terça-feira, setembro 04, 2012

A ''islamizaçao'' da política, Serra e PT - ARNALDO JABOR


O Estado de S.Paulo - 04/09


Vende-se um candidato como se vende margarina. A perversão do marketing transformou as campanhas eleitorais em uma estratégia de insinceridade, em que os marqueteiros ‘adivinham’ o que o povo quer para o candidato se adaptar a esse ‘desejo’. Assim, todos querem ser eleitos pelo que não são, mas pelo que parecem, seguindo o exemplo bem-sucedido do ‘showman’ Lula que, na linha de Jânio, bastou ‘parecer’. É a estratégia em vez da verdade: ladrões aparentam honestidade, o comuna finge de liberal, o durão finge de bonzinho.

Em São Paulo há um lugar reservado para um populismo tradicional que, de certo modo, a polarização entre PT e PSDB ensombreceu nos últimos anos; este espaço da ignorância já foi ocupado por Ademar, por Jânio, por Maluf (conversem com motoristas de táxi). O vazio está sempre à espera de um impasse político, para que a ‘massa atrasada’ (um termo do PT) corra a eleger um novo demagogo.

Com o crescimento econômico da chamada classe C, o populismo tende a ser mais mágico, mais imediatista, em busca de sucesso e riqueza, um populismo consumista e conservador.

Quem ocupa esse espaço vazio é justamente o movimento evangélico em seus galpões lotados de milhares de pagadores de dízimos à espera de milagres e riqueza.

E o milagreiro da hora será o Russomanno, que é representante da Igreja Universal. Ele nega, claro, mas seus programas de TV só vão ao ar depois de passar pela direção de jornalismo da Record, enquanto obreiros da Igreja Universal visitam casas da periferia, distribuindo santinhos do Russomanno.

Assim, amigos leitores, pode ser que em 2013 a cidade de São Paulo seja governada pelo bispo Edir Macedo, o rei dos supermercados da fé que crescem no País e no exterior. Há pouco, uma marcha reuniu 4 milhões nas ruas de São Paulo, todos embalados pelo desejo de alguma certeza palpável, que os evangélicos prometem. Vejam na TV os milhares de rostos famintos de resposta para suas vidas angustiadas, pastoreados por bispos que parecem assaltantes, gordos, vulgares e milionários com fazendas, aviões e apartamentos em Miami.

Ou seja, está surgindo uma espécie de "islamização" da política no País, com os votos comandados fortemente pelas Igrejas. Já há milhões de fiéis que votam com Deus e política, como no Islã. E há uma sutil coincidência entre isso e o "midiatismo" lulista também feito de abstrações e promessas gerais: o carisma milagreiro da aparência contra a realidade.

Em ambos, no ‘midiatismo’ e no "islamismo caboclo", existe algo de divinal, místico.

Muitas pessoas do enclave "ademar de barros/jânio/maluf" vão votar no Russomanno por quê? Por ordens do bispo, claro, mas muitos também porque sua candidatura tem um sabor de negação da política costumeira, como apostar na zebra porque os cavalos favoritos não resolveram nada. Há algo do ‘efeito Tiririca’ nisso tudo.

No mundo inteiro, a crise econômica e política favorece líderes reacionários. Dentro dos impasses geram-se os canalhas.

O fascista Chávez vai ser reeleito, o fanatismo árabe persiste para além da ‘primavera’, o repulsivo Mitt pode ganhar nos USA e levar o Ocidente ao caos. Aqui, a cidade mais importante da América Latina pode ser entregue ou a uma sutil "teocracia oportunista" ou aos conquistadores do PT, em busca de mais um território tomado para ‘não’ ser governado. E no meio, o José Serra acreditando na racionalidade. Em meio a esse ‘místico peleguismo’, como explicar as vantagens da ‘social democracia’ para uma população semianalfabeta?

Mas, Serra também errou. Tudo começou em 2002 quando, diante de meus pobres olhos perplexos, Serra não defendeu o governo de FHC diante dos ataques de Lula no debate. Eu vi a cara do Lula quando percebeu que a intenção do adversário era ‘não’ defender o excelente governo que acabara com a inflação, fez reformas, etc... Por estratégia (quem foi a besta que inventou isso?), ninguém podia defender os grandes feitos que o PSDB tinha conseguido... Lula, espertíssimo, deitou e rolou nesse equívoco imperdoável, inesquecível, que começou a derrotar o próprio Serra e o tucanato por tabela. Nunca entenderei isso. Como não demitiram o chefe da campanha e deixaram-no persistir nos erros até hoje? Serra acreditou no marketing em vez de crer em si mesmo e em sua verdade.

Conheço-o há muitos anos e sei de sua enorme competência administrativa, seu amor ao progresso por adesão à razão. Mas conheço também sua astronômica teimosia, sua autossuficiência de filho único, sua hybris (‘arrogância’ que provoca punição dos deuses nas tragédias), como apontou o Demétrio Magnoli outro dia. É trágico vermos o crescimento do erro.

Conheço bem o Serra e sei que ele não é ‘bonzinho’ e sorridente como mandam os marqueteiros.

O sorriso de Serra prometendo coisas na TV soa falso; o povão percebe que algo ali está faltando na fala dele. O que falta? Falta a sua sinceridade: Serra é zangado, ‘empombado’ e quer realmente fazer um bom governo. Teria de assumir isso, enquanto é tempo. Tem superar seu complexo de Édipo e chamar FHC para a campanha (o que não fizeram até agora), tem de mostrar com clareza, com imagens, o importantíssimo trabalho que fez como ministro da Saúde e não ficar dando sorrisinhos de Papai Noel na TV. O eleitor respeita gente sincera, cortante, corajosa. Ele tem de mostrar as aventuras populistas e falar das acusações que pesam sobre o Russomanno, como as supostas ações de falsidade ideológica, a acusação de seu uso indevido da advocacia, seu suposto envolvimento com o Cachoeira.

E mais: ele errou ao subestimar o papelucho que assinou na TV dizendo que não abandonaria a Prefeitura. O povo não perdoa o descaso com que tratou o ridículo juramento. Ele tinha sim de chamar testemunhas, até religiosos e juristas e, fazendo um pouco o jogo do populismo ‘midiático’, jurar solenemente diante de todos que jamais largará a Prefeitura.

Serra tinha de cumprir sua melhor promessa, quando se lançou em 2010: "Se vierem com mentiras, responderei com verdades".

O filho bastardo - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 04/09


O fenômeno Celso Russomanno poderia ser colocado na conta da inquebrantável tradição do populismo conservador paulistano. Tradição que já deu para a cidade prefeitos como Adhemar de Barros, Jânio Quadros e Paulo Maluf (com suas emulações tecnocratas, Pitta e Kassab). Políticos conservadores que, cada um à sua maneira, encontraram alguma forma de se colocar como caixa de ressonância dos medos populares.

Porém é provável que seja necessária uma variável a mais para compreendermos um fenômeno eleitoral sobre o qual todos, até agora, quiseram acreditar que era transitório. Pois se existe alguma coisa em Russomanno que nos remete aos arcaísmos de São Paulo, há algo que deve ser compreendido em outra chave. Na verdade, ele é uma expressão mais bem-acabada de um certo conservadorismo pós-lulista ou, se quisermos, um conservadorismo que aparece como filho bastardo do lulismo.

Entre outras características, o lulismo definiu-se pela aliança política de setores da esquerda brasileira e alas de políticos conservadores à procura de sobrevida ou em rota de colisão com a hegemonia PSDB-DEM.

Tal aliança permitiu, por um lado, a constituição de um sistema de seguridade social de extensão até então inédita no Brasil. Por outro, ela consolidou a ascensão econômica de largas parcelas da população brasileira por meio, principalmente, da ampliação das possibilidades de consumo.

Note-se que tal ascensão econômica, com seu consequente sentimento de cidadania conquistada, não passou pelo acesso a serviços sociais ampliados e consolidados em sua qualidade. Afora a importante expansão das universidades federais, ascensão significou poder pagar escola privada, plano de saúde privado, celular, eletrodomésticos e frequentar universidade privada. Ou seja, os direitos da cidadania foram traduzidos em direitos do consumidor.

Nesse contexto, nada mais compreensível do que um pretenso "patrulheiro do consumidor" aparecer como representante dos anseios da nova classe média. Para quem alcançou a cidadania por meio do consumo (animado por uma igreja que é a representante maior da teologia da prosperidade), a defesa dos direitos segue a lógica do Procon.

Por outro lado, como parlamentar de partidos da base aliada, Russomanno não precisa carregar o peso morto de ser um candidato anti-Lula: o calcanhar de aquiles da política brasileira. De toda forma, como o lulismo foi o resultado de acordos políticos heteróclitos, nenhum basteamento ideológico foi possível. Sempre houve um conservadorismo que cresceu sob as asas do novo governo. Agora, ele se apresenta em voo próprio, como um filho bastardo do lulismo com o populismo conservador.

GOSTOSA


Dilma vai pagar para ver - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 04/09

O Planalto quer que a Câmara vote o Código Florestal. Depois das alterações feitas pelo Congresso e da cobrança pública da presidente Dilma nas ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente), pior seria deixar a MP perder a validade, dia 8, e ter que começar do zero. Dilma vetará o que não quer e editará nova MP incluindo o que for derrotado.

Na dependência estrangeira
O governo resolveu adiar o lançamento do programa de concessões de portos e aeroportos, previsto para o início deste mês, porque espera o aval de investidores estrangeiros consultados na semana passada. A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) fez um tour pela Europa para apresentar aos empresários interessados os termos do negócio. Ontem, relatou à presidente Dilma Rousseff como foram as conversas com os futuros sócios. Ficou decidido que a desoneração de energia elétrica será anunciada na semana que vem, independentemente de o restante do pacote de concessões estar finalizado ou não.

"A greve tem de ser um direito. Não se pode aprovar lei que proíba tal direito. Existe um movimento de paralisação que precisa ser respeitado
Paulo Paim Senador PT-RS

Vídeos deletados
Vídeos de ministros em apoio a João Paulo Cunha (PT-SP) a prefeito de Osasco foram deletados do site do PT assim que ele renunciou, para a oposição não usar contra o partido. Alguns não estavam prontos e sequer foram finalizados.

