terça-feira, janeiro 15, 2013

Camaradagem - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 15/01


BRASÍLIA - O Itamaraty não se meteu onde devia, só onde não devia.

Dilma destacou para o caso Venezuela seu assessor internacional, Marco Aurélio Garcia, há décadas guru do PT na área externa. Restou aos diplomatas produzir "papers".

Desde que Garcia passou o dia e a noite de 31/12 em Havana, confabulando sobre a Venezuela com o vice Nicolás Maduro e os irmãos Fidel e Raul Castro, ficou claro que o Brasil trataria a questão com viés partidário-ideológico, não diplomático.

Foi o que também fez no caso do Paraguai, mas em sentido oposto. Aos amigos Hugo Chávez e Fernando Lugo, tudo. Às Constituições dos dois países, nem tanto.

No caso paraguaio, a Corte Suprema -como a Câmara, o Senado, a igreja e a opinião pública- confirmou a decisão (ou conveniência) interna quando Lugo foi deposto. Mas o Brasil não respeitou a decisão da Justiça e liderou a suspensão do país do Mercosul e da Unasul. A Corte referendou, mas era muito anti-Lugo...

No caso da Venezuela, Maduro nem foi eleito vice -foi ungido por Chávez-, mas a Corte Suprema ratificou sua "posse" e, assim, legitimou, ou "lavou", a posição brasileira: já que a Corte referendou... Se é muito chavista? É só um detalhe.

Se o Itamaraty deixou a bola Chávez com Dilma e Garcia, agora faz gol contra ao conceder passaporte diplomático para os criadores e líderes de uma tal Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro e Franciléia de Oliveira. Qual o sentido?

Na era Lula, o Planalto definia os passaportes para o Itamaraty assinar. Com Dilma não é assim e ela não deve ter nada a ver com o mimo para Valdemiro, que anda na mira do Ministério Público por enriquecimento, digamos, mal explicado.

O Itamaraty tem razões que a própria razão desconhece (a regalia vale para todas as igrejas?), mas acertaria mais se invertesse, assumindo a questão venezuelana e dizendo "não" para pastor investigado.

Tudo em casa - FÁBIO ZAMBELI - PAINEL


FOLHA DE SP - 15/01


Candidato favorito à presidência do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) repassou nos últimos quatro anos R$ 117 mil de sua verba de gabinete para o próprio suplente como pagamento de aluguel do imóvel onde funciona seu escritório político em Alagoas. Fábio Lopes de Farias é amigo do senador e integra a direção alagoana do partido. De abril de 2009 a novembro do ano passado, ele recebeu mensalmente valores que oscilavam de R$ 2.589 a R$ 2.799 pela cessão do imóvel.

Outro lado A assessoria do senador afirma que o contrato é de julho de 2005, "não havendo relação de causa ou consequência entre a locação e a suplência". Procurado, o suplente informou que conhece Renan "desde os tempos da universidade".

Divã Em retiro em Alagoas, Renan telefonou ontem para Michel Temer. Pediu ao vice-presidente conversa em Brasília nos próximos dias.

Rédea curta Na conversa de ontem com Temer, Dilma Rousseff quis saber em que pé está a disputa na liderança do PMDB na Câmara. O vice prometeu à presidente que terá "controle absoluto" sobre os movimentos do sucessor de Henrique Alves (RN). Estão no páreo Eduardo Cunha (RJ), Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS).

Rodízio Cunha, Luiz Sérgio (PT) e Hugo Leal (PSC) convidaram a bancada do Rio, em nome de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, para almoço de apoio à candidatura de Henrique Alves no Palácio da Cidade, sede da prefeitura, na quinta-feira. Avisados sobre os riscos legais, aliados de Alves mudaram o encontro para uma churrascaria.

Baião de dois O PT realizará, pela primeira vez, uma reunião de seu diretório nacional no Nordeste. O partido escolheu Fortaleza, administrada por aliados de Ciro e Cid Gomes (PSB), para sediar o encontro de 1° e 2 março. À ocasião, dirigentes tratarão da reforma política e da eleição de grupo para coordenar o quinto congresso da sigla.

Agora vai? Marina Silva convocou os "sonháticos" de São Paulo para explicar, no dia 22, as diretrizes do projeto de fundação de seu novo partido. O sarau foi programado para tradicional reduto marineiro na Vila Madalena.

Apertem... Frente ao que a Secretaria de Fazenda classifica como "ligeira queda na arrecadação", Geraldo Alckmin assinou decreto contingenciando 20% do custeio e investimentos das secretarias. Ficaram livres da degola Educação e Saúde, além das universidades.

... os cintos A retenção, já adotada por Alckmin no início do mandato, será obrigatória até março. O governo vai monitorar a "evolução da arrecadação no trimestre".

Quem não chora A medida provocou romaria de secretários ao Bandeirantes. Mônika Bergamaschi (Agricultura), Linamara Battistella (Pessoa com Deficiência) e Silvio Torres (Habitação) puxam a fila da lamúria.

Ato... Depois do protesto de petistas, líderes da Igreja Católica contestam critérios de escolha dos subprefeitos em São Paulo. "Não pode ser um burocrata que pega o carro às 17h e vai embora pra casa. Fernando Haddad prometeu que seria alguém do bairro, para motivar a comunidade local", diz o padre Antonio Marchioni, o Ticão.

... de contrição O prefeito nomeou para a administração regional de Ermelino Matarazzo, área de atuação do padre, Cláudio Toshio Itinoshe, que mora na Mooca.

Afago Acolhendo pleito de prefeitos, o Ministério da Fazenda adiou para 2014 o prazo para municípios adequarem práticas contábeis ao manual do setor público.

Tiroteio
Quem postula dirigir um colegiado com 513 deputados não pode alegar desconhecimento sobre emendas que beneficiam seu assessor.

DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre empresa de funcionário de Henrique Alves (RN) ter recebido recursos de emendas do peemedebista.

Contraponto


Eles estão descontrolados


Durante solenidade em que tomou posse o novo secretário paulista de Esportes e Lazer, José Auricchio Jr., ontem, no Bandeirantes, deputados discutiam o que consideram "excessivo rigor" dos mecanismos de controle sobre a administração pública. Roque Barbiere (PTB) disse:

-Criamos e apoiamos tantos órgãos de fiscalização para nos controlar... É tribunal de contas, procuradoria...

Ante a perplexidade dos colegas, o delator do "escândalo das emendas" na Assembleia paulista concluiu:

-Mesmo assim, não controlamos nem a nós mesmos. Cada um faz o que quer.

Caro Rubem Braga - ARNALDO JABOR


O Estado de S.Paulo - 15/01


Caro Rubem Braga,

Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para comemorar seu aniversário de 100 anos. Sei que me condenaria por este começo de artigo, pois você lutava contra os lugares-comuns da imprensa. Uma vez me disse que demitiria qualquer redator que começasse um texto com "Natal, Natal, bimbalham os sinos" ou então "Tirante, é obvio..." ou ainda "O comboio ficou reduzido a um montão de ferros retorcidos". Sei que, odiando lugares-comuns, você estaria rindo das homenagens que lhe prestam - velhinho com 100 anos sendo tratado como um ser especial, logo você que sempre quis ser um homem comum, sem lugar claro na vida. Você não tinha nada de 'especial', nenhum brilho ostensivo; você não falava muito e tinha a melancolia que lhe dava o posto de observação privilegiado para ver a vida correndo à sua volta 'aos borbotões, a vida ávida e passageira' (perdoe-me de novo...)

A primeira vez que nos vimos foi por volta de 1975, quando lhe pedi autorização para usar Ai de ti, Copacabana como título de meu filme Tudo Bem, que acabei não usando; mas, bem antes disso, eu tinha visto você de longe no Antonio's, nosso bar mitológico, brigando com o Di Cavalcanti ("para de pintar mulatas que você não come!", e tinha lido crônicas geniais como Um Pé de Milho - você observando um grão virar pendão em seu jardim, você, um feliz fazendeiro da Rua Júlio de Castilhos.

Vi você vendo o outono chegar a Botafogo dentro de um bonde, vi você vendo as estações do ano voando sobre Ipanema (desculpe as aliterações...), vi que você via a cidade por baixo das casas e edifícios, a praia dos tatuís hoje sumidos, o vento terral soprando nas praças, senti que você tinha uma saudade não sei de que, uma nostalgia repassava suas crônicas, como em Tom Jobim, em Vinicius, numa época em que a literatura era importante, em que o Rio tinha a placidez baldia de uma paisagem vista de dentro; lembro-me de você espinafrando a destruição de Ipanema pelos bombardeios criminosos de Sergio Dourado e Gomes de Almeida Fernandes, os dois malfeitores que exterminaram a zona sul em poucos anos. "Eu sou do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones pretos" - você batia na mesa - "e eles destruíram tudo!"

