interessantes, teoricamente instrutivos e praticamente úteis, se mais espaço fosse dedicado a assuntos típicos do noticiário policial e dos inquéritos sobre patologias administrativas. Autores estrangeiros são em geral pouco familiarizados com o caso brasileiro. Quanto aos nacionais, talvez considerem teoricamente irrelevantes os detalhes sórdidos da política e da administração. Com alguma caricatura e, certamente, com alguma injustiça, seria possível resumir o cenário em dois blocos:

1) Os herdeiros da tradição neoclássica tendem a escrever como se os mercados fossem altamente concorrenciais, a transmissão dos estímulos ocorresse como nas economias avançadas e com maior inclusão social, a captura das agências por interesses privados fosse exceção e o investimento, variável decisiva, fosse representável por uma taxa simples e límpida, sem a consideração de fatores como prazos, custo, qualidade e importância prática do projeto. O valor gasto numa ponte entre o nada e lugar nenhum, enxertado no Orçamento por um político malandro, é contado na taxa de investimento. É somado, portanto, averba aplicada numa estrada essencial para o escoamento da soja do Centro-Oeste ou da produção industrial. O erro seria desimportante, se obras como a da ponte inútil e superfaturada fossem excepcionais. Não são.

2) Os "heterodoxos" declaram-se muito diferentes dos neoclássicos, mas são muito mais parecidos do que admitem. Raramente se preocupam com a qualidade, o custo e a produtividade do investimento, embora se apresentem como mais realistas. Esse realismo se traduz, com freqüência, num compromisso vago com uma noção ainda mais vaga de "processo dialético". Como tendem a cuidar quase só das variáveis macroeconômicas (as microeconômicas foram inventadas para engenheiros, caminhoneiros e gerentes), supervalorizam os efeitos positivos do gasto público, da expansão monetária e da manipulação cambial. No Brasil, esses fatores têm produzido relaxamento fiscal, inflação, piora das contas externas e quase nenhum crescimento. Em seu estranho realismo, esses heterodoxos dão mais importância aos números do que aos fatos representados.

Sem uma história de sucesso para contar, autoridades e empresários brasileiros preferem ficar em casa e mandar a Davos uma representação minúscula. Outros, mesmo com resultados ruins, enfrentam a discussão e disputam as atenções. E outros, com desempenho invejável, continuam batendo ponto na cidade. Um pouco mais de promoção pode sempre ajudar, mesmo quando se trata de países altamente competitivos, como China, Coréia do Sul, Indonésia, Alemanha e Chile.


Um abismo diante de nós - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 26/01


A ação da procuradora-geral da República em exercício contra o Código Florestal atenta contra a democracia


A Procuradora-Geral da República em exercício aproveitou sua interinidade para propor ao Supremo Tribunal Federal três Adins (Ações Diretas de Inconstitucionalidade) contra 23 dispositivos do novo Código Florestal, pedindo, aliás, suspensão de sua vigência enquanto estiver pendente o julgamento.

Talvez seja a primeira vez que um diploma legal sofre uma arguição de constitucionalidade em tal extensão. Se reconhecida a condição alegada, cairá por terra todo um código debatido e votado livremente nas duas Casas do Congresso, após dez anos de discussão no lugar institucional próprio e, enfim, sancionado com alguns vetos pelo Poder Executivo. E com ele cairá também, de forma irremediável, o modo democrático de funcionamento do Estado brasileiro. É disso que se trata.

A votação do Código Florestal foi um episódio especial e raro na vida do Parlamento brasileiro e no modo como se fazem as leis. O processo lento permitiu que todas as visões da matéria fossem amplamente defendidas, com total transparência. Ao final, os legisladores sabiam exatamente o que estavam votando. Entre todas as visões em disputa, algumas prevaleceram e outras foram rejeitadas.

Tudo foi feito sob a luz da imprensa livre. Venceu o ambientalismo republicano, que produziu a legislação ambiental mais restritiva e protetora da natureza de que se tem notícia em todo o mundo. Instituições de preservação, como a reserva legal e a proteção das margens dos cursos d'água, que só existem no Brasil, foram sacramentadas. Tudo às expensas do proprietário: benefícios sociais e custos privados!

