sábado, dezembro 31, 2011

Obesos deixam de ser tratados como animais - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém

O GLOBO - 31/12/11


Informe enviado por e-mail do secretário de Saúde ao governador do Rio:
Antes, nossos pacientes obesos somente tinham como local para fazer seus exames radiológicos o Jockey Club, junto com os cavalos. Ou faziam de favor, dois a três exames por ano, no Quinta D’Or. E somente para paciente até 150 kg.
Agora já podemos realizar exames em pacientes com até 320 kg. Não conheço nenhum privado com esta capacidade. E o tomógrafo é de 64 canais, capaz de realizar exames cardiológicos de coronária, igual ao do Rio Imagem!
Isto sem falar que saímos de 15 cirurgias para obesidade por ano (Fundão e Hosp. Ipanema juntos) para 200 cirurgias (até outubro deste ano). Seu projeto para tratamento da obesidade está transformando a vida das pessoas. Pessoas que somente tinham a solidão de um quarto ou até mesmo de um calabouço (onde alguns vivem até hoje) retornam à sociedade. Esse projeto somente é possível pelo comprometimento de pessoas excepcionais, como o Cid Pitombo e o diretor do hospital, o João Paulo. Este último vem transformando o Carlos Chagas. Saiu do Pedro II e aceitou o desafio de assumir um hospital “falido” como o Carlos Chagas, que vem se transformando num hospital para atender a alta complexidade.

Universal no poder!
Alaôr de Divinópolis, o bruxo que previu, com 24 horas de antecedência, as derrotas de Serra nas eleições presidenciais de 2002 e 2010, volta a atacar.
Sua bola de cristal vê a Dilma entregando um ministério, provavelmente o das Cidades, para o senador Marcelo Crivella botar quem ele quiser.

Melhor aguardar
Alaôr também viu o Ciro Gomes recebendo um ministério, mas pede para eu não divulgar porque a Dilma é imprevisível.

Cazaquistão
Perguntei se o meu amigo Borat, ministro da Pesca, também conhecido por Luiz Sérgio, estava firme e forte no cargo, e o bruxo respondeu que não sabia: o ministro está fora da área de serviço.
— Não pega? — perguntei. — Não faz nada! — respondeu o bruxo mineiro.

Inesquecível
Negromonte é outro ministro que acha que a Dilma se esqueceu dele. E dá graças a Deus por isso.
Sua agenda de trabalho, inclusive, já está preenchida até dezembro de 2012.

Acaboooouuu!!!!!
As relações entre o ministro Fernando Pimentel e o senador Aécio Neves já estiveram muito ruins.
Chegaram, em determinado momento, a ficar péssimas.
Hoje, praticamente, não existem.

Atitude
O preconceito contra o obeso é muito maior do que contra os negros e homossexuais.
A obesidade é mais grave que a fome.
São dados oficiais.
Por isso, merece aplausos a inauguração do tomógrafo do hospital Carlos Chagas, no Rio. Devolve a condição humana aos obesos.

Mico do Ano
O governador Eduardo Campos percorreu o país em campanha cívica!
Para botar a mãe no TCU.

Preguiçoso do Ano
O que fez o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em 2011?
“Não sei”, diria o Ancelmo.

Fofoqueiro do Ano
Gilberto Carvalho.

Ministra do Ano
Gleisi Hoffmann — trabalho em prol dos deficientes e a reorganização administrativa do governo. E é linda!

A Revelação do Ano
A ministra Helena Chagas reatou relações do Planalto com os jornalistas, rompidas há nove anos. E tirou o debate da regulamentação da mídia de dentro do Palácio, num “Afaste da Dilma esse cálice”. Dilma fala e recebe a gente.

A Mulher do Ano
Maria Ribeiro — uma das mais belas atrizes brasileiras, dos sucessos dos dois “Tropa de Elite” aos da série “Oscar Freire”, dirigiu o elogiadíssimo documentário sobre Domingos de Oliveira, além de ser uma grande cronista.

O Político do Ano
Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo e criador do PSD, o homem que está provocando uma grande agitação na correlação de forças dos partidos brasileiros.

Os Livros do Ano
Os jornalistas mais uma vez brilharam na literatura: Miriam Leitão, Wilson Figueiredo, Mario Sabino e Ricardo Amaral que o digam.
Foram os presentes mais chiques de fim de ano.
E, certamente, também, serão os mais charmosos presentes do início de 2012.

Aprender ou passar no vestibular? - JOCA LEVY

O ESTADÃO - 31/12/11


Discute-se muito a baixa qualidade do ensino público, com efeitos sobre as classes de menor poder aquisitivo. Deveriam também causar aflição sérios tropeços das escolas privadas, inclusive as que obtêm as melhores notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Esses problemas, que passam despercebidos pela maioria dos pais e educadores, afetam jovens das classes mais altas, supostos candidatos mais prováveis à elite intelectual do País.

Os pais precisam desde cedo decidir se o plano para seu filho é aprender ou passar no vestibular. É possível aprender e passar no vestibular, mas é limitada e frustrante a trajetória intelectual da criança cujos pais estabelecem como meta o vestibular, não o aprendizado.

As escolas chamadas "convencionais" parecem ter por objetivo boas notas no Enem e no vestibular, não propriamente o aprendizado. Há crescente pressão dos pais nesse sentido. Não percebem que educação voltada para a competição e o vestibular é,acima de tudo, desinteressante para a criança. E sem interesse não há aprendizado.

A educação voltada para o vestibular busca prioritariamente habilitar o profissional a competir dentro de padrões estabelecidos por uma conveniência de massificação. Talentosos e ignorantes são, juntos, conduzidos com o gado para uma mesma faixa de referência na vizinhança da média.

Os mais inteligentes (não necessariamente os mais bem treinados para tirar notas) não têm oportunidade de seguir seus processos próprios de exploração, retenção e desenvolvimento intelectual. São forçados a seguir método desenhado com requisitos mínimos para a compreensão dos medíocres.

A ideia de permitir que desponte uma elite intelectual sofre resistência, silenciosamente. Por séculos de tradição aristocrática, a elite, ainda que tivesse maior oportunidade de desenvolvimento intelectual, dominou pelos sobrenomes, não por méritos pessoais. A democracia trouxe o desprezo pela elite e a noção irrefletida de que todos devem ser iguais. Grande erro! Todos não devem ser iguais, mas devem, sim, ter iguais oportunidades de desenvolvimento de suas habilidades. E os mais talentosos devem ser estimulados e prestigiados.

Cada pai deve empenhar-se em livrar os filhos da cultura da comparação, que os aprisiona na mediocridade, e habilitá-los a usufruir plenamente seus talentos, tendo por referência apenas a excelência, não a concorrência.

O jovem deve, sim, ter disciplina, mas não aprender por disciplina. Equívoco corriqueiro é estabelecer que aprender e tirar boas notas são obrigações da criança. Só se aprende por interesse. Para uma criança, as obrigações são chatas e desinteressantes. Toda criança sadia, minimamente bem educada e com ambiente emocional estimulante é capaz de aprender. Basta que o aprendizado seja interessante. Se lhe for apresentado como obrigação, contudo, o melhor que uma criança disciplinada fará é decorar, o que ajuda a tirar notas e passar no vestibular, mas não a integrar o conhecimento ao processo mental, ou seja, aprender.

Notas não avaliam a criança, mas a capacidade de ensinar e de disciplinar das escolas e dos pais, que, portanto, exigem boas notas em benefício de sua própria imagem na sociedade, não em benefício da criança. Boas notas não preparam a criança para uma vida de realizações.

O típico adulto moderno dá prioridade ao cultivo de seu próprio sucesso, numa rotina, no mais das vezes, intelectualmente improdutiva. Mais fácil é não se envolver na formação intelectual dos filhos, não ler para eles sobre a História do homem, não explicar porque a Terra é redonda, o que são as estrelas, a origem da vida, a evolução e as diferenças das espécies, não ensinar a brincar com números (no lugar de videogames, que mantêm a criança abobalhada), não despertar logo cedo o interesse pelo conhecimento, a curiosidade pelas coisas da natureza.

Mais conveniente é terceirizar por completo a educação, entregar as crianças à escola e esperar que voltem com um diploma, que não diz que o filho se tornou uma pessoa instruída, mas apenas que os pais cumpriram o seu dever segundo a convenção dos nossos tempos. Para o filho pouco serve aquele canudo, senão, talvez, para arrumar um emprego. Para o pai o diplomado filho é uma sentença absolutória da negligência intelectual a que abandonou a cria.

Formam-se legiões de burros, rasos, ignorantes, imaturos com diplomas (muitos com boas notas!). Pessoas destituídas da oportunidade de desenvolver seus talentos individuais. Enlatadas, padronizadas, como ditizadas. Dirão os pais que bem preparadas para competir no mundo moderno, mas, na verdade, aleijadas de suas competências subjetivas e jogadas para competir na mediocridade a que foram rebaixadas.

