domingo, janeiro 13, 2013
Conflitos e perplexidades - AFFONSO CELSO PASTORE
O Estado de S.Paulo - 13/01
As indicações dadas pelo Banco Central são de que o ciclo de redução da taxa de juros chegou ao fim. Em termos reais, a taxa Selic está abaixo de 2%, e a TJLP e as taxas do PSI são negativas. Essa elevada dose de estímulos monetários não impediu que em 2012 o crescimento do PIB ficasse em torno de 1%, nem tem sido capaz de gerar otimismo quanto ao crescimento em 2013. Apesar do baixo crescimento econômico, a inflação de 2012 chegou a 5,84%, com os preços dos serviços - que dependem fundamentalmente dos reajustes de salários - crescendo 8,7%, apenas um pouco abaixo da taxa de 9% de 2011. Como é possível a coexistência de crescimento econômico tão baixo ao lado de uma inflação de serviços tão elevada e persistente?
A resposta depende em parte do comportamento do mercado de trabalho. Embora a indústria não cresça e os investimentos em capital fixo estejam em queda, há pleno emprego no mercado de trabalho. A economia cresce pouco, mas a demanda de mão de obra supera o crescimento da população em idade ativa. Isto faz com que a taxa de desemprego corrigida pelas variações na taxa de participação continue declinando, atingindo no último mês um pouco abaixo de 4%, que é o seu menor valor histórico.
A combinação de uma baixa taxa de desemprego, com taxas elevadas de crescimento da população ocupada, e com os reajustes reais do salário mínimo, leva a um crescimento acelerado dos salários reais.
O Banco Central tem apontado que, no Brasil, os salários reais vêm crescendo acima dos demais países, superando em muito o crescimento da produtividade média da mão de obra. Se os salários crescessem 10%, por exemplo, e cada trabalhador produzisse 10% a mais, não haveria aumento do custo salarial por unidade de produto. Mas se os salários crescerem acima da produtividade do trabalho, haverá um empurrão de custos, que: ou será repassado para preços, gerando mais inflação; ou se transformará em redução de margens de lucro, levando à contração da produção. As duas coisas vêm ocorrendo no Brasil.
Os dados da Pesquisa Mensal de Emprego e Salários, do IBGE, mostram que, entre 2002 e 2008, os salários reais da indústria cresceram a uma taxa praticamente igual à de crescimento da produtividade da mão de obra. Mas, do início de 2010 em diante, o crescimento dos salários tem ocorrido ao lado da estagnação da produtividade do trabalhador, levando a um forte crescimento do custo unitário do trabalho. Com isso, a produção industrial tem sido desestimulada, e os preços dos serviços se elevam.
Para evitar os efeitos da elevação de custos sobre a produção industrial, o governo decidiu permitir a ocorrência de uma maior depreciação cambial, o que levaria a uma recomposição das margens de lucro. Festejou a depreciação provocada pela redução dos ingressos de capitais, acreditando que a pressão cambial não seria repassada para os preços. Ganharíamos apenas um câmbio real mais depreciado e uma relação câmbio/salários mais alta, esquecendo-se que é totalmente impossível recompor as margens de lucro sem que as empresas elevem os preços. O resultado é que assistiu a um aumento da inflação dos bens comercializáveis internacionalmente, que se somou à inflação de serviços, levando o IPCA de 2012 para 5,84%. O crescimento da inflação nos últimos meses tem uma relação estreita com a tentativa de mudar o regime cambial, buscando um câmbio real permanentemente mais depreciado, revelando que há limites ao uso do câmbio como um instrumento de política econômica.
Se persistisse na rota de uma depreciação cambial mais intensa, o governo colheria um aumento ainda maior da inflação, pulverizando a possibilidade de manter a taxa Selic constante por um extenso período. Talvez pudesse reduzir esse efeito sobre o índice de preços lançando mão de uma nova rodada de artifícios, como ocorreu com a redução do IPI de automóveis ou a manutenção dos preços da gasolina, ainda que a custa da penalização dos resultados da Petrobrás. Mas a história do último ano não é favorável a este respeito. Afinal, estes artifícios não foram suficientes para trazer a inflação para a meta, como prometia o Banco Central, mostrando que nada substitui uma política monetária bem feita, ancorando a inflação no cumprimento da meta.
Se o Banco Central estiver realmente comprometido com a meta de inflação, sabe que atualmente não há espaço para novas reduções da taxa Selic, e se o governo quiser ajudar o Banco Central a atingir a meta não pode querer uma depreciação cambial mais intensa. No entanto, apesar da perspectiva de continuidade do crescimento do consumo, as notícias vindas dos investimentos não são boas. No quarto trimestre de 2012, a formação bruta de capital fixo deve ter sofrido uma nova queda, e as perspectivas são de que esse comportamento deva continuar. Os riscos vindos do abastecimento de energia acentuam esse movimento. A perspectiva para 2013 é de um crescimento baixo do PIB. As projeções de consenso, atualmente em 3,3%, ainda não incorporam totalmente os riscos vindos da oferta de energia, e deverão cair nos próximos meses.
Esbarrando nos limites quanto à queda da taxa de juros e quanto à depreciação cambial, e atribuindo um peso grande ao crescimento do PIB, qual poderia ser a reação do governo? O candidato mais provável é a elevação da dose de estímulos fiscais, e aqui há duas possibilidades. Primeiro, o governo não tem hesitado em elevar a dívida pública bruta para transferir recursos ao BNDES, sob o argumento de que isso não eleva a dívida líquida, porque adquire créditos contra o BNDES. Ocorre que esses créditos não são líquidos, e ainda que erradamente os deduza da dívida bruta como se fosse caixa em moeda corrente, gera uma expansão fiscal, que não é passível de mensuração olhando apenas para as estatísticas do superávit primário. Isso, sem falar no custo do subsídio. Segundo, pode pura e simplesmente reduzir ainda mais os superávits primários.
Em princípio, os superávits deveriam ser maiores em anos de crescimento acelerado e menores nos anos de queda cíclica, e por isso não se pode objetar que possam cair em períodos de baixo crescimento. O que não pode ocorrer, contudo, é os superávits ficarem escondidos por manobras contábeis, impedindo que seja aferido o estímulo dado à economia, acentuando o grau de incertezas que já é grande, contribuindo para desestimular os investimentos.
Para sair da armadilha de crescimento baixo, o governo deveria estimular os investimentos em infraestrutura, e como não tem recursos, deveria contar com a participação do setor privado, em programas de privatização. Com isso, geraria externalidades que elevariam os investimentos nas empresas privadas, iniciando um ciclo de crescimento da produtividade.
Mas isso significaria uma guinada de 180 graus na orientação da política econômica, que não cabe no ideário de um governo que acredita que o Estado deva ser o grande provedor desses investimentos. O mais provável, nessas circunstâncias, é que não abandone a atual orientação de política econômica e, neste caso, infelizmente temos de pensar na continuidade do crescimento baixo ao lado de inflações elevadas.
Enquanto comem gelatina - JUAN PABLO VILLALOBOS
O Estado de S.Paulo - 13/01
O que se passa no secreto quarto de hospital de Hugo Chávez em Havana? Um escritor mexicano convidou três colegas cubanos e um venezuelano - e todos toparam imaginar
Estamos falando de um homem de 58 anos com câncer. Um câncer reincidente do qual se havia curado. Não sabemos de que tipo de câncer ele padece – não podemos saber, não querem que saibamos. O homem é presidente de um país há quase 14 anos e acaba de ser reeleito para governar mais 6. Se ele se salvar, poderá governar o país, cujo nome ele mudou, entre outras coisas, por 20 anos. O homem é militar e está convalescendo ou agonizando – não podemos saber, não querem que saibamos – num hospital de outro país, um país amigo. Um país amigo cujo presidente é seu amigo. O país amigo teve apenas um presidente – um amigo – durante décadas. Mas então o presidente amigo do país amigo adoeceu de uma enfermidade secreta. Especulou-se que seria um câncer, mas logo disseram que não era câncer – não podemos saber, não querem que saibamos. Quando o presidente do país amigo estava doente, o presidente que agora está doente o visitava. Se fazia fotografar ao lado dele para demonstrar ao mundo que continuava vivo. O presidente do país amigo sobreviveu, embora tenha deixado o poder nas mãos de seu irmão um pouquinho mais jovem. Como a vida dá voltas! Agora o presidente do país amigo visita o homem de 58 anos que tem um câncer misterioso.
São amigos de hospital: conversam sobre a revolução enquanto comem gelatina.
Rodeado por um mistério digno de telenovela, Hugo Chávez, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, convalesce em Havana. Mas, além de suas posições ideológicas e políticas, ninguém pode negar que poucos personagens revolucionaram o histrionismo político das duas últimas décadas como o comandante venezuelano. Mais do que como presidente ou candidato, Chávez se construiu como personagem literário, como prócer e herói, chegando ao excesso da autoparódia e da caricatura grotesca. Frequentemente, esse Hugo Chávez que se sabe personagem literário, sente-se mais confortável e mais seguro no mundo da ficção, repleto de conspiração e mistério, do que na aborrecida realidade de um país e suas urgências.
Enquanto o comandante se debate em silêncio no que poderia ser seu cenário e atuação definitiva, pedi ao prestigioso escritor venezuelano Alberto Barrera Tyszka, coautor de uma biografia de Hugo Chávez, e a três talentosos escritores cubanos sem preconceitos que imaginassem o que está acontecendo neste momento em Havana e as eventuais consequências para ambos os países.
Para os venezuelanos tudo isso é desconcertante. A doença de Chávez foi sempre um assunto quase sigiloso, tratado com pouquíssima transparência. Até dezembro, somente ele próprio falava de sua doença. Era seu único porta-voz. Por isso, a informação nunca foi muito clara. Não só isso, como também Chávez usou a doença durante a campanha eleitoral sem o menor pudor. De início, suscitando compaixão e, depois, diante de um candidato mais jovem, dizendo que estava curado e que era quase um milagre, uma ressurreição produto do "deus povo". Agora, ele já não fala e, desde o início de dezembro, está desaparecido em Cuba.
Os comunicados oficiais não oferecem dados claros, apenas emoções políticas e exigências de lealdade. A única coisa que temos são boatos. O que é sintoma de outra doença, da doença de um país polarizado, que perdeu a transparência, a capacidade de ter uma verdade comum, aceita por todos.
Há dois Chávez: um secreto, que convalesce em Havana, e outro público, promovido, multiplicado pela propaganda oficial, na Venezuela. Se olhamos a televisão estatal, ficamos assombrados. Estamos assistindo a um processo nunca visto, ao desenvolvimento de uma indústria do culto da personalidade, com todo o dinheiro e a tecnologia do século 21. Chávez é um mito em construção, o primeiro mito midiático do nosso continente neste século 21.
ALBERTO BARRERA TYSZKA. Poeta, romancista e roteirista de televisão. Nasceu em Caracas em 1960. Seu romance La Enfermedad ganhou o prêmio Herralde em 2006. É autor, com Cristina Marcano, da biografia Hugo Chávez sem Uniforme (Gryphus).
Convalescer é um processo para a recuperação da saúde. Para sair do risco de morte. Agonizar é atravessar o estado que antecede a morte. Sofrer de maneira angustiante. São dois verbos antagônicos. A esperança de salvação. A falta dela. O que acontece com o homem com câncer? Ele convalesce? Agoniza? Não podemos saber, não querem que saibamos. Silêncio: o inesgotável discurso do homem com câncer emudeceu. A doença não tem porta-vozes.
Era o tórrido inverno de 2012. Era o dia 30 de dezembro. Enquanto enfiava a ponta da faca nos músculos de um pernil para a ceia de fim de ano, uma jornalista do Noticiario Nacional, em Caracas, falava da convalescença de Hugo Chávez, da difícil situação da oposição, dos fervorosos seguidores de Chávez (em relação ao diagnóstico médico definitivamente desanimador). Uma notícia da TV que, no entanto, ouvia graças a um radinho chinês. A jornalista falava também das missões do presidente Hugo, das relações entre a Venezuela e o nosso arquipélago, mas nada do câncer e da cirurgia. Desejava saber mais do nosso Segundo Presidente, das células cancerígenas que, a poucos dias da posse, estavam lhe pregando uma peça apesar de Deus, apesar daquele primeiro tratamento satisfatório em nosso país.
Em pouco menos de dez anos, eu, que nasci em 76, vi o corpo de puro ferro de Fidel de repente definhar. Na solidão de sua convalescença, recebeu a visita de Hugo Chávez. Era o ano de 2006, e Chávez gozava de perfeita saúde. Estava conectado por meio da banda larga com o povo da Venezuela e de Cuba, com Deus, com Bolívar. Em uma de suas visitas, percorreu o país acompanhado pelo general presidente Raúl. Hugo Chávez estendia o braço e dizia "aqui podemos fazer ... Aqui se pode investir em ..." Terminei de temperar o pernil justamente quando, no meu rádio, a jornalista dizia que devíamos confiar na recuperação de Hugo. Eram palavras alentadoras, assim como foram alentadores os jornalistas que cobriram a convalescença do Velho de Ferro. Será que Fidel apareceu de repente na sala onde atendiam nosso Segundo Presidente? O certo é que na imprensa há fotos de um Hugo com boa aparência e sorridente, mas que não pôde assistir à cerimônia da posse. Cruzei os dedos. O câncer é muito obstinado, muito mais cabeçudo do que a nossa imprensa.
AHMEL ECHEVERRÍA. Nasceu em Havana. Seu romance Días de Entrenamiento ganhou em 2010 o concurso Textos de Gaveta Franz Kafka, prêmio concedido pela ONG checa Libri Prohibiti para romances cubanos que não podem ser publicados em Cuba. No livro, ele imagina a convalescença de Fidel Castro em 2006 e narra, entre outras coisas, as visitas do presidente venezuelano.
O homem com câncer deve estar entubado. Provavelmente sedado. Dormindo. Em coma induzido. Não podemos saber, não querem que saibamos. Mas quase certamente condenado ao silêncio. O homem dos mil discursos amordaçado por um tubo e uma máscara. Os pronunciamentos ricocheteando em sua cabeça. Ecos da vida na terra, fora das quatro paredes do hospital. Socialismo ou morte. Pátria ou morte. Pensavam nos fuzis, mas sobreveio o câncer.
Havana não pode permitir a queda do governo bolivariano porque, sem os subsídios da Venezuela, a revolução afundaria numa crise como a dos anos 90, quando o socialismo europeu desapareceu. Por isso milhares de cubanos trabalham em tempo integral em todas as esferas da sociedade venezuelana, enquanto os serviços secretos da ilha atuam na equipe de assessoria e segurança do presidente moribundo, e infiltrados nas fileiras da oposição. Na prática, Havana se comporta como a metrópole que controla os cordéis do poder em Caracas.
O povo cubano olha para esse cenário com cética sabedoria histórica. Por pânico ou por apatia, assim como nunca se envolve nos acontecimentos de sua nação: espera apenas poder fugir em massa com a Reforma Migratória que, a partir deste janeiro, permitirá as viagens ao exterior sem a humilhante Autorização de Entrada e de Saída do seu próprio país. E se, em razão dessa debandada a ilha precisar de mão de obra barata num futuro imediato, sempre poderá importar cada vez mais do seu satélite venezuelano.
ORLANDO LUIS PARDO LAZO. Nasceu em Havana em 1972. É autor do romance Boring Home, vencedor do concurso Franz Kafka em 2009. É editor do e-zine Voces.
Na penumbra do mistério, o enfermo condenado ao silêncio exige a lealdade de seu povo. O mistério é um motor da trama: o povo quer saber. O povo tem direito a saber? O povo deve esperar. Até o próximo capítulo, embora não saibamos a data, nem o horário, nem o canal. É preciso esperar. Mas o povo imagina o final ou se rebela e aspira a mudar o desenlace da história. O povo sai à rua para manifestar-se contra o maldito câncer. Isso é certo e quanto a isso todos concordamos: o maldito câncer. O imperador das doenças.
O silêncio é significativo, particularmente o silêncio de alguém que vive e respira retórica. Insuficiência respiratória, disseram. Ou Chávez está muito mal ou essa é mais uma jogada em seu xadrez messiânico. Não sei... Mas de qualquer maneira, quando retomar a presidência, ou seja, a palavra (como espero que aconteça mais cedo ou mais tarde), não voltará a ser o Comandante: pela sua boca, na tela ou na tribuna, agora estará falando o câncer. The Big C... O que diz um câncer particularmente agressivo? Como é essa voz? Acredito que iremos ouvi-la em Havana, de uma hora para outra.
JORGE ENRIQUE LAGE. Nasceu em Havana em 1979. É autor do livro de contos El Color de La Sangre Diluida (Letras Cubanas) e do romance Carbono 14. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
O que se passa no secreto quarto de hospital de Hugo Chávez em Havana? Um escritor mexicano convidou três colegas cubanos e um venezuelano - e todos toparam imaginar
Estamos falando de um homem de 58 anos com câncer. Um câncer reincidente do qual se havia curado. Não sabemos de que tipo de câncer ele padece – não podemos saber, não querem que saibamos. O homem é presidente de um país há quase 14 anos e acaba de ser reeleito para governar mais 6. Se ele se salvar, poderá governar o país, cujo nome ele mudou, entre outras coisas, por 20 anos. O homem é militar e está convalescendo ou agonizando – não podemos saber, não querem que saibamos – num hospital de outro país, um país amigo. Um país amigo cujo presidente é seu amigo. O país amigo teve apenas um presidente – um amigo – durante décadas. Mas então o presidente amigo do país amigo adoeceu de uma enfermidade secreta. Especulou-se que seria um câncer, mas logo disseram que não era câncer – não podemos saber, não querem que saibamos. Quando o presidente do país amigo estava doente, o presidente que agora está doente o visitava. Se fazia fotografar ao lado dele para demonstrar ao mundo que continuava vivo. O presidente do país amigo sobreviveu, embora tenha deixado o poder nas mãos de seu irmão um pouquinho mais jovem. Como a vida dá voltas! Agora o presidente do país amigo visita o homem de 58 anos que tem um câncer misterioso.
