sábado, janeiro 12, 2013

Raios e trovoadas - MARCELO LEITE

FOLHA DE SP - 12/01


Ninguém precisa ser meteorologista para prever que a mudança do clima produzirá um dilúvio de notícias em 2013, após a estiagem criada pela alta pressão conservadora. O debate vai trovoar porque começam a reunir-se os fatores para uma tempestade perfeita.

Com exceção de 1998, os dez anos mais quentes da história foram registrados neste século. O de 2012 foi o mais escaldante dos EUA, castigado pelo furacão Sandy em outubro. Em setembro, o oceano Ártico bateu o recorde de menor extensão da calota de gelo em sua superfície.

Ganha impulso a guerrilha ideológica contra o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima). O colegiado de centenas de cientistas apresentará em setembro seu quinto relatório de avaliação (AR5), com o estado da arte das previsões para o aquecimento global.

Sua credibilidade sofreu baixas localizadas, como a polêmica sobre as geleiras do Himalaia. No quarto relatório (AR4, de 2007), redatores do IPCC haviam incluído relatórios de ONGs -e não trabalhos acadêmicos- como evidência de sua suposta retração.

Agora, houve o vazamento de capítulos do AR5, documento ainda sigiloso porque em fase de revisão. O texto foi divulgado no blog da jornalista canadense Donna Laframboise, que acusa o painel de reincidir no erro ao citar trabalhos da ONG WWF.

Isso não é proibido pelas diretrizes do IPCC, mas, de fato, parece imprudente. De qualquer maneira, as referências ainda podem ser expurgadas pelos revisores do texto, por ora um rascunho. A versão final sai em oito meses.

A mudança de ventos na negociação mundial sobre o clima, porém, depende menos do IPCC do que das oscilações de temperatura nos países que contam.

Nos EUA, Barack Obama, em seu segundo mandato, poderá animar-se a retomar o tema negligenciado no primeiro. Bom sinal foi ter escolhido para secretário de Estado o senador John Kerry -cuja mulher, Teresa Heinz, é pródiga apoiadora da causa ambiental.

Obama e Kerry ainda enfrentam um Congresso disposto a deitar gasolina no fogo (nunca a imagem foi tão apropriada). Mas logo ganharão um argumento para moderar o patriotismo petroleiro dos congressistas.

Economias como China, Índia e Brasil devem crescer com mais vigor neste ano e, em breve, contribuirão mais que o mundo rico para agravar o esfeito estufa. Será obrigatória sua participação, como exigem os ianques, em qualquer esforço para domar o aquecimento global.

Isso, claro, se nenhum raio lançar esses países, ou a economia mundial, nas trevas.

FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA

O GLOBO - 12/01


Colateral 1
Um defensor de Belo Monte diz que a hidrelétrica estaria operando hoje a plena capacidade (11 mil MW), se projeto e obra não sofressem tantas interrupções de 2005 para cá. Hoje, o Brasil está consumindo 11.700 MW de termelétricas, de energia mais cara e poluente.

Colateral 2
Sem mais atrasos, Belo Monte começa a operar em fevereiro de 2015. A usina do Rio Xingu (PA) é a fio d'água. Significa que gera menos nos períodos secos; e mais, nos úmidos. Na Amazônia, a época das cheias começa em janeiro, explica a fonte.

Patentes
Cresceram 6% os pedidos de patentes nacionais e estrangeiros no Brasil em 2012. Foram 33.780 processos, contra 31.765 no ano anterior, segundo resultados preliminares do INPI.Os números são crescentes desde 2010. A alta acumulada beira 30%.

Inovação 1
A Faperj bateu recorde de aplicação de recursos em projetos de ciência, tecnologia e inovação no Estado do Rio, em 2012. Foram R$ 340 milhões, contra R$ 312 milhões em 2011. Os repasses somaram 2,02% da arrecadação tributária. O mínimo são 2%.

Inovação 2
Ano passado, a Faperj lançou 34 editais. Este ano, a previsão é de 45. 

Cabelo
A QOD Cosmetic embarcou oito toneladas de produtos para países árabes este mês. Consumidores da região se interessam por itens para cabelos. E o Brasil é famoso no segmento, diz a fabricante. A empresa gaúcha cresceu 30% em 2012. Este ano, já fechou contrato com Israel.

Cabeleira
A Widi Care, de cosméticos para cabelo, investiu R$ 500 mil em lançamentos em 2012, alta de 25% sobre o ano anterior. Nos últimos 12 meses, chegou a Inglaterra, França e Bulgária. Está em dois mil pontos de venda. Planeja mais 600 em 2013.

Cabeluda
A Skafe Cosméticos, de produtos capilares femininos, quer elevar participação no Rio. A cidade é hoje o quarto mercado da marca, com 12% de participação. Perde para Norte, Nordeste e São Paulo. A Zona Oeste é alvo. A ideia é crescer 8% em um ano.

Livre Mercado
A TIM fez parceria com o Facebook. Clientes pré-pago do plano Infinity Web Modem terão acesso gratuito ao site até 2014. A ação começa 28.

A JLT é responsável pelo seguro de expedição científica à Antártica que pretende levantar US$10 milhões para o Seeing is Believing. É projeto de prevenção contra a cegueira.

O Walmart espera elevar em 15% a venda de sorvetes neste verão.

Paulo Sardinha, da Turbomeca, vai presidir a ABRH-RJ até 2015.

ANP VAI MUDAR RESOLUÇÃO DE CONTEÚDO LOCAL
Novo texto, em consulta pública, propõe que serviços de manutenção de sondas entre na conta de nacionalização
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) pôs em consulta pública a proposta de mudança na Resolução 36/ 2007, que trata da certificação de conteúdo local da cadeia do óleo e gás. É a primeira vez que o texto é revisado. A principal alteração é a inclusão da atividade de manutenção das sondas por estaleiros brasileiros no cálculo do índice de nacionalização. Marcelo Mafra, coordenador de conteúdo local da ANP, diz que a ideia é criar um novo mercado para os estaleiros do país, quando as encomendas de novas embarcações e plataformas não forem tão numerosas quanto agora. Hoje, há uma centena de sondas contratadas ou em operação no país. Muitas delas já estão próximas da parada para manutenção. 0 serviço, normalmente, é feito em estaleiros no exterior. Na nova resolução, o operador que optar pela manutenção num estaleiro brasileiro poderá incluir bens e serviços no índice de nacionalização. "Ao incorporar conteúdo local ao serviço de manutenção, esperamos atrair mais contratos para os estaleiros locais", diz Mafra. 0 texto fica em consulta até 14 de fevereiro. Em 5 de março, haverá audiência pública sobre as propostas. A nova resolução deve sair até o fim do trimestre.


65% DE NACIONALIZAÇÃO
É o índice médio de conteúdo local dos contratos de desenvolvimento de produção de óleo e gás firmados pela ANP. A proporção mínima é de 55%. Na atividade de exploração, a faixa vai de 37% a 55%.

ESTRELADO
O ator Samuel L. Jackson é a nova estrela de Hollywood a protagonizar campanha do CCAA. Astros como Bruce Willis, Megan Fox e Mike Tyson já participaram de anúncios do curso de idiomas. No filme, dois brasileiros passam vergonha por não dominar o inglês. Criação da NBS, estreia hoje.

TRANSFORMAÇÃO DE TAIS
A bela Tais Araujo se despede hoje dos cabelos longos que marcaram a personagem Penha, de "Cheias de Charme". A atriz fechou com a L*Oréal, marca com que mantém contrato, um concurso para escolher os novos corte e tom. Internautas votaram até ontem. Houve mais de 1,6 milhão de acessos ao site. A transformação, num salão de São Paulo, será transmitida na web. Venceram o corte 2 e a coloração A (chocolate).

