segunda-feira, outubro 17, 2011

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - Na base do puxadinho



Na base do puxadinho 

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O ESTADÃO - 17/10/11

SÃO PAULO - O governo da presidente Dilma anda preocupado com as palavras. Algumas devem ser banidas. "Faxina", por exemplo, nunca existiu. A queda de quatro ministros e vários funcionários de primeiro escalão, envolvidos em denúncias de corrupção, foi apenas uma "reestruturação" do governo.

"Privatização" também não existe. O governo vai vender para empresas privadas a operação (e reformas) dos Aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília - mas o nome disso é "concessão".

É tudo para o público interno. A "faxina" é um ataque direto ao governo Lula, já que os demitidos eram todos herança da administração anterior. Já a "privatização" é uma ofensa dupla. De um lado, atropela ideias de petistas e aliados à esquerda. De outro, ataca, de novo, membros do governo anterior, tanto esquerdistas quanto não ideológicos, considerados responsáveis pelo atraso nas reformas dos aeroportos.

Mas se fosse apenas uma questão de nomes, poderia passar perfeitamente. Se a presidente aprofundasse o combate à corrupção e apressasse as obras nos aeroportos, tudo bem, pode chamar como quiser.

O problema é que as coisas não andam. A "faxina" parou e os leilões de privatização já foram transferidos para janeiro de 2012 - isso se der tudo muito certo.

E corre o risco de não dar. Primeiro, pelas dificuldades normais da burocracia, do custo Brasil e da ineficiência do setor público. Segundo, porque parece que está saindo uma privatização envergonhada.

O governo está colocando exigências difíceis e caras para os concessionários. Algo assim: então as empresas privadas querem os aeroportos? Pois vão ter de dançar miudinho.

A necessidade de privatização indica que o governo não tem os recursos nem a capacidade de apresentar aeroportos decentes. Significa, portanto, que é uma óbvia confissão de fracasso do modelo controlado pelo governo. Mas, em vez de os responsáveis saírem de mansinho - "desculpa aí, pessoal, foi mal" -, parece que estão tentando criar exigências para dificultar a vida dos futuros concessionários. Se estes também fracassarem, seria um alívio, não é mesmo?

Enquanto isso, já sabemos que, para a Copa do Mundo, certamente, e para a Olimpíada, provavelmente, ficaremos com os puxadinhos. Qual o problema? São muito decentes, diz o pessoal do governo.

Passei outro dia pelo novo puxadinho de Guarulhos. Estava em ordem - banheiros, lanchonete, telas de avisos, cadeiras, tudo limpinho -, mas reparem na operação. Os passageiros fazem o check-in e passam pela verificação de bagagens nas mesmas instalações lotadas do prédio principal. Feito isso, tomam um ônibus num terminal deste mesmo prédio. O ônibus deixa todos no puxadinho. Chamado o embarque, todos vão caminhando até o avião, sujeitos às variações do tempo. Assim, o puxadinho apenas alivia a lotação nas salas de embarque.

É decente? O.k., mas não é bem o que se imagina quando os governantes brasileiros saem pelo mundo dando lições de governança.

A propósito, o pessoal do governo também tem bronca com essa palavra. Não é puxadinho, trata-se de um "módulo provisório". Mas pelo menos lá, em Guarulhos, todos os funcionários e passageiros chamam a coisa de puxadinho.

Quanto à faxina, o problema é mais complicado. A melhor imagem da presidente Dilma está justamente no combate à corrupção. Mas parece que ela e seus assessores não estão gostando disso. Querem a imagem de realizadora, tocadora de obras.

Que fazer? Copiar o modo Lula. Se algo não está funcionando bem, lance um novo programa. Se o programa não dá resultados, lance outro. Se há problemas complicados em um setor, lance um plano para outra área, uma ideia qualquer que pareça interessante e de fácil visibilidade.

A presidente Dilma já lançou vários programas - como o Brasil Sem Miséria e o conjunto de apoio à indústria nacional -, mas não funcionou, conforme avaliação dos próprios integrantes do governo.

Dirá o leitor que a avaliação não faz sentido. São programas de médio prazo - como se pode dizer que não funcionaram poucos meses depois de lançados?

Mas não está aí a preocupação do governo neste momento. Os planos não pegaram em outro departamento, o do marketing político-eleitoral, onde Lula exibia o máximo de sua capacidade de convencimento. Lançava, prometia e seguia em frente.

Tome-se a transposição do Rio São Francisco. Lula, no lançamento, chamou de maior obra de seu governo (a mais cara certamente é) e prometeu inaugurar tudo até dezembro de 2010, término de seu mandato.

A expectativa mais otimista, hoje, é a conclusão de um primeiro trecho no final do mandato de Dilma. Em resposta à reportagem deste Estadão, o Ministério do Planejamento explicou que a obra não ficou pronta nem ficará tão logo porque foi preciso negociar "aditivos" aos contratos. E, claro, o projeto já está bem mais caro. Ou seja, estava malfeito, não é mesmo?

Como não faz sentido reprometer a mesma coisa - que traria implícita outra confissão de fracasso da gestão anterior -, é preciso lançar outros programas. Podem reparar, toda vez que se vê em dificuldades, o governo anuncia algum plano. O problema de marketing político, e sem solução, é que falta Lula para animar os lançamentos em palanques pelo Brasil.

Poderiam chamá-lo para a festa, mas isso atropelaria a presidente Dilma. Que fazer? Mais programas e tocar na base do puxadinho.

CARLOS ALBERTO DI FRANCO - Jornal, qualidade e rigor



Jornal, qualidade e rigor
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
O Estado de S.Paulo - 17/10/11

Televisão e internet são, frequentemente, os bodes expiatórios para justificar a crise dos jornais. Os jovens estão "plugados" horas sem-fim. Já nascem de costas para a palavra impressa. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. Mas não é só a moçada que foge dos jornais. Os representantes das classes A e B também têm aumentado a fileira dos navegantes do espaço virtual.

Os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de jornais de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo, na infografia e na prestação de serviços - estratégias convenientes e necessárias -, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que devemos conquistar não quer, como é lógico, o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer informação de qualidade: a matéria aprofundada, a reportagem interessante, a análise que o ajude, de fato, a tomar decisões.

Para sobreviverem os grandes jornais precisam fazer que seja interessante o que é relevante. "O jornalismo impresso deve ser feito para um público de paladar fino e ser importante pelo que conta e pela forma como conta. A narração é cada vez mais importante." É a correta percepção do professor Alfonso Sánchez-Tabernero, vice-reitor da Universidade de Navarra, na Espanha.

Quem tem menos de 30 anos gosta de sensações, mensagens instantâneas. Para isso a internet é imbatível. Mas há quem queira entender o mundo. Para estes deve existir leitura reflexiva, a grande reportagem. Será que estamos dando respostas competentes às demandas do leitor qualificado? A pergunta deve fazer parte do nosso exame de consciência diário.

Antes, os periódicos cumpriam muitas funções. Hoje, não cumprem algumas delas. Não servem mais para nos contar o imediato, o que vimos na TV ou acabamos de acessar na internet. E as empresas jornalísticas precisam assimilar isso e se converter em marcas multiplataformas, com produtos adequados a cada uma delas. Não há outra saída!

Nas experiências que acompanho, no Master em Jornalismo e nos trabalhos de consultoria, ninguém alcançou a perfeição e ninguém se equivocou totalmente. O que se nota é que os jornais estão lentos para entender que o papel é um suporte que permite trabalhar em algo que a internet e a rede social não podem: a seleção de notícias, o jornalismo de alta qualidade narrativa e literária. É isso que o público está disposto a pagar. A fortaleza do jornal não é dar notícia, é se adiantar e investir em análise, interpretação e se valer de sua credibilidade.

Estamos numa época em que informação gráfica é muito valiosa. Mas um diário sem texto é um diário que vai morrer. O suporte melhor para fotos e gráficos não é o papel. Há assuntos que não é possível resumir em poucas linhas. Assistimos a um processo de superficialização dos jornais. Queremos ser light, leves, coloridos, enxutos. O risco é investir na forma, mas perder no conteúdo. Olhemos para o sucesso da revista britânica The Economist. Algo nos deveria dizer. Não é verdade que o público não goste de ler. O público não lê o que não lhe interessa, o que não tem substância, não agrega, não tem qualidade. Um bom texto, para um público que compra a imprensa de qualidade, sempre vai ter interessados.

Daí a premente necessidade de um sólido investimento em treinamento e qualificação dos profissionais. Para mim, o grande desafio do jornalismo é a formação dos jornalistas. Se você for a um médico e ele disser que não estuda há 20 anos, você sai correndo. Mas há jornalistas que não estudam há 20 anos. É preciso criar oportunidades de treinamento. O jornalismo não é rotativa. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética, inovação. Por isso são necessários jornalistas com excelente formação cultural, intelectual e humanística. Gente que leia literatura, seja criativa e motivada.