Suas frases ecoam na minha cabeça, não por alguma profundidade ambiciosa, mas justamente por uma 'superficialidade' buscada, como uma conversa de amigos íntimos. Não vou citar nada, mas estou no Rio, em frente do 'velho oceano' (ah! Cuidado com o 'rocambole'!...), são 6 da tarde e vejo ao longe as ilhas Cagarras envolvidas numa névoa roxa, naquela hora em que a linha do horizonte se une ao céu, com o mar imóvel, sólido e cinzento.

A segunda vez que lhe vi foi em sua casa, numa festa pequena para amigos onde eu entrei sem ar (quem me levou?). Ali na varanda em frente de Ipanema estavam homens que eu temia - ídolos de minha juventude angustiada. Ali estavam tomando uísque o Vinicius de Moraes, você, Fernando Sabino e minha paixão literária máxima: João Cabral de Mello Neto, o gênio da poesia. Danuza Leão também estava. Todo mundo meio de porre, principalmente o João Cabral, que bebia mal e implicava com o Vinicius numa agridoce provocação, criticando-o por ter abandonado a poesia pela música popular. João Cabral odiava música, que lhe doía na cabeça como um barulho, estragando seu pensamento obsessivo, piorando suas horrendas dores de cabeça. João Cabral sacaneava: "Que negócio de 'garota de Ipanema', Vina, você é poeta!". O Vinicius ficava puto, mas respondia conciliatório: "Para com isso, Joãozinho; deixa isso pra lá!". O Cabral insistia: "Que tonga da milonga do caburetê que nada...", a ponto de Danuza ralhar com ele: "Deixa de ser chato, João Cabral!". Lembra disso, Rubem? Imagine minha emoção de jovem tiete ao assistir àquela briguinha íntima e mixa entre minhas estrelas. A honraria me sufocava. Você ria dos dois ali no seu jardim suspenso, como um operário de outra construção - crônicas sem ambição e por isso mesmo muito além de teorias.

Lembro que, em dada hora, o João Cabral me segredou (Oh, suprema alegria!...): "O mal que Fernando Pessoa fez à poesia foi imenso." Tremi aliviado, pois secretamente sempre achei a mesma coisa - aqueles delírios portugueses lamentosos e subfilosóficos sempre me encheram. (Por favor: cartas me esculachando para a redação).

Que pena que não lhes conheci mais intimamente, pois tinha medo de vocês - não me achava digno. Naquela época (início dos 70) havia tempo e energia para se discutir literatura. Hoje, neste tempo digital e veloz, ou temos o derrame de besteiras nas redes sociais ou porcarias de autoajuda nas listas de best-sellers.

Só. Naquela época havia o consolo de um sentido, mesmo sob a ditadura, que até enfurecia nossa fome de verdade.

Tenho saudades das polêmicas sobre 'forma', sobre 'mensagens' até caretas, tenho saudades 'das velhas perguntas e das velhas respostas' - como escreveu Beckett.

A última vez que nos vimos, Rubem, foi numa noite chuvosa em que saímos do Antonio's meio de porre e eu lhe dei uma carona até a Rua Barão da Torre. No carro, você me contou, rindo com a voz pastosa, que aparecera uma garota de uns 18 anos em sua casa que resolveu se apaixonar por você e que ia ao seu jardim para 'dar ao mestre'. "Não sei o que ela vê em mim, mas vou comendo..." Adorei a confidência, mas vi que você estava mais velho e cansado, mais bêbado do que eu. Ajudei você a sair do carro até a portaria de sua pirâmide, onde deixei você, meio grato e meio irritado pela ajuda.

Depois, você morreu. Soube emocionado que você contratou a própria cremação - foi a São Paulo e o funcionário perguntou: "Pra quem é?" "Para mim mesmo", respondeu você, poeta macho. Por isso, quando vejo esse papo todo de 'fazendeiro do ar', de 'poeta do cotidiano', imagino que você diria: "Não me encham o saco. Sou apenas um pobre homem de Cachoeiro de Itapemirim..."

Grande abraço e parabéns pelos 100 anos.

A.J.

Projeto mantido - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 15/01


A presidente Dilma e o vice Michel Temer avaliaram ontem as eleições para o comando do Congresso. A despeito das denúncias, o líder do PMDB, Henrique Alves (RN), é o candidato do governo na Câmara. E Renan Calheiros (PMDB-AL), o candidato no Senado. Hoje, Alves e o petista André Vargas (PR), candidato a vice da Câmara, iniciam em Porto Alegre um giro por 11 estados.

Os petistas querem Rose fora
Escaldados pela disputa entre Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Virgílio Guimarães (PT-MG), no governo Lula, que resultou na eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) à presidência da Câmara, ministros petistas avaliam que seria conveniente que o PMDB atuasse para retirar a candidatura de Rose de Freitas (PMDB-ES) à presidência da Câmara. Os petistas veem um risco de a deputada dissidente prejudicar a eleição do candidato oficial, Henrique Alves (PMDB-RN). A cúpula do partido não vê esse risco, mas trabalha para isolar Rose com o objetivo de que ela acabe desistindo.

“Nós, do PT, apoiamos Henrique Alves por sua experiência e por entendermos que o PMDB tem sido fundamental para a governabilidade do país”
André Vargas Deputado federal (PT-PR)

O prefeito entra em campo 
Os secretários de Eduardo Paes Rodrigo Bethlem (Governo) e Pedro Paulo (Casa Civil) reassumem seus mandatos na Câmara dos Deputados, dia 4 de fevereiro, para votarem na candidatura de Eduardo Cunha para líder do PMDB na Câmara. 

Sucessão no PT 
A principal tendência do PT, a Construindo Um Novo Brasil (CNB), reúne-se nos dias 25 e 26 para decidir quem irá substituir José Guimarães (PT-CE), na vice do partido, e André Vargas (PT-PR), na Secretaria de Comunicação. Vargas, na foto, é candidato único a vice-presidente da Câmara e Guimarães é o novo líder da bancada.

Cotados para a direção do PT 
O senador Humberto Costa (PE) pode voltar a assumir a vice-presidência do PT. A Secretaria de Comunicação está sendo disputada pelos deputados Emiliano José (BA) e Paulo Ferreira (RS), que foi tesoureiro no governo Lula.

Pé na estrada 
No Planalto, a sucessão presidencial já começou. A agenda da presidente Dilma, para este ano, prevê muitas viagens país afora. Mesmo que obras e programas não estejam concluídos, a ideia dos marqueteiros palacianos é mostrar que elas estão em andamento, contrapondo-se ao discurso da oposição, que canta em prosa e verso que a crise internacional parou o Brasil.

Já ganhou?
O candidato a líder do PMDB Sandro Mabel (GO) está adotando a mesma tática que usou quando disputou a presidência da Câmara (pelo PR) contra o petista Marco Maia (RS). Ele pede votos dizendo que já tem votos para vencer.

Tucanos mantêm apoio 
Não são apenas os aliados, a oposição também está mantendo o apoio ao candidato do PMDB à presidência da Câmara, Henrique Alves. Diz o líder do PSDB, Bruno Araújo (PE): "Por enquanto, não há fato que justifique uma mudança."

Leitura de cabeceira.... 
Leitura de cabeceira. A presidente Dilma está lendo o livro "Os pilares da Terra", de Ken Follett. A trama se passa na Inglaterra de Henrique I (1068-1135).

Quando as instituições funcionam ou não... - CELSO LIMONGI

FOLHA DE SP - 15/01


Nós, cidadãos, que votamos para os parlamentares decidirem, frustramo-nos, pois quem acaba por decidir é o poder econômico


O Poder Executivo Federal, hipertrofiado, é tão poderoso que a) na sua função típica, administra a sociedade; b) mas também legisla, pois participa do processo legislativo, com o poder de sanção e veto; c) expede -e como!- medidas provisórias; d) em extenso rol de temas relevantíssimos, só ele, Executivo, detém a competência privativa para legislar, impedindo o Legislativo de fazê-lo; e) executa o Orçamento, fonte de barganhas; f) dispõe de milhares de cargos em comissão, outra fonte de barganhas; g) faz o Congresso Nacional deglutir os projetos de lei de interesse dele, Executivo.

E o Legislativo se submete, obediente, às injunções do Executivo e deixa de representar os interesses da massa popular. Os partidos políticos, que dariam voz ao povo, preocupam-se com seus próprios interesses. E nós, cidadãos, que votamos para deputado federal e senador, visando a que o Congresso Nacional decida, frustramo-nos, pois ele não decide. E quem acaba por decidir, é o Banco Mundial ou o FMI ou o mercado, este deus selvagem que despreza a ética e o afeto.