PRAIA RETRÔ
A Auslãnder, de moda jovem, encomendou à Lenny Niemeyer linha de biquínis e maiôs com modelagem retrô para o alto verão. É a 1ª parceria entre as marcas. André Nicolau fotografou a modelo Daiane Conterato para a campanha, que estreia hoje em redes sociais e internet. A grife espera vender 10% mais em janeiro.

MATISSE
Acabou na quarta-feira, dia seguinte à estreia do BBB13, o estoque de 30 almofadas estampadas com pintura de Henri
Matisse na Guilha. As peças decoram a sala da casa. A rede têm três lojas no Rio. 

Petróleo
A LDC, de consultoria e sistemas em comércio exterior, fez aporte de R$ 1,7 milhão em tecnologias e melhoria de sistemas. A empresa carioca prevê crescimento de 30% este ano. Presta serviços no desenvolvimento de plataformas de petróleo.

Tecnologia
A Radix, de engenharia e TI, obteve a certificação CMMi nível 3, do Software Engineering Institute. Investiu R$ 1 milhão em consultoria, mudanças de processos e treinamento. No Brasil, só 19 empresas têm o reconhecimento.

Parceria
A Elekeiroz e a Oxiteno fecharam acordo com o INT. Vão desenvolver produtos. O instituto apoia projetos de quatro empresas nas áreas de energia e saúde. Somam R$ 7,7 milhões em aportes. Mês que vem, receberá R$ 2 milhões da CNI.

Em expansão
A filial do Rio da Starsoft, de tecnologia, cresceu 30% em 2012. Já é efeito da Copa 2014 e dos Jogos 2016, em razão dos projetos em turismo e construção. Este ano, a meta é avançar 40%. A empresa vai destinar 15% do faturamento à tecnologia e à contratação de pessoal.

A indústria sofre o peso da política de encargos sociais - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 12/01


O valor da folha de pagamentos numa indústria é em função do número de pessoal ocupado e do número de horas efetivamente pagas. Mas o valor dos salários pode elevar consideravelmente o valor da folha, o que aconteceu em novembro do ano passado. Naquele mês, o número do pessoal ocupado caiu 1%, em razão do recuo da produção industrial, e o número de horas pagas teve queda de 0,2% (o que reflete um ligeiro aumento da produtividade), mas a folha de pagamentos real aumentou 11,3%, anulando, assim, qualquer ganho de produtividade.

O mês de novembro foi atípico: além de pagar as indenizações ao pessoal que perdeu o emprego, houve o pagamento do 13.º salário e, em alguns setores, de um 14.º salário, em razão dos dissídios.

É a décima quarta vez consecutiva que o número de assalariados recua, um sinal da situação difícil da indústria, que não consegue manter o emprego. Este caiu 1,4% no acumulado do ano, enquanto o número de horas pagas caiu 1,9%. A folha de salários real, no entanto, no acumulado do ano, apresentou crescimento de 3,9%, o que parece se explicar pelas dificuldades em contratar pessoal qualificado.

De fato, dos 19 setores da indústria, 14 apresentaram uma queda de produção maior do que a do nível de emprego. Fica claro que a indústria faz todos os esforços para manter o seu pessoal na esperança de uma retomada da atividade, que se verificou apenas em outubro e não se prolongou. Registram-se algumas exceções, como no setor de material de transporte, de máquinas e equipamentos, de refino de petróleo e da produção de álcool, em que o pessoal empregado baixou menos do que a produção.

O que fica evidenciado no levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre emprego e salário é que uma parte da falta de competitividade da indústria brasileira está no excesso de encargos sobre os salários, especialmente nos setores que ocupam mão de obra intensivamente. Nesses casos, algumas medidas tomadas pelo governo para aliviar os encargos sobre os salários foram positivas, mas certamente insuficientes.

Atualmente, os países da União Europeia que enfrentam recessão são geralmente os que têm uma política de encargos mais protecionista e estão condenados, neste momento, ao que é pior: o desemprego. A produtividade na indústria depende essencialmente de equipamentos mais modernos, mas a competitividade depende de uma revisão da política de encargos, cujo custo - o desemprego - é muito elevado para o Brasil.

Venezuela em seu labirinto - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 12/01


A América Latina parece realismo fantástico. A posse de corpo ausente de Hugo Chávez foi um ritual não escrito na Constituição do país, nem de qualquer democracia. A sensação é de que a ficção de Gabriel García Márquez é, na verdade, uma crônica atemporal da região. O enredo vivido poderia se chamar O Governante em seu Labirinto; O Outono do Coronel; ou Ninguém vê o Coronel.

Deplorável ver o contorcionismo da diplomacia brasileira para justificar que concorda com a solução ao arrepio da Constituição venezuelana, apesar de ter liderado a suspensão do Paraguai do Mercosul. O Itamaraty disse que não cabe ao Brasil julgar a constituição de outros países. Falta saber por que com o Paraguai foi diferente.

Ontem, o presidente em exercício anunciou que vai a Cuba se encontrar com os presidentes da Argentina e do Peru. A Venezuela passa pela inusitada situação de ter o centro do seu poder mais em Havana do que em Caracas.

O motivo que explica a paixão de uma parte do povo venezuelano por Chávez, e a sua longa permanência no poder, não está na economia. O país cresceu moderadamente, e a inflação acumulada nos 14 anos superou 1.500%. O chavismo nasceu dos erros dos partidos tradicionais e das políticas que Chávez adotou aos mais pobres.

Seus pontos fortes foram as políticas de transferência de renda e a melhoria de condições de vida nos barrios , as favelas venezuelanas. A desigualdade caiu a um dos níveis mais baixos da região. Segundo a ONU, o índice de Gini do país é de 0,41 e a taxa urbana de pobreza caiu de 49% para 29%.

Mas tudo em Chávez é contraditório. Ao mesmo tempo em que essa melhoria social acontecia, o país viveu um espantoso surto de violência urbana. Em 1998, antes de Chávez assumir o poder, a taxa era de 20 homicídios por 100 mil, por ano. Em 2012, foram 73 por 100 mil. Em números absolutos, saiu de menos de 5.000 para 21.600 assassinatos por ano.

A Venezuela era governada antes por uma oligarquia. Os erros dos partidos tradicionais, Copei e AD, corroeram a confiança da maioria do povo venezuelano na política. Depois da tentativa de golpe de 1992, o coronel Chávez entrou na política e se elegeu em 1998. A partir de então, mudou sucessivamente as regras eleitorais para ficar no poder.

Carismático e personalista, Hugo Chávez não permitiu espaço para sucessor claro. Só com o avanço do câncer contra o qual luta informou ser Nicolás Maduro o herdeiro escolhido. O chavismo está dividido em facções. Os militares que ele promoveu ao comando das Forças Armadas tutelam o governo. Mas a plúmbea palavra incertidumbre soa mais eloquente para definir o que vive agora a Venezuela.

Chávez decretou intervenções e estatizações de empresas do país ou estrangeiras, fechou empresas de comunicação, incentivou a formação de milícias, gastou fortunas equipando as Forças Armadas. Para controlar o Judiciário, ele aumentou o número de ministros dos tribunais superiores e nomeou os que lhe seriam leais. Para controlar o Legislativo, mudou regras eleitorais usando os plebiscitos convocados em momentos de alta popularidade. Os que perdeu, ele não respeitou, como o que derrotou sua proposta de reeleições sucessivas.

As oposições erraram muito nesse período. Tentaram o golpe de Estado em 2002. Depois, não participaram de uma das eleições. Só recentemente começaram a achar o tom com Henrique Capriles.

