sexta-feira, maio 11, 2012

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 11/05/12

Mercado de animal de estimação eleva receita

O faturamento da indústria de produtos para animais de estimação deve alcançar R$ 13,7 bilhões neste ano, com crescimento de mais de 12% com relação ao ano passado, segundo dados da Abinpet, associação do setor.

O aumento, porém, não se explica apenas pela ampliação do mercado consumidor, segundo José Edson Galvão de França, presidente-executivo da entidade.

"Houve alta nos preços para o cliente, por causa da elevação do custo de matéria-prima, como milho, arroz e carne. Também se reflete na nossa margem de lucro."

O aumento da demanda foi de 5,4% no ano passado, segundo a Abinpet.

O principal impulso para o setor ainda está no consumo das classes C e D, que, segundo França, representam cerca de 70% das vendas.

O investimento se mantém agressivo entre os distribuidores para absorver a demanda do novo público.

No Pet Center Marginal, a ideia é abrir três unidades ao ano, enquanto houver mercado. Serão investidos entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões por unidade, segundo Hélio Freddi Filho, diretor.

A empresa, que atualmente tem 14 lojas, acaba de abrir um centro de distribuição em São Paulo, com capacidade para atender até 50 unidades.

"A classe C continua chegando a esse mercado. Primeiro vamos atender o interior do Estado, depois, com logística, pensaremos em outras regiões", afirma.

TETO NA OLIMPÍADA

O preço médio das diárias de hotéis para o período da Olimpíada em Londres subiu 97% no primeiro trimestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2011, de acordo com dados do site Hoteis.com.

O valor médio de hotéis no destino, para o período de 27 de julho até 12 de agosto, é de £ 208, cerca de R$ 656.

A procura por hotéis em Londres pelo site cresceu em média 86% entre janeiro e março de 2012 em relação ao mesmo intervalo de 2011.

O Brasil é o sétimo entre os dez países que mais têm procurado hospedagem em Londres no período. O primeiro lugar é da China.

FARMACÊUTICOS

Cerca de 10 milhões de pessoas retiraram medicamentos gratuitos para hipertensão e diabetes em farmácias desde fevereiro de 2011, segundo o Ministério da Saúde.

Até então, o governo arcava com 90% do custo dos remédios e os consumidores com 10%.

Um acordo com a indústria e o varejo farmacêuticos garantiu a gratuidade sem aumentar o custo unitário pago pelo governo, de acordo com o ministério.

Neste ano, a pasta planeja investir R$ 836 milhões no programa intitulado "Saúde Não Tem Preço".

NOVA EDIÇÃO

A editora Manole, que começou há mais de 40 anos, quando o fundador Dinu Manole levava livros de medicina para vender no interior do país, redireciona sua estratégia para enfrentar a pirataria on-line, que cresceu nos últimos anos.

A empresa, que edita livros técnicos e científicos, principalmente de medicina e jurídicos, entrará no segmento de cursos.

"Nos congressos pelo país, onde íamos divulgar os livros, os médicos pediam para interagir, então criamos um sarau de cardiologistas e começamos a oferecer programação", diz a sócia Amarylis Manole.

Agora a empresa criou uma divisão que espera que passará a representar 50% de seu faturamento nos próximos anos.

Além de um espaço para as aulas, que será inaugurado em Tamboré no segundo semestre, os cursos desenvolvidos com base no conteúdo editorial serão dados em outras instituições pelo país e também pela internet.

NÚMEROS

50% é a parcela do faturamento que a nova área de cursos deve ocupar no futuro

2.000 é o número de alunos que a empresa pretende atender no primeiro ano

FLEXIBILIDADE

O Brasil ficou em quinto lugar entre os países da América do Sul que têm maior capacidade de se adaptar a mudanças, de acordo com pesquisa da consultoria KPMG.

Foram consideradas mudanças econômicas e políticas e eventuais crises, como de alimentos ou de petróleo, segundo Iêda Novais, diretora da empresa no Brasil.

O Chile ficou em primeiro lugar no ranking. O mercado financeiro eficiente e a competitividade interna e externa foram alguns dos fatores que contribuíram para colocar o país no topo da lista.

O estudo também afirma que a percepção internacional de corrupção coloca o Brasil em situação pior enquanto eleva a avaliação do Chile.

Para elaborar o índice, foram analisadas as capacidades econômica, social e de governança de países emergentes e subdesenvolvidos.

Carreira... A Fundação Estudar (instituição sem fins lucrativos que financia o estudo de brasileiros de alto potencial no país e no exterior) registrou, neste ano, recorde de candidatos ao seu programa de bolsas.

...financiada Ao todo, 5.891 jovens se inscreveram para receber bolsas de graduação e de pós-graduação. O número é 18% maior que o registrado no ano anterior. A fundação já investiu US$ 8,3 milhões em seus programas.

Morte digna - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 11/05/12


BRASÍLIA - Apesar de ferozmente divididos em votações que comportam tendências ideológicas e preferências partidárias, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm sido majoritariamente, quando não unanimemente, a favor de avanços nos delicados temas de comportamento e de contemporaneidade.

Um deles bate à porta do Brasil, depois de entrar na Colômbia e agora na Argentina: o direito à morte digna. Não se trata ainda de eutanásia, em que os médicos podem agir ativamente para apressar a morte e abreviar o sofrimento de pacientes terminais, sem chance de cura. Trata-se da possibilidade de retirar tubos, agulhas e toda a parafernália que não serve para salvar uma vida, mas para postergar uma morte inevitável.

Quem viu uma pessoa muito querida sendo submetida a uma verdadeira tortura em nome de nada sabe do que se fala aqui e entende perfeitamente a "lei da morte digna", aprovada por unanimidade pelo Senado argentino anteontem, seguindo a trilha aberta pela Colômbia.

A pessoa quer ir, precisa ir embora. A tecnologia, aliada a dogmas, imposições legais e códigos arcaicos, não deixa. É de uma crueldade atroz, que martiriza o paciente e os que o amam. Neste caso, anos a fio, assombrando sonhos e noites insones.

Médicos são treinados para salvar vidas e gastam-se milhões mundo afora com o objetivo de curar, recuperar, garantir a sobrevivência. Necessário e louvável. Mas esses objetivos tão nobres não podem ser usados e servir de pretexto para resultados cruéis, porque inúteis.

Pacientes com doenças incuráveis e os que os amam devem ter o direito, inclusive legal, de decidir com os médicos até quando lutar e resistir e a hora em que a guerra está perdida.

Que os brasileiros debatam esse princípio como legítimo, os legisladores encampem a sua formalização e os juízes confirmem que, apesar dos pesares, o Brasil avança para um futuro melhor -e mais digno.

GOSTOSA


O golpe dos mensaleiros - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 11/05/12


É de todo verossímil o argumento do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, segundo o qual "pessoas que estão morrendo de medo do processo do mensalão" estão por trás das tentativas de convocá-lo a depor na CPI do Cachoeira. A razão invocada é a demora de Gurgel em pedir ao STF abertura de inquérito contra o senador goiano Demóstenes Torres por suas ligações com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Na realidade, o procurador está na mira do PT e do ex-presidente Lula pelo menos desde que começou a ganhar corpo a possibilidade de iniciar-se em breve o julgamento dos 38 réus, a começar pelo ex-ministro e deputado cassado José Dirceu, do esquema de corrupção que Gurgel considera "o maior atentado à democracia brasileira". O intento de intimidá-lo e, no limite, desmoralizá-lo antecede o escândalo que levou à CPI - e foi uma das razões por que o PT se bateu por sua criação.

Ainda que os parlamentares que defendem a convocação de Gurgel se movessem exclusivamente pela busca da verdade, ela esbarra em dois obstáculos substanciais. O primeiro é de natureza jurídica. Se viesse a depor, ele ficaria inabilitado a conduzir a ação contra Demóstenes. Ninguém, decerto, é insubstituível, mas a mudança reduziria as chances de sucesso da ação. Na CPI, há quem sugira, para contornar essa dificuldade, que se convoque no seu lugar a subprocuradora Cláudia Sampaio Marques. Foi ela quem recebeu o relatório da Operação Vegas, da Polícia Federal, que poderia incriminar o senador há mais tempo. Cláudia é casada com Gurgel.

Mas a manobra não eliminaria a segunda barreira, de natureza política: a CPI foi constituída para investigar os elos de Cachoeira com agentes públicos e privados - funcionários, políticos, empresários e outros profissionais -, não para investigar o procurador-geral ou a subprocuradora. Se o fizesse, não só se descaracterizaria, como as suas conclusões dificilmente poderiam produzir efeitos práticos no âmbito da Justiça. Qualquer iniciativa contra Gurgel deve se radicar no foro apropriado, o Conselho Nacional do Ministério Público. A questão de fundo, de todo modo, são as dúvidas sobre a sua conduta no caso.