O conteúdo precisa fugir do previsível. O noticiário de política, por exemplo, tradicionalmente forte nos segmentos qualificados do leitorado, perdeu vigor. Está, frequentemente, dominado pela fofoca e pelo declaratório. Fazemos denúncias (e é importante que as façamos), mas, muitas vezes, faltam consistência, apuração sólida. O resultado é a pauta superada por um novo escândalo. Fica no leitor a sensação de que não aprofundamos, não conseguimos ir até o fim. O marketing político avançou além da conta. Estamos assistindo à morte da política e ao advento da era do declaratório e da inconsistência.

Políticos e partidos vendem uma bela embalagem, mas fogem da discussão das ideias e das políticas públicas. Nós, jornalistas, somos - ou deveríamos ser - o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e mostrar a realidade. Só nós, estou certo, podemos minorar os efeitos perniciosos do espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia sólida e amadurecida.

Uma cobertura de qualidade é, antes de mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. O nosso papel é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções dos governantes. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

Só um sério investimento em qualidade e rigor garantirá o futuro dos jornais.

SERGIO LEO - Governo desmoraliza Camex e erra em comércio exterior



Governo desmoraliza Camex e erra em comércio exterior
SERGIO LEO
Valor Econômico - 17/10/2011

Estranho paradoxo o do governo Dilma, que percorre as reuniões internacionais clamando por maior coordenação e união no combate à crise internacional e, ao mesmo tempo em que a presidente da República critica lá fora o protecionismo, sua equipe no Brasil levanta barreiras comerciais sem coordenação entre os ministérios. Há dez anos, foi criada a Câmara de Comércio Exterior, para ordenar as ações dos órgãos do governo em temas comerciais. E em seu aniversário, a Camex foi ignorada para que o país embarcasse no protecionismo.

O Brasil parece, mais e mais, espelhar-se no exemplo da vizinha Argentina, adepta das medidas informais de administração do comércio ou pouco atenta aos compromissos com o sistema multilateral. O problema do exemplo é sua ineficiência: as estatísticas da própria Argentina mostram perda crescente da competitividade dos produtos manufaturados locais, para prejuízo da população e do país.

São preocupantes as informações que saem, por exemplo, do Grupo de Acompanhamento Conjuntural (GAC), criado para troca de impressões entre o governo e o setor privado. Segundo relato dos próprios empresários, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, parece encantado com boa parte das sugestões protecionistas levantadas nesse grupo, mesmo as que claramente rompem regras internacionais e sujeitam o país a questionamentos na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Uma das últimas medidas postas em estudo por Mantega é a sugestão de proibir o desembarque de certas mercadorias a não ser em portos especialmente designados - uma maneira de dificultar a vida dos importadores. Se adotada a proposta, portos como Santos e Paranaguá seriam fechados a determinados manufaturados, criando uma barreira de custo e logística aos importados.

O Brasil não seria o único a contrariar as regras da OMC. Mas, como país em desenvolvimento, pacífico, de tamanho ainda reduzido no comércio e no mercado financeiro internacional, deveria ser um dos primeiros interessados em fortalecer, não minar, o sistema de normas multilaterais, que, até agora, só tem beneficiado os interesses brasileiros. Deflagrar conflitos comerciais com violações explícitas às regras internacionais não parece uma estratégia sensata, nem se ajusta ao discurso de Dilma Rousseff nos palcos internacionais.

Desde as ações contra barreiras à gasolina nos EUA e questionamento dos subsídios à Embraer, pelo Canadá, o Brasil coleciona vitórias na OMC, a última delas contra os subsídios ao algodão americano. A OMC serve para desencorajar o mero uso da força bruta na proteção a mercados, estabelecer regras aceitáveis para comercialização de mercadorias e arrancar de parceiros faltosos compensações como o inédito financiamento dos EUA a pesquisas e tecnologia para o algodão brasileiro.

O problema das decisões repentinas e voluntariosas, como a tomada em setembro no Brasil, de aumentar em 30 pontos percentuais o imposto sobre produtos industrializados dos automóveis, vai além de sua vulnerabilidade jurídica, com liminares espalhadas para garantir importação sem IPI, no país, e movimentação, no exterior, dos parceiros do Brasil para questionar a ação protecionista. O exemplo das barreiras levantadas atabalhoadamente obriga a diplomacia brasileira a defender chicanas protecionistas que podem, muito bem, ser usadas contra o Brasil no futuro.

Além disso, desmoralizar a Camex como local de acerto de ponteiros dos ministérios é abrir espaço para mais decisões capengas e indefensáveis que exigem sucessivos retoques, como vem acontecendo com o aumento do IPI para carros. Abriu-se uma exceção para importações do México e Argentina, porque interessava às grandes montadoras instaladas no país. Por ordem de Dilma, a pedido do amigo presidente uruguaio, José Mujica, abriu-se outra exceção para os 20 mil carros importados do Uruguai, majoritariamente chineses. Anuncia-se discutir mudanças, caso a caso, para montadoras com planos de instalação no país.

Discutindo na Camex, quem sabe os ministros teriam evitado essa sucessão de casuísmos e adotado medidas mais sofisticadas e mais proveitosas para o consumidor. Uma delas foi apontada à repórter Francine de Lorenzo, do Valor, pela professora Vera Thorstensen, uma das maiores especialistas em comércio internacional no país - que deplorou o amadorismo do imposto que discrimina, contra a lei, entre produto nacional e produto importado já internalizado no mercado nacional. O governo poderia ter criado um programa de desenvolvimento tecnológico, que permitiria incentivos à indústria instalada no país, aponta Thorstensen.

O programa cobraria investimento na melhoria do produto nacional, em troca de proteção. Essa ideia foi levantada e abandonada no calor das conversas com as montadoras. Agora, os países de origem dessas mesmas montadoras exigem que o Brasil justifique na OMC o injustificável aumento seletivo de imposto.

VINICIUS MOTA - A maldição de Guadalajara



A maldição de Guadalajara
VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 17/10/11

São PAULO - Foi-se o tempo em que Guadalajara, a cidade mexicana que abriga os Jogos Pan-Americanos, era sinônimo de sorte para os brasileiros. A sede da campanha vitoriosa da seleção tricampeã do mundo de futebol, em 1970, já mostrava sua face agourenta 16 anos depois.
Quartas de final contra a França, Copa de 1986, estádio Jalisco, pênalti para o Brasil no segundo tempo.
Zico desperdiça, e a partida fica no 1 a 1. Na disputa de penalidades, Sócrates fracassa, o zagueiro Julio Cesar bombardeia a trave, e o goleiro Carlos põe para dentro uma cobrança errada dos franceses.
Vinte e cinco anos adiante, a maldição não dá trégua. Nas primeiras horas do Pan, o nadador Cesar Cielo foi para o hospital. Contundidas, Jaqueline (vôlei) e Jade Barbosa (ginástica) acabaram cortadas.
Outra baixa foi o ministro do Esporte, Orlando Silva (PC do B). Acusado de integrar um esquema de corrupção no Distrito Federal, Silva negou tudo, declarou-se prestigiado por Dilma Rousseff, mas bateu em retirada do México para dar explicações ao Planalto.
A legenda de Orlando Silva é uma curiosidade histórica. Na origem, renegou as críticas de Kruschev às atrocidades praticadas por Stalin na União Soviética. Folclorizou-se pela defesa do socialismo na Albânia, enquanto se organizava para viver do restolho deixado pelo PT.
Foi cuidar dos esportes, fez aliança com a velha cartolagem, patrocinou uma rede de ONGs que recebem dinheiro público em nome de algum objetivo nobre como a "inclusão social pelas atividades esportivas".
Com a realização da Copa e da Olimpíada no Brasil, o que era um setor de segundo plano tornou-se mina de ouro. Para a sorte ou para o azar de Orlando Silva e sua sigla?
A tarefa é grande demais para ser tocada no velho estilo sem produzir escândalos engolfando a gestão Rousseff. Haverá sempre um Ministério da Pesca para oferecer ao PC do B.