O grande dilema da Venezuela hoje é até onde vai o surrealismo da governo. Em algum momento o país precisará saber se a situação é temporária ou irreversível.

De onde pode vir a paz? - DOM ODILO P. SCHERER


O Estado de S.Paulo - 12/01


No início de mais um ano, as esperanças se renovam e também a coragem para alcançar as metas que nos propomos. É bom que seja assim: de esperança em esperança, vamos avançando e deixando marcas no caminho...

Na passagem do ano, juntamente com os votos de felicidade e de paz recebidos, não faltaram os mais variados ritos para "acordar e trazer boas energias" e invocar a paz para o mundo, como se ela estivesse em algum lugar e pudesse ser trazida, prontinha, para o nosso uso e consumo...

A paz é um direito das pessoas, aliás, pouco respeitado. Ela é ferida pelas guerras e pelo seu rastro de sofrimentos, destruição e morte; também é ferida pelos mais variados atos de violência e injustiça contra o próximo, no desprezo e desrespeito à dignidade das pessoas, no estilo de vida egoísta e individualista, que se fecha diante das necessidades do próximo, no descuido ou na exploração insensata da natureza, sem levar em conta o bem comum.

De onde poderia vir a tão desejada paz? Na sua mensagem para o 46.º Dia Mundial da Paz, comemorado pela Igreja Católica todos os anos no dia 1.º de janeiro, o papa Bento XVI dirigiu-se aos "obreiros da paz". Partindo da bem-aventurança do Evangelho - "felizes os promotores da paz; eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9) -, o pontífice observa que essas palavras de Jesus, mais que uma recomendação moral, já são uma promessa confortadora para todos os que se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor.

A fé cristã traz elementos fundamentais para a edificação da paz: cremos no Deus do amor, do perdão, da misericórdia e da paz; cremos em Jesus Cristo, Filho de Deus, irmão da humanidade, que veio para reunir a humanidade numa grande família de irmãos; ao mesmo tempo, manifestou-lhes os caminhos da verdade, da justiça e do amor, que precisam ser percorridos por todos os obreiros da paz.

Não partilhamos da ideologia da violência, nem da pretensão de solucionar os conflitos mediante o acirramento dos mesmos conflitos; e não acreditamos ser o ódio a força maior do homem, ou que a lógica do convívio social seja ditada pela lei da selva. O homem não é feito para a violência, mas para o amor e a paz. Violência é sintoma de um mal pessoal e social, que precisa ser tratado como verdadeira doença.

No entanto, a paz não está pronta, como um produto de consumo que se possa conseguir por meio de passes de mágica, ou pela imposição da força sobre os outros. A paz é um dom do Alto, enquanto Deus é para o homem o fundamento e a garantia última da justiça, da esperança e da prática do bem. Mas ela também é tarefa do homem, fruto de idealismo e de uma busca tenaz, pessoal e coletiva. Ela se expressa na harmonia interior de cada pessoa, na sua relação com o próximo e com o mundo.

A desordem na vida pessoal é causa da falta de paz, ou da sua perda. A falta de retidão na conduta pessoal não é apenas "questão pessoal", que interessa à vida privada, mas tem repercussão sobre os outros e sobre o convívio social. Com frequência isto fica esquecido: ser bons, justos e honestos é um bem para si e para os outros. Por isso, o cultivo da paz requer dignidade na conduta pessoal e honestidade em seguir os ditames da consciência moral, que aponta para a prática do bem e para a busca da verdade, da retidão e da justiça. Sem isso não há paz consigo mesmo. Nem com os outros.

A paz também precisa ser edificada e cultivada nas relações com o próximo, nas suas mais variadas dimensões. O respeito que se pretende para si mesmo e para a própria dignidade deve também ser dado aos outros. A sensibilidade diante das necessidades e dos direitos do próximo, com o senso da justiça e da solidariedade nas relações sociais, é indispensável para a edificação da paz nas relações humanas. O mesmo vale para as relações entre os povos e as nações. O silêncio dos oprimidos nunca é sinal de verdadeira paz.

A paz depende ainda de nossas relações com o mundo que nos abriga e nos sustenta. O papa refere-se ao cuidado da vida, a começar pelo respeito pleno à vida humana, em todas as suas fases; é impossível haver paz quando não se respeita a pessoa humana, sua dignidade e sua vida. Mas o respeito e o cuidado referem-se também à vida em geral: os maus-tratos à natureza, as atitudes egoístas e individualistas na exploração e no uso dos bens da natureza são uma ameaça à paz. O mundo é a casa de toda a família humana e seu bem comum; quando a casa é descuidada por seus ocupantes, ou não há equidade no seu uso, os conflitos estão às portas...

Não cai do céu essa preciosa paz! Ela requer muitos obreiros corajosos e dedicados, que acreditem na possibilidade da paz e nos meios para alcançá-la. Construtores da paz são preciosos, necessários por toda parte e em todos os níveis do convívio social: nas relações políticas, nas atividades econômicas, nas instituições educacionais, na vasta rede das organizações sociais, religiosas, culturais e artísticas, no mundo da comunicação...

Lamentamos a falta de paz no Oriente Médio e em várias partes da África... Repudiamos, mesmo que apenas timidamente, os notórios fatos de violência acontecidos perto de nós, no ano apenas concluído; e já voltaram a acontecer em 2013! Mas, talvez, nos perguntamos pouco sobre o que levou a tantas tragédias de violência e à perda da paz. Convém que a sociedade inteira se interrogue profundamente sobre a pedagogia da paz, que não é um produto pronto e embalado para o consumo, mas fruto de uma busca lúcida e perseverante, pessoal e coletiva: educar para a paz, desde a mais tenra infância e ao longo de toda a vida, é uma necessidade; a família e a escola têm nisso um papel indispensável.

O ano de 2013, desde o seu início, está confiado aos obreiros da paz. Edificadores e educadores da paz serão reconhecidos como filhos de Deus.

Subterrâneo - SONIA RACY


O GLOBO - 12/01

As empresas participantes reclamaram, e o Metrô anulou a sessão de pré-qualificação para expansão da Linha 2-Verde, entre Vila Prudente e Dutra – ocorrida no dia 4.

Motivo do imbróglio? A estatal publicara na véspera, em seu site, nota adiando o evento. Mas o comunicado sumiu da página na manhã do dia 4.

Subterrâneo 2

Preocupadas, as concorrentes foram até a sede do Metrô e descobriram que a sessão estava em andamento – como programado originalmente.
Questionada pela coluna, a estatal explicou que “houve uma postagem indevida no site da companhia” e uma nova data será marcada.

Plantão médico
Eleito vereador, Mario Covas Neto tomou posse no... Hospital Sírio-Libanês. Um dia após retirar a vesícula.
Fez o juramento e assinou a papelada na presença de José Américo, presidente da Câmara. A alta está prevista para os próximos dias.

Menu presidencial

A atração do almoço oferecido por Dilma a Eduardo Campos e Jaques Wagner – na Base Naval de Aratu, onde a presidente passou férias – foi o risoto de grana padano.
Fez tanto sucesso que Fátima Mendonça, primeira-dama da Bahia, levou a receita para casa é já mandou preparar para o governador.

Martelo batido

Dilma decidiu: vai indicar o substituto de Ayres Britto no STF logo após a escolha dos novos comandantes da Câmara e do Senado, em fevereiro.

Galo cantou

Em ritmo de Copado Mundo, a francesa Le Coq Sportif está chegando ao Brasil – pelas mãos da SPR. A intenção é abrir dez lojas em 2013.

Investimento? R$ 5 milhões.