E o Orçamento?
Senado e Câmara marcaram esforços concentrados em semanas alternadas, e esqueceram a Comissão Mista do Orçamento. O governo mandou o texto semana passada, e o presidente da comissão, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), não consegue marcar as reuniões. Pediu providências aos presidentes das duas Casas.

Na pressão
O PT pressiona para que a presidente Dilma entre em campo na campanha de Humberto Costa a prefeito de Recife. Argumenta que, se o candidato Geraldo Júlio (PSB) vencer, o governador Eduardo Campos se fortalece para 2014.

Transparência zero
A página de transparência da Câmara não identifica nem os nomes nem a matrícula dos servidores da Casa ao divulgar os salários que recebem. Quando algum cidadão tenta verificar os rendimentos de um funcionário, somente consegue visualizar um número que compõe um banco de dados interno a que apenas os diretores têm acesso. Nem o servidor entende.

Atenção, gravando!
O vice Michel Temer e o presidente nacional do PMDB, Valdir Raupp, finalizaram no fim de semana uma maratona de gravações para candidatos a prefeito e vice do partido nestas eleições. O trabalho rendeu 8.380 vídeos.

Trabalho adicional
Chegaram à Comissão Especial do Código Penal 101 projetos de lei sobre o assunto. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), quer o novo texto aprovado no plenário em dezembro. O jeito vai ser ampliar as reuniões e fazer força-tarefa.

A JUDOCA SARAH MENEZES, medalha de ouro em Londres, conduzirá fogo simbólico no desfile de Sete de Setembro, na Esplanada dos Ministérios.

Chávez ameaça - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 04/09


O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem reagido como se esperava -da pior maneira possível- à simples perspectiva de alternância de poder no país.

A pouco mais de um mês do pleito em que tentará seu terceiro mandato consecutivo, o presidente declarou no domingo que uma vitória da oposição "talvez" não chegue a provocar uma guerra civil na Venezuela, mas certamente provocaria uma crise "política, econômica e social".

A ameaça mal dissimulada veio após a divulgação de pesquisas de intenção de voto que apontam o crescimento do candidato da oposição, Henrique Capriles. Na sondagem mais recente, os dois postulantes aparecem em empate técnico -mesmo resultado de agosto em outra pesquisa.

O instituto independente Datanálisis, contudo, apesar de identificar a ascensão de Capriles, ainda aponta Chávez com vantagem de mais de dez pontos percentuais.

O tom beligerante do líder bolivariano denota seu pouco respeito ao processo democrático, cujas formalidades mínimas ainda sobrevivem no país. Seria ingênuo esperar outra reação de um chefe de governo que tenta confundir sua imagem com a das instituições públicas e não hesita em demonizar a oposição, restringir a liberdade de imprensa, subjugar o Legislativo e interferir no funcionamento do Judiciário.

Tanto quanto a democracia, a economia na Venezuela tem sofrido as consequências do populismo chavista. O crescente controle estatal sobre as mais diversas atividades cobra preço alto, com aumento da inflação e queda na eficiência de empresas e serviços.

As dificuldades criadas pelo regime têm, por outro lado, favorecido os adversários. Menos radical do que no passado, a oposição surge com chances de ameaçar o caudilho bolivariano nas urnas.

As recentes declarações, sinal da preocupação de Chávez com o pleito, despertam temores quanto aos desdobramentos de uma eventual vitória oposicionista.

A democracia é uma valiosa conquista regional e -vale lembrar- um requisito para as nações participarem do Mercosul. Qualquer desvio da normalidade democrática deverá, evidentemente, ser refutado pelo Brasil e pelos demais membros do bloco.

Um novo enredo - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 04/09


O ministro Ricardo Lewandowski abriu seu voto renegando a percepção de muitos de que não leva em conta os indícios e conexões dos fatos para construir sua convicção, atendo-se apenas à "verdade processual".

Ao tratar da responsabilidade dos dirigentes do Banco Rural, ele fez questão de ressaltar que votaria seguindo o relator Joaquim Barbosa porque, além de provas dos autos como relatórios internos do próprio banco e do Banco Central, havia muitos indícios demonstrando que os empréstimos ao PT e à agência publicitária SPM&B foram feitos com normas mínimas de segurança, revelando serem "de pai para filho", fora dos padrões normais dos bancos.

Aqui, abro um parêntesis para comentar a análise do advogado Márcio Thomaz Bastos, que defende o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado. Bastos lamentou com repórteres que os ministros estejam dando tanta importância aos relatórios internos do próprio banco; segundo ele, é "normal" que ao final a diretoria decida a conveniência ou não de empréstimos desse tipo. Assim, admite implicitamente o caráter "político" dos empréstimos. Voltando ao voto do revisor, os indícios não levaram Lewandowski a se convencer de que, como acusa o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e endossa Joaquim Barbosa, os empréstimos foram fictícios, para encobrir o dinheiro desviado dos cofres públicos que foi distribuído por Marcos Valério a petistas e políticos aliados.

Para Lewandowski, houve gestão fraudulenta sim, mas para agradar o empresário que os diretores do Banco Rural consideravam que teria influência no governo petista, e poderia abrir as portas para bons negócios futuros. Pode estar aí a explicação do voto do revisor, que até agora não conseguiu ver nexo entre o desvio do dinheiro público e o mensalão. Ele está criando um novo enredo, não se sabe com que fim.

Ao condenar o diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, por desvio do fundo Visanet para a conta de Valério, o ministro Lewandowski tratou o assunto como se fosse um crime isolado, um mero trambique entre Pizzolato e Valério, sem nada a ver com o dinheiro que o então presidente da Câmara, João Paulo Cunha, recebeu do mesmo Valério, aceitando a tese da defesa de que o mandante do dinheiro fora o tesoureiro do PT Delúbio Soares.

Chegou a entusiasmar o advogado Márcio Thomaz Bastos, que considerou seu voto a vitória da tese do caixa 2 eleitoral. Uma maioria de 9 ministros não aceitou a tese do revisor, à qual apenas o ministro Dias Toffoli aderiu. Já agora, ao condenar o Banco Rural por gestão fraudulenta para agradar a um empresário que teria bom trânsito com o PT, o ministro Lewandowski está entrando por outra senda, diferente da explorada pelo relator, mas que vai dar igualmente no conluio de um empresário corrupto com o partido do governo. Se o dinheiro que Valério distribuiu para o PT e seus aliados era do "empréstimo" do Rural, pelo menos Delúbio Soares e José Genoino, que o assinaram, teriam cometido peculato, pois para isso não é necessário fazer nenhum ato ilegal, mas apenas sugerir a possibilidade. E não é necessário que o dinheiro seja público ou privado. Mas eles não estão acusados desse crime. Vai ser difícil então inocentá-los da acusação de corrupção ativa.

Provavelmente, Lewandowski vai dizer que havia dinheiro legal e ilegal na distribuição feita por Valério. Mas se o empréstimo do PT foi real, por que o dinheiro distribuído aos políticos, por ordem de Delúbio, tinha que sair do bolso de Valério, através da SMP&B? E por que só foi pago muitos anos depois de tomado?

Entender que os empréstimos eram verdadeiros, mas dados através de métodos fraudulentos, torna a história mais complicada e menos verossímil que a do procurador-geral da República, assumida pelo relator Joaquim Barbosa. Resta ver para onde a maioria do plenário do Supremo seguirá desta vez.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o único político da oposição que consegue tirar o ex-presidente Lula do sério. A cada artigo mensal com críticas ao PT e a Lula, o ex-presidente sai de seus cuidados para atacar o inimigo íntimo. Desta vez, colocou a a presidente Dilma em situação delicada, exigindo dela um posicionamento oficial, quando deveria ter sido ele a se defender dos ataques de Fernando Henrique. Dilma voltou a comportar-se como subordinada de Lula. A hieraquia petista falou mais alto.

Ueba! Bola da Copa é a Suelen! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 04/09


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Polícia apreende notas falsas de R$ 3 em Caicó, RN". Que falçanha! Nota de R$ 3 já é falsa. Falsificar nota falsa é uma falçanha! E parabéns pra polícia pela rapidez com que notou a falsificação! Rarará!

E esta: "Viúva de Elvis Presley chega a São Paulo". Mas o Elvis não morreu! Eu faria a legenda assim: "Viúva do Elvis Não Morreu chega a São Paulo".

E confirmado! Saiu o nome da bola oficial da Copa: Brazuca! Uma bomba! Com a violência que tá no Brasil, devia ser Bazuca! E um amigo diz que essa bola bazuca é boa pra futebol na família dele: só tem canhão! Dispara a bazuca!

Eu queria PIRIGUETI! Tinha que ser um nome bem brasileiro. Então, pirigueti! O Brasil é o País das Piriguetis! Já imaginou o locutor? PIMBA NA PIRIGUETI! Bolas Suelen nunca cedem! Os leitores também sugeriram Jaburlamos, Propina e Corrupta! Acho muito político. Bola Protesto! E outros ainda gostariam de Ronaldo . Acho fofo! "Tarde se sol no Maracanã! Rola o Ronaldo !". Rarará! Lembra Bazuca!

E o Hilário Eleitoral! A Hora do Espanto! O Haddad parece de borracha. De massinha. O candidato massinha! O Serra tá ficando mais velho que o Sarney. Só falta o bigode. O Sarney de São Paulo. Rarará!

O Russomanno tem cara de novela mexicana. Vai transformar São Paulo numa novela mexicana! "María la del Barrio." "Os Ricos Também Choram." E o Chalita só usa três palavras: picuinha, picuinha e picuinha. É o Zé Picuinha! Então eu vou votar nele só de picuinha. Isso. Vou votar no Chalita só de picuinha!

E continua o Nepaitismo: "Wagner Montes, o Filho! Esse vai dar trabalho!". Esse deve dar um trabalho! Rarará! Filho que dá trabalho! E um outro aproveitou a greve da Anvisa: Rato do Bar. Aproveitou que a vigilância sanitária tá em greve! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E a Bienal? Como na Bienal só tem instalação, eu tenho pena dos funcionários que vão ter que embalar tudo aquilo de volta. Se é que os artistas querem tudo aquilo de volta. E instalação é o Rio Tietê: sofá mofado, pneu velho e pet! E o servente perguntou pro artista: "Essa vassoura velha é arte?". E o artista: "Não, mas você me deu uma grande ideia". Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Estatizantes e privatistas? - ANTONIO DELFIM NETTO


Valor Econômico - 04/09


O Brasil não resiste a uma boa dicotomia, mesmo que ela seja meramente semântica e, principalmente, se desprovida de conteúdo. Todos têm de ser ou keynesianos ou não keynesianos; marxistas ou contra Marx; defensores do "mainstream" ou heterodoxos; defensores do Estado mínimo e do setor privado máximo, ou vice-versa, um Estado máximo e um setor privado mínimo; desenvolvimentistas ou monetaristas. Cada uma dessas categorias é um conjunto vazio.