A sociedade democrática pressupõe pluralidade de visões de mundo e de valores. Os conflitos resultantes dessa pluralidade não se resolvem pela imposição autocrática nem pelos meios da burocracia do Estado. Têm de ser resolvidos exclusivamente no espaço da política ou estaremos vivendo em regime autoritário.

Apenas os agentes eleitos pelo povo soberano podem dar a última palavra nessa matéria. Só a eles o povo delegou, por meio de eleições livres, esse poder.

No Brasil, estamos vivendo uma situação perigosa. Como já advertiu publicamente o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, "personagens não eleitas intentam governar os destinos da comunidade". E disse ainda: "O Poder Judiciário não pode servir de trampolim para o exercício arbitrário e ilegítimo do poder político por quem não foi eleito". Concordo com todas as letras. Estamos sob o risco de uma judicialização totalitária.

Em relação a todos os dispositivos arguidos, havia claramente duas posições opostas no Congresso. Uma visão foi amplamente vencedora, em virtude dos votos de quem tinha autoridade legítima e exclusiva para fazê-lo.

A arguição da procuradora adota, sem nenhum disfarce, todos os pontos de vista vencidos, querendo mudar, por meio de instituições não eleitas, o resultado do jogo democrático. Torna vencido o vencedor e vencedor o vencido.

A prevalecer essa distorção, estará abolido o modo de funcionamento democrático do Estado brasileiro. O Congresso não será mais necessário. Nem o controle do Executivo, por meio do poder de veto. Tudo será resolvido por instituições que não estão sob os limites do controle social e democrático.

Não se trata aqui, portanto, de uma mera discussão de tecnicidades jurídicas sobre a lei ambiental. Trata-se de definir onde se decidem, no Brasil, as visões de mundo e de valores: se no campo político e democrático do Parlamento, com a participação da sociedade, ou nos palácios da burocracia judicial.

Ao assumir integralmente pontos de vista políticos manifestados e derrotados numa votação parlamentar, sob a desculpa de contrariar vaguezas da Constituição, a procuradora da República nos arremessou a um questionamento: a vida social, de agora em diante, não deverá mais ser regulada nos espaços democráticos?

A sociedade brasileira precisa despertar para esse grande abismo que se abre diante de nós.

Pretender não é poder - CELSO MING


O ESTADO DE S. PAULO - 26/01

A Ata do Copom, publicada na quinta-feira, expôs cruamente os atuais limites do crescimento do Brasil.

Os juros básicos (Selic) já caíram o que tinham de cair. Daqui para a frente, não se espere mais generosidade do Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, em expansão do volume de moeda. Haverá estabilidade monetária "por um período de tempo suficientemente prolongado".

A desvalorização cambial (alta do dólar), entendida pelo governo como instrumento de expansão da competitividade da indústria, também não pode ser acionada mais do que já foi. Ao contrário, trabalhará na direção oposta, por duas razões. Primeira, porque a inflação disparou e se espraia (alto grau de dispersão). Neste momento, o câmbio tem de atuar como freio dos preços. Ou seja, a manutenção das cotações do dólar no nível em que estão (R$ 2,05 por dólar) fará com que os preços dos importados não aumentem em reais. Segunda razão, o câmbio vai se valorizando em termos reais. Explicando melhor: a desvalorização do real, de cerca de 20% ao longo de 2012, enfrenta a inflação do ano passado, que já foi de quase 6%, mais a inflação deste ano, provavelmente do mesmo calibre. Como as cotações do dólar deverão se manter até o fim deste ano em torno dos R$ 2,05 (parágrafo 20 da Ata), a maior parte da força que o governo pretendeu dar ao setor produtivo via câmbio está sendo carcomida pela inflação.

A outra opção, não mais ao alcance do Banco Central, mas do governo, é expandir as despesas públicas com o objetivo de relançar o setor produtivo. O Banco Central adverte que essa não é uma boa ideia. Puxaria o consumo, já fortemente esticado, o que, por sua vez, aumentaria ainda mais "o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta". Além disso, manter rédeas mais soltas no gasto público contribuiria para a perda de confiança por parte do setor produtivo.