Em 15 de setembro de 2009, chegou à Procuradoria o relatório da Operação Vegas. Segundo disse à CPI o delegado Raul Alexandre Marques Souza, da Polícia Federal, Cláudia informou ao órgão que não havia encontrado no texto elementos que justificassem uma investigação sobre Demóstenes. Passados dois anos e meio, em 27 de março último - cinco dias depois de O Globo publicar as primeiras degravações de conversas entre ele e Cachoeira -, Gurgel foi ao STF contra o senador. "Não há argumento", reagiu o deputado Onyx Lorenzoni, do DEM catarinense, insuspeito portanto de se acumpliciar com o PT. "Ele (Gurgel) estava com a bomba atômica e nada fez."

Na linha da subprocuradora, Gurgel alega que o material de que dispunha inicialmente não sustentaria um pedido de inquérito. Além disso, o procedimento poderia se revelar contraproducente, prejudicando eventuais investigações contra outros suspeitos. "Não fosse essa opção", afirma, "não teríamos a Operação Monte Carlo, não teríamos todos esses fatos que acabaram vindo à tona." Pode ser. Mas na representação aparentemente tardia contra Demóstenes, ele incluiu uma vintena de conversas interceptadas no curso da Operação Vegas. O procurador replica que o material obtido pela Monte Claro deu àquelas degravações uma importância que por si sós não teriam.

Salvo evidências em contrário, a boa-fé de Gurgel não está em jogo - a menos que se queira desqualificá-lo com segundas intenções, como é o caso do PT.

É sobre isso que ele fala em entrevista a O Globo: "A atividade do Ministério Público tem como uma das suas características a de desagradar a muitos, se não a todos. Portanto, faz parte do nosso ofício saber que vamos ser alvos de pessoas que já foram alvos, e alvos notórios do Ministério Público, e que agora têm chance de tentar uma retaliação. E é isso que se está fazendo", concluiu.

Saindo das cordas - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 11/05/12


O Supremo Tribunal Federal recebeu da Procuradoria-Geral da República novos indícios do envolvimento do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o esquema de Carlinhos Cachoeira. Segundo membros da CPI, o material está sendo periciado pela Polícia Federal e depois será enviado pelo Supremo à comissão.

Desde janeiro, quando foi retomado o monitoramento dos acusados de pertencer ao grupo de Cachoeira, a PF interceptou 260 mil ligações e 5.000 emails.

Ao municiar o STF e a CPI com novas informações, o procurador-geral, Roberto Gurgel, tenta se livrar da acusação de omissão que setores do PT lhe fazem.

Reação Gurgel tem se aproximado de alguns ministros do STF e integrantes da CPI para tentar se blindar. "Alianças começaram a ser feitas entre membros dos Três Poderes para impedir a impunidade da quadrilha'', afirma um parlamentar.

Infiltrado Aliados do procurador-geral temem os desdobramentos de eventual representação do PT ao Conselho Nacional do Ministério Público. Luiz Moreira, conselheiro indicado pela Câmara, é ligado a José Genoino, réu no processo do mensalão.

Intimidade O delegado Matheus Mella Rodrigues, que comandou a Monte Carlo, contou aos membros da CPI que o governador Marconi Perillo (PSDB-GO) ligou no celular pessoal de Cachoeira para dar parabéns no seu aniversário, e não no Nextel.

Sorte grande Rodrigues relatou também que o prefeito de Águas Lindas (GO), Geraldo Messias (PP), ganhou de Cachoeira uma viagem à meca da jogatina, Las Vegas, com direito a cartão de crédito com gastos liberados.

Zen Com a CPI chegando a cenas de quase pugilato, foi comemorada no Congresso a sanção da presidente Dilma Rousseff ao Dia de Buda, a ser celebrado junto com o Dia das Mães, sempre no segundo domingo de maio.

Surpresa O PR afirma que foi o último a saber da indicação de César Borges (BA) para uma vice-presidência do Banco do Brasil. Foi o ex-senador que informou os caciques Alfredo Nascimento e Valdemar da Costa Neto do convite da presidente.

Vias tortas Apesar do desejo do PT, congressistas do PR negam que a nomeação vá levar o partido imediatamente para a campanha de Fernando Haddad em São Paulo. "Gesto do avesso, né?", ironiza um senador.

Biodiversidade Com a adesão formal do DEM à coalizão de José Serra, o secretário Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Social) será incorporado à coordenação da campanha tucana. Aliados já oficializados, PV e PSD também terão assentos no QG serrista.

Preventivo Com a antecipação da convenção que lançará Serra para 17 de junho, tucanos pretendem sobretudo assegurar base legal para eventuais recursos à Justiça com pedido de direito de resposta em caso de ataques ao ex-governador.

Novos ares Mozart Vianna, que foi secretário-geral da Câmara por 20 anos, deixou a chefia de gabinete do senador Aécio Neves (PSDB-MG) para assumir a gerência de relações institucionais da TV Globo em Brasília.

Chão de fábrica Róbson Andrade, presidente da CNI, conhecerá hoje projeto que cria acordos coletivos especiais para trabalhadores no Sindicato dos Metalúrgicos e numa montadora do ABC. Força Sindical e UGT são contra a ideia, enviada à Secretaria-Geral da Presidência.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Ele é parecido com o Jô Soares, mas não precisa fazer da sua atividade um talk-show, colocando sob suspeição seu comportamento nesses processos que tem de analisar."

DO DEPUTADO FEDERAL FERNANDO FERRO (PT-PE), criticando o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por ter atribuído a réus do mensalão ataques sobre sua conduta na Operação Vegas.

contraponto

Andar com fé

Durante suas atividades de pré-campanha, a ex-vereadora Soninha Francine (PPS) seguiu da Marcha do Axé, que reúne adeptos de umbanda, candomblé e espiritismo, diretamente para evento na igreja evangélica Brasil para Cristo. Depois de dez minutos posando para fotos, a pré-candidata à Prefeitura paulistana, que é budista, foi avisada por um dos evangélicos sobre um adesivo em seu peito com a frase: "Marcha do Axé - eu fui".

Um pastor brincou com a saia-justa religiosa:

-Nota-se que sua candidatura é ecumênica...

Paris, reine du monde - FERNANDO GABEIRA


O ESTADÃO - 11/05/12


Paris, reine du monde / Paris c'est une blonde. Depois de tantas denúncias sobre as viagens de Sérgio Cabral e suas relações com o dono da Delta, Fernando Cavendish, tenho vontade de cantar.

De que adiantaram tantos argumentos racionais? Algumas imagens de uma única de cem viagens de Cabral ao exterior bastaram para convencer milhares de pessoas, antes indiferentes às denúncias, de que algo realmente singular acontece no Rio. Posso até parar de fazer sentido ou, então, buscar outro sentido na coleção de imagens que nos chegam de Paris. Cantarolando, cheguei à conclusão de que existe até uma loura na história.

Paris c'est une blonde. Na festa da cúpula do governo Cabral, a loura estava lá, corpo atlético e imenso decote nas costas tatuadas. Ela aparece dançando com Cavendish: ele está levemente inclinado e as costas da loura dominam o quadro. Não consegui decifrar a tatuagem. Uma borboleta, talvez. Um fragmento da imagem mostra um microfone, sugerindo que alguém canta, talvez a loura faça parte do show. Ela reaparece em outra foto, diante do grupo com guardanapos na cabeça, e mobiliza com sua presença toda a energia masculina.

Seria uma Joana d'Arc moderna? Estariam os homens com guardanapo na cabeça, alinhados piratas, saudando a heroína e prometendo guerra à pérfida Albion? Duvido. Nem o pós-modernismo seria capaz de criar uma Joana d'Arc tão animada nem os piratas de linho branco estariam preocupados com a sorte da França.

Há um momento, dizia o poeta, em que todos os bares se fecham e todas as virtudes se negam. No caso deles, não se trata de uma conjunção fortuita em certo instante da madrugada. Primeiro, eles fecham os bares, depois, então, é que negam todas as virtudes.

"Let's win some money", diz Cavendish nessa mistura de inglês e português nascida do florescente turismo brasileiro no exterior. Ele disse a frase quando uma das festas estava no fim. O bar, no caso, o Salão Luís XV, do restaurante de Mônaco parecia fechado para eles. Se tivesse de escrever os gritos dos piratas de linho branco, colocaria só esta frase, tal como foi dita: Let's win some money. Eles saudariam a loura como se fosse um bezerro de ouro.