É verdade absoluta que: Marx nunca foi marxista e tinha dúvidas sobre eles; Keynes nunca foi keynesiano e desconfiava de quem declarasse que o fosse; Samuelson, o criador da síntese neoclássica, teve frequentes achaques de fraqueza heterodoxa; o sempre abusado Hayek foi muito melhor e mais sofisticado do que o que supõem os "não hayekianos". Nunca defendeu o mercado perfeito e desconfiava das "perturbações" financeiras.

Nem o mais míope dos desenvolvimentistas nega as restrições impostas pelas limitações da poupança interna, os riscos da externa e a necessidade do equilíbrio monetário; nem o mais exagerado monetarista ignora o fato que o "equilíbrio monetário" não é fim em si mesmo, mas instrumento para acelerar o crescimento e, não, inibi-lo...

Pois não é que neste momento importante, em que se procura (e se espera, com leilões bem feitos) transferir boa parte dos investimentos de infraestrutura para o setor privado - que é mais eficiente e tem como obter recursos fora do Tesouro -, a mídia descobre que o governo está supostamente infectado no setor aeroportuário por duas novas categorias: os "privatistas" e os "estatizantes". Divergem sobre o papel da Infraero, papel sobre o qual, aliás, a sociedade brasileira tem sérias críticas, e de cuja eficiência é licito duvidar-se dado ao seu mal de origem...

A Infraero, como todo ser (público ou privado), tem no seu DNA a inexorável propensão à sobrevivência e à sua reprodução. Eles são organismos vivos, cujos colaboradores buscam a sua cota de poder, aumentando o número de seus subordinados, como afirma a velha lei de Parkinson. A questão nada tem de ideológica. Tem a ver com o poder detido nas mãos dos administradores! Tudo absolutamente humano, natural, quase biológico! Com que misteriosa racionalidade há de convencer-se alguém que deve ceder o seu pequeno "espaço de poder", duramente conquistado e bravamente defendido a cada ano no Congresso Nacional para ampliar o seu orçamento?

O mundo não está ameaçado pelos problemas dos mercados (que são muitos), ou do "capitalismo privado", mas por uma falha dos governos, que foram incapazes de manter sob a rígida regulação (construída nos anos 30 do século passado) o sistema financeiro. Apesar de todas as incertezas que nos cercam, resta uma certeza: o mundo não vai acabar. Vai sair desta crise melhor do que entrou: mais eficiente e mais igualitário. É apenas uma questão de tempo, talvez anos.

Continua a atuar o processo civilizatório, iniciado com a incorporação e expansão do uso do conhecimento científico e tecnológico, combinado com o sistema de sufrágio universal, na grande maioria dos países. Foi ele que trouxe o mundo da Idade da Pedra à da informática. Gozamos do benefício de estar no mundo e vamos pagar o ônus de nele estar, mas é mais do que evidente que temos uma boa margem de manobra para prosseguir no nosso crescimento. Temos, obviamente, uma miríade de problemas a resolver, mas não podemos atacá-los ao mesmo tempo. Temos de hierarquizá-los.

É mais do que claro que hoje os constrangimentos impostos pela deficiência de nossa infraestrutura, e suas consequências logísticas, colocam-na como primeira prioridade. Acertadamente, o governo acaba de lançar um grande programa de concessões e recriar uma empresa para cuidar do problema logístico, abandonado desde 1985. O problema fundamental é que não existem recursos públicos para atendê-los. É preciso, portanto, cooptar o setor privado, que tem recursos, com leilões seguros, que fixem as condições mais adequadas para sua compatibilização com o interesse público.

Não adianta tergiversar ou filosofar. O governo - e muito menos o BNDES - não cria recursos. Na melhor das hipóteses, o primeiro pode economizar no custeio e aumentar seus investimentos. No limite, poderia aumentar os impostos e desperdiçá-los na baixa produtividade dos investimentos que faz diretamente, reduzindo ainda mais o crescimento.

O Tesouro só tem recursos se houver um superávit fiscal autêntico, ou um aumento do endividamento junto ao público que, para ser efetivo, tem de reduzir ou o consumo, ou o investimento privado, diluindo parte do seu efeito no crescimento.

Deve ser claro que tal disputa (se existir!) não é sobre racionalidade econômica, mas sobre as conveniências do "poder" de controlar diretamente a atividade. Isso nos leva ao eterno problema: a maior influência política na execução direta dos investimentos é, frequentemente, acompanhada de maior desperdício e menor eficiência à custa do desenvolvimento social e econômico do país.

O 'novo modelo' - ILAN GOLDFAJN


O ESTADÃO - 04/09


Há um novo modelo econômico se delineando? O brasileiro gosta de pensar que estamos sempre diante de um novo modelo, prestes a romper com o passado e mudar tudo. Para o bem, obviamente. A verdade é que as mudanças tendem a ser mais contínuas. O novo modelo é uma sequência do velho, fruto dos esforços presentes e passados e da realidade global.

Há várias incertezas, como sempre. Mas será possível desenhar tendências para a economia brasileira que formem um conjunto coerente? Para responder, algumas diretrizes.

É necessário investir mais para continuar crescendo. Não será possível continuar crescendo apenas incorporando mão de obra à produção. Na última década o emprego esteve em alta seguida e as empresas enfrentaram escassez de mão de obra. O desemprego chegou a recorde de baixa. Agora há necessidade de acumular mais capital para manter esses empregos e crescer mais. O investimento hoje está em torno de 19% do PIB, índice internacionalmente baixo. Os sintomas desse fenômeno estão visíveis a olho nu: falta de infraestrutura, produtividade limitada, custo alto da mão de obra e perda de mercado no mundo.

O investimento só não é baixo quando comparado à poupança que o financia. O governo despoupa, a nova classe média é consumidora e o Brasil tem dependido da poupança externa para investir. Acredito que o governo esteja empenhado em realocar seus gastos em mais investimento e menos gastos correntes (em pessoal, por exemplo), o que é equivalente a poupar mais. Mas há desafios de implementação, como demonstram as atuais greves no setor público e a dificuldade do governo em elevar os investimentos federais.

O aumento do investimento privado é essencial. As parcerias público-privadas e o anúncio recente de leilões de novas concessões na infraestrutura - rodovias, ferrovias, aeroportos, portos - são uma solução. Mas o setor privado vai precisar de retornos adequados para aumentar os investimentos. Os custos de produção estão muito elevados e representam um verdadeiro gargalo.

Há várias iniciativas para reduzir os custos. Está ficando claro que parte relevante da redução dos custos envolve, em certa medida, o governo abdicar de suas receitas. O pacote para reduzir o custo da energia no Brasil precisa da desoneração dos diversos impostos e contribuições. A redução do custo da mão de obra requer algum alívio no imposto da folha de pagamentos. Os investimentos da Petrobrás vão precisar de preços dos combustíveis alinhados com o resto do mundo, o que pode exigir desonerações adicionais de imposto na gasolina e no diesel.

Essas medidas no final vão desembocar na redução da carga tributária, que hoje representa em torno de 35% do PIB e é muito elevada para um país em desenvolvimento. Parece a solução ideal. A redução da carga tributária tem tudo para reduzir os custos de produção e estimular o investimento privado, essencial para crescer mais no médio prazo.

Mas "falta combinar com os russos", como diria Garrincha. Nesse "novo modelo" as contas fiscais fecham? As contas do governo comportam uma queda mais significativa da receita?

Por melhores que sejam os esforços de contenção dos gastos primários, não me parece estarmos diante de uma economia de recursos de tal magnitude que financie o "novo modelo", que requeira tamanha redução de custos a ponto de impulsionar o investimento privado e o crescimento no Brasil.

Mas não é só de gastos primários que as contas fiscais dependem. Resta saber se os juros serão menores no futuro e se abrem espaço fiscal para a queda da carga tributária. Ao contrário da meta de primário, o déficit nominal do governo inclui a conta de juros. Um gasto permanente menor de juros pode levar a um déficit nominal menor e permitir uma dinâmica da dívida mais favorável, abrindo espaço fiscal.

Não sou daqueles que creem na queda sustentável dos juros básicos da economia (Selic) por simples decisão do governo. Mas tenho acreditado na convergência dos juros para padrões internacionais no médio prazo no País, desde a conquista da estabilidade macroeconômica e a consequente queda do risco Brasil. A tendência tem sido de queda dos juros, apesar de mais lenta que o desejado. Para a frente, o crescimento mais moderado dos gastos do governo e do crédito no País pode permitir uma queda mais sustentada da taxa de juros (evitando a volta dos juros aos dois dígitos, mesmo após a retomada da economia).

Esse ponto não é trivial, nem assegurado. O elevado crescimento dos gastos públicos teve até hoje como contrapartida uma alta carga tributária, mas também juros mais altos. Se os gastos crescerem mais devagar (ou forem realocados para investimento), a consequente queda dos juros pode permitir uma carga tributária menor. A cada 1% de queda permanente na Selic, estimamos ser possível reduzir a carga tributária em 0,5% do PIB, sem piorar as contas públicas (déficit nominal).

Mas existem dúvidas, riscos e desafios. Em primeiro lugar, pode ser que estejamos enganados quanto à velocidade de convergência dos juros da Selic para patamares internacionais e, infelizmente, a demora seja maior. A inflação já parou de cair e pode voltar a subir, exigindo juros maiores. Esperamos que seja para um patamar menor do que no passado, continuando a longa tendência de queda. Mas não é certo.

Em segundo lugar, o espaço da queda de juros, se vier, deve ser utilizado para aumentar o investimento público ou para incentivar o investimento privado. A tentação de aumentar os gastos públicos ou incentivar o consumo privado (com deduções) pode tornar inviável a sustentabilidade da queda de juros, desequilibrar as contas públicas e acarretar o aumento da inflação. O "novo modelo" deixaria de existir.

O fato de existir um "novo modelo" com juros menores, menor carga tributária, mais investimento e um crescimento sustentável é alvissareiro, mas atingi-lo é um desafio.