Em suma, é o poder econômico (que manda no mundo) quem decide, e eis a suma ironia: votamos, para que o Congresso decida. Mas este não decide. Quem decide não foi por nós votado! Do que se infere que o cidadão esta cada vez mais distante do núcleo político das decisões, sem que o perceba, iludido por um sistema de dominação que dissimula o poder e explora seus semelhantes.

Como o Congresso não decide, e como chegam ao Judiciário processos sobre delicados temas, como o das relações homoafetivas e o do aborto, o Supremo Tribunal Federal (STF) não fugiu de sua responsabilidade, mas foi acusado de invasão da esfera legislativa. Ocorre que os ministros foram eleitos de forma indireta pelo povo: sua nomeação decorre de ato conjunto do Executivo e do Legislativo.

Entrementes, o STF julgou o mensalão, e vimos que os ministros se empenharam em julgar com justiça, como de seu hábito, razão pela qual merecem veemente repúdio as tentativas de desqualificação desse julgamento, acoimado de "político", esboçando-se, por iniciativa de certos setores políticos, uma reação orquestrada, que despreza a inteligência do povo.

Faça-se justiça: a tais condenações não se poderia chegar, se duas outras instituições não trabalhassem com inteligência e vontade: a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF), embora suas tarefas houvessem sido facilitadas pelas declarações de Marcos Valério e de Roberto Jefferson. A Polícia Federal, porém, alinhavou as provas, trouxe-as para o MPF e este as apresentou ao Supremo.

Os magistrados reclamavam da inoperância dos órgãos da investigação e da persecução penal, antes da Constituição Federal de 1988. Para quem conhece o Judiciário, não foi surpresa a decisão condenatória emanada do STF, pois, havendo prova, os magistrados proferem decisões condenatórias, tanto que cumprem pena pessoas de prestígio, sem que o Judiciário tivesse interesse em dar publicidade a tais condenações.

E assim devem continuar os juízes, julgando sem arrogância, mas com humildade, ao passo que a imprensa, outra instituição garantidora da democracia, deverá manter-se comprometida com a verdade, impedindo a publicação de meias verdades ou inteiras mentiras, para que, no conjunto, as instituições tornem a sociedade menos infeliz...

FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA

O GLOBO - 15/01


INVESTIMENTO EM CINEMA DÁ LUCRO AO RIO
Economistas estimam que cada real aplicado pela RioFilme na produção audiovisual rende dois à cidade
Em tempos de entrega do Globo de Ouro e de tensão pré-Oscar, vale refletir sobre retorno do investimento em cinema. Os economistas Adrien Muselet e Rodrigo Guimarães calcularam para a RioFilme o impacto financeiro e no mercado de trabalho dos desembolsos da empresa municipal a projetos audiovisuais. Eles analisaram 24 produções lançadas de 2009 a 2012. 

Concluíram que cada filme gerou 230 postos de trabalho. Ao todo, foram 5.600 vagas temporárias e permanentes. Cada real investido rendeu R$ 2: um para a Prefeitura do Rio, na forma de ISS; um para a RioFilme, como retorno do investimento. “Significa que os projetos compensam não só do ponto de vista cultural, mas econômico-financeiro. Geram emprego e rendem receitas”, diz o secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão. A verba municipal, ainda segundo o estudo, costuma atrair para cada projeto o triplo do aporte de outros investidores. No PIB local, o impacto é de R$16 para cada real aplicado. É renda com bilheteria e outras receitas nas salas de cinema, licenciamento de produtos, DVD’s e blu-ray, além de aluguel de filmes. A RioFilme destinou, nos três últimos anos, R$ 42,7 milhões a 34 produções em investimento reembolsável. Os economistas analisaram os 24 que realizaram ao menos 90% do potencial econômico: do cinema ao home video.
102 MILHÕES

Foi quanto a Rio Filme já investiu em filmes, salas de cinema e eventos na cidade. De 2009 a 2012, a empresa aplicou R$ 42,7 milhões em 34 filmes como investimento reembolsável. São obras como “Tropa de elite 2”, “Heleno”, “Simonal”, “Paraísos artificiais”, “Xingu”, “Bruna Surfistinha”, “Desenrola” e “Do começo ao fim”. Outros 21 filmes receberam investimento e serão lançados nos próximos três anos.

PELE LISA
A top Alessandra Ambrósio estrela a nova campanha dos depiladores Philips Satinelle. É a 2ª vez que a bela estampa ação da marca. A peça entra no ar hoje em TV. Terá ainda inserções em mídia impressa e on-line. A intenção é conquistar as consumidoras que têm receio de usar o aparelho de depilação. Criação da Ogilvy.

Melhorou 1
O ONS alterou, de novo, as projeções para o nível dos reservatórios de hidrelétricas no fim do mês. Dessa vez, para melhor. Na revisão de 10 de janeiro, as usinas de Sudeste/Centro-Oeste chegarão ao dia 31 com 38,6% de armazenamento, contra 33,7% na estimativa anterior. Há um ano, tinham o dobro: 76,23%.

Melhorou 2
O ONS também reviu para cima o nível dos reservatórios do Sul (de 57,3% para 61%) e do Nordeste (25,4% para 29,9%). Um ano atrás, estavam em 63,28% e 71,72%, respectivamente. O relatório Ophen acompanha diariamente a situação das hidrelétricas.

Em falta
A Venezuela reduziu em 60 mil toneladas a importação de frango brasileiro em 2012. O país do presidente Hugo Chávez é o maior cliente do Brasil nas Américas.

Em alta
Já o Egito comprou 119 mil toneladas de frango do Brasil ano passado. Com isso, entrou para a lista dos dez maiores importadores do país. A Ubabef apresenta hoje, em São Paulo, o balanço do setor em 2012.

Interior
A HPN Invest, consultoria de investimentos, girou R$ 1 bilhão em 2012. Vai abrir três filiais no interior fluminense. Prevê crescer 180% este ano.

‘Campeón’
Buenos Aires foi o destino internacional preferido de brasileiros no buscador de viagens Mundi em 2012, com 35,53% das consultas. Ocupava o 4º lugar em 2011. Miami, líder anterior da lista, ficou em 2º (6,33%).

Quem vem
Joanne Yawitch, presidente da National Business Initiative, organização sul-africana, vem ao Rio conhecer o Rio Cidade Sustentável. Quer levar o projeto do CEBDS ao país.

Quem vai
É cada vez mais forte o nome do deputado Samuel Moreira (PSDB) para a presidência da Assembleia Legislativa de SP. Seria o candidato de Geraldo Alckmin. Em 2008, na eleição municipal, Moreira apoiou Gilberto Kassab (DEM) contra o atual governador. A votação é dia 15 de março.


LivreMercado
Brazil Foundation e parceiros investiram US$ 200 mil em projetos de qualificação. Em dois anos, 50 jovens de comunidades fizeram cursos de segurança eletrônica.

A Ambep abre hoje escritório em Angra. Está de olho no contingente de petroleiros da Costa Verde.

A Sentimental Filme investiu R$1,5 milhão em reestruturação em 2012. Prevê crescimento de 15% este ano.

A Ecovita, de Nova Friburgo, vai comprar da Uniplas (SP) uma sopradora, não uma envasadora. Passará a produzir suas garrafas de água mineral. A informação fora passada pela AgeRio.

NA CHUVA
O Grupo Pela Vidda Niterói, de promoção de qualidade de vida para pessoas com HIV, lança campanha de incentivo ao uso da camisinha amanhã. Faz referência aos sacos plásticos que a embalam os guarda-chuvas molhados para lembrar da importância do preservativo. Terá filme na web e oferecerá placas a empresas parceiras. É criação da Agência3.

Por esporte 1
A Amazonas Brands produziu cinco milhões de pares das sandálias licenciadas para a Copa das Confederações . Serão apresentadas hoje, na Couromoda, em SP, pelo mascote Fuleco. Ao todo, são dez modelos. Em março, lança as da Copa de 2014.

Por esporte 2
A Assim, de planos de saúde, fechou o orçamento de marketing esportivo para este ano. Vai investir R$ 2,5 milhões. A prioridade serão jovens talentos.

Com desconto
O site Discount 102, que dá cupons de descontos, terá versão carioca. Digital Net e Lessô já fecharam parceria. É aporte de R$ 200 mil.

Ação social Natura e Afro Reggae vão lançar camisas da linha Crer Pra Ver no fim do mês. O lucro das vendas vai para projetos do Instituto Natura e da ONG.

É carnaval
A Grande Rio abriu pelo 3º ano a loja sazonal no Caxias Shopping. Funciona até o fim do carnaval. A unidade venderá, além de camisetas da escola, shorts e saídas de praia. A previsão é faturar 30% mais que em 2012.

