quarta-feira, novembro 09, 2011

MÔNICA BERGAMO - FACÃO SUPERIOR


FACÃO SUPERIOR
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 09/11/11

O MEC deve anunciar nos próximos dias o descredenciamento de dezenas de faculdades, que ficarão proibidas de receber novos alunos. São aquelas que, pela terceira vez seguida, tiraram nota menor do que três no Enade (numa escala que vai até 5), o exame que avalia os alunos dos cursos de graduação.

TRÊS VEZES DEZ
A exclusão de faculdades do sistema por causa de notas baixas no Enade não é inédita. Mas, desta vez, a "pancada" deve ser "bem maior", de acordo com técnico da pasta que acompanha as avaliações.

O número de escolas excluídas pode chegar a 30.

QUEM DÁ MAIS
A galeria Millan não representa mais as obras do artista Amilcar de Castro, morto em 2002.

Seus herdeiros, responsáveis pelo espólio, decidiram buscar outro representante. O acervo, valioso, deverá ser objeto de disputa de galerias concorrentes.

QUE COMAM BRIOCHES
Os funcionários das embaixadas e consulados da França no Brasil farão greve hoje. Vão aderir a um movimento mundial dos funcionários da diplomacia francesa, que reivindicam reajustes de acordo com a inflação e o custo de vida dos países. Até mesmo os empregados da casa do embaixador deverão cruzar os braços.

LEMBRETE
Restaurantes como o do hotel Hyatt, que tinha alimentos estragados em seu estoque, são obrigados a permitir acesso dos clientes a suas cozinhas. Mas a lei não pegou. A constatação é de sua autora, a ex-vereadora Zulaiê Cobra (PSD-SP). "Vou a muitos lugares e em 80% não colocam placa com a regra em local visível", diz. Nem mesmo o restaurante da Câmara Municipal, onde a lei foi aprovada, em 1994. "Já reclamei com eles", diz Zulaiê.

BANQUINHO NO AVIÃO
Mesmo com as dificuldades na bilheteria, a produção de João Gilberto assegura que, durante sua turnê, remarcada para dezembro, ele será transportado pelo país em avião particular. "No contrato está claro que o músico terá um jatinho à disposição, para seu conforto, e isso nunca foi discutido. Não houve nenhum problema em relação a isso", informa a assessoria dos shows.

OLHOS ABERTOS
O oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, realizou em Angola, segundo a instituição, o primeiro transplante de córnea do país. O paciente, de 15 anos, adquiriu uma infecção por causa do uso inadequado de lentes de contato. Embora as condições não sejam as ideais, o médico afirma que, capacitados, os angolanos passarão a fazer esse tipo de cirurgia de forma recorrente.

DEMOCRÁTICO
Frei Betto, Maria da Penha e dom Pedro Casaldáliga estão entre os indicados ao Prêmio CUT - Democracia e Liberdade Sempre. A votação é aberta ao público no site www.cut.org.br até o dia 20. Os vencedores serão anunciados em dezembro.

UÍSQUE A GO GO
Christiane Torloni comemorou a noite de autógrafos de seu livro "Do Lobo à Lôba", anteontem, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, com um brinde com uísque. E, em vez de falar "saúde", a atriz, o diretor José Possi Neto, o ator Leonardo Franco e a curadora Denise Mattar começaram a uivar. Uma homenagem ao animal que dá nome ao livro e às peças "Lobo de Ray-Ban" e "Loba de Ray-Ban", que Torloni estrelou.

PINCEL E PALETA
A abertura da 43ª Exposição de Arte da Faap, anteontem, contou com a presença das artistas convidadas Amanda Mei e Flávia Junqueira. O croata Goran Skofic, o colecionador José Antônio Marton e o professor Lázaro Eli estiveram lá.

GENÉTICA DO DESIGN
Os irmãos Humberto e Fernando Campana inauguraram a exposição "Anticorpos", no Centro Cultural Banco do Brasil, em SP. O arquiteto Gianfranco Vannucchi e a escritora Paula Parisot, entre outras personalidades, passaram pela mostra, que faz uma retrospectiva da obra da dupla de designers.

CURTO-CIRCUITO
A estilista Diane von Furstenberg apresenta a coleção Resort da DVF, às 16h30, no Iguatemi.

A cantora Thais Gulin faz show no Studio SP amanhã, às 23h. Classificação etária: 18 anos.

O ministro Gilmar Mendes lança hoje, às 19h, o livro "Estado de Direito e Jurisdição Constitucional", na Biblioteca do STF.

A entrega do Troféu Raça Negra será no dia 13, na Sala São Paulo.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

ANTONIO PRATA - Assim não, pessoal


Assim não, pessoal
 ANTONIO PRATA
FOLHA DE SP - 09/11/11

Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos em uma universidade, é um vício classista

Em 1998, na primeira semana do meu curso de ciências sociais, na PUC, fizemos um abaixo-assinado. Estávamos em fevereiro, a classe era abafada e pedimos para que a reitoria instalasse um ventilador. Redigimos um texto à mão, coisa de três linhas, e, durante o intervalo, uma colega foi até o Centro Acadêmico digitar e imprimir nossa justa e simples reivindicação. Mal chegou ao CA, um aluno ofereceu-se para ajudar.
Minha amiga voltou uma hora depois, com os olhos arregalados. As três linhas tinham virado um manifesto de duas páginas, que falava do "sucateamento" da educação no Brasil, dos salários dos professores nas escolas públicas, citava Maio de 68 e terminava exigindo: "a) a divisão da turma em dois; b) a mudança para uma classe maior; ou c) ventiladores".
Sem entrar no mérito do longo manifesto, perguntei que história era aquela de dividir a turma em dois -o que implicaria dobrar o número de professores e custaria mais de R$ 100 mil-, se nós só pedíamos um ventilador? Ela disse que tentara explicar tal raciocínio ao membro do CA, mas ouviu em resposta que era "preciso dar uma alternativa à reitoria, para começarem a discutir". Alguém sugeriu, então, que pedíssemos: a) um ventilador ou b) um frigobar com Boêmias e Chicabons. Se a reitoria preferisse a segunda opção, não nos oporíamos.
A história seria cômica, não fosse por um detalhe: a educação pública no Brasil era -e é- uma lástima, os salários dos professores eram -e são- uma vergonha. Ao cobrar do reitor de uma universidade privada melhorias no ensino público, contudo -e no abaixo-assinado por um ventilador-, o guerrilheiro do CA não fazia nada pela educação no país, só tornava ridículo, aos olhos dos demais alunos, todos os que levantassem as bandeiras legítimas de um ensino de qualidade -além, é claro, de afastar definitivamente a possibilidade de conseguirmos o ventilador.
A invasão da reitoria da USP me fez lembrar daquele episódio. Que a polícia prenda jovens por consumo de maconha é lamentável. Que jogue gás lacrimogêneo contra os estudantes que protestam contra a prisão é uma violência desmedida. Mas que, em reação a isso, alunos invadam o prédio da reitoria e peçam a proibição da PM no campus é um raciocínio tão equivocado quanto sugerir a divisão da turma em dois, por causa do calor. Ou luta-se para que ninguém seja preso por porte de maconha e que ninguém tome porrada da PM -e acampa-se em frente do Palácio dos Bandeirantes, não na reitoria- ou o que se está exigindo é um privilégio. Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha ideia de que, neste país, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.
Com esta invasão, os guerrilheiros da reitoria não fizeram mal apenas à discussão sobre drogas e violência policial: ajudaram a tornar ridículos, aos olhos de toda a população, os milhares de outros jovens que, no Brasil e fora dele, lutaram e lutam por causas urgentes e fundamentais; não para serem tratados como cafés com leite.

JOSÉ SIMÃO - Sexo oral na praça do Pirulito!


 Sexo oral na praça do Pirulito!
JOSÉ SIMÃO 
FOLHA DE SP - 09/11/11

"Delegado quer enquadrar estudantes da USP como formação de quadrilha". Só se for Quadrilha da Fumaça!


Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Manchete de Cajazeiras, na Paraíba: "Sexo oral na praça do Pirulito". Rarará! Flagraram dois marmanjos fazendo sexo oral numa árvore na praça do Pirulito. Em frente ao bar do Pirulito!

E baixou uma Vanusa no Suplicy. Ele foi rezar um Pai Nosso pro Lula e esqueceu. Esqueceu a letra do Pai Nosso. Ele esqueceu o Pai Nosso porque a letra não é do Bob Dylan!
E o Berlusconi, o Maluf pornô? Olha a sensacional campanha da Ryanair com a foto do Berlusconi: "Caro Silvio, uma oportunidade para escapar com a Ryanair, por R$ 9,99!". Plano de fuga pro Berlusconi! E esta: "Delegado quer enquadrar estudantes da USP como formação de quadrilha". Só se for Quadrilha da Fumaça!