Banqueiros que não cobram - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 04/09


Não existe banco assim. Banco que empresta sem dados cadastrais completos, com garantias sem valor legal, e que aceita a mesma garantia para empréstimos diferentes. Banco normal não libera dinheiro sucessivamente para a mesma empresa para cobrir um empréstimo não pago e não classifica como A ou B um crédito não pago por vários anos. Mas assim o Rural fez.

Para o relator Joaquim Barbosa, os empréstimos foram simulados. O revisor avisou que não iria dizer que os empréstimos não existiram, mas acha que os dirigentes do banco se comportavam como se fossem uma doação. A então presidente do banco Kátia Rabello, defendida pelo ex-ministro José Carlos Dias, e o vice-presidente José Roberto Salgado, defendido pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, já amargam dois votos pela condenação por gestão fraudulenta de instituição financeira.

O relator mostrou como os mensalões se conectam através da parceria Marcos Valério e Banco Rural. Empréstimo anterior concedido à DNA propaganda, e que está sendo investigado no caso que envolve o ex-governador de Minas, pelo PSDB, Eduardo Azeredo, não foi pago pela empresa de Marcos Valério. Era de R$ 13 milhões e foi liquidado por R$ 2 milhões.

Mesmo tendo tido esse prejuízo, o banco deu novos e vultosos empréstimos às empresas do mesmo grupo e aceitou o aval do empresário no empréstimo ao PT. E os renovou quando não foram pagos. No caso do PT, foram 10 renovações.

O BC tem regras de classificação de risco de empréstimos que foram descaradamente descumpridas pelo Rural. Dívidas e empréstimos para capital de giro de 2003 não pagos estavam registrados como risco zero, o nível A, ou pequeno risco, o nível B. O BC determina que acima de seis meses de atraso o nível seja H, que significa reconhecimento total de perda. O banco nesse caso tem que fazer provisão de 100% do crédito.

O Rural publicou nota dizendo que os peritos do Instituto Nacional de Criminalística garantiram que os empréstimos eram verdadeiros. O que Joaquim Barbosa sustenta no seu voto é que os peritos ressalvaram que apenas no aspecto documental e formal eles eram verdadeiros.

Os outros ministros votarão na quarta-feira, assim que o revisor concluir sua fala, mas há grande probabilidade de condenação neste item cinco do mensalão.

A grande dúvida que fica na cabeça de quem assiste por dias a fio o desenrolar dessa questão é a razão de o banco ter se comportado assim. Por que um banco nega sua própria natureza? Por que, em vez de cobrar, empresta novamente; em vez de seguir orientação dos seus técnicos, desrespeita todas as normas de prudência; em vez de seguir as normas do Banco Central, as burla mascarando que um crédito é podre?

O que os ministros deixam claro é que eles queriam, com relações “promíscuas” com o devedor, ter vantagens no governo com o qual ele dizia ter proximidade. Realmente, entre os vários feitos que Marcos Valério conseguiu foi o de marcar encontro da então presidente do banco Kátia Rabello com o então ministro José Dirceu.

Neste mesmo momento dos empréstimos nunca pagos, o Banco Mercantil de Pernambuco estava na Justiça contra o Banco Central. O Rural tinha 22% da instituição em liquidação no BC. As seguidas idas de Marcos Valério ao BC eram para esse assunto. Banco Central e Banco Mercantil divergiam sobre critérios de atualização da dívida do banco falido com a autoridade monetária. A diferença da conta chegava a R$ 1 bilhão, como contei em colunas anteriores. Aí é que morava o maior perigo. Felizmente, o Banco Central não cedeu.

Gestão territorial - XICO GRAZIANO


O ESTADÃO - 04/09


Os ambientalistas querem aumentar as áreas preservadas do País. Indígenas lutam para demarcar mais terras exclusivas. Quilombolas tentam dominar seus espaços históricos. Agricultores precisam expandir a exploração do solo. E as cidades continuam crescendo. Haverá como acomodar tantas demandas sobre o espaço nacional?

Evaristo de Miranda, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estuda há anos a ocupação do território e o uso das terras no Brasil. Especialista em monitoramento sensorial por satélite, com doutorado em Ecologia na França, o renomado agrônomo comprova que anda sobrando pedido e faltando lugar para apaziguar tantos interesses. Mágica não resolve.

O resumo das informações da Embrapa mostra séria problemática. Atenção aos números. Na atividade agropecuária, somando as pastagens e as lavouras, exploram-se 2,15 milhões de quilômetros quadrados, representando uma fatia de 25% do território nacional. Essa superfície de produção, mantida nas propriedades rurais, pouco se tem alterado, conforme atestam os últimos três Censos Agropecuários do IBGE. Regra geral, as lavouras avançam sobre as pastagens extensivas, reduzindo-as, indicando intensificação no uso das terras. Eleva-se a produtividade por hectare ocupado. Boa agronomia, melhor zootecnia.

Expandem-se fortemente, por sua vez, as unidades de conservação ambiental. Os parques e reservas florestais constituem locais delimitados de preservação, mantidos sob responsabilidade do poder público. Geridos tanto pelo governo federal quanto pelos Estados, eles abrangem 14% do território nacional. Acrescendo-se a eles os parques municipais e certos domínios preservados pelas Forças Armadas, a fatia estatal de proteção da biodiversidade beira os 17% do País.

Identificadas e demarcadas, as terras indígenas ocupam 1,25 milhão de quilômetros quadrados, notadamente distribuídos pela Amazônia. Reservadas para o extrativismo dos arborícolas, essas imensas glebas recheadas de vegetação nativa representam próximo de 15% do Brasil. Adicionadas, as unidades de proteção da biodiversidade e as reservas indígenas, juntas, ocupam 32% do território nacional. Tal volume de terras ultrapassa o de qualquer outra nação, sendo de 10% a média mundial de áreas protegidas.

Além das áreas públicas, os estabelecimentos rurais declararam ao IBGE, por ocasião do último Censo Agropecuário (2006), manter um total de 50 milhões de hectares formando suas reservas legais e suas áreas de preservação permanente, localizadas dentro das propriedades. Isso significa que 5,9% do território nacional, apropriados por particulares, está sendo preservado para a fauna e a flora nativas, em especial nas faixas próximas dos cursos d'água. Matas ciliares.

Existem, ainda, os quilombolas. Asseguradas pela Constituição, as áreas remanescentes de quilombos têm sido progressivamente tituladas, já atingindo cerca de 1% do País. Por fim, as zonas urbanas expandem-se, por ora, sobre 0,25% do território. Considerando essas várias situações - agricultura, reservas florestais, indígenas, quilombolas e cidades -, chega-se ao índice de 64% do território nacional que apresenta ocupação definida e restrita. Uai, diria o caboclo, cadê o resto?

Embora o catastrofismo ecológico leve a opinião pública do Sul-Sudeste a imaginar o caos, excita a mente imaginar que um terço do território nacional ainda está praticamente desconhecido da sociedade. O incerto distribui-se, basicamente, nas imensas áreas devolutas e nos alagados da Região Norte. Basta saber que o bioma da Amazônia representa, sozinho, metade do Brasil e se mantém intacto em 81,2% nos lugares inóspitos, quase impenetráveis à exploração humana. Floresta virgem.

Quer dizer, em pleno século 21 existem 36% do território nacional sem uso definido. E sobre essa fatia, principalmente, recaem todas as demandas contemporâneas sobre a ocupação do território. Quais são elas?

Primeiro, a criação de novas unidades de proteção ambiental. Definidas pelo Ministério do Meio Ambiente, o mapa das áreas prioritárias para conservação da biodiversidade sugerem, no mínimo, dobrar a salvaguarda ecológica atual.

Segundo, as exigências do Código Florestal. Qualquer que seja o capítulo final dessa longa novela, com certeza haverá uma duplicação das zonas preservadas dentro das propriedades rurais, especialmente nas margens dos rios.

Terceiro, os reclamos dos indígenas e, quarto, dos quilombolas. Não cessam os pedidos dessas populações tradicionais, indicando que se avançará nas demarcações existentes.

Quinto, resta a agricultura. Impelida pela demanda mundial de alimentos, e suportada pela biotecnologia, mesmo ganhando produtividade a produção rural deverá expandir as suas áreas cultivadas e pastoreadas. Perderia o bonde da História se o Brasil deixasse de aproveitar a chance de se tornar o celeiro do mundo.

Nas contas de Evaristo de Miranda, o somatório das demandas pela ocupação e uso do território nacional, especialmente contando as limitações ambientais, alcança 6,45 milhões km2. Isso representa quase 76% do território nacional. Conclusão: inexiste possibilidade, física e geográfica, de atender a todas as vontades expressas na sociedade. Como resolver os conflitos? Quem arbitra a disputa?

Sem estratégia definida pelo Estado, a solução depende do brilho na mídia e do jogo da política. Por enquanto, em face do preconceito urbano contra o ruralismo, quem está perdendo é a agropecuária. A necessidade de sua expansão recebe sinais negativos da sociedade, que, ao contrário, apoia que dela se subtraiam áreas de produção. Periga encolher o campo.

Gestão territorial: eis um bom tema para o debate nacional.

Estímulos supernormais - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 04/09


SÃO PAULO - Deu na Folha que jogos on-line podem estar virando uma nova forma de dependência.
Meu alarme cético dispara sempre que uma nova doença psiquiátrica aparece na mídia, mas é preciso reconhecer que a possibilidade existe. Devido a um improvável complô entre nossa competência técnica e nossas vulnerabilidades neurológicas, essa situação está ficando mais comum. São os estímulos supernormais.
O conceito surgiu a partir de trabalhos dos etólogos Konrad Lorenz e Niko Tinbergen, que mostraram que animais frequentemente se deixam enganar por sinais manipulados para parecer mais exagerados.
Num experimento com perus selvagens, pesquisadores queriam saber qual a "unidade mínima" de perua que os excitaria. Testaram a resposta dos machos a manequins, dos quais iam retirando cauda, pés, asas etc. Descobriram que bastava espetar uma cabeça num pau para encorajar os machos. Eles até preferiam a cabeça sozinha, que lhes provocava reações mais intensas do que as despertadas por uma perua real.
Em "Supernormal Stimuli", Deirdre Barrett mostra que o fenômeno não está restrito a aves. Humanos somos vítimas preferenciais desses estímulos hiperbólicos. Na alimentação, fomos programados para acumular gorduras e carboidratos. Funcionava bem no paleolítico, mas, depois que aprendemos a fazer Baconzitos e quindins, conhecemos níveis inauditos de obesidade e diabetes.
De modo análogo, a destilação do álcool e a biossíntese da cocaína agravaram nossos problemas com essas drogas. Era relativamente difícil tornar-se alcoólatra ou cocainômano consumindo só cerveja pouco fermentada e chá de folhas de coca.
Jogos on-line, ao oferecer um ambiente onde tudo o que acontece são coisas que nossos cérebros estão programados para apreciar, acabam tornando o mundo real um lugar bem menos estimulante que o virtual. É quase uma concorrência desleal.