RUY CASTRO - Adereços de mão

Adereços de mão
RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 17/10/11

RIO DE JANEIRO - As fotos, sempre em preto e branco, dão uma sensação de urgência, perigo, tensão. Claro, foram batidas em movimento. Nelas há jovens correndo, perseguidos por soldados brandindo cassetetes; rapazes apedrejam alvos fora do quadro; e uma que até hoje me abala: um paisano -policial- tirando o cinto das calças para usá-lo contra um garoto, como nossos pais tinham feito até tão pouco.
Grandes fotos. Revi-as outro dia, numa pasta de recortes sobre o período. Mas nem preciso disso para me lembrar porque, em algumas daquelas cenas, eu estava lá, ao vivo, numa dupla militância -repórter do "Correio da Manhã" e estudante da FNFi (dizia-se fê-nê-fi, Faculdade Nacional de Filosofia). O ano era 1967. O cenário, a avenida Rio Branco e adjacências. O enredo, as passeatas e os corre-corres contra a ditadura.
Estranho é constatar a nossa pobreza de recursos. Ia-se para a passeata com a coragem e a generosidade típicas dos jovens e, no máximo, rolhas no bolso, para jogar sob as patas dos cavalos. Fora um ou outro coquetel molotov, a munição eram as pedras portuguesas, que se arrancava das calçadas.
Os slogans estavam na ponta da língua, mas, quando a correria começava, mal dava tempo de gritar "Abaixo a ditadura!". E as roupas dos meninos? Muitos de nós já usávamos jeans, mas camisetas e tênis eram raros. O normal era a camisa de manga curta, para fora das calças, e o sapato social, sem meia. Bem careta.
Pensei nisso ao ler sobre as marchas anticorrupção no último feriado. Os manifestantes, usando máscaras, narizes de palhaço e cara pintada, levaram bandeiras, bandanas e vassouras verde-amarelas, camisetas com dizeres impressos, cruzes aos milhares, faixas, cartazes etc. Puxa, o que não teríamos aprontado em 1967 se tivéssemos esses adereços de mão!

MELCHIADES FILHO - Minuto de silêncio



Minuto de silêncio
MELCHIADES FILHO
FOLHA DE SP - 17/10/11

Brasília - No momento em que ganha projeção em fóruns diplomáticos e na economia global, o Brasil curiosamente testemunha a agonia do "produto" que durante muito tempo o representou no exterior.
O futebol ainda tem muito apelo popular no país, vide os índices altos de audiência na TV. Mas o desencanto parece generalizado.
A começar pela seleção brasileira, incapaz de tratorar adversários como antigamente. Toda expectativa criada pela narrativa midiática (a aparição da dupla Neymar-Ganso, a reabilitação de Ronaldinho etc) invariavelmente gera uma decepção.
Falar mal do time virou o verdadeiro esporte nacional. Os "salvadores da pátria" se transformam no dia seguinte em mercenários apáticos.
O torcedor não é trouxa. Falta coração aos jogadores de hoje. Mas como censurá-los por desejar um naco da indústria que lucra até nas etapas em que o aspecto técnico deveria prevalecer, caso de convocações e escolhas de amistosos?
Tem gente que minimiza o desgaste. Diz que ele se limita à seleção ou ao círculo mais próximo da CBF. Afirma que os clubes sempre serão refúgio da paixão pelo futebol.
Por certo essa turma não tem visto os jogos do Brasileiro-11, cuja qualidade, baixíssima, torna difícil distinguir os favoritos ao título dos que lutam contra o rebaixamento.
Ou ignora que, com raras exceções, nosso "clubismo" vive hoje de nostalgia e de ódios regionais, combustível insuficiente para garantir a atenção de futuras gerações. Conceitos interessantes como identidade cultural, cidadania, educação e ações afirmativas infelizmente são ignorados pelos cartolas. E não faz sentido esperar que a Copa-14 mude o rumo das coisas. O descontrole orçamentário e a sucessão de fraudes mostraram que dificilmente haverá legados positivos -fora ou dentro do campo.
Para não definhar, o futebol brasileiro precisa de uma nova direção.

LUIZ FELIPE PONDÉ - A cosmética

A cosmética
LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 17/10/11

'Corretinho' é marca de mediocridade, que é enturmada e anda em bando 


Semana passada eu falava da "ética da beleza". Tema difícil. Defendi que mulheres bonitas devem usar, com moderação, a beleza como ferramenta na vida. E dizia que quem não usa é porque normalmente não tem. E que calcinhas fazem bem a vida cotidiana.

Falava também que a beleza é um fator contingente (fruto da sorte). Muita gente se pergunta se a beleza não é cada vez mais fruto da grana.

A sabedoria popular tem mesmo um ditado pra isso: "Não existe mulher feia, existe mulher pobre".

Isso é apenas mais ou menos verdade. Tem rica por aí que assustaria qualquer um a noite e pobre que encanta, mesmo que apenas na juventude. A relação entre grana e beleza se estreita à medida que os anos passam. Assim como a relação entre saúde e grana.

Sei que os "corretinhos" se irritaram com a ideia de que o mundo prefere as bonitas. Alguns desses "corretinhos" babam às escondidas em cima de meninas de 20 anos por aí, mas posam de sem preconceitos contra as mais feinhas. Não se deve confiar em pessoas que se dizem sem preconceitos. Os feios odeiam os mais bonitos.

Mas ser "corretinho" é marca de mediocridade, e infelizmente a mediocridade é enturmada e anda em bando, por isso ela é um risco contínuo para almas menos covardes (e por isso mesmo mais solitárias), desde a caverna.

Fossemos depender deles (os medíocres), não teríamos sobrevivido ao escândalo da seleção natural. A diferença é que hoje eles alçaram ao poder porque descobriram que são a maioria.

Uma das nobres funções da democracia é socializar o ônus da mediocridade dizendo que sustentá-la é um dever de todo cidadão, enquanto ser medíocre é um direito apenas da maioria.

Vinicius de Morais já dizia isso (que o mundo prefere as bonitas ou "me desculpe as feias, mas beleza é fundamental"), mas ele teve a sorte de viver antes de nossa nova hipocrisia do bem.

Mas o que me espanta é como tanta gente (os "corretinhos") se irrita quando digo a mais banal verdade (o mundo prefere as bonitas) ao mesmo tempo em que vivemos numa cultura obcecada pela beleza de forma descarada (com as palmas silenciosas dos mesmos irritadinhos).

Imagino muitos deles em frente ao espelho, às escondidas, se perguntando "espelho, espelho meu, existe alguém mais bonito do que eu?", ao mesmo tempo em que a insegurança os faz odiar a beleza dos outros.

Se você chamar a obsessão pela beleza de "direito a autoestima" os "corretinhos" não vão reclamar.

Mas a questão é que escondemos essa obsessão, achando que ela é apenas um pecado da publicidade. Quer ver?

Há algum tempo atrás, na Inglaterra, comerciais com imagens de mulheres "trabalhadas" por programas de computador foram proibidos porque passavam uma beleza "artificial" como padrão de beleza.

Acho que as pessoas que proíbem comerciais assim, o fazem pra não se sentirem feias (o espelho delas responderia "sim, existe alguém mais belo do que você") e não porque se preocupam de verdade com a veiculação do padrão de beleza "artificial", como dizem.

Imagine se um desses censores de comerciais desse tipo for alguém de uns 50 anos ou mais, com tudo que isso implica em termos de "ação da gravidade" sobre o corpo e suas capacidades fisiológicas.

Você acredita que algum deles não usará os instrumentos artificiais de beleza que condenam no comercial? O que no comercial é Photoshop, na vida real é a cosmética (esta, segundo o iconoclasta Karl Kraus, é a cosmologia da mulher).

Só não vão usar como também pagarão em 36 vezes no cartão sem juros. Babarão sobre os pretensos resultados, comprarão roupas pra realçar estes mesmos resultados e à noite chorarão de felicidade quando o espelho acusar a suposta melhoria estética. E pensarão no silêncio de sua solidão: "Meu Deus como é triste ser feio e velho".

Tornar-se-ão consumidores obsessivos de revistas, blogs, gurus e sites especializados em beleza artificial e discutirão no "Face" acaloradamente a favor do "direito ao aumento de autoestima" que esses tratamentos de beleza artificial garantem, pelo menos por algum tempo, até a próxima depressão.