E o ministério da Dilma? Ministério Matte Leão, já vem queimado. Se cair mais um ministro, vai dar um

Trabalho! E sabe como se chama o assessor que tá enrascando o ministro do Trabalho? PANELLA! O quê? Já tão fritando até em Panella! Panella faz panelinha com uma ONG chamada Êpa! ÊEEEEEPA!

O mundo é uma piada pronta lotada de predestinados. Agora o mais cotado para primeiro-ministro da Grécia: Nikiforos DiamanDUROS! Duros? Ah, não, duros, não! Um Duros pra governar os duros! A República dos Duros!

Como diz uma amiga minha: "Vou apelidar o pingolim do meu marido de grego, pra ver se fica duro". Rarará! E o Sarkozy não parece o genérico do Napoleão 3º, o Pequeno! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E adorei a placa de um carro do Rio Grande do Sul, um carro todo estropiado com a placa de: Pareci Novo! Rarará! Pareci novo um dia! E vou me consultar com o missionário Ronildo Peçanha: 11 mortos ressuscitados, emagrecimento instantâneo e calvície restaurada.

Três males que espantam a humanidade: a morte, a banha e a careca! E já encontrei o lugar pra assistir à Copa de 2014. Trailer do Zé Maurício em Domingos da Prata, Minas. "Estatuto do Torcedor: proibido assovio, gritaria e insultos pessoais. Vibra apenas na hora dos gols e comentário apenas o do locutor da TV!" Berro só do Galvão! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

ROLF KUNTZ - Lupi, o republicano



Lupi, o republicano
ROLF KUNTZ 
O Estado de S.Paulo - 09/11/11

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiou o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, contra a Comissão de Ética Pública, em dezembro de 2007, e o manteve no posto elogiando seu "comportamento republicano". Passados quatro anos e acumulado um enorme número de bandalheiras, a Comissão entra em cena de novo, cobrando esclarecimentos sobre novas irregularidades apontadas pela imprensa. Desta vez, a republicaníssima figura mantida por Lula e por ele deixada à sua sucessora não tem sequer o apoio unânime de seus companheiros do PDT. No entanto, a relação promíscua entre o partido e o Ministério foi o grande assunto da maior parte das denúncias nos últimos quatro anos.

A Comissão de Ética Pública da Presidência propôs a demissão de Lupi quando ele se recusou a deixar a presidência do PDT, em 2007. Segundo a Comissão, ao acumular os dois cargos, o ministro comprometia "a necessária clareza de posições exigida das autoridades públicas pelo artigo 3.º do Código de Conduta da Alta Administração Federal". De acordo com ofício enviado ao presidente, a acumulação envolvia também o risco de conflito de interesses, assunto examinado na Resolução n.º 8, de 25/9/2003.

O ministro negou-se a deixar a presidência do partido, enfrentou a Comissão e venceu a parada, sustentado pelo presidente da República. A questão era ética, mas a Advocacia-Geral da União preferiu outro enfoque e negou haver ilegalidade ou inconstitucionalidade na manutenção dos dois cargos.

Dois meses depois dessa vitória o ministro voltou ao noticiário, acusado de favorecer entidades ligadas ao PDT. Lupi negou qualquer irregularidade, mas pouco depois, numa entrevista coletiva, anunciou o cancelamento de contratos no valor de R$ 25,8 milhões.

Dois eram especialmente interessantes. Uma das entidades beneficiadas era a ONG DataBrasil, de São Paulo, com sede no prédio da Força Sindical, ligada ao PDT. Seu convênio envolvia o repasse de R$ 10,7 milhões. Outra era um asilo para idosos, em Catanduva, favorecido com R$ 3,7 milhões para cuidar do treinamento de jovens.

Também ganhou notoriedade o caso de uma associação presidida por uma pedetista e beneficiada, no mesmo período, com verba de R$ 8,5 milhões, embora fosse investigada pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. A revista Época publicou um detalhado material sobre todos esses escândalos em fevereiro de 2008.

Nessa segunda-feira, ao se proclamar um osso duro de roer, o ministro Lupi mencionou uma "onda de denuncismo", repetindo uma fórmula muito usada, em Brasília, pelo menos desde o tempo do mensalão. Se for uma onda, deve ser o sonho de consumo dos grandes surfistas, pelo tamanho e pela duração.

O espetáculo de republicanismo continuou. Em 2009, o ministro decidiu mudar os costumes no Condefat, o conselho gestor do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), na ocasião com patrimônio de R$ 150 bilhões. Pela tradição, as bancadas se revezavam na presidência a cada dois anos. Dessa vez, a Força Sindical seria substituída por uma entidade patronal, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Lupi resolveu mobilizar os votos das centrais sindicais e do governo contra a CNA. Com essa jogada, foi eleito Luigi Nese, representante da Confederação Nacional de Serviços, criada em dezembro do ano anterior e recém-incorporada ao Conselho. Lupi era conhecido como "patrono" dessa confederação. Quatro das entidades patronais - CNI, CNC, CNA e Consif - protestaram e abandonaram o Condefat, deixando-o sob controle do ministro e de seus aliados.

A história do Ministério do Trabalho tem sido marcada também por eventos maravilhosos, como a multiplicação dos pescadores, detectada pela Associação Contas Abertas e confirmada pelo detalhamento dos dados oficiais. Em 2003, o governo beneficiou 113.783 pessoas com o seguro-defeso, um salário mínimo pago a pescadores artesanais durante os meses de reprodução de certas espécies.

O número de beneficiários chegou a 553.172 na previsão orçamentária de 2011. O desembolso saiu de R$ 81,5 milhões para o total estimado de R$ 1,3 bilhão neste ano. Esse dinheiro, extraído do FAT, é mais que o dobro do orçamento do Ministério da Pesca, R$ 553,3 milhões. Nunca se viu tanto pescador artesanal, prodígio operado pela generosa distribuição de atestados. Até em Brasília apareceram pescadores inscritos no programa.

Neste ano, o Ministério do Trabalho já entregou R$ 89,4 milhões para entidades "sem fins lucrativos". Falta determinar o destino real desse dinheiro e as condições de desembolso - com ou sem as propinas denunciadas em reportagem da Veja. Também falta examinar as 500 prestações de contas engavetadas no Ministério, segundo o Tribunal de Contas da União. Ainda vai dar muito trabalho o balanço de tanto republicanismo - bem mais notável, provavelmente, do que poderia prever em 2007 a Comissão de Ética Pública.

GOSTOSA


ROBERTO DaMATTA - Livros, leitores e antileitores


Livros, leitores e antileitores
ROBERTO DaMATTA
O Estado de S.Paulo - 09/11/11

Num desses dias, uma secretária do departamento onde trabalho anunciou:

- Professor, tem um padre da universidade federal YZ querendo falar com o senhor, posso passar a ligação?

- Sem dúvida, disse eu, pegando no fone com a atenção e a curiosidade de sempre.

- Aqui é o padre X, professor Roberto. Estou ligando para convidá-lo a tomar parte numa discussão sobre agricultura e "tecnovilas". O senhor aceita?

- Sim, reverendo, se entendesse do assunto, mas, infelizmente, dele nada sei.

- Modéstia sua, professor. Como é que um homem que escreveu um livro intitulado Tecnovilas diz isso? É claro que o senhor entende.

- Padre, meu livro não é sobre "tecnovilas", é sobre o pequeno cotidiano americano: o meu dia a dia de docente expatriado na Universidade de Notre Dame, em South Bend, Indiana, Estados Unidos. O título não é Tecnovilas, é Tocquevilleanas, uma humilde homenagem ao estudioso e político francês que, acompanhado do seu amigo, Gustave de Beaumont, viajou pelos Estados Unidos entre 1831-32 e escreveu um livro clássico sobre o estilo de vida americana, intitulado Democracia na América. Desculpe pelo título que o confundiu!

* * * *

Tal como as pessoas, os títulos dos livros enganam leitores, bibliotecários e autores. Um sujeito bem vestido e falante, quando devidamente aberto, revela-se uma toupeira ou um Evereste de empáfia. Um nobre ministro surge como um chefe de quadrilha feito por ONGs que desviam dinheiro público para um partido cujo nome remete a abnegados e virtuosos.