Na cabeceira da pista - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 04/09


Gostar, o governador Eduardo Campos tem certeza absoluta de que o ex-presidente Lula não gostou de vê-lo lançar um candidato do PSB para tentar tirar a prefeitura de Recife das mãos do PT.

Mas, daí a dizer que a disputa levou os dois à antessala do rompimento político, o governador de Pernambuco já acha que é um exagero proposital fomentado por uma geração de petistas - na sua maioria paulistas - aflitos com os efeitos da fadiga de material materializada na situação nada promissora dos candidatos do PT às prefeituras das capitais.

Das 26 onde haverá eleição (Brasília não tem prefeito) as pesquisas indicam o PT com alguma folga na dianteira apenas em Goiânia.

No Recife perde o primeiro lugar para um candidato que Eduardo Campos tirou do zero, em São Paulo briga por uma vaga no segundo turno, em Minas fica distante do prefeito apoiado por Aécio Neves e, em dois dos cinco Estados que governa, Bahia e Sergipe, o PT é espectador da liderança do DEM nas respectivas capitais.

Eduardo Campos reconhece a si e ao seu partido (PSB) como um alvo preferencial dos petistas que, na opinião dele, "insuflam" Lula e tentam aprofundar uma cizânia que ao pernambucano não interessa no momento.

No oficial, tanto ele quanto seus correligionários não perdem uma chance de dizer e repetir apoio "fechado" à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

É uma posição de prudência. Coisa de quem tem consciência da desproporção entre a estrutura do PSB e a, no dizer de um aliado do governador, "briga de cachorro grande" desde muito posta no horizonte entre PT e PSDB.

Obviamente Campos não quer comprar confusão com Dilma nem com Lula, mas digamos que por ora manifeste mais simpatia pela presidente que pelo antecessor nas avaliações internas do PSB e nas conversas com petistas mais agastados com o alimento ao atrito originado da direção nacional, leia-se, São Paulo.

Por essas análises, o comando petista estaria levando o ex-presidente Lula a um acirramento que, a depender do desenrolar dos acontecimentos - vale dizer, do resultado das eleições, do curso da economia e da desconstrução ou reconstrução das relações entre PT e PSB - poderia levar o partido de Eduardo Campos a confirmar o que hoje é só uma hipótese. Ainda remota.

A frase síntese e intencionalmente enigmática foi dita recentemente pelo governador de Pernambuco numa roda restrita: "É preciso o PT ter muito juízo em relação ao que pretende fazer com o PSB, porque a depender disso pode haver movimentos pós-eleitorais que venham a ganhar força".

Entre eles se inclui aproximação maior com forças de fora do campo governista. Para quê? Não se fala abertamente, mas subentende-se uma mensagem relacionada à eleição presidencial de 2014.

Não necessariamente automática, mas indicativa do início de um processo de ocupação de um espaço aberto no esgotamento da dicotomia entre PT e PSDB a respeito do qual o eleitorado dá notícia por meio do desempenho de Celso Russomanno em São Paulo.

Colateral. Queira o bom senso que a surpresa geral e dos petistas em particular, com o rigor e a independência dos ministros indicados para o Supremo nos governos Lula/Dilma não tenha o poder de incluir o critério de fidelidade ao Planalto no processo de escolha dos futuros integrantes da Corte.

Se assim for, aumentará o interesse e a vigilância da opinião pública pelas sabatinas aos quais são submetidos os indicados no Congresso.

Note-se. No artigo que publica sempre no primeiro domingo do mês, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso incorporou ao seu vocabulário o "presidenta" como gosta, aos subordinados impõe e dos simpatizantes recebe a deferência de ser chamada a presidente Dilma Rousseff.

Dos tucanos é o único a prestar-lhe essa homenagem.

Risco-banqueiro - MARCELO COELHO

FOLHA DE SÃO PAULO - 04/09


A cúpula do Rural não foi só imprudente, disse Barbosa; 'Desponta' o fato de os empréstimos serem fictícios


PARA JOAQUIM Barbosa, relator no julgamento do mensalão, o Banco Rural fez misérias nos empréstimos que concedeu ao PT e às empresas de Marcos Valério.

Dava dinheiro mesmo quando estava clara a incapacidade dos devedores em pagar seus compromissos. A cada calote, renovava os empréstimos. Desse modo, um empréstimo no valor de R$ 19 milhões (feito à SMPB Propaganda) elevou-se a um total de R$ 37 milhões.

Essas renovações sucessivas de crédito, feitas a cada 90 dias, eram aprovadas pela diretoria do Banco Rural mesmo depois de pareceres contrários da área técnica.

Um dos funcionários chegou a dizer, na sua análise, que continuar emprestando a Marcos Valério era uma operação que trazia o chamado "risco-banqueiro".

Ou seja, só mesmo o dono do banco para assumir compromissos tão arriscados.

Joaquim Barbosa citou inúmeras advertências, não só do próprio Rural, mas também do Banco Central, que foram ignoradas por José Roberto Salgado, Vinicius Samarane, Ayanna Tenório e Kátia Rabello.

A cúpula do Banco Rural não foi apenas imprudente, disse Barbosa. "Desponta, cristalino", o fato de que os empréstimos eram fictícios.

Apesar de muita insistência e desencontros, por exemplo, os peritos do BC recebiam documentos incompletos do Banco Rural. Pior: microfichas de todo o segundo semestre de 2005 foram "extraviadas".

Enquanto isso, verificava-se que milhares de notas fiscais falsas eram exibidas pelas empresas de Marcos Valério. As quais corrigiram substancialmente sua contabilidade, fora das normas, depois de eclodir o escândalo.

A quantidade de laudos e números apresentada por Joaquim Barbosa consumiu umas cinco ou seis horas de leitura.

O voto esmagou pelo cansaço; talvez fosse o caso de os advogados dizerem que só ouvir o seu voto já constitui punição suficiente.

Barbosa contestou algumas alegações da defesa. Em primeiro lugar, a de que peritos comprovaram a veracidade formal da documentação do Banco Rural.

Sim, disse o relator: desconfiando que todos os dados eram falsificados, ativeram-se apenas a dizer que as operações eram "formalmente" verdadeiras.

Outro argumento da defesa foi o de que se inculparam indiscriminadamente quatro réus, sem identificar suas responsabilidades individuais.

Mas o delito de gestão fraudulenta é necessariamente cometido em equipe, respondeu Barbosa. E não fazia sentido, em seu raciocínio, inocentar Kátia Rabello com base na ideia de que ela não entendia da área técnica do banco. Se não entendia, mais um motivo para seguir as recomendações dos analistas -em vez de desobedecê-las.

Sempre se pode dizer que, na verdade, quem não liga para a área técnica preocupa-se ainda menos com as recomendações dos analistas... Mas, como diz o jargão da área, é nisso que entra o chamado "risco-banqueiro".

No papel de revisor, Ricardo Lewandowski não se arriscou, por assim dizer, a divergir da condenação.

O PT, de réu a vítima - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 04/09


O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, notório homem de confiança de Lula, perdeu uma excelente oportunidade de manter a boca fechada na última sexta-feira, em São Paulo, durante a solenidade de posse da nova diretoria da Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT: "Não vão destruir a imagem do PT", garantiu, referindo-se ao julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal, em consequência do qual os petistas começam a lamber suas feridas. "A ilusão de quem apostava muito no mensalão para destruir a imagem do partido não vai se verificar" (sic), prometeu aos jornalistas.

Na verdade, Gilberto Carvalho estava apenas fazendo eco ao coro lulopetista que, inspirado no princípio de que em política a melhor defesa é sempre o ataque, historicamente marcou a ação do PT nos episódios mais agudos de sua trajetória tanto como oposição quanto, na última década, como situação no plano federal. De fato, nos últimos dias o tema "destruição do PT" marcou manifestações públicas de suas principais lideranças. Lula, em comício em Belo Horizonte, onde tenta juntar os cacos da desastrada campanha pela prefeitura local, atacou seus adversários do PSDB e do PSB: "Faz parte da cabeça deles tentar destruir o PT". O chefão da companheirada, como se vê, continua julgando os outros por si, pois desde os primórdios de sua militância sindical pautou sua ação pelo objetivo de destruir os "inimigos", antes apenas "os patrões", depois todas as perversas "elites".

De qualquer modo, o que parece claro é a mudança de tom dos petistas diante do curso que está tomando o julgamento da Ação Penal 470. Agora pode pegar mal falar em "farsa do mensalão", antigo refrão predileto de Lula, porque pode haver quem deduza que os ministros da Suprema Corte estão sendo acusados de farsantes. É melhor, então, fazer o papel de herói-vítima, neste momento em que o julgamento do mensalão e a campanha municipal tendem a se imbricar e, inevitável e crescentemente, pautar a agenda política. E é com esse espírito que Lula subiu ao palanque em Belo Horizonte, construindo mais uma esmerada peça do seu repertório de autoglorificação: "Se morreu, enterra, vai embora e acabou", disse, referindo-se à sua doença. "Mas eu não podia viver sem fazer discurso. Estou feliz de estar aqui fazendo meu primeiro comício e dizendo para meus amigos que eu voltei e para meus inimigos que estou vivo e que meus adversários vão me ver muito tempo fazendo comício." Para quem não pode "viver sem fazer discurso", Lula demonstrou que está em grande forma: "O PT não é Lula, não é Dilma, não é Pimentel, não é Patrus. O PT é cada um de vocês". E uma multidão de 5 mil pessoas aplaudiu em delírio.