Susto em Havana

Turista brasileiro em Havana – ambientado à ilusão de “volta ao passado” que o desfile de coloridos e remendados carrões americanos dos anos 50 proporciona - – tomou susto no réveillon. Viu surgir, de uma esquina, duas moderníssimas Mercedes, de um negro luzidio das janelas aos pneus.
O único contraste na cena ajudou a trazê-lo de volta ao terceiro milênio: as bandeirinhas da Venezuela tremulando na “proa”...

Soprando velinhas

Para celebrar o centenário de To-mie Ohtake, em novembro, o instituto que leva seu nome prepara três exposições.
A primeira, em fevereiro, trará artistas que dialogam com sua obra. A segunda, em agosto, mostrará seus estudos. E a última, em novembro, será um panorama de sua trajetória, com curadoria de Paulo Herkenhoff.

Overseas

O movimento Gota d’Água encontrou parceiros na... Turquia. A ONG –- contrária à construção de Belo Monte–juntou-se a artistas de lá, que lutam contra o projeto de uma barragem em Ilisu.

O “intercâmbio” é fruto da Rio+20, quando os ativistas se conheceram. Um vídeo sai esta semana.

Outro lado

Sobre a polêmica dos sobrenomes “Guarani-Kaiowá”, que tiveram de ser ‘corrigidos’ para que usuários pudessem acessar seus perfis, o Facebook explica que nomes ou identidades falsos violam seus termos de uso: “O Facebook é fundamentado na cultura de pessoas reais fazendo conexões reais”.

Na frente

Luciano Coutinho, do BNDES, recebe prêmio Personalidade do Ano 2013 – outorgado pelo Conselho de Administração da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Dia 16 de maio, no hotel Waldorf Astoria, em Nova York.
Ronaldo Fenômeno, Luiz Felipe Scolari, Galvão Bueno e mais 15 presidentes de clubes do Brasil lançam o Movimento por um Futebol Melhor. Segunda, no Memorial da América Latina.

O DJ Calvin Harris bateu o martelo. Vem ao Brasil para tocar no Camarote Salvador neste carnaval.

John Kip faz pocket show no happy hour do Ilha das Flores. Hoje.
Sobre nota publicada ontem a respeito de problemas no sistema do aeroporto de Cumbica, a Infraero esclarece: Guarulhos é administrado por concessionária privada desde 15 de novembro.

Alinhados - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 12/01


O Planalto já não teme mais o desfecho da eleição para a liderança do PMDB. Os três candidatos - Eduardo Cunha (RJ), Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS) - afinaram o discurso. Nenhum deles pretende contestar o governo Dilma ou desafiar a direção do partido. Eduardo Cunha, com o apoio do governador Sérgio Cabral (RJ) e do vice da CEF, Geddel Vieira Lima, lidera a corrida.

Mudança de guarda
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), comprou briga com os policiais militares aposentados ao mudar o sistema de escolha dos 31 subprefeitos da cidade. Até o final de seu mandato, Kassab nomeava cada vez mais policiais militares da reserva para cargos nas subprefeituras. Pretendia desta forma manter sua administração mais ou menos imune às pressões políticas dos partidos e dos vereadores. Haddad assumiu e mudou tudo. Ele nomeou técnicos concursados da prefeitura. Os militares da reserva não gostaram, e o prefeito também comprou briga com seus aliados, que pretendiam fazer indicações políticas para as subprefeituras.

“... Temos pressa. Uma nova direção partidária, vigorosa, ágil, capaz e com reconhecimento público é essencial. 
Alberto Goldman Vice-presidente nacional do PSDB

Mobilidade
Os candidatos Eduardo Cunha (RJ) e Sandro Mabel (GO), em campanha para liderar a bancada do PMDB na Câmara, usam jatinho para ir aos estados se reunir com os deputados. Osmar Terra (RS) se locomove de avião comercial.

O tempo não para
A presidente da CNA, Kátia Abreu (PSD-TO), está usando o recesso para fazer um curso de imersão em inglês na China. Aproveita para fazer gestões junto ao PC Chinês pelo fim do embargo à carne brasileira. Entre outras autoridades, Kátia esteve com o presidente do Centro de Cooperação Econômica Internacional do Partido, Li Dongxiao.

Sem pressa
Advogados de políticos condenados no mensalão estimam que o STF só publicará o acórdão do julgamento entre abril e maio. Sem isso, não podem apresentar os embargos declaratórios (recursos) contra a decisão dos ministros.

Shows simultâneos
No Dia do Carteiro, 25, os Correios farão shows gratuitos em cinco capitais: Rio, Brasília, Manaus, Curitiba e Salvador. No Rio, o evento será nos Arcos da Lapa, com Preta Gil e Péricles. Brasília verá o Paralamas; Curitiba vai de Nando Reis; Manaus terá Gaby Amarantos; e Salvador ouvirá Margareth Menezes. A estatal completa 350 anos e, dia 24, fará um jantar de gala em Brasília.

Pacificados e treinados
O Ministério do Desenvolvimento Social ofereceu ao secretário de Assistência Social do Rio, Zaqueu Teixeira, vagas ilimitadas em cursos do Pronatec para beneficiários do Bolsa Família. Hoje, 8 mil pessoas no estado estão matriculadas.

A luta pelo voto
O governador Cid Gomes (PSB-CE) está apoiando Henrique Alves (PMDB-PB) para a presidência da Câmara. Ele está chamando os 22 deputados federais do Ceará para um almoço com Alves, no dia 23, no Palácio da Abolição, em Fortaleza.

PARA FAZER A REFORMA POLÍTICA, o PT pretende coletar um milhão de assinaturas de apoio a uma emenda popular que promova esta reforma.

Campo minado - FÁBIO ZAMBELI - PAINEL


FOLHA DE SP - 12/01


Ala do PT alijada da composição do governo paulistano decidiu tornar público protesto contra as indicações tidas como técnicas de Fernando Haddad para o comando das 31 subprefeituras. Petistas identificaram na lista de escolhidos pelo prefeito engenheiros e arquitetos com histórico hostil à gestão de Marta Suplicy. O mesmo grupo considera desrespeitosa a orientação de Haddad para instalar aliados de vereadores em funções subalternas nas administrações regionais.

#chatiado 

Um dos críticos das nomeações é o deputado Vicente Cândido (PT-SP), que trabalhou na campanha de Haddad. "Nas próximas eleições vou sugerir ao PT que faça concurso público para cargos de coordenação de campanha. Na hora de montar o governo, a preferência é dos técnicos", ironiza.

Muita calma... 

Haddadistas defendem o perfil dos novos subprefeitos. Alegam que todos são funcionários de carreira que trabalharam nas gestões de José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD), seguindo suas orientações.

... nessa hora 

Aliados do prefeito afirmam ainda que petistas serão atendidos. Estimativa preliminar mapeou até dez cargos disponíveis para indicações políticas em cada subprefeitura. Só escaparão da partilha as chefias dos setores de obras e finanças.

Afinidades 

Os prefeitos do PT na Grande São Paulo planejam criar conselho para tratar de temas de interesse comum no entorno da capital. O partido administra 7 das 10 maiores cidades da região, chamada por tucanos de "cinturão vermelho".

Bunker 

Kassab montou QG da Executiva Nacional do PSD em São Paulo. Sua base paulistana fica no edifício Joelma, sede dos comitês das últimas campanhas de Serra. O ex-prefeito passou a despachar no local, onde traça o calendário de consultas sobre a aliança com Dilma Rousseff.

Stand by 

Paulinho da Força (PDT-SP) fez chegar a aliados que perdeu fôlego a tese de fundação de nova sigla, denominada "Solidariedade". O deputado busca aproximação com o PSDB paulista e garante ter recebido do presidente Carlos Lupi promessa de espaço na cúpula nacional pedetista.