Não é à toa que no curso da educação moderna pessoas brilhantes - de Winston Churchill, Albert Einstein e Warren Buffett a Bill Gates e Steve Jobs - em algum momentos e desgarraram da educação convencional ou a deixaram ter influência secundária em sua formação intelectual. São pessoas que se recusaram a entrar na competição e se desenvolveram muito acima dela.


"Aprendizagem que privilegia apenas o intelecto dificilmente atinge o ser humano completo. O melhor exemplo disso são as informações formatadas exclusivamente para o vestibular. É um rio que passa na vida do vestibulando e que deságua no oceano do esquecimento. Quando a gente aprende algo e dele não se esquece nunca mais, é porque o coração e a alma também foram tocados. Quando o conhecimento é elaborado no intelecto, passa pelo sentimento e determina uma vontade, aí, sim, ele não desgruda mais da gente."
Helena Trevisan
 

JOCA LEVY: Advogado , é pai de Três adolecentes

Keynes estava certo - PAUL KRUGMAN


FOLHA DE SP - 31/12/11
O teste tem vindo de países europeus como Grécia e Irlanda, que tiveram que impor austeridade fiscal

"O momento de expansão, e não de retração, é a hora certa para o Tesouro Nacional ser austero."

Foi o que disse John Maynard Keynes em 1937, quando o BC americano estava a ponto de provar que Keynes estava certo ao tentar equilibrar o orçamento cedo demais, fazendo a economia americana entrar em profunda recessão.

Um governo que adota política de cortes numa economia em depressão faz a queda ser pior; a austeridade deve esperar até que a recuperação esteja bem encaminhada.

Infelizmente, no fim de 2010 e início de 2011, políticos e governantes em muitas partes do ocidente acreditavam que sabiam mais, e que nós deveríamos focar em deficits e não em empregos, ainda que nossas economias tivessem acabado de se recuperar da depressão pós-crise financeira. Agindo de forma anti-keynesiana, acabaram provando que Keynes estava certo mais uma vez.

Ao declarar que a economia keynesiana foi vingada, estou indo contra o saber convencional. Especialmente em Washington, a incapacidade do pacote de estímulos de Obama de gerar grande número de empregos é geralmente vista como prova de que gastos governamentais não conseguem produzir empregos.

Mas aqueles de nós que fizeram as contas corretamente perceberam desde o início que a Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009 era restrita demais, dada a profundidade da queda. E também previmos o consequente retrocesso político.

Portanto, o verdadeiro teste para a economia keynesiana não veio dos tépidos esforços do governo americano para impulsionar a economia, que foram largamente contrabalançados por cortes em níveis estaduais e municipais.

O teste tem vindo de países europeus como a Grécia e a Irlanda, que tiveram que impor severa austeridade fiscal como condição para receber empréstimos de emergência -e têm sofrido perdas econômicas do mesmo nível da Grande Depressão. Isso não deveria acontecer, segundo a ideologia que domina grande parte do nosso discurso político.

Em março passado, a parte republicana do Comitê Econômico Conjunto do Congresso divulgou relatório que ridicularizava as preocupações de que cortes em um momento de queda poderiam piorar a situação, argumentando que os cortes aumentariam a confiança de consumidores e de mercados, e isso sim poderia levar a um crescimento mais rápido, não mais lento.

A insistência em cortes imediatos continuou dominando o cenário político, com efeitos maléficos sobre a economia. É verdade que não houve novas grandes medidas de austeridade do governo federal, mas vimos muita austeridade "passiva" à medida que o pacote de estímulos de Obama saiu de cena e governos estaduais e municipais sem liquidez continuaram fazendo cortes.

Você poderia argumentar que Irlanda e Grécia não tinham escolha quanto à imposição de austeridade a não ser fazê-lo ou declararem-se inadimplentes e deixar o euro.

Mas outra lição de 2011 foi que os EUA tinham e têm uma escolha; Washington pode estar obcecado com a questão do deficit, mas os mercados financeiros estão, sim, sinalizando que nós deveríamos tomar mais empréstimos.

Nada a perder - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 31/12/11

O lançamento do nome do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) para presidente da República é um balão de ensaio útil para o partido. Se crescer até 2014, ótimo, senão, torna o partido mais forte para negociar apoio a outro candidato. A estratégia, no entanto, não é consenso no DEM. Há quem veja constrangimento com os tucanos, principalmente em Minas. O partido faz o mesmo em São Paulo, com a pré-candidatura de Rodrigo Garcia.

Tudo ou nada

Esquálido depois do ataque especulativo do PSD, o DEM vai apostar tudo nas eleições do ano que vem. O partido tem nomes competitivos para disputar a eleição em Aracaju (SE), Campo Grande (MS), Macapá (AP), Salvador (BA), Recife (PE), Fortaleza (CE), Vila Velha (ES), Feira de Santana (BA) e Pelotas (RS). Se sobreviver às eleições municipais do próximo ano, a estratégia do partido será lançar grifes derrotadas para o Senado e para governos estaduais, como Marco Maciel (PE), Heráclito Fortes (PI) e Paulo Souto (BA), para a Câmara dos Deputados, com o intuito de puxar outros nomes e eleger uma bancada razoável.

O debate acerca da saída de Rodrigo Neves será travado no Diretório Estadual, e não no de Niterói” — Luiz Sérgio, presidente do PT-RJ, sobre a pressão para que Neves deixe a Secretaria estadual de Assistência Social antes das prévias para a prefeitura de Niterói.

ESVAZIADA. Apesar de considerarem que a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) fez uma boa gestão, a avaliação de ambientalistas é que ela não tem força política no governo. O exemplo mais forte foi a sanção, pela presidente Dilma, de lei que tira poderes do Ibama, apesar dos apelos da ministra para que fossem vetados artigos da proposta. A lei foi assinada por Dilma no momento em que Izabella estava em viagem à África.

Tête-à-tête 1
Ao avistar o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), no coquetel no Alvorada, a presidente Dilma disparou: “Preciso falar com você”. Os dois se afastaram, para curiosidade dos demais, e conversaram por uns 15 minutos.

Tête-à-tête 2
Dornelles diz que foram “só dois minutos”. E que o assunto foi a redistribuição dos royalties do petróleo. “Ela quer encontrar uma solução e acha que, passado 2011, vai dar para negociar com mais tranquilidade”, afirmou o senador.

O fator Pimentel
A permanência do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) no governo divide os aliados. Um grupo apoia a presidente Dilma e afirma que ela tinha que dar um basta na queda de ministros, senão ficaria sempre a reboque da imprensa. Já outra parte se ressente e reclama de tratamento diferenciado por ele ser do PT. Pimentel é o primeiro ministro atingido por denúncias que é da cota pessoal de Dilma, não de Lula.

Militância verde
Empenhada em um movimento suprapartidário, a ex-senadora Marina Silva tem evitado falar na criação de um novo partido porque quer que a nova sigla, capitaneada por ela, surja de um movimento de base, e não de cima para baixo.

Palanques
Sem um nome forte que unifique a base aliada ao governo federal, a tendência em São Paulo é a pulverização de candidaturas no primeiro turno, para a prefeitura, apesar do esforço em contrário feito pelo expresidente Lula.

PASSANDO O CHAPÉU. O PSDB entra em 2012 com uma dívida de R$ 10 milhões referente à campanha eleitoral de 2010.

ALIMENTANDO
 sua fama de hipocondríaco, o exgovernador José Serra diz que ganhou, de Natal, uma lupa, “para ajudar a ler bulas de remédios”.

O DEPUTADO
 Tiririca (PR-SP) enviou ofício ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, mostrando preocupação com o projeto de revitalização da Praça Onze, que reduziria o espaço para a instalação de circos.

Quando entra o terapeuta - MARCELO RUBENS PAIVA


O Estado de S.Paulo - 31/12/11


Onde você estava?, perguntou o marido.

"O que é isso, controle?"

"Curiosidade."

"Na terapia."

"Na onde?"

"Tá duvidando?"

"E desde quando você faz terapia?"

"Desde hoje", ela respondeu e começou a andar pela casa, como se não quisesse alongar a conversa.

"Que terapeuta?"

"Você não conhece."

"E como você conheceu?"

"Uma amiga indicou."

"Que amiga?"

"Você também não conhece."

Claro. O único terapeuta que ele conhecia era de cães, com quem jogava tênis no clube.

E amigas que indicam terapeutas são sempre aquelas que os maridos não conhecem. Essas intrusas que, numa conversa de banheiro, ao invés de enumerarem as novidades da indústria cosmética, sugerem terapias.

Por que têm que se meter em algo que, acreditam os maridos, pode e deve ser resolvido na intimidade do lar? Deveriam indicar um restaurante novo, um filme genial, um livro irresistível.