Meu colega e amigo, o cientista político Eduardo Raposo, ouviu de seu primo Lobinho a seguinte história: um sujeito chega a uma biblioteca e pede um livro de botânica. O funcionário prontamente lhe apresenta com um sorriso alvar Raízes do Brasil.

* * * *

Quando eu selecionei as crônicas para compor o livro Tocquevilleanas: Notícias da América, telefonei ao meu editor e amigo, Paulo Rocco. Na euforia daquele momento especial, pois a empreitada de escrever um livro nos envolve de todas as maneiras e, como disse melhor do que ninguém, Thomas Mann, trata-se de uma tarefa equivalente a uma "batalha, perigo no mar ou risco de vida, e nos aproxima de Deus em busca de auxílio, bênção e misericórdia"; eu mencionei um título: Notícias da América. Paulo Rocco adorou. Terminei a ligação ouvindo dele os augúrios de sucesso.

Coloquei o manuscrito no forno por uns dias, como sempre faço quando se trata de escrever para publicar - uma tentativa frequentemente inútil de evitar monstruosidades -, mas, ao retomar a obra, um anjo do mal meteu na minha cabeça que eu deveria homenagear o grande Alexis de Tocqueville. Se Heitor Villa-Lobos, disse-me a entidade, fez suas "bachianas" pensando em Bach, por que eu não poderia fazer umas "tocquevilleanas" pensando num autor desconhecido das ciências sociais brasileiras; um intérprete maior de problemas contemporâneos, mas que não é citado em nenhum dos clássicos nacionais, justamente para falar dos contrastes entre o Brasil e os Estados Unidos?

E, assim, devidamente impregnado pelo anjo, reli Democracia na América - como havia feito em 1974-79 - enquanto escrevia Carnavais, Malandros e Heróis - e inventei o tal "tocquevilleanas" imaginando (graças ao malefício do anjo) que minha mente era o mundo e que todos sabiam de sobra quem era Tocqueville.

Ledo engano!

Publicado o livro, descobri que as pessoas sequer sabiam pronunciar o título, que - conforme me revelou um profissional com sua saudável mistura de inocência e autoritarismo jornalístico - era "muito complicado". Foi quando descobri a mais crassa verdade pós-moderna: se a obra tem um título impronunciável, você não lê o livro. Vira um antileitor. Resultado: numa segunda edição, que em breve chega às livrarias, suprimi o solene "tocquevilleanas". Ganhou Tocqueville, que não precisa de minha homenagem e, imploro aos deuses, ganham os eventuais leitores. Pois debaixo do título Notícias da América não há como confundir nenhum entendido, leigo ou jornalista.

* * * *

Na esteira dos antileitores, voltei ao Raposo e ele relata que seu primo Lobinho havia feito uma grande descoberta. Na tal biblioteca onde Raízes do Brasil está na estante de botânica, O Idiota surge na de psicologia, A Interpretação dos Sonhos, na de esoterismo; Sobrados e Mucambos está catalogado como engenharia e Montanha Mágica, como astrologia. Já Memórias Póstumas de Brás Cubas entra como kardecismo; Lolita, na lista de livros para moças; A Guerra das Salamandras, em história militar; Cem Anos de Solidão, na prateleira de geriatria; O Cru e o Cozido, na de culinária, e Hamlet, na de receitas inglesas. Já Madame Bovary surge na de pornografia; Os Maias, na de etnologia centro-americana; As Neves do Kilimanjaro, no setor de clima e ecologia; as Viagens de Gulliver, no de turismo; O Poder e a Glória, no de política; e, por fim e para encurtar uma infindável história, Carnavais, Malandros e Heróis, inclassificável por não ser lido, é listado tanto nas obras devotadas às escolas de samba, quanto está na prateleira de fraudes e contravenções.

Tentei interpelar a diretora, mas desisti. Ela é "blindada"!

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Brasil fica atrás da Argentina em uso de internet em celular, diz estudo

MARIA CRISTINA FRIAS 
FOLHA DE SP - 09/11/11

Apesar do avanço do consumo de tablets, smartphones e uso de internet em celulares no país, a participação da troca de dados na receita das operadoras ainda é considerada baixa no Brasil. O uso dos aparelhos para funções como e-mails, acesso à internet, envio de torpedos e GPS resiste em avançar no país devido ao foco que as operadoras dedicam aos pacotes de voz, segundo Erasmo Rojas, diretor da 4G Américas, associação de provedores de serviços e fabricantes.

"No Brasil, há uma briga por minutos de voz. Mas os brasileiros estão comprando mais aparelhos que os outros. Com uma boa cobertura, pacotes e preços adequados, isso tende a mudar", diz Rojas. O volume de aparelhos com internet móvel supera os 30 milhões no país, segundo a Anatel. O número é quase o dobro de 12 meses atrás. Apesar do crescimento, apenas 18% da receita gerada por celulares no Brasil tem origem na troca de dados, segundo a 4G Américas. A média da América Latina é de 22%. O Brasil ainda está longe dos argentinos, que lideram o ranking com 42%, segundo a 4G. O país vizinho se aproxima de ter receita com dados e voz na mesma proporção. A Venezuela registra 35%.

"O Brasil usava menos SMS e outros serviços para baixar música e jogos. Esses serviços se desenvolveram menos aqui devido ao foco das operadoras e a outras questões", afirma Eduardo Tude, presidente da Teleco.

NOVOS PORTOS
A rede Accor fechou contrato de R$ 60 milhões com a Odebrecht para construir um hotel em Santos. Será o terceiro da empresa na cidade. Os outros dois foram inaugurados há pouco -um na semana passada e outro há dois meses. "Santos é uma cidade importante, apesar de não ter uma população tão grande. O maior porto do país está ali. Além da Petrobras, que é uma das nossas principais clientes", diz o COO da rede na América Latina, Roland de Bonadona. A Accor prevê bater seu recorde de lançamentos no Brasil neste ano. Até agora, foram 20. Bonadona, porém, não diz quantos contratos serão fechados até dezembro.

Mesmo com a crise, a empresa acredita que poderá aumentar ainda mais o número de lançamentos em 2012. Para o mesmo ano, estão programadas 20 inaugurações.

PRIVATE EQUITY E LUXO
A britânica Tamara Mellon, fundadora da sofisticada grife de sapatos Jimmy Choo e atual CCO (sigla em inglês para principal executiva da área de criação) da marca, afirma estar animada com as perspectivas para o Brasil. "Nossa loja recentemente aberta aqui é muito bem-sucedida", diz ela em passagem por São Paulo. "Não posso divulgar números [de resultados], mas vai muito bem, pois os clientes aqui entendem [de moda] e as mulheres são muito sexy." Segundo Mellon, há mercado para outras lojas, inclusive uma apenas dedicada aos homens, nos moldes da recém-aberta filial de Londres. "Mas ainda não tenho datas", afirma.

"Está todo mundo olhando para o Brasil, além da China", diz Mellon. E como vai a vida depois da venda da Jimmy Choo para o fundo de private equity Labelux? "Fantástica, eles estão nisso com perspectiva de longo prazo. São uma família, não exigem altos retornos e entraram para ficar." Se não fosse assim, não recomendaria fazer negócio nessa área com private equity, diz. "É um modelo de engenharia financeira muito difícil de se aplicar em moda e em luxo."

Quão longo é esse prazo? "Dez, 20 anos", responde. Para a próxima coleção primavera-verão, o "look" será anos 50 e 70, diz Mellon, que, antes de criar a grife, foi editora da revista Vogue do Reino Unido.

Luz apagada Mais da metade dos brasileiros (64%) estão dispostos a mudar seu comportamento de consumo de energia, segundo estudo da IBM.

GASOLINA OU ETANOL?
A zona leste é a região mais barata para abastecer automóveis com etanol na cidade de São Paulo, de acordo com estudo do IPTC (Índice de Preços Ticket Car). A zona norte, por sua vez, é a que apresenta a melhor média de preços para encher o tanque com gasolina. Em outubro, o valor médio do etanol caiu 0,22% em relação a setembro. No mesmo período, o valor da gasolina teve alta de 0,19%. Para o consumidor paulistano, porém, o abastecimento com gasolina ainda é mais vantajoso que o de etanol, segundo o IPTC.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

ANTONIO DELFIM NETTO - Avanço à vista


 Avanço à vista
ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 09/11/11

As incertezas que dominam o cenário mundial são tantas que, mesmo já vencidos quatro quintos do ano, as previsões ainda são precárias. Na antevéspera da reunião do G-20, a OCDE divulgou os seguintes números para 2011:

O angustiante quadro mundial revela que as hipóteses da política econômica brasileira estão a confirmar-se. Mais do que isso, ele dá razão à política monetária (apoiada numa política fiscal mais austera) que tenta antecipar-se à queda da nossa taxa de crescimento reduzindo a taxa de juros real.