ALAYR MALTA FALCÃO - Calamidade no DNIT



Calamidade no DNIT 
ALAYR MALTA FALCÃO
O GLOBO - 17/10/11

O setor rodoviário brasileiro atravessa uma crise sem precedentes e sem perspectivas de soluções em curto prazo. No GLOBO (24/07), um artigo com o sugestivo título “Feito para não funcionar” enfocou aspectos negativos na gestão do Dnit, com ênfase na questão dos chamados termos aditivos contratuais: “Por trás de dirigentes e servidores acusados de corrupção, prospera no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) uma engrenagem azeitada para impedir o controle e engavetar toda e qualquer proposta moralizadora. Consultores terceirizados emitem projetos de engenharia apócrifos e de baixa qualidade, que resultam em obras com múltiplos termos aditivos para ampliar custos e prazos”.
A questão dos termos aditivos, em tese, deve ser encarada como um recurso inerente às condicionantes temporais, metodológicas e financeiras (custo-precisão/benefício) que norteiam a elaboração de projetos de engenharia rodoviária, notadamente, os de restauração de pavimento. Todavia não existe qualquer justificativa técnica para a sistemática lavratura, conforme vem ocorrendo no Dnit, de aditivos anômalos, destituídos de qualquer fundamento técnico consistente — os quais, com grande frequência, independentemente da qualidade do projeto, decorrem, no todo ou em parte, de “práticas viciadas em processos de medição de terraplenagem” e da “indústria dos preços unitários contratuais novos”.
A proliferação desses termos aditivos gera uma situação anômala, com a qual o Dnit convive. É decorrência de um modelo organizacional estagnado tecnologicamente, e com uma centralização de poderes de decisão, cuja irracionalidade já se evidenciava desde os tempos do extinto DNER, há mais de 30 anos. Esse quadro se agravou e tornou o Dnit extremamente exposto às pressões políticas.
Como profissional do setor, convivi com fatos que são exemplares. Em 1994 integrei, com dois engenheiros de Santa Catarina, uma comissão constituída pelo Crea/SC para analisar orçamentos referenciais relativos a obras em segmentos da rodovia BR- 101/SC, então delegadas ao estado. O relatório de análise elaborado pela comissão, acusando um sobrepreço de 66%, foi encaminhado ao MT/DNER que, de forma exemplar, de imediato, cancelou o convênio e recomendou a anulação de licitação já realizada.
No período 1995/2002 participei, entre vários estudos, no Instituto Militar de Engenharia (IME), da elaboração do Estudo de Viabilidade Técnico- Econômica da Duplicação do trecho Florianópolis/SC-Osório/RS. Esse estudo teve sua versão final adulterada, através de uma tendenciosa manipulação de dados, por parte da firma consultora, com a finalidade de “garantir a viabilidade do empreendimento”. O estudo “vicioso” liberou, para a execução das obras, os respectivos projetos executivos, numa extensão de 348 km. Eles se demonstravam inadequados, com muitas soluções sem fundamentação técnico-econômica, com custos elevadíssimos e envolvendo riscos.
Encaminhei esses fatos e outras irregularidades ao conhecimento do IME, do Dnit e do Ministério dos Transportes. Apesar da evidente gravidade das informações que repassei, não foi adotada nenhuma providência. Foram continuados os trabalhos (na BR-101), contratando- se as obras.
“Morte anunciada” é um conceito adequado para o quadro atual das questões aqui enfocadas. A respeito do IME , a edição do GLOBO de 12/8/2011, em seu artigo “Fraude no IME tem 5 generais sobre suspeita”, dá prosseguimento na análise. O artigo discorre sobre problemas no período 2001-2010 — em grande parte decorrentes dos mencionados convênios com o Dnit. No que se refere à duplicação da BR-101, as obras, com prazo de execução final de 3 anos, já se prolongam por mais de 7 anos, sem previsão de conclusão, tendo sido os projetos totalmente alterados e mutilados com acentuados acréscimos de custo. Os 23 contratos dessa obra já foram contemplados com um número absurdo de 268 termos aditivos!
No âmbito do DNER/Dnit foram desenvolvidos, sob a minha responsabilidade técnica, vários instrumentos integrantes do acervo normativo do órgão, e que tratam da regulamentação de tópicos referentes à elaboração e à alteração de projetos, de preços unitários de obras, de medição de terraplenagem e de avaliação de desempenho de consultoras.
Esses instrumentos, quando devidamente aplicados, seguramente exercem decisivo e valioso efeito coercitivo sobre os acréscimos de custos das obras — resolvendo, consequentemente, a questão dos aditivos anômalos. Todavia, conforme pode ser verificado em análises processuais, os dirigentes — inclusive os superintendentes regionais — nunca se empenharam pela efetiva e devida aplicação correta.
O Dnit se mantém totalmente exposto às obras do PAC, um programa abrangente e da maior magnitude. Assim, tudo indica que, ante os condicionamentos temporais, financeiros e metodológicos totalmente inadequados impostos pela cúpula MT/Dnit para a elaboração dos respectivos projetos, a tendência natural é, quando da execução das obras, a ampliação do quadro tumultuado com que se convive atualmente, gerando uma autêntica indústria de termos aditivos.
O ministro dos Transportes deveria rever suas afirmativas, já recitadas por outro ministro, de que com o projeto executivo tais problemas estarão resolvidos. As obras de duplicação da BR-101 estão calcadas em projeto executivo. Quando levantei o problema em 2002, o Dnit qualificou o projeto como tendo sido o melhor já desenvolvido no Brasil, mas o que se qualifica hoje, na obra, é um quadro de calamidade
Os problemas enfocados nos noticiários e as contundentes críticas formuladas pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria Geral da União evidenciam o engessamento crescente de que o Dnit está sendo alvo. Da mesma maneira, o estado deplorável das condições de operação oferecidas acarreta ônus crescentes para o tráfego, em termos de custos operacionais e de custos de acidente e em termos de tempo de viagem. Tais atributos negativos não são compatíveis com as necessidades do país.
O contexto atual parece indicar a necessidade de uma reavaliação do modelo organizacional do órgão, a partir de uma análise profunda do Dnit, com base nos diagnósticos do TCU e contando-se com a participação da elite da Engenharia Rodoviária e da Fundação Getulio Vargas.
ALAYR MALTA FALCÃO é engenheiro civil.

MÔNICA BERGAMO - O MUNDO É UM MOINHO


O MUNDO É UM MOINHO
MÔNICA BERGAMO 
FOLHA DE SP  17/10/11

A família de Creusa dos Santos, filha adotiva de Cartola, está processando a gravadora EMI. Alega que ela não é creditada como intérprete das músicas "Ensaboa" e "Sala de Recepção", que cantou com o pai em 1976 em faixas que integram coletâneas do sambista vendidas até hoje. E cobra mais de R$ 2,5 milhões de royalties, além de danos morais, nas duas ações que move contra a empresa.

MOINHO 2
A EMI diz ter sido procurada por Reizilan dos Santos, filho de Creusa (morta em 2000), para um acordo financeiro, mas que não localizou contratos nem recibos comprovando seu débito com ela. A gravadora afirma que tem a obrigação de remunerar apenas os detentores da obra do próprio Cartola e que esses pagamentos estão em dia.

SEM REFORMA
O Ministério da Justiça modificará a atuação de sua Secretaria de Reforma do Judiciário. Uma das novas atribuições do órgão será desenvolver ações para ampliar a oferta de assistência jurídica gratuita, inclusive em conjunto com a Defensoria Pública nos Estados.
Deverá até mudar de nome, para Secretaria de Assuntos do Judiciário.

SILVIO BEATLE
Silvio Santos é a personalidade mais admirada pelos brasileiros, segundo pesquisa do instituto inglês Future Poll para a Johnnie Walker. O apresentador superou Bill Gates, Lula, Angelina Jolie e Jesus Cristo. Pelé ficou em décimo, atrás de Senna (sétimo) e Ronaldo (oitavo). Foram ouvidos mil homens e mulheres de 25 a 45 anos.

GAROTA DA CAPA
Marisa Monte foi fotografada em Nova York por Tom Munro para a capa de seu novo CD, "O que Você Quer Saber de Verdade". A direção de arte é de Giovanni Bianco. O álbum chega às lojas no dia 31.

PRÉ-ESTREIA
O curta "Viagem à Lua", de 1902, de Georges Méliès, será exibido na abertura da Mostra de Cinema, na quinta, no Auditório Ibirapuera. A obra foi restaurada e tem trilha da banda Air. O longa "O Garoto de Bicicleta" abrirá o festival.

MÃO NA MASSA
O PSDB paulista fará jantar para arrecadar fundos em dezembro, no bufê Baiuca, em Higienópolis. O convite custará R$ 1.000. FHC, José Serra e Geraldo Alckmin confirmaram presença.

AXÉ DO BEM
Ivete Sangalo abrirá uma instituição filantrópica em parceria com a Fundação Xuxa Meneghel na Bahia. A cantora disse à revista "Você S/A para Mulheres", que chega às bancas na quinta, que gosta de comprar imóveis e investir na bolsa, mas quer atuar no terceiro setor.

GALÃ VERDE
O sapo Caco, personagem de "Os Muppets", estará em SP em novembro. Vem divulgar o filme sobre os bonecos, que estreia em dezembro.

Paula Giolito/Folhapress

Isabel e Pedro em sua casa no Rio

ISABEL QUER PROVAR ERRO DE LABORATÓRIO EM DOPING DO FILHO

No dia 11 de julho, a ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado recebeu um telefonema de Moscou. Era seu filho, Pedro Solberg, "totalmente perdido" diante da notícia bombástica: às vésperas de disputar o Grand Slam da Rússia, e no meio da batalha para se classificar para as Olimpíadas de 2012, ele havia sido apanhado no exame de doping. Suspenso dos jogos, seu nome apareceria em poucos dias em todos os jornais.

"Eu fiquei completamente chocada, sem entender", diz Isabel. Desde aquela noite, ela "nunca mais" dormiu. Sua vida "parou totalmente" para que se dedicasse a um único objetivo: provar a inocência de Pedro.