"Quando você começou a pensar em fazer terapia?"

"Depois das férias."

"Depois daquela viagem paradisíaca em que acampamos na praia mais limpa e deserta no raio de duzentos quilômetros, em que não choveu um dia, comemos peixes pescados na hora, não ficamos gripados, nem fomos atacados por borrachudos, bichos geográficos, águas-vivas, piranhas?!"

"Não existem piranhas no mar."

"Não mude de assunto."

Ela entrou no banheiro. Trancou. Ligou o chuveiro. Ele continuou, através da porta.

"Por quê?"

"Achei uma ideia interessante", ela disse e entrou no chuveiro.

Terapia não é para deprimidos, melancólicos, esquizofrênicos, paranoicos, insones, ansiosos, viciados, alcoólatras, dependentes químicos? Não. É também para quem acha...nteressante. E pode ser indicada por uma desconhecida num papinho em frente de um espelho de banheiro.

"Por que você não me disse antes?", perguntou assim que ela saiu enrolada numa toalha.

"Porque você sempre está ocupado, nunca repara nos meus problemas."

"Foi por isso que você foi fazer terapia?"

"É, pode ser, não tinha pensado. Será que preciso resolver isso?"

"Resolver o quê?"

"Levar isso."

"Para onde?"

"Para o meu terapeuta."

"Seu terapeuta? Conheceu o cara hoje e já considera seu?!"

Então, tudo mudou no casamento que, acreditava ele, seguia pelo caminho seguro da normalidade, dos conflitos usuais e do número de relações sexuais em acordo com as estatísticas de vida saudável das revistas femininas.

Relação nada conturbada, comparada com outras ao redor.

"Será que preciso resolver isso?" passou a ser o argumento que encerrava toda discussão ou questionamentos, até os mais simples, como por que ela preferia pizza de massa fina, filme dublado, sorvete de frutas, shoyu na salada, se vestir de preto, dormir de lado, caipirinha de saquê, carne malpassada, ler com uma lapiseira na mão, começar as revistas pelo fim e os jornais pelo caderno cultural.

Não teve jeito. Um terapeuta entrou na vida do casal. E quantas vezes ele se pegou imaginando o que conversavam, quais eram as queixas e, pior, o que ele sugeria.

Será que o desgraçado coloca minhocas na cabeça dela, sugere aventuras extraconjugais, realizações de sonhos secretos? Será que ela conta detalhes íntimos, faz comparações com outros homens? Será que arrumou um confidente, com quem ridiculariza as fraquezas inerentes em todos os maridos?

"Que linha ele segue?", perguntou um dia na fila de cinema.

"Quem, meu terapeuta?"

"Quem poderia ser?"

"Ah, sei lá..."

Sei lá? Não existem mais linhas? Seria psicanálise? Usa divã? Estão associando os sonhos à relação dela com os pais? Freudiana, junguiana, lacaniana?

"Acho que é uma linha que ele mesmo criou", foi a resposta que só piorou o tormento.

Afinal, ele confiava nas correntes mais tradiças da psicanálise, anos e anos postas em prática, pouco empíricas, mas muito pesquisadas, debatidas, cujos arquétipos praticamente viraram senso comum.

"Ah, é uma terapia alternativa?", perguntou quando se apagaram as luzes do cinema.

"Pode-se dizer que sim."

"Por quê?"

"Eu precisava resolver umas questões pessoais."

"Que questões?!"

"Coisas minhas."

"E como é? Só você fala, ele anota, ficam frente a frente, dura uma hora, analisam sonhos, você fala de mim?"

"Shhhh!", gritou o idiota da fileira de trás, já que começara o filme.

Ele passou o filme todo se perguntando que questões seriam essas e quanto ele era responsável pela novidade. Será que ela era infeliz no casamento? Será que ela tinha outro e precisava debater com um especialista? Será que ela tinha outra? Será que ela vai se apaixonar pelo terapeuta?

Decidiu, sufocado por tantas perguntas, que não deveria se meter.

Relaxa. Muita gente faz terapia. Vamos ver, de repente, ela fica mais feliz, realizada, mais bonita, mais tarada. Esperar. Ver no que vai dar. Afinal, é apenas uma terapia.

Pense no pior: ela poderia entrar para uma seita amazônica ou um grupo de teatro alternativo ou um movimento de extrema-direita ou um fã-clube de uma banda heavy metal.

Será que ela está pensando em se separar?! Claro! Mulheres fazem terapia antes do divórcio, para se certificarem!

"Gostou do filme?", ela perguntou no estacionamento.

"Não sei. E você?"

"Preciso discutir com o meu terapeuta."

"Boa. Será ético você me contar se ele gostou?"

"Não sei. Por que você não faz terapia também? Aí, terá com quem conversar."

Entraram no carro. Ela olhou pelo espelhinho, retocou a maquiagem, ajeitou os cabelos. Um novo brilho nos olhos. Uma voz macia, diferente. Está tão mais... sexy. Que merda.

Ele concluiu: ela já está apaixonada pelo cara. OK, vou fazer terapia também, pensou. Quem sabe o desgraçado não me indica uma terapeuta. Bem gostosa.

GOSTOSA


O ano intenso - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 31/12/11
Quase nada do que aconteceu em 2011 estava escrito. Foi um ano intenso e surpreendente. A crise da Europa estava dada, mas não se imaginava que fosse se agravar tanto; terremotos no Japão acontecem, mas a tragédia nuclear foi surpresa. A explosão do Norte da África e as quedas de ditadores foram a maior surpresa do ano e revelaram muito da ignorância do Ocidente.
Uma foto postada no Twitter da jornalista da CNN Kristie Lu Stout é um exemplo do inesperado acontecido em 2011. É uma foto protocolar de uma reunião recente da Liga Árabe, pouco antes das rebeliões do Norte da África. Na frente, os governantes Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia; Ali Abdullah Saleh, do Iêmen; Muammar Kadaffi, da Líbia; e Hosni Mubarak, do Egito. Confiram a reprodução da foto no meu blog. Abraçados, eles parecem inamovíveis, partes da paisagem daqueles países. Seguros e sólidos. Em 2011 eles foram depostos e Kaddaffi morto no redemoinho que levantou todas as areias da região.
O que a tempestade de areia revelou é que esses ditadores não eram pirâmides, plantadas lá para sempre, como os governos dos Estados Unidos e dos países do Ocidente os consideravam. Em 2003, o presidente Lula foi à Líbia e disse que Kadaffi estava conduzindo um processo de democratização. O governo americano sempre sustentou a ditadura de Mubarak. Não foram poucos os pensadores que disseram que os árabes não tinham a mesma necessidade de democracia.
O mundo aprendeu muito sobre sua própria ignorância, sobre a realidade dos países árabes, sobre a capacidade de contágio das redes sociais e do mundo conectado. É um capítulo em aberto da história e a evolução de alguns eventos é imprevisível.
Até o Japão surpreendeu em 2011. Todos esperam um terremoto no Japão, principalmente ele próprio. Todos sabem os riscos de um vazamento nuclear, principalmente o Japão. Antes do desastre na Usina de Fukushima o que todos tinham como certo é que os japoneses estavam preparados para terremotos e tinham cercado suas usinas nucleares de todas as garantias possíveis. Não tinham.
Problemas de suprimento na cadeia produtiva por causa do desastre japonês e a alta forte do preço do petróleo pelos eventos da África abateram a incipiente recuperação da economia dos Estados Unidos. Na polarização política que divide os americanos, o Congresso encenou o impensável. Por semanas o mundo viveu na dúvida sobre se o emissor da dívida considerada mais segura do mundo deixaria de honrar os títulos vencendo.
Ver a Europa sangrando em suas contas abertas confirmou que não há país inatingível por crises e que elas são parecidas. Dívidas altas, gastos excessivos abalam a confiança dos credores e minam a estabilidade dos países.
Foi assim com a América Latina nos anos 1980; foi assim na Ásia nos anos 1990; está sendo assim na Europa. Não há países intocáveis.
Aprendeu-se também em 2011 que não há fórmulas simples para crises complexas como a da Europa. Gastar mais para incentivar as economias, como aconselham alguns, só vai erodir mais a confiança dos financiadores. Cortar gastos públicos como único recurso pode aprofundar a recessão e encolher a receita. Gastar mais com resgate financeiro enfurece o contribuinte; se os bancos quebrarem, a crise se agrava; resgatar bancos e não desempregados é inaceitável; os manifestantes do "ocupe" são um movimento à procura de uma bandeira.
A Europa encontrou em 2011 os limites do seu sonho. Tudo parecia perfeito até que a crise chegou. O projeto era unir os países comercial e economicamente, criar uma zona de moeda comum com as decisões passando pelos parlamentos, reduzir o custo de endividamento dos países impulsionando o crescimento. Foi assim por bons anos. As economias menores cresceram puxadas pelas transferências que recebiam da União e o benefício dos juros baixos da moeda forte. As economias maiores tinham mais mercado.
A conta chegou em 2011. Os juros baixos não eram eternos e haviam incentivado o endividamento excessivo. Quando subiram produziram uma bola de neve: quanto maior a dívida mais rapidamente ela cresceu. Não deu certo a ideia de isolar o país mais fraco - a Grécia - e ajustar os países médios. Ao chegar à Itália a crise desembarcou no coração da Zona do Euro. A necessidade de aprovação pelos parlamentos nacionais era vista como virtude. Na crise, virou lentidão das soluções e dificuldade de governança. Quando o Reino Unido reforçou o canal que o separa do resto da Europa enfraqueceu a si mesmo e a região da moeda comum. O ano termina legando incerteza para 2012. A crise da Europa atravessará o ano conosco.
Não sei como foi na sua vida, mas na minha também foi um ano forte. De alegrias, tristezas e surpresas intensas; um ano para lembrar que não se controla o destino, que as previsões têm o defeito de serem a projeção linear do presente e poucas vezes comportam o inesperado da vida. O meu desejo para cada pessoa que me dedica seu tempo precioso lendo esta coluna é que em 2012 as tristezas sejam econômicas e nos poupem, e que as alegrias sejam superavitárias.