Por falar nisso, o Banco Central reconhece que o ambiente de negócios e "a fragilidade do investimento" no Brasil enfrentam "incertezas e lenta recuperação da confiança" (parágrafo 26). Ou seja, a política econômica não passa firmeza para o setor produtivo, que é, afinal, de onde poderia provir a maior parte dos investimentos. Mesmo se der certo a ofensiva do governo nas concessões, ainda será preciso esperar pela maturação dos investimentos para ter importante aumento da oferta - como pede o Banco Central.

E, convenhamos, a política de preços dos combustíveis corrói a capacidade de expansão da Petrobrás. Portanto, a ação (ou omissão) do governo é fator de inibição do investimento no segmento do petróleo - justamente onde estaria pronto para acontecer.

O avanço da economia enfrenta mais dois importantes limites "físicos": ameaças à oferta de energia elétrica e mercado de trabalho fortemente aquecido. Dito com outras palavras, depois da sucessão de pibinhos, o setor produtivo enfrenta incertezas sobre a capacidade de suprimento de energia elétrica e uma escassez (e aumento de custos) de mão de obra. Imagine-se o que poderá acontecer se sobrevier o "pibão grandão" de 4,0% a 4,5%, pedido pela presidente Dilma Rousseff.

Enfim, o que está em foco não é quanto o País vai crescer, mas quanto pode crescer (crescimento potencial).

Forte recuo. No ano passado, foi criado somente 1,3 milhão de empregos com carteira assinada (empregos formais), o que representa uma queda de 33% em relação ao que aconteceu em 2011. Trata-se de um resultado que apenas aparentemente contraria os números do IBGE, que acusam pleno-emprego. A explicação para isso pode ser a de que mais gente passou a trabalhar por conta própria (como autônomos).

Ajustes necessários - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 26/01
A semana cheia de notas e comunicados do Banco Central terminou com a notícia de que a inadimplência das pessoas físicas voltou a subir em dezembro. No ano, o calote de seis meses cresceu 15% e já soma R$ 74 bilhões. Isso, apesar de tudo ser favorável: a taxa de desemprego caiu para um nível abaixo de 5%, a média dos juros cobrados das pessoas físicas caiu a 34%, e o prazo alongou-se.

O Banco Central define como "moderado" o ritmo de crescimento do crédito de 16,2%. Da pessoa física, o aumento foi de 17,8% em 2012. O BC vê a desaceleração. Em 2010, cresceu 20%, em 2011, 19%. Então o número parece bom, já que é menor. Mas o que tem que ser visto é que em 10 anos o total de crédito da economia foi de 25% do PIB para 53,5%. Por isso, 16,2% é muito.

O nível de atraso no pagamento das dívidas não cai porque o endividamento continua sendo estimulado pelo governo e pelo Banco Central. Em janeiro de 2005, quando a taxa Selic estava em 18,25%, os brasileiros comprometiam 15,5% da renda mensal com o pagamento de dívidas. Esse é o primeiro dado dessa série estatística. Agora, o percentual da renda comprometida é de 21,5%. Quando o atraso é acima de seis meses, os bancos têm que fazer provisão no valor total do crédito, considerando-o perdido. O sistema financeiro já mantêm R$ 74 bi desse crédito podre em seus balanços. Somando todo o crédito inadimplente, a provisão chega a R$ 130 bilhões.

Na ata do Copom, o Banco Central mudou o tom. Alertou que o balanço de riscos para a inflação aumentou, ressaltou que está havendo um aumento da dispersão: os aumentos de preços estão se espalhando por produtos e serviços. E disse que a alta de preços está mais resistente. Isso contraria o que tem sido dito no Ministério da Fazenda, mas é uma atitude mais sensata do Banco Central. Esse é o seu mandato, manter a inflação na meta, que é 4,5%. Ao endurecer o tom, o BC se esforça para afastar as dúvidas de que ele realmente esteja determinado a buscar o centro da meta.

O bom momento do emprego e o crescimento da renda ajudam, mas é preciso lembrar que a inflação permanece alta há dois anos, e ela corrói um pedaço maior dos salários. A inflação das famílias de baixa renda, medida pelo INPC, está ainda mais alta, porque tem um peso maior dos alimentos.

