domingo, novembro 27, 2011

O vazamento - MARCELO GLEISER



FOLHA DE SP - 27/11/11
Toda exploração nos limites do conhecimento envolve riscos enormes. A do pré-sal não será diferente
Aconteceu o primeiro desastre sério da história recente da exploração petrolífera da costa do Rio. Cheguei aqui nesta semana e fiquei horrorizado com as manchetes sobre o vazamento de óleo no campo de Frade, em poço explorado pela Chevron na bacia de Campos, a 370 quilômetros do continente.
O vazamento ocorre a uma profundidade de 1,2 km e, até quarta-feira, havia liberado, segundo a empresa, em torno de 2.500 barris após 15 dias. Existem disparidades entre o que a ANP (Agência Nacional de Petróleo), os observadores da ONG SkyTruth e os porta-vozes da Chevron andam dizendo.
Segundo a SkyTruth, o vazamento foi de cerca de 15 mil barris, muito superior ao declarado pela companhia. Enquanto a Chevron diz ter engajado 18 navios em rodízio para a limpeza da região, a Polícia Federal do Rio diz que havia apenas um. Para piorar, a empresa contratada para perfurar o poço, a Transocean, é a mesma que operava a plataforma Deepwater Horizon, responsável pelo maior vazamento da história americana, no golfo do México, no ano passado.
Consequentemente, a ANP suspendeu as atividades da Chevron no Brasil e negou à companhia a possibilidade de perfurar novo poço para explorar a camada do pré-sal. Com uma reserva estimada em 50 milhões de barris, o pré-sal é uma das maiores descobertas dos últimos 30 anos. Não é coincidência que, quando voo para o Rio hoje, noto que uma fração razoável dos passageiros trabalham para a indústria petrolífera e suas subsidiárias.
Com o aumento da população mundial e, consequentemente, do consumo de petróleo e seus derivados, fica cada vez mais difícil achar reservas de fácil exploração. Mas o pré-sal realmente bate todos os recordes. Com profundidade de 6 a 7 quilômetros da superfície e passando por uma camada de sal com espessura variando de 200 metros a 2 quilômetros, a extração será extremamente difícil, desafiando a tecnologia atual.
Desde que ouvi falar do pré-sal pela primeira vez, tenho tido pesadelos sobre a possibilidade concreta de desastres ecológicos de dimensões catastróficas, capazes de comprometer a costa do Brasil desde o Espirito Santo até Santa Catarina.
Ouvimos muito sobre a euforia da descoberta e sobre como é viável a extração do petróleo sob essas condições complicadas, mas muito pouco sobre medidas tomadas caso vazamentos ocorram, o que me parece inevitável. Toda exploração nos limites do conhecimento envolve riscos enormes. O pré-sal não será uma exceção para esse fato.
Enquanto outras economias debatem como ir além do uso de combustíveis fósseis, o Brasil, com sua vasta rede hidrelétrica e potencial solar e eólico, parece estar querendo ir para trás. Claro que todos querem os royalties que vêm da exploração do petróleo, sempre com a visão do lucro a curto prazo. Mas acidentes como esse, no campo de Frade, mostram os perigos da exploração desenfreada e sem medidas rígidas de controle.
O pré-sal pode vir a ser a galinha dos ovos de ouro do Brasil. Vale lembrar que, na fábula de Esopo, o dono da galinha, ganancioso e impaciente, acaba por matá-la para pegar os ovos que acreditava ter no ventre. E acaba sem nenhum.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".

F-1! Hoje o Galvão bota um ovo! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 27/11/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República!

Festival da Piada Pronta. "Câmara Municipal de Belo Horizonte aprova o Dia da Feijoada." Autor do projeto: Edinho do Açougue.

"Comer rápido aumenta chance de ficar obeso", afirma Ian MacDonald.

E mais essa: "Doutor Paulo Gallo inaugura Centro de Fertilidade". O Gallo vai botar as colegas pra botar ovo. Rarará!

E adorei a charge do Aroeira: sabe o que a Dilma vai fazer com o Lupi? Vai apertar, mas não vai acender agora. Rarará! Só em janeiro de 2012.

E as meninas da Fina Estampa de Bueiro usam tanto botox que ficam parecendo égua de charrete.

A Christiane Torloni tá a cara de uma égua de charrete, a Renata Sorrah tá a cara do Serguei quando ele tinha 20 anos, e a Eva Wilma parece uma bola de Natal!

E hoje é dia do GP Brasil! Aquela zoada de pernilongo, zuum, zuuum, zuuum. Hoje o Galvão estrebucha. O Galvão vai transmitir a F-1?

Transmitir é modo de dizer, o Galvão vai GRITAR. Vai gritar mais que galinha com o ovo atravessado! Rarará!

E o Rubinho vai correr? Correr, não. Vai participar. Rarará!

E os dois pilotos brasileiros? São o Felipe Amassa e o Rubinho Barriquebra!

E eu não tô torcendo pro Rubinho ganhar, eu tô torcendo pro Rubinho fazer alguma coisa engraçada. Porque ele é o nosso anti-herói! Ele devia correr de táxi! Eu pago a corrida. Rarará!

E o Berlusconi, o nosso Maluf pornô! Acaba de lançar um CD com musicas eróticas, ops, euróticas.

E o Silvio Berlusconi cantando "Volare": "Trepare, ôôôô, cantare, ôôôô, meu pinto é pintado de azul". Rarará!

"Volare" na versão berluscônica: "Trepare"! E esst: "Berlusconi arrolou Cristiano Ronaldo e George Clooney como testemunhas de defesa" em seu processo.

O Berlusconi arrolou o Cristiano Ronaldo? Até o Cristiano Ronaldo? O Berluscome realmente não poupa ninguém. Rarará!

E eu queria convidar o Alckmin Picolé de Chuchu para uma festa que arrasta multidões: Carnametrô! De segunda a sexta. Das 18h às 20h30! Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

HITCHCOCKIANA - LUIS FERNANDO VERISSIMO



O GLOBO - 27/11/11


Ele gritou:

– Janela Indiscreta!

Ela:

– O quê?

– O filme que você está vendo. Posso ver a sua televisão daqui.

Os fundos dos dois apartamentos davam para o mesmo poço. Mesmo andar. Da área de serviço de um se via tudo do outro.

Ele:

– Adoro o Hitchcock.

Ela:

– Eu também.

Já tinham se visto no elevador. Ela morava com uma amiga que nunca aparecia.