QUAL É, QUAL FOI - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 31/12/11
Tiririca (autor do verso acima), Bethânia, Neymar e Fátima Bernardes são alguns dos personagens que desfilaram pela coluna em 2011

Tiririca contou em primeira mão, em 11 de agosto, que já havia aprendido o que faz um deputado: "Trabalha muito e produz muito pouco".
Disse mais:

"A Câmara é uma fábrica de loucos"

POESIA VIRTUAL
Em 16 de março, a coluna revelou que Maria Bethânia tinha sido autorizada a captar R$ 1,3 milhão, por meio da Lei Rouanet, para produzir um blog de poesia. O volume de recursos para um projeto de internet acabou virando o centro de uma das maiores polêmicas do ano na área cultural. Bethânia desistiu da ideia.

DOIS E UMA
Dilma Rousseff, Lula e Fernando Henrique Cardoso deram declarações exclusivas à coluna. O petista explicou sua ausência no almoço da presidente com Barack Obama. FHC falou sobre drogas, e Dilma, sobre a meia entrada para idosos na Copa de 2014.

"Minha querida, isso é uma lei brasileira. E não pode mudar. Não é uma questão de querer ou não querer"
DILMA ROUSSEFF
3 de outubro

"Era um momento muito importante para ela [Dilma], eu não deveria, eu poderia atrapalhar"
LULA
23 de março

"Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas. Todas, todas (...) e deixa alguma experimentação. Eventualmente, plantação caseira [de maconha], por aí"
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
29 de maio

NÃO TE VI NA TV
A coluna anunciou com exclusividade, na Folha.com, em 30 de novembro, a bomba do ano na televisão: depois de 14 anos, Fátima Bernardes deixava a bancada do "Jornal Nacional".
Mantovani Fernandes/Jornal O Popular

E também na Folha.com, em 2 de outubro, foi antecipada a saída de Rafinha Bastos da bancada do "CQC", da TV Bandeirantes. Piada sobre Wanessa Camargo foi o estopim para o afastamento do humorista.

ABENÇOADA POR DEUS...
"Algumas pessoas teimam em dizer que tenho problema com essa época do 'BBB'. É a minha história e tenho o maior orgulho dela"
GRAZI MASSAFERA
10 de abril

... E BONITO POR NATUREZA
Enquanto alguns alardeavam que Neymar já tinha fechado contrato com o Real Madrid, o time da coluna trazia a informação correta: nada estava definido. A garantia era dada pelo presidente do Santos, Luis Alvaro Ribeiro: "Se eu não assinei, não existe contrato fechado com ninguém". E Neymar ficou no Peixe. Como Ganso. Já Anderson Silva foi o destaque das lutas de MMA.

"Eu depilo, tem que depilar. Tenho poucos pelos, mas sou um cara muito vaidoso"
PAULO HENRIQUE GANSO
5 de junho
Eduardo Knapp/Folhapress

"Tem creme para o rosto, para as mãos, isso que as mulheres usam para ficar bonitas e que os homens deveriam ter também. Meus amigos falam: 'Cara, isso não é coisa de lutador, é coisa de boiola'"
ANDERSON SILVA
27 de fevereiro

"Me arranjam tanto time quanto arranjam namoradas"
NEYMAR
22 de outubro

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Velha história - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 31/12/11


Boas-vindas de líder do governo a Jader Barbalho, em sua volta ao Senado, reiteram influência das oligarquias regionais na política nacional

Depois do escândalo que forçou sua renúncia em 2001, Jader Barbalho está de volta ao Senado. Duas vezes governador do Pará, ministro da Reforma Agrária e da Previdência no governo Sarney, ex-presidente do PMDB, o senador foi recebido pelo líder do governo na casa, Romero Jucá (PMDB-RR), como um "aliado importante".

Mais um, com efeito. Além do próprio Jucá e do reabilitado Barbalho, a base governista no Senado conta com figuras que, em outros tempos, eram vistas com desprezo pela militância petista. Os ex-presidentes Fernando Collor e José Sarney, por exemplo, disputaram por anos a primazia de figurar como a principal "bête noire" nos furores do PT.

Não foram poucos os motivos para que, no passado, Barbalho estivesse sob o ataque dos que se colocavam como defensores da moralidade no trato dos recursos públicos.

No período que precedeu à sua renúncia, esteve no foco de uma série de suspeitas, envolvendo, por exemplo, desvio de recursos pertencentes ao banco do Estado do Pará, e a concessão, pela Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) de mais de R$ 9 milhões para construir um ranário, do qual nunca se teve notícia.

Mas o sapo virou príncipe, como se vê, no conto de fadas que se repete diariamente desde a ascensão do PT ao poder federal.

Jader Barbalho teve sua posse impedida em 2010 devido a uma interpretação demasiado estrita da Lei da Ficha Limpa. Seria inelegível o político que tenha renunciado ao cargo para evitar iminente cassação. De fato, foi isso o que ocorreu há dez anos -mas o Supremo Tribunal Federal considerou, não sem sólidos motivos, que a lei não poderia vigorar nas últimas eleições.

Nestas, vale também lembrar, o peemedebista obteve perto de 1,8 milhão de votos, contra os menos de 800 mil da segunda colocada, Marinor Brito (PSOL). Se Barbalho agora ocupa a cadeira de senador, não se pode dizer que a vontade da maioria dos eleitores paraenses foi desrespeitada.

Chega-se ao fundo da questão, que não é bonito de se ver. O prestígio local de políticos como Collor, Jucá, Sarney e Barbalho prepondera sobre a imagem que se tem de seu comportamento na esfera nacional.

Uma rede de patrimonialismo, compadrio, troca de favores e relações familiares, ao lado da constituição de verdadeiros feudos na área de telecomunicações, sustenta lideranças políticas atrasadas, não raro truculentas e corruptas, que, por sua vez, dão apoio aos presidentes da República.

Foi assim com Fernando Henrique, continuou com Lula, e subsiste no governo Dilma. A despeito dos discursos modernizantes, moralistas e triunfais que partem do Planalto, pouco ou nada se fez para modificar de fato a estrutura oligárquica da política brasileira.

27 anos de democracia - FERNANDO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 31/12/11
BRASÍLIA - Em 2012, o Brasil completará 27 anos de democracia formal. É um recorde. Nunca se viveu aqui por tanto tempo com plenas li berdades individuais.
A estabilidade se consolidou com a sequência de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cada um por oito anos na Planalto. Agora, Dilma Rousseff entrará em seu segundo ano de mandato.
Nesta época do ano, um vício mundial nos compele a fazer balanços e análises. Quando se observa em linha reta -FHC, Lula e Dilma-, é difícil achar que os brasileiros pudessem ter escolhido algo melhor para si em anos recentes. Talvez uma compensação pelas péssimas opções e vicissitudes do passado -os 21 anos de ditadura militar (1964-1985) seguidos de Sarney e Collor.
Mas há também a parte meio vazia do copo. Os dois últimos presidentes e a atual ocupante do Planalto parecem todos adeptos da máxima segundo a qual "a política é a arte do possível". São raros os momentos de arrojo de FHC, Lula ou Dilma para ir além dos ditames do império da mediocridade que grassa na burocracia estatal.
O presidente da República é, se assim o desejar, uma força indutora do desenvolvimento e dos rumos do país. FHC, Lula e Dilma podem contra-argumentar que é fácil falar quando se está do lado de fora. É verdade. Mas a missão do lado de cá é essa mesma: cobrar.
Dilma está em início de mandato. Pode se tornar prisioneira da lógica do devagar e sempre. Ou inovar. Jogar o Brasil, de fato, num clube de nações desenvolvidas. Aumentar a velocidade dos avanços. O benefício da dúvida impede que se faça um juízo prematuro. Por enquanto, ela segue na toada de seus antecessores. A democracia se consolida. É bom, mas é pouco.