São amigos de hospital: conversam sobre a revolução enquanto comem gelatina.
Rodeado por um mistério digno de telenovela, Hugo Chávez, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, convalesce em Havana. Mas, além de suas posições ideológicas e políticas, ninguém pode negar que poucos personagens revolucionaram o histrionismo político das duas últimas décadas como o comandante venezuelano. Mais do que como presidente ou candidato, Chávez se construiu como personagem literário, como prócer e herói, chegando ao excesso da autoparódia e da caricatura grotesca. Frequentemente, esse Hugo Chávez que se sabe personagem literário, sente-se mais confortável e mais seguro no mundo da ficção, repleto de conspiração e mistério, do que na aborrecida realidade de um país e suas urgências.
Enquanto o comandante se debate em silêncio no que poderia ser seu cenário e atuação definitiva, pedi ao prestigioso escritor venezuelano Alberto Barrera Tyszka, coautor de uma biografia de Hugo Chávez, e a três talentosos escritores cubanos sem preconceitos que imaginassem o que está acontecendo neste momento em Havana e as eventuais consequências para ambos os países.
Para os venezuelanos tudo isso é desconcertante. A doença de Chávez foi sempre um assunto quase sigiloso, tratado com pouquíssima transparência. Até dezembro, somente ele próprio falava de sua doença. Era seu único porta-voz. Por isso, a informação nunca foi muito clara. Não só isso, como também Chávez usou a doença durante a campanha eleitoral sem o menor pudor. De início, suscitando compaixão e, depois, diante de um candidato mais jovem, dizendo que estava curado e que era quase um milagre, uma ressurreição produto do "deus povo". Agora, ele já não fala e, desde o início de dezembro, está desaparecido em Cuba.
Os comunicados oficiais não oferecem dados claros, apenas emoções políticas e exigências de lealdade. A única coisa que temos são boatos. O que é sintoma de outra doença, da doença de um país polarizado, que perdeu a transparência, a capacidade de ter uma verdade comum, aceita por todos.
Há dois Chávez: um secreto, que convalesce em Havana, e outro público, promovido, multiplicado pela propaganda oficial, na Venezuela. Se olhamos a televisão estatal, ficamos assombrados. Estamos assistindo a um processo nunca visto, ao desenvolvimento de uma indústria do culto da personalidade, com todo o dinheiro e a tecnologia do século 21. Chávez é um mito em construção, o primeiro mito midiático do nosso continente neste século 21.
ALBERTO BARRERA TYSZKA. Poeta, romancista e roteirista de televisão. Nasceu em Caracas em 1960. Seu romance La Enfermedad ganhou o prêmio Herralde em 2006. É autor, com Cristina Marcano, da biografia Hugo Chávez sem Uniforme (Gryphus).
Convalescer é um processo para a recuperação da saúde. Para sair do risco de morte. Agonizar é atravessar o estado que antecede a morte. Sofrer de maneira angustiante. São dois verbos antagônicos. A esperança de salvação. A falta dela. O que acontece com o homem com câncer? Ele convalesce? Agoniza? Não podemos saber, não querem que saibamos. Silêncio: o inesgotável discurso do homem com câncer emudeceu. A doença não tem porta-vozes.
Era o tórrido inverno de 2012. Era o dia 30 de dezembro. Enquanto enfiava a ponta da faca nos músculos de um pernil para a ceia de fim de ano, uma jornalista do Noticiario Nacional, em Caracas, falava da convalescença de Hugo Chávez, da difícil situação da oposição, dos fervorosos seguidores de Chávez (em relação ao diagnóstico médico definitivamente desanimador). Uma notícia da TV que, no entanto, ouvia graças a um radinho chinês. A jornalista falava também das missões do presidente Hugo, das relações entre a Venezuela e o nosso arquipélago, mas nada do câncer e da cirurgia. Desejava saber mais do nosso Segundo Presidente, das células cancerígenas que, a poucos dias da posse, estavam lhe pregando uma peça apesar de Deus, apesar daquele primeiro tratamento satisfatório em nosso país.
Em pouco menos de dez anos, eu, que nasci em 76, vi o corpo de puro ferro de Fidel de repente definhar. Na solidão de sua convalescença, recebeu a visita de Hugo Chávez. Era o ano de 2006, e Chávez gozava de perfeita saúde. Estava conectado por meio da banda larga com o povo da Venezuela e de Cuba, com Deus, com Bolívar. Em uma de suas visitas, percorreu o país acompanhado pelo general presidente Raúl. Hugo Chávez estendia o braço e dizia "aqui podemos fazer ... Aqui se pode investir em ..." Terminei de temperar o pernil justamente quando, no meu rádio, a jornalista dizia que devíamos confiar na recuperação de Hugo. Eram palavras alentadoras, assim como foram alentadores os jornalistas que cobriram a convalescença do Velho de Ferro. Será que Fidel apareceu de repente na sala onde atendiam nosso Segundo Presidente? O certo é que na imprensa há fotos de um Hugo com boa aparência e sorridente, mas que não pôde assistir à cerimônia da posse. Cruzei os dedos. O câncer é muito obstinado, muito mais cabeçudo do que a nossa imprensa.
AHMEL ECHEVERRÍA. Nasceu em Havana. Seu romance Días de Entrenamiento ganhou em 2010 o concurso Textos de Gaveta Franz Kafka, prêmio concedido pela ONG checa Libri Prohibiti para romances cubanos que não podem ser publicados em Cuba. No livro, ele imagina a convalescença de Fidel Castro em 2006 e narra, entre outras coisas, as visitas do presidente venezuelano.
O homem com câncer deve estar entubado. Provavelmente sedado. Dormindo. Em coma induzido. Não podemos saber, não querem que saibamos. Mas quase certamente condenado ao silêncio. O homem dos mil discursos amordaçado por um tubo e uma máscara. Os pronunciamentos ricocheteando em sua cabeça. Ecos da vida na terra, fora das quatro paredes do hospital. Socialismo ou morte. Pátria ou morte. Pensavam nos fuzis, mas sobreveio o câncer.
Havana não pode permitir a queda do governo bolivariano porque, sem os subsídios da Venezuela, a revolução afundaria numa crise como a dos anos 90, quando o socialismo europeu desapareceu. Por isso milhares de cubanos trabalham em tempo integral em todas as esferas da sociedade venezuelana, enquanto os serviços secretos da ilha atuam na equipe de assessoria e segurança do presidente moribundo, e infiltrados nas fileiras da oposição. Na prática, Havana se comporta como a metrópole que controla os cordéis do poder em Caracas.
O povo cubano olha para esse cenário com cética sabedoria histórica. Por pânico ou por apatia, assim como nunca se envolve nos acontecimentos de sua nação: espera apenas poder fugir em massa com a Reforma Migratória que, a partir deste janeiro, permitirá as viagens ao exterior sem a humilhante Autorização de Entrada e de Saída do seu próprio país. E se, em razão dessa debandada a ilha precisar de mão de obra barata num futuro imediato, sempre poderá importar cada vez mais do seu satélite venezuelano.
ORLANDO LUIS PARDO LAZO. Nasceu em Havana em 1972. É autor do romance Boring Home, vencedor do concurso Franz Kafka em 2009. É editor do e-zine Voces.
Na penumbra do mistério, o enfermo condenado ao silêncio exige a lealdade de seu povo. O mistério é um motor da trama: o povo quer saber. O povo tem direito a saber? O povo deve esperar. Até o próximo capítulo, embora não saibamos a data, nem o horário, nem o canal. É preciso esperar. Mas o povo imagina o final ou se rebela e aspira a mudar o desenlace da história. O povo sai à rua para manifestar-se contra o maldito câncer. Isso é certo e quanto a isso todos concordamos: o maldito câncer. O imperador das doenças.
O silêncio é significativo, particularmente o silêncio de alguém que vive e respira retórica. Insuficiência respiratória, disseram. Ou Chávez está muito mal ou essa é mais uma jogada em seu xadrez messiânico. Não sei... Mas de qualquer maneira, quando retomar a presidência, ou seja, a palavra (como espero que aconteça mais cedo ou mais tarde), não voltará a ser o Comandante: pela sua boca, na tela ou na tribuna, agora estará falando o câncer. The Big C... O que diz um câncer particularmente agressivo? Como é essa voz? Acredito que iremos ouvi-la em Havana, de uma hora para outra.
JORGE ENRIQUE LAGE. Nasceu em Havana em 1979. É autor do livro de contos El Color de La Sangre Diluida (Letras Cubanas) e do romance Carbono 14. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
BBB13! Abriram o açougue! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 13/01
IPI vira Imposto de Produtos Inundados. E IPVA é Imposto Para Veículos Anfíbios
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Breaking News! Notícias da semana! Neste mês o Elvis Presley faria 78 anos, se estivesse morto!
E esta: "Prostitutas de BH têm aula grátis de inglês para a Copa"! Ueba! Adorei! Prontas antes dos estádios! "Oh, no, my fuleco, no". "My fuleco is on the table." E o slogan vai ser: "Já comeu o seu gringo hoje?".
E esta do Sensacionalista: "Devido ao alto valor das pensões milionárias, Ronaldo ganha o prêmio Bolas de Ouro". E mais esta: "Brasileiros lideram o ranking dos que mais gastaram em Nova York em 2012". Isso que é pibinho?
E adorei o que um cara escreveu no meu Twitter: "A Índia é o país com mais estupros do planeta. No lugar em que a vaca é tratada como divindade, a mulher é tratada como vaca".
E começou a alta temporada do Datena. O Datena é o nosso Galvão Bueno das enchentes: "Alaaagoou, alaagou, alaaaagoool"! E IPI vira Imposto de Produtos Inundados. E IPVA é Imposto Para Veículos Anfíbios.
E um amigo não foi levado pela enxurrada porque na hora da enchente ele tava transando com uma boneca inflável! Rarará! Acho que ele tava comendo uma banana boat! E adorei a charge do Gazo: "Proteção para enchentes. Coloca uma vela acesa e uma cerveja na janela. A vela é pro santo e a cerveja é pro Zeca Pagodinho"! Rarará!
E o futebol? Tô adorando as contratações de 2013. O Corinthians fechou com o Pato. Pato Manco. O Pato só tá fazendo gol na filha do Berlusconi. E o Santos fechou com o Montilla. Com o Ron Montilla e com o Pinga. Que jogava no Al-Gharafa! Só falta o Adriano Imperador.
E o Palmeiras? O Palmeiras fechou as portas. Rarará! Aliás, o site CornetaFC mostra um flagrante do Bial : "A prova de resistência hoje vai ser passar um dia inteiro sem rir do Palmeiras". Todos perderam. Não há resistência humana ou desumana que resista!
E atenção! Abriram o açougue! Começou o Big Bagaça Brasil! O galinheiro mais vigiado do Brasil! E a Nair Bello no Twitter: "O Bial só veste camiseta da Renner com cor esquisita". É que acabou a verba do figurino. Gastaram tudo naquele galinheiro de vidro!
E a única novidade do "BBB": ex-BBBs! Carne velha no pedaço: Bambam e Dhomini! O "BBB" dos usados e seminovos. E coitada daquela que foi chamada de burra pelo Bambam. Ser chamada de burra pelo Bambam é fueda! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
IPI vira Imposto de Produtos Inundados. E IPVA é Imposto Para Veículos Anfíbios
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Breaking News! Notícias da semana! Neste mês o Elvis Presley faria 78 anos, se estivesse morto!
E esta: "Prostitutas de BH têm aula grátis de inglês para a Copa"! Ueba! Adorei! Prontas antes dos estádios! "Oh, no, my fuleco, no". "My fuleco is on the table." E o slogan vai ser: "Já comeu o seu gringo hoje?".
E esta do Sensacionalista: "Devido ao alto valor das pensões milionárias, Ronaldo ganha o prêmio Bolas de Ouro". E mais esta: "Brasileiros lideram o ranking dos que mais gastaram em Nova York em 2012". Isso que é pibinho?
E adorei o que um cara escreveu no meu Twitter: "A Índia é o país com mais estupros do planeta. No lugar em que a vaca é tratada como divindade, a mulher é tratada como vaca".
E começou a alta temporada do Datena. O Datena é o nosso Galvão Bueno das enchentes: "Alaaagoou, alaagou, alaaaagoool"! E IPI vira Imposto de Produtos Inundados. E IPVA é Imposto Para Veículos Anfíbios.
E um amigo não foi levado pela enxurrada porque na hora da enchente ele tava transando com uma boneca inflável! Rarará! Acho que ele tava comendo uma banana boat! E adorei a charge do Gazo: "Proteção para enchentes. Coloca uma vela acesa e uma cerveja na janela. A vela é pro santo e a cerveja é pro Zeca Pagodinho"! Rarará!
E o futebol? Tô adorando as contratações de 2013. O Corinthians fechou com o Pato. Pato Manco. O Pato só tá fazendo gol na filha do Berlusconi. E o Santos fechou com o Montilla. Com o Ron Montilla e com o Pinga. Que jogava no Al-Gharafa! Só falta o Adriano Imperador.
E o Palmeiras? O Palmeiras fechou as portas. Rarará! Aliás, o site CornetaFC mostra um flagrante do Bial : "A prova de resistência hoje vai ser passar um dia inteiro sem rir do Palmeiras". Todos perderam. Não há resistência humana ou desumana que resista!
E atenção! Abriram o açougue! Começou o Big Bagaça Brasil! O galinheiro mais vigiado do Brasil! E a Nair Bello no Twitter: "O Bial só veste camiseta da Renner com cor esquisita". É que acabou a verba do figurino. Gastaram tudo naquele galinheiro de vidro!
E a única novidade do "BBB": ex-BBBs! Carne velha no pedaço: Bambam e Dhomini! O "BBB" dos usados e seminovos. E coitada daquela que foi chamada de burra pelo Bambam. Ser chamada de burra pelo Bambam é fueda! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
O sexto sentido - CARLOS AYRES BRITTO
ZERO HORA - 13/01
Ajuda-nos a entender que o dia tem a cor dos nossos olhos
Em condições comuns ou habituais de existência, temos cinco sentidos. Sabemos seus nomes de cor e salteado: visão, tato, paladar, olfato e audição. O que não sabemos, também em regra, é que podemos manter com eles uma interação mutuamente benfazeja e por iniciativa nossa. Não deles.
Explico. A vida humana é um gravitar em torno desse quinteto de sentidos. Não pode ser diferente. Usamo-los a todo instante e tão imemorialmente que o fazemos por modo automático. Sem emoção ou banalizadamente. E muito raramente paramos para estudar as respectivas natureza e funcionalidade. Senão para aperfeiçoar a natureza, ao menos a funcionalidade. E com essa garantida melhora de individualizado desempenho, melhorar a nossa própria vida. As duas coisas a interagir por modo reciprocamente proveitoso (já antecipamos isso). Espécie de gangorra da felicidade.
Com efeito, não temos que ficar tão somente à mercê ou na dependência dos nossos sentidos. Eles também têm muito a aprender conosco, e a fórmula é simples. Basta mais e mais contemplá-los. Prestar atenção em seu particularizado dinamismo, que é precisamente observar cada um deles em ação (Nietzsche chegou a dizer que "o papel da escola é ensinar a ver"). Atuando em concreto, portanto. Mas prestar atenção sem nenhuma tensão. Sem cobrar ou exigir nada. Por modo acrítico ou valorativamente neutro, como faz uma testemunha isenta. Ou como quem se disponibiliza inteiramente para a própria Existência, o que implica suspensão de todo ceticismo ou incredulidade. Apenas contemplando, contemplando, contemplando, porque a contemplação é um misto de atenção e descontração. O observador em postura atenta, como quem está acordado, e simultaneamente em postura descontraída, como quem está dormindo. É o que se chama, hoje, de meditação. Dando-se o nome de meditante a quem se posiciona assim em estado de contemplação.
Pronto! O resultado é que a nossa contemplação agrega valor a cada qual dos sentidos. Eles ficam receptivos, acesos, agudos. Muito mais sutis. Como talvez falasse Caetano Veloso, eles ficam mais livres, leves e soltos, como convém a quem opta por se libertar de todo condicionamento mental. E se ficam assim sem lenço e sem documento (Caetano, de novo), é porque apreciam se pegar destinatários da nossa contemplação. Em pleno processo de resgate da sua identidade como seres viventes. Não como uma coisa qualquer, porém como personalizados entes que verdadeiramente são. Donde a reciprocidade da agregação de valores a quem os vê assim contemplativamente. Ou meditativamente. Ou holisticamente, como se lê em espiritualistas do mais respeitável acatamento, como Eckhart Tolle, Eva Pierrakos e J. Krishnamurti. Ou em físicos quânticos da elevada estatura científica de uma Danna Zohar.
Enfim, um mais detido e respeitoso relacionamento com os nossos próprios sentidos é um bom começo para evitar o mecanicismo da operatividade deles e da nossa própria existência. Ajuda-nos a entender que o dia tem a cor dos nossos olhos. Que somente o olhar que se renova é que vê a vida a se renovar. Que todo aquele que não monta bem no estribo dos cinco sentidos perde o bonde do sexto. Sexto sentido que já corresponde àquele terceiro olho de que fala desde sempre o zen-budismo, certamente porque, sendo o único olho que não é visto, no entanto é o único a ver tudo.
Ajuda-nos a entender que o dia tem a cor dos nossos olhos
Em condições comuns ou habituais de existência, temos cinco sentidos. Sabemos seus nomes de cor e salteado: visão, tato, paladar, olfato e audição. O que não sabemos, também em regra, é que podemos manter com eles uma interação mutuamente benfazeja e por iniciativa nossa. Não deles.