Orelhão
A oferta de ligações grátis de orelhões para linhas fixas da Oi dobrou o volume de chamadas locais nos telefones públicos do Rio. Na Baixada, triplicou; em São Gonçalo, quadruplicou.

Negociação e avaliação de desempenho - JOSÉ PASTORE


O Estado de S.Paulo - 15/01


Em setembro de 2012, uma greve de sete dias dos professores de Chicago terminou com um acordo segundo o qual o governo municipal concordou em conceder um aumento salarial para a categoria de 3%, para 2013, e de 2%, para 2014. Por sua vez, os dirigentes sindicais aceitaram um mecanismo de pontuação segundo o qual os professores passam a ser hierarquizados em níveis de desempenho. Os mal classificados terão de fazer cursos e melhorar sua atuação no prazo de um ano para, com isso, receberem o aumento de 2% em 2014. Se permanecerem na mesma condição, serão dispensados. Os classificados no nível médio também terão de melhorar o seu desempenho. Caso contrário, permanecerão empregados, mas sem o referido aumento.

Em novembro de 2012, em Newark (Estado de New Jersey), o contrato coletivo dos professores introduziu um sistema de bônus atrelado ao desempenho que permite aos mestres ganharem até US$ 12 mil adicionais por ano - US$ 5 mil, quando alcançarem bons resultados; US$ 5 mil, quando melhorarem o nível dos alunos problemáticos; e mais US$ 2 mil, quando se dedicarem ao ensino de matérias consideradas de difícil compreensão.

Inúmeras outras cidades americanas adotaram esse estilo de negociação coletiva. O presidente Barack Obama quer levar essa prática para o nível nacional como parte do esforço que o governo vem fazendo para recuperar a qualidade da educação americana. Nos Estados Unidos, 25% dos alunos não se graduam na idade certa e, entre os demais, as deficiências de linguagem, matemática e ciência têm deixado o país atrás de várias nações desenvolvidas e até mesmo de algumas emergentes.

Coincidentemente, na Coreia do Sul, a prefeitura de Seul acaba de negociar um contrato coletivo com os professores na mesma direção. A medida recebeu total apoio da população e está levando outras prefeituras a adotarem o mesmo mecanismo.

Olhemos para o nosso caso. Em 2012, o Brasil amargou uma greve dos professores do ensino superior que durou quase quatro meses, tendo atingido 57 das 59 universidades federais. Além de elevados aumentos salariais, os sindicatos pleitearam a reestruturação da carreira docente em 13 níveis. Foi uma verdadeira guerra de números. Os sindicatos puxando para cima e o governo, para baixo. Apesar de as autoridades terem adotado uma conduta mais dura do que a convencional, no acordo final, foram acertados reajustes de vencimentos de 25% a 50% até 2015 e uma reestruturação da carreira que custará bastante aos cofres públicos.

Durante quatro meses de negociação, falou-se bastante sobre o impacto daquelas medidas nas finanças públicas, mas não se tocou na importante questão do desempenho dos professores e muito menos na eventual vinculação do aumento salarial ao progresso comprovado dos alunos e ao avanço da pesquisa.

Apesar de todos reconhecerem que a má qualidade do ensino constitui um dos maiores entraves ao crescimento econômico e ao amadurecimento da cidadania e da própria democracia do Brasil, essa preocupação ficou fora da mesa de negociação. Aliás, a ausência de referência ao desempenho no trabalho tem sido a tônica das negociações coletivas do nosso setor público. Estas são altamente politizadas. Os sindicatos repudiam os sistemas de avaliação com base no mérito e no desempenho de seus filiados em desacordo com suas próprias palavras, quando atacam a precariedade da educação brasileira, e pouco se importando com os elevados aportes que nós, contribuintes, fazemos para manter seus salários e benefícios. Isso conspira contra a qualidade dos serviços públicos e, na medida em que impede o crescimento da produtividade, eleva o custo unitário do trabalho. Trata-se de um estilo de negociação que é bem diferente do que ocorre no mundo desenvolvido. Isso me intriga. Será que o mundo está todo errado e o Brasil é o único certo?

Um mandato sem meta - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 15/01


O Copom esta semana deve manter a taxa de juros, em grande parte pelo baixo ritmo de crescimento econômico do ano passado. A previsão de inflação calculada pela pesquisa do Banco Central está em 5,53%, para este ano, e 5,5%, para o ano que vem. Se for isso, o governo Dilma acabará sem que a inflação esteja no centro da meta. Ninguém acredita mais no que o Banco Central promete.

A expectativa dos analistas já é de uma taxa um ponto maior do que o centro da meta este ano e no próximo. Mesmo com a queda do preço da energia, que puxará para baixo a inflação neste começo do ano, ninguém calcula que ela voltará ao nível em que deveria estar. Essa pesquisa feita pelo Banco Central, das projeções das instituições financeiras, costuma ser otimista a médio prazo. Para o ano seguinte, em geral, o mercado prevê que a inflação ficará em torno da meta e que o crescimento vai ser o prometido pelo governo. O que a pesquisa mostra agora é que o BC está perdendo a batalha das expectativas.

Controlar as expectativas é o ponto de partida do sistema de metas de inflação. Funciona assim: o Banco Central diz qual é o seu alvo, ou seja, o centro da meta, e se compromete a levar a inflação para esse patamar, subindo ou reduzindo os juros. A partir daí, o mercado reajusta os preços levando em consideração esse compromisso, explica o economista e consultor Alexandre Schwartsman.

- A importância das expectativas é enorme. Imagine uma universidade que precisa reajustar a mensalidade, o que só acontece uma vez por ano. Se ela acredita que a inflação será de 4,5%, vai subir o preço para se proteger dessa perda. Mas se ela acha que a inflação será de 6%, vai subir um pouco mais. A lógica é a mesma para sindicatos, que brigam por salários, empresários, investidores, para a economia toda - disse.

No começo do governo Dilma, a inflação entrou acelerando e o Banco Central avisou que naquele ano não atingiria o centro da meta, mas em 2012, sim. Não foi o que ocorreu. Em 2011, ficou em 6,5%, e só não houve estouro do teto da meta porque alguns aumentos foram postergados; no ano passado, fechou em 5,84% porque mudanças no cálculo do índice e adiamentos de alguns reajustes, como gasolina, ajudaram.

Alguns economistas calculam que a inflação em 12 meses continuará subindo nos primeiros meses do ano. Schwartsman acha que o IPCA vai encostar em 6,5% ao fim do primeiro semestre e fechará 2013 na casa de 6%. Um dos problemas está na inflação de serviços, que há dois anos roda a casa de 8% e 9%.

- A economia cresce pouco, mas a inflação continua alta, em grande parte porque o mercado de trabalho está apertado. O setor de serviços consegue repassar esses reajustes salariais para os preços porque não tem concorrência. Mas o setor industrial não consegue. Isso tira competitividade da indústria e se reflete no crescimento da economia. Temos um tipo de estagflação - disse.

O Banco Central manterá os juros exatamente porque está nesse dilema: de um lado, inflação ainda alta, e de outro, crescimento muito fraco. Se fosse apenas pelo nível de atividade, deveria aumentar o incentivo ao crescimento, reduzindo as taxas; se fosse só pela inflação, era hora de elevar a taxa. O problema é que o BC está sozinho nas duas pontas. No crescimento, o governo tem investido pouco; no combate à inflação, o governo aumentou gastos e manipulou índices fiscais.

Para 2013, há a vantagem da queda do preço da energia, no curto prazo, que terá um efeito positivo no índice, mas a médio prazo há várias pressões: o uso das usinas termelétricas aumentará o custo da energia; a gasolina deverá subir de preço para atender a Petrobras, que tem reclamado que o adiamento do reajuste afeta seu caixa e capacidade de investimentos.

Se a previsão do mercado se confirmar, a inflação não verá o centro da meta durante todo o mandato da presidente Dilma Rousseff. Mas isso não é o mais importante. O que preocupa é que o regime de metas se baseia na confiança de que o Banco Central levará a inflação ao centro da meta. O espaço de flutuação é apenas para acomodar inesperados. Mas a atitude do BC está cristalizando a convicção de ele aceita um pouco mais de inflação. É essa ideia que a autoridade monetária terá que desfazer.

Melancolia - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 15/01


Após a fase de exaltação e entusiasmo que se seguiu à queda do Muro de Berlim (1989), difundiu-se no Ocidente uma sensação melancólica de decadência e de falta de perspectiva - vai que é o tal mal du siècle.

Um dos livros que nos anos 90 tentaram transmitir o otimismo fluido do período anterior foi O fim da história, do americano Francis Fukuyama. Agora, após a crise de 2008, a imprensa mundial, especialmente a dos Estados Unidos, publica abundância nunca vista de artigos, de todas as tendências, que chamam a atenção para a decadência dos Estados Unidos.