Uma boa notícia foi a forte redução da inadimplência do setor de veículos. Chegou a 9,1% em abril e fechou o ano em 6,5%. Mas, na outra ponta, cresceram os atrasos nos pagamentos de cheque especial, que subiram de 12,1% para 14%.

Outra novidade da ata foi o BC estimar pela primeira vez em muito tempo o reajuste do preço da gasolina. Calculou em 5%. Ao estimar que a queda da energia será de 11%, deve ter levado uma bronca, porque ontem soltou nota dizendo que está refazendo os cálculos. O problema é que as tarifas serão revistas em todas as concessionárias ao longo do ano para compensar custos que tiveram. Um desses será o uso das usinas termelétricas, que não se sabe quanto tempo ficarão ligadas. O BC não disse como chegou aos 11%, mas é razoável supor que no decorrer do ano a queda anunciada agora seja reduzida pelos reajustes dos preços.

Outro dado divulgado na semana é o das contas externas. O Brasil continua recebendo um volume impressionante de investimento estrangeiro. O fluxo foi de US$ 65,3 bi, o que deu com folga para cobrir o déficit em transações correntes. Apesar da alta do dólar, os brasileiros continuaram aumentando os gastos no exterior, que chegaram a US$ 22 bilhões. Apenas um quarto desse valor é gasto pelos estrangeiros no Brasil.

Os dados e notas divulgados pelo BC não traçam o quadro de um país em crise, mas de uma economia que precisa de muitos ajustes.

Se mexer muito, desanda... - JOSEF BARAT


O ESTADO DE S. PAULO - 26/01

Para Galbraith, as previsões dos economistas em geral serviam para reforçar a crença na astrologia. Apesar de alguma semelhança, consultorias financeiras sempre mobilizaram maior volume de recursos materiais e humanos para produzir previsões do que as colunas de astrologia. Não se pode desprezar, porém, o esforço de institutos de pesquisa que se dedicam mundo afora a fazer previsões de longo prazo sobre os Rimos da economia. No Brasil, não temos o hábito de pensar em prazos mais longos e pouco importam as perspectivas de uma década ou mais. O interesse se volta para o ano que se inicia. Mas, diante de um mundo cada vez mais integrado e sujeito a freqüentes turbulências, não nos podemos eximir de projetar- o futuro, principalmente na encruzilhada em que o Brasil se encontra.

Se formulações e objetivos são conflitantes com a realidade, os desejos de crescimento e superação da desigualdade se tomam menos alcançáveis. É praticamente impossível crescer a mais de 3% ou 4% com uma taxa de poupança em relação ao PIB de menos de 20%. É difícil superar os gargalos na infraestrutura com uma capacidade de investimento público inferior a 2% do PIB e com indecisões e mudanças nas regras do jogo pelo governo, que geram insegurança nos investidores privados. As infraestruturas são precárias e carentes de modernização e aumento de capacidade, comprometendo a competitividade das exportações e os custos para o mercado interno. Num contexto de crescimento baseado praticamente na exacerbação do endividamento e do consumo das famílias, não se tem uma idéia clara de como estimular o crescimento da poupança interna. Na formação de capital, ainda dependemos, em boa medida, da poupança externa.

Outra questão é a dependência da exportação de commodities, que teve importante papel na dinâmica do desenvolvimento recente, pois beneficiou o País com a geração de um excedente, resultado de preços favoráveis e aumento da demanda internacional. Mas para onde foi esse excedente gerado pela exploração dos recursos naturais? Aumentamos nossa capacidade de gerar conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico? Geramos mais inovações e patentes? A maior especialização na exportação de commodities favoreceu em grande escala a modernização dos setores industrial e de serviços? E a inserção do País numa nova divisão internacional do trabalho, exportando matérias-primas e importando produtos industriais, é capaz dc sustentar um novo ciclo de desenvolvimento continuado? A exploração do solo e subsolo ocorre de forma ambientalmente sustentável ou haverá esgotamento, como em ciclos passados? As respostas a essas questões remetem à necessidade de estratégias mais consistentes de longo prazo.