Explico. A vida humana é um gravitar em torno desse quinteto de sentidos. Não pode ser diferente. Usamo-los a todo instante e tão imemorialmente que o fazemos por modo automático. Sem emoção ou banalizadamente. E muito raramente paramos para estudar as respectivas natureza e funcionalidade. Senão para aperfeiçoar a natureza, ao menos a funcionalidade. E com essa garantida melhora de individualizado desempenho, melhorar a nossa própria vida. As duas coisas a interagir por modo reciprocamente proveitoso (já antecipamos isso). Espécie de gangorra da felicidade.
Com efeito, não temos que ficar tão somente à mercê ou na dependência dos nossos sentidos. Eles também têm muito a aprender conosco, e a fórmula é simples. Basta mais e mais contemplá-los. Prestar atenção em seu particularizado dinamismo, que é precisamente observar cada um deles em ação (Nietzsche chegou a dizer que "o papel da escola é ensinar a ver"). Atuando em concreto, portanto. Mas prestar atenção sem nenhuma tensão. Sem cobrar ou exigir nada. Por modo acrítico ou valorativamente neutro, como faz uma testemunha isenta. Ou como quem se disponibiliza inteiramente para a própria Existência, o que implica suspensão de todo ceticismo ou incredulidade. Apenas contemplando, contemplando, contemplando, porque a contemplação é um misto de atenção e descontração. O observador em postura atenta, como quem está acordado, e simultaneamente em postura descontraída, como quem está dormindo. É o que se chama, hoje, de meditação. Dando-se o nome de meditante a quem se posiciona assim em estado de contemplação.
Pronto! O resultado é que a nossa contemplação agrega valor a cada qual dos sentidos. Eles ficam receptivos, acesos, agudos. Muito mais sutis. Como talvez falasse Caetano Veloso, eles ficam mais livres, leves e soltos, como convém a quem opta por se libertar de todo condicionamento mental. E se ficam assim sem lenço e sem documento (Caetano, de novo), é porque apreciam se pegar destinatários da nossa contemplação. Em pleno processo de resgate da sua identidade como seres viventes. Não como uma coisa qualquer, porém como personalizados entes que verdadeiramente são. Donde a reciprocidade da agregação de valores a quem os vê assim contemplativamente. Ou meditativamente. Ou holisticamente, como se lê em espiritualistas do mais respeitável acatamento, como Eckhart Tolle, Eva Pierrakos e J. Krishnamurti. Ou em físicos quânticos da elevada estatura científica de uma Danna Zohar.
Enfim, um mais detido e respeitoso relacionamento com os nossos próprios sentidos é um bom começo para evitar o mecanicismo da operatividade deles e da nossa própria existência. Ajuda-nos a entender que o dia tem a cor dos nossos olhos. Que somente o olhar que se renova é que vê a vida a se renovar. Que todo aquele que não monta bem no estribo dos cinco sentidos perde o bonde do sexto. Sexto sentido que já corresponde àquele terceiro olho de que fala desde sempre o zen-budismo, certamente porque, sendo o único olho que não é visto, no entanto é o único a ver tudo.
Outra vez desunidos - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 13/01
Como há muito tempo se prevê, o maior problema do PT está em suas facções ou em seus aliados, não na oposição formal, cada vez mais enrolada em seus problemas e indecisões. É assim que a anunciada candidatura de Marina Silva à Presidência em 2014 por um eventual novo partido, ou a possibilidade de que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, concorra já na próxima eleição, são hipóteses às quais o governo da presidente Dilma deve dar tanta atenção, ou mais, do que à ainda incerta candidatura do senador Aécio Neves pelo PSDB.
Tudo parece indicar que Aécio será o candidato do maior partido oposicionista, mas o PSDB se ressente de uma unidade mínima que garanta base sólida para o início da caminhada, e o problema desta vez está em São Paulo, não em Minas. Partido que domina os dois maiores colégios eleitorais do país, o PSDB nunca conseguiu, após as eleições de Fernando Henrique, unir suas bases em torno de um candidato presidencial.
Quando o candidato era paulista (José Serra em 2002 e 2010 e Geraldo Alckmin em 2006), Minas não lhe deu a vitória. Agora, que o candidato deve ser mineiro, a máquina tucana de São Paulo começa a se movimentar para não permitir que a caminhada de Aécio seja tranquila. O governador Alckmin, ao dizer que é cedo para a definição do candidato, depois de Fernando Henrique e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, terem dito que está na hora de oficializar a candidatura de Aécio, sinaliza pelo menos que ele quer ser ouvido, quando não que está avaliando a possibilidade de ser ele o candidato, com o o incentivo de Serra nos bastidores.
Colocada a dúvida, o trabalho de reorganização partidária que Aécio pretende realizar antes de assumir oficialmente a presidência do PSDB fica prejudicado, ou será retardado até que tudo esteja resolvido nos bastidores. O ambiente político a médio prazo parece favorável a quem queira enfrentar a reeleição da presidente Dilma ou a volta de Lula, com a economia claudicante e o PT e o ex-presidente castigados por denúncias de corrupção.
Mas o PT tem a seu favor o que os oposicionistas não têm: a sede de poder. Eles montaram uma formidável máquina partidária e fazem política 24 horas por dia. Nesse ponto se parecem cada vez mais com o PMDB, que também só se une em torno do poder e está prestes a controlar o Congresso sem contestações, presidindo ao mesmo tempo a Câmara e o Senado.
O pragmatismo de PT e PMDB os une na campanha presidencial, em torno de Dilma ou Lula, enquanto PSDB, DEM e PPS só se dividem. O possível novo partido de Marina pode ter para o PSDB um efeito semelhante ao que o PSD teve para o DEM: desidratá-lo mais, a não ser que demonstre ter expectativa de poder real.
As situações difíceis que serão enfrentadas pelo governo nos próximos dois anos podem até estimular aliados a se bandearem para outras candidaturas, aí incluída a de Aécio, mas será preciso resolver essa disputa com São Paulo de maneira a clarear o caminho da mudança de rumo do maior partido da oposição, depositário natural dos votos antipetistas.
Se a divisão interna continuar a dominar as ações dos tucanos, essa massa antipetista pode procurar Marina ou Campos, com a vantagem para os candidatos saídos da base governista de que poderão agregar eleitores petistas descontentes.
Mas será preciso que essas candidaturas nascidas do interior governista tenham convicção sobre o que querem. Marina não assumiu seu papel de oposição por inteiro na última campanha, deixando que sua alma petista falasse mais alto no segundo turno, quando tinha condições de liderar os quase 20 milhões de votos que recebeu.
Ficando neutra, não avalizou a opção tucana e liberou eleitores dissidentes do PT para voltar ao ninho original. A candidatura de Aécio tem uma capacidade maior para fazer alianças num segundo turno, com ele ou um dos outros possíveis candidatos, o que amplia o raio de ação da oposição. Mesmo com os problemas que tem pela frente, o governo petista continua sendo o favorito para 2014, pelo simples fato de que na hora devida suas facções se unem, enquanto os tucanos se dividem para impedir que adversários internos vençam.
Como há muito tempo se prevê, o maior problema do PT está em suas facções ou em seus aliados, não na oposição formal, cada vez mais enrolada em seus problemas e indecisões. É assim que a anunciada candidatura de Marina Silva à Presidência em 2014 por um eventual novo partido, ou a possibilidade de que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, concorra já na próxima eleição, são hipóteses às quais o governo da presidente Dilma deve dar tanta atenção, ou mais, do que à ainda incerta candidatura do senador Aécio Neves pelo PSDB.
Tudo parece indicar que Aécio será o candidato do maior partido oposicionista, mas o PSDB se ressente de uma unidade mínima que garanta base sólida para o início da caminhada, e o problema desta vez está em São Paulo, não em Minas. Partido que domina os dois maiores colégios eleitorais do país, o PSDB nunca conseguiu, após as eleições de Fernando Henrique, unir suas bases em torno de um candidato presidencial.
Quando o candidato era paulista (José Serra em 2002 e 2010 e Geraldo Alckmin em 2006), Minas não lhe deu a vitória. Agora, que o candidato deve ser mineiro, a máquina tucana de São Paulo começa a se movimentar para não permitir que a caminhada de Aécio seja tranquila. O governador Alckmin, ao dizer que é cedo para a definição do candidato, depois de Fernando Henrique e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, terem dito que está na hora de oficializar a candidatura de Aécio, sinaliza pelo menos que ele quer ser ouvido, quando não que está avaliando a possibilidade de ser ele o candidato, com o o incentivo de Serra nos bastidores.
Colocada a dúvida, o trabalho de reorganização partidária que Aécio pretende realizar antes de assumir oficialmente a presidência do PSDB fica prejudicado, ou será retardado até que tudo esteja resolvido nos bastidores. O ambiente político a médio prazo parece favorável a quem queira enfrentar a reeleição da presidente Dilma ou a volta de Lula, com a economia claudicante e o PT e o ex-presidente castigados por denúncias de corrupção.
Mas o PT tem a seu favor o que os oposicionistas não têm: a sede de poder. Eles montaram uma formidável máquina partidária e fazem política 24 horas por dia. Nesse ponto se parecem cada vez mais com o PMDB, que também só se une em torno do poder e está prestes a controlar o Congresso sem contestações, presidindo ao mesmo tempo a Câmara e o Senado.
O pragmatismo de PT e PMDB os une na campanha presidencial, em torno de Dilma ou Lula, enquanto PSDB, DEM e PPS só se dividem. O possível novo partido de Marina pode ter para o PSDB um efeito semelhante ao que o PSD teve para o DEM: desidratá-lo mais, a não ser que demonstre ter expectativa de poder real.
As situações difíceis que serão enfrentadas pelo governo nos próximos dois anos podem até estimular aliados a se bandearem para outras candidaturas, aí incluída a de Aécio, mas será preciso resolver essa disputa com São Paulo de maneira a clarear o caminho da mudança de rumo do maior partido da oposição, depositário natural dos votos antipetistas.
Se a divisão interna continuar a dominar as ações dos tucanos, essa massa antipetista pode procurar Marina ou Campos, com a vantagem para os candidatos saídos da base governista de que poderão agregar eleitores petistas descontentes.
Mas será preciso que essas candidaturas nascidas do interior governista tenham convicção sobre o que querem. Marina não assumiu seu papel de oposição por inteiro na última campanha, deixando que sua alma petista falasse mais alto no segundo turno, quando tinha condições de liderar os quase 20 milhões de votos que recebeu.
Ficando neutra, não avalizou a opção tucana e liberou eleitores dissidentes do PT para voltar ao ninho original. A candidatura de Aécio tem uma capacidade maior para fazer alianças num segundo turno, com ele ou um dos outros possíveis candidatos, o que amplia o raio de ação da oposição. Mesmo com os problemas que tem pela frente, o governo petista continua sendo o favorito para 2014, pelo simples fato de que na hora devida suas facções se unem, enquanto os tucanos se dividem para impedir que adversários internos vençam.
Uma disputa necessária - JOÃO BOSCO RABELLO
O Estado de S.Paulo - 13/01
É improvável uma reversão de expectativas em relação à eleição para a presidência da Câmara, por força do compromisso de maioria com a candidatura do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), avalizada pelo Palácio do Planalto.
Apesar disso, a hipótese de um segundo turno, com a qual trabalham os candidatos avulsos, não deve ser menosprezada.
A consolidação da candidatura do deputado Julio Delgado, do PSB mineiro, nas últimas semanas, com o apoio antes negado pelo seu partido, pode retirar da disputa o caráter de posse antecipada, nocivo por subtrair ao Legislativo a sua essência maior - o processo independente de escolha política.
O hoje ministro dos Esportes Aldo Rebelo (PC do B-SP), que já presidira a Casa em 2005, enfrentou em 2007 e 2009 dois acordos do gênero, perdendo seguidamente para os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Michel Temer (PMDB-SP). Nas duas ocasiões, derrotado antecipadamente, sustentava a necessidade da disputa como pilar do processo político.
É um discurso que sensibiliza boa parcela dos deputados. Quando nada, ameniza os efeitos imperiais de uma vitória acachapante imposta pelo apoio do Executivo.
A Júlio Delgado se junta a candidata dissidente no PMDB, Rose de Freitas (ES), atual vice-presidente da Câmara, que reza pela cartilha de Rebelo, da disputa mesmo em circunstâncias desfavoráveis.
Rose e Delgado costuram eventual aliança para somar 200 votos e impedir que Alves obtenha os 257 que o elegeriam no primeiro turno.
Com o bloco na rua
Com aval do governador Eduardo Campos, com quem almoça na próxima semana no Recife, o deputado Julio Delgado (PSB-MG) vai pôr a candidatura na rua: nos próximos dias vai a Belo Horizonte, Manaus, Belém, Curitiba e Recife para encontros com bancadas estaduais. Ele corre atrás da meta de 150 votos, número de parlamentares que reuniu no seu último aniversário, em festa que testou suas possibilidades. Boa parcela era de petistas, que guardam na memória ainda o relatório de sua autoria que serviu de base à cassação de José Dirceu. O candidato espera sair do almoço com Campos com o aval público do governador.
Apoio do vice
Já o vice-presidente Michel Temer fortalece a campanha de Henrique Alves (PMDB-RN) em jantar do correligionário com a bancada paulista programado para a próxima quinta-feira (17). E o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP) tenta agendar Alves com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes, para obter o apoio dos tucanos.
Judicialização
Pode acabar no Judiciário a disputa pela Primeira Secretaria da Mesa da Câmara. O líder do PSD, Guilherme Campos (SP), afirma que "não há hipótese" de o partido abrir mão do cargo, para o qual está indicado o deputado Fábio Faria (PSD-RN). O problema é que cálculo da Diretoria-Geral aponta empate no número de deputados com o PSDB, que teria a primazia da escolha por ser a sigla mais antiga. Campos afirma que, se necessário, o PSD vai levar a briga para o Supremo Tribunal Federal.
Sob tensão
Acendeu a luz amarela no Ministério dos Esportes, após o terceiro adiamento na data de entrega do Maracanã, que agora ficará pronto em 28 de maio, a 19 dias do início da Copa das Confederações. Pelo cronograma inicial, as obras de reforma seriam concluídas em dezembro de 2012.
Um vazio no Palácio do Planalto - MARCELO COUTINHO
O GLOBO - 13/01
Mais uma vez a incoerência do governo brasileiro se manifesta, abençoando o autogolpe ‘temporário’ na Venezuela depois de ter suspendido o Paraguai do bloco pela cláusula democrática
Aagonizante democracia venezuelana não sobreviveu. Enfermo e incomunicável, Chávez não pôde assumir novo mandato no prazo previsto pela Constituição, e agora quem governa por tempo indeterminado é um não eleito para o cargo, em óbvia violação a qualquer estado democrático de direito.
A população venezuelana não sabe ao certo o que está acontecendo. Seu líder não vem a público esclarecê-la. As instituições no país funcionam apenas por ouvir dizer, isto é, por porta-vozes que governam sem qualquer legitimidade, tomando decisões em pleno regime de exceção, enquanto esperam indefinidamente a recuperação do presidente.
Já são duas democracias que morrem na região em menos de um ano. A primeira foi no Paraguai, em junho passado, com o golpe intitulado pelo eufemismo de “impedimento relâmpago”, só crível no realismo fantástico latino-americano.
Nas democracias do continente, inspiradas na experiência dos EUA, o presidente da República (em qualquer hipótese) deve ser eleito em disputa limpa e justa, depois tomar posse e governar até o fim, a menos que algo excepcional aconteça, como doença incapacitante, morte ou impeachment regular, com amplo direito à defesa.
Como se diz, “a regra é clara”, e algo de muito grave se passa quando perdemos essa clareza. O conceito mais simples de democracia ficou de repente confuso aos olhos da direita e da esquerda. Golpe de estado virou apenas o que os outros dão. A constituição é torturada até que ela diga o que se quer, mesmo ferindo princípios democráticos fundamentais.
Uma diferença básica entre a democracia e o autoritarismo está na fórmula de alcançar o poder. A competição pelo voto livre define o regime democrático. Já na Venezuela nos dias de hoje o poder está nas mãos de quem supostamente teve acesso ao leito de uma UTI em Cuba, onde se encontraria Chávez sob cuidados médicos muito delicados.
Quem não pode ir à própria posse não pode presidir. O que ocorre no país vizinho agora não é mais uma crise institucional, mas uma evidente ruptura. E, sendo assim, o governo do país também deveria ser (mas não será) censurado pelo Mercosul assim como foi com o Paraguai. Lá também não havia desordem social, e a Corte Suprema ficou do lado do poder.
Não é a instabilidade nas ruas e praças públicas que define a natureza do regime político. Assim como as democracias não vivem em paz de cemitério, podendo conviver com protestos, muitas ditaduras conseguem ser estáveis, inclusive com eleições sem competidores reais e controlando os seus “tribunais de justiça”.
Democracia virou o que os Supremos disserem, mesmo que estes sejam controlados pelo governo. Se o Supremo disser que um presidente eleito pode ser derrubado em 24 horas, em rito sumário, sem direito a ampla defesa, então pode. Se o Supremo disser que alguém que não foi eleito pode governar o país indefinidamente, então pode. Um descalabro.
O que define a democracia são suas regras e o pluralismo que elas abrigam, o resto é oportunismo político inconsequente. Quando não se sabe o que é democracia, ela pode ser qualquer coisa e nada ao mesmo tempo. Perde o seu sentido em outra assustadora reversão autoritária.
Agora com uma diferença: para as transições autocráticas atuais darem certo não podem se parecer com as do passado. Os novos atentados institucionais precisam ocorrer como se nada anormal estivesse acontecendo.
Infelizmente, mais uma vez a incoerência do governo brasileiro se manifesta para quem quiser assistir, abençoando o autogolpe “temporário” na Venezuela poucos meses depois de ter suspendido o Paraguai do bloco pela cláusula democrática.