Há algumas semanas, esta Coluna comentou ensaio patrocinado pela Kauffman Foundation em que o professor Robert J. Gordon, da Northwestern University (Evaston, Illinois, Estados Unidos) conclui que o crescimento econômico nas economias maduras está com os dias contados. Longo ciclo de estagnação, diz ele, parece inevitável. Esse paper (http://www.nber.org/papers/w18315) é objeto de debates no meio acadêmico e em artigos de revistas especializadas. A propósito desse trabalho, o economista André Lara Resende assinou excelente artigo no suplemento EU&Fim de semana, do jornal Valor Econômico (Além da Conjuntura, 21/12/2012).

Neste domingo, no diário espanhol El País, o Prêmio Nobel de Literatura (2010) Mario Vargas Llosa comenta outro livro de impacto (Civilization, editado em português pela Planeta com o título Civilização: Ocidente X Oriente). Na obra, o professor Niall Ferguson (Universidade Harvard) adverte que a Civilização Ocidental enveredou irremediavelmente para a decadência. Tomam-lhe a dianteira os povos do Oriente, sobretudo o da China, que passa por impressionante transformação.

Vargas Llosa endossa as críticas de Ferguson ao mundo ocidental - principalmente à voracidade de banqueiros e homens de negócio, que apressam a destruição, e ao hedonismo que permeia os costumes. Mas lamenta o que entende como importante omissão do autor. No seu "pessimismo elegante", Ferguson não consegue enxergar na Civilização Ocidental, afirma Vargas Llosa, sua decisiva qualidade autorredentora: sua grande capacidade de autocrítica e de renovação, que tem origem na ampla liberdade de pensamento e de expressão.

À análise de Vargas Llosa, talvez pudesse ser acrescentado o fato de que hoje, quando se intensifica o processo de globalização, talvez não faça mais sentido dividir a cultura, a atividade econômica e a civilização entre Ocidental e Oriental. Neste mundo onde tudo se intercambia e se canibaliza, é duvidoso concluir que a supremacia cultural (conceito por si só duvidoso) esteja mudando de hemisfério.

A China tem 30 milhões de praticantes de piano e outros 10 milhões, de violino, instrumentos criados e desenvolvidos no Ocidente. A tecnologia lá absorvida proveio do Ocidente. A maioria de sua produção é feita por empresas multinacionais nascidas neste lado do mundo. E, lá, os conceitos de administração moderna são os mesmos ensinados nas grandes universidades americanas e na Europa.

Enfim, nesta aldeia global, alvorada e decadência provavelmente já não podem ser vistas como fenômenos meramente locais.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 15/01


Espanhola de roupas fecha última loja brasileira
A varejista espanhola Mango vai encerrar sua operação com lojas físicas no Brasil neste ano e passará a investir somente em comércio eletrônico no país.

A companhia de "fast fashion" decidiu fechar a última loja que mantinha no Brasil, localizada em Ipanema, no Rio de Janeiro.

A rede chegou a ter mais de dez lojas no país na década passada -as de São Paulo foram encerradas nos últimos dois anos.

O vice-presidente de negócios internacionais da varejista, Jose Gomez, disse ontem que a burocracia e os altos tributos sobre importação motivaram a decisão.

"Por causa dos problemas com licenças de importação, chegávamos a levar dois meses para trazermos uma coleção fabricada na Espanha. Em outros países da Ásia em que atuamos, isso leva dez dias", disse Gomez à coluna, durante evento mundial de varejistas que ocorre nesta semana em Nova York.

De acordo com ele, o Brasil é o único país dos Brics em que a empresa não conseguiu ter sucesso.

Atualmente, somente 17% da receita da companhia vem de seu mercado de origem, a Espanha. O restante está dividido entre 110 países.

Os países da América do Norte, Central e do Sul representam 5% do faturamento global da Mango.

De acordo com Gomez, a empresa reestruturou sua operação de vendas on-line no Brasil e deve concentrar forças nesse segmento, após o fechamento da última loja no Rio de Janeiro.

Mundialmente, a companhia tem aproximadamente 2.400 lojas.

SAPATO NOVO
A fabricante de sapatos femininos Ramarim apresenta hoje ao mercado sua nova marca para o público jovem -segmento em que a companhia ainda não atua.

Batizada como Whoop, a linha será de tênis para mulheres de 16 a 25 anos.

Hoje, a companhia tem outras três marcas, destinadas ao público de 25 a 45 anos.

"As empresas atualmente atendem até com sobra de demanda. Nós estamos buscando nichos diferentes para trabalharmos", afirma o diretor administrativo da empresa, Jakson Wirth.

Em cinco anos, a marca deverá representar 20% da produção total do grupo, que hoje é de 60 mil pares por dia.

A linha de produção do novo projeto foi instalada na planta do grupo em Sapiranga (a cerca de 60 quilômetros ao norte de Porto Alegre). A empresa não divulgou o valor investido.

O lançamento da marca será hoje na Couromoda, feira do setor calçadista que vai até quinta-feira em São Paulo.

60 mil
pares de sapatos são produzidos pela empresa diariamente

8%
da produção é exportada para Mercosul, Europa e Emirados Árabes

8.000
são os funcionários

ECONOMIA NA HOSPEDAGEM
A rede hoteleira Accor vai anunciar nesta semana um novo empreendimento no litoral paulista.

Com investimento de R$ 52 milhões, o projeto será erguido em Santos. Além de uma torre residencial, com 98 apartamentos, haverá um hotel de 168 unidades.

A bandeira será a Ibis Budget, de categoria supereconômica.

Aproximadamente R$ 20 milhões serão destinados à construção do hotel, que deve ficar pronto em dezembro de 2015.

Com esse, serão 85 hotéis das marcas Ibis em desenvolvimento no Brasil, segundo Franck Pruvost, diretor de operações da família Ibis na América Latina.

"A bandeira começou mais forte em grandes cidades e agora estamos indo para municípios menores. Também vamos para o interior do Estado do Rio. A tendência é uma expansão maior pelo país", afirma.

PEQUENOS DOMINANTES
As micro e pequenas empresas do setor de couro no Brasil representam 86% da produção nacional, com faturamento anual de R$ 21,8 bilhões, conforme o Sebrae.

Em 2012, mais de 5.000 empreendedores individuais, micro e pequenas empresas desse setor foram atendidos por programas do Sebrae.

Desde o ano passado até 2015, a entidade prevê que seus programas de desenvolvimento e capacitação para o setor de couro deverão atingir R$ 41 milhões. Deste total, R$ 22 milhões serão investidos pelo Sebrae.

Para enfrentar os fabricantes internacionais, a indústria de couro e calçado está investindo em qualidade, design e estratégia de mercado, segundo Luiz Barretto, presidente nacional do Sebrae.

"Nossos produtos têm qualidade para competir com os importados, sobretudo com os chineses. Os fabricantes estão inovando na produção, usando materiais alternativos, como couros exóticos, fibras e sementes", disse.

ECONOMIA PROGRAMADA
Para solucionar os problemas de logística das regiões Norte, Nordeste e Sul seriam necessários R$ 54,8 bilhões até 2020, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com federações estaduais.

O país poderia economizar R$ 13,1 bilhões por ano se modernizasse a infraestrutura de transportes das regiões e os investimentos se pagariam em quatro anos.

Pelo estudo, os recursos deveriam ser investidos em 207 projetos considerados prioritários em rodovias, ferrovias, hidrovias e portos.

A CNI ainda vai concluir a parte sobre a região Centro-Oeste no segundo semestre de 2013. A análise sobre o Sudeste será feita em seguida.

CRÉDITO APROVADO
A Caixa Econômica Federal financiou R$ 3,8 bilhões em 2012 através do cartão ConstruCard, específico para a compra de material de construção. Neste ano, R$ 5 bilhões serão disponibilizados, conforme o banco.

No mesmo período, a Mexichem Brasil, detentora das marcas Amanco, Plastubos e Bidim, atingiu R$ 117 milhões em financiamento de material de construção por meio do cartão CredConstrução Amanco.

O montante representou um aumento de 21% ante 2011, segundo a empresa.

R$ 54,8 bilhões
seriam os recursos necessários para solucionar os problemas de logística das regiões Norte, Nordeste e Sul

R$ 13,1 BILHÕES
seria a economia por ano se fosse modernizada a infraestrutura de transportes das regiões

207
projetos são considerados prioritários em rodovias, ferrovias, hidrovias e portos, de acordo com o levantamento da CNI

R$ 3,4 BILHÕES
seria a economia anual aproximada no caso da região Sul

Negócios... 
Nesta semana, a agência de atração de recursos Investe São Paulo, em parceria com a instituição financeira The Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ e sua unidade no Brasil, realizará a primeira missão conjunta ao Japão.