Talvez o problema mais grave seja a qualificação dos recursos humanos. A precariedade e as carências se dão em todos os níveis, do ensino básico ao universitário, e exigem mudanças radicais, cujos resultados só aparecem no longo prazo. Sem isso, não se dará suporte ao crescimento da indústria e dos serviços modernos, ao desenvolvimento tecnológico e à criatividade. Importante, também, lembrar que, sem a contínua qualificação do fator trabalho, o País fica condenado a ter uma péssima distribuição da renda e a perpetuar a dependência dos pobres aos programas assistenciais.

É necessária a atenção para o manejo simultâneo das políticas de curto prazo, que lidam com a conjuntura, e as de longo prazo, voltadas para questões estruturais. A complexidade e a inserção internacional da economia brasileira não permitem mais que sc retomem discussões e modelos ultrapassados. As questões são muito mais complicadas e não se resumem a câmbio, juros e tarifas de serviços públicos. É verdade que a sociedade deseja crescimento e acesso a bens de consumo. Mas quer preservar a estabilidade da moeda e a melhor oferta de educação e saúde. Esses são os desafios de longo prazo. Como nas velhas receitas de bolos caseiros, se mexer muito em direções diferentes, desanda...

Nova batalha no front da inflação - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 26/01


Prevê-se que a inflação ultrapassará o teto da meta em breve (6,5%). O BC terá de ser muito convincente, e estar bastante seguro, para manter os juros



Se dependesse da presidente Dilma, 2012 desapareceria do calendário, devido ao balanço medíocre de uma economia em marcha lenta e inflação em alta, uma combinação indigesta. E neste primeiro semestre não deverá haver boa notícia, pelo menos nos preços. Se todos os ventos sopram a favor de alguma expansão econômica — mas nada excepcional —, a inflação preocupará cada vez mais a curto prazo. Este cenário está explícito na ata da última reunião do Conselho de Política Monetário (Copom), do Banco Central, quando a taxa básica de juros foi mantida nos 7,25%.

Uma projeção para este ano, com algum viés de otimismo, foi feita pelo economista Francisco Lopes, ex-presidente do BC, em artigo no jornal “Valor”. Atento observador do comportamento da inflação, Chico Lopes prevê que ela chegará a ultrapassar o teto da meta de 6,5% até junho, porém fechando o ano abaixo dos 5,8% de 2012. No primeiro trimestre poderá explodir em 7,5%.

Portanto, aproximam-se momentos de rara tensão, porque o BC, a manter a orientação que adota, não deverá mexer nos juros. Daí o economista usar no artigo o termo “sangue frio” — o que governo e BC precisarão neste momento. Convenhamos, não faz mesmo sentido elevar a Selic com um nível de atividade ainda tão baixo.

O cenário otimista em que o IPCA encerrá o ano aquém da inflação de 2012 — embora ainda distante da meta efetiva de 4,5% — se baseia em vários fatores. Principalmente, a diminuição da pressão de alta nos alimentos e a queda no custo de energia (eis o motivo da corrida do governo Dilma para fazer de forma radical, pouco discutida, o corte de tarifas). Poderão compensar a prevista e necessária elevação dos combustíveis.

Mas novamente volta à cena o resto do governo. Quando Henrique Meirelles estava no BC, o desregramento nos gastos primários eram compensados pela política monetária (juros). Na gestão Dilma, a banda toca em outro tom. O BC executa a tarefa de cortar os juros — ninguém é contra taxas mais baixas —, mas os gastos continuam à solta. Até técnicas de contabilidade criativa foram usadas para mascarar o superávit primário.

Os gastos são mesmo necessários, mas na ponta do investimento. Porém, eles estão, como sempre, sem rédeas curtas no custeio. A ver como será este ano. O BC, como de praxe, pede uma política fiscal que o ajude na inflação. Não tem sido ouvido.

Quando os preços se aproximarem do teto da meta, será necessário muito discurso por parte do BC para defender a imobilidade do Copom. Mas será crucial a certeza da autoridade monetária de que mecanismos de realimentação da inflação não foram acionados de forma irreversível, e que expectativas de preços em alta contínua já não terão sido desencadeadas de forma perigosa.