GOSTOSA


Xô, ano velho! - CACÁ DIEGUES

O GLOBO - 31/12/11

Deu outro dia no Ancelmo: "O brasileiro pobre acha que a vida melhorou nos últimos anos. Pesquisa do Ipespe, de Antonio Lavareda, mostrou que, para 85% dos brasileiros da classe C, a vida deles está melhor, comparada à de seus pais. E, para 87%, a vida de seus filhos ainda será melhor. Para os próximos meses, 81% planejam comprar casa própria; 61%, uma TV de plasma; 60%, um carro; e 56%, um computador."

E isso deve ser mesmo verdade. Os ingleses acabam de anunciar que já somos a sexta economia do mundo, tendo ultrapassado o próprio Reino Unido. E a presidente Dilma diz que, no ano que vem, o crescimento do PIB será de 5%, e a inflação não passará da meta. Aliás, o Ibope apurou que, em seu primeiro ano de mandato, a presidente tem uma aprovação popular superior às de Fernando Henrique e Lula no mesmo período. Bem que o comercial da Caixa Econômica Federal vem nos garantindo que a vida do brasileiro continua melhorando e que 2011 "foi um ano inesquecível para o Brasil e para milhões de brasileiros".

Mas para tudo há sempre controvérsias. Somos a sexta economia do mundo, mas nosso ministro da Fazenda avisa que ainda estamos muito aquém dos europeus em matéria de renda per capita. Ou seja, o Brasil vai muito bem; o brasileiro, nem tanto. A controvérsia não acaba nunca; cada vez que damos um passo à frente, um novo obstáculo surge diante de nós. Talvez seja esse o modo mais simples de explicar o que é a vida.

A nova classe média brasileira cresce; mas ainda temos uns 20 milhões de cidadãos (todos o são) abaixo da linha de pobreza. João Gilberto ganhou ação contra a EMI, recuperando o direito de proteger suas obras-primas; mas teve que cancelar os shows em que celebraria seus 80 anos de idade. A chamada partícula de Deus, o bóson de Higgs que decifra todos os mistérios da matéria, parece que foi enfim encontrada; mas cientistas europeus e americanos criaram em laboratório uma linhagem mortal de vírus da gripe aviária. Antonio Pimenta Neves e Nem foram finalmente presos; mas tantos corruptos e corruptores (esses também existem) andam à solta por aí. Kim Jong-il morreu; mas Vaclav Havel também. E assim por diante.

Não sou do contra, reconheço que 2011, de um modo geral, foi mesmo um ano muito bom para todo mundo. Mas peço licença para dizer que, para mim, foi uma boa porcaria.

Sobretudo porque nele perdi dois irmãos que me fazem muita falta. Um, Raphael de Almeida Magalhães, bem mais velho que eu, me ensinou muita coisa, além de me dar o exemplo permanente de generosidade e solidariedade, de obsessão pelo Brasil. Sendo essa última uma virtude igualmente presente no caráter do outro que se foi, Gustavo Dahl, meu querido companheiro de geração, o mais elegante e culto militante do Cinema Novo.

Menos graves foram os desentendimentos com pessoas de quem gosto (o amor pode ser unilateral, de mão única), como o jornalista e escritor Arnaldo Bloch. Ele andou escrevendo umas coisas que provocaram minha justa ira, não deixei a cabeça esfriar, respondi com o coração ainda em chamas, fui excessivo. Mas como o mundo é redondo e nós estamos aí, um dia a gente se esbarra. Feliz ano novo, Arnaldo.

Gosto do afeto solidário da festa de réveillon; mas gosto mesmo é de Natal, de todos os natais. Tudo que começa com alegria e esperança merece nossa adesão, mesmo que depois nos decepcione. O poeta, romancista e pintor Jorge de Lima, no ensaio "Todos cantam sua terra", compara as culturas portuguesa e espanhola, a partir de suas tradições cristãs. Enquanto para os espanhóis a representação máxima do cristianismo está na Paixão, a crucificação e morte de Cristo, para os portugueses o centro da religião está em seu nascimento, na candura do presépio de Natal.

Em "Andrei Roublev", de Andrei Tarkovski, invasores asiáticos massacram um vilarejo de camponeses russos, na Idade Média. Ao entrar na igreja local, um invasor curioso pergunta ao pároco quem é o homem a sangrar numa cruz. O padre responde que é o Cristo, o Deus de sua religião. O mongol reage com ira, se julga ludibriado, imagine se um deus vai se deixar sofrer daquele jeito. E corta a cabeça do pároco.

A grande virtude do cristianismo dos evangelhos e das primeiras pregações sempre foi a sua humanidade. Qualquer um podia se identificar com um Deus que se torna homem, ao contrário da tradição politeísta em que homens se transformam em deuses violentos e cruéis. O cristiniamo começou a perdê-la com a ordenação disciplinar das epístolas paulinas, os penduricalhos rituais criados na Idade Média, a cruel cegueira da Inquisição, o aparato milionário que resiste ao tempo. O Deus que se tornou homem e se deixou flagelar foi sendo, aos poucos, sufocado por homens que se julgaram deuses.

O ano já ia acabar quando me deparei, na primeira página dos jornais, com aquela fotografia do menino sardônico ao lado do pai todo satisfeito. Olhos bem abertos, o filho de Jader Barbalho nos mostrava a língua e abanava as orelhas com a mão, a nos dizer claramente: "Vocês são uns otários, seus burros! Papai é que é fogo!"

Que 2012 não nos leve mais ninguém querido e nos devolva a candura do Cristo na lapinha. E que nos poupe dos meninos espertos e de seus pais vitoriosos.

Do Carnaval não passa - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 31/12/11
Como ainda não ouviram de José Serra palavra definitiva sobre 2012, dirigentes do PSDB-SP voltarão à carga para obter, no mais tardar até meados de fevereiro, uma resposta do ex-governador tucano, líder das pesquisas de intenção de voto na capital após a eliminação da senadora Marta Suplicy (PT).

O partido entende que, dadas as circunstâncias da sucessão de Gilberto Kassab (PSD) -prévias do PSDB marcadas para 4 de março e Fernando Haddad (PT) em pleno processo de negociação de alianças-, Serra não poderia se permitir o luxo de 2004, quando assumiu a candidatura na undécima hora.

Vale a pena... Embora seu elevado patamar de rejeição torne ainda menos atraente uma candidatura que Serra de fato nunca quis, há quem acredite que ele poderia se animar com a perspectiva de um embate de contornos nacionais com o PT.

...ver de novo? Os mais céticos argumentam, porém, que a presença de Serra na disputa só faria estimular a participação intensiva de Lula no palanque petista.

Fotografia Dos quatro inscritos nas prévias tucanas, apenas Andrea Matarazzo diz que se retiraria em favor de Serra. Bruno Covas chegou a indicar disposição semelhante, mas mudou de ideia. Ricardo Tripoli e principalmente José Aníbal não manifestam a menor disposição de colaborar. Pelo contrário.

Sinal verde Atropelando a indicação de candidatura própria feita pela direção do PSDB de Campinas, os tucanos devem anunciar em janeiro um acordo eleitoral com o deputado Jonas Donizette (PSB) para a prefeitura.

Vamos ver 1 A despeito de Sérgio Cabral (PMDB) dizer e repetir que o vice Luiz Fernando Pezão (PMDB) será o candidato em 2014, crescem as apostas de que, se reeleito prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) entrará inevitavelmente e com força no rol de cotados para disputar o governo fluminense.

Vamos ver 2 Outra assertiva de Cabral vista com progressivo ceticismo é o descarte de eventual candidatura de seu secretário da Segurança, José Mariano Beltrame -a qualquer cargo e em qualquer circunstância.

Quem manda? Na primeira semana de janeiro, o Palácio do Planalto ficará acéfalo: além de Dilma, os outros quatro ministros que despacham no prédio estarão em férias ou recesso.

Relax Tuíte do perfil do Ministério do Esporte, que ainda se reestrutura após a crise que derrubou Orlando Silva (PC do B) da pasta: "Que tal fechar o ano de 2011 aliviando as tensões e recarregando as energias com a prática do tai chi chuan?".

Acesse 1 A CGU distribuirá aos órgãos públicos cartilha sobre a Lei de Acesso à Informação, em vigor a partir de maio. A controladoria vem treinando funcionários e organizará um sistema eletrônico de monitoramento para atender aos futuros pedidos.