Para piorar, quem decidiu e primeiro falou pelo Brasil neste momento de suma importância foi um assessor sem ministério. Isso não só demonstra a total inoperância do Itamaraty, já desnorteado após tantos erros em seu próprio repertório, como também revela um preocupante vazio na cadeira presidencial no Palácio do Planalto em assuntos internacionais.
Atenta à economia que não cresce, Dilma delegou poderes a subordinados que não parecem saber o que fazer em situações críticas no campo das relações exteriores. Não vem liderança de onde mais a região espera. E a marcha ao retrocesso avança. Onde será o próximo golpe?
Mais uma vez a incoerência do governo brasileiro se manifesta, abençoando o autogolpe ‘temporário’ na Venezuela depois de ter suspendido o Paraguai do bloco pela cláusula democrática
Aagonizante democracia venezuelana não sobreviveu. Enfermo e incomunicável, Chávez não pôde assumir novo mandato no prazo previsto pela Constituição, e agora quem governa por tempo indeterminado é um não eleito para o cargo, em óbvia violação a qualquer estado democrático de direito.
A população venezuelana não sabe ao certo o que está acontecendo. Seu líder não vem a público esclarecê-la. As instituições no país funcionam apenas por ouvir dizer, isto é, por porta-vozes que governam sem qualquer legitimidade, tomando decisões em pleno regime de exceção, enquanto esperam indefinidamente a recuperação do presidente.
Já são duas democracias que morrem na região em menos de um ano. A primeira foi no Paraguai, em junho passado, com o golpe intitulado pelo eufemismo de “impedimento relâmpago”, só crível no realismo fantástico latino-americano.
Nas democracias do continente, inspiradas na experiência dos EUA, o presidente da República (em qualquer hipótese) deve ser eleito em disputa limpa e justa, depois tomar posse e governar até o fim, a menos que algo excepcional aconteça, como doença incapacitante, morte ou impeachment regular, com amplo direito à defesa.
Como se diz, “a regra é clara”, e algo de muito grave se passa quando perdemos essa clareza. O conceito mais simples de democracia ficou de repente confuso aos olhos da direita e da esquerda. Golpe de estado virou apenas o que os outros dão. A constituição é torturada até que ela diga o que se quer, mesmo ferindo princípios democráticos fundamentais.
Uma diferença básica entre a democracia e o autoritarismo está na fórmula de alcançar o poder. A competição pelo voto livre define o regime democrático. Já na Venezuela nos dias de hoje o poder está nas mãos de quem supostamente teve acesso ao leito de uma UTI em Cuba, onde se encontraria Chávez sob cuidados médicos muito delicados.
Quem não pode ir à própria posse não pode presidir. O que ocorre no país vizinho agora não é mais uma crise institucional, mas uma evidente ruptura. E, sendo assim, o governo do país também deveria ser (mas não será) censurado pelo Mercosul assim como foi com o Paraguai. Lá também não havia desordem social, e a Corte Suprema ficou do lado do poder.
Não é a instabilidade nas ruas e praças públicas que define a natureza do regime político. Assim como as democracias não vivem em paz de cemitério, podendo conviver com protestos, muitas ditaduras conseguem ser estáveis, inclusive com eleições sem competidores reais e controlando os seus “tribunais de justiça”.
Democracia virou o que os Supremos disserem, mesmo que estes sejam controlados pelo governo. Se o Supremo disser que um presidente eleito pode ser derrubado em 24 horas, em rito sumário, sem direito a ampla defesa, então pode. Se o Supremo disser que alguém que não foi eleito pode governar o país indefinidamente, então pode. Um descalabro.
O que define a democracia são suas regras e o pluralismo que elas abrigam, o resto é oportunismo político inconsequente. Quando não se sabe o que é democracia, ela pode ser qualquer coisa e nada ao mesmo tempo. Perde o seu sentido em outra assustadora reversão autoritária.
Agora com uma diferença: para as transições autocráticas atuais darem certo não podem se parecer com as do passado. Os novos atentados institucionais precisam ocorrer como se nada anormal estivesse acontecendo.
Infelizmente, mais uma vez a incoerência do governo brasileiro se manifesta para quem quiser assistir, abençoando o autogolpe “temporário” na Venezuela poucos meses depois de ter suspendido o Paraguai do bloco pela cláusula democrática.
Para piorar, quem decidiu e primeiro falou pelo Brasil neste momento de suma importância foi um assessor sem ministério. Isso não só demonstra a total inoperância do Itamaraty, já desnorteado após tantos erros em seu próprio repertório, como também revela um preocupante vazio na cadeira presidencial no Palácio do Planalto em assuntos internacionais.
Atenta à economia que não cresce, Dilma delegou poderes a subordinados que não parecem saber o que fazer em situações críticas no campo das relações exteriores. Não vem liderança de onde mais a região espera. E a marcha ao retrocesso avança. Onde será o próximo golpe?
Brasil, um retrato em tom cinza - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 13/01
Pesquisa sobre capacidade de o país enfrentar grandes crises não dá resultados nem confortáveis nem trágicos
O Brasil nem está tão bem quanto parecem acreditar o governo e os governistas mais empedernidos nem tão mal como querem fazer crer recentes análises, nacionais e estrangeiras.
Esse tom cinza transparece da pesquisa "Percepção de Riscos Globais", feita por iniciativa do Fórum Econômico Mundial (pelo oitavo ano consecutivo). Foram ouvidos mil especialistas de 139 países, entre executivos, acadêmicos e membros do governo e da sociedade civil.
Dá até para dizer que o copo do Brasil está meio cheio quando a pergunta se refere ao país todo, e não apenas a seu governo. A pergunta foi esta: "Se este risco [econômico, ambiental, geopolítico, social ou tecnológico] se materializasse no país em que você é especializado, qual seria a capacidade dele de se adaptar ou se recuperar do impacto?".
Os dados recolhidos, dizem os autores do relatório, só permitiram comparações entre dez países. O Brasil sai-se excepcionalmente bem no quesito adaptabilidade a um grande risco econômico: ganha de Índia, Itália, Japão, Rússia e Reino Unido. Empata com os Estados Unidos e só perde para Alemanha, China e Suíça (esta a mais preparada).
Já na hipótese de risco ambiental, o resultado é menos positivo: o Brasil só está mais apto a resistir a ele do que a Índia e a Itália, entre os dez países para os quais há dados comparáveis.
O copo meio vazio aparece nas respostas a outra pergunta: "Como você avalia a eficácia e o monitoramento do seu governo na preparação para responder ou mitigar grandes riscos globais?" [crises financeiras, desastres naturais, mudança climática, pandemias etc.] O Brasil fica em 45º lugar entre 139 países.
Não é uma posição confortável para um país que foi alçado à condição de potência já para o ano 2020, que está virando a esquina, conforme os búzios jogados pela Goldman Sachs, para criar a sigla BRICs.
Essa colocação intermediária combina com a perda de brilho mais recente do Brasil emergente.
O país fica atrás de três dos outros quatro BRICS (China, 30º; África do Sul, 34º; e Índia, 38º), mas ganha da Rússia (73º).
Na América Latina, superam o Brasil o Chile, eterno queridinho dos mercados, que fica em luminoso 10º lugar, e o México, o novo "darling", que é o 12º.
Mas a posição não é tão ruim assim. Sua nota (4,16, quando o máximo é 7) não fica muito longe do melhor colocado entre os países grandes, o Canadá (5º colocado, com 5,41). Os quatro primeiros são países pequenos demais para serem comparáveis (Cingapura, Qatar, Omã e Emirados Árabes Unidos).
Horrível mesmo é a posição de Argentina e Venezuela, penúltima e última colocadas, atrás até da falida Grécia.
Ranking à parte, o relatório 2013 sobre riscos globais abre com a afirmação de que "persistente mal estar econômico acoplado a frequentes eventos climáticos extremos compõem uma mescla crescentemente perigosa".
É um bom sinal saber que a comunidade empresarial, clientela principal do Fórum, começa a pôr a mudança climática na agenda.
Pesquisa sobre capacidade de o país enfrentar grandes crises não dá resultados nem confortáveis nem trágicos
O Brasil nem está tão bem quanto parecem acreditar o governo e os governistas mais empedernidos nem tão mal como querem fazer crer recentes análises, nacionais e estrangeiras.
Esse tom cinza transparece da pesquisa "Percepção de Riscos Globais", feita por iniciativa do Fórum Econômico Mundial (pelo oitavo ano consecutivo). Foram ouvidos mil especialistas de 139 países, entre executivos, acadêmicos e membros do governo e da sociedade civil.
Dá até para dizer que o copo do Brasil está meio cheio quando a pergunta se refere ao país todo, e não apenas a seu governo. A pergunta foi esta: "Se este risco [econômico, ambiental, geopolítico, social ou tecnológico] se materializasse no país em que você é especializado, qual seria a capacidade dele de se adaptar ou se recuperar do impacto?".
Os dados recolhidos, dizem os autores do relatório, só permitiram comparações entre dez países. O Brasil sai-se excepcionalmente bem no quesito adaptabilidade a um grande risco econômico: ganha de Índia, Itália, Japão, Rússia e Reino Unido. Empata com os Estados Unidos e só perde para Alemanha, China e Suíça (esta a mais preparada).
Já na hipótese de risco ambiental, o resultado é menos positivo: o Brasil só está mais apto a resistir a ele do que a Índia e a Itália, entre os dez países para os quais há dados comparáveis.
O copo meio vazio aparece nas respostas a outra pergunta: "Como você avalia a eficácia e o monitoramento do seu governo na preparação para responder ou mitigar grandes riscos globais?" [crises financeiras, desastres naturais, mudança climática, pandemias etc.] O Brasil fica em 45º lugar entre 139 países.
Não é uma posição confortável para um país que foi alçado à condição de potência já para o ano 2020, que está virando a esquina, conforme os búzios jogados pela Goldman Sachs, para criar a sigla BRICs.
Essa colocação intermediária combina com a perda de brilho mais recente do Brasil emergente.
O país fica atrás de três dos outros quatro BRICS (China, 30º; África do Sul, 34º; e Índia, 38º), mas ganha da Rússia (73º).
Na América Latina, superam o Brasil o Chile, eterno queridinho dos mercados, que fica em luminoso 10º lugar, e o México, o novo "darling", que é o 12º.
Mas a posição não é tão ruim assim. Sua nota (4,16, quando o máximo é 7) não fica muito longe do melhor colocado entre os países grandes, o Canadá (5º colocado, com 5,41). Os quatro primeiros são países pequenos demais para serem comparáveis (Cingapura, Qatar, Omã e Emirados Árabes Unidos).
Horrível mesmo é a posição de Argentina e Venezuela, penúltima e última colocadas, atrás até da falida Grécia.
Ranking à parte, o relatório 2013 sobre riscos globais abre com a afirmação de que "persistente mal estar econômico acoplado a frequentes eventos climáticos extremos compõem uma mescla crescentemente perigosa".
É um bom sinal saber que a comunidade empresarial, clientela principal do Fórum, começa a pôr a mudança climática na agenda.
A volta de Dilma (e de Lula) - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 13/01
A avaliação dos petistas é a de que está tudo tão antecipado que se joga agora não só os personagens de 2014, como também as perspectivas para 2018 e é preciso administrar as ambições, pelo menos para a próxima eleição. E a forma de tratar desses projetos, o PT encontrou ao avaliar em conjunto a última pesquisa de intenção de voto de 2012, aquela em que Dilma e Lula apareceram como os dois primeiros colocados na espontânea - o tipo de consulta em que eleitor menciona sua preferência sem qualquer uma lista prévia de candidatos. O cenário foi tão confortável, que o partido decidiu que não é hora de excluir desde já um ou outro. Daí, a retomada das caravanas de Lula e as poucas viagens internacionais agendadas pelo ex-presidente. Assim, ele pode dividir com Dilma os holofotes rumo ao próximo ano.
Dentro do PT, entretanto, está claro que a atual presidente é a primeira da fila e deve disputar mais um mandato. Mas, o cenário ideal para os petistas, citado inclusive nas reuniões mais reservadas do partido, é manter Dilma e Lula nessa condição de primeiro e segundo colocados em pesquisas espontâneas até às vésperas das convenções partidárias em junho do ano que vem. E para que isso ocorra, Lula ora dirá que a candidata é Dilma, ora lembrará que ainda pode concorrer novamente.
Com essa dúvida no ar os petistas apostam que podem reduzir a margem de manobra e de crescimento de candidaturas alternativas dentro da base do governo. Leia-se, Eduardo Campos, do PSB, que inclusive já pediu o tempo de tevê dos diretórios estaduais do PSB para se apresentar. O PT está convencido de que Campos não teria nada a perder concorrendo a um mandato presidencial já em 2014, nem que seja como ponta de lança para 2018. Portanto, o partido trabalhará para estreitar os caminhos que o PSB possa seguir. A presença de Lula no cenário é vista como mais uma forma de ajudar nessa tarefa.
Enquanto isso, na Fazenda…
A avaliação dos ministros e assessores palacianos é a de que a oposição está decidida a colocar Lula na berlinda sob o ponto de vista ético e centrar fogo contra a imagem de gestora. E, para evitar que essa estratégia pegue no eleitorado, Lula fará as caravanas e ajudará na política enquanto Dilma cuidará da economia. O problema é que a vida dela não está fácil. Na Fazenda, é cada vez mais forte o zum-zum-zum de sérias divergências entre o vice-ministro Nelson Barbosa e o titular, Guido Mantega, que saiu de férias e deixou os pepinos das contas maquiadas e da inflação fora do centro da meta para serem descascados por Barbosa. Mantega volta ao trabalho em 21 de janeiro.
E na oposição…
Se o problema de Dilma é a economia, o dos tucanos continua sendo a divisão interna. Na última semana ficou claro, pelas declarações do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que ele não fechou o apoio ao senador Aécio Neves, pré-candidato a presidente da República. A defesa de prévias para escolha do candidato tucano no mínimo mantém a tensão entre paulistas e mineiros dentro do PSDB. A primeira tarefa de Aécio quando voltar das férias será cuidar de acertar os ponteiros com Alckmin e a bancada de São Paulo. Afinal, se o PSDB deseja tirar Dilma ou Lula da confortável posição que se encontram nas pesquisas, é preciso afinar os instrumentos de São Paulo com os de Minas Gerais. Mas essa é outra história.
Termo da moda: "destravar" - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 13/01
BRASÍLIA - Dilma Rousseff, que entrou com o pé esquerdo em 2013, tenta acertar o passo: assumiu o comando da crise de energia, ouviu o setor privado e quer os principais ministros reunidos nesta semana com setores empresariais. No fim, vai prestar contas a Lula.
A palavra de ordem é "destravar" a economia e o governo ou, quem sabe, destravar a própria Dilma.
Ela deve convocar Casa Civil, Fazenda e Planejamento para se reunirem nesta terça-feira com Bernardo Figueiredo, da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), e Rodolpho Tourinho, do Sinicon (o sindicato da construção pesada). De preferência no Planalto, para dar densidade e visibilidade ao encontro.
A constatação é óbvia: nem fazendo mágica o BNDES tem como alavancar os imensos projetos de infraestrutura que o país precisa. Logo, a iniciativa privada tem de entrar. O problema é como.
Duas formas triviais e disponíveis são as encruadas PPPs (Parcerias Público-Privadas) e o regime de concessões, que ainda arranham a gargan-ta de Dilma, dividida entre a alma estatizante e o cérebro pragmático, que vê claramente a saída para investir em estradas, portos, aeroportos, hidrelétricas...
A queda do investimento, aliás, teve peso importante no vexaminoso crescimento de 2012, que puxa a longa lista de críticas ao governo: níveis preocupantes dos reservatórios das hidrelétricas, queda de contratos de energia, inflação há três anos acima do centro da meta e as constrangedoras manobras contábeis para escamotear o fato de que o governo, segundo a Folha de ontem, economizou 35% a menos em 2012.
Além do fator econômico, há o cálculo político na ação de Dilma: ela precisa manter o apoio do empresariado, antes que ele volte de vez ao aconchego de Lula e dali se bandeie para outras candidaturas aliadas ou até da oposição -se não aderir ao grito do "Volta, Lula".
BRASÍLIA - Dilma Rousseff, que entrou com o pé esquerdo em 2013, tenta acertar o passo: assumiu o comando da crise de energia, ouviu o setor privado e quer os principais ministros reunidos nesta semana com setores empresariais. No fim, vai prestar contas a Lula.
A palavra de ordem é "destravar" a economia e o governo ou, quem sabe, destravar a própria Dilma.
Ela deve convocar Casa Civil, Fazenda e Planejamento para se reunirem nesta terça-feira com Bernardo Figueiredo, da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), e Rodolpho Tourinho, do Sinicon (o sindicato da construção pesada). De preferência no Planalto, para dar densidade e visibilidade ao encontro.
A constatação é óbvia: nem fazendo mágica o BNDES tem como alavancar os imensos projetos de infraestrutura que o país precisa. Logo, a iniciativa privada tem de entrar. O problema é como.
Duas formas triviais e disponíveis são as encruadas PPPs (Parcerias Público-Privadas) e o regime de concessões, que ainda arranham a gargan-ta de Dilma, dividida entre a alma estatizante e o cérebro pragmático, que vê claramente a saída para investir em estradas, portos, aeroportos, hidrelétricas...
A queda do investimento, aliás, teve peso importante no vexaminoso crescimento de 2012, que puxa a longa lista de críticas ao governo: níveis preocupantes dos reservatórios das hidrelétricas, queda de contratos de energia, inflação há três anos acima do centro da meta e as constrangedoras manobras contábeis para escamotear o fato de que o governo, segundo a Folha de ontem, economizou 35% a menos em 2012.
Além do fator econômico, há o cálculo político na ação de Dilma: ela precisa manter o apoio do empresariado, antes que ele volte de vez ao aconchego de Lula e dali se bandeie para outras candidaturas aliadas ou até da oposição -se não aderir ao grito do "Volta, Lula".