...no Oriente 
Estão previstos eventos com cerca de 900 empresários japoneses nas cidades de Tóquio, Nagoya e Osaka.

Cadeira 
O uruguaio Juan Pablo de Vera, presidente da Reed Exhibitions Alcantara Machado, será o novo presidente do conselho de administração da SPCVB (São Paulo Convention & Visitors Bureau) para o biênio de 2013 a 2015.

Aliança 
A operadora de turismo Marsans Brasil fechou parceria com o Santander Financiamentos para oferecer novas formas de pagamento.

Sem explicar - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 15/01

Um levantamento sobre a situação de municípios que ganharam novos prefeitos nas eleições do ano passado mostra que, do Oiapoque ao Chuí, muitos ex-prefeitos foram para casa deixando atrás de si o caos. Principalmente - e, pode-se dizer, obviamente - quando seus sucessores eram adversários políticos.

Aconteceu, ao que parece, com políticos de todos os partidos e em municípios de Norte a Sul. Há prefeituras com dívidas colossais em áreas essenciais, como serviços telefônicos e energia elétrica. Dá para entender. Em outros casos, nem sempre.

A situação mais curiosa talvez seja a de um município mineiro - Santa Luzia, da Grande Belo Horizonte - cujo prefeito, Carlos Calixto, do PSB, está iniciando seu terceiro mandato, não consecutivo. Portanto é bem conhecido pelo eleitorado local, que certamente não se surpreendeu com sua primeira providência ao voltar à prefeitura: ele determinou a suspensão dos serviços públicos, além de demitir dois mil funcionários comissionados.

Autoridades estaduais e federais não podem, obviamente, acompanhar de perto, muito menos policiar, o desempenho dos administradores municipais.

Essa é uma tarefa reservada ao eleitor, principalmente quando ele conhece, de outros mandatos, o candidato a prefeito. Portanto, os cidadãos de Santa Luzia não têm o privilégio de estranhar o colapso dos serviços públicos determinado por Calixto.

O eleitor pode - e deve - verificar em que medida a qualidade da vida no seu município é afetada, positiva ou negativamente, pelo desempenho dos administradores que seu voto elege. No caso de Santa Luzia, as gestões anteriores de Calixto certamente prepararam a população do município para as medidas iniciais do prefeito. Se estão ou não aplaudindo o seu comportamento, ainda não se sabe.

Da distância em que estamos do município mineiro, pode-se simplesmente registrar os fatos, sem a menor pretensão de tentar explicá-los.

Próspero 2013 - BENJAMIN STEINBRUCH

FOLHA DE SP - 15/01


Ano novo próspero seria um período de economia aquecida, inflação baixa, boa oferta de emprego


Poucas vezes paramos para raciocinar sobre o sentido do "próspero ano novo", essa expressão presente em quase todas as saudações de fim de ano, companheira inseparável do "feliz Natal". Como 2013 está apenas começando, gostaria de explicitar o que, a meu ver, seria um verdadeiro próspero ano novo para todos os brasileiros.

Em primeiro lugar, significa um ano de crescimento econômico maior do que o singelo 1% de 2012. Uma expansão mais forte, com inflação baixa, é inadiavelmente necessária para que não se perca o bom momento vivido pelo país em matéria de emprego -o índice de desemprego é um dos mais baixos da história, de 4,9%. Há até uma certa perplexidade entre analistas pelo fato de o baixo crescimento ter convivido, em 2012, com o elevado e crescente índice de ocupação da mão de obra. Em parte, esse enigma se explica porque os empregadores, escaldados pelas dificuldades recentes para contratar mão de obra, fazem todos os esforços para mantê-la mesmo com queda de demanda, na expectativa de uma recuperação. Porém, se o baixo crescimento se mantiver por mais tempo, certamente começará a haver dispensa de trabalhadores.

Um ano próspero depende também do sucesso no esforço para elevar os investimentos públicos, principalmente em infraestrutura. Mais por problemas de gestão do que por falta de recursos, os investimentos continuam a representar uma parcela ínfima dos gastos públicos.

A prosperidade do ano depende de uma redução drástica no custo dos financiamentos na economia. O Banco Central cortou em 2012 a taxa básica de juros para os atuais 7,25% ao ano, o nível mais baixo da história e menos de dois pontos percentuais acima da inflação. Foi um grande avanço, mas infelizmente não acompanhado por uma redução na mesma proporção nos custos do crédito tanto para a pessoa física quanto para a jurídica.

Não há como impulsionar uma economia sem expandir o crédito e não há como expandir o crédito com as taxas elevadíssimas ainda cobradas. Está correto o esforço do Ministério da Fazenda para que o sistema financeiro privado participe mais de financiamento de longo prazo, tarefa que não pode ser apenas do BNDES, que no ano passado desembolsou R$ 150 bilhões em créditos.

O ano próspero desejado nas saudações também exige continuidade da política de desoneração de tributos finalmente colocada em prática -até agora, foram beneficiados alguns setores intensivos em mão de obra. Outras desonerações, previstas em R$ 25 bilhões no Orçamento federal, são esperadas para este ano em folhas de pagamentos e em tributos em geral. A competitividade da empresa brasileira, em especial da indústria, depende disso, assim como de reduções de custos de energia, logística e burocracia.

Próspero ano novo significa conscientização das autoridades municipais, estaduais e federais a respeito da importância da educação no país. Cabe ao poder público a responsabilidade de oferecer oportunidades iguais de educação de qualidade a todos os brasileiros. Há muito tempo temos uma Lei de Responsabilidade Fiscal. Seria necessário criar também uma Lei de Responsabilidade Educacional, para punir administradores públicos que não cumprissem suas obrigações nessa área.

Igual responsabilidade deve-se exigir desses administradores no caso da saúde, setor em que a realidade ainda nos envergonha. Para o péssimo nível de saúde pública colabora o quadro desolador do saneamento no país, onde os rios que passam pelas cidades são quase sempre esgoto a céu aberto. Apenas 46% dos brasileiros são atendidos por rede de esgoto e só 38% do material coletado é tratado.

Em resumo, ano novo próspero seria um período de economia aquecida, inflação baixa, boa oferta de emprego, renda em alta e correções nas áreas em que a deficiência brasileira compromete a dignidade do cidadão ou a competitividade do país.

Vejo frequentemente nos EUA camisetas com a inscrição "God Bless America", referência à música patriótica com o mesmo título. Temos de perder a vergonha de pedir algo semelhante e passar a torcer, independentemente de ideologias ou cores partidárias, que Deus abençoe o Brasil. E para que todos tenham um ano efetivamente próspero.

Margem de manobra encolheu - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 15/01


Não são confortáveis, seja qual for o ângulo de avaliação, as perspectivas para a inflação, neste ano que está começando. O IPCA, índice de preços ao consumidor que serve de baliza para o sistema de metas de inflação, fechou mal 2012 e dá sinais de que começará mal 2013.

Mais do que a variação forte em dezembro, alcançando 0,79%, acima das expectativas do mercado, chamou a atenção a persistência do índice de difusão, que sinaliza o quanto as pressões dos preços estão disseminadas pelos itens que compõem o IPCA. Em dezembro passado, 70% deles registraram altas de preços, configurando o maior espalhamento em quatro anos.

Assim como em 2011, o mais provável é que, no acumulado em 12 meses, a variação do IPCA, mês a mês, supere os 6,5% do teto do intervalo da meta de inflação definida para 2013. Analistas só esperam um alívio a partir do quarto trimestre do ano, com a eventual distensão liderada pelos alimentos.

É esse alívio que faz a mediana das projeções do momento, coletadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, apontar para uma evolução de 5,6%, no fechamento do ano, abaixo do registrado em 2012 e 2011. Se confirmada a estimativa, o índice terá ficado dentro do intervalo das metas, mas acima do seu centro, como ocorrido em 12 dos 15 anos de vigência do sistema.

As pressões inflacionárias mais importantes, em 2012, como no ano anterior, vieram dos alimentos e do setor de serviços. Os alimentos produziram, a partir de meados do ano, choques de oferta, com origem principal em aumentos de cotações internacionais, que refletiram quebras de safras nos Estados Unidos, em razão de uma seca forte e prolongada. As altas nos serviços, de seu lado, espelham as dinâmicas do mercado de trabalho e estas continuam favoráveis a pressionar os preços, como, aliás, ocorre há pelo menos cinco anos.

Safras mais abundantes, tanto no Brasil como no mercado internacional, tendem a reduzir, este ano, o peso dos alimentos no IPCA. Os componentes dos serviços, no entanto, continuarão com forte presença nas altas de preços, evoluindo acima da média dos outros setores. Como eles respondem por cerca de um terço do índice, seu impacto negativo sobre o ritmo de convergência da inflação para o centro da meta será relevante.