Consultoria 

José Dirceu, que esteve com José Sarney (PMDB-AP) na quarta-feira, costuma se aconselhar com o presidente do Senado sobre os "humores do Judiciário" desde que o STF começou a julgar o mensalão. O ex-ministro relata as impressões do senador sobre o cenário político em rodas de amigos.

Café... 

Aliado de Geraldo Alckmin, o presidente do PSDB paulista, Pedro Tobias, reclama de Aécio Neves, que acelerou a preparação de sua campanha presidencial. "Não se pode atropelar todo mundo. Não existe candidatura à Presidência viável sem o apoio de São Paulo".

... com leite 

Marcus Pestana, presidente tucano em Minas, defende o senador. "Sabemos da importância do Estado, mas é preciso entender que a Revolução de 1932 é coisa do passado", disse o deputado, referindo-se ao conflito constitucionalista que opôs os dois Estados.

Choque 

Ativo no debate sobre a MP do setor elétrico no Congresso, Márcio Zimmerman, número dois das Minas e Energia, não foi interlocutor do projeto com Dilma. Os mais consultados pela presidente foram Nelson Hubner (Aneel) e Mauricio Tolmasquim (Empresa de Pesquisa Energética).

Expansão 

Implantado em Alagoas, o programa Brasil Mais Seguro, do Ministério da Justiça, chegará à Paraíba e ao Rio Grande do Norte até junho. O projeto monitora ações do crime organizado.

com ANDRÉIA SADI e DANIELA LIMA

tiroteio

"Não é hora de dar gargalhadas, como insinuou Dilma. O governo do PT precisa enfrentar a crise de energia com coragem."

DO LÍDER DA MINORIA NA CÂMARA, MENDES THAME (PSDB-SP), sobre a presidente ter ironizado, em dezembro, a possibilidade de racionamento..

contraponto

Transferência de renda

Geraldo Alckmin discursava anteontem na inauguração de conjunto habitacional em Campinas sobre a importância da qualificação profissional. No palanque, disse que havia conversado com sua mulher, Lu Alckmin, sobre o assunto e que ambos chegaram a uma conclusão:

-Descobrimos que está faltando gente para trabalhar em todas as áreas que terminam com "eiro": carpinteiro, pedreiro, costureiro...

No meio da fala, um dos participantes do evento gritou da plateia, arrancando um sorriso amarelo do tucano:

-Está faltando dinheiro, governador, dinheiro!

É hora de rasgar a fantasia - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém


O GLOBO - 12/01


O racista e homofóbico Eduardo Cunha é candidato à liderança do PMDB na Câmara, contra as vontades da Dilma, do Temer, da maioria do PMDB e de outras pessoas de bem que integram o Congresso e a política brasileira.

O chamado mundo político está, por isso, e por assim dizer, decepcionado com Cabral e Paes, os dois únicos defensores confessos da candidatura Cunha.

É a repetição do poema "Anedota búlgara", de Drummond, sempre recorrente aqui neste espaço e que merece, mais uma vez, ser repetido:

"Era uma vez um czar naturalista/ que caçava homens./ Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,/ ficou muito espantado/ e achou uma barbaridade".

É que toda essa gente de bem apoia as candidaturas às presidências da Câmara e do Senado de Henrique Alves, ex-candidato a vice de Serra, e de Renan Calheiros, ex-presidente da Casa. Ambos renunciaram por improbidade.

O óbvio
Cabral já sabe que aquele governador indiscreto botou em viva-voz seu telefonema pedindo votos para Cunha.

Por isso, esperto, como sempre, não desmentiu o vazamento da conversa. Respondeu-me com aquele que deveria ser o seu comportamento mais adequado, mas que não foi:

- A escolha de líder é assunto da bancada.

Guardanapo
Na sua suprema vaidade, Cunha nunca escondeu de ninguém sua forte ligação com o Cavendish, da Delta.

E o prefeito, temendo associações, arrependeu-se de ter confirmado apoio e tentou driblar a esperteza, quando solicitado a reconfirmar declaração anterior:

- Nada a declarar.

Recorrendo ao infeliz chavão de um serviçal da ditadura, Paes acha que se protege do sol, sem ter que botar um guardanapo de pano na cabeça. Ledo engano.

Fofoqueiro, eu?
Por quem me tomas, ó Thomaz... Bastos?!

Está muito enganado o ex-ministro da Justiça.

Não será para ele que eu vou confirmar o jantar secreto havido esta semana entre o seu atual sucessor, José Eduardo Cardozo, e o Joaquim Barbosa!

Só se eu fosse louco! Bastos correria ao Zé Dirceu para contar.

Pior se eu dissesse quem serviu de cupido nesse jantar.

Não adianta nem especular que foi o presidente do STJ, Felix Fischer, que eu não vou confirmar.

Odeio fofocas
Se eu fosse fofoqueiro, eu contava ao Pezão e ao Henrique Alves tudo o que Eduardo Cunha vem falando deles.

Do Henrique, até que acredito, pois, afinal, ele sempre foi apadrinhado do Cunha. Então, é natural que este o chame de "ingrato", "mal-agradecido" e "pidão".

Apelação
Mas, falar do Pezão com base no que supostamente Lindbergh teria ouvido do Lula, eu acho forçação de barra demais. Lula adora Pezão.

Prova
Para desfazer fortes rumores de desavenças no lar, Lula tem ligado a todos os políticos amigos na presença da Dona Marisa.

Além de destacar isso, na maioria das vezes, Lula tem passado a ligação para que a ex-primeira dama dê sempre uma palavrinha carinhosa com o interlocutor.

Nem tanto
Só que, na política, o que vale sempre é a versão, não o fato.

Depois de receber todas as provas de que está tudo bem entre o casal, ainda tem neguinho que desliga o telefone teimando:

- A voz dela estava boa. Por isso, não acreditei.

Agenda
Zé Dirceu descansou quatro dias, na última semana, em Ilhabela, a convite de Fernando Morais e Samuel MacDowell.

Morais aproveitou para gravar mais depoimentos do Zé para o livro que escreve sobre ele.

Na segunda, foi a vez de o maestro João Carlos Martins convidar amigos, entre eles, o médico Raul Cutait e o técnico de vôlei José Roberto Guimarães, para um jantar em torno de Zé Dirceu.

Na quarta, Zé, em tête-à-tête com Sarney, falou, também em jantar, sobre o julgamento do mensalão.

Dias fecundos
Base se queixa: a Dilma, esta semana, só conversou com empresário. Não recebeu político algum.

Logo, a semana foi produtiva para o país.

Milhagens inúteis - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 12/01


Apenas 14% das milhas oferecidas pelos cartões de crédito são aproveitadas. O resto se perde e se torna grande negócio para companhias aéreas e para administradoras de cartões de crédito, que cobram para oferecer pontos.

Os levantamentos do Banco Central mostram que só os pontos de abono dos cartões de crédito expirados em 2011 bastariam para emitir mais de 7 milhões de passagens aéreas para qualquer destino da América do Sul.

Por que isso acontece? Em boa parte, porque esses programas de fidelização se complicaram. Ficou tão exasperante converter um crédito em milhas num tíquete de voo que, muitas vezes, o consumidor acaba desistindo. Essa complicação abriu espaço para novo negócio: o de empresas especializadas em comprar e revender milhagens.

O Código de Defesa do Consumidor não exige apenas que informações ao consumidor sejam "claras e precisas". Devem ser ainda "ostensivas". E o desrespeito a essa norma é comum. A seção de reclamações do consumidor do Estado (São Paulo Reclama), por exemplo, vem recebendo inúmeras queixas de leitores que esbarram em enormes dificuldades quando tentam aproveitar seus créditos.