O candidato - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 13/01
A decisão não foi anunciada, mas já foi tomada. O governador Eduardo Campos será candidato à Presidência em 2014. O PSB diz que não é uma decisão pessoal, mas do partido. Explica que não deve nada a ninguém e que está na hora de se emancipar, pois apoiou o ex-presidente Lula por 24 anos. O PSB não crê na vice e considera o casamento entre PT e PMDB indissolúvel.
Os sindicatos e o governo Dilma
O Diap, que faz o lobby trabalhista no Congresso, está pessimista para 2013 e prevê nova investida contra os direitos dos trabalhadores. A entidade lembra que o provável presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), presidiu a Comissão de Trabalho quando foi votada a flexibilização da CLT, no governo FHC. Avalia que sem a retomada de investimentos, o setor empresarial ampliará a pressão sobre os direitos trabalhistas, alegando que os incentivos fiscais e monetários não são suficientes para manter e gerar empregos. E ressalta que "a ausência de diálogo da presidente com as centrais sindicais favorece esse ambiente pró-mitigação dos direitos trabalhistas".
"O futuro líder da bancada do PMDB na Câmara nunca fará oposição
ao vice-presidente da República, Michel Temer"
A decisão não foi anunciada, mas já foi tomada. O governador Eduardo Campos será candidato à Presidência em 2014. O PSB diz que não é uma decisão pessoal, mas do partido. Explica que não deve nada a ninguém e que está na hora de se emancipar, pois apoiou o ex-presidente Lula por 24 anos. O PSB não crê na vice e considera o casamento entre PT e PMDB indissolúvel.
Os sindicatos e o governo Dilma
O Diap, que faz o lobby trabalhista no Congresso, está pessimista para 2013 e prevê nova investida contra os direitos dos trabalhadores. A entidade lembra que o provável presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), presidiu a Comissão de Trabalho quando foi votada a flexibilização da CLT, no governo FHC. Avalia que sem a retomada de investimentos, o setor empresarial ampliará a pressão sobre os direitos trabalhistas, alegando que os incentivos fiscais e monetários não são suficientes para manter e gerar empregos. E ressalta que "a ausência de diálogo da presidente com as centrais sindicais favorece esse ambiente pró-mitigação dos direitos trabalhistas".
"O futuro líder da bancada do PMDB na Câmara nunca fará oposição
ao vice-presidente da República, Michel Temer"
Lúcio Vieira Lima Deputado federal (PMDB-BA)
Estamos conversados
O vice Michel Temer perguntou ao candidato a líder do PMDB, Osmar Terra (RS): "Se você ganhar vai me atacar?" Terra, que em 2010 apoiou José Serra (PSDB), respondeu: "Desisti dos tucanos depois das eleições, estou com vocês."
Todos juntos
A bancada federal do Rio vai almoçar na quinta-feira com o candidato do PMDB, Henrique Alves (RN), à presidência da Câmara. Os parlamentares estão sendo convidados pelo coordenador da bancada Hugo Leal (PSC), mais Eduardo Cunha (PMDB) e Luiz Sérgio (PT), "em nome do governador Sérgio Cabral e do prefeito do Rio, Eduardo Paes".
Fechando as fronteiras
O governo fará no 1º semestre a primeira Operação Ágata de Norte a Sul. De repressão ao tráfico de drogas e de armas, se encerrará dez dias antes da Copa das Confederações, como forma de fechar ao máximo as fronteiras.
O desencanto
Os amigos do ex-presidente Lula relatam que seu encanto pelo governador Eduardo Campos (PSB-PE) e pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR) acabou. Nas eleições em Recife, Lula fez o que Campos pediu: tirou o prefeito João da Costa da sucessão. Mas o socialista não apoiou o candidato do PT. Requião, por ter sido um crítico sem trégua de seu governo e do de Dilma.
Convocação geral
A presidente Dilma envolveu 20 ministros no encontro nacional com prefeitos. José Eduardo Cardozo (Justiça) dará explicações sobre combate ao crack. Miriam Belchior (Planejamento) será porta-voz de informações sobre gestão fiscal.
Do mesmo lado
O governo está evitando manifestações sobre o tema, mas achou "positiva" e "corajosa" a decisão do governador tucano Geraldo Alckmin (São Paulo) de proibir policiais de socorrer vítimas de confronto com a polícia ou de crimes violentos.
PARLAMENTARES preveem intenso troca-troca no segundo semestre, tendo em vista as eleições de 2014, devido a lentidão da Justiça Eleitoral.
Estamos conversados
O vice Michel Temer perguntou ao candidato a líder do PMDB, Osmar Terra (RS): "Se você ganhar vai me atacar?" Terra, que em 2010 apoiou José Serra (PSDB), respondeu: "Desisti dos tucanos depois das eleições, estou com vocês."
Todos juntos
A bancada federal do Rio vai almoçar na quinta-feira com o candidato do PMDB, Henrique Alves (RN), à presidência da Câmara. Os parlamentares estão sendo convidados pelo coordenador da bancada Hugo Leal (PSC), mais Eduardo Cunha (PMDB) e Luiz Sérgio (PT), "em nome do governador Sérgio Cabral e do prefeito do Rio, Eduardo Paes".
Fechando as fronteiras
O governo fará no 1º semestre a primeira Operação Ágata de Norte a Sul. De repressão ao tráfico de drogas e de armas, se encerrará dez dias antes da Copa das Confederações, como forma de fechar ao máximo as fronteiras.
O desencanto
Os amigos do ex-presidente Lula relatam que seu encanto pelo governador Eduardo Campos (PSB-PE) e pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR) acabou. Nas eleições em Recife, Lula fez o que Campos pediu: tirou o prefeito João da Costa da sucessão. Mas o socialista não apoiou o candidato do PT. Requião, por ter sido um crítico sem trégua de seu governo e do de Dilma.
Convocação geral
A presidente Dilma envolveu 20 ministros no encontro nacional com prefeitos. José Eduardo Cardozo (Justiça) dará explicações sobre combate ao crack. Miriam Belchior (Planejamento) será porta-voz de informações sobre gestão fiscal.
Do mesmo lado
O governo está evitando manifestações sobre o tema, mas achou "positiva" e "corajosa" a decisão do governador tucano Geraldo Alckmin (São Paulo) de proibir policiais de socorrer vítimas de confronto com a polícia ou de crimes violentos.
PARLAMENTARES preveem intenso troca-troca no segundo semestre, tendo em vista as eleições de 2014, devido a lentidão da Justiça Eleitoral.
Conexão Nordeste - FÁBIO ZAMBELI - PAINEL
FOLHA DE SP - 13/01
Dilma Rousseff fará este mês périplo pelo Nordeste para inaugurar obras do PAC e afagar governadores da região onde obteve mais expressiva vantagem na eleição de 2010. A caravana começa nos dias 17 e 18 pela Paraíba e Piauí. A presidente irá ainda ao Ceará, onde, ao lado de Cid Gomes (PSB), entregará a Barragem Figueiredo e a Zona de Processamento de Exportação. A agenda foi planejada pelo ministro Fernando Bezerra (Integração), da cota de Eduardo Campos (PSB-PE).
Marca Governistas querem que Dilma encampe a revisão do pacto federativo como uma das principais bandeiras para a campanha pela reeleição em 2014. A ideia é lançar o projeto em março, durante conferência de desenvolvimento regional.
Copyright Auxiliares da presidente lembram que o socialista Eduardo Campos empunha a mesma bandeira na tentativa de se credenciar à corrida pelo Planalto.
Escaldado 1 No comando do STF a partir de amanhã, Ricardo Lewandowski evitará medidas polêmicas durante os 15 dias de seu plantão na corte. Deve deixar temas espinhosos para a análise do plenário, que retoma atividades em fevereiro.
Escaldado 2 O ministro avalia que qualquer gesto durante o período de recesso será interpretado como teste de sua atuação na etapa derradeira do mensalão.
Onde pega Advogados dos condenados no mensalão tentarão desconstruir, na fase de embargos, dois pontos nevrálgicos no acórdão do julgamento, que deve ser publicado no próximo mês.
Domínio... Defensores do núcleo financeiro contestam a caracterização da lavagem de dinheiro. Entendem que os votos dos ministros indicam favorecimento real, crime com pena mais branda. Dizem não ter havido demonstração de que seus clientes objetivavam reinserir os recursos ilícitos no mercado.
.... do fato O núcleo político, no qual estão José Dirceu e Delúbio Soares, questiona a tipificação de quadrilha. Faltaria, na visão dos advogados, a identificação da antecedência da montagem do grupo aos crimes que teriam sido cometidos.
Terceiro... Fernando Haddad prorrogou por um ano contratos de três organizações sociais da saúde. Os aditamentos somam R$ 135,5 milhões. O tema foi objeto de polêmica eleitoral com José Serra. Ala petista era contrária às terceirizações.
... turno Haddad manterá o sistema, que inflou o custeio da prefeitura no início de mandato. Promete, contudo, tornar mais rigorosa a fiscalização de metas e resultados.
Gesto Em atrito com Haddad quanto ao novo formato da operação policial na cracolândia, Geraldo Alckmin receberá o prefeito e seus secretários para "tête-à-tête" no dia 22. O encontro será no Palácio dos Bandeirantes.
No atacado O tucano chamou seu primeiro escalão para discutir com a equipe do petista itens da agenda comum aos governos estadual e municipal. A pauta inclui transportes, saneamento, habitação, saúde, educação, segurança e Copa-2014.
Recall De um antigo aliado de Serra, sobre o frenesi acerca de sua eventual saída do PSDB: "Na pior das hipóteses, ele aparecerá na próxima pesquisa presidencial. E à frente de Aécio Neves".
Blitz verde Presidente do PV, o deputado José Luiz Penna correrá o país defendendo a inspeção veicular nacional. Salvador, onde o partido elegeu o vice de ACM Neto (DEM), será o ponto de partida da campanha.
Tiroteio
"O PT tanto fez nos últimos dez anos que nos levou ao pior dos mundos: agora, além do crescimento pífio, temos inflação alta."
DO EX-GOVERNADOR ALBERTO GOLDMAN (PSDB), sobre a alta do Índice de Preços ao Consumidor, que fechou 2012 acima da meta do governo.
Contraponto
Programa de auditório
Durante sessão da Câmara, em dezembro, Lincoln Portela (PR-MG) fazia longo discurso, quando foi interrompido por Miro Teixeira (PDT-RJ). Irritado com o acionamento, a cada minuto, da campainha que avisa o fim do tempo para cada parlamentar, o pedetista disse:
-Esse mecanismo é desagradável. De repente, fica parecendo aquela coisa dos hipódromos: toca-se a campainha antes de se dar a largada para a corrida de cavalos.
Sem ter seu pedido atendido, Teixeira completou:
-Assim é melhor soar a campainha a cada 30 segundos. Vamos treinar para o "Se vira nos 30", do Faustão.
Dois na cama - LUÍS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 13/01
Nos anos 30, reagindo a uma onda de protestos contra a “licenciosidade” nos filmes de Hollywood, a indústria cinematográfica americana criou um código determinando o que o público podia e não podia ver na tela. Nudez nem pensar, beijo de boca aberta esquece, sexo só sugerido e assim mesmo dentro de certos limites específicos. Homem e mulher, mesmo casados, não podiam aparecer na mesma cama. Durante os anos de vigência do código puritano, cama de casal, e tudo que ela implicava, era proibida, a não ser que fosse ocupada por uma só pessoa.
Com uma exceção, como sacou o Ruy Castro numa das suas colunas recentes na Folha: o Gordo e o Magro. Há várias cenas nos filmes do Gordo e o Magro em que os dois dormem juntos na mesma cama de casal – isso quando o sono não é interrompido por um fantasma ou uma briga pelo cobertor. E ninguém, que se saiba, jamais protestou contra os dois homens numa cama só. Talvez porque a ideia do Gordo e o Magro fazendo sexo não tenha ocorrido nem à mente mais suja ou mais puritana. Ou talvez se concedesse a uma dupla humorística, cujo fato de ser inseparável fazia parte da sua graça, uma licença que outros casais da tela não tinham.
O curioso é que justamente nessa fase em que o puritanismo reinou, alerta contra qualquer alusão sexual, por menos explícita que fosse, ninguém prestava atenção, por exemplo, no estranho relacionamento do Batman com o Robin. Nunca se soube se os dois dormiam juntos, mas essa seria uma especulação natural numa época tão fixada em sexo e seus subterfúgios. Mas só se começou a fazer este tipo de interpretação – o Zorro e o Tonto representando o colonialismo branco e a submissão do índio, mas certamente dormindo agarradinhos no frio das planícies – tempos depois, quando o ridículo código já tinha acabado, e as camas de casais podiam ser ocupadas por três ou quatro de sexos diferentes.
Mas entende-se. O puritanismo é uma espécie de inocência. Concentra-se tanto no rabo do vizinho que não vê mais nada.
Nos anos 30, reagindo a uma onda de protestos contra a “licenciosidade” nos filmes de Hollywood, a indústria cinematográfica americana criou um código determinando o que o público podia e não podia ver na tela. Nudez nem pensar, beijo de boca aberta esquece, sexo só sugerido e assim mesmo dentro de certos limites específicos. Homem e mulher, mesmo casados, não podiam aparecer na mesma cama. Durante os anos de vigência do código puritano, cama de casal, e tudo que ela implicava, era proibida, a não ser que fosse ocupada por uma só pessoa.
Com uma exceção, como sacou o Ruy Castro numa das suas colunas recentes na Folha: o Gordo e o Magro. Há várias cenas nos filmes do Gordo e o Magro em que os dois dormem juntos na mesma cama de casal – isso quando o sono não é interrompido por um fantasma ou uma briga pelo cobertor. E ninguém, que se saiba, jamais protestou contra os dois homens numa cama só. Talvez porque a ideia do Gordo e o Magro fazendo sexo não tenha ocorrido nem à mente mais suja ou mais puritana. Ou talvez se concedesse a uma dupla humorística, cujo fato de ser inseparável fazia parte da sua graça, uma licença que outros casais da tela não tinham.
O curioso é que justamente nessa fase em que o puritanismo reinou, alerta contra qualquer alusão sexual, por menos explícita que fosse, ninguém prestava atenção, por exemplo, no estranho relacionamento do Batman com o Robin. Nunca se soube se os dois dormiam juntos, mas essa seria uma especulação natural numa época tão fixada em sexo e seus subterfúgios. Mas só se começou a fazer este tipo de interpretação – o Zorro e o Tonto representando o colonialismo branco e a submissão do índio, mas certamente dormindo agarradinhos no frio das planícies – tempos depois, quando o ridículo código já tinha acabado, e as camas de casais podiam ser ocupadas por três ou quatro de sexos diferentes.
Mas entende-se. O puritanismo é uma espécie de inocência. Concentra-se tanto no rabo do vizinho que não vê mais nada.
Conversinha - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 13/01
Três personagens à procura de um programa de governo conversam com empresários
DILMA ROUSSEFF conversa com empresários. Aécio Neves e Eduardo Campos também.
Dilma quer animar a torcida e pegar umas dicas para o final de governo. Aécio e Campos querem encontrar uma torcida. Fazem "road show", uma turnê inicial de propaganda entre donos do dinheiro.
Aécio, senador tucano, provavelmente vai (ser candidato a presidente), mas finge que não. Campos, governador de Pernambuco, do PSB ora governista, provavelmente não vai, mas finge que sim. Pelo sim ou pelo não, ambos deixam como está para ver como é que fica. Isto é, ver se o governo Dilma se trumbica.
A campanha começa daqui a ano e meio. Já está tarde para uma candidatura séria. O que querem os candidatos de ocasião, oportunistas, com essas conversas com empresários além de fazer graça com quem tem poder e dinheiro?
Todo mundo sabe o que os empresários querem, da boca para fora. Na prática, empresários-empresas podem querer coisas muito diferentes. Muito empresário-empresa se arranjou com o que se chama de "intervencionismos" dos governos Lula 2 e Dilma. A chiadeira começou mesmo quando o PIB empacou e Dilma engrossou com a banca e uns outros.
Uma candidatura que não se resuma a esperar o governo Dilma cair de podre, a encontrar podres de Lula e a demagogias teria de arrumar encrenca com empresário-empresa.
Reduzir favores estatais a empresas dá rolo. Abrir a economia, ainda que de modo lento, gradual e seguro, dá rolo. Dar cabo do endividamento público progressivo dá rolo (a dívida federal ainda custa uns 5% do PIB por ano, dinheiro que vai para bancos, empresas capitalizadas e famílias ricas).
Dá rolo e trabalho submeter as empresas a mais competição e ao mesmo tempo usar a energia e os fundos do governo para auxiliá-las com ciência e tecnologia, uma providência óbvia faz décadas.
Não se vai tirar o país do trilho conservador sem mexer também com esses interesses, que são os da parceria da grande empresa com o Estado, como quase sempre.
Liderar Estados e municípios a fim de revolucionar a educação dá rolo. Inclui mexer com a corporação dos professores, uma das maiores e ora das mais reacionárias categorias de trabalhadores.
É preciso debulhar o Estado de suas mil-e-uma inutilidades, limitar seus agora excessos assistenciais, mexer a fundo na sua repartição de gastos. De outro modo, não se vai financiar o que deveria ser a prioridade de governos, em especial os de esquerda: da educação dos pobres da creche à universidade. Ou bancar a redução da violência, que afeta em especial os pobres. Morremos como moscas por causa de tiro e facada; morremos aos montes no trânsito e no trabalho; morremos de doenças primitivas. Bárbaros, não damos a mínima para essas dezenas de milhares de mortes.
O tempo é escasso para inventar uma candidatura que tenha planos sérios e agregue capacidades técnicas e apoios sociais para cuidar disso tudo. Nem se mencione coisa mais complicada, como tornar a democracia brasileira mais democrática, digamos, que são outros quinhentos, talvez quinhentos anos.