Mas o ministro Gilberto Carvalho exagerou. Sem poder contar com a "indulgência plenária" que beneficia o Grande Chefe escorado no lastro de enorme apoio popular, Carvalho tem a responsabilidade de ser ministro de Estado, o que, para dizer o mínimo, confere peso diferenciado a suas afirmações. Deveria, por essa razão, tomar mais cuidado ao desenvolver em público argumentos sub-reptícios como o que usou durante o evento da CUT para minimizar a importância da repercussão do julgamento do mensalão sobre a imagem do PT e de Lula, e consequentemente sobre as eleições municipais: "O povo conhece o governo Lula desde 2003 e, postos na balança esses problemas, o saldo é que a vida do povo melhorou".

Em português claro, o que Gilberto Carvalho quis dizer é que probidade, honestidade, escrúpulos na gestão da coisa pública são valores irrelevantes diante da evidência - que ninguém nega - de que houve efetivamente uma melhora no padrão de vida de contingentes importantes da população brasileira em função dos programas sociais nos quais Lula concentrou a ação governamental ao longo de seus dois mandatos na Presidência da República. Do que Gilberto Carvalho disse, pode-se depreender que, se o povo está satisfeito, os governantes podem meter a mão à vontade na coisa pública, subtraindo da população, por um lado, os benefícios que lhe concedem, por outro. É a típica pregação demagógica e populista que mergulhou o País no reino das aparências, do pão e circo.

Panos quentes - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 04/09


Em meio à cada vez mais tensa relação da cúpula petista com o PSB, interlocutores de Lula convidaram Eduardo Campos (PE) para reunião no seu instituto. O encontro deve ocorrer no dia 16. O ex-presidente quer integrar o governador à campanha de Fernando Haddad. Cid Gomes (CE) também será acionado. Duelando com o PT em Recife e Fortaleza, socialistas foram os primeiros a apoiar Haddad, atitude evocada pela sigla em resposta aos que acusam Campos de traição.

Viral O QG de Celso Russomanno agiu para conter os aliados do candidato que ontem planejavam contra-atacar à disseminação de vídeos na internet em que aparece apresentando programas de Carnaval na década de 80. "Se isso for para a TV, reagiremos", adverte o presidente do PRB, Marcos Pereira.

Blitz José Serra intensificará a agenda nos redutos de candidatos a vereador considerados puxadores de voto. A maratona é uma tentativa de evitar subexposição do nome e do número do tucano no material de campanha de integrantes da sua coligação -em especial do PR e do PV.

Psiu! Embora tradicionalmente vinculada ao PT, a organização do Grito dos Excluídos em São Paulo vetou discursos de candidatos no palanque do evento, sexta-feira, entre a praça Oswaldo Cruz e o Parque do Ibirapuera.

Olha eu aqui Cinegrafistas da Globo foram orientados a pedir que celebridades na disputa por vagas na Câmara paulistana se afastem dos candidatos a prefeito durante as gravações diárias para telejornais. Os campeões de aparições "de carona" nas entrevistas são Dinei (PDT) e Nani Venâncio (PRB).

Flashback Ministros do PT têm se recusado a gravar para Gustavo Fruet (PDT) em Curitiba. O ex-tucano é patrocinado por Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Paulo Bernardo (Comunicações), mas divide petistas, pois foi algoz de Lula na CPI do mensalão.

Etiqueta Apesar das negativas oficiais de interferência de Lula na decisão de Dilma Rousseff de divulgar nota rebatendo FHC, interlocutores do Planalto admitem: o ex-presidente fez chegar ao governo ter ficado "muito chateado" com o conteúdo do artigo do tucano.

Arquibancada O tom da resposta inflamou petistas que mantinham discrição após o fim da era Lula. "Dilma deu cartão vermelho pro FHC. Já pro chuveiro!", publicou em seu Twitter o deputado Ricardo Berzoini (SP), ex-presidente nacional do PT.

Dois em um Gilberto Kassab avisou ao Planalto que os nomes que o PSD oferecerá para o ministério, após a eleição, são os de Henrique Meirelles e Guilherme Afif. O prefeito diz, em privado, que seu possível ingresso na Esplanada, como principal dirigente da sigla, representaria alinhamento automático com o PT para 2014.

Monotemático O presidente do PPS, Roberto Freire, quer que todos os candidatos do partido a prefeituras incluam o tema mensalão na campanha eleitoral de TV. A estreia da ofensiva ocorreu ontem na propaganda de Nadja Baía, em Maceió (AL).

Non grata 1 Reunidos para discutir o mensalão, advogados do PT fizeram duros ataques no final de semana a Carlos Ayres Britto, Joaquim Barbosa e Roberto Gurgel. Para o grupo, o trio subverteu a ordem do STF ao "confundir" seus papéis.

Non grata 2 "Barbosa ainda não tirou a toga de procurador, Britto virou deputado, ao pretender legislar sobre temas e o procurador é o próprio advogado de acusação", afirma o coordenador do setorial jurídico petista, Marco Aurélio Carvalho.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Serra é especialista em boatos, mas o usuário de ônibus parece não estar gostando dos que ele espalha sobre o bilhete único mensal."

DO DEPUTADO CARLOS ZARATTINI (PT-SP), ironizando acusação do tucano, que se diz vítima de boataria disseminada por rivais no transporte coletivo.

contraponto

Eu voto no samba

Após acompanhar José Serra em visita à feira da Vila Madalena, em São Paulo, grupo de militantes tucanos foi abordado por Eduardo Suplicy. Entre eles estava o presidente da Juventude do PSDB. Ao receber panfleto do senador, Paulo Mathias se identificou e disse que não votaria em Fernando Haddad. O petista interrompeu:

-Não estou pedindo votos para o Haddad, não. Estou divulgando o show do meu filho que será realizado em um barzinho aqui perto, mais tarde. Olhe o panfleto...

O tucano brincou, deixando Suplicy encabulado:

-Nem o senhor faz campanha pro PT?

Acredite se quiser - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 04/09


É tanta a insistência com que se atira a projeções ultraotimistas sobre a economia, que, às vezes, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, passa a impressão de que acredita nelas.

E aí não se sabe o que é pior: se a determinação do ministro em manter o público falsamente motivado ou se a percepção de que ele está quase sempre enganado.

Antes mesmo da virada de 2011 para 2012, Mantega distribuía boletins cor-de-rosa. Garantia que o crescimento do PIB deste ano seria próximo aos 5,0%. Em janeiro já prevalecia a opinião dos consultores auscultados pelo Banco Central de que o avanço do PIB não passaria dos 2,9%. Mas Mantega batia o pé em "alguma coisa entre 4,5% e 4,0%".

A partir de junho, o Banco Central, para o qual prejuízos de credibilidade custariam mais, passou a trabalhar com 2,5% de avanço neste ano. Mantega preferiu dizer que o Banco Central não sabia fazer projeções das Contas Nacionais tão bem quanto ele.

Semanas depois, então, mudou um pouco a tonalidade da música. Foi quando passou a anunciar que o PIB em 2012 aumentaria mais do que os magros 2,7% registrados em 2011.

Ainda em junho, o banco Credit Suisse advertia seus clientes de que este ano não emplacaria mais do que pífio 1,5% de expansão econômica. Mantega revidou no mesmo dia: "É uma piada!".

Na semana passada, até mesmo o ministro se deu conta do ridículo pelo qual passam certas projeções econômicas do seu Ministério, quando um documento oficial (Economia Brasileira em Perspectiva) insistia em divulgar números escancaradamente irrealistas: crescimento do PIB de 3,0%, em 2012; de 5,5%, em 2013; e de 6,0%, em 2014. Além de desautorizá-las, expurgou essas projeções do relatório que permanece no site do Ministério.

Mas Mantega continua irradiando estrelinhas coloridas. Nos dois últimos dias úteis da semana passada, fez questão de dobrar sua aposta de que, até o final deste ano, a economia estaria avançando a um ritmo anualizado de pelo menos 4,0%. Até agora não há sinais do cumprimento de profecias assim.

Mantega tem toda razão quando dá importância à formação das expectativas na condução da política econômica. As coisas só acontecem quando os agentes econômicos creem previamente nelas. Ninguém produz para amontoar encalhes. O empresário, por exemplo, só investe e contrata pessoal quando está convencido de que terá demanda por seus produtos. Mas o ministro imagina que a cadeira que ocupa no mesão de Brasília é tão poderosa que lhe confere o dom de convencer os brasileiros de qualquer coisa.

Ninguém ignora que o governo é um privilegiado centro de informações. E que, em princípio, um ministro de Estado está mais bem informado do que um mortal qualquer da planície. Por isso, uma política consistente de comunicação é um poderoso instrumento de convencimento e de mobilização das forças da sociedade.

No entanto, essa insistência em querer fazer a cabeça do mercado a qualquer preço está corroendo a credibilidade tanto do ministro como do governo Dilma. E um governo com baixa credibilidade corre o risco de piorar as coisas em vez de melhorá-las - como pode estar ocorrendo agora.

O pós-mensalão - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 04/09


BRASÍLIA - Quem está no banco dos réus do mensalão é o PT, mas quem cai nas eleições de São Paulo é o candidato do PSDB, José Serra.

Isso só comprova que as eleições municipais, apesar de começarem a armar o jogo da sucessão presidencial, têm dinâmica própria, bem diferente da nacional. O que vale é a percepção do eleitor sobre quem é mais capaz de enfrentar o touro à unha: a saúde, a segurança, o transporte público.

O crescimento do petista Fernando Haddad não é surpresa, e o que deixa os analistas assanhados são a estabilidade de Celso Russomanno, do improvável PRB, e a queda de Serra, do imperial PSDB.

Até aqui, Russomanno surfou em duas ondas: primeiro, no desconhecimento de Haddad; depois, na rejeição de Serra. Ainda não se sabe até onde irá seu fôlego, se ele vai ou não morrer na praia.

Segundo Mauro Paulino, do Datafolha, 1/3 dos fiéis eleitores do PT que votaram em Marta Suplicy em todas as três últimas eleições para a prefeitura (2000, 2004 e 2008) hoje declaram intenção de voto em Russomanno. Corresponde a dez de seus pontos nas pesquisas e tende a voltar ao leito natural do PT, principalmente com a presença e a engenharia de Marta, que tem força ímpar na periferia e, enfim, mergulha na campanha de Haddad.