Let's win some money é o lema de um partido que se formou dentro e fora do governo, ao mesmo tempo que surgia uma nova classe C no País. As quatro mulheres exibindo belos sapatos com sola vermelha de Christian Louboutin não podiam só estar na rua diante de um fotógrafo. Elas são o coro ideal para o grito dos piratas. A cena ficaria assim: eles, avançando pelas mesas de um restaurante vazio, gritariam: "Let's win some money". E elas ergueriam os sapatos em passos de can-can.

Se quisermos falar a verdade na ficção, precisamos tomar certas liberdades. Por exemplo, a sola do sapato da mulher do secretário de Saúde devia ter só uma cruz vermelha sobre fundo branco. Isso daria um toque social à festa. "Estamos no melhor Alain Ducasse do mundo", segundo Cabral. "Melhor que os EUA, melhor que o..." A voz dele vai sumindo. Não sabemos qual é o terceiro. Só sabemos que no melhor Alain Ducasse do mundo ele marca o casamento de Cavendish e espera a meia-noite para celebrar o aniversário de sua mulher, próspera advogado de concessionárias do governo.

"O casamento tem de ser no sábado. É festa", diz Cavendish. "Podemos ir para Mangaratiba ou Itaipava", sugere a mulher de Cabral. Nesse ponto é necessário um corte para quatro mansões de Mangaratiba, espaço paradisíaco que a primeira-dama visita com filhos e babá num helicóptero do governo. Ali três piratas de linho branco têm casas ao lado de Cabral: Cavendish, Sérgio Côrtes e George Sadala. O quarteto de Mangaratiba é apenas uma linha de roteiro: a história de cada um e como se entrelaçam os destinos no melhor Alain Ducasse do mundo.

"Abra essa boca", diz Cabral à mulher de Cavendish no momento em que selam a data do casamento. Cabral sabe que há modo de beijar não beijando, como os atores. Mas quer a realidade molhada de um beijo real. Para quê? Se imaginasse que a imagem cairia nas mãos de Garotinho, passaria mal e, com o perdão do melhor Alain Ducasse do mundo, os guardanapos teriam outro uso. A cena só seria possível quando recebesse a notícia, anos depois, no segundo Alain Ducasse, ou no terceiro, quem sabe. Garotinho divulgou as imagens num fim de semana.

Não se despreze a contribuição dos coadjuvantes. Quando Cavendish propõe "let's win some money", uma voz feminina, quase imperceptível, responde: "Só se for muito, porque dá trabalho". É uma boa frase. Se considera que dá muito trabalho ganhar dinheiro em cassino, o que pensará de quem trabalha oito horas por dia e sofre quatro horas se deslocando nas grandes cidades? A frase não tem a mesma força do "então, comam brioches" de Maria Antonieta. É mais ou menos assim: então, comprem um helicóptero.

Let's win some money não é um slogan qualquer. É um estado de espírito que anima estes anos no Brasil. No melhor Alain Ducasse do mundo jantavam alguns personagens do maior plano de infraestrutura do mundo, o PAC. Na boca de Cavendish, que aparece numa gravação dizendo que compra políticos de acordo com a necessidade de seus negócios, ele soa diferente. E se complementa assim: Let'win some money para comprar políticos que compram vinhos, fecham restaurantes e usam sapatos Louboutin.

O livro de Alain Riding Paris, a Festa Continuou é um relato minucioso de como a cultura francesa sobreviveu à invasão alemã e conviveu com os ocupantes. Um dos sonhos dos nazistas era tornar a cultura francesa irrelevante e, na definição dos Goebbels, dominada pelo kitsch. Para o quarteto de Mangaratiba, a luta continua. Em Mangaratiba embarcavam os resistentes, algemados no porão, rumo ao presídio da Ilha Grande. Nise da Silveira e Graciliano Ramos passaram por lá, em outras épocas. Como o Brasil mudou! Que tal defini-lo com a frase de um coadjuvante do jantar, referindo-se ao restaurante: "Pô, isso é um upgrading"?

Esses fantasmas tropicais não surgiram por acaso no Salão Luís XV. Eles falam uma nova língua, encarnam um novo tempo.

É COMIGO? - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 11/05/12


Adriana Esteves, a Carminha de 'Avenida Brasil', diz à revista 'Joyce Pascowitch' que não lê nada sobre o sucesso da vilã: 'Não quero me influenciar'

PISO MÍNIMO

A ANS (Agência Nacional de Saúde) deve anunciar até o fim do mês o reajuste para os planos de saúde individuais. Como ocorre todos os anos, o índice deve ficar acima da inflação registrada nos último 12 meses, que chegou a 5,1% em abril.

CONTA

O reajuste tem que ser antes aprovado pelo Ministério da Fazenda.

Os técnicos da pasta já analisam os números.

ALERTA GERAL

Os réus do mensalão já começaram a ser avisados por seus advogados que, em caso de condenação, é grande a probabilidade de serem presos logo depois do julgamento. Pelo menos três deles estão nessa condição: José Dirceu, Delúbio Soares e o publicitário Marcos Valério.

ÚLTIMO RECURSO

A probabilidade é maior no caso deles porque, se condenados, dificilmente as penas pelos crimes a que respondem (formação de quadrilha, corrupção ativa) ficariam abaixo dos quatro anos, hipótese em que é possível a conversão para punições alternativas. E, depois de uma condenação no STF, não há outra corte à qual recorrer.

DIA A DIA

Caso se confirme o calendário que o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, pretende adotar para o julgamento no STF, eventuais prisões ocorreriam em plena campanha eleitoral.

GRANDE CONFUSÃO

Um ministro do STF diz que, em caso de condenação, a definição das penas deve causar turbulentas discussões entre os magistrados. É que a definição do tamanho das penas "não tem delimitação matemática rigorosa", obedecendo a critérios "objetivos, mas também subjetivos de cada um dos juízes do caso".

NO LUGAR

A pesquisa Ibope que mostrou os pré-candidatos estacionados em relação a sondagem anterior, do Datafolha, foi um balde de água fria entre partidários de Gabriel Chalita (PMDB-SP). É que ele teve grande exposição de TV no período e imaginava-se que daria um salto.

AUTOBIOGRAFIA

O músico Caetano Veloso começou a gravar anteontem depoimentos em vídeo sobre sua vida e obra. O resultado vai para um site comemorativo de seus 70 anos, em agosto, idealizado pela gravadora Universal. A estreia ainda não tem data.

As gravações estão sendo feitas no Rio de Janeiro, na casa de sua ex-mulher e empresária, Paula Lavigne.

DINHEIRO NA MÃO

O Ministério da Saúde vai lançar hoje uma portaria para aumentar os incentivos aos hospitais privados que atendam apenas pelo sistema público, como as Santas Casas. Eles passarão a ter um aporte financeiro fixo caso reservem 100% de seus leitos para o SUS -o valor não está definido. Atualmente, as instituições podem ter renúncia fiscal e ressarcimentos dos atendimentos feitos, mas ainda não contam com repasses diretos de dinheiro.

PAVILHÃO DAS ARTES

O artista Tunga, o empresário Abilo Diniz com a mulher, Geyze, e o galerista Andrew Klug, entre outros convidados, foram anteontem ao pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, para a abertura da feira SP-Arte 2012, dirigida por Fernanda Feitosa.

CURTO-CIRCUITO

Lua Reis abre hoje a festa Saborosa, às 23h30, no Centro Cultural Rio Verde, na Vila Madalena. 18 anos.

Domingos Meirelles fala sobre o livro "1930: Os Órfãos da Revolução" hoje, em Foz do Iguaçu.

O espetáculo "Slavianski Bazaar" estreia hoje no Espaço dos Satyros Um, às 23h59. 14 anos.

O Prêmio Contigo! de Televisão será entregue na segunda, no Copacabana Palace, no Rio.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

A delação, o prêmio e a notícia - MARIA CRISTINA FERNANDES


Valor Econômico - 11/05/12



Jornalismo fiteiro, na definição que lhe deu Alberto Dines, é aquele que faz uso de grampos para propagar denúncias.

As fitas se transformaram em arquivos digitais em torno dos quais prospera um verdejante mercado de arapongas que compete com os especialistas em vazamentos editados da polícia federal.

As denúncias que vieram à tona vitimaram governos de diversas colorações partidárias.

A ética do jornalista é a mesma do bom gandula

Os grampos do BNDES jogaram uma cortina de fumaça sobre as privatizações do governo tucano, os vídeos com maços de dinheiro no Distrito Federal derrubaram o mais importante governo que o DEM já elegera e o flagrante de Waldomiro Diniz negociando propina detonou o cargo de seu chefe José Dirceu e abriu a caixa de pandora do mensalão petista.

Os grampos dão mais credibilidade às denúncias mas, na maioria das vezes, as reportagens deles resultantes deixam de fuçar os interesses de quem fornece as gravações.