A "distância" entre a nossa taxa de inflação (beirando o limite superior da tolerância da "meta") com relação aos emergentes é muito menor do que a do nosso crescimento, que andará por volta de 3% (e, na margem, pode estar correndo em torno de 2,5%). Já a taxa dos emergentes do G-20 é da ordem de 6%, sem contar a China.

Isso mostra o equívoco da crítica fácil feita ao nosso BC, com a afirmação que ele teria abandonado a política de metas inflacionárias só por ter aumentado o peso dado à "distância" entre o PIB e o seu "potencial" e diminuído o peso da "distância" entre a taxa de inflação de 12 meses e a "meta".

No fundo, a inflação aceitável é a parecida com a dos nossos parceiros internacionais, com o PIB próximo do pleno uso da capacidade produtiva.

Em condições anormais de pressão e temperatura, é melhor transigir com a "meta" (no seu limite de tolerância) do que exagerar no sacrifício para atendê-la num horizonte mais curto. É claro que isso não tem a ver com a ideia primitiva de que "um pouco mais de inflação aumenta o crescimento".

Por outro lado, é óbvio que precisamos aperfeiçoar nossas políticas macro e microeconômicas, facilitar o aumento da produtividade e usar melhor os recursos de que dispomos.

Uma boa notícia foi revelada pelo ministro da Previdência, Garibaldi Alves, consagrado como bom administrador: o governo está empenhado na aprovação do projeto que cria o Fundo de Previdência dos servidores públicos, que dorme no Congresso desde 2003.

Quem o tem bloqueado? Segundo Alves, "os sindicatos e os parlamentares ligados aos servidores. Eles, que deveriam ser de esquerda, às vezes são mais conservadores que os conservadores da direita". Bingo!

GILBERTO KASSAB - Os limites necessários


Os limites necessários
GILBERTO KASSAB
O Estado de S.Paulo - 09/11/11

Além de planejar visando o bem comum e gerir com prioridades e critérios de justiça e igualdade, administrar é também impor limites. É natural que alguns limites definam responsabilidades e, respaldados pela lei, restrinjam liberdades. Pode soar antipático e até se argumentar que essa é uma atitude autoritária. Mas uma democracia se consolida assim, nesse embate e conflito de ideias que procuram soluções e consensos.

Recentes acontecimentos vividos pela nossa cidade merecem atenção e reflexão: os conflitos na Feirinha da Madrugada, a invasão de prédios públicos e privados por movimentos de sem-teto e os embates na Universidade de São Paulo (USP).

Desde a implantação da Cidade Limpa, passando pelos blocões de cimento na frente de postos de gasolina que vendiam combustível adulterado, lacração de grandes empresas que não cumprem os limites de descarte de lixo, restrição de circulação de ônibus e caminhões em avenidas e ruas para melhorar o trânsito, temos enfrentado desgastes com medidas nem sempre simpáticas, mas eficazes.

A vigorosa presença da Prefeitura com medidas coercitivas legais visa sempre a constranger e desestimular vandalismos, agressões e crimes de que a cidade é vítima diariamente. Minha experiência é que a população não só aceita, mas exige isso.

Mas falo hoje de fatos e imagens - que a mídia mostrou exaustivamente de seus helicópteros - dos conflitos da feirinha. É público o esforço da Prefeitura para regularizar a atividade de camelôs, criar um espaço digno para eles, oferecer-lhes cursos, orientação, crédito, etc. E ficou claro também o necessário limite que a Prefeitura, o Estado, a União e o Ministério Público, unidos, impuseram aos que contrabandeiam e tentam comercializar produtos piratas na região da feirinha.

Vamos avançar ainda mais na administração desse problema, dialogando com comerciantes, camelôs regularizados que estão fora da feirinha e também com representantes e entidades de classe, planejando, por exemplo, os shoppings populares. O que não podemos permitir é que o crime agrida, deprede, impeça o trânsito e prejudique milhares de pequenos comerciantes e empreendedores que trabalham dentro da lei.

Não poderíamos deixar de lembrar aqui as experiências gratificantes de organização e pacificação de espaços de comércio nos Largos 13 e da Concórdia e na 25 de Março, graças ao entendimento e encontro conjunto de soluções entre o poder público, representantes, entidades de classe e envolvidos nos problemas ali enfrentados.

Nessa luta por soluções, a Prefeitura mantém diálogo permanente com os movimentos de moradia popular, muitos com representantes no Conselho de Habitação, que aprovou o Plano Municipal de Habitação (PMH). O PMH tem medidas de curto, médio e longo prazos para a solução do déficit habitacional da cidade. Projetos de urbanização de favelas beneficiam hoje 600 mil pessoas, programas de locação social atendem cerca de 15 mil famílias e, na área central, estão em andamento o Programa de Cortiços e a Operação Urbana Nova Luz.

Vários edifícios agora ocupados estão sendo desapropriados para construção de moradias do Programa Renova Centro, lançado em fevereiro de 2010, alguns já em fase de licitação para contratação das obras. Neste momento, cerca de mil famílias de militantes já são beneficiadas.

As invasões são incompreensíveis, forçam a quebra de um diálogo que não interromperemos. Como não abriremos mão de medidas judiciais de reintegração de posse dos prédios, para retomar os projetos acordados com os próprios invasores.

Na USP, o problema é diverso, embora a mídia tenha mostrado invasões, depredações, cenas de violência e exageros. A Polícia Militar (PM), que antes do atual conflito estava ausente do câmpus, a ele voltou por decisão da Reitoria e consenso com estudantes, após assaltos, roubos e morte de um universitário. Retornou a segurança desejada pela maioria que quer paz e segurança para estudar. O estopim da revolta aparentemente foi a detenção de três estudantes que portavam drogas (levados ao distrito e liberados).

Registraram-se nesse episódio hostilidades à PM, a reação dos policiais, depredação de viaturas, a invasão (e desocupação) do prédio da Filosofia, depois do prédio Reitoria, os cartazes com mensagens e reivindicações no início confusas. Vieram a decisão judicial de desocupação da Reitoria e tudo o que a imprensa noticiou e analisou.

O estranho nesse episódio foi ver estudantes que cobriam o rosto para argumentar e defender suas causas. Faziam algo condenável? E por que os estudantes que discordavam dos seus colegas também eram obrigados a não se identificar para expor suas opiniões? Temiam ser vítimas de discriminação depois? Afinal, o que se propunha para enfrentar o crime e o tráfico, que andam de braços dados com a droga e ameaçam todos no câmpus?

Numa democracia as minorias devem ter voz e vez. Isso é saudável e necessário. Maiorias nem sempre tomam as decisões corretas. É natural que os cidadãos exijam serviços públicos dignos e os defendam com a força de seus argumentos e a energia da sua juventude. Mas é justo que reconheçam seus deveres e se imponham limites.

E os verdadeiros limites não são apenas os legais e constitucionais, que garantem as instituições e definem os direitos e deveres, mas também os que podemos cobrar de nós mesmos e amadurecemos com os vizinhos, em casa com a família, nas escolas, no trabalho, nas repartições públicas, na recepção das unidades de saúde, nas universidades, nas ruas e praças.

Nossa democracia permite hoje que os temas, dos mais simples aos mais complexos, sejam discutidos e defendidos livremente nas urnas, em manifestação soberana, sem máscaras e sem violência.

ZUENIR VENTURA - De mal e benfeitores


De mal e benfeitores
ZUENIR VENTURA
O Globo - 09/11/2011

No último fim de semana, voltei a Nova Friburgo pela primeira vez após a tragédia de janeiro que causou a morte de 900 pessoas. Ainda são visíveis os estragos e as cicatrizes deixadas pelas chuvas. O que não é visível é o destino dado às verbas recebidas para a recuperação da cidade onde passei minha adolescência. São R$10 milhões destinados a obras que ou não foram realizadas ou estão sendo numa lentidão suspeita.

Recaem sobre o prefeito Dermeval Filho sérias acusações de improbidade administrativa, fraudes e desvio de recursos públicos. São tantas as denúncias que anteontem a Justiça Federal decretou o seu afastamento temporário do cargo, junto com o secretário de Governo José Ricardo Carvalho de Lima, além do bloqueio de bens dos dois, do secretário de Educação e de dois empresários da região. Todos teriam sido favorecidos de maneira ilegal. A decisão ordenou ainda a quebra de sigilo bancário e de gastos com cartão de crédito.