– Qual é o seu Hitchcock favorito?

– Estou vendo Janela Indiscreta pela décima vez. Mas acho que meu favorito é Um Corpo que Cai. O seu?

– Os Pássaros.

Ela fez uma cara feia.

Dias depois se encontraram na loja de vídeos.

– Olha o que eu achei – disse ele.

Era Notorius. Aquele em que a Ingrid Bergman e o Cary Grant se encontram na Cinelândia e concordam que o Rio é muito chato. Ela mostrou o filme que tinha alugado. Os Pássaros. Ia rever para ver se desta vez gostava.

– Você não precisa gostar só porque eu gosto.

– É por boa vizinhança – disse ela, rindo.

Naquela noite conversaram, área de serviço a área de serviço. Ele disse que o Notorius tinha envelhecido um pouco. E ela, o que achara de Os Pássaros?

– Sei não... – disse ela.

– Vamos ter que vê-lo juntos.

Foi na noite seguinte. Apartamento dela. A amiga, diplomaticamente, no seu quarto. Os dois na sala. Os Pássaros, argumentou ele, é o filme metafísico do Hitchcock. O único filme de terror na história do cinema sem monstros e sem vilões. O vilão é o mundo, é a natureza reagindo ao homem, uma ordem pré-humana se...

Antes de ele terminar a frase já estavam se beijando. Nem chegaram a colocar o DVD.

Passaram a se encontrar quase todas as noites. Só viam Hitchcock. Às vezes discutiam, “Topázio é um Hitchcock menor!”. “O quê? O quê?!”. Passavam alguns dias sem se ver. Aí ele batia na porta dela com uma raridade (Sabotagem, por exemplo) e faziam as pazes. Até que um dia a amiga saiu do quarto e ele viu que se tratava de uma loira irresistivelmente hitchcockiana, e se apaixonou, apesar da loira dizer que seu filme favorito era Ghost. Ele tentou explicar sua traição (“Eu sou coerente! Eu sou coerente!”) mas não adiantou. Foi morto com uma tesourada, como em Disque M para Matar. 

GOSTOSA


A coisa ficou preta na sexta - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 27/11/11

Parte do comércio brasileiro macaqueia jornada típica das lojas e das festas americanas

A coisa ficou preta na sexta-feira passada. Ou deu branco? Agora a gente tem "Black Friday" no Brasil, "Sexta-Feira Preta". Negra? Um pessoal do marketing do comércio é quem diz.

"Black Friday" é mais um dia indução pavloviana ao consumo nos Estados Unidos, um dos dois ou três em que o comércio mais vende.

Fazia tempo que não tínhamos uma novidade assim extravagante em termos de macaquice provinciana. A "Sexta-Feira Preta" parece vacuidade ainda mais tola que aqueles letreiros de "sales" (liquidação).

A "Black Friday" é a sexta em que a coisa fica preta no trânsito de cidades americanas, pois um dia feriado, mas também de promoções nas lojas, poucas semanas antes do Natal. Um tumulto.

Foi chamada de "black" como preta ou negra foi a "Black Tuesday", a terça-feira do crash da Bolsa de Nova York de 1929, por exemplo. Ruim.

A "Black Friday é o que é por se tratar da sexta após o feriado de Ação de Graças (sempre às quintas, nos EUA), um dos raros dias em que os americanos podem "emendar".

Por fim, Ação de Graças ("Thanksgiving") é uma data típica americana, também por relembrar uma espécie de mito de fundação do país. É um dia raro ainda porque as famílias, dispersas pelo país imenso, se reencontram. Todo mundo já viu essa festa do peru em algum filme.

Mas não é festa aqui. Não é feriado. Não é neres de nada.

Quem acusa o provincianismo alheio muita vez pretende passar por superior em assuntos de modos e maneiras, coisas que, no fundo, são apenas questões de gosto.

Lá no Brasil, onde este colunista nasceu (Rio de Janeiro), as crianças pediam doces no dia de São Cosme e Damião (who?). Por que seria condenável pedir "candies" fantasiado de bruxa do Halloween?

Porém a macaquice não raro revela vacuidade intelectual ou cultural, uma incapacidade de inovar, tal como ocorre com as ideias ou as empresas do Brasil.

Ou, então, um desejo de renegar, de modo nada criativo, sua identidade, por vezes desprezada no próprio país. Esse parece o caso de quem, enriquecido e desgostoso da imagem do caipira tradicional, vira dançarino de quadrilha texana.

Há decerto macaquice mais gratuita, como os letreiros em inglês do comércio rico paulistano, os "medical centers", os "offices". Até os anos 1990, havia em São Paulo um restaurante italiano famoso que apresentava, na entrada, em neon, seu nome "naturalmente" italiano, seguido logo abaixo da expressão "italian food" (comida italiana).

Mais recentemente, reapareceu uma versão simétrica da macaquice: nos definirmos pelos estereótipos estrangeiros do nosso exotismo.

Com a moda gastronômica, dos produtos "da terra" e a "globalização" do Brasil, recebemos mais cozinheiros ("chefs") do exterior. Então os chefs pedem ingredientes "brasileiros": frutas da Amazônia. Sim, os amazônicos são brasileiros, mas suas frutas são desconhecidas de 90% do Brasil.

Claro, não precisamos apelar e nos limitarmos a lembrar a farinha de mandioca. Fubá. Feijoada. Rapadura. Mas "macarrão a bolonhesa", churrasco, sushi e esfirra são alguns dos pratos mais brasileiros do centro-sul do Brasil.

Mas "Black Friday"? Indeed?

Niemeyer, o aríete para arrombar o Aterro - ELIO GASPARI



FOLHA DE SP - 27/11/11

A poeta americana Elisabeth Bishop disse que "o Rio não é uma cidade maravilhosa, é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade". Quis o destino que sua namorada, Lota Macedo Soares, desse ao Rio uma de suas maravilhas: o Aterro do Flamengo. Sem Lota, ele poderia ter se transformado num relicário de feiúra semelhante às áreas contíguas às avenidas Marginais de São Paulo. Seu maior mérito foi blindar a obra paisagística, tombando-a.

De tempos em tempos, mãos invisíveis do mercado tentam tungar as terras do parque. Construíram um mafuá na Marina e, por pouco, não tomaram espaço para um centro de convenções. (Para essa área, o empresário Eike Batista tem um projeto.) Agora, apareceu a proposta de construção de uma casa de espetáculos com 3 mil lugares, anexa aos interesses da churrascaria Porcão existente no Aterro. Dourando a pílula, o projeto vem assinado por Oscar Niemeyer. A grife Niemeyer torna agradáveis até as caldeiras do inferno, mas o projeto da Porcão é apenas uma tentativa de avanço sobre o patrimônio da cidade.