O que vem à tona com a investigação dos malfeitos de Carlos Cachoeira nada mais é do que a rede clandestina de poder que o contraventor goiano, deixado à sombra desde que detonou Waldomiro Diniz, foi capaz de expandir com o apoio de empreiteiras, policiais, juízes, parlamentares, governadores e prepostos bem posicionados na máquina federal.

Passaram-se sete anos desde que Cachoeira ganhou notoriedade. Ao longo desse tempo a imprensa - com exceções como o jornal "O Popular" de Goiânia - pouco se ocupou dos negócios do "empresário" no poder.

No relatório em que pede a cassação do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), o senador Humberto Costa (PT-PE), desfia um conjunto de pautas desprezadas ao longo desse tempo.

Ao levantar os discursos, a conduta na presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e os requerimentos de informação ao governo feitos pelo senador goiano ao longo de seus dois mandatos no Senado, Humberto Costa mostrou todas as digitais de seu colega de Casa na defesa do jogo do bicho e dos negócios escusos patrocinados por Cachoeira à sombra do poder.

Isso não diminui o jornalismo tupiniquim. Acontece com os melhores do mundo.

Ao longo das últimas décadas o Watergate foi reverenciado como o marco de um jornalismo que, sabendo extrair informações de uma fonte secreta cultuada como um herói no seu patriotismo anônimo, foi capaz de derrubar um presidente.

No livro lançado nos Estados Unidos este ano "Leak: Why Mark Felt Became Deep Throat" ("Vazamento: Por que Mark Felt virou Garganta Profunda"), o jornalista Max Hollande revela que a fonte dos jornalistas, um ex-agente do FBI, tinha como principal interesse, na verdade, tomar o lugar do número 1 da instituição.

Passaram-se 40 anos até que alguém tenha se interessado em ir atrás das verdadeiras motivações do "Garganta Profunda", como Mark Felt era nominado pelos jornalistas a quem municiou.

O jornalismo tupiniquim até que foi mais rápido. Talvez por que as ambições da dupla Cachoeira-Demóstenes ultrapassem muito as de Felt.

Mas assim como as motivações do Garganta Profunda não são suficientes para reabilitar Nixon, os interesses que moveram Cachoeira sete anos atrás não invalidam a importância de se levar a cabo, com a severidade que o momento exige, o julgamento do mensalão.

Lá e cá, é de omissão, portanto, que se trata. Jornalista pode, sim, ter bandido como fonte. Até a justiça inventou um jeito para isso com a criação da delação premiada. O jornalista aceita informação de bandido na expectativa de pegar um outro maior. A questão é até onde se pode omitir os malfeitos da fonte. Tudo poderia ser resumido a uma questão de custo e benefício não fosse o interesse público.

O jornalismo melhoraria se se dispusesse a debater essa omissão. Se a militância é pelo interesse público, não há alternativa à transparência. O que o jornalista sabe e pode sustentar deve ser publicado. Não deve ser objeto de depoimento em CPI ou Conselho de Ética nem contra nem a favor de fonte.

A tentativa de alguns parlamentares petistas em tratar omissão jornalística como crime revela uma sede de vingança fora de tempo e de lugar, imprópria na forma e no conteúdo.

Foi-se o tempo em que a grande imprensa podia ser considerada a culpada de todos os males. A informação nunca circulou tão livremente. A CPI do Cachoeira é resultado desta liberdade. Qualquer um é livre para exorcizar na internet suas pendengas com antigos patrões, mas não deve reivindicar-lhes legitimidade para o debate público.

O PT é um partido vitorioso. É o único da história a se eleger pelo voto universal direto para três mandatos consecutivos na Presidência da República. Teve oportunidade de fazer sua depuração interna depois do mensalão e não foi adiante. Tivesse ido, seria capaz de aguardar com mais serenidade o julgamento de alguns dos seus pelo Supremo.

A agressividade petista também pode revelar um mal-estar com o norte deste governo. A popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff deriva, em parte, de sua atitude frente às denúncias trazidas pela imprensa que hoje seu partido critica.

Como a livre informação nunca é sócia de poder algum, ainda está para ser contada a história de como o caso Cachoeira mobilizou tantos poderosos da era petista - desde o principal estrategista de defesa no mensalão que hoje atua como advogado de Carlos Cachoeira, até o ex-presidente do Banco Central que assumiu a negociação da compra da Delta por um dos grupos mais beneficiados pelo BNDES.

Não cai mais ministro depois que prenderam Cachoeira. Enquanto estava fora das grades, ganhou manchetes. Agora chegou, de fato, a hora da delação premiada. A questão agora é descobrir quem, além de Cachoeira, ganhará com isso. E que à imprensa, recomenda um jornalista com quase 60 anos de militância, reste a ética do bom gandula: não ajeitar a bola só para o jogador do time de sua preferência cobrar.

Novos elementos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 11/05/12

O sistema de metas de inflação mudou, na visão do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Ele acha que a crise fortaleceu o sistema de metas, tanto que este ano os Estados Unidos e o Japão adotaram o modelo explicitamente. Ao mesmo tempo, mudou a interpretação de como ele deve funcionar. "A estabilidade de preços é condição necessária mas não é condição suficiente", diz o presidente do BC.

Tombini falou isso no seminário de ontem do Sistema de Metas de Inflação, um encontro que acontece anualmente no Rio e que reúne a diretoria do BC e economistas de bancos, empresas e consultorias. Na visão dele, é preciso que o Banco Central também garanta a estabilidade financeira. A crise nos países desenvolvidos explodiu depois de longo tempo de inflação baixa, crescimento econômico pouco volátil e juros baixos. Segundo Tombini, isso pode ter levado os agentes econômicos a assumir riscos excessivos.

Essa reflexão ele fez num momento em que há muita dúvida sobre se o Banco Central atual tem autonomia para elevar os juros se necessário for. Uma coisa, certamente, não mudou: a inflação continua desafiadora. Quem duvida deve olhar o gráfico abaixo: ele mostra que produtos afetados pelo dólar, os bens duráveis, ajudaram a puxar o índice para baixo. Estão em deflação de 2,65%. Os serviços, que são preços que não sofrem concorrência externa nem são afetados pelo dólar, estão em alta de 8%.

O governo se esforçou para que o dólar subisse - com imposto à entrada de capital e restrição às importações - e a moeda americana teve alta de 7% nos últimos 30 dias. Isso significa que os produtos impactados pelo moeda americana podem ficar mais caros agora.

A alta do dólar e um possível reajuste no preço da gasolina tornam mais difícil para o presidente do BC cumprir o que promete desde o início de seu mandato, que é levar a inflação para o centro da meta no fim de 2012. A inflação no Brasil está em torno de 5%, com perigo de aumentar mais no segundo semestre. A meta é 4,5%. Nos Estados Unidos, a meta é 2%. No Japão, 1%. Na Europa, 2%.

Aqui, no ano passado, o Banco Central comemorou quando ela fechou em 6,5%. Faltam vários umbrais a cruzar no caminho da estabilização no Brasil. A meta tem que ser mais baixa e o BC não pode confundir teto com centro. Se o país quiser mesmo ter juros de primeiro mundo precisa também querer ter inflação de primeiro mundo.

Alguns analistas acreditam que será interrompida a sequência de quedas que levou o IPCA em 12 meses, de 7,3%, em setembro do ano passado, para 5,1%, em abril. Se o IPCA de maio vier acima de 0,47%, o índice em 12 meses voltará a subir.

- A inflação não deve cair abaixo de 5% ao longo deste ano e por dois motivos: a valorização do dólar, que encarece os produtos comercializáveis, e também por questões de safras agrícolas - disse o economista Roberto Padovani, da Votorantim Corretora. O que mais impressiona é isso acontecer apesar de o nível de atividade estar fraco. O PIB do primeiro trimestre deste ano, que só será divulgado no início de junho, não será muito melhor que os dois anteriores. O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, prevê PIB de 2,8% este ano com inflação de 5%.

- A indústria está fraca há quatro trimestres, e isso vai manter o PIB baixo. Mesmo com a queda dos juros não houve recuperação porque não estamos com problema de demanda, mas sim com um problema de competitividade e produtividade da indústria - disse José Márcio Camargo.

Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, acha que a economia cresce pouco pelo impacto da inadimplência, por estoques elevados da indústria e pelas restrições da Argentina aos produtos brasileiros, que afetaram empresas exportadoras no país.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, deixou claro o que todo mundo já tinha notado: mudou a forma de o BC se comunicar. Ele será mais direto ao falar com o mercado. Quanto mais transparência, melhor. O que preocupa é a sensação de que o BC procura novas interpretações para esconder o fato de que é mais leniente com a inflação.

- O Dionísio Dias Carneiro tinha uma frase que dizia: o BC deve ser o primeiro dos pessimistas e o último dos otimistas. Nosso Banco Central atual é o contrário disso. Ele gosta de tomar mais risco. Isso significa aumentar o risco da economia como um todo - disse a economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria.