Quando, seis meses depois do temporal, houve manifestações de protesto e cobrança de providências concretas - o cenário continuava o mesmo, os desabrigados não tinham para onde ir -, Dermeval deu uma entrevista coletiva tentando justificar-se: "Seis meses não é nada, vamos ter trabalho para mais de dez anos", disse aos jornalistas, esquecendo-se de que na mesma época o Japão, arrasado em março por terremoto e por tsunami, já expunha os primeiros resultados de sua reconstrução. Eram imagens impressionantes do "antes e depois", que contrastavam vergonhosamente com o que não se estava fazendo em Friburgo.

Mas não só de malfeitos tem vivido a Região Serrana pós-tragédia. Ouvi várias histórias edificantes de voluntários e benfeitores, como a do cidadão carioca que se comoveu lendo e vendo o noticiário do temporal. Resolveu então socorrer desalojados em Friburgo e Teresópolis, doando quatro casas a famílias que ficaram sem ter onde morar. Interessou-se especialmente por um casal que perdera quatro filhos soterrados e, para agravar o drama, não podia ter mais porque o marido fizera vasectomia. Além de lhes oferecer uma casa, o doador trouxe os dois ao Rio, levou-os a um grande especialista em inseminação artificial e, com o tratamento, a mulher ficou de novo grávida. Na segunda-feira de manhã, encontrei por acaso o discreto benfeitor no calçadão de Ipanema. Ele se surpreende com minha descoberta e, constrangido, explica que não quer divulgação. Quase se desculpou pelo gesto: "como não podia socorrer todos, fiz o que estava ao meu alcance."

Não resisto e revelo aqui a sua identidade: Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope. Ficou provado mais uma vez que no Brasil tem quem rouba e quem faz. Mas em geral não são a mesma pessoa.

DORA KRAMER - É a política


É a política
DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo

Uma discussão muito produtiva a que o PSDB promoveu na última segunda-feira com o propósito de iniciar a construção de uma nova agenda para o partido.

A rigor nem teria a obrigação de reinventar nada. Poderia viver por um bom tempo dos rendimentos decorrentes do fato de ter alterado a lógica pela qual os governantes até então conduziam o Brasil, derrubado a inflação, acabado com a farra dos bancos estaduais, criado a Lei de Responsabilidade Fiscal, universalizado o acesso à comunicação, arrumado as finanças públicas em grau suficiente para que o País começasse a ser levado a sério lá fora.

Mas, contrariamente aos ensinamentos de certo marqueteiro norte-americano, seguidos à risca pelos adeptos da linha "é a economia, estúpido", no que concerne às lides brasileiras a política faz a diferença. Quando não determina.

Por isso, porque seu principal adversário soube fazer política o tempo inteiro, é que o PSDB se vê hoje na premência de encontrar uma nova agenda, reestruturar o discurso, achar um jeito de restabelecer seu diálogo com a sociedade.

O PT jogou em dois níveis: com golpes acima e abaixo da cintura. Nestes, simplesmente se apropriou da receita do PSDB, não deu crédito ao dono e ainda saiu chamando o conjunto da obra de herança maldita.

Coisa feia. Gente de algum caráter não faz. Mas está feito e, diante disso, a questão não é mais discutir por que o PT se apropriou da agenda do PSDB (não tinha outra exequível), mas sim entender por que o PSDB deixou que o PT fizesse isso com tanta facilidade.

A resposta é simples e esteve o tempo todo expressa na configuração do seminário para a construção da nova agenda: não há política nessa pauta. Haverá outros, diz a direção do partido.

Ótimo. O primeiro foi bem bom. Não é todo dia que se podem ouvir tantos especialistas competentes nem tomar contato com diagnósticos tão interessantes, propostas polêmicas, inovadoras, bons apanhados sobre a situação do País nas áreas econômica e social.

O PSDB mostrou que sabe reunir gente boa para pensar.

Mas, como mesmo ensinou o orador mais aplaudido do encontro, o partido anda mesmo precisando é de falar. "Ou fala ou morre", avisou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, aliás, passou a maior parte dos governos Lula sendo "escondido" por correligionários ou falando sozinho sobre a política que o partido deveria adotar se quisesse se firmar como referência para conseguir voltar ao poder.

Sobre o PSDB e sua relação com a sociedade nada foi dito nesse seminário. Segundo o presidente do Instituto Teotônio Vilela, Tasso Jereissati, não era esse o foco.

Esquisito para alguém que tem como adversário um partido que faz política o tempo todo. O PT nesse campo excede, mas o PSDB se dá ao luxo da indiferença, como se estivesse em condições de ignorar o ponto definidor do sucesso ou do fracasso do plano de ganhar eleições para poder executar as excelentes ideias de seus brilhantes quadros.

A política entrou na agenda no improviso e por motivos tortos. Ninguém dos políticos falaria a não ser FH. Mas Tasso chamou Aécio Neves, que com a chegada de José Serra se viu obrigado a chamar o oponente. Nenhum deles fez pronunciamento que revelasse noção estratégica de conjunto.

Cada um para um lado, seguindo suas respectivas linhas. Ao ponto de Fernando Henrique parafrasear o slogan da campanha de Barack Obama, "Yes,we can", para lançar a palavra de ordem "we care" como proposta de comunicação do PSDB com a massa.

Evidentemente falou sem pensar ou não seria o pensador de qualidade que é.

Intensivão. Em uma semana Fernando Haddad já cometeu duas declarações - uma confundindo Itaim Paulista com Itaim Bibi e outra juntando no mesmo raciocínio USP e cracolândia - que justificam sua saída o quanto antes do Ministério da Educação para tomar umas lições sobre como as coisas funcionam em São Paulo.

Ou aprende ou quando começar a campanha para a Prefeitura, o candidato do PT conferirá uma graça especial ao ambiente.

ELIO GASPARI - Marcha de juízes insensatos


Marcha de juízes insensatos
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 09/11/11

As guildas e o corporativismo de juízes estão produzindo fatos e números que apequenam o Poder Judiciário. A corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, criticou a "impunidade da magistratura", reclamou da sua blindagem e fez a frase de sua vida: "Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro". (O gorducho Garcia está atrás dele desde 1919.)

Em seguida, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso (ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo), deu-lhe resposta: "Em 40 anos de magistratura, nunca li coisa tão grave. (...) É um atentado ao Estado Democrático de Direito".

Menos de um mês depois, o presidente do tribunal paulista pediu à Secretaria de Segurança a criação da figura de um "delegado especial" para cuidar de incidentes que envolvam juízes ou desembargadores. Só para eles. Os cardeais, as costureiras e os contadores continuariam democraticamente com a patuleia.

Vai-se adiante e vê-se que em 152 inquéritos que tramitam no STF envolvendo deputados, senadores e ministros, os nomes dos hierarcas são protegidos, apesar de não correrem em segredo de Justiça. Por exemplo: há um inquérito que trata das atividades de J.M.R. (a deputada filmada recebendo dinheiro do mensalão do Dem chama-se Jaqueline Maria Roriz, mas isso não é da sua conta).

A blindagem do andar de cima tem registro estatístico: há no Brasil 512 mil presos, 76 por corrupção passiva.

As guildas de magistrados organizam eventos arrecadando patrocínios junto a empresários e instituições que têm interesse em processos que podem passar por suas mesas. Isso para não falar do turismo embutido em muitos congressos, conferências e reuniões de fancaria. A doutora Eliana Calmon pretende estabelecer critérios para essas atividades, e as associações nacionais de juízes federais e do trabalho informam que recorrerão em defesa daquilo que é um direito "inerente a todos os brasileiros e ao regime democrático". Grande ideia, pois os tribunais são o foro adequado para resolver questões desse tipo. (Graças à grita de alguns magistrados, Eliana Calmon detonou uma caixa de fraudes nos empréstimos que a Associação de Juízes Federais da 1 Região fazia junto a uma financeira.)

A magistratura é uma carreira vitalícia iniciada, por concurso, num patamar de R$ 18 mil mensais, com dois meses de férias, aposentadoria integral e plano de saúde. Ninguém pode demitir um juiz. Já o juiz pode ir embora no dia que quiser, passando para a advocacia privada, muitas vezes com êxito. Essa característica diferencia os magistrados dos vereadores e deputados, obrigados a renovar o contrato de trabalho junto à clientela a cada quatro anos. Eles optaram por uma carreira especial e são os responsáveis exclusivos pelo prestígio do poder republicano que exercem. A insensatez e o corporativismo jogaram a imagem do Judiciário no balcão da defesa de causas perdidas.

