domingo, janeiro 13, 2013

Enquanto comem gelatina - JUAN PABLO VILLALOBOS

O Estado de S.Paulo - 13/01


O que se passa no secreto quarto de hospital de Hugo Chávez em Havana? Um escritor mexicano convidou três colegas cubanos e um venezuelano - e todos toparam imaginar



Estamos falando de um homem de 58 anos com câncer. Um câncer reincidente do qual se havia curado. Não sabemos de que tipo de câncer ele padece – não podemos saber, não querem que saibamos. O homem é presidente de um país há quase 14 anos e acaba de ser reeleito para governar mais 6. Se ele se salvar, poderá governar o país, cujo nome ele mudou, entre outras coisas, por 20 anos. O homem é militar e está convalescendo ou agonizando – não podemos saber, não querem que saibamos – num hospital de outro país, um país amigo. Um país amigo cujo presidente é seu amigo. O país amigo teve apenas um presidente – um amigo – durante décadas. Mas então o presidente amigo do país amigo adoeceu de uma enfermidade secreta. Especulou-se que seria um câncer, mas logo disseram que não era câncer – não podemos saber, não querem que saibamos. Quando o presidente do país amigo estava doente, o presidente que agora está doente o visitava. Se fazia fotografar ao lado dele para demonstrar ao mundo que continuava vivo. O presidente do país amigo sobreviveu, embora tenha deixado o poder nas mãos de seu irmão um pouquinho mais jovem. Como a vida dá voltas! Agora o presidente do país amigo visita o homem de 58 anos que tem um câncer misterioso.



São amigos de hospital: conversam sobre a revolução enquanto comem gelatina.

Rodeado por um mistério digno de telenovela, Hugo Chávez, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, convalesce em Havana. Mas, além de suas posições ideológicas e políticas, ninguém pode negar que poucos personagens revolucionaram o histrionismo político das duas últimas décadas como o comandante venezuelano. Mais do que como presidente ou candidato, Chávez se construiu como personagem literário, como prócer e herói, chegando ao excesso da autoparódia e da caricatura grotesca. Frequentemente, esse Hugo Chávez que se sabe personagem literário, sente-se mais confortável e mais seguro no mundo da ficção, repleto de conspiração e mistério, do que na aborrecida realidade de um país e suas urgências.

Enquanto o comandante se debate em silêncio no que poderia ser seu cenário e atuação definitiva, pedi ao prestigioso escritor venezuelano Alberto Barrera Tyszka, coautor de uma biografia de Hugo Chávez, e a três talentosos escritores cubanos sem preconceitos que imaginassem o que está acontecendo neste momento em Havana e as eventuais consequências para ambos os países.

Para os venezuelanos tudo isso é desconcertante. A doença de Chávez foi sempre um assunto quase sigiloso, tratado com pouquíssima transparência. Até dezembro, somente ele próprio falava de sua doença. Era seu único porta-voz. Por isso, a informação nunca foi muito clara. Não só isso, como também Chávez usou a doença durante a campanha eleitoral sem o menor pudor. De início, suscitando compaixão e, depois, diante de um candidato mais jovem, dizendo que estava curado e que era quase um milagre, uma ressurreição produto do "deus povo". Agora, ele já não fala e, desde o início de dezembro, está desaparecido em Cuba.

Os comunicados oficiais não oferecem dados claros, apenas emoções políticas e exigências de lealdade. A única coisa que temos são boatos. O que é sintoma de outra doença, da doença de um país polarizado, que perdeu a transparência, a capacidade de ter uma verdade comum, aceita por todos.

Há dois Chávez: um secreto, que convalesce em Havana, e outro público, promovido, multiplicado pela propaganda oficial, na Venezuela. Se olhamos a televisão estatal, ficamos assombrados. Estamos assistindo a um processo nunca visto, ao desenvolvimento de uma indústria do culto da personalidade, com todo o dinheiro e a tecnologia do século 21. Chávez é um mito em construção, o primeiro mito midiático do nosso continente neste século 21.


ALBERTO BARRERA TYSZKA. Poeta, romancista e roteirista de televisão. Nasceu em Caracas em 1960. Seu romance La Enfermedad ganhou o prêmio Herralde em 2006. É autor, com Cristina Marcano, da biografia Hugo Chávez sem Uniforme (Gryphus).

Convalescer é um processo para a recuperação da saúde. Para sair do risco de morte. Agonizar é atravessar o estado que antecede a morte. Sofrer de maneira angustiante. São dois verbos antagônicos. A esperança de salvação. A falta dela. O que acontece com o homem com câncer? Ele convalesce? Agoniza? Não podemos saber, não querem que saibamos. Silêncio: o inesgotável discurso do homem com câncer emudeceu. A doença não tem porta-vozes.