Aproxima-se outro teste para BC e Planalto, e mais uma vez estará em jogo a estabilidade conseguida há quase 20 anos pelo Plano Real, um patrimônio da sociedade.

Metas sem planos - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADO DE S. PAULO - 26/01
Diante do risco de mais um ano de paralisia econômica, a presidente Dilma Rousseff mobiliza ministros para pôr o governo em movimento e apela a empresários para investir e ajudar o País a sair do atoleiro. Se a economia continuar derrapando, o desemprego tenderá a subir, advertem porta- vozes do setor empresarial. O alto nível de ocupação, apesar da produção industrial emperrada, é um dos mais importantes ativos políticos do governo e, em especial, da presidente. A abertura de postos na indústria já foi prejudicada. Entre janeiro e novembro, o nível médio de emprego no setor manufatureiro foi 0,2% inferior ao de 2011. Se a política econômica for incapaz de reverter esse processo e impedir a contaminação de outros setores, o projeto de reeleição será prejudicado. Esse risco impõe tarefas dramaticamente urgentes ao governo. A administração terá de mostrar em pouco tempo se conseguirá, afinal, produzir algo mais que voluntarismo e improvisação.
A presidente Dilma Rousseff, segundo informou a repórter Vera Rosa no Estado na segunda-feira, encomendou a um grupo de ministros a definição de metas para 2013 e 2014. Será preciso incluir na lista resultados para os setores de saúde e segurança, para responder a duas das mais importantes queixas dos cidadãos. Ainda segundo a reportagem, ela se encontrou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o marqueteiro João Santana, antes da conversa com os ministros. Essas informações são especialmente importantes para a avaliação do quadro atual e das possibilidades de uma ação oficial mais eficiente.

Ao cobrar metas para a segunda metade de seu mandato, a presidente reconhece, implicitamente, a carência de um plano de governo. Ela chegou ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2011, com vagas promessas de tornar mais eficiente a administração federal e de levar adiante as políticas de inclusão do governo anterior, executadas principalmente por meio da transferência de renda.

A promessa de elevar a qualidade gerencial nunca foi cumprida e provavelmente jamais será. A faxina ministerial imposta pelos fatos - seria impossível negar os escândalos ou tratá-los com panos quentes - esgotou-se na substituição de algumas pessoas. Nem o loteamento entre partidos foi abandonado nem se implantaram novos critérios de eficiência e qualidade.

O palavrório sobre planejamento jamais se concretizou cm mudanças práticas. Os planejadores foram incapazes, por exemplo, de conciliar os cronogramas de geração de eletricidade e de construção de redes transmissoras. Grandes parques eólicos continuam sem ligação com o mundo. A Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, já poderia produzir, mas falta ligação com os grandes mercados. A mesma incompetência compromete os demais investimentos. Obras de rodovias do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) avançam a passo de tartaruga. Com planos mal concebidos e mal executados - nem a Petrobrás escapou, nos últimos anos -, os balanços são maquiados com números do financiamento de imóveis.

O ano de 2012 foi de preparação, disse a presidente em discurso no Piauí, num dia de apagão em 33 cidades do Estado. Mas a "preparação" consistiu, de fato, numa colcha de retalhos formada de incentivos fiscais temporários, medidas protecionistas, desoneração da folha de salários de um número crescente de indústrias, redução dos juros e depreciação cambial.

A desoneração - improvisada - é inadequada para vários segmentos da indústria. Além disso, falta uma clara definição sobre as novas condições de financiamento da Previdência. Quanto ao corte dos juros, reflete cm parte o voluntarismo presidencial. A taxa básica foi reduzida, mas a inflação continua longe da meta e nada permite prever um recuo significativo até 2014. A "preparação" incluiu o convite ao setor privado para investir na infraestrutura. O resultado ainda será conferido.

O balanço geral é um fiasco. O investimento encolheu, a produção industrial diminuiu e o setor continua incapaz de competir, apesar do cambio depreciado. Resumo: quase 60 anos depois do Plano de Metas de Juscelino, Dilma tenta inventar as metas sem plano.