Não se pode criar um critério para decidir o que engrandece ou apequena a magistratura. Pode-se, contudo, seguir a recomendação subjetiva do juiz Potter Stewart, da Corte Suprema americana, tratando de outra agenda: "Eu não sei definir pornografia, mas reconheço-a quando a vejo".

LADRÃO CASCO DURO


RENATA LO PRETE - PAINEL


Uma forcinha aí
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 09/11/11

Enquanto uma ala minoritária no PDT defende o afastamento de Carlos Lupi para apuração das denúncias de fraude no Trabalho, aliados do ministro no partido dizem receber outros sinais do Planalto. Segundo eles, a orientação é para que Lupi "enfrente a mídia".

Há ainda um terceiro bloco, formado por pedetistas insatisfeitos com a liderança do ministro, mas receosos de que o episódio cole o rótulo da corrupção na sigla. O grupo luta para dar sobrevida a ele até a reforma na Esplanada, em 2012. Para tanto, promete organizar, em conjunto com centrais sindicais, claques para aplaudi-lo em suas próximas aparições públicas.

Sem fundo 1 O Planalto e o PT começam a concluir que, tal qual na época de José Roberto Arruda (DEM) e, depois, da administração interina, ninguém sabe ao certo o tamanho da encrenca no governo do Distrito Federal.

Sem fundo 2 No entender de aliados, Agnelo Queiroz comprou um problema adicional ao escantear o vice, Tadeu Filipelli (PMDB), de decisões recentes. Agora, além do contencioso com seu ex-partido, o PC do B, o governador pode ter arranjado um inimigo mais perigoso.

Prioridades Na reunião de coordenação de governo, segunda-feira, Gleisi Hoffmann (Casa Civil) defendeu que a presidente apresentasse, junto com o apelo pela prorrogação da DRU, a lista das outras pendências do governo no Congresso até o fim do ano. Ciente do clima no Congresso, Michel Temer sugeriu "um tema por vez" e foi atendido por Dilma.

Para registro A base do acordo que Câmara e Senado tentavam costurar ontem e que levaria o governo a ter de votar a prorrogação da DRU novamente em 2013 não saiu da cabeça da oposição.

Mon ami Na falta de tradutor oficial, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) assumiu a tarefa no almoço de líderes partidários com Jérôme Valcke, da Fifa.

Aquecimento A declaração de Fernando Haddad (PT) sobre a intervenção da PM na Cidade Universitária ("não se deve tratar a USP como a cracolândia") serviu de munição para tucanos e deixou aliados em estado de alerta. "É bom que aconteça agora. Assim ele aprende a medir as palavras na campanha", afirma um haddadista.

Caiu a ficha Geraldo Alckmin desistiu de incluir, no pacote anunciado ontem para aumentar a transparência em sua gestão, decreto que instituiria a Ficha Limpa para o funcionalismo paulista. A medida, já adotada em Minas, forçaria o afastamento de José Bernardo Ortiz, aliado histórico do tucano instalado na FDE. Ele tem condenação em segunda instância.

Relâmpago Indicado informalmente à relatoria do Orçamento de 2012 pelo governo paulista, Roberto Engler (PSDB) enviou cartas aos 93 colegas pedindo a lista de emendas a serem contempladas na cota individual de R$ 2 mi. Deu errado: insatisfeita, a base de Alckmin vai escolher a deputada Maria Lúcia Amary (PSDB) para o posto.

Via rápida Em tempo recorde, o BID aprovou ontem financiamento de US$ 1,15 bi para o trecho norte do Rodoanel. A missão do banco avaliava o projeto desde fevereiro. O montante é o maior já destinado pela instituição para obras viárias no país.

De coração Dilma e Alckmin encabeçam a longa lista de autoridades que prestigiarão, nesta sexta-feira, a posse de Roberto Kalil Filho na cadeira de professor titular de Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Patrimonialismo, uso da máquina pública e governo a serviço do partido. Tudo aquilo de que acusam o PT o PSDB pratica em São Paulo há quase duas décadas."
DO LÍDER PETISTA NA ASSEMBLEIA PAULISTA, ÊNIO TATTO, sobre o favorecimento a deputados tucanos na destinação de recursos de emendas ao Orçamento nas administrações de José Serra e Geraldo Alckmin.

contraponto
Agenda própria

Durante encontro do PSB paulista realizado no último sábado de outubro na Assembleia Legislativa, o presidente nacional da legenda, Eduardo Campos, contou ter ficado surpreendido quando, pouco antes de embarcar em Recife, o filho se ofereceu para acompanhá-lo.
-Então você quer ir a São Paulo dar uma força para a juventude do PSB?- perguntou o governador de Pernambuco, todo animado, ao garoto.
-Não, pai, é que vai ter jogo do Santos!- respondeu o entusiasmado fã do craque Neymar.

JOSÉ NÊUMANNE - A revolução dos "bichos grilos" mimados da USP


A revolução dos "bichos grilos" mimados da USP
JOSÉ NÊUMANNE
O Estado de S.Paulo - 09/11/11

A Universidade de São Paulo (USP) é a maior instituição pública de ensino superior do Brasil. Com 11 câmpus e 89 mil alunos matriculados, dos quais 50 mil na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, figura também entre os mais reconhecidos centros de excelência em pesquisa científica e produção de pensamento filosófico do subcontinente latino-americano. No entanto, nenhum de seus mais respeitáveis mestres de Matemática será capaz de explicar de que tipo de legitimidade foram ungidos os 73 vândalos que ocuparam dois prédios - um da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e outro da Reitoria - para merecerem do reitor anistia "administrativa" pelos danos cometidos contra o patrimônio, de propriedade da cidadania brasileira, que sustenta suas atividades de aprendizado. Nem sequer o grego Aristóteles, preceptor de Alexandre, o Grande, encontraria alguma lógica na concessão dada a, digamos, 600 estudantes para decidirem sobre a permanência de jovens turbulentos e estranhos ao expediente nos dois prédios, a pretexto de protestarem contra a presença da Polícia Milita (PM) no câmpus, que consideram "território sagrado" e inviolável.

Quem se depara com a informação de que os invasores dos prédios só admitiam negociar com a Reitoria se os policiais fossem afastados da Cidade Universitária pode ter a falsa ideia de que, de repente, num pesadelo inimaginável, tivéssemos voltado à ditadura, que reprimia a liberdade acadêmica. Nada disso! Entre janeiro e abril deste ano, os roubos no câmpus aumentaram 13 vezes e os atos de violência - entre os quais estupros e sequestros relâmpagos - cresceram 300%. Em maio, um estudante de Economia foi morto num assalto. O sangue dele foi a gota que fez o cálice transbordar e a direção da USP assinar um convênio com a PM para que soldados fizessem o papel que vinha sendo desempenhado por 130 agentes de segurança patrimonial, que, em dois turnos, vigiavam dezenas de prédios e vários estacionamentos e garantiam a segurança de 100 mil pessoas que circulam todo dia pelas ruas da sede da USP. Em quatro meses de policiamento, os furtos de veículos caíram 92,3%; os sequestros relâmpagos, 87,5%; os roubos, 66,7%; e os delitos de lesão corporal, 77,8%.

Tudo corria muito bem até o dia em que policiais militares que patrulhavam as ruas amplas e arborizadas do aprazível local abordaram três alunos que fumavam maconha no prédio da História e da Geografia. Quando tentaram levá-los para o 91.º Distrito Policial (DP) para registrar a ocorrência, os agentes da lei foram atacados por uma horda de cerca de 200 estudantes. Do entrevero resultaram policiais feridos e seis viaturas apedrejadas. Minorias radicais que controlam diretórios acadêmicos e sindicatos de servidores e professores usaram o incidente como pretexto para um violento protesto contra a presença da polícia "repressora" em "seu" câmpus. Os rebeldes ocuparam um prédio da FFLCH, transformado em QG de sua guerra contra a "neorrepressão".

A congregação da faculdade cujo prédio foi invadido apoiou a invasão e a reivindicação dos amotinados. Mas, numa demonstração de que, felizmente, é possível estudantes aprenderem certo, mesmo quando seus mestres ensinam errado, a maioria dos alunos aprovou, em duas assembleias, a imediata desocupação dos prédios e o policiamento das ruas. A decisão era de uma sensatez cristalina. Afinal, as únicas prejudicadas com a presença de policiamento no local foram as quadrilhas instaladas nas favelas que cercam a sede da universidade, as quais tiveram reduzidos seus lucros no furto de bens, na sevícia de pessoas e na venda de drogas. A serviço dessas quadrilhas - da mesma forma que as Farc, na Colômbia, se tornaram a guarda pretoriana dos traficantes de cocaína e o crime organizado no México se aliou ao terrorismo internacional patrocinado pelo Irã -, os grupelhos esquerdistas desprezaram a decisão democrática dos colegas, ocuparam a Reitoria e exigiram a retirada da polícia para negociar a retirada.