As queixas são as mais variadas. O turista junta pontos e, quando tenta trocá-los por passagens, leva um baile na internet ou ao telefone para ser atendido (veja o Confira). Ou então, se consegue falar com alguém, descobre que assentos para a troca de milhagens são limitados e que, por isso, o pedido deveria ser feito com mais antecedência. Outras vezes não consegue usar os créditos para operações de upgrade (troca de passagem econômica para executiva, por exemplo).

Fora isso, algumas companhias mudam regras unilateralmente. Num determinado período do ano, por exemplo, uma passagem equivale a 15 mil pontos. E, quando o consumidor acumula esse volume, sem prévio aviso, a exigência passa a ser de 25 mil pontos. Mas o prazo de validade não para de correr. Nem sempre o cliente obtém o volume suplementar para a troca antes que os pontos expirem.

Ouvidas por esta Coluna, as companhias aéreas não reconhecem o problema. Dizem que seu sistema é bom a toda prova ou, então, que tem de ser suficientemente confiável para evitar fraudes, o que implica aumento da complexidade da operação. A impressão que fica é a de que, nas temporadas de maior procura, elas estejam mais interessadas em desestimular a conversão de créditos de milhagem na esperança de que, se aparecerem encrencas, darão um jeito depois.

A diretora de Atendimento e Orientação da Agência de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo, Selma do Amaral, adverte: "Nenhum contrato pode ser alterado uma vez em vigor. As milhagens necessárias para viajar tem de ser, até expirarem, as mesmas de quando começaram a ser acumuladas. Os pontos e o que valem constam no contrato. São direito adquirido, não mero brinde".

As milhagens assim devidas constituem passivo das companhias aéreas que merece administração técnica mais adequada. No entanto, o alto grau de obsolescência dos crédito de milhagem é, por si só, condição que dificulta o controle e a fiscalização desse passivo.

LEITTE QUENTE - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 12/01


A cantora Claudia Leitte se apresentou no Club A anteontem. A dupla sertaneja Munhoz e Mariano, a apresentadora Ana Hickmann e o estilista Walério Araújo foram ao show, em Moema.

MEIAS VERDADES

A UNE (União Nacional dos Estudantes) lançará sua própria Comissão da Verdade, no dia 18, em congresso com cerca de 3.500 centros acadêmicos no Recife. A entidade quer apurar crimes contra ao menos 46 de seus dirigentes, mortos ou desaparecidos durante o regime militar. Vão tentar desvendar o paradeiro de restos mortais e pedir alteração em atestados de óbito de guerrilheiros do Araguaia.

PATRONO

O ex-ministro de Direitos Humanos Paulo Vannuchi será o patrono da investigação estudantil. Cláudio Fonteles, que preside a Comissão Nacional da Verdade, e Paulo Abrão, da Comissão de Anistia, também participarão do ato de lançamento.

PASSADO REVISTO

A UNE pretende lançar em 28 de março dossiê sobre o desaparecimento de seu ex-presidente Honestino Guimarães, em 1973. É a data de nascimento de Honestino e de morte do estudante Edson Luís Souto, em 1968. Segundo Daniel Iliescu, presidente da entidade, há indícios de que Honestino foi "visto pela última vez numa prisão na Marinha do Rio".

PASTA E VINO

Sergio Arno vai abrir nova casa, nos moldes do antigo La Vecchia Cucina, no bairro do Campo Belo. O chef retoma suas atividades de forma mais autoral com a abertura do La Quottidiana até o final do mês. Na trattoria de especialidades da Toscana, Arno promete preços mais baixos que os do antigo restaurante.

PÕE FÉ NO HAITI

A igreja Renascer, da bispa Sônia e do apóstolo Estevam Hernandes, promove hoje a Marcha para Jesus em Porto Príncipe, capital haitiana. Quem representa a igreja lá é o cantor e deputado federal Marcelo Aguiar (PSD-SP).

PIT STOP

A corredora de Fórmula Indy Bia Figueiredo participa da oitava edição do Desafio Internacional das Estrelas, organizado por Felipe Massa, com uma missão: dar visibilidade à incontinência urinária, drama que afeta 10 milhões de brasileiros. Na corrida em Santa Catarina, hoje e amanhã, é patrocinada pela Tena, multinacional de fraldas geriátricas.

MÃOS ABAIXO

Um segurança vigia os mictórios do piso térreo do shopping Center 3, na avenida Paulista, no horário do almoço e do jantar. O shopping diz que não possui vigilantes no banheiro, mas "somente postos de limpeza".

CORRIDA À ITALIANA

A marca esportiva italiana Kappa voltará ao Brasil em 2013. Planeja abrir de cinco a dez lojas até o fim do ano.

FORTINHO

Marcos Palmeira, que engordou oito quilos para seu papel em "O Canto da Sereia", ouviu outro dia de um vendedor ambulante, no Rio: "O senhor tá fortinho, hein!". Ele viveu Augustão na microssérie da Globo dirigida por José Luiz Villamarim, que terminou ontem.

IMAGENS PAULISTANAS

A fotógrafa suíça Hildegard Rosenthal (1913-1990) ganhará nova exposição em São Paulo. No dia 25, a galeria DOC, na Vila Madalena, inaugura uma mostra com mais de 20 imagens feitas por ela na capital paulista.

LUIZ CALDAS

'O BRASIL É BREGA, ELE JÁ NASCEU ASSIM'

Luiz Caldas, o "rei do axé", rejeita rótulos. O cantor e compositor faz 50 anos no dia 19 ("no Wikipedia a data tá errada, tem que consertar"). Ele será tema de biografia e filme em 2013. Neste ano, promete também lançar um álbum por mês. Adepto da ioga e sem beber nem fumar há dez anos, busca "longevidade". "Quero ser um senhor como Mick Jagger."

Folha - E os planos para 2013?

Luiz Caldas - Vou aniversariar e eu que dou presente: liberarei [na internet] 12 discos, 150 músicas inéditas. Algumas com Gero Camilo, Chico César, Lenine, André Abujamra. Tem um filme de Abujamra e Ninho Moraes sobre mim. E uma biografia por César Rasec, o mesmo de [livro sobre] Jorge Mautner.

Acha que a música baiana, hoje, é das mulheres?

O que é interessante, pra mim, é que criei uma coisa, como o rock. E Ivete chegou a ser uma das maiores vendedoras do planeta cantando axé. Fico muito orgulhoso.

Como vê o movimento atual?

Não gosto de chamar música de movimento, isso gera coisa de marketing, mais do que arte. E não tenho grilo musical. Estou fazendo um disco de jazz com o pianista americano Bill Anschell. Já toquei com Seu Jorge. Sou compositor de chorinho, tenho show de blues. Meu rótulo é um só: música. E dou risada pra caramba quando vejo na internet 'mash-up' [fusão] de uma música minha com uma de Jay-Z. Ficou o maior suingue ele tocando em cima do meu ritmo.

Existe preconceito com axé?

Acho cinismo. Quando perguntam se a pessoa está afim de comprar avião, todo mundo quer [vender]. Todos os cantores famosos de axé têm avião. O Brasil é brega, já nasceu assim, desde o tempo de Odair José. Quem não ama Amado Batista?

E você, comprou seu avião?

Se tivesse grana, compraria outra coisa. Mas eu tenho basicamente tudo o que quero da parte materialista: casa grande, um puta estúdio. Preciso é de inspiração, e graças a Deus está rolando.

Você pinta as unhas.