O parque do Aterro, como o Central Park de Nova York, não comporta o movimento rotineiro de 3 mil pessoas em direção a um só ponto. (A menos que elas venham pelo mar, deixando seus carros dentro d''água.) Dona Lota blindou o Aterro da mesma forma que Niemeyer blindou suas construções de Brasília. Lá, não se pode trocar um sofá do Alvorada sem licença de seu escritório de arquitetura. Em 2009, o governador José Roberto Arruda atraiu a grife Niemeyer para a construção de uma "Praça da Soberania" numa ponta da Esplanada dos Ministérios. Nela, seria erguido um obelisco de 100 metros. Felizmente, o projeto foi ao arquivo.

Para que se construa uma casa de shows ao lado da churrascaria do Aterro, será necessária autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e seu superintendente já disse que isso é "impossível". A lei é clara, mas os interessados não entrariam no jogo se não contassem com alguns apoios estranhos à paisagem. No caso da Marina, por pouco não chegaram lá.

Ficará tudo muito bem se o projeto for transferido para outro lugar. Afinal, toda cidade precisa de mais uma casa de espetáculos. O Aterro é que não precisa.

Hospital de grife? Louis Vuitton

A elite do empresariado carioca está passando o chapéu para a construção, na cidade, de uma sucursal do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Coisa de gente grande, como Armínio Fraga e Olavo Monteiro de Carvalho.

A ideia é boa porque um hospital é sempre melhor que nenhum hospital. Pretende-se abrir uma instituição que atenda ao andar de cima (com bons planos de saúde) e faça procedimentos de alta complexidade (que são lucrativos mesmo quando o paciente é do SUS). Falava-se num investimento de R$ 450 milhões e já se fala em R$ 600 milhões.

Mesmo sendo boa, a ideia estimula a tendência que degradou a medicina do Rio. Até os anos 60, a cidade tinha uma grande medicina privada, com os dois pés na Universidade do Brasil, atual UFRJ, e uma boa medicina pública. O melhor hospital do país era o dos servidores. Ortopedia? Miguel Couto. Cirurgia geral? Ipanema, Andaraí ou Lagoa. Havia também um grande projeto: o das Clínicas do Fundão. Sucatearam quase tudo. Enquanto isso, em São Paulo, a mesma medicina saída da universidade vitalizou as Clínicas e criou o Incor (versão 1.0). Esse ambiente gerou uma grande medicina privada e hospitais como o Einstein e o Sírio. A recíproca não é verdadeira: Einsteins e Sírios não geram universidades nem medicina pública, aquela que atende a turma do SUS.

Steve Jobs tinha horror a filantropia. Ele dizia que quitava sua dívida social trabalhando e pagando impostos. Mesmo assim, a Apple juntou-se a grandes empresas do Vale do Silício e todas entraram com US$ 150 milhões para que Stanford construa um centro médico na universidade (uma conta de US$ 2 bilhões). Os hospitais universitários americanos atendem a patuleia do Medicaid (os indigentes) e do Medicare (os cidadãos com mais de 65 anos têm direito a 80% do custo do atendimento hospitalar, e quem contribuiu com US$ 100 mensais para o programa por mais de dez anos recebe atendimento médico adicional). Em Pindorama, quem tem mais de 65 anos em geral fica sem plano de saúde.

Quase todos os grandes hospitais universitários americanos tiveram e têm apoio de endinheirados. É sabida a dificuldade para se associar ações de filantropia ao corporativismo catastrofista que debilita a medicina e as universidades públicas nacionais. Se um sujeito entra no hospital público segurando uma perna e outro, com uma maleta, oferecendo R$ 10 milhões, desde que lhe digam o que se fará com seu dinheiro, meses depois o da perna sairá andando e o da maleta continuará lá. Os grandes empresários do Rio dispõem da colaboração de bancas de advogados capazes de criar instituições protegidas contra essa praga.

Se isso não for possível, paciência, mas, se o negócio é grife, pode-se criar o Hospital Louis Vuitton, no qual só se entra com alguma peça do maleiro da mulher de Napoleão III.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e teve mais uma ideia para resolver a crise da banca europeia. Quer colocar o empresário Silvio Santos na direção do Banco de Compensações Internacionais, com sede em Basileia.

O idiota ouviu o empresário dizer que "eu não sou obrigado a entender de perfumaria, de banco", e verificou o seguinte:

1) As fraudes no PanAmericano começaram em 2006.

2) Em dezembro de 2009, metade do banco foi vendida à Caixa por R$ 739,3 milhões.

3) No dia seguinte, a Viúva pagou uma primeira parcela de R$ 517 milhões.

4) Em julho de 2010, a empresa Silvio Santos Participações recebeu sua parte, que o cretino estima em R$ 200 milhões, numa negociação em que era representada por Wadico Bucchi, presidente do Banco Central de 1989 a 1990.

5) Em novembro de 2010, foi achado um rombo de R$ 2,5 bilhões, coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos. (O buraco viria a ser de R$ 4,3 bilhões.)

O idiota acredita que, nesse lance, Silvio Santos conseguiu receber da Caixa R$ 200 milhões, pela venda de um buraco que custou R$ 3,5 bilhões ao sistema bancário, que nada tinha a ver com a história.

Cara e coroa

O ministro Gilberto Carvalho, porta-voz político do atual governo (e do anterior), ensinou que, num regime presidencialista, quem demite ministro é o titular da Presidência da República. A tarefa não cabe aos partidos, muito menos à imprensa.

Isso já se sabia. O que o Planalto parece estar desprezando é o outro lado da moeda: quem mantém Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, Mário Negromonte no das Cidades, e o próximo entulho na biboca em que for apanhado, é Dilma Rousseff. Só ela.