Ao invadirem os prédios, mascarados, os ativistas da revolução dos filhinhos dos papais da USP mostraram que não tinham vergonha de se comportar como os assaltantes de diligências no Velho Oeste americano. E que contavam com a possibilidade de não ser identificados na hora de terem de pagar por seus crimes. Ao aceitar sua exigência de que os anistiaria desses delitos, o reitor João Grandino Rodas agiu com a pusilanimidade com que habitualmente os administradores universitários enfrentam esses delinquentes.

Desde que a escolha dos reitores passou a ser feita pelo voto de alunos, funcionários e professores, a politicagem vem sendo a moeda de troca que tem permitido esse tipo de baderna, nociva ao livre aprendizado e à pesquisa que a sociedade paga caro para manter em instituições como a USP. Felizmente, contudo, a autoridade policial não precisa dos votos dos baderneiros e fez o que devia ser feito: numa operação espetacular e exemplar, retomou os prédios dos invasores e os levou em ônibus para a delegacia, da qual cada "bicho grilo" mimado só saiu depois de pagar fiança de R$ 545, valor razoável para as famílias de privilegiados de elite que não frequentam aulas que poderiam estar sendo ministradas a filhos de pobres, que pagam as contas da USP e não têm chance de frequentar seus cursos caros e disputados.

O câmpus de qualquer instituição acadêmica é sagrado para a transmissão do saber, não para o consumo de drogas. É proibido fumar maconha na nave da Sé, na rua, em boates e na Cidade Universitária. Os "bichos grilos" mimados que se disseram "torturados" por terem sido levados de ônibus - e não nos carrões dos pais - para a delegacia devem ser fichados como bandidos comuns e expulsos da universidade para que outros que querem e precisam estudar recebam a educação que desprezam.

RUBENS NAVES e THIAGO DONNINI - Levar os convênios a sério


Levar os convênios a sério
RUBENS NAVES E THIAGO DONNINI
FOLHA DE SP - 09/11/11

Compreende-se que, logo após as denúncias, o governo tente despachar a culpa para algum setor "não governamental", mas é preciso ver a realidade

Desvios de recursos oriundos de convênios com organizações sem fins lucrativos levaram à queda de dois ministros do governo Dilma.

Diante disso, o novo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, comprometeu-se a celebrar novas parcerias apenas com Estados e municípios, na aparente suposição de que os entes políticos são imunes às irregularidades. Em seguida, a presidente editou decreto que "suspende as transferências de recursos a entidades privadas sem fins lucrativos até avaliação de regularidade da execução num prazo de até 30 dias".

Compreende-se que, diante de denúncias, o governo tente despachar a culpa para um setor "não governamental". Mas é preciso enxergar a realidade. Em alguns pontos, o decreto presidencial chove no molhado, enquanto, em outros, incorre em arbitrariedades.

Ao determinar a avaliação de regularidade dos convênios, só reitera uma exigência legal a que o governo sempre esteve sujeito. Já o desrespeito ao que foi pactuado, como se convênios não representassem obrigações para as partes signatárias, é ilegalidade flagrante.

Fato curioso é que no próprio governo há uma visão sensata sobre o problema. Em julho, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, convocou a sociedade -ONGs incluídas- para discutir aprimoramentos da legislação sobre convênios.

Em edital de seleção de projetos, o ministério reconhece: "(...) As regras que regem a fiscalização e a prestação de contas dos convênios não estão consolidadas em um único diploma legal. Na falta de uma disciplina clara e estável, é comum que alterações ocorram, não só a cada ciclo orçamentário, como também por meio das constantes alterações na jurisprudência do Tribunal de Contas da União (TCU), ou ainda com as recomendações do órgão interno de controle, a Controladoria-Geral da União (CGU)".

Predominantemente formada por atos do Poder Executivo (decretos, portarias, instruções), alterada ao sabor dos escândalos, a disciplina dos convênios é fonte de insegurança jurídica. O novo decreto da presidente Dilma vem apenas confirmar esse quadro.

Caso resulte numa onda de suspensão e encerramento de convênios, importantes demandas sociais deixarão de ser atendidas, uma vez que o Estado, sozinho, não terá como prestar os serviços necessários.

Levar os convênios a sério significaria respeitar o perfil constitucional desse tipo de ajuste, caracterizando-os como verdadeiros instrumentos de fomento.

A lei nº 9.790/99, que disciplina o regime jurídico das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público e institui o termo de parceria, foi um passo significativo nessa direção, fixando um marco seguro, orientado por paradigmas como moralidade, profissionalismo, consensualidade e eficiência.

Com alguns aperfeiçoamentos e maiores cuidados na sua execução, essa lei poderia se transformar no novo marco jurídico dos convênios.

Resta saber se um regime jurídico bem estruturado para as relações do Estado com organizações sem fins lucrativos interessa ao governo e aos partidos de sua base.

RUBENS NAVES, 69, é advogado, professor licenciado da PUC-SP e representante do Conselho Federal da OAB no "Comitê Jurídico do Projeto Jogos Limpos", coordenado pelo Instituto Ethos. Fundador e conselheiro da Transparência Brasil.

THIAGO LOPES FERRAZ DONNINI, 31, advogado, mestrando em direito do Estado pela PUC-SP, é professor da PUC-SP e da Universidade Nove de Julho.

RENATO CASAGRANDE - A hora do equilíbrio


A hora do equilíbrio
RENATO CASAGRANDE
FOLHA DE SP - 09/11/11

A Câmara ainda está longe de ter um consenso sobre os royalties do petróleo; algumas consequências danosas dessa indefinição merecem atenção


No momento em que caminha para votar e decidir o critério de distribuição dos royalties e participações especiais relativos à produção de petróleo na plataforma continental, a Câmara dos Deputados ainda está longe de um consenso.

As divergências entre Estados produtores, que têm direitos assegurados pela própria Constituição, e Estados não produtores, que desejam se apropriar de parcela significativa desses recursos, criaram um impasse que afeta os fundamentos do pacto federativo.

Se participasse ativamente do debate, a União já teria colocado sobre a mesa uma proposta que todos os Estados poderiam aceitar. Entretanto, isso não aconteceu, e é difícil imaginar que o governo federal venha a mudar sua postura.

Algumas consequências danosas dessa indefinição merecem atenção especial. Em primeiro lugar, os Estados produtores elaboraram programas de desenvolvimento econômico e social de longo prazo, com base no direito líquido e certo assegurado pela Constituição.

Esses programas encontram-se agora sob a grave ameaça de ficar sem recursos que garantam sua continuidade, impedindo a concretização de metas que beneficiam milhões de brasileiros e preparam o país para o momento em que se encerrar o ciclo de exploração do petróleo e do gás.

Além disso, não é admissível que um Estado -qualquer Estado- coloque objetivos regionais e imediatos acima do interesse nacional.

O Espírito Santo, com seu pequeno território e sua longa história, vem trabalhando com a consciência de que é parte da Federação e tem compromissos inarredáveis com o Brasil. Por isso, utilizamos os royalties em estratégias de desenvolvimento que se antecipam ao esgotamento desses recursos.

Nos últimos anos, o índice médio de crescimento do PIB estadual foi superior à média nacional, e fomos o Estado que mais reduziu sua taxa de pobreza. Além disso, contribuímos para a União com volume de recursos bem superior à soma de tudo que recebemos, na forma de programas sociais e obras de infraestrutura ou de transferências diretas.

Neste ano, por exemplo, ficamos em antepenúltimo lugar entre os Estados brasileiros na destinação de recursos prevista no Orçamento federal para 2012. O crescente desequilíbrio dessa relação foi responsável pelo agravamento de gargalos logísticos que hoje constituem o maior obstáculo à continuidade do nosso crescimento.

Devido à posição estratégica que ocupamos, no Sudeste brasileiro, o governo federal já deveria ter compreendido que a modernização rodoviária, ferroviária, portuária e aeroviária do Espírito Santo não é apenas uma reivindicação regional, mas relevante prioridade para o desenvolvimento nacional.