Acesse 2 Sem prejuízo dessas providências, o ministro Jorge Hage reclama do prazo para a implementação da lei _180 dias desde a sanção. "Se compararmos com outros países, é muito pouco tempo. Mas paciência."

Insuficiente Embora Dilma tenha descartado extinguir secretarias com status de ministério, assessores da presidente avaliam que a posição de Luiza Bairros (Igualdade Racial) não está assegurada. Por questão básica de avaliação de desempenho.

tiroteio

"Admito que não é a melhor bandeira na visão dos cidadãos leigos, mas o compromisso que temos não é com o hoje, e sim com o amanhã."

DO MINISTRO MARCO AURÉLIO MELLO, DO STF, sobre a críticas que recebeu

por ter concedido, na véspera do início do recesso, liminar esvaziando o poder investigativo do Conselho Nacional de Justiça.

contraponto

Bancada de verão

Ao notar quórum baixo em solenidade realizada anteontem no Bandeirantes, Geraldo Alckmin tratou de justificar as ausências, sobretudo de deputados aliados.

-Recebi vários telefonemas e avisos. Fulano não poderá ir porque está em Ubatuba. Beltrano mandou representante porque está em Guarujá. Daqui a pouco um bem-aventurado vai dizer que está na Polinésia...

Percebendo certo desconforto entre os presentes, o governador arrematou:

-Só nós estamos trabalhando neste fim de ano.

E no Brasil quanto é? - FÁBIO ULHOA COELHO


O Estado de S.Paulo - 31/12/11


A imprensa tem chamado a atenção para a diferença de preços do mesmo produto quando comercializado no Brasil e em outro país. Várias reportagens mostram automóveis idênticos (mesmos ano, marca e espécie), com iguais componentes e acessórios, sendo vendidos por preços significativamente mais altos no mercado brasileiro.

Sabemos todos que em outros produtos ou serviços a situação se repete. Quem compra equipamentos eletrônicos nos EUA paga menos do que se os adquirisse aqui. E o preço é menor mesmo com o pagamento do Imposto de Importação. A passagem aérea, considerando os mesmos voo e classe, é mais barata para quem consegue comprá-la no exterior. Dois passageiros sentados lado a lado pagam por serviço rigorosamente idêntico preços diferentes só porque um deles reside no Brasil.

Por que é assim? Por que o consumidor, no Brasil, paga mais caro pelos produtos ou serviços?

A resposta mais usual aponta como culpada a carga tributária. Trata-se de resposta que, em certo sentido, deixa todos confortáveis. É claro que no Brasil a tributação está entre as mais elevadas do mundo, mas isso não explica tudo. O Estadão.com publicou matéria em 21/9 que compara automóveis similares comercializados no Brasil e no exterior. Mesmo descontados os impostos, aqui e lá, os veículos continuam mais caros no mercado brasileiro.

Nessa discussão há quem aponte outra culpada: a indústria automobilística nacional, que cobraria preços elevados para gerar lucros exorbitantes para suas matrizes estrangeiras, ansiosas por atenuarem os efeitos da crise por que passam em seus países. Essa explicação, culpando o "lucro Brasil", não é satisfatória. Primeiro, porque os preços aqui estão altos desde antes da atual crise. Segundo, porque, se fosse essa a razão, a estratégia mais racional seria a oposta, ou seja, baratear o automóvel para vender mais e lucrar mais ainda, ganhando em escala.

Para entender a razão por que pagamos mais caro pelos bens e comodidades aqui consumidos é necessário, na verdade, investigar como os empresários fazem para precificar seus produtos ou serviços. Em geral, esse mecanismo é descrito assim: se há competição, o empresário parte do preço normalmente pago pelos consumidores aos concorrentes e verifica em que medida conseguiria vender o mesmo produto ou serviço - por aquele preço ou um pouco abaixo dele -, incorrendo nos menores custos possíveis, de modo a ampliar a margem de lucro; se não há competição, por se tratar de produto ou serviço novo, ele parte de quanto estima possa ser o preço que o consumidor concordaria em pagar e verifica se, descontados os custos, o lucro projetado lhe interessa.

Essa descrição, porém, não é completa. Além de custos e lucro, há mais um elemento, levado em conta pelos empresários, que interfere na fixação dos preços que nós, consumidores, vamos pagar. Refiro-me aos riscos, e, dentre eles, ao risco associado à imprevisibilidade de decisões judiciais. Quanto mais esse risco (por assim dizer, jurídico-institucional) for característico de certo mercado, mais elevados serão os preços dos produtos e serviços cobrados pelos empresários que atuam nesse mercado.

No Brasil, o risco jurídico-institucional é expressivo. Muitas vezes o empresário é surpreendido por interpretações diferentes da lei, feitas pelos tribunais, com fortíssimo impacto nos números que ele havia calculado, antes de definir os preços pelos quais já vendeu, aqui, seus produtos ou serviços.

Neste momento, por exemplo, todos os empresários brasileiros estão refazendo suas contas porque é muito provável que, proximamente, tenham de pagar aos empregados dispensados sem justa causa nos últimos cinco anos uma indenização maior, por causa da recente mudança legal no cálculo do aviso prévio. Diversos advogados trabalhistas têm entendido que, como a nova lei do aviso prévio apenas regulamentou um direito já existente na Constituição desde 1988, todos os trabalhadores dispensados sem justa causa poderão reclamar o acréscimo, se ainda não transcorreu o prazo da reclamação em juízo. É muito provável que a Justiça do Trabalho acolha esse entendimento.

Como o empresário pode lidar, de modo racional, com um risco desse quilate? Apenas pela prática de preços elevados nos produtos e serviços oferecidos no mercado brasileiro. Sem conseguir antever, com precisão, o exato alcance de suas obrigações legais, diante de reviravoltas como essa, o empresário precisa se precaver embutindo nos preços uma elevada taxa de risco. Nesse caso, a rigor, estará apenas aplicando uma receita milenar e mais que testada dos investidores: o retorno tem de ser proporcional ao risco.

E as passagens aéreas? Vários tribunais interpretam o Código de Defesa do Consumidor de modo a invalidar qualquer limitação contratual na indenização devida em caso de mau funcionamento do serviço (atraso, extravio de bagagem, etc.). Em outros países, os riscos do transporte aéreo são contratualmente repartidos entre usuários e empresários, de acordo com convenções internacionais. Como aqui, no Brasil, existe o alto risco de condenação ao pagamento de indenizações morais (que o Judiciário entende não poderem ser tarifadas), a elevação do preço das passagens é o único meio de organizar racionalmente o serviço de transporte aéreo.

O consumidor brasileiro só pagará preços mais próximos dos cobrados em outros países quando conseguirmos reduzir, substancialmente, o risco associado à imprevisibilidade das decisões judiciais. Já há iniciativas legislativas que apontam nessa direção, como o projeto de Código Comercial que tramita na Câmara dos Deputados. Ele possibilitará, no entanto, apenas reduzir a insegurança jurídica em torno das relações entre empresas, sem afetar os direitos trabalhistas e dos consumidores. Já é um passo significativo, especialmente por apontar o caminho.

O "upgrade" do Rio - EDUARDA LA ROCQUE

O GLOBO - 31/12/11

Contrastando com a crise econômica mundial, o município do Rio de Janeiro recebeu neste fim de ano ótimas notícias para sua saúde financeira. Foi liberada a última parcela do empréstimo do Banco Mundial (Bird) para reestruturação da dívida municipal com o Tesouro Nacional; conseguimos um upgrade na nossa nota de crédito - o que nos transformou na única unidade federativa com classificação igual à da União - e, coroando nossos esforços de revitalização do setor financeiro, atraímos para a cidade uma bolsa de valores, a americana Direct Edge, que movimenta entre um e dois bilhões de ações diariamente no mercado internacional. Para completar, devemos fechar o ano com uma taxa de investimento acima de 20%.

A reestruturação de nossa dívida com a União foi o primeiro passo na rota de recuperação da capacidade de investimento do município, que era de apenas R$750 milhões no orçamento de 2009. Naquele ano, gastamos cerca de R$900 milhões com as nossas obrigações de dívida. Hoje, temos um orçamento para investimentos de R$4,5 bilhões - seis vezes mais do que tínhamos no início da administração. Ou seja, estamos com taxas quase chinesas.

O Bird surgiu como um parceiro na transformação da administração pública carioca. Negociamos um empréstimo de US$1 bilhão - o maior para um município na história do banco. Liberado em duas parcelas (2010 e 2011), o recurso foi usado para amortizar 20% da nossa dívida com a União, permitindo o fim do saldo residual e a redução dos juros sobre o saldo remanescente de 9% para 6%. Isso representará para o Rio uma economia de R$2 bilhões (valor presente) nos próximos anos. Além disso, a transação foi formatada como um Empréstimo de Política de Desenvolvimento (Development Policy Loan - DPL), contemplando iniciativas promotoras do crescimento sustentável do Rio.