Enquanto isso, Dilma conversa com empresários. Aécio também. Campos também.
Três personagens à procura de um programa de governo conversam com empresários
DILMA ROUSSEFF conversa com empresários. Aécio Neves e Eduardo Campos também.
Dilma quer animar a torcida e pegar umas dicas para o final de governo. Aécio e Campos querem encontrar uma torcida. Fazem "road show", uma turnê inicial de propaganda entre donos do dinheiro.
Aécio, senador tucano, provavelmente vai (ser candidato a presidente), mas finge que não. Campos, governador de Pernambuco, do PSB ora governista, provavelmente não vai, mas finge que sim. Pelo sim ou pelo não, ambos deixam como está para ver como é que fica. Isto é, ver se o governo Dilma se trumbica.
A campanha começa daqui a ano e meio. Já está tarde para uma candidatura séria. O que querem os candidatos de ocasião, oportunistas, com essas conversas com empresários além de fazer graça com quem tem poder e dinheiro?
Todo mundo sabe o que os empresários querem, da boca para fora. Na prática, empresários-empresas podem querer coisas muito diferentes. Muito empresário-empresa se arranjou com o que se chama de "intervencionismos" dos governos Lula 2 e Dilma. A chiadeira começou mesmo quando o PIB empacou e Dilma engrossou com a banca e uns outros.
Uma candidatura que não se resuma a esperar o governo Dilma cair de podre, a encontrar podres de Lula e a demagogias teria de arrumar encrenca com empresário-empresa.
Reduzir favores estatais a empresas dá rolo. Abrir a economia, ainda que de modo lento, gradual e seguro, dá rolo. Dar cabo do endividamento público progressivo dá rolo (a dívida federal ainda custa uns 5% do PIB por ano, dinheiro que vai para bancos, empresas capitalizadas e famílias ricas).
Dá rolo e trabalho submeter as empresas a mais competição e ao mesmo tempo usar a energia e os fundos do governo para auxiliá-las com ciência e tecnologia, uma providência óbvia faz décadas.
Não se vai tirar o país do trilho conservador sem mexer também com esses interesses, que são os da parceria da grande empresa com o Estado, como quase sempre.
Liderar Estados e municípios a fim de revolucionar a educação dá rolo. Inclui mexer com a corporação dos professores, uma das maiores e ora das mais reacionárias categorias de trabalhadores.
É preciso debulhar o Estado de suas mil-e-uma inutilidades, limitar seus agora excessos assistenciais, mexer a fundo na sua repartição de gastos. De outro modo, não se vai financiar o que deveria ser a prioridade de governos, em especial os de esquerda: da educação dos pobres da creche à universidade. Ou bancar a redução da violência, que afeta em especial os pobres. Morremos como moscas por causa de tiro e facada; morremos aos montes no trânsito e no trabalho; morremos de doenças primitivas. Bárbaros, não damos a mínima para essas dezenas de milhares de mortes.
O tempo é escasso para inventar uma candidatura que tenha planos sérios e agregue capacidades técnicas e apoios sociais para cuidar disso tudo. Nem se mencione coisa mais complicada, como tornar a democracia brasileira mais democrática, digamos, que são outros quinhentos, talvez quinhentos anos.
Enquanto isso, Dilma conversa com empresários. Aécio também. Campos também.
Quando menos se espera - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 13/01
O caso lembra o da carne de Chernobyl, que durante dois anos ou mais dividiu opiniões, inclusive jurídicas
Tinha o propósito de prosseguir na análise da novela do PIB que virou Pibinho e a senhora presidente pretende passe a Pibão. Mas, a despeito da real importância do assunto, vou deixá-lo à margem por uma ou duas semanas, até porque o formidável fiasco do crescimento do PIB de 2012, que não chegou a 1%, não permite que dele se esqueça em dias.
Vamos ao caso que me afastou do PIB. Estou realmente impressionado com o que está acontecendo no mercado internacional com ônus às exportações de carne do Brasil, que vinham se expandindo em vários níveis. Até onde se sabe a causa residiria em uma notícia, segundo a qual no Paraná teria ocorrido um caso de "vaca louca", o que ao que se sabe, não é correto; não obstante, isto levou nove países a suspender a importação de carne bovina brasileira, em termos globais ou limitados, que importou na queda de receitas em mais de US$ 7 bilhões. Tratar-se-ia de uma única vaca, morta de raiva, em 2010, segundo um laboratório que teria encontrado material semelhante ao da "vaca louca". Ora, o mal da "vaca louca" é inconfundível com o da raiva. São males diferentes de causas distintas.
É claro que não pretendo discutir o mérito de suposto laudo ou coisa que o valha, mas apreciar aspectos, que um bacharel possuidor de algum conhecimento e gosto pela vida rural (e seus problemas) pode fazer. Salta aos olhos que o exame biológico desta única vaca, ao que consta, até agora não estaria concluído. Além disso, o rebanho bovino brasileiro é superior a 200 milhões de cabeças e entre nós nunca houve um surto de mal da "vaca louca", como na Grã-Bretanha. Não tenho notícia da qualificação científica do laboratório em causa, mas as circunstâncias não autorizam se conclua com segurança a boa ou má possível correção do laudo, ainda inconcluso, salvo engano. De qualquer sorte, pelos dados conhecidos, parece não serem bastantes a legitimar a condenação das carnes brasileiras, notória e reconhecidamente de qualidade excelente, e ainda com base em notícia controversa e incerta. Não me parece descabido que no mundo cheio de dificuldades, interesses desconhecidos possam alimentar, por exemplo, propósitos tendentes ao aviltamento de preços. Afinal, nos "meneios da mercância", expressão do meu saudoso professor Hernani Estrella, há luzes e sombras a recomendar a dúvida metódica em relação a situações incertas e improvadas, de origem duvidosa e aptas à proliferação de preconceitos encomendados.
Enfim, o que é certo é que a raiva deriva de vírus transmitido pelo morcego, cachorro, ovelha e cabra, enquanto o "mal da vaca louca" é veiculado pela alimentação quando na ração ingressam restos de seres vivos, como carcaças.
Antes de encerrar essa digressão, devo pedir clemência aos doutos mestres da ciência veterinária pela invasão em suas áreas, reconhecendo que meus conhecimentos a respeito são do tempo em que "vivar o casco" era medida para curar bicheira...
Outrossim, mutatis mutandis, o caso lembra o da carne de Chernobyl, que durante dois anos ou mais dividiu opiniões, inclusive jurídicas, no suposto de que fosse imprópria ao consumo humano por conter radioatividade, enquanto outros defendiam que sua utilização não teria nenhum inconveniente. A querela terminou quando o então ministro da Justiça provocou parecer de três sumidades que, por unanimidade, concluíram que "a carne de Chernobyl" não oferecia qualquer risco ao homem e, olhando pela janela do Ministério, comentaram eles que na grama que se estendia dali e de frente ao Congresso havia mais radioatividade do que na malfadada "carne de Chernobyl", desastradamente importada da Ucrânia, então União Soviética.
O caso lembra o da carne de Chernobyl, que durante dois anos ou mais dividiu opiniões, inclusive jurídicas
Tinha o propósito de prosseguir na análise da novela do PIB que virou Pibinho e a senhora presidente pretende passe a Pibão. Mas, a despeito da real importância do assunto, vou deixá-lo à margem por uma ou duas semanas, até porque o formidável fiasco do crescimento do PIB de 2012, que não chegou a 1%, não permite que dele se esqueça em dias.
Vamos ao caso que me afastou do PIB. Estou realmente impressionado com o que está acontecendo no mercado internacional com ônus às exportações de carne do Brasil, que vinham se expandindo em vários níveis. Até onde se sabe a causa residiria em uma notícia, segundo a qual no Paraná teria ocorrido um caso de "vaca louca", o que ao que se sabe, não é correto; não obstante, isto levou nove países a suspender a importação de carne bovina brasileira, em termos globais ou limitados, que importou na queda de receitas em mais de US$ 7 bilhões. Tratar-se-ia de uma única vaca, morta de raiva, em 2010, segundo um laboratório que teria encontrado material semelhante ao da "vaca louca". Ora, o mal da "vaca louca" é inconfundível com o da raiva. São males diferentes de causas distintas.
É claro que não pretendo discutir o mérito de suposto laudo ou coisa que o valha, mas apreciar aspectos, que um bacharel possuidor de algum conhecimento e gosto pela vida rural (e seus problemas) pode fazer. Salta aos olhos que o exame biológico desta única vaca, ao que consta, até agora não estaria concluído. Além disso, o rebanho bovino brasileiro é superior a 200 milhões de cabeças e entre nós nunca houve um surto de mal da "vaca louca", como na Grã-Bretanha. Não tenho notícia da qualificação científica do laboratório em causa, mas as circunstâncias não autorizam se conclua com segurança a boa ou má possível correção do laudo, ainda inconcluso, salvo engano. De qualquer sorte, pelos dados conhecidos, parece não serem bastantes a legitimar a condenação das carnes brasileiras, notória e reconhecidamente de qualidade excelente, e ainda com base em notícia controversa e incerta. Não me parece descabido que no mundo cheio de dificuldades, interesses desconhecidos possam alimentar, por exemplo, propósitos tendentes ao aviltamento de preços. Afinal, nos "meneios da mercância", expressão do meu saudoso professor Hernani Estrella, há luzes e sombras a recomendar a dúvida metódica em relação a situações incertas e improvadas, de origem duvidosa e aptas à proliferação de preconceitos encomendados.
Enfim, o que é certo é que a raiva deriva de vírus transmitido pelo morcego, cachorro, ovelha e cabra, enquanto o "mal da vaca louca" é veiculado pela alimentação quando na ração ingressam restos de seres vivos, como carcaças.
Antes de encerrar essa digressão, devo pedir clemência aos doutos mestres da ciência veterinária pela invasão em suas áreas, reconhecendo que meus conhecimentos a respeito são do tempo em que "vivar o casco" era medida para curar bicheira...
Outrossim, mutatis mutandis, o caso lembra o da carne de Chernobyl, que durante dois anos ou mais dividiu opiniões, inclusive jurídicas, no suposto de que fosse imprópria ao consumo humano por conter radioatividade, enquanto outros defendiam que sua utilização não teria nenhum inconveniente. A querela terminou quando o então ministro da Justiça provocou parecer de três sumidades que, por unanimidade, concluíram que "a carne de Chernobyl" não oferecia qualquer risco ao homem e, olhando pela janela do Ministério, comentaram eles que na grama que se estendia dali e de frente ao Congresso havia mais radioatividade do que na malfadada "carne de Chernobyl", desastradamente importada da Ucrânia, então União Soviética.
O Estado imperial - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADÃO - 13/01
Ao tentar buscar no imaginário dos brasileiros a imagem de rainha para a presidente Dilma Rousseff, o marqueteiro João Santana provocou, dias atrás, acirrada polêmica entre gregos e troianos. Não apenas nas oposições a ideia pareceu mirabolante. O próprio petismo, ao fazer voto de silêncio em torno da comparação, pareceu incomodado com a vinculação da mandatária à monarquia, cujas tradições conservadoras fazem reviver as lutas de muitos povos contra o colonialismo e a opressão.
Nestes tempos de luzes que iluminam o Estado-espetáculo, até que reis e rainhas caem bem na foto, principalmente quando se cercam de muita pompa e uma prole glamourosa, com netas, netos e lindas princesas, como é o caso da família real inglesa. A estética da liturgia monárquica é a mensagem que chega ao cidadão comum. Sob tal hipótese, hão de se ver seus figurantes não como governantes, mas como estrelas brilhantes a atrair os olhos de multidões turísticas nos países que ainda cultuam o modelo.
Santana arriscou um olhar estético quando viu nossa presidente ocupando “a cadeira de rainha”. A imagem pinçada pelo profissional de marketing parece apropriada. A par da concentração de forças inerentes ao presidencialismo, como é o caso do modelo brasileiro, o perfil de mando encarnado pela presidente da República reforça, sim, o retrato de uma rainha sentada no trono. A observação, pois,excede o território estético e adentra o campo semântico.
A descomunal força do presidencialismo tem que ver com a feição de nossa Federação. Em seus primórdios, mais exatamente em 1891, quando nasceu, a Federação era expressão de equilíbrio entre seus entes. Até 1930 se preservou a divisão de competências entre o governo central e os Estados federados. A harmonia foi quebrada com a centralização de poderes pela ditadura Vargas. O resgate do modelo original reapareceu na Constituição de 1946, quando competências foram devolvidas aos Estados. Na ditadura militar voltou-se à concentração de mando: nada se fazia sem o consentimento dos generais. A Carta Magna de 1988 reabriu a esperança de resgatar o equilíbrio federativo. Não ocorreu. Os Estados perderam parcela de suas competências e a União ganhou unhas e dentes de leão, constituindo-se em polo central da concentração tributária, por meio das contribuições (tributos exclusivos da União), fonte principal da arrecadação. Para se ter uma ideia, Cide e Cofins representam, juntas, mais de 25% da receita total arrecadada no País. A União injetou fermento em sua fatia do bolo, sugando as parcelas de Estados e municípios. As distorções acompanharam a dinâmica do crescimento. Hoje os Estados não chegam a ganhar 25% do bolo tributário, enquanto a União detém 57% e os municípios, 18%.
Em 1965 criou-se o Fundo de Participação dos Estados (FPE) para atenuar desigualdades socioeconômicas entre os entes. A Carta de 88 abriu a possibilidade de regular a partilha dos recursos. Mas os congressistas não conseguiram, até o presente, definir critérios de distribuição. Os Estados submetem-se a uma tabela fixa que perdura há duas décadas. Para corrigir tal distorção a Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade da tabela, definindo que a partir de 2013 outra lei de partilha deveria regular a questão. Não foi feita. O “jeitinho” brasileiro - articulação parlamentar no STF - conseguiu prorrogar o modus operandi antigo. Ao longo dos anos, o congelamento da tabela de repartição do fundo propiciou novas distorções, contribuindo para aprofundar as disparidades. Diante do descalabro, surge a pergunta: porque não se constrói nova modelagem para corrigir as injustiças? Ora, quem é dono da flauta dá o tom. E a dona é a União. O governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, explica: “Não há na consciência brasileira o espírito de colaboração, cooperação e solidariedade da União para com Estados e municípios”.
O quadro é desolador. Os 2.700 municípios com até 10 mil habitantes arrecadam apenas o equivalente a 4% de suas despesas. Os municípios entre 10 mil e 20 mil habitantes arrecadam 8,9% das despesas, porcentual que sobe para 13% nas unidades entre 20 mil e 50 mil habitantes. Nos grandes municípios, incluindo capitais com mais de 1 milhão de habitantes, a arrecadação própria fica em menos de 40%. A dívida ativa dos municípios chega aos R$ 75 bilhões. E a dos Estados é impagável: ultrapassa 10% do PIB, ou mais de R$ 450 bilhões, entre dívidas interna e externa. Emergem nessa encruzilhada as querelas estaduais e municipais: como alterar a alíquota do ICMS sem prejudicar os Estados mais pobres? Como distribuir de forma mais democrática os royalties do petróleo, de modo a evitar o privilégio concedido a apenas dois Estados?
Neste ponto, convém assinalar que um viés político aparece no desenho federativo. Não há como escapar ao axioma que explica a engrenagem do poder: “quanto maior a 'divisão, mais soma alcançam os poderosos”. Enquanto a União expande força, Estados e municípios perdem gordura. O regime presidencial se abastece, assim, na torrente de poderes que inunda os espaços da União. Até parece que temos uma Federação unitária. Os valores centrais do sistema federativo - solidariedade, integração, cooperação - se esfacelam. Forma-se, sob admirado modelo democrático do mundo ocidental (o Brasil já é assim apresentado), um Estado de feição imperial. Sob a designação de República Federativa do Brasil.
O caráter absolutista que se impregna na Federação e anima nosso sistema de governo, vale lembrar, não é algo do ciclopetista. Vem-se desenvolvendo ao longo das últimas décadas. Ao Poder Legislativo, cabe a decisão de mudar os rumos dessa feição capenga. Antes tarde do que nunca. A imagem da presidente Dilma como rainha sentada no trono do Palácio do Planalto é uma sacada séria (e não engraçada) de seu marqueteiro. Pois contém teor de verdade. Tanto no simbolismo estético quanto na significação semântica.
Prepotência sem Fronteiras - ELIO GASPARI
O GLOBO - 13/01
Uma bonita história para a construção da figura da gerentona. Em agosto do ano passado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou que suplementaria as bolsas dos estudantes beneficiados pelo programa Ciência sem Fronteiras com 400 dólares ou 400 libras mensais. Chegou-se à metade de janeiro e ninguém recebeu um tostão. Numa universidade inglesa os brasileiros foram socorridos com ajuda da escola. Os repórteres Flávia Foreque e Breno Costa souberam do caso e perguntaram aos educatecas o que havia. Problemas na “adaptação do sistema”, respondeu a Capes.
Os pagamentos só seriam feitos em fevereiro. Fizeram sete perguntas e três ficaram sem resposta. Uma delas: esses episódios ocorreram em outras universidades? Silêncio. Não é da sua conta. (Ocorreram, em pelo menos outros dois países.)
O presidente da Capes, doutor Jorge Guimarães, explicou que falta-lhe estrutura para fazer o serviço. E por que prometeu? Não lhe faltou estrutura, porém, para intimidar duas estudantes que haviam reclamado. Contou que exigiu delas mensagens declarando que “não estão passando necessidades.” Assim é a burocracia dos educatecas. Na hora de fazer o serviço, nada. (O banco de questões do Enem, por exemplo.) Na hora de ferrar os estudantes, tudo. (Em 2011, a garotada foi proibida de entrar com relógio na prova.)