Hoje, com a participação direta de municípios, organizações da sociedade, entidades empresariais e empresas, estamos investindo -como nunca se fez- em qualificação e formação profissional de jovens e adultos para as oportunidades que estão sendo criadas com o desenvolvimento estadual.

Trabalhamos com um Orçamento racional e realista, e estamos corrigindo desigualdades sociais e regionais que se acumularam em décadas de imprevidência e miopia da União. Por uma questão de justiça, esse cenário precisa ser analisado pela Câmara dos Deputados ao decidir a questão dos royalties.

O que não podemos aceitar é a ideia de que uma proposta oportunista, insensata e demagógica coloque em risco o equilíbrio administrativo e financeiro que lutamos tanto para construir em nosso Estado e nos impeça de continuar contribuindo para que o Brasil se torne um país cada vez mais desenvolvido, justo e igualitário.



RENATO CASAGRANDE é governador do Espírito Santo pelo PSB.

FERNANDO RODRIGUES - Desconectados


Desconectados
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 09:11/11

BRASÍLIA - O PSDB fez um encontro para discutir o seu rumo. O fato marcante foi a boutade de FHC ao parodiar Barack Obama, dizendo ser a favor do slogan "yes, we care".

Para quem precisa de votos, um trocadilho em inglês talvez não seja o mais adequado. Mas mesmo em português foi difícil extrair do evento algo novo e que possa dar ao maior partido de oposição a chave para voltar ao poder central.

Aécio Neves falou sobre um "choque de profissionalismo da gestão pública". Para José Serra, o governo petista de Dilma Rousseff está recheado de "factoides e salamaleques". Economistas ligados ao PSDB , Gustavo Franco e Armínio Fraga defenderam uma queda na taxa de juros. Pérsio Arida propôs o fim dos juros subsidiados oferecidos pelo governo a empresas privadas.

Li e ouvi vários relatos sobre esse encontro dos tucanos anteontem no Rio. Em nenhum momento identifiquei algo que evoque a renovação pretendida pelo partido. Qual será a política de atuação em redes sociais na internet? É um mistério. Há algum projeto de encontros regionais, no mundo real, com eleitores interessados em ouvir as críticas ao governo do PT? Não se sabe.

Falar mal do governo é um dos papéis da oposição. Em parte, essa missão vem sendo cumprida pelos tucanos. Um relatório sobre o que e quem fala a respeito do Brasil na mídia internacional mostra Armínio Fraga citado 19 vezes em publicações da área financeira de julho de 2010 a junho deste ano. Só em cinco dessas menções ele apontou aspectos positivos do país.

O problema, portanto, não está no campo das palavras. O PSDB senta a pua no governo, mas ressente-se de inserção na sociedade real. É raro ver alguém torcendo pelo partido -da forma como fazem os seguidores do PT. Tal desconexão é mortal. Pior. Não há sinal de os tucanos terem a menor ideia do que fazer para alterar tal cenário.

CLAUDIO HUMBERTO

“Para me tirar, só abatido à bala, e precisa ser bala forte”
MINISTRO CARLOS LUPI (TRABALHO), PARA QUEM DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO NÃO BASTAM

OPOSIÇÃO CAÇA FIGURÕES PARA DISPUTA MUNICIPAL 
PSDB e DEM levaram a sério o conselho do ex-presidente FHC, para quem a oposição “deveria ir aonde o povo está”. Figurões desses partidos, atualmente sem mandato, têm sido chamados a disputar vagas de vereador. São os casos de Cesar Maia no Rio, Marco Maciel no Recife e José Carlos Aleluia (os três do DEM) em Salvador, e os tucanos Arthur Virgílio em Manaus, e Tasso Jereissati em Fortaleza. 

EXEMPLO DE HH 
A oposição quer seguir o caminho da ex-senadora Heloisa Helena (PSOL), que, sem mandato, foi eleita vereadora em Maceió.

PESOS PESADOS 
Além do ex-senador Marco Maciel, o ex-deputado Roberto Magalhães será sondado sobre candidatura à Câmara Municipal do Recife.

APARÊNCIAS 
Na frente de Carlos Lupi (Trabalho), tapinhas nas costas e sorrisos. Mas a maioria da bancada saiu de testa franzida da reunião com ele.

RBS FORA 
O portal iG está à venda, mas o grupo gaúcho RBS, suposto comprador, informou a esta coluna que não tem interesse no negócio.

‘PEQUENOS’ RECLAMAM DE CONCORRÊNCIA DO BB 
Passam aperto os bancos pequenos, por causa da política agressiva do Banco do Brasil no mercado de crédito consignado, estabelecendo monopólio em oito Estados. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa 85 instituições financeiras, pela primeira vez deve deixar de pagar a Participação nos lucros aos funcionários. Fundada em 1983 para minimizar os custos com a compensação de cheques, a ABBC ainda se queixa do desdém do Banco Central.

BOLADA 
O BB abocanhou o mercado com exclusividade em oito Estados e 40 cidades, e tem 32% de participação, movimentando R$ 150 bilhões.

SALDO NEGATIVO 
Dois anos atrás, pelo menos 70 bancos pequenos disputavam o mercado, até o Banco do Brasil se interessar pelo negócio.

LOURAS EM ALTA 
A gaúcha Rosa Maria Weber, futura ministra do Supremo Tribunal Federal, é mais uma loura, e do Sul, escolhida pela presidente Dilma Rousseff.

ELE, OUTRA VEZ 
Pelego há décadas no sindicato dos trabalhadores da USP, Magno de Carvalho é um dos líderes da invasão de grupelhos porra-loucas à reitoria. É na casa dele que se hospeda o terrorista Cesare Battisti.

QUEM ESPERA... 
A turma do ministro Carlos Lupi (Trabalho) é tão gulosa que, desde fevereiro, ele era o primeiro da fila da varrição. Apareceram seis “fura-filas”, e Lupi foi ficando para trás. Mas chegou a sua vez.

VALE-TUDO 
Acusadores do governador do DF pecam pela credibilidade escassa ou pela armação ilimitada. Ontem, um suposto delator, Daniel Tavares, confessou à Record haver recebido dinheiro de duas deputadas, Celina Leão e Eliana Pedrosa, do PSD, para acusar Agnelo Queiroz.

CARAS VIROU TESE 
A jornalista Fabiana Moraes elaborou tese de doutorado, na UFPE, sobre a construção de uma “Sociologia da Celebridade no Brasil”, analisando a relação cheia de nuances entre leitoras da revista Caras, 75% do total, e salões de beleza. A tese foi aprovada com louvor.

ELOGIO À COVARDIA... 
O Sindicato dos Professores do DF achou relevante promover debate com MV Bill, que, na filmagem de documentário, no Rio de Janeiro, deparou-se com sequestrados em três cativeiros e nada fez, nem avisou à polícia.

...E À MENTIRA 
MV (de “Mensageiro da Verdade”) Bill omitiu no filme Falcão, Meninos do Tráfico que viu pessoas “amarradas e encapuzadas esperando a morte chegar”, como relata o livro sobre os bastidores das gravações.

DESINTERESSE 
O cartaz oferecendo uma recompensa de apenas 5 mil merrecas mostra o desinteresse da polícia do Rio na prisão do traficante “Nem”, um dos mais perigosos do País, e explica a demora da sua captura.

VOCÊ JÁ SABIA 
A queda de braço da Embraer nos EUA com o lobby da americana Hawker Beechcraft, para vender os novos caças leves de combate da Força Aérea, foi noticiada primeiro nesta coluna, em junho. Perderá.

TITANIC 
Carlos Lupi (Trabalho), que se diz “osso duro de roer”, avisou que Dilma mandou-o “tocar o barco”. Não disse se com ou sem música. 

PODER SEM PUDOR
PRIORIDADE DE GOVERNO 
O governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, gosta de lembrar uma história da Câmara Municipal da sua Pindamonhangaba (SP).
Certa vez, um vereador chamou o prefeito de “desleixado” por não reformar o muro do cemitério, que desabara. Um vereador situacionista discordou, encerrando a discussão:
– Consertar o muro do cemitério não deve mesmo ser prioridade. Por dois motivos: quem está fora não quer entrar e quem está dentro não quer sair!

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Lupi: "Duvido que Dilma me tire. Nem na reforma"

Folha: Crise faz Berlusconi renunciar

Estadão: Berlusconi é o sétimo governante europeu a cair por causa da crise

Correio: Acusador de Agnelo agora culpa distritais

Valor: Crise derruba as receitas de bancos de investimento

Estado de Minas: Vítimas da crise

Jornal do Commercio: Festa de primeira

Zero Hora: ONU aponta uso militar de projeto nuclear do Irã