Não daria muito trabalho listar uma série de outros preços importantes para os quais se projetam efeitos positivos e negativos sobre os índices de inflação, em 2013, com potencial para uns compensarem outros, neutralizando variações para cima ou para baixo. Ao previsível aumento dos preços dos combustíveis, por exemplo, pode-se contrapor a previsível redução das tarifas de energia elétrica.

Altas em tarifas de transportes urbanos e nos preços de automóveis e eletrodomésticos, represados em 2012, do mesmo modo, podem ser compensadas pelo reajuste menor do salário mínimo. E por aí vai, sem falar na dinâmica de variáveis macroeconômicas, tais como os efeitos deflacionários de uma previsível estabilização da taxa de câmbio ou de ligeira apreciação cambial, neutralizáveis, por sua vez, pelos impactos inflacionários de um também possível ritmo melhor de crescimento da economia.

No balanço das pressões entre opostos nas tendências da inflação, sobressai a necessidade de redobrar cautelas e cuidados nas projeções das variações dos índices de preços, diante do ambiente volátil em que eles devem evoluir. Seria arriscado, em resumo, tanto apostar em descontrole das taxas de inflação quanto cravar fichas numa convergência rápida para o centro da meta.

Não há risco quase nenhum, contudo, em projetar a trajetória do IPCA em 2013 - e possivelmente em 2014 - em patamares desconfortavelmente altos. Nem em considerar que, em razão da difusão das pressões inflacionárias, encolheu o intervalo de manobra da política econômica.

Um conjunto acima do normal de "trade offs" - jargão dos economistas para designar escolhas conflitantes, em que a solução de um problema pode causar outro - assombrará, neste ano, a ação econômica do governo. Um dos mais evidentes, embora nem de longe o único, é o que envolve a política cambial.

Desvalorizar a taxa de câmbio teria, certamente, impacto benéfico sobre os investimentos, a variável crucial da equação econômica do momento, e a competitividade geral da abalada indústria brasileira. Mas sua consequência deletéria sobre uma inflação já pressionada inviabiliza completamente a alternativa.

O polêmico enfrentamento do crack - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 15/01


O tratamento compulsório do viciado em crack ou qualquer outra droga não pode ser a primeira alternativa na abordagem do usuário pelo poder público



Em grandes cidades, o problema começou em São Paulo, com chegada às ruas de uma pedra barata, ao alcance de pivetes, sem-teto, lúmpens em geral. Fumado, este refugo do processo de destilação da cocaína é capaz de produzir alucinações quase instantâneas. Os viciados passaram a se concentrar numa área do chamado “centro velho” paulistano, logo batizada de Cracolândia.

Correu a história que o crack não chegava ao Rio porque o tráfico carioca impedia, temeroso do efeito devastador da pedra sobre os viciados. Não queria matar a clientela, alegava-se. Lenda. A droga também desembarcou nas ruas cariocas, e o vício ficou bastante exposto com o avanço do programa de pacificação de favelas. Sem o abrigo de traficantes, os “craqueiros” ou “cracudos” se espalham na proximidade de favelas, as principais delas próximas à Avenida Brasil, via de tráfego pesado, importante acesso à cidade.

O crack virou problema nacional. Entrou, também, em cidades menores e invadiu, por inevitável, a agenda de discussões sobre como deve ser abordada a questão do drogado. Em certo sentido, reproduz-se no crack o debate da descriminalização do consumo. Mas, nesta droga, o ponto é crítico, pois ela tem alto poder de destruição — dessocializa a pessoa em maior velocidade que a cocaína e outras substâncias tóxicas. Cabe, portanto, ao Estado proteger a integridade do viciado, como deve fazê-lo com todo o cidadão. Aqui começa a discórdia. O governo do estado de São Paulo passará, nos próximos dias, a praticar a internação compulsória de usuários de crack, política seguida pela prefeitura do Rio. Com bons resultados, escreveu em artigo publicado no GLOBO o secretário municipal de Governo, Rodrigo Bethlem.

Críticas, porém, não faltam. O próprio prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, se colocou contrário ao projeto do governador Geraldo Alkmin, porque especialistas garantem que o êxito efetivo no tratamento coercitivo é ínfimo. Os técnicos defendem a abordagem pelo convencimento do viciado a se tratar como a melhor alternativa.

Falta, de fato, bom senso em algumas operações. No Rio, começa perigosamente a entrar na rotina da cidade a cena de grupos de viciados em correria pela Avenida Brasil, para escapar de operações contra a droga. Na semana passada, um menino de 10 anos morreu, atropelado por um caminhão. Há meses, em São Paulo, uma blitz mal planejada e executada esvaziou a Cracolândia, mas espalhou os viciados pela cidade.

É indiscutível que o consumo de crack e outras drogas, além de certos limites, tira qualquer discernimento do usuário. Cabe, nesses casos, ao Estado agir para preservar a vida do viciado. Mas a internação compulsória não pode ser primeira opção de abordagem. Precisa ser a última.

O programa federal “Crack, é possível vencer”, a que metade dos estados não aderiu, pode ser um instrumento de indução a uma política nacional, apoiada no SUS, de enfrentamento desta espécie de epidemia em bases mais razoáveis.

A automutilação do Congresso - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 15/01


A proximidade da renovação das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, na abertura do ano legislativo a se iniciar em fevereiro, põe em foco - mais uma vez - a esqualidez do Congresso Nacional, que deveria ser a principal instituição política da República. Expõe também os deploráveis usos e costumes dos seus prováveis dirigentes na segunda metade da atual legislatura, decerto compartilhados por sabe-se lá quantos de seus pares. O definhamento do Congresso, diga-se desde logo, não resulta de terem sido as suas funções usurpadas pelos dois outros Poderes - o Executivo e o Judiciário. O Legislativo só tem a si próprio a culpar pela sua consolidada desimportância e a degradação incessante de sua imagem. A instituição parlamentar renunciou, por livre e espontânea vontade, à posição que lhe cabia ocupar na vida política brasileira.

Os seus integrantes de há muito deixaram de ser os formuladores da agenda nacional e os interlocutores por excelência da sociedade, nas suas agruras e aspirações. Possuídos pelo varejo dos seus cálculos de conveniência, prontos a trocar a sua primogenitura na família institucional do País pelos pratos de lentilhas saídos da cozinha do Planalto, deputados e senadores formam uma versão mumificada do vibrante corpo legislativo que deu ao País a Carta de 1988 - avalie-se como se queira o produto de seu trabalho. Nas democracias autênticas, o Parlamento deve fiscalizar os atos do governo, legislar e debater as questões nacionais. No Brasil, o Congresso não faz nada disso. O seu papel fiscalizador ele mesmo desmoralizou com as suas CPIs de fancaria, criadas a partir de interesses partidários, conduzidas com escandaloso facciosismo pela maioria de turno e encerradas sob acordos espúrios para salvar a pele dos suspeitos de lá e de cá.

Quanto às leis, ora as leis. Se os congressistas se permitem terminar um período dito legislativo sem votar nem ao menos o Orçamento da União para o ano vindouro - o projeto mais importante que incumbe ao Parlamento a cada exercício -, que dirá de tudo o mais? Propostas de autoria própria nascem, em geral, para constar. As excelências preferem contrabandear para dentro das medidas provisórias (MPs) do Executivo cláusulas que convêm às clientelas patrocinadoras de suas campanhas -e que não guardam a menor relação com o objeto da MP. O governo, por sua vez, aceita a farsa. De todo modo, se vetar partes do projeto de conversão afinal aprovado, a vida segue - mais de 3 mil vetos, muitos já encanecidos, aguardam apreciação parlamentar. O debate dos grandes assuntos, por fim, foi abandonado. O sistema de funcionamento das duas Casas do Congresso desencoraja, na prática, os pronunciamentos e réplicas que mereceriam ocupar o horário nobre de uma sessão. Em consequência, o plenário se tornou irrelevante para a imprensa.

Ao mesmo tempo, Câmara e Senado criaram monumentais aparatos multimídia de comunicação, que servem para os seus membros, reduzidos muitos à condição de vereadores federais, mostrarem serviço às bases e prepararem a sua reeleição. A regra não escrita é simples: os representantes do povo pervertem em privilégios as prerrogativas que se conferiram a pretexto de atender os seus representados.

Não há perigo de melhorar. O favorito para presidir a Câmara é o atual líder do PMDB, Henrique Alves, na Casa há 42 anos. O Ministério Público o acusa de enriquecimento ilícito. Em 2002, a sua ex-mulher informou que ele tinha US$ 15 milhões em contas não declaradas no exterior. Naquele ano, o seu patrimônio declarado era de R$ 1,2 milhão. Em 2010, somou R$ 5,5 milhões. Segundo a Folha de S.Paulo, dinheiro de emendas parlamentares de sua autoria e de um órgão federal por ele controlado beneficiou a empresa de um de seus assessores.