Nos últimos três meses, ela gastou R$ 140 mil contratando advogados, bioquímicos e laudos internacionais que contestam os resultados do laboratório brasileiro Ladetec, da UFRJ (Universidade Federal do RJ). Segundo diz, eles apontam falhas como falta de controle na coleta da urina, resultados díspares de exames e possibilidade de degradação da urina antes da realização dos testes.

Isabel diz estar convicta de que o laboratório errou.

Credenciado pela Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês), o Ladetec é referência e tem a licença para realizar os exames da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Brasil. A coluna procurou Francisco Radler, coordenador do Ladetec, por dois dias. Telefonou para ele seis vezes, enviou três e-mails e torpedo no celular. Radler não respondeu.

Nesta semana, um exame feito no exterior revelará quem está errado: se o Ladetec, e seus resultados, ou se Pedro Solberg e sua família. O resultado deve sair na sexta-feira, 21.

Será o terceiro teste feito com a urina do jogador. Depois do primeiro, do Ladetec, que indicou o doping, Pedro pediu uma contraprova. Feita pelo mesmo Ladetec, ela confirmou o resultado. As contestações encaminhadas por ele à Federação Internacional de Vôlei levaram a entidade a pedir o terceiro exame, agora a um laboratório em Colônia, na Alemanha, conforme documento encaminhado por Isabel à Folha.

"O Pedro não tomou nada, nem sem querer", diz Isabel. "Ele é filho de uma atleta. Me acompanha nas quadras desde os seis anos. A questão do doping sempre foi clara, ele não é bobo nisso. Sabe dos riscos de estar na quadra e tomar água em garrafa aberta, joga copinhos fora para não tomar por engano, no meio do jogo, sem querer."

Ela diz que, nos últimos tempos, acordava no meio da madrugada pensando na possibilidade de Pedro ter tomado alguma coisa no dentista, de ter feito tatuagem ou até mesmo uma massagem com algum creme ou óleo que comprometesse os resultados dos exames. Diz que checou todas as hipóteses.

Há algumas semanas, a federação autorizou Pedro a voltar a jogar até a conclusão de seu caso.

"O doping, no meu mundo, no mundo do Pedro, é crime, é uma covardia. E é disso que ele está sendo acusado. Não permitir que essa discussão se dê na esfera científica seria uma covardia maior ainda."

Isabel afirma também que se assustou com os custos do processo de defesa. Diz que, para fazer a contraprova do primeiro exame, por exemplo, o Ladetec cobrou R$ 15 mil. "E o atleta que não tem recursos, como faz?" A família enviou carta às autoridades internacionais. O laboratório, diz Isabel, acabou devolvendo o dinheiro.

MELODIA SEM LUZ

As cantoras Bárbara Eugênia e Marina de La Riva fizeram participações especiais no show de lançamento do CD "Setembro", de Junio Barreto, no Sesc Vila Mariana. No início da apresentação, a luz acabou e o público chorou ao ouvir "Serenada Solidão" no escuro.

CURTO-CIRCUITO

Olgária Matos faz palestra hoje no Centro Maria Antonia da USP, às 19h30.

A Associação Cedro do Líbano promove almoço beneficente no Clube Monte Líbano na quinta.

Daniel canta com a Orquestra Philarmônica São Paulo no dia 4, às 22h, no Via Funchal. Livre.

A Deca faz amanhã o concurso Um Sonho de Banheiro no hotel Unique.

O espanhol Gregorio Robles faz conferência na PUC-SP hoje, às 19h.

João Bosco toca hoje na entrega do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, na Sala São Paulo.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

RENATA LO PRETE - PAINEL


Terceiro tempo
RENATA LO PRETE
FÁBIO ZAMBELI - interino 
FOLHA DE SP - 17/10/11

Embora o Planalto considere que Orlando Silva disponha de argumentação consistente para reagir às denúncias de corrupção no Ministério do Esporte, preocupa o entorno de Dilma Rousseff a persistência no noticiário das acusações envolvendo a pasta. Auxiliares próximos da presidente lembram o calvário de Wagner Rossi, ex-titular da Agricultura, que gozava de respaldo político, foi bem nas explicações dadas ao Congresso e, mesmo assim, sucumbiu à sucessão de revelações. Pesa ainda contra o ministro a repercussão internacional da crise e, sobretudo, seu efeito na organização da Copa, vital para o projeto eleitoral petista em 2014.


Calculadora Antes da crise, o espaço reservado ao PC do B na Esplanada já era contestado na base governista, se comparado ao de partidos com bancada em crescimento, como o PP e o PMDB. Além do Esporte, turbinado com a Copa e a Olimpíada, os comunistas do Brasil controlam a Embratur e a ANP.

Morte súbita Frase de um aliado do governo, avaliando a condição de Orlando Silva após a denúncia de desvio de dinheiro no Ministério do Esporte. "O programa sob suspeita é o Segundo Tempo, mas o cargo do ministro já está na prorrogação."

Pente-fino Publicado na quinta-feira passada, o decreto que regulamenta o Regime Diferenciado de Contratações passou pela análise de CGU, AGU, TCU e Planejamento. Tudo para evitar novas polêmicas nas obras de infraestrutura da Copa.

Tenho dito Dilma descarta, de forma taxativa, a fusão das secretarias de Direitos Humanos, Mulheres e Igualdade Social numa única estrutural ministerial.

Paralelo Em conversas privadas sobre a deterioração do cenário econômico global, a presidente compara frequentemente a crise atual, que aflige notadamente a Europa, com a de 1982, que levou o Brasil ao FMI.

Fora dos trilhos 1 PP e PT disputam o Conselho Deliberativo da Refer, fundo de pensão dos trabalhadores da extinta Rede Ferroviária Federal. Ligado à deputada Aline Corrêa (PP-SP), o novo presidente da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), Francisco Colombo, tenta emplacar um aliado no comando do colegiado.

Fora dos trilhos 2 No caminho de Colombo, Kennedy de Assis, atual presidente, se movimenta para permanecer no cargo com respaldo da diretoria do fundo, nomeada pelo PT. No mais novo capítulo da contenda, Colombo escalou seis auditores da CBTU para rastrear as contas da Refer, com patrimônio estimado em R$ 4 bilhões.

Segmentação Em aquecimento para as prévias paulistanas do PT, o ministro Fernando Haddad (Educação) programou reuniões setoriais com militantes dos direitos humanos, sindicalistas e movimentos ligados à juventude e à defesa da mulher.

Virtual Pressionado pela reaproximação de Geraldo Alckmin com o PSD, o PSDB paulistano põe no ar sábado uma rede social na internet para promover seus quatro pré-candidatos à prefeitura. No mesmo dia, FHC abrirá a temporada de seminários do partido para discussão de políticas metropolitanas.

Veredicto Vinculado à Secretaria de Justiça, o Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas monitora hoje em Taubaté o primeiro júri no Estado sobre remoção ilegal de órgãos. Em 1986, três médicos foram acusados de provocar mortes para retirada de rins dos pacientes.

tiroteio

"Já que o próximo feriado nacional será o de Finados, seria oportuno apresentar à Câmara dos Deputados uma moção em homenagem póstuma ao falecido DEM."
DO DEPUTADO FEDERAL JILMAR TATTO (PT-SP), ironizando a desidratação da bancada dos Democratas, agravada com a criação do PSD, nova sigla do prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

contraponto

Ato de contrição


Em passagem relatada no livro comemorativo dos 20 anos da Força Sindical, que será lançado hoje, o sindicalista José Ibrahim, um dos fundadores da entidade, conta que foi chamado a comungar durante missa celebrada por João Paulo 2º em 1991. Quando entrou na fila, foi advertido por Luiz Antonio de Medeiros, hoje secretário-adjunto do Trabalho na capital paulista:
-Onde você vai? Comunista não toma hóstia.
Sem titubear, Ibrahim respondeu:
-A do papa eu vou aceitar. Essa eu não perco!