Vale-tudo na CPI - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 11/05/12


Investigação corre perigo de descarrilar ao desviar foco de Cachoeira e Demóstenes Torres para jornalistas e o procurador Roberto Gurgel


Começou mal a CPI mista para investigar o caso Cachoeira, com a já conhecida aposta na confusão por parte dos setores mais aloprados do Congresso.

O que mais se deveria esperar de uma comissão em que personagens da estatura de um Fernando Collor de Mello e de um Protógenes Queiroz se aliam na tentativa de cercear a imprensa? Doses crescentes de desatino, por certo.

A CPI foi criada para investigar, com os amplos poderes que lhe dá o artigo 58 da Constituição, a comprometedora teia de relações do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de explorar jogos ilegais, com figuras públicas. Por exemplo, com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF) -além de uma das maiores empreiteiras do país, a Delta, campeã em obras do PAC.

Foi o pretexto para a ala do PT mais afetada pelo processo do mensalão tentar fazer da CPI um antídoto para o julgamento por iniciar-se no Supremo Tribunal Federal. Em seu afã vindicativo, abriu até uma frente de conflito institucional com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

O chefe do Ministério Público Federal ganhou a hostilidade do lulo-petismo por ter pedido a condenação de mensaleiros. De forma maliciosa, com o indisfarçável propósito de intimidá-lo, essa facção o acusa agora de ter protegido Demóstenes ao apontar a insuficiência dos elementos colhidos pela primeira operação da Polícia Federal (Vegas) contra Cachoeira.

O presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), parece inclinado a seguir em frente com a ideia extravagante de chamar Gurgel a se explicar perante a comissão. O procurador-geral já deu sinais de que se recusará, em manifestação de independência. É no mínimo duvidoso que o Supremo reconheça entre os poderes da CPI o de forçá-lo a comparecer.

Tampouco surgiu até agora qualquer indício de má conduta que justifique a intimação de jornalistas da revista "Veja" para depor, como almejam setores do PT -que, aliás, não contam com o apoio do Planalto para essa revanche pelos sucessivos escândalos revelados.

Igualmente descabido é o sigilo extremo adotado pelo presidente da CPI e seu relator, deputado Odair Cunha (PT-MG). Não só já se mostrou ineficaz, pois não cessam de vazar os depoimentos supostamente secretos, como ainda contraria o escopo de toda CPI, que é expor ao público fatos e condutas de agentes oficiais sob suspeita.

É comum ouvir que CPIs têm tendência a degenerar em circo. As sessões iniciais sugerem que os piores prognósticos caminham para confirmar-se, e bem cedo.

Energia nuclear, boa alternativa - ANTÔNIO MULLER


O GLOBO - 11/05/12
Cada vez mais, o Brasil necessita de energia elétrica, tanto por conta do crescimento da população quanto pelos investimentos previstos para todo o país nos próximos anos, como grandes obras de infraestrutura, instalação de fábricas e aumento da produção interna. Programas como "Luz para Todos" têm levado energia elétrica a milhões de pessoas que, até hoje, não tinham acesso a esse bem. Como resultado, o consumo interno de energia irá triplicar em 20 anos, chegando a 941.2 TWh, segundo a Empresa de Pesquisa Energética .

Qualquer país que pretende crescer nas próximas décadas precisará fazê-lo de forma sustentável. No cenário atual, é cada vez mais inaceitável um desenvolvimento predatório, que não respeite o meio ambiente. Por isso, as fontes de energia que o Brasil irá escolher para o futuro serão determinantes para podermos contribuir para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, e, consequentemente, do aquecimento global.

O mais alarmante, porém, é que as emissões mundiais de dióxido de carbono (CO?), principal gás do efeito estufa, poderão aumentar 39% até 2030, se não houver políticas nacionais ou um acordo internacional para limitá-las, segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão do governo americano que elabora as estatísticas oficiais sobre energia.

Diante disso, que opções o país terá? As hidrelétricas são hoje a alternativa menos poluente, mas, até 2030, os aproveitamentos hidrelétricos econômicos no Brasil já estarão esgotados. Hoje, nossas reservas hídricas estão basicamente no Norte, mais precisamente na Amazônia, porém, cada vez há mais dificuldades nessa região para a construção de grandes barragens, devidos aos impactos ambientais.

As fontes eólica e solar também são ecologicamente corretas e eficientes para atender a um consumo de menor escala, como residencial e comercial. No entanto, não serão capazes de suprir o grande crescimento da demanda por energia no Brasil. Além disso, ambas são fontes complementares e as fontes térmicas movidas a carvão e a óleo são poluidoras. Considerando esse cenário, uma boa alternativa para o país será a energia nuclear, que, além de apresentar baixíssimas emissões de CO?, é fonte de geração de energia firme e eficiente, que poderá, junto com outras opções, como a hidrelétrica e a eólica, suprir a alta demanda por energia de que o país irá precisar.

Um estudo de 2010 realizado pela Ecen Consultoria, comparando a emissão de gases de efeito estufa na geração nuclear de eletricidade no Brasil com as de outras fontes, concluiu que esta opção será fundamental para manter, no futuro, um perfil de geração de eletricidade com baixa emissão de CO?. Numa análise das emissões diretas e indiretas na geração de eletricidade, a nuclear emite, em todo o processo, 27 gCO2eq/kWh, sendo uma das fontes menos poluentes.

Uma projeção baseada no Plano Nacional de energia 2030, elaborado pela EPE e feita pela consultoria, concluiu que, entre 2005 e 2030, seriam evitados 437 milhões de toneladas de CO?num cenário que contempla a existência das usinas de Angra 1, 2 e 3 no país. Isso significa que o Brasil emitiria 20% a mais de gases de efeito estufa se não houvesse a geração nuclear.

Para atender à demanda por energia no país e manter práticas sustentáveis, é importante que o Brasil priorize fontes limpas e, ao mesmo tempo, eficientes para dar conta de todo o crescimento almejado hoje pela nação. Devemos optar por uma matriz energética diversificada e firme, sob pena de seguirmos o rumo adotado por outros países emergentes, como China e Índia, que aumentam cada vez a participação de opções poluidoras para suprir o consumo interno por energia em seus países. Neste contexto, eventos como a Rio+20 serão fundamentais para o Brasil discutir as melhores opções .

Falta sintonia na Rio+20 - VINOD THOMAS e MANISH BAPNA


O GLOBO - 11/05/12
Às vésperas da abertura da Conferência das Nações Unidas em junho no Rio, nota-se um desalinhamento entre a ciência climática e a política econômica. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas estreita ainda mais o vínculo dos eventos extremos como as precipitações atmosféricas e as altas temperaturas com as crescentes emissões de carbono. Mas as políticas econômicas persistem em orientar os países para o caminho das elevadas emissões.

Uma oportuna mudança de direção implicaria a modificação de três fatores.

Primeiro, devemos admitir que os impactos climáticos constituem uma preocupação imediata. As inundações e os desabamentos de encostas no Brasil e na Colômbia, as enchentes no Paquistão e na Tailândia, e as secas na China e nos Estados Unidos mostraram a devastação.

Na Austrália, os mapas de inundação, que modelam o impacto do nível do mar nas áreas baixas, contribuíram para aumentar a conscientização das pessoas. As pesquisas de opinião mostraram que os brasileiros estavam preocupados: mais de 85% afirmaram que a mudança climática era um problema "muito grave".

Segundo, os políticos devem se conscientizar de que frequentemente a redução das emissões faz parte do interesse econômico de um país. Os benefícios locais abrangem ganhos de eficiência em construções e fábricas e aumento do emprego decorrente do crescimento de energia solar e eólica.

Nos Estados Unidos, o país com a maior emissão por pessoa, prédios mais inteligentes proporcionariam economias anuais de US$ 20 bilhões. O montante global dos subsídios para combustíveis fósseis superou US$ 400 bilhões em 2010, comprometendo o apoio muito mais modesto concedido à energia limpa no mundo.

Terceiro, os economistas precisam perceber que as ações para proteger o clima constituem um meio de sustentar o crescimento econômico. Tomar medidas para evitar a elevação do nível do mar que ameaça as áreas costeiras e proteger as áreas urbanas de enchentes é essencial para a contenção dos custos climáticos.

As enchentes na Tailândia em 2011 custaram à sua economia mais de US$ 40 bilhões. No Brasil, as tempestades foram muito prejudiciais, causando mais de 900 óbitos nos estados Rio de Janeiro e São Paulo, em janeiro de 2011.