Jeitinho federativo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 26/01


Decisão liminar do STF garante repasses do Fundo de Participação dos Estados; Congresso ainda precisa fazer um debate sério sobre o tema


Presidente interino do Supremo Tribunal Federal, o ministro Ricardo Lewandowski pôs fim, ao menos por hora, nas dúvidas que vinham cercando a distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) neste ano.

O impasse não era pequeno. As regras de partilha do FPE, fixadas em 1989, deveriam ter sido atualizadas em 1992, com base no Censo do ano anterior. Como a mudança nunca ocorreu, o STF, no começo de 2010, considerou inconstitucionais os critérios vigentes e determinou que o Congresso elaborasse nova lei até o final de 2012.

Expirado o prazo, um Legislativo omisso e um Executivo inerte foram incapazes de dar conta da tarefa. Criou-se, assim, um limbo jurídico no qual diversos Estados brasileiros não sabiam se poderiam contar, já a partir de janeiro, com sua principal fonte de receitas.

Mesmo para os padrões políticos do Brasil, a negligência surpreende. É notável, assim, que Lewandowski, na decisão liminar, tenha afirmado que o Congresso "está envidando os esforços possíveis para solucionar o tema em questão".

Com uma interpretação no mínimo benevolente acerca do trabalho parlamentar nos últimos 35 meses, o ministro concedeu aos deputados e senadores mais 150 dias para que façam o que já deveriam ter feito. Até lá -ou até que o plenário do Supremo reveja a decisão-, os repasses estarão garantidos.

Dadas as circunstâncias, compreende-se que tanto membros da oposição como da base aliada tenham festejado como "sensata" a sentença de Lewandowski. Graças ao ministro, criou-se uma base jurídica "ad hoc" para evitar o que seria um desastre.

A suspensão do FPE traria prejuízos incalculáveis para o país. Basta dizer que, na Bahia -apenas o 15º Estado que mais depende do fundo-, os repasses representam um quarto da receita bruta local. No Amapá, a participação sobe para quase 70%.

A boia de salvação jogada por Lewandowski na última hora, porém, não resolve o problema. Os parlamentares ainda precisam se entender sobre os critérios de repartição do FPE, até hoje alicerçados em dados demográficos e socioeconômicos da década de 1980.

Talvez seja pedir demais, mas o ideal seria que o Congresso aproveitasse a oportunidade para discutir com seriedade, e aperfeiçoar, o arranjo federativo brasileiro.

O mais provável, no entanto, é que o tema não receba a atenção que merece. Os parlamentares inclinam-se para, mais uma vez, apostar em uma solução baseada em nada mais que o bom e velho jeitinho brasileiro.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O PCC será derrotado”
Ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) dando visibilidade à gangue que aterroriza São Paulo


SINDICÂNCIA RECOMENDA DEMISSÃO DE LUÍS ADAMS

Foi concluída, mas permanece sob sigilo, a sindicância sobre o esquema de tráfico de influência e venda de pareceres, na Advocacia-Geral da União, revelado pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal. A comissão recomendou indiciamento e demissão do ministro Luís Inácio Adams, de sua chefe de gabinete, Hebe Romano Pereira da Silva, e do consultor-geral da União, Arnaldo Sampaio de Godoy.

ESQUEMÃO

Adams, Godoy e Hebe teriam ajudado a empresa Tercondi, do ex-senador Gilberto Miranda, a permanecer na área do porto de Santos.

FUI

Homem de confiança e nº 2 da Advocacia-Geral da União, José Weber Holanda Alves já foi demitido em novembro, pela presidente Dilma.

MALAS PRONTAS

José Weber ganharia uma viagem ao exterior para ajudar o ex-senador a pedido de Rubens e Paulo Vieira, diretores das agências Anac e Ana.

IRMÃOS-MALA

Os irmãos Rubens e Paulo Vieira, que chegaram a ser presos, foram indicados aos cargos por Rosemary Noronha, amiga íntima de Lula.