Muita água ainda vai rolar na eleição e convém resistir ao "adivinhômetro", mas já há constatações. Uma é que o abraço em Paulo Maluf fez muito menos mal a Haddad do que a aliança com Gilberto Kassab está fazendo a Serra. Outra é que Haddad é muito forte tanto para ser prefeito quanto para ser uma volta por cima do PT.

Nada como uma cara nova, uma família bem arrumada, um discurso diferente e um padrinho forte justamente quando o julgamento do mensalão encerra uma era e uma geração e começa outras. Inclusive no PT. Tomara que, dessa vez, para melhor.

A esquerda caviar - RODRIGO CONSTANTINO


O GLOBO - 04/09

O Rio é vítima de uma verdadeira praga: a "esquerda caviar", formada por parte da elite financeira e cultural do país. Seus membros posam de altruístas enquanto louvam ditadores sanguinários como Fidel Castro. Do conforto de seus apartamentos em Paris, porque ninguém é de ferro.

Roberto Campos fez um diagnóstico preciso da árvore genealógica da turma, ao afirmar que "trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola". Somente isso pode explicar a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda, que admiram o socialismo, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: "Bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês".

Um cínico poderia dizer que a hipocrisia é útil. Aproximando-se do poder, esses intelectuais conseguem privilégios e mamatas. A Petrobras, por exemplo, destinou a bagatela de R$ 652 milhões para patrocínios culturais entre 2008 e 2011. É uma montanha de dinheiro capaz de testar a integridade até mesmo de um santo! Mas não creio ser apenas isso. Acredito que um dos fatores tem ligação com o sentimento de culpa dessa elite. E convenhamos: nada como uma elite culpada tentando expiar seus "pecados".

Com que facilidade ela adere aos discursos mais sensacionalistas e demagógicos. Chega a dar dó. Em um país que culturalmente condena o lucro e enxerga a economia como um jogo de soma zero, onde José, para ficar rico, precisa tirar de João, o sucesso acaba sendo uma "ofensa pessoal", como disse Tom Jobim. Essa visão é um prato cheio para produzir uma elite culpada e desesperada para pregar aos quatro ventos as "maravilhas" do socialismo.

Por isso vemos cineastas herdeiros de banco fazendo filmes que enaltecem guerrilheiros comunistas.

Por isso vemos filhos de grandes escritores lambendo as botas de tiranetes latinoamericanos.

Imagem é tudo.

E estas pobres almas acreditam que, ao louvarem a ideologia que quer destruí-los, conquistarão a fama de abnegados e descolados. Como é fácil falar que o capitalismo não presta quando se é milionário! Joãozinho Trinta foi no alvo quando disse que os intelectuais é que gostam de miséria, pois os pobres gostam é de luxo. Nada mais natural do que desejar melhorar as condições de vida. E nada melhor para isso do que o trabalho duro em um ambiente de livre mercado. Lucro e trabalho são sócios nesta empreitada. O grande obstáculo é justamente o governo inchado, obeso, que cria burocracia asfixiante e arrecada quase 40% do que é produzido em nome da "justiça social".

Quem labuta para criar riqueza e subir na vida não tem tempo para "salvar o planeta" ou construir "um mundo melhor". Estas são as bandeiras da esquerda festiva, dos artistas que, do conforto de suas mansões, adoram detonar o capitalismo enquanto desfrutam de tudo de bom que só ele pode oferecer.

Sobre a seita ambientalista, aliás, recomendo a leitura do excelente livro "Os Melancias", de James Delingpole. A máscara dos alarmistas climáticos que fazem ecoterrorismo cai por completo, expondo a verdadeira face vermelha por trás do movimento verde.

Mas divago. Eis o que eu realmente queria dizer: boa parte da elite carioca gosta de defender candidatos socialistas com discursos messiânicos.

Entre uma cerveja e outra, essa turma esbraveja contra os ricos capitalistas e repete como sua utopia salvaria a humanidade das garras dos gananciosos e insensíveis. Depois voltam para seu conforto egoísta com a alma lavada. A retórica vale mais que atos concretos. Garçom, mais uma cerveja! Foi assim que o brizolismo conseguiu prosperar no Rio, com os aplausos de muita gente da Zona Sul. Foi assim também que Heloísa Helena, do PSOL (o PT de ontem), conseguiu mais votos no Rio do que em qualquer outro lugar. O que esperar de um povo que elegeu Saturnino Braga em vez de Roberto Campos para o Senado? Essa análise toda foi para chegar ao novo queridinho da elite carioca, o personagem de filme de ação, herói que desafia as milícias. Há só um detalhe: seu partido é aquele que prega o socialismo (com um atraso de duas décadas), que pretende escolher até o tema das escolas de samba, que tem deputado que gosta de queimar a bandeira de Israel em praça pública, demonstrando sua intolerância, além de enorme desrespeito ao povo judeu. Leiam "Fascismo de esquerda", de Jonah Goldberg. Socialismo e liberdade não combinam. Um é o contrário do outro.

Todo regime socialista levou à escravidão e à miséria. Até quando os cariocas vão cair na ladainha dos artistas que adoram o socialismo, lá do conforto de Paris?

Licença para os mensalões - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 04/09


Cada ponto da acusação a práticas do Banco Rural é, portanto, acusação não feita, mas devida, ao Banco Central


COM A descrição, capaz de atravessar duas sessões no julgamento do mensalão, de práticas bancárias que fazem o ministro revisor pedir a condenação de quatro dirigentes do Banco Rural, uma pergunta se impõe: o setor de fiscalização do Banco Central não viu nada, outra vez, que justificasse providências efetivas? Ou seja, capazes de sustar em tempo as operações anormais e suas consequências para o país?

O Banco Nacional, o Santos, tantos outros mais, estouraram um atrás do outro, pipocas financeiras, porque a fiscalização do BC não detectou as ilegalidades que cometeram por anos e anos. Ou constatou e não agiu.

Como o caso do Nacional atingia relações e interesses especiais, a cúpula do governo Fernando Henrique Cardoso varou certa madrugada e dela saiu com a criação do Proer, uma cobertura financeira do estouro, claro, com dinheiro alheio.

Apesar dos muitos crimes financeiros que foi impossível esconder, o Ministério Público de então, conduzido pelo engavetador-geral Geraldo Brindeiro, deixou as vias livres para que os responsáveis maiores pelo Nacional -seus diretores-proprietários- chegassem livres e muito bem aos dias de hoje.

Os dirigentes do Rural encontraram recepção diferente para os seus feitos e não feitos. Mas o Banco Central não mudou.

A engenharia financeira que associou Marcos Valério e o Rural tornou-se ativa pelo menos em 1998, com o chamado mensalão do PSDB, para beneficiar a candidatura (derrotada) de Eduardo Azeredo ao governo mineiro. Nenhum ato do BC tentou sustá-la.

Transposta do PSDB para o PT, a engenharia Valério/Rural deixou mais seis anos de anomalias para a fiscalização do BC. Em vão.

Cada ponto da acusação a práticas do Banco Rural é, portanto, acusação não feita, mas devida, ao Banco Central, que ficou, no caso, entre ser relapso e passar-se como tal por improbidade. Sem investigação a respeito, sem sequer uma referência, no julgamento, à omissão que contribuiu para a ocorrência do segundo esquema Valério/Rural, por permitir o primeiro.

IMÓVEL

A invasão, por lavradores, de terra improdutiva mobiliza destacamentos policiais armados e violentos para desalojá-los.

Até o Exército já foi lançado em operação do gênero.

Mas o governo federal não é capaz de se entender para restituir ao Jardim Botânico, no Rio, área invadida que é indispensável para o crescimento de seu acervo natural e para as pesquisas científicas de que é um campo extraordinário.

Já foi proposta a oferta de moradia, por certo mais decente do que a maioria das moradias invasoras, e a demagogia em nome do social não cedeu. Nem provocou alguém com autoridade bastante para impor o bom-senso em nome do interesse social verdadeiro.

NO LUCRO

O Brasil é sócio da ditadura, disfarçada por fraudes eleitorais, e da corrupção gigantesca que asseguraram, agora, sua continuidade em Angola.

Sociedade que vem de longe: minas de diamante em Angola foram a escolha de Paulo César Farias para aplicar, em sigilo, a dinheirama inconfessável que administrava.

Realidade 'invisível' - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 04/09


Não há mais muitas dúvidas de que a economia brasileira se encontra numa etapa de transição. É só observar a curva do crescimento econômico trimestral para visualizar esse fato. O nível de atividades está saindo de um ciclo de baixa, relativamente longo, que começou no primeiro trimestre de 2010 e se estendeu até o primeiro trimestre de 2012. Agora, parece ter iniciado um movimento de reversão, de moderada intensidade e chances de se prolongar por algum tempo.

É justamente neste momento peculiar que a economia doméstica está sendo sacudida por estímulos fiscais e monetários de variada abrangência e intensidade. Alguns, como as reduções de IPI para bens duráveis e material de construção, são de fôlego mais curto e caráter conjuntural. Mas, outros, como a redução dos juros básicos e a desvalorização cambial, são de natureza mais estrutural e com potencial para revirar alguns modelos de produção construídos exatamente para tirar vantagem de juros altos ou câmbio valorizado.

Os juros básicos vêm sendo derrubados há um ano, já acumularam cortes de 5 pontos porcentuais e, mesmo que ocorram repiques em futuro próximo, dissemina-se a convicção de que uma taxa real inferior a 3% ao ano veio para ficar. Do mesmo modo, a taxa de câmbio, pouco acima de R$ 1,50 por dólar também há um ano, parece ter encontrado, com a ajuda de intervenções do Banco Central, um ponto de ancoragem em torno de R$ 2 por dólar.

São mudanças com óbvio impacto nas cadeias de produção, ainda não detectadas com nitidez pela maior parte dos sismógrafos econômicos. Até porque alguns desses equipamentos não foram ainda calibrados para captar as novidades.

Sistemas de medição fora do ponto podem induzir analistas a considerar como erros de diagnóstico, que levariam a resultados negativos, o que pode ser o começo de um promissor novo tempo. Fenômeno semelhante ocorreu com o fim do descontrole inflacionário e as profundas mudanças advindas do Plano Real.

É natural que, numa primeira etapa, como no Plano Real e a inflação, a reversão do ambiente de juros altos e câmbio valorizado produza choques e perdas. A economista Zeina Latif, experiente analista de conjuntura, recentemente, chamou a atenção para o fato de que a indústria tem perdido com a redução dos juros. Parece um contrassenso, mas faz todo o sentido.