A doutora Dilma entrou na roda e disse à Capes que ela tinha até o final desta semana para pagar o que deve. Resta saber se o dinheiro irá para a conta dos jovens e, não indo, se o doutor Jorge Guimarães continuará no cargo. Que falta estrutura ao Ciência sem Fronteiras, todo mundo sabe, mas os educatecas acolheram a marquetagem que envolveu o projeto. Há marquetagem, mas há indiscutível êxito. Essa iniciativa inédita já beneficiou 20,6 mil bolsistas. Prometeu que, ao final do governo, chegaria a 75 mil. Portanto, faltam dois anos para conceder outras 54 mil bolsas.
Sem o tranco da doutora Dilma, os estudantes só veriam a cor do dinheiro no mês que vem. Quem perguntasse o que estava acontecendo deveria se contentar com lorotas e silêncios, e quem reclamasse seria convidado a se retratar.
Don Corleone orienta o comissariado
Num momento luminoso para o PT, o companheiro Olívio Dutra, fundador do partido, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, disse ao deputado José Genoino: “Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tens dentro do partido. Eu acho que tu deverias renunciar. Mas é a minha opinião pessoal, a decisão é tua. Não tenho porque furungar nisso.”
Dias depois o comissário André Vargas, secretário de Comunicação do partido, disse que Olívio fora “pouco compreensivo”. E mostrou a faca: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. (...) Ele já passou por muitos problemas, né?”
Engano. Durante o governo de Olívio Dutra, o PT gaúcho foi apanhado numa maracutaia, mas ele nunca foi acusado de envolvimento direto no caso. Processo judicial, nem pensar. Genoino e seu colegas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.
Olívio Dutra é de um tempo em que petistas rachavam apartamento em Brasília (seu parceiro era Lula). Quando deixou a prefeitura voltou a ser um bancário. Com seus bigodes e uma bolsa tétrica, anda de ônibus. Passou por problemas, mas nunca passou pelas soluções dos comissários de hoje.
A resposta do André Vargas indica que no PT 2.0, uma pessoa com a biografia de Olívio é um estorvo, tornando-se necessário colocá-lo ao alcance de qualquer suspeita.
Falta o Gibi
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse uma frase enigmática a respeito do esquema do mensalão: ele era “muito maior, muito mais amplo, do que aquilo que acabou sendo objeto da denúncia”.
Pelo cheiro da brilhantina, Gurgel passou perto de uma modalidade de capilé apelidada por uma víbora de “Gibi”. Tratava-se de um caderninho onde um comissário registrava complementações salariais para companheiros, inclusive e sobretudo do Executivo.
O “Gibi” não entrou nas investigações, muito menos na denúncia, mas se o Ministério Público teve colaboradores voluntários, soube dele.
Madame Natasha
Madame Natasha filiou-se ao PT quando soube que ele foi fundado por Sérgio Buarque de Holanda. Seguia-o porque admirava sua prosa. Ela concedeu mais uma de suas bolsas de estudo ao professor Emir Sader pela seguinte formulação:
“A imprensa brasileira está sob risco de desaparição e, de imediato, da sua redução à intranscendência, como caminho para sua desaparição.”
A madame acha que ele quis dizer o seguinte:
“A imprensa brasileira vai acabar.”
Venezuela
Não há força humana capaz de fazer com que a diplomacia americana se meta em discussões com Hugo Chávez, suas obras e suas pompas.
É a Doutrina Pocilga. Ela foi enunciada assim: “Se você entra num chiqueiro e se mete numa briga com os bichos que estão lá, é certo que vai perdê-la.”
Noutra variante, há a Doutrina Bonaparte:
“Se um sujeito entra num coquetel dizendo que é Napoleão, chame-o de imperador. Se disser que ele não é, começará uma discussão inútil.”
Faxina
A Agência Nacional de Saúde Suplementar suspendeu a venda de 225 planos de saúde de 28 operadoras. Desde julho já foram punidos cerca de 800 planos de cem empresas. Em todos os casos, não prestavam os serviços que vendiam.
Desde que a ANS começou sua faxina, as operadoras puseram em circulação uma lenda segundo a qual seus hospitais e redes de atendimento estão congestionados porque a classe C começou a comprar planos de saúde privados.
Quem ouvir isso deve saber que está sendo feito de bobo. Todas as classes compram planos de saúde porque acreditam que receberão atendimento contratado. O que dezenas de operadoras querem é receber as mensalidades sem investir no serviço ou construir hospitais para atender a clientela. Sonham com o dia em que ela paga, eles embolsam e o doente vai para o SUS.
OMC
São remotas as chances de o embaixador Roberto Azevedo conseguir o lugar de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio.
Curiosidade
Apareceu a primeira fotografia da bomba de Hiroshima tirada por alguém que estava no chão.
Uma das fotos, tirada a bordo de um avião que acompanhava o bombardeiro Enola Gay, autografada pelo comandante da missão e por três outros membros da tripulação, esteve à venda numa loja de autógrafos de Nova York por US$ 1.500.
Na mesma casa há outra, da cena da rendição japonesa a bordo do porta-aviões Missouri, autografada pelo almirante Chester Nimitz. Vale US$ 15 mil.
A primeira era rara. A segunda é comum. A diferença de preço é atribuída à sua natureza politicamente incorreta.
Uma bonita história para a construção da figura da gerentona. Em agosto do ano passado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou que suplementaria as bolsas dos estudantes beneficiados pelo programa Ciência sem Fronteiras com 400 dólares ou 400 libras mensais. Chegou-se à metade de janeiro e ninguém recebeu um tostão. Numa universidade inglesa os brasileiros foram socorridos com ajuda da escola. Os repórteres Flávia Foreque e Breno Costa souberam do caso e perguntaram aos educatecas o que havia. Problemas na “adaptação do sistema”, respondeu a Capes.
Os pagamentos só seriam feitos em fevereiro. Fizeram sete perguntas e três ficaram sem resposta. Uma delas: esses episódios ocorreram em outras universidades? Silêncio. Não é da sua conta. (Ocorreram, em pelo menos outros dois países.)
O presidente da Capes, doutor Jorge Guimarães, explicou que falta-lhe estrutura para fazer o serviço. E por que prometeu? Não lhe faltou estrutura, porém, para intimidar duas estudantes que haviam reclamado. Contou que exigiu delas mensagens declarando que “não estão passando necessidades.” Assim é a burocracia dos educatecas. Na hora de fazer o serviço, nada. (O banco de questões do Enem, por exemplo.) Na hora de ferrar os estudantes, tudo. (Em 2011, a garotada foi proibida de entrar com relógio na prova.)
A doutora Dilma entrou na roda e disse à Capes que ela tinha até o final desta semana para pagar o que deve. Resta saber se o dinheiro irá para a conta dos jovens e, não indo, se o doutor Jorge Guimarães continuará no cargo. Que falta estrutura ao Ciência sem Fronteiras, todo mundo sabe, mas os educatecas acolheram a marquetagem que envolveu o projeto. Há marquetagem, mas há indiscutível êxito. Essa iniciativa inédita já beneficiou 20,6 mil bolsistas. Prometeu que, ao final do governo, chegaria a 75 mil. Portanto, faltam dois anos para conceder outras 54 mil bolsas.
Sem o tranco da doutora Dilma, os estudantes só veriam a cor do dinheiro no mês que vem. Quem perguntasse o que estava acontecendo deveria se contentar com lorotas e silêncios, e quem reclamasse seria convidado a se retratar.
Don Corleone orienta o comissariado
Num momento luminoso para o PT, o companheiro Olívio Dutra, fundador do partido, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, disse ao deputado José Genoino: “Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tens dentro do partido. Eu acho que tu deverias renunciar. Mas é a minha opinião pessoal, a decisão é tua. Não tenho porque furungar nisso.”
Dias depois o comissário André Vargas, secretário de Comunicação do partido, disse que Olívio fora “pouco compreensivo”. E mostrou a faca: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. (...) Ele já passou por muitos problemas, né?”
Engano. Durante o governo de Olívio Dutra, o PT gaúcho foi apanhado numa maracutaia, mas ele nunca foi acusado de envolvimento direto no caso. Processo judicial, nem pensar. Genoino e seu colegas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.
Olívio Dutra é de um tempo em que petistas rachavam apartamento em Brasília (seu parceiro era Lula). Quando deixou a prefeitura voltou a ser um bancário. Com seus bigodes e uma bolsa tétrica, anda de ônibus. Passou por problemas, mas nunca passou pelas soluções dos comissários de hoje.
A resposta do André Vargas indica que no PT 2.0, uma pessoa com a biografia de Olívio é um estorvo, tornando-se necessário colocá-lo ao alcance de qualquer suspeita.
Falta o Gibi
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse uma frase enigmática a respeito do esquema do mensalão: ele era “muito maior, muito mais amplo, do que aquilo que acabou sendo objeto da denúncia”.
Pelo cheiro da brilhantina, Gurgel passou perto de uma modalidade de capilé apelidada por uma víbora de “Gibi”. Tratava-se de um caderninho onde um comissário registrava complementações salariais para companheiros, inclusive e sobretudo do Executivo.
O “Gibi” não entrou nas investigações, muito menos na denúncia, mas se o Ministério Público teve colaboradores voluntários, soube dele.
Madame Natasha
Madame Natasha filiou-se ao PT quando soube que ele foi fundado por Sérgio Buarque de Holanda. Seguia-o porque admirava sua prosa. Ela concedeu mais uma de suas bolsas de estudo ao professor Emir Sader pela seguinte formulação:
“A imprensa brasileira está sob risco de desaparição e, de imediato, da sua redução à intranscendência, como caminho para sua desaparição.”
A madame acha que ele quis dizer o seguinte:
“A imprensa brasileira vai acabar.”
Venezuela
Não há força humana capaz de fazer com que a diplomacia americana se meta em discussões com Hugo Chávez, suas obras e suas pompas.
É a Doutrina Pocilga. Ela foi enunciada assim: “Se você entra num chiqueiro e se mete numa briga com os bichos que estão lá, é certo que vai perdê-la.”
Noutra variante, há a Doutrina Bonaparte:
“Se um sujeito entra num coquetel dizendo que é Napoleão, chame-o de imperador. Se disser que ele não é, começará uma discussão inútil.”
Faxina
A Agência Nacional de Saúde Suplementar suspendeu a venda de 225 planos de saúde de 28 operadoras. Desde julho já foram punidos cerca de 800 planos de cem empresas. Em todos os casos, não prestavam os serviços que vendiam.
Desde que a ANS começou sua faxina, as operadoras puseram em circulação uma lenda segundo a qual seus hospitais e redes de atendimento estão congestionados porque a classe C começou a comprar planos de saúde privados.
Quem ouvir isso deve saber que está sendo feito de bobo. Todas as classes compram planos de saúde porque acreditam que receberão atendimento contratado. O que dezenas de operadoras querem é receber as mensalidades sem investir no serviço ou construir hospitais para atender a clientela. Sonham com o dia em que ela paga, eles embolsam e o doente vai para o SUS.
OMC
São remotas as chances de o embaixador Roberto Azevedo conseguir o lugar de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio.
Curiosidade
Apareceu a primeira fotografia da bomba de Hiroshima tirada por alguém que estava no chão.
Uma das fotos, tirada a bordo de um avião que acompanhava o bombardeiro Enola Gay, autografada pelo comandante da missão e por três outros membros da tripulação, esteve à venda numa loja de autógrafos de Nova York por US$ 1.500.
Na mesma casa há outra, da cena da rendição japonesa a bordo do porta-aviões Missouri, autografada pelo almirante Chester Nimitz. Vale US$ 15 mil.
A primeira era rara. A segunda é comum. A diferença de preço é atribuída à sua natureza politicamente incorreta.
O tempo dirá. Ou não - PEDRO S. MALAN
O ESTADÃO - 13/01
Coincidência ou não, vale o simbolismo: o governo federal escolheu dois 7 de Setembro (2009 e 2012), dias de nossa Independência, para anunciar mudanças importantes nos regimes de concessão nas áreas de petróleo e energia elétrica.
No caso do petróleo, como notei em artigo anterior, "deixe-mos de lado uma pergunta fundamental: era mesmo preciso mudar totalmente a Lei do Petróleo de 1997 apenas para aumentar a fatia do governo no pré-sal?". (Algo que o regime de concessões, adaptado já permitiria, dizem especialistas, por meio de aumento da "participação especial"para os novos campos.) Mas a questão relevante, após a controvertida decisão da mudança de regime, passou a ser a viabilização dos investimentos para a empreitada, principalmente com a Petrobrás tendo de assumir a posição de operadora, com pelo menos 30% de todos os campos do pré-sal a serem explorados.
Opiniões à parte, são fatos que a mudança de regime atrasou o processo, que há quatro anos não há licitações de nenhuma área e que a Petrobrás, como notou Adriano Pires, é a única grande empresa do mundo que, apesar do petróleo a mais de US$ 100 o barril, perde dinheiro quando vende gasolina (cujo consumo aumentou 60% de 2008 a 2012), porque paga mais caro pela gasolina que importa do que recebe pela gasolina que vende, já que seus preços estão controlados por decisão do acionista majoritário. E isso certamente afetou a sua capacidade de investimento. Investimentos que passariam de US$ 174 bilhões (2009-2013) para US$ 225 bilhões (2010-2014 e 2011-2015) para US$ 236 bilhões (2012-2016). Haja Tesouro.
No dia 7 de setembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff anunciou mudanças na legislação sobre o setor elétrico. O governo federal temo direito, estabelecido em lei, de renovar ou não as concessões de geradoras de energia quando os seus contratos terminarem. Era sabido que vários contratos de concessão importantes expiravam em 2015-2017. O governo, buscando o objetivo meritório de reduzir o custo de energia, decidiu propor a renovação antecipada (para 2013) das concessões às empresas de geração e de transmissão que aceitassem reduzir desde logo (2013) as tarifas aos níveis desejados pelo próprio governo.
De novo a questão fundamental, como no caso do petróleo, é: as novas regras contribuirão ou não para aumentar o grau de confiança dos investidores no setor de geração de energia? Em particular, e para usar outras palavras, as novas tarifas (20% mais baixas), tal como estabelecido, permitem às empresas cobrir os seus custos de operação e manutenção - além de efetivar os investimentos necessários à expansão de seus negócios? Há quem diga que sim. Há quem diga que o governo federal terá, cedo ou tarde, de capitalizar as geradoras da Eletrobrás, que seguiu a orientação de seus acionistas controladores de reduzir em mais de 20% a sua receita. E há novos riscos. Haja Tesouro...
Os casos do petróleo e da energia elétrica não são isolados. Problemas assemelhados existem em outras áreas, como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, trens-bala, saneamento, abastecimento de água. O papel do Estado e o do setor privado continuam sendo tema de infindável controvérsia na própria sociedade e, certamente, no âmbito do próprio governo, no qual convivem diferentes posições sobre o tema. Que contribuem, talvez, para confirmar o chiste de Luís da Câmara Cascudo: "O Brasil não tem problemas, apenas soluções adiadas".
Em momentos como este, é fundamental um esforço para melhorar a qualidade do debate público. Apenas quatro observações a esse respeito.
Primeiro, não deveria existir uma política macroeconômica de esquerda, progressista e desenvolvimentista, à qual se contraporia uma política macroeconômica de direita, monetarista, conservadora e "neoliberal". Na verdade, em cada contexto há um espectro de políticas macro mais ou menos adequadas do ponto de vista de sua consistência intertemporal. E um legítimo debate profissional sobre o grau de responsabilidade, de coerência e de credibilidade de uma dada política.
Segundo, não deveria existir, a meu juízo, quando se está discutindo, de boa-fé, na prática, a eficácia de uma política pública específica numa área definida, seja educação, saúde ou segurança, uma posição de esquerda, ou progressista, ou desenvolvimentista em oposição maniqueísta a uma outra posição de direita, ou fiscalista, ou "neoliberal".
Terceiro, há claros limites para a expansão acelerada dos gastos governamentais, ainda quando justificáveis como fundamentais para reduzir injustiças sociais e mitigar efeitos cíclicos de crises econômicas. Como escreveu Luiz Felipe de Alencastro, "a idéia de que se pode alcançar a justiça social às custas das ações do Estado chegou ao limite. É preciso buscar novos caminhos e mobilizar a sociedade em um ambiente onde também atuem mecanismos de mercado".
Quarto, é desonestidade intelectual, além de falta de ética no debate público, imputar a indivíduos, e a supostas escolas de pensamento a que pertenceriam, o descaso com o desenvolvimento econômico e a inclusão social, porque essa "preocupação" teria sido já apropriada e transformada em monopólio de autointitulados "social-desenvolvimentistas". Vimos, recentemente, a tentativa de um partido de se apropriar do monopólio da ética na política. Deu no que deu. O enfrentamento dos difíceis desafios à frente seria mais efetivo se pudéssemos perder menos tempo, talento e energia com falsos dilemas, dicotomias simplórias, diálogos de surdos, pregações dirigidas aos já convertidos e rotulagens destituídas de sentido, exceto para militantes ansiosos por palavras de ordem.
O Brasil merece algo melhor em termos de qualidade de debate público. E acho que, apesar das tentativas em contrário, estamos avançando.
A construção dos desequilíbrios na UE - SAMUEL PESSÔA
FOLHA DE SP - 13/01
A exuberância irracional dos anos 2000 encobriu os problemas; a crise de 2008 expôs os desequilíbrios
Na coluna da semana passada, apresentei as três carências institucionais ou os erros de arquitetura da zona monetária do euro. A união monetária foi um passo maior do que a perna, pois dado antes que a política completasse a construção do arcabouço institucional mínimo requerido para a sua existência.
Faltaram uma união bancária, uma união fiscal mínima para financiar o fundo garantidor de créditos e o seguro-desemprego e, finalmente, a criação de um papel de dívida soberana emitido pela autoridade fiscal que seria o ativo livre de risco do ponto de vista da regulação bancária prudencial.
Nesta coluna, apresento a forma pela qual a interação dessas três carências ao longo da primeira década de vigência do euro causou os desequilíbrios hoje observados.