De herege a profeta - MERVAL PEREIRA



O GLOBO - 27/11/11
A Academia Brasileira de Letras prestou uma homenagem, na última quinta-feira, ao economista Roberto Campos pela passagem dos dez anos de sua morte, a 9 de outubro de 2001, e eu fui o escolhido para falar sobre ele. Suas ideias continuam provocando polêmicas, embora antes de morrer tenha podido constatar que elas ganharam espaço no mundo globalizado. Uma de suas muitas frases, ele que foi um formidável fazedor de frases, pode definir bem a situação: "Estive certo quando tive todos contra mim."
Quase sempre foi assim com o controvertido Roberto de Oliveira Campos, economista, administrador público, pensador, diplomata (foi embaixador em Washington e em Londres) e político que, na definição do amigo Delfim Netto, "tinha o gosto pelo desafio, de preferência quando as circunstâncias lhe eram mais desfavoráveis".
Com a marca do polemista, ele discordava: "Não sou controvertido. Controvertido é quem controverte comigo."
Eleito para a Academia Brasileira de Letras em setembro de 1999 na sucessão do dramaturgo de esquerda Dias Gomes, após o que classificou como "uma ridícula batalha ideológica que, magnificada pela mídia, me transformaria numa ameaça à paz e a elegância deste cenáculo", Roberto Campos foi um gênio, na opinião de um de seus companheiros de geração, o economista Ernane Galvêas.
Outro economista de outra geração, seu discípulo, Paulo Rabello de Castro o define com quatro atributos: sua busca pela sinceridade, a disponibilidade para o serviço, seu horror à servidão e a fuga da solidão.
Roberto Campos considerava-se um liberista, que vê no governo um mal necessário.
Para ele, o sistema de economia liberal é o mais capaz de atingir minimamente três objetivos fundamentais que dificilmente se conciliam: eficiência econômica, liberdade política e equidade social.
"Liberismo" é uma expressão criada por um grande amigo de Campos e também acadêmico, José Guilherme Merquior, que a preferia a "liberalismo", para demonstrar que não era liberal apenas na política, mas também na economia.
Paulo Rabello atribui à sua "disciplina escolástica do seminarista que nunca deixou de ser" a impossibilidade de aceitar um conceito político, econômico ou moral que não fosse produto da mais dedicada e prudente elaboração intelectual, do emprego da melhor pesquisa empírica, da prudente contestação aos perigosos dogmas, do amor pela dúvida como método e do suor cognitivo pelo enunciado perfeito.
Conforme descrição de outro economista, Luiz Carlos Bresser Pereira, um liberal de esquerda que classifica Campos como um liberal conservador, a adesão imediata ao regime militar, do qual se tornaria seu primeiro ministro do Planejamento, trouxe para Campos uma série de contradições, principalmente porque os militares não tinham nada de liberal no plano político e, no plano econômico, eram menos liberais do que ele.
Roberto Campos com o tempo foi aprofundando sua crença liberista, que já lhe valera o apelido de "Bob Fields" e a fama de entreguista, como se dizia na época.
Em julho de 1959, com o presidente Juscelino Kubitschek ameaçando "romper com o FMI", em plena exacerbação nacionalista, Roberto Campos pôs para fora de sua sala do antigo BNDE, que ele criara e presidia, no Rio de Janeiro, uma comissão de "estudantes nacionalistas" que lhe fora exigir explicações sobre a posição favorável à participação de capitais estrangeiros na exploração do petróleo na Bolívia.
Perdeu o emprego, mas nunca deixou de ser fiel a JK, a quem ajudara a criar o Plano de Metas de seu governo. Ministro do Planejamento de Castello Branco, recusou-se a assinar a cassação de Juscelino.
Marcou sua atuação no plano nacional em combates memoráveis em que defendia o fim da reserva de mercado na informática, na exploração dos recursos minerais, ou a extinção dos monopólios de petróleo e telecomunicações.
Para ele, as grandes estatais pertenciam à família dos dinossauros, e, para elas, criou apelidos mordazes, como "Petrossauro" para a Petrobras.
São atribuídas ao ajuste fiscal que ele e Octávio Bulhões realizaram então e a reformas estruturais, como a tributária, a administrativa do decreto-lei 200, as bases para o "milagre econômico" que aconteceu entre 1968 e 1974.
Friedrich von Hayek, para Campos, era "o homem de ideias" que mais bravamente lutou, ao longo de duas gerações atormentadas, pela liberdade do indivíduo contra todas as modas totalitárias, do comunismo soviético ao nazismo."
Na definição de Roberto Campos, baseado em Hayek, a explicação para a permanência do capitalismo reside em ser o único sistema compatível com a liberdade do indivíduo.
Isso não impediu, porém, que Campos apoiasse o golpe militar de 64, convencido de que "a real opção era entre um autoritarismo de esquerda e um autoritarismo de centro-direita, que se dizia transicional. (...) Melancólicas veramente eram nossas alternativas nos primeiros anos da década dos 60, quando a Guerra Fria atingia seu apogeu: ou anos de chumbo ou anos de aço".
Campos também se encantou com o capitalismo de Estado da China, que classificou como "o mais excitante experimento de engenharia social de nosso tempo".
Roberto Campos foi senador durante oito anos, representando seu estado natal, o Mato Grosso, e depois duas vezes deputado federal pelo Estado do Rio. Mas não teve como político a importância que teve como economista.
Considerava sua experiência no Congresso marcada pelo fracasso e, enquanto a maioria festejava a aprovação, em 1988, da "Constituição Cidadã", ele a chamava de "anacrônica", remando mais uma vez contra a maré.
Na sua monumental autobiografia, "Lanterna na popa", editada pela Topbooks, comemorou o fato de que, devido aos acontecimentos do fim do século, especialmente o colapso do socialismo, a vitória das economias de mercado e o surgimento de uma onda mundial de liberalização, globalização de mercados e privatizações, passou de "herege imprudente a profeta responsável".

Chorando pelo óleo derramado - SÉRGIO AUGUSTO



O Estado de S.Paulo - 27/11/11


Não temos um plano de emergência para vazamentos de petróleo, mas sabemos discutir os royalties


Atenção banhistas de Ubatuba, Angra, Búzios e Guarapari: o petróleo da bacia de Campos não mais invadirá sua praia na próxima semana.

Essa é a boa notícia. Mas não custa se prevenir para a aparição de eventuais línguas negras nesses balneários, pois os envolvidos direta e indiretamente no vazamento no Campo de Frade mentem muito.

A má notícia é que a Chevron continuará atuando no Brasil. Suas atividades de perfuração foram suspensas temporariamente, mas não proibidas, pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A Chevron é sócia da Petrobrás naquele campo e, de certo modo, como a própria ANP, cúmplice no acidente. A Petrobrás porque não se mexeu a tempo e a ANP porque demorou a informar o governo do vazamento - assim como demorou 16 dias para suspender as atividades de perfuração da Chevron, quando é sabido que a primeira e imediata providência em acidentes dessa natureza é a suspensão instantânea das perfurações.