A minha vaidade é meio narcisista. Olho pro espelho e, se tiver bem pra mim, que se exploda o mundo. Aprendi isso praticando ioga. Não como nenhum animal nem bebo ou fumo. Estou atrás de longevidade. Quero ser um senhor como Mick Jagger, um cara elegante como Caetano e Gilberto Gil, sabe?

E a questão da bissexualidade na axé music?

Dá quem quiser. E quem aceitar que faça bom proveito. Não vigio. Já eu estou casado há mais de 30 anos e tenho três filhos.

CURTO-CIRCUITO

A peça "Cabaret", com Claudia Raia, reestreia neste fim de semana no teatro Procópio Ferreira. 14 anos.

A festa Circo Loco acontece hoje no D-Edge. 18 anos.

A banda acriana Los Porongas faz show hoje no Sesc Belenzinho. 16 anos.

Gusttavo Lima apresenta o Acústico Moda de Viola amanhã, no Villa Mix.

O projeto Vira-Latas de Aluguel, do diretor Daniel Gaggini, seleciona jovens atores para a montagem de um espetáculo inspirado em "Cães de Aluguel", filme de Quentin Tarantino.

Penas adiadas - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 12/01


O presidente do STF, Joaquim Barbosa, que assumiu o cargo tendo como uma das suas prioridades à frente do CNJ o combate à morosidade do Judiciário, está tendo que se render ao sistema protelatório da Justiça brasileira, que ele mesmo criticou. Assim como negara a prisão antecipada dos mensaleiros, ele negou o pedido de prisão imediata do deputado federal Natan Donadon (PMDB-RO), condenado há mais de dois anos por formação de quadrilha e peculato, e que continua até hoje exercendo seu mandato. Agiu certo nos dois casos.

Mesmo tendo sido recusado o último dos recursos cabíveis em dezembro do ano passado, Barbosa concordou com o argumento da defesa de que o processo ainda não transitou em julgado, o que ocorrerá apenas quando for publicado o acórdão. Como o Judiciário está em recesso, o prazo de dois meses para que isso aconteça terminará em março, mas mesmo assim não é certo que, até lá, o documento que torna oficialmente o processo encerrado esteja publicado.

Depois de publicado o acórdão, o advogado de defesa pedirá a revisão criminal do processo, tentando levar para a primeira instância o julgamento, sob a alegação de que outros condenados pelos mesmos crimes — formação de quadrilha e peculato — foram julgados por tribunais da primeira instância e receberam penas menores. Donadon, como era deputado federal, foi julgado pelo STF.

Barbosa afirmou em seu discurso de posse na presidência que Justiça que não é igual para todos, e que tarda, não estimula a cidadania e torna-se injusta. É uma visão que leva também ao combate à corrupção, pois, quanto mais a Justiça é vagarosa e dominada pela burocracia, mais estará sujeita à exploração de vantagens indevidas daqueles que criam dificuldades para vender facilidades.

Para superar esse problema, o ex-ministro Cezar Pe-luso, quando presidia o STF, propôs que as decisões dos tribunais locais, estaduais ou federais se tornassem execuções definitivas. Ele alegava que 90% dos processos que chegam ao Supremo já tiveram, pelo menos, duas decisões em instâncias inferiores, e estimava em mais de 30% o ganho de tempo dos processos.

A proposta de Peluso não foi adiante, pois muitos alertaram para o risco da execução de uma decisão de um tribunal estadual enquanto os recursos continuam. Se o réu ganha o recurso da última instância, como fazer? O problema maior seria nas questões penais, com o réu condenado sendo absolvido em outra instância enquanto estiver cumprindo pena, ou até mesmo já a tendo cumprido integralmente.

Mas o caso do deputado Donadon chama a atenção mais uma vez para as muitas possibilidades de postergação das decisões da Justiça, no momento em que os réus do mensalão preparam-se para acionar os diversos embargos previstos na lei. A começar pela burocracia do próprio STF, que às vezes leva meses para conseguir publicar o acórdão, abre-se a possibilidade de passaram-se mais de dois anos até que as sentenças sejam cumpridas.

A propósito da coluna “Govemo-fantasma’,’ recebi do presidente do Senado, José Sarney, o seguinte comentário: “Leitor constante de sua coluna, tenho uma pequena achega a fazer ao seu comentário de hoje. Trata-se da afirmação de que 'No caso de Tancredo Neves... quem deveria ter assumido era o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães! E você acrescenta uma resposta que Ulysses teria dado a Pedro Simon, citando ironicamente o general Leônidas como o 'maior jurisconsulto do país.'

Peço que você veja as declarações de Ulysses registradas por Luiz Gutemberg em seu 'Moisés, codinome Ulysses': 'É verdade que não aceitei o poder que Figueiredo me oferecia numa bandeja. Nem precisei me recusar. As sugestões do nosso lado para que assumisse como presidente da Câmara eram minoritárias, isoladas. Não fui porque não podia, não era constitucional. Também não me aproveitaria. Respeitam-me, nunca fui golpista. Sempre desafiei meus adversários para que apontassem um único gesto em que me revelei carreirista. (...) Criaram uma lenda e repetem essa besteira de que, mais uma vez, perdi uma chance de ser presidente. Só perde quem tem direito. Portanto, não perdi'.

Dois pesos e duas medidas - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 12/01


Quando índio invade terra, forças não são empregadas; quando há retirada de terra indígena, existe até violência


O processo de desintrusão (retirada de não índios) da gleba Suiá Missú é pleno de ensinamentos de como os discursos ideológicos são utilizados de forma ambivalente, segundo as conveniências políticas. Dois pesos e duas medidas são usados, sem que os atores envolvidos se mostrem minimamente ruborizados.

Quando se trata de uma invasão feita por indígenas, sem nenhum amparo legal e mesmo com decisão contrária da Justiça, as forças policiais não são na maior parte dos casos empregadas.

A decisão judicial fica frequentemente sem efeito nenhum. Imediatamente, comissões de direitos humanos, movimentos sociais, Ouvidoria Agrária Nacional e Funai (Fundação Nacional do Índio), entre outros, são mobilizados para que a lei não se cumpra. Qualquer uso da força é, de pronto, considerado uma violência arbitrária e desmedida.

Quando se trata da desintrusão de uma terra indígena, é outro caso: Há mobilização intensiva de aparatos policiais, com demonstrações explícitas de violência.

A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária e a Força Nacional de Segurança agem com truculência, utilizando bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Agricultores e suas famílias, incluindo crianças, ficam literalmente aterrorizados.

Imagens da desintrusão mostram pequenos produtores e familiares que, da noite para o dia, foram subtraídos de seus bens e convertidos em novos sem-terra. Abandonados. A desintrusão de terras indígenas é uma verdadeira expropriação, sem nenhuma indenização de terras.

No caso Suiá Missú, pequenos agricultores saíram, levando apenas bens que podiam carregar. Deixaram suas casas sem nenhuma indenização.

Alguns testemunhos desses pequenos agricultores são particularmente elucidativos.

Seu João Evangelista, que tinha casa própria, diz: "Eu não tenho pra onde ir. Não tenho dinheiro e, com essa situação que se formou no Posto da Mata, há um mês não existe trabalho. Portanto, até para comer estamos dependendo de doações. É uma situação injusta e muito triste. É humilhante, para uma pessoa que trabalha e que tem filhos para criar, ser jogado na rua dessa forma".

Muitos agricultores se queixaram do tratamento desumano. Onde, aliás, estavam a Ordem dos Advogados do Brasil, a Ouvidoria Agrária e outras entidades que enchem a boca ao falar de direitos humanos? Agricultores acaso não são humanos?