A primeira década do século 21, período conhecido por "a grande moderação", caracterizou-se pela queda dos juros de longo prazo em todo o mundo. Para os países do sul da união monetária europeia, que pagavam elevados prêmios de risco sobre o papel alemão, dois fatores contribuíram para que os juros de longo prazo se reduzissem ainda mais.
Primeiro, com a criação da moeda única, deixou de existir o risco inflacionário específico de cada país. Todos os títulos da dívida soberana, inclusive das economias do sul da Europa, herdaram a reputação do banco central alemão, materializada no Banco Central Europeu.
Segundo, o tratamento simétrico dado aos títulos de dívida soberana de todos os países que participam da união monetária europeia pela regulação bancária estimulou que os bancos europeus emprestassem mais do que o razoável aos governos do sul, que pagavam juros maiores. Esse estímulo forçou os prêmios de risco pagos por esses países para baixo. Ou seja, em um período de queda dos juros internacionais, a criação da união monetária em associação à falha regulatória de tratar os desiguais como iguais reforçou a pressão à queda dos juros nos países do sul.
O juro é o preço do endividamento. Quando ele cai, há estímulo a que os agentes econômicos acumulem dívidas. Na Grécia, houve forte elevação da dívida pública, na Espanha, da dívida privada, e, em Portugal, um pouco de cada uma.
Ocorre que uma sociedade só consegue se endividar contra o resto do mundo absorvendo na forma de consumo e investimento mais do que produz. A absorção de bens e serviços do resto do mundo em excesso à produção local só pode ocorrer na forma de bens e serviços que são passíveis de serem transportados internacionalmente. Isto é, algo que seja possível de ser colocado em um contêiner, e este, em um vagão de um trem de carga ou no interior de um navio cargueiro e transportado.
Na trivialidade da última frase, encerra-se boa parcela dos problemas vivenciados pela união monetária europeia. O processo de absorção de bens e serviços em excesso à produção doméstica necessariamente produz desequilíbrio entre oferta e demanda. Somente é possível absorver esse excesso na forma de bens transacionáveis, mas a sociedade deseja que parte dessa absorção ocorra na forma de bens não transacionáveis, essencialmente os serviços. Há, portanto, excesso de demanda por serviços.
Dado que o setor de serviços utiliza mais trabalho do que capital, o excesso de demanda por serviços pressiona o mercado de trabalho. Se a união monetária europeia fosse uma área monetária ótima, a pressão sobre o mercado de trabalho não teria maiores impactos.
A migração de mão de obra de outras regiões da união -como ocorre nos EUA ou no Brasil- impediria forte elevação de salários e, portanto, de custos nos países do sul.
Como a união não é uma área monetária ótima, pois, apesar de legal, a mobilidade do trabalho é relativamente baixa em razão das enormes barreiras culturais que ainda há, o processo de absorção em excesso à produção local acarretou elevação de salários e, portanto, de custos na região. Em média, o custo unitário do trabalho, a razão entre o custo e a produtividade do trabalho, elevou-se no período em relação à taxa no norte da união monetária em 25%.
Todos esses problemas ficaram encobertos pela exuberância irracional, ou a grande moderação, dos anos 2000. A crise de 2008 expôs os desequilíbrios. Na próxima coluna apresentarei a forma como vejo a dinâmica da economia da união monetária do euro desde a crise.
A exuberância irracional dos anos 2000 encobriu os problemas; a crise de 2008 expôs os desequilíbrios
Na coluna da semana passada, apresentei as três carências institucionais ou os erros de arquitetura da zona monetária do euro. A união monetária foi um passo maior do que a perna, pois dado antes que a política completasse a construção do arcabouço institucional mínimo requerido para a sua existência.
Faltaram uma união bancária, uma união fiscal mínima para financiar o fundo garantidor de créditos e o seguro-desemprego e, finalmente, a criação de um papel de dívida soberana emitido pela autoridade fiscal que seria o ativo livre de risco do ponto de vista da regulação bancária prudencial.
Nesta coluna, apresento a forma pela qual a interação dessas três carências ao longo da primeira década de vigência do euro causou os desequilíbrios hoje observados.
A primeira década do século 21, período conhecido por "a grande moderação", caracterizou-se pela queda dos juros de longo prazo em todo o mundo. Para os países do sul da união monetária europeia, que pagavam elevados prêmios de risco sobre o papel alemão, dois fatores contribuíram para que os juros de longo prazo se reduzissem ainda mais.
Primeiro, com a criação da moeda única, deixou de existir o risco inflacionário específico de cada país. Todos os títulos da dívida soberana, inclusive das economias do sul da Europa, herdaram a reputação do banco central alemão, materializada no Banco Central Europeu.
Segundo, o tratamento simétrico dado aos títulos de dívida soberana de todos os países que participam da união monetária europeia pela regulação bancária estimulou que os bancos europeus emprestassem mais do que o razoável aos governos do sul, que pagavam juros maiores. Esse estímulo forçou os prêmios de risco pagos por esses países para baixo. Ou seja, em um período de queda dos juros internacionais, a criação da união monetária em associação à falha regulatória de tratar os desiguais como iguais reforçou a pressão à queda dos juros nos países do sul.
O juro é o preço do endividamento. Quando ele cai, há estímulo a que os agentes econômicos acumulem dívidas. Na Grécia, houve forte elevação da dívida pública, na Espanha, da dívida privada, e, em Portugal, um pouco de cada uma.
Ocorre que uma sociedade só consegue se endividar contra o resto do mundo absorvendo na forma de consumo e investimento mais do que produz. A absorção de bens e serviços do resto do mundo em excesso à produção local só pode ocorrer na forma de bens e serviços que são passíveis de serem transportados internacionalmente. Isto é, algo que seja possível de ser colocado em um contêiner, e este, em um vagão de um trem de carga ou no interior de um navio cargueiro e transportado.
Na trivialidade da última frase, encerra-se boa parcela dos problemas vivenciados pela união monetária europeia. O processo de absorção de bens e serviços em excesso à produção doméstica necessariamente produz desequilíbrio entre oferta e demanda. Somente é possível absorver esse excesso na forma de bens transacionáveis, mas a sociedade deseja que parte dessa absorção ocorra na forma de bens não transacionáveis, essencialmente os serviços. Há, portanto, excesso de demanda por serviços.
Dado que o setor de serviços utiliza mais trabalho do que capital, o excesso de demanda por serviços pressiona o mercado de trabalho. Se a união monetária europeia fosse uma área monetária ótima, a pressão sobre o mercado de trabalho não teria maiores impactos.
A migração de mão de obra de outras regiões da união -como ocorre nos EUA ou no Brasil- impediria forte elevação de salários e, portanto, de custos nos países do sul.
Como a união não é uma área monetária ótima, pois, apesar de legal, a mobilidade do trabalho é relativamente baixa em razão das enormes barreiras culturais que ainda há, o processo de absorção em excesso à produção local acarretou elevação de salários e, portanto, de custos na região. Em média, o custo unitário do trabalho, a razão entre o custo e a produtividade do trabalho, elevou-se no período em relação à taxa no norte da união monetária em 25%.
Todos esses problemas ficaram encobertos pela exuberância irracional, ou a grande moderação, dos anos 2000. A crise de 2008 expôs os desequilíbrios. Na próxima coluna apresentarei a forma como vejo a dinâmica da economia da união monetária do euro desde a crise.
Dilma e a burguesia - CELSO MING
O ESTADÃO - 13/01
A presidente Dilma Rousseff parece convencida de que tem de mudar sua maneira de tratar os empresários e o mundo dos negócios.
Nos dois últimos dias chamou para uma conversa alguns dos empresários mais ativos para deles saber o que falta para que voltem a investir.
Essa iniciativa vem num momento em que se espraia pelo mundo (e não só pelo Brasil) a percepção de que o governo Dilma não disfarça atitudes "antibusiness". As críticas manifestadas pelo mais importante semanário de Economia e Política, a revista inglesa The Economist, são desdobramentos dessa imagem ou, se não isso, das contradições com que vem tratando o mundo dos negócios.
O governo Lula chegara à conclusão de que não poderia só cultivar relações com sindicatos, trabalhadores e povão - afinal, suas raízes. Talvez inspirado no modelo corporativista do presidente Getúlio Vargas, formado por sindicatos dos trabalhadores de um lado e por sindicatos patronais de outro (cujas versões políticas foram o PTB e o antigo PSD), Lula entendeu que tinha, também, de dar acolhimento especial para a chamada burguesia empresarial. Para vice-presidente, escolheu um empresário de sucesso, o Zé Alencar. Para passar a impressão de que o homem de negócios participaria do governo, criou um superteatro, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão.
Embora tenha herdado muita coisa da administração Lula, a presidente Dilma parece ter concepção própria do mundo dos negócios. Parece entender que tanto as empresas públicas como as do setor privado têm de fazer o jogo do governo, fortemente intervencionista.
É simplista e equivocado dizer que o governo Dilma seja ou estatizante ou antiprivatizante. Ela tanto reforçou como prejudicou o setor estatal, como também reforçou e prejudicou grandes segmentos do setor privado.
Reforçou o setor estatal na medida em que injetou recursos do Tesouro, aumentou ou manteve alguns dos seus privilégios. E tudo fez para preservar elefantes oficiais - como a Infraero e bancos públicos. Mas também sangrou e vem sangrando empresas estatais - Petrobrás, Eletrobrás e os próprios bancos oficiais -, por deliberadamente sacrificar seu caixa e seu Ebitda, com o intuito de garantir determinadas prioridades de sua política.
Dualidade equivalente vem sendo reservada ao setor privado. De um lado, favoreceu-o com a derrubada dos juros, com a desvalorização do real, com providências destinadas a reduzir as tarifas de energia elétrica, com a redução (ou isenção) do IPI sobre bens de consumo durável, com a desoneração dos encargos trabalhistas e com a criação de reservas de mercado para os fornecedores da Petrobrás e para a indústria de veículos.
De outro, também prejudicou o setor privado, como o do etanol, as empreiteiras, as concessionárias de energia elétrica, as empresas de comunicação e os bancos. O governo Dilma mudou, sem consulta ou negociação prévia, importantes regras do jogo.
Agora, por exemplo, encoraja a Receita Federal a despachar multas multimilionárias a grandes empresas, escorada em legislação tributária intencionalmente confusa e ambígua.
O resultado líquido desses procedimentos é certa erosão de confiança. Mesmo quando não atingido por esses repentes de vontade política, o empresário sente que há uma espada de Dâmocles oscilando ameaçadoramente sobre a sua cabeça. Sempre teme que a política que atropela regras de jogo e que corrói o caixa das estatais acabe derrubando seus negócios. Por isso, prefere manter o breque de mão puxado, não se empenha em modernizar sua empresa e até ri desenxabido quando a presidente Dilma faz apelos insistentes para que, afinal, libere seu espírito animal.
O gigante pela própria natureza está precisando de um choque de capitalismo e de uma mudança radical na maneira como o governo está encarando o mundo dos negócios - tanto os do setor público como os do privado. Embora a presidente Dilma já tenha ultrapassado a metade do seu atual mandato, não é tarde demais para isso.
Erros de energia - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 13/01
Agora em 2013, entrariam em operação 6.000 MW de energia de térmicas que foram arrematadas num leilão de 2008 para entrega em cinco anos. Foram todas vencidas por um grupo neófito, que migrou da pecuária para a geração térmica com incentivo, benção e financiamento do BNDES: o grupo Bertin. O governo não exigiu conhecimento na área. O país perdeu.
O caso Bertin foi um fracasso no setor de geração e deu com os bois e os burros n´água. Ele não conseguiu fazer o que arrematou e devolveu os projetos. Se o setor de energia tivesse exigido experiência do grupo que venceu os leilões, se tivesse havido noção de que aquela concentração era perigosa, o país poderia ter mais 6.000 MW entrando agora.
No ano passado, havia quem no Operador Nacional do Sistema quisesse começar a usar as térmicas mais baratas, as movidas a gás, para poupar água nos reservatórios. Mas prevaleceu o entendimento de que se chovesse bastante no período de chuvas seria recomposto o nível das barragens.
O governo resistiu o quanto pôde a entrar nas outras fontes renováveis, como eólicas. Quando o mundo já investia pesado nessa fonte, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, o governo dizia que era caro demais. Quando, enfim, decidiu levar essa fonte mais a sério, o preço caiu, como acontece sempre em economia de escala. Parte dos parques eólicos, no entanto, está sem interligação por falta de linhas de transmissão. Hoje, há o mesmo desprezo por energia fotovoltaica. E, contudo, ela vai se firmando como uma das opções para compor uma matriz diversificada como tem que ser.
Quando se fala que faltou planejamento, é disso que se trata. Esses três exemplos ilustram a falta de um comando no Ministério das Minas e Energia que tome providências certas no tempo exato.
Nas crises, as autoridades culpam "problemas ambientais" pelos atrasos. É como se o meio ambiente fosse um estorvo. Consórcios, empresas, governo não cumprem determinações do licenciamento e depois culpam as decisões judiciais. O que é necessário é levar sempre em consideração a variável ambiental na hora de fazer as escolhas e cumprir o exigido e assinado nos contratos.
Nas crises, aparecem todos os lobbies de volta. O setor elétrico é fragmentado em interesses os mais diversos. Tem os barrageiros, que acham que a solução será sempre hídrica. O problema aí é que o potencial remanescente está cada vez mais fundo na floresta e os custos não estão bem avaliados. Custos financeiros e fiscais, além dos ambientais e sociais. Uma hidrelétrica a dois mil quilômetros dos centros de consumo exigirá esforço enorme e caro em linhas de transmissão. Já apareceram defensores de se refazer o projeto de Belo Monte na forma original, com cinco hidrelétricas que inundariam uma enormidade no meio da mata. E há sempre os que defendem a nuclear.
O que é preciso perguntar é se é o melhor continuar apostando tanto em energia hidrelétrica, quando os regimes hídricos estão ficando cada vez mais imprevisíveis, e o Brasil já depende enormemente da energia das águas.
Reapareceram também defensores de usinas a carvão, que é a mais suja das fontes de energia, e os projetos que foram abandonados depois de 2009 eram em sua maioria dependentes de um carvão importado da Colômbia.
Se chover muito, acima da média, nos pontos certos de Minas Gerais, o Brasil poderá respirar aliviado, mas o país não pode ir de susto em susto. Precisa diversificar sua matriz com uma inclinação a favorecer as fontes mais limpas, não por exigência de movimentos ambientais, mas porque isso é mais sensato em tempos de mudança climática.
Agora em 2013, entrariam em operação 6.000 MW de energia de térmicas que foram arrematadas num leilão de 2008 para entrega em cinco anos. Foram todas vencidas por um grupo neófito, que migrou da pecuária para a geração térmica com incentivo, benção e financiamento do BNDES: o grupo Bertin. O governo não exigiu conhecimento na área. O país perdeu.
O caso Bertin foi um fracasso no setor de geração e deu com os bois e os burros n´água. Ele não conseguiu fazer o que arrematou e devolveu os projetos. Se o setor de energia tivesse exigido experiência do grupo que venceu os leilões, se tivesse havido noção de que aquela concentração era perigosa, o país poderia ter mais 6.000 MW entrando agora.
No ano passado, havia quem no Operador Nacional do Sistema quisesse começar a usar as térmicas mais baratas, as movidas a gás, para poupar água nos reservatórios. Mas prevaleceu o entendimento de que se chovesse bastante no período de chuvas seria recomposto o nível das barragens.
O governo resistiu o quanto pôde a entrar nas outras fontes renováveis, como eólicas. Quando o mundo já investia pesado nessa fonte, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, o governo dizia que era caro demais. Quando, enfim, decidiu levar essa fonte mais a sério, o preço caiu, como acontece sempre em economia de escala. Parte dos parques eólicos, no entanto, está sem interligação por falta de linhas de transmissão. Hoje, há o mesmo desprezo por energia fotovoltaica. E, contudo, ela vai se firmando como uma das opções para compor uma matriz diversificada como tem que ser.
Quando se fala que faltou planejamento, é disso que se trata. Esses três exemplos ilustram a falta de um comando no Ministério das Minas e Energia que tome providências certas no tempo exato.
Nas crises, as autoridades culpam "problemas ambientais" pelos atrasos. É como se o meio ambiente fosse um estorvo. Consórcios, empresas, governo não cumprem determinações do licenciamento e depois culpam as decisões judiciais. O que é necessário é levar sempre em consideração a variável ambiental na hora de fazer as escolhas e cumprir o exigido e assinado nos contratos.
Nas crises, aparecem todos os lobbies de volta. O setor elétrico é fragmentado em interesses os mais diversos. Tem os barrageiros, que acham que a solução será sempre hídrica. O problema aí é que o potencial remanescente está cada vez mais fundo na floresta e os custos não estão bem avaliados. Custos financeiros e fiscais, além dos ambientais e sociais. Uma hidrelétrica a dois mil quilômetros dos centros de consumo exigirá esforço enorme e caro em linhas de transmissão. Já apareceram defensores de se refazer o projeto de Belo Monte na forma original, com cinco hidrelétricas que inundariam uma enormidade no meio da mata. E há sempre os que defendem a nuclear.
O que é preciso perguntar é se é o melhor continuar apostando tanto em energia hidrelétrica, quando os regimes hídricos estão ficando cada vez mais imprevisíveis, e o Brasil já depende enormemente da energia das águas.
Reapareceram também defensores de usinas a carvão, que é a mais suja das fontes de energia, e os projetos que foram abandonados depois de 2009 eram em sua maioria dependentes de um carvão importado da Colômbia.
Se chover muito, acima da média, nos pontos certos de Minas Gerais, o Brasil poderá respirar aliviado, mas o país não pode ir de susto em susto. Precisa diversificar sua matriz com uma inclinação a favorecer as fontes mais limpas, não por exigência de movimentos ambientais, mas porque isso é mais sensato em tempos de mudança climática.
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