Com o maior volume de emissões, a China planeja gerar energia renovável para atender a 15% do consumo em 2020. O Brasil poderia fazer uma diferença decisiva se protegesse as árvores em pé, o que ajudaria a absorver as emissões de carbono e gerar receitas para o país.

Entretanto, para atingir a escala necessária, necessitamos mudar o modo de pensar. Os líderes políticos, economistas, empresários e as organizações não governamentais que chegarão no Rio precisam estar preparados para estabelecer compromissos com as opções de baixa emissão.



VINOD THOMAS é diretor-geral de Avaliação Independente no Banco de Desenvolvimento Asiático.


MANISH BAPNA é presidente interino do World Resources Institute

Dilma, o BNDES e o caso Delta - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 11/05/12


O governo agirá muito bem se evitar qualquer participação, ao lado do Grupo J & F ou de qualquer outro, na compra da Delta Construções, acusada de irregularidades em contratos com o setor público. O risco existe, embora a presidente Dilma Rousseff, segundo fonte do Palácio do Planalto, seja contrária ao envolvimento do governo na operação. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) detém 31,4% do capital do frigorífico JBS, controlado pela holding J & F. Ontem, a diretoria do banco divulgou nota para negar participação no negócio com a Delta, mas sua explicação de nenhum modo é convincente. Ao contrário, é mais um motivo de preocupação.

"A iniciativa do negócio", segundo a nota, "partiu exclusivamente da holding da família controladora e é uma decisão privada de natureza empresarial, que não depende da anuência do BNDES e sobre a qual a instituição não foi consultada." O banco "é acionista apenas da JBS, empresa do setor de proteína animal", e não se tornará, portanto, sócio da construtora.

Essas alegações perdem toda força quando se examina a carteira do Grupo J & F. O JBS fechou o exercício de 2010 com ativos de R$ 44,7 bilhões e receita líquida de R$ 55,1 bilhões e é, de longe, a maior empresa do grupo e o seu pilar mais importante. Todas as demais empresas controladas pelo J & F, somadas, são muito menores que o frigorífico.

O BNDES é, portanto, um componente importante do Grupo J & F, mesmo sendo acionista apenas de uma de suas empresas controladas. O poder financeiro da holding depende substancialmente do JBS e isso faz enorme diferença quando se trata de avaliar a participação do governo na compra da Delta Construções.

A nota do BNDES é, portanto, preocupante por dois motivos. O primeiro é a participação de um banco público no principal pilar do pretendente a comprador de uma empresa acusada de irregularidades. O segundo é uma hipótese quase cômica. Se o negócio for consumado, esse banco nem sequer terá influência sobre a empresa comprada, por não ser sócio da holding compradora. Se a compra ocorrer, o banco será envolvido, portanto, num negócio duplamente ruim.

Se a Delta for classificada como inidônea, o governo federal terá fornecido recursos públicos para a compra de uma empresa proibida de celebrar contratos com a União, os Estados e os municípios. Será motivo não só para mais uma CPI, mas também para a adição de três itens quase incríveis ao livro Guinness de recordes. No caso, recordes de trapalhadas, de incompetência e de má gestão de recursos públicos.

Esse imbroglio resulta da combinação de duas séries de erros políticos e administrativos. Do lado do BNDES, há um problema de estratégia. Nada justifica a sua permanência como acionista de uma empresa como o frigorífico JBS, nem sua notória preferência por grandes grupos estatais e privados. O BNDES deveria concentrar-se no apoio à consolidação de empreendimentos, à inovação de processos e produtos, à modernização e à eliminação de gargalos. Mas tomou um caminho diferente e chegou à beira de encrencas muito sérias - quando estudou, por exemplo, o apoio à compra de uma rede estrangeira de supermercados por um grupo nacional.

A segunda série de erros está ligada à péssima gestão dos financiamentos do setor público. A Delta Construções tornou-se a principal empreiteira de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), entregue no governo anterior à responsabilidade da ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Numerosas irregularidades foram identificadas pela Controladoria-Geral da União entre 2007 e 2010, mas a empresa continuou obtendo contratos com o governo federal no ano passado, quando a "Mãe do PAC" já havia assumido a Presidência da República. Ou ela não sabia dos problemas - e como poderia não saber? - ou preferiu menosprezá-los, como se fossem irrelevantes. Falta explicar essa longa história de irregularidades e, mais que isso, de negligência em relação às denúncias. Não se deveria fazer do caso Delta um penduricalho da CPI do caso Cachoeira. Os escândalos da Delta valem por si mesmos uma investigação muito séria.

Ao sabor do voluntarismo - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK


O GLOBO - 11/05/12


A política macroeconômica voltou a ser pautada pelo voluntarismo. O governo parece convencido de que basta a força de sua vontade para que as mazelas da economia sejam rapidamente corrigidas, uma a uma. O câmbio pode ser tão depreciado quanto se queira, as taxas de juros, reduzidas à vontade e o crescimento do PIB, acelerado ao sabor das conveniências políticas. Já era tempo de o país ter aprendido que as coisas não são tão simples. E que experiências voluntaristas desse tipo não passam de surtos coletivos de autoilusão, fadados a enfrentar uma conta salgada no final, quando a inexorável coerência entre as variáveis macroeconômicas se restabelece de forma socialmente perversa. Mas a verdade é que, entre nós, tal aprendizado se tem mostrado bem mais difícil do que se esperava.

O quadro de dificuldades que vêm marcando a economia brasileira é bem conhecido: um regime fiscal que requer elevação sem fim da carga tributária, taxa básica de juros excepcionalmente alta, spreads gigantescos nas operações de crédito, taxa de câmbio com tendência à apreciação, poupança interna baixa, investimento público atrofiado, perda de competitividade da indústria, crescimento econômico medíocre e inflação bem acima da meta.

Inconformado com a perspectiva de mais um ano de crescimento do PIB abaixo de 3%, com desempenho pífio da indústria de transformação, o governo decidiu sair em campo para acertar as coisas a seu modo. Já há algum tempo, o regime de câmbio flutuante havia sido convertido num arranjo de câmbio fixo, no qual o governo tentava impedir que a taxa caísse abaixo de R$ 1,60. Nos últimos meses, contudo, o governo tem recorrido a todo tipo de intervenção para, a qualquer custo, manter o câmbio acima de R$ 1,90.

Do lado das taxas de juros, o Planalto parece convicto de que agora tem condições de dar solução definitiva ao problema. Não só prolongou - já não se sabe até quando - o vigoroso movimento de redução da Selic que teve início em agosto, como desencadeou cruzada nacional pela redução de spreads bancários, com palavras de ordem em discurso de 1 de maio, determinações férreas a bancos públicos e admoestações a bancos privados.

A preocupação com a agenda de redução de taxa de juros e dos spreads bancários é mais do que louvável. O que é lamentável é a ideia de que os desafios envolvidos nessa agenda complexa possam ser enfrentados no grito, a golpes de voluntarismo.

Salta aos olhos que a rápida depreciação do câmbio e a redução imprudente da taxa básica de juros, com efeitos amplificados pela substancial diminuição concomitante de spreads cobrados por bancos públicos - compelidos a expandir crédito e municiados de novas transferências diretas de recursos do Tesouro -, configuram ambiente propício a agravamento do quadro inflacionário em 2013.

Quando isso acontecer, o que fará o governo? O que vem sendo mencionado em Brasília é que, mesmo que os estímulos à demanda se mostrem excessivos, a taxa básica de juros não voltará a ser elevada. Se necessário, o governo recorrerá a medidas macroprudenciais. A menos, claro, que simplesmente assuma de vez sua já indisfarçável disposição de tolerar, num prazo mais longo, uma taxa de inflação bem mais alta que a meta atual.

O curioso é que, enquanto sobra voluntarismo na condução da política macroeconômica, falta determinação na gestão de outras áreas cruciais. O PAC continua entravado. Na esteira da sucessão de escândalos do ano passado, boa parte das cadeias de comando que acionam o investimento público teve de ser desmantelada. E, justo agora, quando, a duras penas, estava tentando remontá-las, o governo se viu às voltas com novas dificuldades, decorrentes da instalação da CPI do caso Cachoeira-Delta. Como a Delta é a maior empreiteira do PAC e tem obras em nada menos que 25 estados, foi preciso montar às pressas uma deprimente operação de contenção de danos. Que, tudo indica, não será capaz de impedir que, mais uma vez, os programas de investimento sejam seriamente afetados.

Sinais de desarrumação - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 11/05/12


Há algumas semanas a economia brasileira vem passando certos sinais de desarrumação.

Não dá mais, por exemplo, para continuar afirmando que a inflação não é problema. O avanço do IPCA de abril, de nada menos que 0,64% (foi de 0,21% em março), e, mais do que isso, o nível de difusão dessa alta (63%) mostram que ela não pode ser atribuída apenas à estocada dos preços dos cigarros - como sugeriu ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A primeira prévia do IGP-M de maio também apontou uma guinada forte dos preços no atacado (de 1,15%). E, como o atacado de hoje tende a ser o varejo de amanhã, em consequência desse fator alguma inflação adicional está encomendada.