Há pouco mais de um ano escrevi aqui no Aliás o seguinte:

De olho no pré-sal, a petrolífera americana Chevron Corporation fez saber ao governo brasileiro que tem tecnologia e experiência para descobrir petróleo em qualquer profundidade. Já operando em dois pontos da Bacia de Campos, ela de fato tem know-how comprovado, ao menos em prospecções no pós-sal. Quem, porém, acompanha o noticiário atento a questões ambientais anda meio com o pé atrás com a Chevron. Por causa de um escandaloso processo, envolvendo a floresta amazônica. Não o nosso lado da floresta, mas o equatoriano, o que faz pouca diferença, pois em ecossistemas as fronteiras traçadas pelo homem são ainda mais relativas.

E aí falei da devastação que a Texaco, comprada pela Chevron em 2001, causara na região do Lago Agrio, um Chernobyl amazônico (70 bilhões de litros de água contaminada, epidemia de câncer e abortos em diversas comunidades indígenas) que havia inspirado o premiado documentário Crude, dirigido por Joe Berlinger, então em evidência.

A comparação com Chernobyl não era exagerada. Basta confrontar os 41 milhões de litros de crude (o petróleo em estado cru, antes do refino) derramados pelo petroleiro Exxon Valdez no Alasca, em 1989, com os 64 milhões de litros de crude sistematicamente despejados nas águas do Lago Agrio, ao longo de 30 anos. Numa área quase o triplo de Manhattan, a Texaco cavou 350 poços e deixou abertos mil buracos altamente tóxicos quando foi embora da Amazônia equatoriana, em 1992.

Exagerado, sim, foi o processo que a Chevron, responsável pela Texaco, impetrou contra Joe Berlinger. Condenada a pagar US$ 8 bilhões às vítimas do desastre no Equador, a Chevron, que eu saiba, continua procrastinando. Mantém um exército de advogados para defender seus interesses nos tribunais e uma catervagem de lobistas (só este ano contratou mais 39, em geral gente saída do governo) para fazer relações-públicas e seduzir políticos, magistrados e jornalistas.

O que são US$ 8 bilhões para uma empresa que, apenas no ano passado, faturou US$ 200 bilhões? A multa que a ANP aplicou na Chevron pelo vazamento no Campo de Frade, ainda que alcance os estimados R$ 260 milhões, também é irrisória.

Nessa semana, a expert em problemas energéticos Tara Lohan, editora da revista eletrônica Alternet.com, elegeu a Chevron a pior (no sentido de mais danosa ao meio ambiente) empresa de energia do ano, à frente da Exxon Mobil e da BP (responsável por aquele vazamento no Golfo do México, no ano passado). "As corporações tóxicas que governam a América", intitulava-se a reportagem, que, de tão suculenta, ganhou repercussão na Salon.com. de terça-feira.

Lohan não exagera ao afirmar que a Chevron, a Exxon, a BP, as indústrias dos irmãos Charles e David Koch e a Massey Energy, os cinco mamutes da indústria de petróleo, carvão e gás, mandam e desmandam em seu país. Paradigmas da ganância corporativa, que põe o lucro acima da vida humana e do desaquecimento global, há anos que, nem sempre de forma sutil, envenenam lentamente o ar que respiramos, a água que bebemos e os alimentos que consumimos.

Gastam fortunas em campanhas publicitárias para limpar sua barra e sujar a da Agência de Proteção ao Meio Ambiente (EPA) dos EUA, em campanhas eleitorais e em tudo que possa afetar a adoção de leis favoráveis aos seus interesses e lenientes com a irresponsabilidade corporativa. "Investir em político ainda é a melhor aplicação para essas empresas", assegura o advogado conservacionista Tyson Slocum. "São os políticos que enfrentam, no Congresso, a pressão dos ambientalistas." De preferência os políticos republicanos, que ficaram com 75% da verba de US$ 779 mil destinada ao "mercado legislativo" em 2010.

Slocum é uma das bêtes noires dos godzillas energéticos. Outro é o biólogo Richard Steiner, da Universidade do Alasca, especialista em poluição de oceanos, boicotado a torto e a direito, a quem a ANP já deveria ter consultado sobre como combater os malfeitos das exploradoras de petróleo marítimo.

Pois essa, agora, é a grande questão. Acidentes acontecem e é muito mais difícil, senão impossível, preveni-los sem rigorosa fiscalização e com métodos de exploração obsoletos e análises sísmicas incompetentes. Não temos um plano nacional de emergência para vazamentos e só pensamos em discutir a questão dos royalties, "com a excitação com que algumas famílias debatem o testamento de um tio bilionário", como bem observou Fernando Gabeira.

Não adianta chorar o óleo derramado, mas exigir franqueza e transparência é o mínimo que podemos fazer. Indagado sobre quanto dos US$ 5 bilhões que a Chevron pretende investir no Brasil seria aplicado em segurança e previsão de acidentes, o presidente da Chevron no Brasil, George Buck, respondeu: "Não temos essa informação". Se ele não tem, quem a tem? Só o CEO da Chevron?

Indagado sobre o valor a ser investido pela Petrobrás na segurança do pré-sal, seu presidente, José Sérgio Gabrielli, respondeu: "Isso é absolutamente irrelevante". Até quando o será?

Um caminho diferente? - LEÔNCIO MARTINS RODRIGUES


O Estado de S.Paulo - 27/11/11


Com a transferência do poder para o irmão mais moço, Raúl, Fidel Castro deu aparência de sobrevida ao socialismo cubano. Mas o que acontecerá quando o comandante supremo morrer? A resposta é fácil: desaparecerá, como aconteceu com todos os regimes socialistas que foram implantados no século 20 (a exceção está sendo a Coreia do Norte, talvez porque o herdeiro continue vivo).

Marx profetizara que regimes socialistas seriam resultado do próprio desenvolvimento das forças produtivas e da ação revolucionária da classe operária. O próprio jogo do mercado levaria à crise do capitalismo e à revolução proletária. Mas o socialismo nunca foi uma fatalidade econômica. Resultou sempre de um ato de vontade política de chefes, comandantes ou guias que visavam o poder total.