Sim, historicamente, para se defender dos juros altos, o setor trabalha com caixa elevado, muito acima do padrão internacional. Trata-se de uma defesa para compensar, com ganhos em aplicações financeiras, os custos de produção inflados pelos altos juros. Com juros mais normais, no entanto, é de se supor que, aos poucos, as fábricas aproveitarão os custos menores para se reorganizar e buscar eficiência no que de fato produzem.

Não está sendo diferente com os impactos de um câmbio mais desvalorizado. Empresas com dívidas antes "baratas" em dólar têm sido negativamente afetadas. Idem para as que passaram a importar mais do que seria conveniente, relaxando na eficiência e produtividade internas, para aproveitar os preços "baixos" dos produtos importados.

Mesmo aquelas empresas que não podem escapar de importações terão, com o tempo, de reequilibrar os processos produtivos, podendo aproveitar oportunidades que, fatalmente, se abrirão no mercado doméstico.

Até os bancos, campeões de rentabilidade com os juros altos, diante das perdas dos últimos trimestres, já descobriram que não é mais possível viver na sombra e na água fresca dos certificados de depósito interbancários (CDI) e da zona de conforto exclusiva dos papéis de renda fixa flutuante.

A novíssima palavra de ordem no setor, com a redução de margens e receitas, é eficiência - o que, pelo menos nas comparações internacionais, sempre faltou às instituições brasileiras.

A defasagem de tempo entre a adoção das medidas e a disseminação de seus efeitos pela economia conspira contra os impacientes. Reconhecer que a economia brasileira encontra-se numa etapa de transição é, nas atuais circunstâncias, parte relevante do roteiro para análises mais sintonizadas com a realidade "invisível" do momento e, principalmente, para projetar com mais probabilidade de acerto o futuro de médio prazo.

Selic, um ano depois - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 04/09


Taxa básica da economia chegou a 7,5%, menor patamar da história; terreno conquistado com juros baixos precisa ser preservado



A julgar pelo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), está no fim o ciclo de cortes na taxa básica de juros da economia. A redução de meio ponto percentual que levou a Selic a 7,5%, nível mais baixo da história, pode ter sido a última de uma série iniciada em agosto de 2011.

Ao cabo de um ano, o Banco Central diminuiu os juros básicos em cinco pontos -e a partir de agora, segundo o Copom, novos cortes, se houver, deverão ser conduzidos com a "máxima parcimônia".

A estratégia adotada pelo BC nesse período invalidou o argumento clássico segundo o qual os juros no Brasil não poderiam cair a níveis mais razoáveis sem desestabilizar a economia.

Teve papel importante nesse resultado o cenário externo de forte contração -que levou o BC a projetar um quadro de desaceleração interna, com redução dos riscos inflacionários de curto prazo.

As incertezas sobre a retomada do crescimento não foram ainda debeladas. O PIB do segundo trimestre mostrou nova queda dos investimentos, e o crédito ao consumo já não desempenha o mesmo papel impulsionador do passado.

Nesse quadro, o inédito patamar de juros é estímulo importante, que se fará sentir ao longo do tempo.

Apesar de arrefecer, a inflação permanece em nível mais elevado do que o desejável. O IPCA deverá superar 5% neste ano, em razão do choque nos preços de alimentos ocasionado pela seca nos EUA. As projeções apontam para 5,5% ou mais em 2013 -ante a meta oficial de 4,5%. A gestão austera do orçamento público é ainda mais necessária nesse contexto.

A redução dos juros deve ser comemorada. Como a taxa Selic serve de base para o rendimento das aplicações financeiras e o custo dos empréstimos bancários, se permanecer baixa por longo período -o que ainda é incerto- os efeitos na economia brasileira serão benéficos e palpáveis.

Atualmente, cerca de 80% da riqueza financeira nacional permanece na zona de conforto de papéis públicos e outros investimentos de curto prazo, alheia ao empreendimento e à produção. Com o baixo rendimento provocado pela queda dos juros, é possível que esse perfil seja alterado.

Descontados inflação, impostos e taxas, o retorno da maioria das aplicações conservadoras no Brasil já está perto de zero.

Para as empresas, o universo de projetos mais rentáveis que o juro básico será maior, ainda mais se houver medidas capazes de atrair o setor privado para projetos de longo prazo. A redução do ganho financeiro também estimula o empresariado a priorizar a competitividade e a inovação.

O juro baixo tem, portanto, um efeito dinamizador importante. No caso brasileiro, vai além do impacto de curto prazo no PIB. Por isso, tal como a dívida pública cadente, é preciso criar condições para preservar a expressiva mudança de patamar da taxa básica.

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu sou um barnabé do processo”
Ministro Joaquim Barbosa (STF) a uma mulher que o chamou de “heroi”


GOVERNO LULA REFORMOU O PLANALTO SEM ALVARÁ

A reforma do Palácio do Planalto no governo Lula, que custou R$ 111 milhões, foi iniciada em 2009 sem alvará. A Presidência da República foi multada pela Agefis, agência de fiscalização do governo do DF, mas ignorou completamente as notificações, inclusive para paralisar a obra. O jogo de empurra e a pressão contra fiscais mantêm “secretos” o auto de infração e a multa aplicada, de R$ 26.891,10, que jamais foi paga.

CALOTE MANTIDO

A secretaria-executiva da Casa Civil da presidência da República recorreu e manteve o calote, mesmo com a multa reduzida à metade.

LEI IGNORADA

O licenciamento para reforma do Palácio do Planalto é obrigatório, de acordo com o art. 51 da Lei Nº 2.105/98, ignorada pela presidência.

ROLANDO O LERO

O revisor Ricardo Lewandowski opinou por condenar dois dirigentes do banco Rural, mas seu votos continuam mais longos que os do relator.

SUSPEITA

A interrupção do voto de Ricardo Lewandowski, ontem, levantou a suspeita de que ele vai opinar pela absolvição dos outros dois diretores do banco.

KASSAB PROMETE ‘ABRAÇO DO AFOGADO’ COM SERRA

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), prometeu arregaçar as mangas na campanha do candidato pelo PSDB a sua sucessão, José Serra, após sua queda vertiginosa nas pesquisas. Em conversa, há dias, Kassab defendeu mudanças nas estratégias de comunicação da campanha e disse a Serra que, se ele vier a perder as eleições, os “dois cairão juntos”, mesmo que isso signifique um abraço de afogados.

JORNADA DUPLA

Kassab pretende reservar o fim de semana para as campanhas de candidatos do PSD, e o restante da semana para José Serra.

PRATO SERVIDO FRIO

Serristas acusam o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, de fazer “corpo-mole” na campanha do correligionário à prefeitura.

OVELHA NEGRA

O tucanato paulistano também critica o senador Aécio Neves (PSDB-MG), mais dedicado a se divertir na noite que ajudar nas campanhas.

MINISTRO SIG

Como sempre acontece quando há vaga no Supremo Tribunal Federal, o jurista e ex-deputado Sigmaringa Seixas volta a ser citado como um dos favoritos a substituir o ministro recém-aposentado Cezar Peluso.

MAIS QUE EMBAIXADOR

A Policia Civil do DF faz greve, mas têm salários iguais aos da Polícia Federal. Delegado especial (R$ 19,7 mil por mês) ganha bem mais, por exemplo, que qualquer embaixador do Brasil com 35 anos de carreira.

FOGUEIRA DAS VAIDADES

Paulo Skaf (Fiesp) e Eduardo Gouveia Vieira (Firjan) travam uma guerra de vaidades infantil com o mineiro Robson Braga, presidente da Confederação Nacional da Indústria. Eles acham que basta ter PIB, mas é preciso ter votos para dirigir a CNI. A dupla jamais os teve.

NÃO DEU CERTO

Nem mesmo o ministro revisor Ricardo Lewandowski foi na conversa do advogado José Carlos Dias, de que Kátia Rabelo, dona do Banco Rural, era apenas uma bailarina que nada entendia de finanças.

ÂMBITO LOCAL

Para o senador Armando Monteiro (PTB-PE), as pesquisas mostram que “não é o ex-presidente quem decidirá a eleição” em Recife: “Não é disputa anti ou pró-Lula, o povo escolhe quem confia para a cidade”.

OCUPANDO A MOITA

Não se pode confiar na palavra de certos políticos. Ronaldo Lessa, que os adversários dizer ser “ficha suja”, jurou a aliados que desistiria da candidatura a prefeito de Maceió, caso fosse barrada na Justiça. Foi barrada e “re-barrada” pelo TRE-AL, mas ele continua em campanha.

KIT MENSALÃO

O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) entrou com ação popular contra o Procurador-Geral, Roberto Gurgel, por publicar no site do órgão cartilha para crianças sobre o mensalão: “acho um crime fazer isso sem estudo psicológico e pedagógico, e com o dinheiro público”.

OLHO DA RUA

O deputado Sidney Patrício (PT), presidente da Câmara Legislativa do DF, demitiu sua assessora de imprensa por exigência dos petistas, que a acusam de “criar muitos problemas”, inclusive com jornalistas.

PERGUNTA NO PIQUETE

O ministro Luís Adams (AGU), que disse incorrer em improbidade o gestor público que não desconta dias parados, vai processar o próprio governo, que negocia a devolução dos dias já descontados? 


PODER SEM PUDOR

CINCO DOSES DE DURAÇÃO

O falecido senador Fábio Lucena, do Amazonas, tinha o hábito de passar o tempo, nos aviões, com um copo de uísque nas mãos - talvez para disfarçar o medo de voar. Quando Tancredo Neves percorria o País, em 1984, para legitimar sua campanha presidencial, Lucena viajava para um comício em Belém (PA) quando um repórter perguntou:

- Senador, quantas horas são mesmo de avião entre Brasília e Manaus?

- Quantas horas, eu não sei. Só sei que são cinco doses de uísque.

TERÇA NOS JORNAIS


- Globo: A hora do mensalão – Relator e revisor condenam o Rural
- Folha: Em defesa de Lula, Dilma ataca FHC por reeleição
- Estadão: Ministros condenam cúpula do Banco Rural
- Valor: Governo avalia incentivos para o mercado de capitais
- Estado de Minas: Vida normal nas universidades só em 2015
- Jornal do Commercio: UFPE entre as dez do País
- Zero Hora: Ganho cai, mas poupança supera outras aplicações