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - A terceirização do governo


A terceirização do governo 
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O ESTADÃO - 17/10/11

Não é estranho que cada vez mais denúncias sobre desvios de recursos que têm derrubado - ou pelo menos desequilibrado - ministros digam respeito a convênios com entidades sem fins lucrativos. Esse tipo de transferência de dinheiro público para entidades privadas tem crescido mais do que os gastos públicos diretos. Supera até o ritmo de aumento das transferências para prefeituras e governos estaduais. É uma espécie de terceirização do governo.
Entre 2004 e 2010, as transferências federais para Organizações Não Governamentais (ONGs) cresceram 51% a mais do que as transferências para contas administradas por prefeitos e governadores. Foram R$ 1,9 bilhão para ONGs, em 2004, contra R$ 5,4 bilhões, em 2010, um crescimento de 180%. Também nos gastos diretos do governo federal o dinheiro repassado a ONGs cresceu mais do que para outros tipos de beneficiados.
E não é dinheiro de pinga. Nos últimos oito anos, entre transferências e gastos diretos, o poder federal colocou pouco mais de R$ 56 bilhões nas contas de ONGs. Isso daria para pagar tudo o que dezenas de milhões de beneficiários do programa Bolsa Família receberam nos últimos cinco anos, e ainda teria troco.
Apenas em 2010 - ano de eleição para o Congresso Nacional, para presidente e governadores -, as transferências federais para entidades sem fins lucrativos cresceram 40%, uma velocidade quase quatro vezes maior do que os repasses que Brasília fez para Estados e municípios.
Esse tipo de terceirização disfarçada do exercício das funções de governo tem sido uma saída encontrada por administradores públicos para dar mais agilidade à execução de projetos. Com menos amarras e sem a mesma sujeição às leis e decretos que regulam os gastos públicos diretos, as ONGs gastam mais rápido. Mas isso tem consequências.
Depois de transferido o recurso, o governo não tem controle direto sobre como ele será gasto, porque abre mão de fazer os ordenamentos de despesa. Os fornecedores são contratados pelas ONGs não por uma licitação oficial. Quem recebe o dinheiro tem a obrigação de prestar contas e apresentar notas fiscais. Porém os mecanismos de subcontratação - e fiscalização - são muito mais frouxos do que os dos gastos diretos.
Balaio. No balaio das ONGs que recebem dinheiro público tem de tudo. Há institutos de pesquisa conhecidos, como a Fundação Butantã - a campeã em transferências em 2010 -, com R$ 879 milhões (principalmente por causa da produção de vacinas contra a gripe). Estão ali também todos os partidos políticos beneficiados pelo fundo partidário: o PT recebeu R$ 28,3 milhões em 2010; o PMDB, R$ 27,5 milhões; e o PSDB, R$ 26,1 milhões.
Mas à medida que os valores vão diminuindo, os nomes das entidades sem fins lucrativos que recebem o dinheiro vão se tornando menos conhecidos. Multiplicam-se organizações beneficentes com nomes que evocam causas religiosas. Desde 2004, uma delas, chamada Fundação Bênçãos do Senhor, recebeu mais de R$ 300 milhões do governo federal para prestar todo tipo de serviços, de terceirização de mão de obra até atender população que recebe medicamento para tratamento de Aids.
Isso não quer dizer que o dinheiro público esteja sendo empregado de maneira mais ou menos eficiente ou honesta. Mas a maior distância dos órgãos de fiscalização e as facilidades de subcontratação favorecem o surgimento de intermediários. Eles podem não ganhar diretamente com isso, mas se forem políticos, por exemplo, podem ter ganhos indiretos pela aplicação de recursos originados da cobrança de impostos. É algo que não contraria necessariamente a lei, mas cria condições desiguais de concorrência entre candidatos a cargos eletivos. Quem "tem" uma ONG leva vantagem.
Só em 2010, cerca de 100 mil ONGs receberam dinheiro transferido pelo governo federal. No mínimo, é uma contradição em termos de que tantas entidades ditas não governamentais vivam de recursos públicos.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Aposta perigosa do governo Dilma


Aposta perigosa do governo Dilma
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
Valor Econômico - 17/10/2011

A política econômica de um país não pode ser construída sobre cenários especulativos, principalmente em períodos de grandes incertezas como vivemos hoje. Essa é uma limitação conhecida por quem acompanha com algum método a gestão pública em uma democracia. No caso de países que têm uma economia aberta, esse risco fica ainda mais relevante. Nas economias fechadas, principalmente em um ambiente de governos pouco democráticos, os riscos associados a uma gestão baseada em cenários construídos sem o devido cuidado são, no curto e médio prazo, menores. Mas as consequências em prazos mais longos podem ser terríveis, como nos mostra o colapso da União Soviética no final do século passado. O caso do Brasil no período Geisel é outro bom exemplo das consequências de uma avaliação errada sobre o futuro.

Corremos agora o risco de ver repetido no Brasil de hoje algo parecido. Em um momento de grandes incertezas sobre a economia no mundo desenvolvido, o governo brasileiro assumiu que o pânico que tomou conta dos mercados nas últimas semanas é a prova de que estamos entrando em um período de depressão econômica. Em resposta a essa avaliação o governo mudou o rumo da política econômica e preparou-se para uma verdadeira guerra econômica entre nações. Centralizou o comando da economia no ministério da Fazenda, fazendo do ministro Mantega seu comandante supremo. A partir dessa decisão, medidas extraordinárias passaram a ser tomadas com a justificativa de que estamos sofrendo um ataque maciço sobre nosso mercado interno.

O governo criou um IOF nas operações de venda de dólares no mercado futuro, dando ao ministro da Fazenda, que comanda o Conselho Monetário Nacional (CMN), carta branca para aumentá-lo se achar necessário. Ao Banco Central foi dada a obrigação de zelar pela manutenção de um mínimo de crescimento econômico fixado pelo Palácio do Planalto, mesmo que isso custe a obrigação - que prevalece a mais de 15 anos - de sempre buscar o centro do sistema de metas no mais curto espaço de tempo. Além disso, decretou um aumento de 30% do IPI sobre os veículos automotores importados, cruzando de forma clara a fronteira do protecionismo e abrindo um flanco perigoso na Organização Mundial do Comércio (OMC)

São medidas muito fortes, que representam uma mudança radical do soft econômico construído nos anos FHC, e que o presidente Lula manteve praticamente inalterado em seus oito anos de governo. Mas, segundo o discurso oficial, elas eram necessárias em função da gravidade do momento e dos riscos que corremos por sermos uma das poucas ilhas de demanda em um mundo em recessão.

Quero explorar com o leitor do Valor a possibilidade de não termos a crise tão terrível como a que muitos esperam. Nesse caso, como fica nossa economia amarrada por medidas tão limitadoras das forças naturais de mercado? Para onde vai a inflação, se o vento gelado da deflação mundial não chegar até nós? De acordo com algumas manifestações de membros importantes do governo o Banco Central deveria agir muito rápido para chegar logo a 9% ao ano de juros, cortando 100 pontos em cada uma das próximas três reuniões do Copom.

Explico ao leitor porque não compro esse cenário oficial. Depois da decepção que os mercados tiveram na última reunião do FMI e que causou uma queda impressionante nos preços de todos os ativos com exceção do dólar e títulos do Tesouro americano - os governos europeus sinalizaram com ênfase que vão enfrentar os desafios na Europa. A acreditar no comportamento dos mercados nos últimos dias - vejam o quadro com a comparação de alguns preços mais recentes - desta vez as medidas anunciadas e as promessas juradas foram levadas a sério. Se nas próximas semanas as decisões prometidas forem efetivadas o cenário de ruptura financeira na Europa - condição central nas previsões do governo Dilma - não vai se realizar ou, pelo menos ficará adiado. Em outras palavras, a economia europeia pode vir a sofrer do fenômeno que se chama hoje de "japoneização", mas sem uma ruptura financeira.

Nesse cenário de baixíssimo crescimento e juros próximos de zero nos países do G-7, o mundo emergente pode se transformar no único espaço econômico com crescimento. Se isso ocorrer, os investimentos estrangeiros vão representar, a partir do ano de 2012, um estímulo adicional para essas economias.

E aí, como ficaremos aqui no Brasil? Com o juro real próximo a 3% ao ano e as pressões de demanda ainda muito fortes a inflação vai continuar pressionada. Os sindicatos vão continuar a demandar salários reais mais elevados, usando a escassez de mão de obra especializada em vários setores chaves da economia como sua principal arma de luta. Nesse ambiente, a âncora da política monetária estará amarrada e enfraquecida pelo compromisso com os juros baixos. E, sem ela, os custos crescentes na economia vão continuar a afetar os preços dos bens e serviços. Nesse caso, apenas a valorização do câmbio pode moderar a inflação média, como ocorreu até recentemente. Mas a desvalorização do real para ajudar a indústria é outro compromisso com o governo e que precisaria ser alterado para ter alguma influência na inflação.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

FLÁVIO BOLSONARO - O outro lado da moeda


O outro lado da moeda
FLÁVIO BOLSONARO
O Globo - 17/10/2011

Uma polícia para ser boa e funcionar necessita, dentre outras coisas básicas, de controle e salário. Sem isso, todo o resto se reduz a mero discurso.

Como o policial do Rio de Janeiro, seja o militar ou o civil, recebe salário de fome, vamos discutir apenas no campo da teoria, pois, na prática, já sabemos que é impossível haver segurança pública de qualidade com profissionais tão massacrados.

É fato que o mau policial deve ser punido, tanto para desencorajar outros que se desviam, quanto para proteção da sociedade.

O inexplicável é que a regra somente atinja aqueles de menor grau hierárquico - rapidamente punidos com a "pena de morte" administrativa, a exclusão.