É claro - para reservar algum espaço para o materialismo histórico - que certas "condições objetivas e subjetivas" são necessárias para o êxito de ações revolucionárias. Uma delas é a hegemonia, na sociedade, de sistemas de valores que deixam pouco espaço para uma cultura cívica, para o individualismo, para o empreendimento e para a cidadania. Junto vêm a adoração do Estado e a crença de que as sociedades mudam por decreto.

Examinemos, a voo de pássaro, o aparecimento dos regimes socialistas mais importantes do século passado.

O primeiro, naturalmente, é o da Revolução de Outubro, na Rússia. A mistificação comunista transformou em revolução operária e camponesa o levante armado bolchevista de 1917. A decisão do assalto ao poder, com data marcada de antemão, foi decidida por dez pessoas na famosa reunião do Comitê Central de 10 de outubro (calendário russo). No dia 24, o Governo Provisório foi derrubado por um golpe militar dirigido pelo partido bolchevique. Não houve nenhuma participação popular, apenas uma gigantesca bebedeira em Petrogrado (então capital russa, atual São Petersburgo): a adega do czar caíra em poder dos soldados.

O segundo caso de socialismo que cumpre mencionar é o da China Popular. Também nesse caso a classe operária esteve ausente. Foi o exército revolucionário dirigido pelo Partido Comunista chinês que, em 1948, implantou o novo regime, sob a chefia do "grande timoneiro" Mao Tsé-tung.

No caso das democracias populares da Europa Oriental, o socialismo foi imposto de fora, pela União Soviética (URSS). A exceção foi a Iugoslávia. Mas não surgiu de uma revolução operária ou sublevação popular, mas da guerrilha liderada pelo general Josip Tito. No Vietnã o socialismo veio também pela via guerrilheira de Ho Chi Minh.

O caminho que levou ao socialismo cubano não diferiu essencialmente dos seus congêneres europeu e asiático. Em 1953, com apenas 113 combatentes, Fidel Castro organizou a sua primeira tentativa de chegar ao poder. O assalto aos quartéis de Moncada e Bayamo malogrou. Mas Fidel não desanimou. Em dezembro de 1956, com 81 homens, tentou novamente.

Explicitamente pelo menos, a meta castrista não era eliminar o capitalismo, mas derrubar a ditadura do ex-sargento Fulgencio Batista, que não era visto com simpatia pela elite cubana. Por isso os democratas cubanos, boa parte da classe alta (de onde provinha o próprio Fidel), e até mesmo a opinião pública dos Estados Unidos apoiaram a luta anti-Batista. O socialismo foi implantado pelas costas do povo. À noite, na residência de Che Guevara, um pequeno grupo preparou secretamente os decretos de estatização da economia e de transformação de Cuba num país socialista. Quando o trabalho terminou, todo o poder fora transferido para Fidel.

Deixando de lado a mistificação ideológica, o modo de implantação do socialismo é o mesmo em toda parte. Primeiro, sob a chefia de um líder supremo, um pequeno grupo de aventureiros (intelectuais revolucionários, na maioria) dirige o assalto do poder. Depois, constrói-se o socialismo. Nunca o novo regime resultou da chamada "ação das massas". Manifestações populares de apoio vêm posteriormente, sob a farsa da democracia direta.

A esquerda vê em mobilizações feitas de cima, depois da tomada do poder, a prova do apoio ao regime e de seu lado popular. Acontece que na época da política de massas, para dar alguma legitimidade a ditadores que se levantam contra as elites tradicionais, grandes mobilizações devem ser realizadas. Benito Mussolini foi um dos primeiros a usá-las. Getúlio Vargas e outros souberam imitá-lo. Naturalmente, certa distribuição paternalista de benefícios coletivos aos assalariados se deve seguir.

Sem dúvida, há diferenças entre o caso do socialismo cubano e os europeus e asiáticos. Na ilha, o Partido Comunista não teve nenhuma importância, os comandantes guerrilheiros sempre estiveram acima dos apparatchiks comunistas que não lutaram na Sierra Maestra. Na ausência dos intelectuais ou subintelectuais marxistas, as intermináveis discussões ideológicas, como as que existiram na URSS, não ocuparam o mesmo espaço na edificação do socialismo cubano. A mística da revolução substituiu a da classe operária. Por fim, a situação de subdesenvolvimento e a presença próxima dos Estados Unidos propiciavam sentimentos nacionalistas, que não foram fortes nos outros casos.

Trotsky declarou certa vez que sem Lenin não haveria Revolução Russa. Poderíamos dizer também, com muito menos possibilidade de errar, que sem Fidel não haveria socialismo em Cuba. Mas poderá haver após sua morte? Sem o comandante máximo, quanto tempo levará para chegar ao fim o regime que ele criou?

O retorno ao capitalismo, na verdade, começou depois do fim da URSS. Mas, como mostra o exemplo de outros países ex-socialistas, o retorno à democracia é bem mais complicado.

Quem sai, quem chega - ELIANE CANTANÊDE


FOLHA DE SP - 27/11/11

BRASÍLIA - A o advertir que o PSDB não tem candidato e sugerir uma aliança com o PSD para eleger o vice-governador Afif Domingos à Prefeitura de São Paulo, José Serra causou uma baita confusão. Ele, porém, só disse que "o rei está nu".

Serra não falou nenhuma mentira nem algo que as torcidas do Corinthians, do Palmeiras e do Santos já não soubessem. Quem tem quatro candidatos não tem nenhum.

De quebra, admitiu enfim, implicitamente, que há muito mais envolvimento dele com o PSD dos aliados Gilberto Kassab e Afif Domingos do que eles haviam assumido antes.

Se o próprio Serra não for candidato, o PSDB estará em situação bem desconfortável, apesar de governar o Estado há 16 anos e de Geraldo Alckmin ser um bom cabo eleitoral.

Ou o partido apoia o PSD na cabeça de chapa ou tem de transformar um dos quatro não candidatos em candidato. Sem garantias. O fenômeno Kassab, que saiu da lanterninha e ganhou, não acontece todo dia.

Ainda falta uma eternidade para a eleição, mas o horizonte projeta uma campanha tucana atrapalhada, assustada e cheia de divisões internas contra uma campanha unida, liderada por Lula, alimentada por Dilma e envolta pela aura da renovação.

Lula já era um eleitor forte e, com o câncer e a careca, tornou-se fortíssimo. Dilma passou a ter força política. Juntos se preparam para eleger "até um poste", imagine um ministro da Educação jovem, bonitão e virgem na política como Fernando Haddad.