DILMA TERÁ RELATO SOBRE HERÓI BRASILEIRO ANTINAZISTA

Passaportes diplomáticos já salvavam vidas. Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil em Paris até 1942, salvou mais de mil pessoas de serem enviadas a campos de extermínio (judeus, gays, comunistas e artistas), entregando-lhes o documento. A corajosa atitude do diplomata contrariou o ditador Getúlio Vargas, simpático aos nazistas. O papel desse herói brasileiro será relatado a Dilma neste domingo, Dia do Holocausto, em encontro com a comunidade judaica.

MULHER CORAGEM

Também será relatado, domingo, o papel de Aracy de Carvalho, mulher do diplomata e escritor Guimarães Rosa, protegendo judeus em perigo.

NÃO ESQUECER

O relato sobre Souza Dantas será da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP e do Instituto Shoá de Direitos Humanos.

NOVO NOME

Ex-candidato à Prefeitura de Salvador, o deputado Nelson Pelegrino é cotado na bancada do PT para assumir a liderança do governo.

DILMA COM MABEL

A presidente Dilma não se aguentou e resolveu ajudar Sandro Mabel (GO) na disputa pela liderança do PMDB. Ele sente desprezo pelo candidato mais forte, Eduardo Cunha (RJ). “Esse não dá!”, desabafou.

TENTE OUTRA VEZ

Ignora-se o que Cesare Battisti fazia na fila de embarque São Paulo-Roma, como mostrou ontem o site claudiohumberto.com.br. Fotografado por leitor do jornal L’Expresso, o terrorista escafedeu após alerta à polícia da capital italiana. Battisti será assessor internacional da CUT.

É OUTRA

O governo venezuelano vai processar o jornal espanhol El País pela barrigada da foto falsa do presidente Hugo Chávez “entubado”. Na verdade, a foto correta seria o porra-louca cercado de flores roxas.

GUERRA SEM FIM

Cresce o tráfico de cocaína da Bolívia ao Brasil, escreve o jornal Washington Post, em extensa matéria ontem com as dificuldades da PF na fronteira. Com preços nas alturas, é o consumo quem manda.

LEMA DO DEM

Segundo o presidente do DEM, José Agripino (RN), as prefeituras comandadas pelo partido vão privatizar e fazer concessões rapidamente: “O PT fez encabulado, sem convicção e mal feito”.

PR É GOVERNISTA

O líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG), avisa que o partido permanecerá na base de apoio ao governo Dilma mesmo que o deputado Anthony Garotinho venha a ser eleito líder da bancada, no dia 1º. “Estamos na base do governo; nada vai mudar isso”, afirmou.

Ó, COITADO

O governador Cid Gomes (PSB-CE) pode ser obrigado pela Justiça a tirar do bolso R$ 650 mil pagos a Ivete Sangalo com verbas da saúde, há dias. Vai se lascar: seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral em 2010 era de R$ 511,2 mil, com fazenda de 10 hectares por R$ 10 mil.

DESPERDÍCIO

O deputado Izalci (PSDB-DF) critica a gestão da Companhia Energética de Brasília (CEB), que investe alto em máquinas que não podem ser utilizadas. “O prejuízo é de mais de 55 milhões por mês”.

PENSANDO BEM...

...a ex-assessora Rosemary Noronha é o Chávez de Lula. Não morreu, mas ninguém vê.


PODER SEM PUDOR

O LOTT DE FHC

Quando ouviu de FHC, em primeira mão, que José Serra seria o candidato do governo a presidente, em 2002, o então presidente da estatal Furnas Centrais Elétricas, Luiz Carlos Santos, saiu-se com esta:

- O senhor vai repetir JK, presidente: será reconhecido pela História, mas não conseguirá eleger o próprio sucessor.

- Você acha Serra tão ruim assim?

- Serra é o Lott alfabetizado, presidente - respondeu Santos.

Candidato do JK, o general Henrique Teixeira Lott perdeu a eleição. Serra também.

SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: Juros caem, mas o calote só aumenta
- Folha: Índice de homicídios em SP é o maior em 5 anos
- Estadão: Homicídio sobe 34% em SP e reverte queda de 11 anos
- Correio: Agnelo convoca 522 médicos concursados
- Estado de Minas: O preço da felicidade
- Zero Hora: Reação do emprego em 2013 passa pela indústria
- Jornal do Commercio: Mais de 300 shows na folia do Recife