Já o Senado voltará a ser presidido pelo também peemedebista Renan Calheiros. Em 2007, acusado de ter despesas pessoais pagas pelo lobista de uma empreiteira, renunciou ao cargo para escapar (por pouco) à cassação do mandato. Há inquérito sobre o caso no Supremo Tribunal Federal, onde Calheiros é alvo de mais duas investigações. No Congresso, em suma, tudo que pode dar errado dá errado.

Menos atrativo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 15/01


Interferência excessiva do governo e falta de política econômica consistente pesam contra o Brasil nas escolhas de fundos de investimentos


Por causa dos impostos elevados e da maior interferência do governo na economia, grandes fundos estrangeiros passaram a trocar o Brasil por outros emergentes na hora de fazer seus investimentos.

Dados da consultoria norte-americana EPFR, especializada em fluxo de capitais, mostram que, entre os fundos voltados para mercados emergentes, a parcela investida no Brasil caiu de 16,7%, em 2009, para 11,6%, em novembro passado. É o nível mais baixo desde 2005.

Tal padrão se repete em outras categorias de investimentos. No caso de fundos globais de ações, a fatia brasileira é hoje de 1,2%, o menor patamar desde 2008.

Num claro sinal de que a capacidade de atração do país diminui, o Brasil perde espaço até mesmo se considerada apenas a América Latina, com um recuo de quase dez pontos percentuais em relação à média de 2010 e 2011.

O resultado final pode ser medido nos dados do Banco Central relativos ao investimento estrangeiro em carteira (que inclui renda fixa e ações). Nos 12 meses encerrados em novembro último, houve queda de 25% na comparação com o mesmo período de 2011.

Para um país que necessita de investimento externo a fim de financiar não só suas empresas como também o próprio governo, o cenário não é animador.

A redução, é verdade, se explica em parte pela cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capitais, que visa conter aplicações de curto prazo. No caso da renda fixa, o governo aumentou o tributo de 2% para 6% em 2010, o que praticamente zerou as entradas.

Além da tributação específica, porém, há dois fatores mais preocupantes que ajudam a entender a perda de espaço do Brasil.

Um deles é a dificuldade que o país enfrenta para retomar seu crescimento. A média de 1,8% nos últimos dois anos prejudicou a rentabilidade das empresas.

Outro fator negativo é a interferência governamental em vários setores da economia, fomentando um ambiente de incerteza para os investidores. Petróleo, mineração, bancos, siderurgia e energia -que juntos compõem mais de 50% do índice Bovespa- foram alvo de intervenções.

Para além das medidas pontuais, trata-se, mais uma vez, da incapacidade do governo de formular uma política econômica à altura dos desafios do país. Não por acaso, mais e mais investidores apontam para os riscos da leniência com a inflação e a piora das contas públicas nos últimos anos.

Em contrapartida, de certa forma até paradoxalmente, a entrada de investimento estrangeiro direto permanece alta. Se empresas brasileiras continuam sendo compradas por estrangeiros, então quem pensa no longo prazo ainda tem fé no país. Por quanto tempo?

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Nada identificamos que mude o rumo do apoio a Henrique Alves”
Deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), e as acusações ao favorito para presidir a Câmara


SARNEY INFORMA DILMA SOBRE MUDANÇAS NO PMDB

Em reunião ontem com a presidente Dilma no Planalto, o presidente do Senado, José Sarney (AP), informou que o PMDB já se decidiu sobre a divisão de cargos na Casa, em 2013. A liderança do partido ficará com Eunício Oliveira (CE), e a segunda vice-presidência com o ex-líder do governo Romero Jucá (RR). Nos cálculos do cacique peemedebista, Renan Calheiros (AL) deverá ser eleito presidente do Senado.

PRA CHAMAR DE SUA

Além do cargo na Mesa Diretora, Romero Jucá ganhará a liderança do bloco Parlamentar da Maioria, hoje exercida pelo líder do PMDB.

BOM TRÂNSITO

Eunício Oliveira foi escolhido líder do PMDB porque se relaciona bem com a cúpula do partido e tem trânsito no grupo dos “independentes”.

PRIMEIRO DA FILA

Vital do Rêgo (PMDB-PB) é o mais cotado para presidir a Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante do Senado.

PALMAS PARA ELE

Não fez mais que obrigação, mas é de se bater palmas: o deputado Chico Leite (PT) foi a todas as sessões da Câmara do DF, em 2012.

DF: FISCAIS ACUSADOS DE ASSÉDIO, NO AEROPORTO

A Receita Federal está às voltas com denúncias de humilhações e assédio moral no desembarque de voos internacionais, em Brasília. Fiscais até obrigam passageiros a sentar-se diante de computador e preencher a própria autuação. Um deles, identificado por Jânio, irritado por nada encontrar nas malas reviradas de um jovem casal, retirou e desdobrou calcinhas da moça, uma a uma, com sorriso provocador e nervoso nos lábios. Parecia tentar forçar o rapaz a perder a calma.

JÁ FOI MELHOR

A atitude dos fiscais da Receita surpreende quem estava habituado à cordialidade desde a inauguração de voos internacionais, em Brasília.

AVISO PRÉVIO

Funcionários da Receita afirmam que os colegas lotados no aeroporto de Brasília estariam ameaçando greve ou em plena “operação padrão”.

CORREGEDORIA

A Receita prometeu “levantamento” de denúncias contra seus fiscais. E informou que o contribuinte pode denunciar abusos a sua corregedoria.

LANCHA APREENDIDA

A Marinha esconde o jogo, mas a lancha “Amazônia Azul” usada por Dilma na Bahia, foi apreendida pela Receita Federal de um contribuinte relapso. A presidência da República requisitou a belezura de 56 pés e R$ 6 milhões, para uso de madame, e a manteve descaracterizada.

VIDA DE REI

Garotinho (PR-RJ) critica viagem de Lula a Angra dos Reis, onde se hospedou na casa de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp: “Ele desfruta agrados de empresários que se beneficiaram do governo”.

INVESTIGA, MP

Para o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), mesmo com o desmentido oficial da Procuradoria-Geral da República, as investigações contra o ex-presidente Lula acontecerão: “É uma exigência da sociedade”.

HUMOR ELÉTRICO

Testemunhas das tensas reuniões do setor elétrico observaram que o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) conservou o bom humor durante toda a crise. Não houve racionamento de bom espírito.

NA SURDINA

O líder do PR, Lincoln Portela (MG), foi visto ontem pela manhã, no primeiro horário, entrando no gabinete da presidente Dilma. O partido, que se declarou independente, negocia retorno à base aliada.

PARADIGMAS DA PARALISIA

A Embratur informa que desenvolve ações “alternativas” na divulgação do País no exterior, como a internet, e inclui entre os “paradigmas do passado” as feiras internacionais, onde os maiores operadores do mundo conhecem destinos que serão oferecidos a milhões de clientes.

SÓ NA SEDUÇÃO

O presidente do PEN, Adilson Barroso, insiste em tentar filiar a ex-senadora Marina Silva. “Eu entrego o comando nacional do partido, se preciso for, e ela pode sair candidata à Presidência ou a governadora”.

FORMOL

Pablo Medina, deputado trabalhista de oposição na Venezuela, garante que o presidente Hugo Chávez morreu há quinze dias e que os presidentes “amigos” foram a Cuba organizar o “espetacular” velório.

MORTOS DE RAIVA

A famosa blogueira dissidente de Cuba, Yoani Sánchez, denunciou silenciosa epidemia de cólera na ilha. Só pode ser o “efeito Chávez”.


PODER SEM PUDOR

BRISAS NÃO PAGAM CONTAS

Companheiro de farras históricas do saudoso senador Teotônio Vilela, o compositor e boêmio inveterado Zé do Cavaquinho, dono do bar "Trovador Berrante", em Viçosa (AL), é o autor de uma frase célebre: "Vida é negócio para ser vivido e gozado, nunca filosofado". Certa vez, ele precisou de um empréstimo no Banco do Brasil. Fez a barba, ajeitou os cabelos, vestiu a melhor roupa, mas esbarrou no gerente desconfiado:

- Seu Zé, o senhor vive de quê?

- Vivo de olhares e sorrisos... - disse, sem hesitar.

O empréstimo foi negado.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Além das mortes – Rio perde bilhões com acidentes em estradas
Folha: SP e RJ adiam reajuste de ônibus para frear inflação
Estadão: Haddad corta R$ 5,2 bi do orçamento e ‘congela’ obras
Correio: GDF revisa Nota Legal e libera uso de créditos
Valor: Com juro menor, crédito agora atrai até a classe A
Estado de Minas: Oh, my God!
Zero Hora: Assembleia mantém descontrole sobre empréstimo de servidores