Quem pode embaçar essa projeção é o peculiar Gabriel Chalita, que tem o PMDB, a simpatia não disfarçada de Alckmin e a jovialidade de Haddad. O PT vai fazer tudo para engolir Chalita e compor com o PMDB.

Se eles se unirem e Haddad vencer, Lula estará derrotando o PSDB na sua principal fortaleza e já moldando a cara e o futuro do PT. Eleito, Fernando Haddad passará a ser um nome natural na lista de opções para a eleição presidencial de 2018.

Emprego pior - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 27/11/11


Dados relativos ao mercado de trabalho indicam que desaceleração da economia já afeta oferta de vagas e rendimento do trabalhador

A perda de ritmo da economia começa a afetar o mercado de trabalho. Se o crédito, o consumo e a indústria vinham desacelerando desde o primeiro semestre, observam-se agora sinais de queda do dinamismo nas contratações.

A pesquisa mensal do emprego do IBGE mostra que a taxa de desocupação permanece em 6% há vários meses, valor próximo do mínimo histórico. Mas por trás dessa aparente estabilidade esconde-se uma realidade menos favorável. A criação de novas vagas vem desacelerando. Caiu de 4% ao ano, no fim de 2010, para apenas 1,5% em outubro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

Por sua vez, o crescimento da renda real dos trabalhadores (já descontada a inflação) também perde força. De 4%, em média, no primeiro semestre, chegou a quase zero em outubro. Parte da desaceleração decorre da inflação mais alta no início do ano, que corrói os salários, mas não deixa de ser surpreendente que se verifique com tanta intensidade num contexto de desemprego ainda baixo.

Os dados relativos à criação de vagas formais, divulgados pelo Ministério do Trabalho, mostram padrão similar. Em outubro, gerou-se menos da metade das vagas da média do primeiro semestre, num patamar comparável ao do período 2004-2006, que precedeu a aceleração do crescimento da economia durante o segundo mandato do presidente Lula.

O emprego é um dos últimos indicadores a reagir ao processo de perda de força da economia. Custos de contratação e demissão levam as empresas, em geral, a esperar sinais de confirmação de uma tendência antes de decidir alterar o quadro de pessoal. Por isso, mudanças de padrão no comportamento do mercado de trabalho tendem a ser duradouras.

É digno de nota que a criação de emprego volte ao padrão anterior ao da euforia do período 2007-2010. E não parece ser coincidência que o crescimento do PIB se encaminhe para 3% ao ano, se não menos, nível que, no Brasil, vinha sendo a regra há mais de duas décadas.

Será apenas uma desaceleração temporária, fruto do aperto nos juros no fim do ano passado e da piora do cenário global? Ou se trata de uma evidência de esgotamento de algumas forças que impulsionaram a economia nos últimos anos, como o boom do crédito e dos preços em alta das commodities?

O tempo dirá. Por ora, o governo se move, cortando juros, afrouxando o crédito e liberando novas dívidas nos Estados para investimentos. Se a crise externa se agravar, possivelmente novas medidas virão. Fica, no entanto, a dúvida se o país conseguirá, com novos estímulos, gerar crescimento alto e sustentável, com aumento dos investimentos, ou se colherá apenas um pouco mais de inflação.

Corda bamba - UGO GIORGETTI


O Estado de S.Paulo - 27/11/11


O Corinthians deve ganhar este Campeonato Brasileiro. Não vou torcer por isso, mas não posso deixar de torcer pelo Tite. O que no fundo é a mesma coisa, porque se o Corinthians realmente ganhar o torneio foi porque sua diretoria, num lance extremamente inteligente, firme e clarividente, bancou o Tite depois daquele fiasco na Libertadores. Foi uma atitude exemplar reconhecendo que a culpa não é sempre do treinador. Deu no que estamos vendo. Com um time apenas bom, sem nenhum jogador excepcional, Tite leva o time às portas do título.

Na minha opinião Tite, com título ou sem, é o grande treinador deste campeonato pela maneira como enfrentou as contestações e os contestadores que não param de ressurgir à primeira derrota. O segundo melhor treinador do campeonato é o Caio Junior. Pegou um Botafogo menos que médio, com vários jogadores dispensados de outros clubes, para muitos candidato ao rebaixamento no início do campeonato e, pouco a pouco, foi acertando o time, levando-o para um inesperado lugar na classificação.

Iludida pela colocação e por algumas convocações sempre estranhas de Mano Menezes, a diretoria do Botafogo começou a ver o que não existe. Talvez a torcida também. E começaram a exigir não apenas uma colocação digna, que é tudo o que o time do Botafogo merece, mas o título, sem ver que o time estava, para usar uma expressão do saudoso Mario Moraes, "jogando o que não sabe". E, quando reveses chegaram faltando três jogos para o final demitiram Caio Junior. Talvez se olhassem a tabela veriam mais claramente o erro que cometeram.

Os três times que disputam o título são dirigidos por treinadores que lá estão desde o inicio do campeonato, considerando-se que Abel Braga já estava contratado pelo Fluminense e só aguardava a data prevista para assumir o time. Corinthians, Vasco e Fluminense têm treinadores com retaguarda na diretoria e isso a meu ver explica a colocação na tabela. É muito difícil treinadores aparecerem no Brasil e ganharem destaque. Quase todos os times são iguais no procedimento que adotam com os técnicos e a atitude do Botafogo, longe de ser exceção, é a regra. Os exemplos são inúmeros.

Cuca, Adilson Batista, Silas, Carpegiani, Caio Jr, Jorginho, Dorival Jr, e mesmo Tite, já foram ou são alvo de injustiças, e vêm suas carreiras frequentemente dificultadas por dirigentes assustados e que "têm que fazer alguma coisa".

O Atlético Mineiro trocou Dorival Jr. por Cuca. Progrediu muito pouco. Cuca por sua vez foi vítima de uma das maiores injustiças que jamais vi, quando tirou o Fluminense praticamente da Série B e, depois de alguns maus resultados foi demitido de maneira indigna. Dorival Jr. foi demitido do Galo e acertou o time do Internacional. Resta saber o que espera a torcida e a diretoria do Inter. Porque todo clube se julga muito melhor que o treinador.

O treinador chega, não com a obrigação de fazer um bom trabalho, mas de realizar os sonhos de grandeza, às vezes tresloucados, de dirigentes e torcedores. Por isso no Brasil temos um clubinho seleto de treinadores acima de toda e qualquer crítica: são três, talvez quatro. Talvez. E noticia-se com escândalo quanto ganham. Fazem muito bem. Fosse eu pediria até mais. Porque conseguiram um feito quase impossível. Transpor a tremenda barreira estabelecida pelo clube e também, infelizmente, pela imprensa, por nós.