Ao comentar a ausência da Comissão de Direitos Humanos da OAB, a despeito da recomendação da Justiça Federal para que acompanhasse a desocupação, o presidente da Associação dos Produtores de Suiá Missú, Renato Teodoro, protestou publicamente:

"Estamos estarrecidos e indignados porque o próprio juiz federal recomendou que dois representantes acompanhassem. Aqui não tem ser humano, aqui tem é bicho. Se direitos humanos existissem, agora seria a hora".

Honrar os mortos é uma característica marcante dos humanos, que têm nos cemitérios um lugar de culto e de (re)ligação com a família. Nada mais justo, portanto, que povos indígenas possam visitar cemitérios de antepassados em terras que não são mais suas.

E nada mais injusto do que proibir os expulsos de Suiá Missú de visitar seus mortos. Por que essa regra humanitária não vale para todos os brasileiros?

A partir de agora, o silêncio passará a reinar na antiga fazenda Suiá Missú, convertida na terra indígena Marãiwatsédé. Nada do que lá estiver acontecendo poderá ser apurado de forma isenta.

Se essa desintrusão vai, na verdade, melhorar a vida dos índios, garantindo-lhes atenção aos problemas sociais, de saúde, educação e saneamento, passa a ser uma grande incógnita.

Qualquer cobertura jornalística na tribo será limitada pela Fundação Nacional do Índio, pois terra indígena não pode sequer ser objeto de reportagem sem prévia autorização da Funai. Passa a vigorar, ali, a censura implantada pelos que dizem defender os direitos humanos.

Os mesmos que silenciam diante da agonia dos agricultores convertidos em sem-terra, que amargam a indiferença, amontoados em abrigos improvisados.

Regulamentação da mídia - ROBERTO ROMANO


O ESTADÃO - 12/01

A garrando uma oportunidade, a condenação de alguns políticos que o lideram, o Partido dos Trabalhadores postula novamente o controle da imprensa. Existem graves distorções no jornalismo atual, devendo ele ser tratado com rigor pelos interessados - leitores, ouvintes, telespectadores- na forma e no conteúdo das notícias.Muitas críticas, no entanto, têm origem em personalidades e grupos que desejam impor programas para perpetuar seu poder.

De onde vem a tese de que é preciso regular a imprensa? Lembremos o jurista Carl Schmitt, lido por Francisco Campos, ministro de Vargas que no Estado Novo normatizou os jornais. O alemão afirma que, na busca de formar a mente pública, o audiovisual ameaça o Estado. O poder político deve ter o monopólio dessa técnica. "Nenhum Estado liberal deixa de reivindicar em seu proveito a censura intensiva e o controle sobre filmes e imagens, e sobre o rádio. Nenhum Estado deixa a um adversário os novos meios de dominação das massas e formação da opinião pública". O Estado, diz Schmitt, deve controlar os meios de comunicação: "Os novos meios técnicos pertencem exclusivamente ao Estado e servem para aumentar sua potência". O ente estatal "não deixa surgirem seu interior forças inimigas. Ele não permite que elas disponham de técnicas para sapar sua potência com slogans como"Estado de direito","liberalismo" ou um outro nome" (Schmitt em 1932, cf. O. Beaud: Os Últimos Dias de Weimar). A raiz histórica da tese é venenosa.

Na Alemanha preconizada por Schmitt o nome para a regulamentação da mídia foi a Gleichschaltung (impor à imprensa, de modo uniforme, a ideologia do partido). Em 1933 existiam no país 4 mil diários e 7 mil revistas.O Reich estatizar a a maioria das estações de rádio (1925). A Reichs Rundfunk Gesellschaft (Sociedade de Comunicação Radiofônica do Reich) foi posta em 1932 sob os comissários de Franz von Papen, o que facilitou a Gleichschaltung. Tal política foi denunciada em 1938 por Stephen H. Roberts (The House that Hitler Built), mas os olhos estavam cegos para o arbítrio. E vieram a regulamentação do rádio e do serviço postal, a centralização do controle no Ministério da Propaganda, a imposição da conformidade aos funcionários. Foram demitidos os indesejáveis (judeus especialmente).Todos deveriam aceitar os ditames do governo e do partido.Goebbels demitiu os antigos comissários do rádio. Em março de1940 foram unificados os programas radiofônicos do Reich.

Poucas leis foram necessárias para regular a mídia. Ouvir rádios estrangeiras levaria à pena de morte,segundo o Decreto Sobre Medidas Extraordinárias (1.º/9/1939). Em 1937 existiam 8 milhões de receptores de rádio na Alemanha, ante 200 aparelhos domésticos de televisão dois anos depois. Nos Jogos Olímpicos de 1936, 162.228 pessoas foram às salas que exibiam programas televisionados. O partido e o governo usavam, sobretudo, o rádio e o filme. Ao se impor à mídia, Goebbels jogou a violência física sobre ombros alheios: "Não usamos nenhuma forma de coerção. Se necessária a deixamos para outros departamentos". Segundo ele, a propaganda ("jornalística"...) sem elos com a cultura é cansativa e ineficaz. Seria preciso uni-la ao entretenimento, batizado com sarcasmo,contra as Luzes do século 18, de Aufklärung.Você não pode sempre bater o tambor, dizia,"porque o povo gradualmente se acostuma ao som e não mais o registra (...) desejamos ser os condutores de uma orquestra polifônica de propaganda". Os instintos primitivos da massa despertam e são movidos por truques simples e claros.

A mídia regulamentada teve seu papel no extermínio dos judeus, embora o regime mantivesse o segredo como arma.

Himmler, discursando em Poznan (4/10/1943), disse que o Holocausto era "um capítulo glorioso da SS que nunca chegou a ser escrito". A leitura dos jornais sob controle mostram algo diferente.A popularidade de Hitler, é certo, não se deveu à mídia ventríloqua, mas é falso dizer que jornais "independentes" (Frankfurter Zeitung, Berliner Tageblatt, etc.) se opuseram ao regime. Paul Scheffer, editorialista do Berliner Tageblatt, narra que sua posição era de marionete sob Goebbels. Os jornais deveriam "parecer" diversificados, mas agir na linha única, imposta pelo partido.

Muitos leitores cancelaram assinaturas dos jornais.Os periódicos estrangeiros eram lidos com sofre guidão.Nos textos censurados as pessoas aprenderam a ler entre as linhas para compensar a falta de informações. O encanto por Hitler seguia ao lado da impopularidade do seu partido.Segundo I. Kershaw (O Mito de Hitler: o culto do Führer e a opinião popular), os alemães atribuíam ao Führer os sucessos anteriores à guerra. A "corrupção, a imperícia administrativa e problemas de suprimento não se deviam a ele,mas ao partido".A mídia fantoche fazia do líder um inimputável. Os jornais regulamentados apresentavam-no como a pessoa que acabara com o desemprego, vencera a corrupção,levara a Alemanha ao poder europeu.Os fracassos eram atribuídos aos inimigos,como os judeus. (Informações preciosas encontram-se em BruceA.Murray, Framing the Past: The Historiography of German Cinema and Television.)

Virada a página,no mundo soviético,idênticas loas ao Pai dos Povos,igual servilismo imposto à imprensa.

E hoje, no mundo e no Brasil? Em greve inédita contra a censura, um jornal do próprio governo chinês (Global Times), em texto dos editores afirma: "A realidade é que antigas políticas de regulação da imprensa não podem continuar como estão.A sociedade está progredindo e a administração deve evoluir" (BBC, 7/1/2013).Depois do nazismo, do Pravda (o jornal mais mentiroso da História), das ditaduras Vargas e de 1964, a sociedade evoluiu, salvo para os que comparam sua ideologia aos oráculos. Os deuses exigem espinhas e almas quebradas.