Era o tórrido inverno de 2012. Era o dia 30 de dezembro. Enquanto enfiava a ponta da faca nos músculos de um pernil para a ceia de fim de ano, uma jornalista do Noticiario Nacional, em Caracas, falava da convalescença de Hugo Chávez, da difícil situação da oposição, dos fervorosos seguidores de Chávez (em relação ao diagnóstico médico definitivamente desanimador). Uma notícia da TV que, no entanto, ouvia graças a um radinho chinês. A jornalista falava também das missões do presidente Hugo, das relações entre a Venezuela e o nosso arquipélago, mas nada do câncer e da cirurgia. Desejava saber mais do nosso Segundo Presidente, das células cancerígenas que, a poucos dias da posse, estavam lhe pregando uma peça apesar de Deus, apesar daquele primeiro tratamento satisfatório em nosso país.

Em pouco menos de dez anos, eu, que nasci em 76, vi o corpo de puro ferro de Fidel de repente definhar. Na solidão de sua convalescença, recebeu a visita de Hugo Chávez. Era o ano de 2006, e Chávez gozava de perfeita saúde. Estava conectado por meio da banda larga com o povo da Venezuela e de Cuba, com Deus, com Bolívar. Em uma de suas visitas, percorreu o país acompanhado pelo general presidente Raúl. Hugo Chávez estendia o braço e dizia "aqui podemos fazer ... Aqui se pode investir em ..." Terminei de temperar o pernil justamente quando, no meu rádio, a jornalista dizia que devíamos confiar na recuperação de Hugo. Eram palavras alentadoras, assim como foram alentadores os jornalistas que cobriram a convalescença do Velho de Ferro. Será que Fidel apareceu de repente na sala onde atendiam nosso Segundo Presidente? O certo é que na imprensa há fotos de um Hugo com boa aparência e sorridente, mas que não pôde assistir à cerimônia da posse. Cruzei os dedos. O câncer é muito obstinado, muito mais cabeçudo do que a nossa imprensa.


AHMEL ECHEVERRÍA. Nasceu em Havana. Seu romance Días de Entrenamiento ganhou em 2010 o concurso Textos de Gaveta Franz Kafka, prêmio concedido pela ONG checa Libri Prohibiti para romances cubanos que não podem ser publicados em Cuba. No livro, ele imagina a convalescença de Fidel Castro em 2006 e narra, entre outras coisas, as visitas do presidente venezuelano.

O homem com câncer deve estar entubado. Provavelmente sedado. Dormindo. Em coma induzido. Não podemos saber, não querem que saibamos. Mas quase certamente condenado ao silêncio. O homem dos mil discursos amordaçado por um tubo e uma máscara. Os pronunciamentos ricocheteando em sua cabeça. Ecos da vida na terra, fora das quatro paredes do hospital. Socialismo ou morte. Pátria ou morte. Pensavam nos fuzis, mas sobreveio o câncer.

Havana não pode permitir a queda do governo bolivariano porque, sem os subsídios da Venezuela, a revolução afundaria numa crise como a dos anos 90, quando o socialismo europeu desapareceu. Por isso milhares de cubanos trabalham em tempo integral em todas as esferas da sociedade venezuelana, enquanto os serviços secretos da ilha atuam na equipe de assessoria e segurança do presidente moribundo, e infiltrados nas fileiras da oposição. Na prática, Havana se comporta como a metrópole que controla os cordéis do poder em Caracas.

O povo cubano olha para esse cenário com cética sabedoria histórica. Por pânico ou por apatia, assim como nunca se envolve nos acontecimentos de sua nação: espera apenas poder fugir em massa com a Reforma Migratória que, a partir deste janeiro, permitirá as viagens ao exterior sem a humilhante Autorização de Entrada e de Saída do seu próprio país. E se, em razão dessa debandada a ilha precisar de mão de obra barata num futuro imediato, sempre poderá importar cada vez mais do seu satélite venezuelano.


ORLANDO LUIS PARDO LAZO. Nasceu em Havana em 1972. É autor do romance Boring Home, vencedor do concurso Franz Kafka em 2009. É editor do e-zine Voces.

Na penumbra do mistério, o enfermo condenado ao silêncio exige a lealdade de seu povo. O mistério é um motor da trama: o povo quer saber. O povo tem direito a saber? O povo deve esperar. Até o próximo capítulo, embora não saibamos a data, nem o horário, nem o canal. É preciso esperar. Mas o povo imagina o final ou se rebela e aspira a mudar o desenlace da história. O povo sai à rua para manifestar-se contra o maldito câncer. Isso é certo e quanto a isso todos concordamos: o maldito câncer. O imperador das doenças.

O silêncio é significativo, particularmente o silêncio de alguém que vive e respira retórica. Insuficiência respiratória, disseram. Ou Chávez está muito mal ou essa é mais uma jogada em seu xadrez messiânico. Não sei... Mas de qualquer maneira, quando retomar a presidência, ou seja, a palavra (como espero que aconteça mais cedo ou mais tarde), não voltará a ser o Comandante: pela sua boca, na tela ou na tribuna, agora estará falando o câncer. The Big C... O que diz um câncer particularmente agressivo? Como é essa voz? Acredito que iremos ouvi-la em Havana, de uma hora para outra.

JORGE ENRIQUE LAGE. Nasceu em Havana em 1979. É autor do livro de contos El Color de La Sangre Diluida (Letras Cubanas) e do romance Carbono 14. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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