Se os registros recentes apontam para um grande número de exclusões administrativas na Polícia Militar, infelizmente, tal processo carece de maior transparência e restringe-se, tão somente, aos níveis hierárquicos inferiores.

O exemplo deve vir de cima - afinal, o parafuso se aperta pela cabeça. Logo, acertada a escolha do novo comandante da Polícia Militar do Rio e, igualmente, com os nomes indicados para o Estado-Maior da Corporação, principalmente, pelo perfil ético e moral pelo qual sempre pautaram suas carreiras.

Contudo, espero que o critério da ficha limpa seja rigorosamente observado quando da escolha de todos os demais nomes que comporão cargos da alta administração e funções de comando.

Que o novo corregedor da Corporação exerça o cargo sabendo diferenciar o que é ser justo de ser justiceiro, que não dose as punições apenas conforme a repercussão dos fatos e, também, não deixe de considerar que mais deve ser cobrado de quem exerce cargo de maior relevância.

Policiais arriscam suas vidas, diuturnamente, com carga horária de trabalho desumana - não importando se é carnaval, réveillon ou Copa do Mundo - na defesa de uma sociedade que ignora seus problemas e sofrimentos.

Gostaria de ver o mesmo afinco e intransigência despendidos para punir a tropa também utilizado para exigir do Governo estadual salários compatíveis com a responsabilidade de ser policial, especialmente no Rio de Janeiro.

RUBENS RICUPERO - Turquia versus Brics


Turquia versus Brics
RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SP - 17/09/11

Após revoltas árabes, Brasil troca risco da parceria com a Turquia pelo conforto do alinhamento aos Brics


O recrudescimento da crise financeira e a Primavera Árabe são as principais mudanças do quadro externo desde a posse do governo Dilma. A primeira é vital e ameaça o crescimento nos três primeiros anos do mandato.
Ao reagir adotando política intervencionista em juros, câmbio e comércio, Dilma muda as condições de inserção do Brasil no mundo de forma mais decisiva do que qualquer ação diplomática estrita.
A outra mudança, a árabe, não tem para nós a mesma importância. Essa é a explicação da troca do risco da parceria com a Turquia pelo conforto do alinhamento aos Brics.
No final do governo, Lula tinha escolhido como cenário de projeção o Oriente Médio, entrando pesado num ambiente onde os anjos têm até medo de encostar o pé. Foi chamuscado no acordo sobre o urânio do Irã que tentou mediar com a Turquia. Escaldado, o governo Dilma vem revelando invariável atração pela abstenção nos dilemas da Líbia e Síria. É aí que se vê melhor o contraste com nossa antiga parceira.
A diplomacia turca, conduzida pelo audacioso ministro Davutoglu, apostou tudo na Primavera Árabe. O primeiro ministro Erdogan aplica sanções à Síria, desembarca no Cairo e Trípoli, propõe o modelo turco de democracia e Estado secular.
Os turcos têm razões de sobra para isso. Esnobados pela Europa, machucados por Israel na morte de nove cidadãos na frota de Gaza, desiludidos da liderança americana, fingem dar as costas ao Ocidente e voltar às paragens onde reinou por séculos o império otomano. Não têm o que perder. Se os árabes adotam o modelo turco, aumentam o prestígio.
Se a primavera desembocar em instabilidade e perigo islamista, cresce a imprescindibilidade da Turquia graças à sua privilegiada situação geoestratégica de ponte entre Europa, Ásia, África e condição de único membro muçulmano da Aliança Atlântica desde 1952. Não partilhando de nenhum desses motivos e vantagens, faz bem o Brasil em não exagerar no ativismo.
O problema não é a abstenção, mas seus motivos. China e Rússia são autocracias vulneráveis em direitos humanos e suspeitam que mudanças na Líbia e Síria apenas favoreçam os EUA e aliados.
Apesar de democracia, a Índia tem incontáveis problemas na Caxemira, rebeliões e tensões religiosas. Quais seriam as razões brasileiras? Não deve ser o cálculo de que nossos fracos interesses e meios de ação na região aconselham a abstenção. Era assim que agíamos no Conselho da Liga das Nações onde a abstenção sistemática nas questões das minorias tornou o Brasil prescindível, desmoralizando a candidatura a um posto permanente.
Se o motivo é a interpretação restritiva do princípio da não ingerência, temos de explicar como nos situamos ante o parágrafo 139 da Declaração de Chefes de Estado na ONU em 2005.
Nesse documento, os governos reconheceram o dever, não o direito, de proteger as populações contra suas próprias autoridades em casos de genocídio, crimes de guerra, contra a humanidade e limpeza étnica.
Repudiamos a declaração que assinamos? Ou temos motivos para sustentar que ela não se aplica aos casos atuais? Ser ou não ser? Falta explicar com clareza nossas hamléticas vacilações.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Demanda em alta atrasa entrega de elevadores
MARIA CRISTINA FRIAS 
FOLHA DE SP - 17/10/11

As fabricantes de elevadores aumentaram o prazo de entrega das unidades devido às dificuldades de atender à demanda da construção civil. Nos últimos três anos, a produção anual passou de 9.000 unidades para cerca de 15 mil, de acordo com o Seciesp (Sindicato das Empresas de Elevadores do Estado de São Paulo). "O mercado aqueceu demais e pegou todo mundo de surpresa. É por isso que as entregas estão atrasando", diz o presidente da entidade, Jomar Cardoso.
O prazo médio de entrega de elevadores para edifícios residenciais, por exemplo, passou de dez para 12 meses. Para prédios comerciais de luxo, a espera pode chegar a dois anos. "Se nós não importássemos uma parte da China, não entregaríamos nem com atraso", afirma Cardoso. Para não retardar a inauguração de edifícios, as construtoras têm fechado contratos de elevadores com maior antecedência, de acordo com Francisco Bosco, diretor da Atlas Schindler.
Para o vice-presidente da Thyssenkrupp, Paulo Henrique Estefan, a demanda deve ficar estável em 2012 e diminuir em 2013. Mesmo assim, a companhia expandirá a área construída de sua fábrica, em Guaíba (RS), de 24 mil m2 para 33 mil m2. A planta da LGTECH, que também fica em Guaíba, triplicou a sua capacidade de produção neste ano. "Ainda assim, nosso prazo de entrega para edifícios residenciais passou de cinco para dez meses", diz Alfredo Silva, da LGTECH.

NO BALCÃO DA FARMÁCIA
O selo de segurança dos remédios, que deve ser raspado para conferir se o medicamento é original, é desconhecido por 47% dos brasileiros, de acordo com estudo da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) que será divulgado hoje. O estudo também mostra que 6% da população compra remédios em camelôs. Além disso, há uma parcela (15%) que já comprou medicamentos sem receita e outra (16%) que diz procurar farmacêuticos quando precisa de orientação sobre problemas de saúde.
"O médico deve ser a principal pessoa para indicar um remédio, mas costuma ocorrer interferência de outras. Há um longo caminho para alcançarmos o uso de medicamentos de forma racional", diz o presidente da associação, Antônio Britto. Para realizar o estudo da Interfarma, 2.000 entrevistas foram feitas pelo Ibope. "Agora temos uma base para discutirmos como os remédios são consumidos no país", afirma Britto.

CASA E ESCRITÓRIO
O crescimento na oferta de imóveis para locação na cidade de São Paulo segue inferior à demanda. No primeiro semestre deste ano, o número de unidades disponíveis para aluguel cresceu 6,3%, de acordo com levantamento da Lello. "A procura ainda é muito superior, especialmente por apartamentos no centro ou próximo a estações de metrô", diz Roseli Hernandes, diretora da imobiliária. Os apartamentos residenciais representam 44% das ofertas para locação. Os imóveis comerciais, por sua vez, são 34,5% do total. O bairro Tatuapé tem o maior número de opções para aluguel na cidade, com 17%, segundo o estudo.

BOA VIZINHANÇA
A presidente Dilma Rousseff enviou na última sexta-feira para a embaixada da Itália no Brasil uma mensagem alusiva ao Momento Itália-Brasil.
Inaugurado anteontem, ele terá centenas de eventos. "Transmito cumprimentos aos organizadores desta iniciativa (...)", afirmou a presidente.
"O 'Momento Itália-Brasil' permitirá aos países uma percepção (...) do dinamismo dos laços Brasil-Itália." "A série de ações contribuirá para consolidar adicionalmente as relações Brasil-Itália, pautadas por tradicionais laços de amizade e admiração mútua", concluiu a presidente Dilma.