É comum a análise de resultados depois dos jogos. Acho que se a critica é um dever, é preciso, ao mesmo tempo, tomar muito cuidado. Fulano mexeu mal, beltrano substituiu errado, o outro agiu na hora errada. É fácil dizer isso depois da partida, quando é conhecido o resultado e não pode ser mudado.

Acho que pelo menos o benefício da dúvida deveria ser concedido mais frequentemente aos treinadores. Uma substituição pode ser boa e não dar resultado, isto é, virar o jogo. Gosto muito mais quando a opinião é dada no decorrer da partida, muitas vezes antes das substituições, como fazem Neto e Müller. Aí sim me agrada, porque correm os mesmos riscos dos treinadores e, como eles, dão a cara pra bater.

CLAUDIO HUMBERTO

“O PT sempre defendeu a regulação da mídia”

José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, em debate promovido pelo PT

MAIS VERBA DO FGTS VAI AJUDAR EMPREITEIRA AMIGA

A presidente Dilma continua jurando que detesta a figura do empreiteiro Marcelo Odebrecht, mas seu governo gosta tanto que pode dar para a empresa mais dinheiro do fundo de investimentos do FGTS (mas sem autorização dos trabalhadores, de cujos salários saiu a grana). Colocou R$ 450 milhões numa das empresas do próprio grupo, a Embraport, e adquiriu 26,5% de uma terceira, a Foz, e 30% da Odebrecht Transports.

E VEM MAIS 

Agora, o governo autorizou o aumento do uso do FGTS para obras da Copa. Certamente já com destino certo para empreiteiros.

CADÊ O JUIZ?

A Odebrecht constrói ou reforma quatro arenas para a Copa. Lançou site para acompanhamento das obras. Mas para seguir a verba...

CONCRETANDO A CONTA

Só no combalido Maracanã, no Rio, a empreiteira conquistou a conta de duas das três reformas bilionárias realizadas em apenas dez anos.

TERCEIRO TEMPO

Para um governo que jurava não colocar dinheiro público nos estádios, é curioso vê-lo abrir o cofre para as empreiteiras em ano pré-eleitoral.

TJ DO RIO EXCLUI MEDALHA A JUÍZA ASSASSINADA

Um funcionário eletrocutado no conserto de ar condicionado e um motorista, ambos de empresa terceirizada da Corte, receberão a medalha do mérito judiciário do Tribunal de Justiça do Rio, na quinta (8), Dia da Justiça. A lista dos homenageados post-mortem do tribunal “esqueceu” a juíza Patrícia Acioli, executada em Niterói com 21 tiros por policiais ligados às milícias que ela investigava e mandava prender.

CÍRCULO DO MEDO

Titular do 1º Tribunal do Júri, o substituto de Patrícia, Fábio Uchoa, continuará na 4ª Vara Criminal. Não apareceu candidato à vaga.

NAQUELES DIAS

O Senado é zeloso com as regras da saúde feminina: comprou 50 absorventes higiênicos “Kisses”, revela o site Contas Abertas.

ESQUEÇAM

O Ministério Público do Paraná e a Prefeitura de Curitiba aceitam, mas ignoram denúncias pela internet. Melhor voltar ao tempo dos carimbos.

EFEITO ESTUFA

Inimigo de Gilberto Kassab (PSD-SP), o ‘prefeitável’ Levy Fidelix (PRTB-SP) ri à toa, após o MP pedir o afastamento do prefeito por suposta fraude de R$1 bilhão na inspeção veicular. A ação foi antecipada nesta coluna, semana passada. Fidelix vai pedir a devolução do dinheiro.

MURO DE BERLIM

Grana pública para ONGs, ricaços e ditadores amigos e outras “bondades”, lembra a frase da ex-primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher: “O socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.”

OLHOS ABERTOS

A China só está com essa bugiganga toda no Brasil: o FMI alertou para “crescente vulnerabilidade no sistema financeiro” do gigante, crescendo menos até no mercado imobiliário. Se ela afundar, mergulhamos juntos.

FATOR PSD 

A Procuradoria Regional Eleitoral da Bahia rodou a baiana. Decretou perda de mandato de 71 prefeitos, vices e vereadores por infidelidade partidária. A lista vai subir. A PRE cercou outros 282 casos similares.

ABAIXO A DITADURA

O vai e vem dos baderneiros da USP se explica pelo anacronismo da Lei 5.540, de 1968, que desprezou a eleição direita para reitor, e pelo anacrônico regimento disciplinar, de 1972. Além do excesso de departamentos, criando um cabide de empregos na universidade.

ÍNDIO QUER ÁGUA 

Com orçamento bilionário, a Funasa teve de ser acionada pela Justiça Federal em Itabuna (BA) para cumprir seu dever: levar água potável à tribo dos Pataxós Hã Hã Hãe de Caramuru-Paraguaçu.

TRABALHÃO 

O Tribunal Superior do Trabalho já julgou, até setembro, 121.791 processos. Desde janeiro foram 95.679 processos em fase de conhecimento (quando o direito é discutido). Faltam 170.668 ações. 

CADASTRO DO MAL

Ex-delegado da PF, o deputado federal Fernando Francischini (PSDB-PR) apresentará projeto de lei que cria o cadastro nacional de pedófilos. Acha fundamental para a polícia com o avanço do crime na internet.

PERGUNTINHA

Será que depois do FGTS o governo vai usar também o Fies, dos estudantes, para bancar as insaciáveis empreiteiras? 


PODER SEM PUDOR

DEPUTADO PLURAL 

O falecido deputado Luiz Eduardo Magalhães (PFL-BA) presidia as sessões da Câmara com instantes de bom humor. Certa vez, ele se dirigiu assim ao deputado Fernando Gabeira (RJ), na época o único representante do PV: 

– Deputado, use a palavra para orientar sua bancada! 

– Presidente – respondeu Gabeira – minha bancada sou apenas eu, uma pessoa muito dividida. Nem sempre posso me orientar bem.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: UPPs completam três anos e reduzem mortes em 50%

Folha: China investe no Brasil só metade do que anuncia

Estadão: Em 6 meses, triplica risco dos bancos de EUA e Europa

Correio: Apagão aéreo ameaça férias de fim de ano

Zero Hora: Racha do MST ameaça criar grupo radical