A força das remarcações no atacado, por sua vez, reflete em alguma medida a escalada das cotações do dólar no câmbio interno, de 6,5% nas últimas cinco semanas, induzidas por ação do Banco Central.

A ânsia por puxar pela desvalorização do real parece ter impedido o governo Dilma de entender que, nos dois últimos anos, a indústria ficou muito mais dependente das importações. Para enfrentar custos crescentes dos fatores de produção, sobretudo da mão de obra, o setor industrial recorreu mais pesadamente às importações de matérias-primas, insumos, peças e conjuntos. A alta do dólar no câmbio interno criou um custo adicional de produção que está sendo repassado quase automaticamente para os preços finais.

Essa nova alta de preços vai sendo desenhada num ambiente em que o consumo cresce entre 5% e 6% ao ano sem contrapartida da atividade econômica, que vai ficando para trás.

Por falar nisso, a presidente Dilma enfrenta agora a perspectiva de não poder entregar, pelo segundo ano consecutivo, o crescimento econômico anual prometido, desta vez entre 4,0% e 4,5%. O discurso oficial ainda conta com essas projeções. Mas o mercado, consultado semanalmente pelo Banco Central por meio de sua Pesquisa Focus (que atinge cerca de 100 instituições), já trabalha com crescimento do PIB para 2012 de só 3,2%. Mas um punhado de analistas passou a projetar números inferiores a 3,0%. O mau desempenho da indústria, reafirmado por um punhado de estatísticas de origens diversas, parece confirmar essa percepção.

Em outras palavras, o comportamento insatisfatório do setor produtivo vai mostrando os limites da atual política econômica voluntarista da presidente Dilma, construída com sucessão de puxadinhos e expedientes improvisados. Parece mais difícil agora esticar a alta do dólar e derrubar os juros para elevar a competitividade da indústria.

Essa desarrumação foi ontem enfaticamente desmentida pelo ministro Guido Mantega. Mas está cada vez mais difícil confiar nas declarações dele, ultimamente contrariadas pelos fatos. O último objeto dos reiterados desmentidos do ministro foram as mudanças nas cadernetas. Mantega argumentava que não havia o que alterar nas regras das cadernetas, porque não detectara migração significativa de aplicações dos fundos de renda fixa para elas. Agora, insiste em que a alta do dólar no câmbio interno não provoca inflação relevante. Tomara que o ministro esteja certo e que, no final deste ano, possa comemorar um crescimento do PIB de ao menos 4,5%.

A poupança e o dragão - ROBERTO FREIRE


BRASIL ECONÔMICO - 11/05/12


Enquanto o governo tenta baixar a taxa Selic por decreto, o dragão da inflação mais uma vez ameaça a estabilidade econômica 


Há muito o governo do PT tinha manifestado o desejo de mudar a forma de rendimentos da poupança. A primeira tentativa, no governo Lula, teve como preocupação básica os ganhos dos fundos de investimentos do sistema financeiro, ameaçados pela possibilidade de deslocamento de parcela considerável de integrantes desses referidos fundos para a poupança, em função da comparação dos rendimentos de ambos. Agora Dilma retoma o projeto.

A poupança sempre foi um instrumento do pequeno poupador assalariado, para preservação do valor de seu dinheiro, de alguém que não está especulando, mas que se resguarda para momentos de necessidade. É também usada para financiar a habitação e que, por essa limitação, não interessa muito ao setor financeiro. A escolha do governo não foi imparcial. Mexer na poupança é mais fácil do que mexer na dívida interna brasileira, atrelada aos fundos e beneficiando os bancos com ganhos abusivos. O governo Dilma está "rendido" a esses interesses.

Antes de mexer na poupança, o governo deveria primeiro conter seu endividamento interno. Se é possível negociar usando os rendimentos da poupança, que estão na lei, por que não negociar a ampliação do perfil da dívida interna, trazendo para a economia uma capacidade de investimento maior? Ao mesmo tempo incentivar a poupança como grande investimento, modificando sua utilização e definindo percentuais para ser usada na rolagem da dívida além de outras.

O que sabemos é que os juros reais elevados pagos pelo governo, uma agradável benesse, subsiste em virtude dos gastos públicos e custeio da uma máquina excessivamente inchada e que não tem no horizonte perspectiva de diminuir. Essa política reduziu a capacidade de crescimento do país, como temos visto nos últimos anos.

Estamos em meio a uma das maiores crises financeiras que o sistema capitalista enfrentou desde 1929 que, por conta de sua disseminação global, tem atingido de maneiras diferentes todos os países. O governo tem vendido a ideia, desde seu início em 2008 - a "marolinha do Lula" -, de que o país está preparado para enfrentá-la. No entanto, o que temos percebido é que as possibilidades de uma saída dessa crise ficam cada vez mais distantes. Nossa capacidade de investimento na economia diminuiu, com reflexos gravíssimos sobre a indústria, e o endividamento das famílias aumentou dramaticamente, reduzindo sua capacidade de consumo.

Em um ambiente volátil e instável, os indicadores que medem a inflação têm mostrado crescimento e, no curto prazo, estão bem acima do centro da meta, tornando-se um efetivo óbice para a diminuição da taxa de juro de forma sustentável.

Enquanto o governo tenta de forma atabalhoada baixar a taxa Selic por decreto, o dragão da inflação abre o olho e mais uma vez ameaça os esforços de sucessivos governos, colocando em risco as conquistas da estabilidade econômica que tão duramente conseguimos nos últimos vinte anos - e quem paga a conta é o pequeno poupador. Precisamos que a presidente Dilma mostre mais competência e menos arroubo retórico.

Não existe almoço grátis - JOSÉ CARLOS GERARDO


VALOR ECONÔMICO - 11/05/12


O refinanciamento das dívidas dos Estados pela União - sob égide da Lei nº 9.496/97 - completará 15 anos em setembro e representa marco fundamental para reequilíbrio das finanças públicas. Nesse período, ocorreram diversas tentativas de alterar cláusulas contratuais com argumentos frágeis que, após análise acurada da área técnica do governo federal, foram prontamente descartadas. Deve ser ressaltado que o refinanciamento das dívidas subnacionais representou e ainda configura-se em um ônus para o Tesouro Nacional arcado por todos os brasileiros.

Para que a dimensão desse custo seja compreendida vale a pena resgatar as condições em que a renegociação das dívidas ocorreu. No período entre 1997 e 1999, quando os contratos foram assinados, a maioria dos Estados detinha débitos na forma de dívidas mobiliárias e contratuais, com taxas de juros e demais encargos insustentáveis. Para evitar o default, a União propôs resgatar as dívidas estaduais junto aos agentes privados, substituindo as condições draconianas vigentes por condições "civilizadas", ou seja, atualização monetária por IGP-DI acrescido de taxa de juros de 6% ou 7,5% ao ano.

Essa renegociação, efetuada voluntariamente pelos Estados, realizou-se em duas etapas: num primeiro momento assinou-se um protocolo entre os Estados e a União; a partir do qual o governo federal assumiu a responsabilidade pelas dívidas estaduais e os governos, em troca, comprometeram-se a pagar IGP-DI mais 6% ou 7,5% ao ano. Apenas após a assinatura do contrato, a União efetivamente emitiu títulos para refinanciar as dívidas assumidas. Entre o protocolo e o contrato, a União arcou com uma diferença que é conhecida no jargão técnico como subsídio inicial.

O refinanciamento das dívidas subnacionais configura-se em ônus para o Tesouro arcado por todos os brasileiros

A União não dispunha de recursos próprios para refinanciar e viabilizar a renegociação e emitiu R$ 101,22 bilhões em títulos. O valor da dívida refinanciada foi de R$ 90,01 bilhões, sendo a diferença de R$ 11,17 bilhões, em valores nominais, o subsídio inicial. Atualizado pela taxa Selic até dezembro, o valor é de R$ 92,47 bilhões.

Esse, no entanto, não foi o único subsídio concedido pela União aos Estados. Os R$ 90,01 bilhões, renegociados pela Lei nº 9.496/97, acrescido dos R$ 22,13 bilhões do Programa de Incentivo à Redução da Presença do Estado na Atividade Bancária (Proes), totalizando R$ 112,18 bilhões, foram financiados pela União, pela emissão de títulos públicos.