Esse ajuste nas contas públicas contribuiu decisivamente para que o município do Rio atingisse o "grau de investimento" há um ano, conferido pela Moody"s. A mesma agência elevou nossa nota de crédito no início deste mês. Um upgrade significativo, dado que a cidade subiu três degraus em três anos no rating. Também a Fitch, outra importante agência internacional de classificação de risco, nos deu investment grade em 1º de dezembro, com nota de crédito igual à conferida à União e ao Banco do Brasil, ao BNDES e à Petrobras.

Paralelamente ao saneamento das contas públicas, o Rio voltou a ser um polo seguro de negócios. Para celebrar essa revitalização, preparamos a segunda edição do Rio Investors Day, evento que já incluiu a cidade no calendário financeiro global e que ocupará novamente o Copacabana Palace nos dias 21 e 22 de maio de 2012. Além de contar com a presença das principais companhias nacionais e de investidores institucionais de todo o mundo, o Rio Investors Day congregará os setores público e privado, e autoridades e personalidades do mundo financeiro. Também será importante vitrine dos principais projetos em andamento na cidade.

Passados três anos, a sensação é de dever cumprido. Saneamos as contas da prefeitura, recuperamos a nossa capacidade de investimento e criamos um ambiente favorável aos negócios, o que inclui inúmeras Parcerias Público-Privadas. Estamos, portanto, com todas as condições necessárias para fazer das Olimpíadas de 2016 não apenas um grande evento, mas principalmente um mote transformador de nossa cidade, sem qualquer ameaça à sua sustentabilidade fiscal.

CLAUDIO HUMBERTO

"Qualquer discurso caricato antiprivatização eu rejeito"
 Sérgio Cabral (PMDB/RJ), defendendo privatizações do governo FHC


TROFÉU PUXADINHO

É do PSD de “Jilberto” Kassab, ou “JK”: pegou areia do caminhão do DEM e do PSDB, misturou com eleitores fantasmas e assinaturas fajutas e mistura a argamassa com o PT. A “obra” ficou feia pra chuchu.

PIZZA DE JILÓ

Ganha o “onorevole” Cesare Battisti, produto “importado” por Lula com o selo de autenticidade do Supremo. O prêmio é retribuição pelo gosto amargo que sua presença evoca, no Brasil, em brasileiros e italianos. 

TROFÉU TIRIRICA

O prêmio será entregue no circo onde Berlusconi se sentirá ofuscado por Orlando Tapioca Silva (“sou indestrutível”), Wagner Rocha (“estou firme como uma rocha”) e Carlos Lupi (“só saio à bala”). Ao final, o italiano e o oriundi dançarão juntinhos a célebre canzone “Dilma, eu te amo”.

BOCA MALDITA

O prêmio é do ex-ministro Nelson Jobim, que escapou da degola ministerial pedindo para sair e profetizando que os “idiotas perderam a modéstia”. Se perdeu a dele, entregaremos o prêmio a Idelli Salvatti.

PRÊMIO FLANELINHA

No Judiciário, é do ministro Ayres Britto, tomando conta do cargo de Peluso. No Executivo, Dilma, cuidando do cargo de Lula; no Legislativo, Marta Suplicy, tomando conta da prometida embaixada em Paris. Hors-concours: o ministro Joaquim Barbosa, “flanelinha” do “mensalão”.

TROFÉU CHAVE DE CADEIA

Vai para Marcos Valério, Delúbio Soares e seus bons companheiros. Talvez errem de porta e alguém resolva trancar pelo lado de fora.

FRANGO DE MACUMBA

O bicho empalhado em Cuba é de Hugo Chávez, espírito de porco que assombra a Venezuela com seu câncer “injetado” pelos EUA. Se o “encosto” não deixar o cargo em 2012, pode chutar o “despacho”.

MARIA MOLE

Nem adianta fazer doce: a guloseima será distribuída entre Aécio, Serra e Fernando Henrique, o mais recente amigo da presidente Dilma, numa cerimônia em Harvard. Além de disputar o prêmio, também terão que engolir o ego.

TRANCA RUA

É o prêmio mais temido pelos babalôs do poder em Brasília. Não só é capaz de tirar a pessoa amada em três dias, como trancar caminhos, atrapalhar negócios e botar olho gordo. Vai para Lula, mizinfio.

TROFÉU PÉ DE CABRA

Nem precisou arrombar o BNDES: as portas foram abertas a bilionários, construtoras amigas, ditadores africanos, donos de TV e bancos falidos.

PRÊMIO JINGLE BELLS

É de Cristina Kirchner, por descobrir novo uso do papel de imprensa estatizado na Argentina. Se acabar, não faz mal, limpa com jornal.

CHUPETA DE OURO

Os prejudicados pelo Enem se cotizaram para o prêmio ao novo bebê Lula’s: Fernando Haddad, que erra todas as questões sem levar nem um tapinha do “pai”. É que lei da palmada também proíbe bater em postes.

BARRACÃO DE ZINCO

O troféu vai para a “comunidade” da discórdia instalada nos píncaros do Supremo, que promete tiroteio cerrado contra o Conselho Nacional de Justiça para “manter o território” livre de “puxadinhos” fora do padrão. 

BAÚ DA FELICIDADE

O prêmio será entregue por Silvio Santos às dezenas de ONGs que arrumaram salário sem emprego no Ministério do Trabalho. Com direito a discurso de Luiz Pagot, aquele do Dnit que só recebeu. E ainda recebe.

ROLANDO LERO

O vencedor é Guido Mantega, pelo lero-lero do do PIBinho e do PIBão, a nova dupla sertaneja que está tirando o sono dos humilhados ingleses.

PRÊMIO EIKE BATISTA

É da nova dupla de milionários Palocci e Fernando Pimentel, que, mesmo sem peruca, pai rico e ex-mulher bonita, multiplicou o patrimônio em consultorias tão especializadas que o próprio Eike gostaria de contratar para ver se acha petróleo e minério de ferro no Sarneyquistão.

TROFÉU SMILES

Vai para o governador do Rio, Sérgio Cabral, pelas milhas acumuladas em viagens de jatinhos privados e sorrisos amarelos para explicar enchentes mortais e fugas de bandidos “pacificados”. De brinde, uma Vuitton made in China: quando novo bueiro explodir, voará com ela.

BALA PERDIDA

A réplica do artefato favorito do Nem é dos burocratas do governo, tracejando por aí sem acertar o alvo da Copa de 2014 e das obras do PAC. A cerimônia poderá ser atrasada por tiroteio na Linha Amarela.

MICO DE LATA

É de Barbalho Jr., o menino que fechou o ano com uma careta em nome do pai. Entendemos o recado e prometemos troco, se o mundo não acabar em 2012. Feliz imposto novo, ops, Feliz Ano Novo! 

2011, O ANO DA FAXINA INTERNACIONAL

Essa foi para valer: a bruxa cega fez hora extra no expediente, varrendo do mapa cidades, celebridades, ditadores, terroristas, PIBs e PIBões. Derrubou ministros, adoeceu presidentes e só não destruiu a Grécia porque Eike Batista transferiu a Acrópole para a Bacia de Campos, mais suja que a lata de lixo do Planalto, que Dilma esqueceu de limpar. Mas a coluna juntou o rescaldo para confeccionar os tradicionais troféus do fim do ano. 

Quem recusar, manda para a China, que ela devolve baratinho.

SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: Réveillon na cidade será vigiado por 800 câmeras         

- Folha: Embraer vende aviões militares aos americanos       

- Estadão: Governo libera mais R$ 300 mi para aprovar Orçamento

- Zero Hora: A vida que começa 

- Correio Braziliense: Hoje é dia de virar a página e celebrar

- Estado de Minas: Emprego à vista

- Jornal do Commercio: Braços abertos para 2012

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Confusão na defesa comercial - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 30/12/11


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, continua conduzindo de forma atabalhoada a política brasileira de defesa comercial. Ele acaba de prometer um novo regime fiscal para a importação de têxteis e confecções, com o objetivo declarado de criar uma barreira contra produtos subfaturados ou importados em condições predatórias. "Já vi terno importado com valor de US$ 3 e até US$ 1,50, o que não paga nem o botão", disse o ministro, ao anunciar a substituição da tarifa cobrada sobre o valor do produto por uma taxa fixa sobre o quilo da mercadoria importada. No jargão profissional, será uma troca da alíquota ad valorem (aplicada sobre o valor) por uma ad rem (incidente sobre a coisa, isto é, sobre o bem material). A solução pode parecer atraente, mas é uma saída perigosa e tecnicamente ruim.