Sabe-se que a emissão de títulos é bastante diversificada e que, em geral, o custo médio desses papéis supera a própria taxa Selic. Contudo, para efeito de simplificação supondo-se que a União tenha se financiado emitindo Letras Financeiras do Tesouro (LFT) indexados à Selic, a União arcou com um "subsídio no fluxo" decorrente da diferença entre a taxa Selic e IGP-DI mais 6% ou 7,5% ao ano, de cerca R$ 157,2 bilhões, atualizado até dezembro (deve ser ressaltado que a Selic foi muito superior ao IGP-DI mais 6% ou 7,5% ao ano no fim dos anos 1990 até o início do ano 2000).

Assim, mesmo considerando que as estimativas, devido às simplificações e às hipóteses, sejam uma proxy e não coincidam exatamente com as projeções no qual todos os fatores sejam considerados, o método utilizado não distorce significativamente os valores do "subsídio no fluxo".

Até existem algumas unidades da federação - mais pobres diga-se de passagem - que possuem um subsídio "negativo" -, mas no conjunto, os Estados obtiveram um subsídio estimados em R$ 249,66 bilhões. Este subsídio está fortemente concentrado nos quatro Estados mais ricos, o equivalente a R$ 214,65 bilhões ou 86% do total. As propostas legislativas para reduzir o custo do endividamento dos Estados com a substituição do IGP-DI pelo IPCA e ou a redução dos juros, fixados em 6% ao ano, na maioria dos contratos terão impacto desigual. O Estado de São Paulo, por exemplo, obteve 65,8% dos subsídios concedidos pela União e representa 33,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Somados, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul respondem por cerca de 59,9% do PIB e obtiveram cerca de 86% do total dos subsídios.

Deve ser reiterado que no refinanciamento das dívidas dos Estados, a União se financiou emitindo dívidas. A soma do saldo devedor das dívidas com base na Lei nº 9.496/97, de R$ 369,3 bilhões, em dezembro de 2011, acrescido da estimativa do subsídio, de cerca de R$ 249,7 bilhões, totalizando R$ 619 bilhões, representa a parcela da dívida pública federal em mercado decorrente do referido refinanciamento. Como a dívida pública federal em mercado estava em R$ 1,866 trilhão, em dezembro de 2010, o total da dívida em mercado devido ao refinanciamento é de cerca de um terço (33,2%) do total.

A despeito do senso comum de que a troca dos indexadores das dívidas estaduais irá beneficiar a todos os Estados é importante frisar, inicialmente, que haverá uma elevada concentração de benefícios nas unidades mais ricas da federação, que se beneficiaram com a implantação de infraestrutura econômica decorrente das dívidas refinanciadas.

Por fim, deve-se ter presente que o pagamento da dívida decorrente do refinanciamento das dívidas estaduais irá impactar o resultado primário do governo central - ou exigindo um esforço maior por parte da União para não elevar o endividamento público, via elevação do superávit primário, ou da ampliação do patamar da dívida federal. Ou seja, intertemporalmente, a dívida federal será quitada ou pela ampliação da receita, via elevação da carga tributária ou pela redução das despesas, por meio da contenção dos gastos com bens públicos. Em ambos os casos a distribuição dos ônus deverá recair de forma desproporcional entre as unidades da federação.

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu estou me sentindo agredida”
Senadora Kátia Abreu (PSD-TO) , sobre a presença de advogados na CPI do Cachoeira

MINISTROS DO STF APOIAM GURGEL E O PT RECUA 

Diante da defesa pública de ministros do Supremo Tribunal Federal ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o PT recuou da decisão de tentar convocá-lo a depor na CPI mista do Cachoeira. O partido entendeu como “recado” o forte apoio ao procurador às vésperas do julgamento do mensalão. Os petistas acusam Gurgel de engavetar por dois anos as investigações da Operação Vegas, da PF. 

DEFESA DE QUALIDADE

Dos 11 ministros do STF, cinco defenderam Gurgel Carlos Aires Brito, Celso de Mello, Luiz Fux, Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. 

FERA FERIDA

O PT ficou ainda mais acuado após Roberto Gurgel declarar que está sofrendo retaliação daqueles que temem o julgamento do mensalão. 

POR ESCRITO

O relator da CPI mista de Cachoeira, Odair Cunha (PT), baixou o tom e já admitiu ontem que Gurgel poderá enviar esclarecimentos por escrito. 

LAS VEGAS É AQUI

Durante depoimento, ontem, na CPI de Cachoeira, o delegado Matheus Rodrigues brincou: Valparaíso (GO) é a “Las Vegas brasileira”. 

DESEMBARGADOR QUESTIONA OBRA DA DELTA NO TJ-RJ

O desembargador Siro Darlan revelou que o presidente do TJ do Rio, desembargador Manuel Alberto Rebêlo, negou-lhe informações sobre obras supostamente irregulares da Delta Construções naquela Corte. Segundo Darlan, Rebelo contestou sua legitimidade para fazer o pedido, afirmando que o Tribunal de Contas do Estado atestou a legalidade de contratos e licitações da empresa.

LEGITIMIDADE

Para o desembargador Siro Darlan, “qualquer cidadão tem legitimidade para pedir prestação de contas do uso do dinheiro público”. 

MÃO NA MASSA

O ex-prefeito do Rio Cesar Maia suspeita de que, assumindo a Delta, o grupo JBS-Friboi poderá tirar documentos, ajustar contas, etc etc. 

PT SILENCIOU

Segundo o líder do PSDB, Bruno Araújo (PE), diferentemente das outras reuniões, o PT sequer tocou no nome de Gurgel, ontem, na CPI.

NATAL GORDO

A PF estima que uma casa com 30 máquinas caça-níqueis do esquema de Cachoeira faturava, por mês, R$ 1,3 milhão. Em dezembro, o valor dobrava: R$ 3 milhões. O chefão Cachoeira embolsava 30% dos lucros. 

FRANCISCHINI PROCESSADO 

O governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), ajuizou ações contra o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), uma criminal, outra cível. Ele acusou o governador de encomendar à quadrilha de Cachoeira a invasão de seus e-mails. Queiroz o desafia a provar a acusação.

LUPA NO GABINETE

O Conselho de Ética do Senado solicitou, ontem, à Mesa Diretora relação de todos os funcionários comissionados lotados no gabinete do senador Demóstenes Torres (GO) durante seu mandato. 

FORA DA ORDEM

O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) solicitou à CPI mista de Cachoeira um perito da PF, especializado em informática, para organizar dados do inquérito da Operação Vegas. Está uma bagunça. 

ENTRE TAPAS

A turma do “deixa disso” teve trabalho nas audiências com delegados, na CPI mista de Carlinhos Cachoeira. Na primeira, quase se atracaram os deputados Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Paulo Teixeira (PT-SP). Ontem, foram Ônix Lorenzoni (DEM-RS) e Humberto Costa (PT-PE).

ALHOS MISTURADOS A BUGALHOS

O delegado da PF listou citados em conversas grampeadas. Esqueceu o ministro Alexandre Padilha (Saúde), mas incluiu Dilma, políticos sem ligação ao escândalo e até jornalistas. Houve conversas entre dois presidiários maquinando publicar esta coluna, à revelia do titular, em site do qual eram sócios. Algo que jamais foi proposto, nem realizado.

FRATERNIDADE PETISTA

Brasileira, filiada ao PT, a primeira-dama de El Salvador, Vanda Pignato, vai receber mais um cheque de US$ 293,5 mil do Brasil para programas da Secretaria de Inclusão Social, que ela dirige. 

DESOLÉ

O novo presidente da França, François Hollande, aceitou o convite de Dilma para a Rio+20, mas talvez não venha após vários delegados franceses desistirem, diante de diárias de hotel 4 estrelas a US$ 300. 

PERGUNTA AO MAÎTRE

Será que a turma de Sérgio Cabral pelo menos devolveu os guardanapos do Hotel Ritz? 

PODER SEM PUDOR

SEM CONTESTAÇÕES

Filiado à Arena, Horário Vargas quase se deu mal ao apoiar o candidato do MDB à Prefeitura de Ponta Grossa (PR), em 1976. O partido se reuniu para expulsá-lo, mas, na hora agá, ele nem sequer foi admoestado.

– Você tinha muito apoio? – quis saber um repórter, intrigado.

– 38 – respondeu o político, secamente.

– Votos?

– 38 cano longo, carga dupla..

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: MP diz que a venda da Delta é ilegal e imoral, e abre inquérito
- Folha: Traficante poderá responder ação em liberdade, diz STF
- Estadão: STF “blinda” procurador pressionado por petístas
- Valor: Crédito cai com arrocho de bancos e menor demanda
- Correio Braziliense: Caso Cachoeira faz MP denunciar 8 em Brasília
- Zero Hora: Projeto prevê reajuste de até 140% em taxas do Detran no Estado
- Jornal do Commercio: CTTU mais forte nas ruas
- Estado de Minas: Economia de R$ 12.626.712,90