A preocupação com a concorrência movida por produtores de vários países emergentes, especialmente da China e de outros países da Ásia, é perfeitamente justificável. São igualmente justificáveis as dúvidas quanto às condições de formação de preço nessas economias. Além disso, a mudança de um para outro sistema de tributação é, em princípio, legal e menos sujeita à contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC), do que a proteção adotada para a indústria automobilística no Plano Brasil Maior. Mas a medida é insatisfatória por mais de uma razão.

Do ponto de vista formal, cria uma complicação com os parceiros do Mercosul, porque toda a Tarifa Externa Comum do bloco é definida em termos ad valorem. Mesmo sem esse problema, a alteração do regime poderá custar caro ao País, porque a defesa baseada numa alíquota específica é muito grosseira e é geralmente evitada no comércio de bens industrializados. Outros governos serão tentados a retaliar de alguma forma ou a pressionar as autoridades brasileiras em busca de compensação.

Além do mais, o ministro da Fazenda parece um tanto confuso a respeito do assunto. Ao anunciar os preparativos para a aplicação das tarifas ad rem, mencionou a conversão dessa medida numa salvaguarda para o setor têxtil, semelhante à adotada para a indústria de brinquedos. Mas a política de salvaguardas, disciplinada pelo sistema internacional de comércio, é totalmente diferente. É aplicada por meio da elevação de tarifas ad valorem ou da criação de cotas. Para adotar essa política, as autoridades, depois de recebida a queixa, devem provar a ocorrência de um surto de importação gravemente danoso à indústria nacional. Segundo a associação da indústria têxtil, os números mostram tanto o surto - 40% de aumento da importação em um ano - quanto o estrago imposto à indústria local, com redução de 15% na produção de têxteis e de 4% na de roupas,

Se esse é o caso, o governo deve ter uma boa base para iniciar uma investigação. O próprio setor público deve dispor de importantes informações, a partir das licitações para a compra de uniformes militares. Durante anos, produtores baseados na China ganharam bom dinheiro fornecendo roupas e botas para as Forças Armadas do Brasil. Em agosto, ao lançar o Plano Brasil Maior, o governo prometeu uma vantagem de até 25% aos fabricantes nacionais.

Além de anunciar a mudança do regime tarifário para têxteis e confecções, o ministro Guido Mantega indicou a disposição de adotar medidas semelhantes para outros setores. Se o fizer, meterá o País numa enorme e custosa trapalhada. O Ministério da Fazenda tem atropelado os órgãos especializados em comércio internacional, como a Camex e o Ministério de Relações Exteriores, e vem-se enredando numa perigosa confusão entre defesa comercial, política industrial e protecionismo dos mais grosseiros. Governos devem manter a defesa comercial como atividade permanente, baseada em critérios técnicos e conduzida por funcionários especializados. Numa economia grande como a brasileira, isso requer uma estrutura mais complexa e mais ampla do que a disponível até hoje. O voluntarismo é incompatível com as necessidades e ambições da sexta maior economia do mundo - ou de qualquer uma com vocação para crescer e ganhar importância global.

Quem pode julgar o juiz? - NELSON MOTTA


O Globo - 30/12/11



Quando se fala desse assunto deve-se pesar muito bem cada palavra. Basta algum juiz de qualquer lugar achar que há algo de errado, ofensivo ou calunioso nelas, e você pode ser processado. E pior, o processo vai ser julgado por um colega do ofendido. Com raras exceções, jornalistas processados por supostas ofensas a juízes são sempre condenados por seus pares.

Sim, a maioria absoluta dos juízes é de homens e mulheres de bem, mas eu deveria consultar meu advogado antes de dizer isto: o corporativismo do Judiciário no Brasil desequilibra um dos pilares que sustentam o Estado democrático de direito. Basta ver os salários, privilégios e imunidades. A brava ministra faxineira-chefe Eliana Calmon está sob fogo cerrado da corporação por defender os poderes constitucionais do Conselho Nacional de Justiça e chamar alguns juízes de "bandidos de toga". Embora não exista melhor definição para Lalau e outros togados que aviltam a classe.

Como um sindicato de juízes, a Ajufe está indignada porque a ministra Eliana é contra os dois meses de férias que a categoria tem por ano, quando o resto dos brasileiros tem só um (menos os parlamentares, que têm quatro). Se os juízes ficam muito estressados e precisam de dois meses "para descansar a mente, ler e estudar", de quantos meses deveriam ser as férias dos médicos? E das enfermeiras? E aí quem cuidaria das doenças dos juízes?

"Será que a ministra diz isso para agradar a imprensa, falada e escrita? Para agradar o povão?", questiona a Ajufe. Como não é candidata a nada, as posições da ministra têm o apoio da imprensa e do público porque são éticas, republicanas e democráticas. Porque o povão, e a elite, julgam que são justas.

Meu avô foi ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado pelo presidente JK em 1958, julgou durante 15 anos, viveu e morreu modestamente, entre pilhas de processos. Suas únicas regalias eram o apartamento funcional em Brasília e o carro oficial. Não sei se foi melhor ou pior juiz por isto, mas sempre foi para mim um exemplo da austeridade e da autoridade que se espera dos que decidem vidas e destinos.

Crescimento exige medidas estruturais - GUSTAVO LOYOLA


O Estado de S.Paulo - 30/12/11

Há várias lições que podem ser extraídas da atual crise europeia. Sem dúvida, o excesso de endividamento de países como Grécia, Portugal e Itália, entre outros, é um dos maiores pecados por trás dos problemas sofridos pela zona do euro. Mas a causa raiz dessas dificuldades é a incapacidade da maioria das economias europeias de trilhar um caminho de crescimento sustentado.
No momento imediato, o mais importante é deter a progressão da crise no mercado de títulos soberanos e evitar a eclosão de uma crise bancária sistêmica que pode ser devastadora. Por isso é indispensável que o financiamento das dívidas dos países ainda solventes não seja interrompido como efeito do agravamento das incertezas no mercado financeiro. A atuação decidida do Banco Central Europeu como "emprestador de última instância" aos bancos europeus, aliada ao uso de recursos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e do FMI no refinanciamento dos países afetados, pode se prestar a este papel.
Porém, ainda que indispensáveis, as ações de "pronto-socorro" acima citadas devem ser encaradas como de efeito transitório, destinadas tão somente a comprar tempo para a adoção de medidas de ajuste estrutural que definitivamente possam afastar o risco de "default" da dívida soberana de Itália, Espanha e Portugal. Essas medidas devem abranger não só ações no campo fiscal - corte de despesas, aumento de impostos -, mas principalmente reformas que beneficiam o crescimento econômico sustentável das economias do euro.
A reduzida capacidade de crescimento de muitos dos países europeus ocidentais é consequência direta da persistência de instituições envelhecidas e incompatíveis com as necessidades das economias capitalistas no mundo contemporâneo, caracterizado pela globalização que exacerba as pressões competitivas. As regras rígidas que disciplinam o mercado de trabalho e os regimes previdenciários excessivamente tolerantes contribuem para o baixo crescimento da produtividade e para as altas taxas de desemprego, que atingem notadamente os mais jovens. Além disso, uma pesada burocracia é um fardo para os negócios e desincentivo para os investimentos. Tais pecados se tornaram ainda mais mortais no contexto da união monetária, já que os países menos eficientes não podem se utilizar da muleta do câmbio desvalorizado para preservar sua competitividade.
A adesão à Comunidade Europeia e, depois, à zona do euro foi para as economias periféricas da Europa uma oportunidade única para reduzir as disparidades de renda em relação a economias mais avançadas como a Alemanha. De fato, houve avanços importantes nas últimas décadas, como qualquer visitante à Espanha, Portugal ou Grécia pode constatar. Mas embora tenha sido abundante a colheita dos frutos da estabilidade e da redução dos prêmios de risco, houve pouco aprofundamento das reformas para assegurar a continuidade do crescimento após esgotados os benefícios da adesão ao mercado comum e à moeda única. A prodigalidade fiscal se tornou o sintoma mais grave da paralisia política ante os desafios da reestruturação da economia para competir na nova realidade da união monetária.
Independentemente do seu desfecho, o Brasil deve extrair da atual crise da zona do euro a lição de que o crescimento sustentado depende de reformas microeconômicas e do contínuo aperfeiçoamento institucional. A boa fase da economia brasileira nos últimos anos é resultado de relevantes mudanças institucionais introduzidas em nosso país, notadamente a partir da estabilização da moeda em 1994. Contudo, nos últimos anos, observa-se uma tendência preocupante de acomodação do governo, que praticamente abandonou iniciativas visando a aumentar a capacidade de crescimento do País no longo prazo. O que se vê, com frequência, são estímulos à demanda ou políticas de oferta que respondem a interesses setoriais imediatos, não necessariamente melhorando o ambiente geral dos negócios e favorecendo o aumento da taxa de investimento. Em algum momento essa estratégia pode dar errado, como nos ensinam os percalços atuais da Europa.

GOSTOSA