Imagem do país no exterior não melhora em quatro anos

O Brasil mantém a mesma colocação há quatro anos em um ranking das imagens dos países feito pela empresa de pesquisas GfK. Apesar de ser o mais bem colocado entre os emergentes, o país não avançou da 20ª posição, que mantém desde 2008. A China passou do 26º para o 22º lugar. No total, 50 países foram analisados em seis categorias (exportações, governança, cultura, pessoas, turismo e imigração/investimentos).
Mesmo não tendo melhorado sua classificação, o Brasil foi o país do Bric que apresentou o perfil mais balanceado. "Não houve diferença significante entre as notas obtidas nos seis quesitos", diz Xiaoyan Zhao, uma das responsáveis pelo estudo. Os EUA ficaram no topo da lista pelo terceiro ano consecutivo. Inovação e oportunidades foram seus pontos fortes. Cerca de 20 mil pessoas de todo o mundo foram entrevistadas para o estudo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

RENATO JANINE RIBEIRO - Política sem pressa


Política sem pressa
RENATO JANINE RIBEIRO
VALOR ECONÕMICO - 17/10/11

Um amigo foi a Manaus, este ano, para a temporada operística. No intervalo de "Tristão e Isolda", magnífica mas, como tudo em Wagner, longuíssima, comentou aos vizinhos de plateia, já cansados: "Wagner era um homem sem pressa..." Creio que o comentário se aplica muito bem ao nosso sistema eleitoral e parte do sistema político.

Um traço essencial do regime parlamentarista é que o Parlamento pode ser dissolvido. Como ele mesmo pode destituir o governo, a forma de garantir que aja responsavelmente é fazendo pairar, sobre sua cabeça, a possibilidade de ser dissolvido - pelo presidente da República ou, às vezes, pelo primeiro-ministro. Muito bem. Isso significa que, entre o dia em que sai o decreto de dissolução e as eleições, não transcorrem mais que 30 ou 60 dias.

Aqui no Brasil, talvez o único país do mundo que conta com um ramo inteiro do Judiciário especializado em eleições, dotado por sua vez de cartórios e funcionários que trabalham o tempo todo para promover pleitos que somente se realizam a cada dois anos, cada vez que se fala em promover uma consulta - como certos plebiscitos - responde-se que a Justiça Eleitoral demorará um ano ou dois para organizá-la. É incrível o abismo entre a rapidez dos países parlamentaristas e a lentidão do nosso órgão incumbido de reger as eleições. Nada justifica essa demora.

Eleição e posse são rápidas nos países avançados

Neles, as eleições se realizam sem maiores transtornos urbanos. Nos Estados Unidos, dão-se na "primeira terça-feira após a primeira quarta-feira de novembro" - num dia útil, em que todos trabalham. Mesmo assim, votam. Não há congestionamentos de trânsito perto das seções eleitorais. Não há carros parados em lugar proibido, ante a indiferença dos guardas de trânsito, que sabem que se multarem - como deveriam - farão o motorista irritado votar na oposição ao prefeito. Tudo é normal.

Há mais. Realiza-se a eleição parlamentar, e o partido no governo perde a maioria. O líder da oposição assumirá o governo. Na manhã da segunda-feira (eleições europeias são com frequência no domingo), um caminhão de mudança estaciona diante da residência oficial do agora ex-premier, e antes do meio-dia ele desocupa a casa. Isso, aliás, sempre me espantou - como consegue isso? Em segredo a mulher e os empregados já tinham encaixotado tudo? Ou, como é provável, depois voltam para retirar o principal?

Mas estas minhas dúvidas são detalhes. O fato é que, menos de 24 horas depois da eleição, já há um novo governante em função. E também um novo governo: 20 ou 30 ministérios (ou secretarias de Estado) mudam de mãos em questão de horas. No Brasil, é normal o governante eleito começar, só aí, a fechar a sua equipe. Demora meses negociando e escolhendo, ou escolhendo e negociando. Na França, Alemanha, Reino Unido, Espanha, tudo isso se faz em menos de um dia.

Estaremos acostumados a desperdiçar o tempo da política? É essa a questão. Verdade que também isso acontece nos Estados Unidos. Da eleição à posse, lá se passam dois meses e meio, em que também há um governo desautorizado e outro, aguardando para ligar as turbinas. Os norte-americanos até dispõem de uma expressão para designar o presidente e o Congresso em fim de mandato, depois de eleitos seus sucessores: "lame duck", literalmente, pato machucado, cujas asas estão feridas e já não lhe permitem voar. Eles aceitam 75 dias de inatividade. Nós toleramos 60, em caso de segundo turno, e 90, se a eleição for definida no primeiro.

Sempre foi assim, aqui. Antes de serem informatizadas as eleições, a apuração tardava dias. Na França dos anos 1970, acompanhei alguns pleitos. Fechavam-se as urnas ao escurecer, e os mesários apuravam os votos. Pelas 22 horas, já havia os resultados de cada seção eleitoral e, o mais tardar à meia-noite, sabia-se quem ganhara e quem perdera as eleições. Por isso, de manhã o primeiro-ministro deixava a casa que ocupara durante alguns anos. No Brasil, uma rapidez comparável somente se tornou possível com a informatização. Não precisávamos ter esperado tanto.

Porque, repito: será que acreditamos que o tempo da política não vale? Que pode ser jogado fora? Que não há urgências? Que podemos demorar à vontade para ter o resultado proclamado, o ministério constituído, o governo funcionando? Nada disso faz o menor sentido. Até porque, quando o governo toma posse, esperamos ainda que no seu primeiro ano de mandato esteja acertando os ponteiros. Isso vale inclusive quando a sucessão se dá no mesmo partido - veja-se como tratamos Dilma Rousseff: não faz nem um ano que assumiu, ainda tem de trocar ministros, fazer tudo andar direito... Esta condescendência com a lentidão na coisa pública não é, seguramente, um bom sinal.

Sei das dificuldades que há na política. Nos Estados Unidos e nas democracias com voto distrital, são poucos os partidos. No Brasil, o presidente eleito tem de negociar à exaustão com os vários partidos representados no Congresso. Mas, nos Estados e municípios, é bem mais fácil. E isso não explica a lentidão dos governadores e prefeitos, ou da Justiça Eleitoral - que, por exemplo, no quadriênio passado tardou dois anos para julgar as eleições do Maranhão e da Paraíba, ainda por cima, dando seus governos aos candidatos derrotados, em vez de convocar novo pleito. Acredito que, lá onde isso é viável, e em quase todas as esferas da política o é, faria bem nossa política ter um pouco mais de pressa.

Em tempo, até porque de tempo falamos: recomendo a temporada de óperas em Manaus. Wagner é ótimo, e há também os compositores mais velozes - Mozart, os italianos...

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

RICARDO NOBLAT - O tempora o mores


O tempora o mores
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 17/10/11

Acendeu o sinal amarelo para Orlando Silva, ministro dos Esportes, acusado por um militante do seu partido, o PC do B, de ter recebido dinheiro desviado de organizações não governamentais (ONGs). No último sábado, reunida com assessores, Dilma considerou “inconsistente” a denúncia contra Orlando e fez questão de se solidarizar com ele.

Dilma procedeu da mesma forma com os ex-ministros Antonio Palocci, da Casa Civil, Alfredo Nascimento, dos Transportes, Wagner Rossi, da Agricultura e Pedro Novais, do Turismo. Uma vez afagados, eles acabaram compelidos a pedir demissão sob a suspeita de enriquecimento ilícito e outros tipos de malfeitos.

Atenção, Orlando! De amarela, a cor da luz passará à vermelha se nos próximos dias José Sarney (PMDBAP), presidente do Senado, sair em seu socorro – como saiu no caso dos outros. Ou se o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), uma das almas mais imaculadas da Câmara, ensaiar algum ato de desagravo a seu favor.

Alfredo Nascimento começou a cair quando a VEJA publicou reportagem sobre irregularidades detectadas no ministério dos Transportes. Anonimamente, empresários disseram à revista que pagavam comissões sobre contratos assinados com o ministério. E que o dinheiro engordava o Caixa 2 do PR, partido de Nascimento.

No dia em que VEJA circulou com a reportagem, Dilma ordenou o afastamento da cúpula do ministério. Só poupou Nascimento e o secretário- executivo, que o sucederia mais tarde. Nascimento pediu as contas quando o jornal O Globo descobriu que um dos seus filhos ficara rico em pouco tempo. Pouquíssimo tempo. Assim como Palocci.

No caso de
 Orlando, as fontes de informação da VEJA têm nome, CPF e endereço residencial conhecido. O policial militar João Dias Ferreira é uma delas. Fez parte do grupo de cinco pessoas presas no ano passado pela polícia de Brasília, acusadas de embolsar dinheiro do programa Segundo Tempo, do Ministério dos Esportes.

Militante do PC do B, Dias Ferreira revelou que ONGs pagavam ao partido até 20% do valor de convênios firmados com o ministério. Em oito anos, o partido pode ter lucrado algo como R$ 40 milhões. Uma vez, refugiado em seu carro dentro da garagem do ministério, Orlando chegou a receber em mãos dinheiro vivo. Que cena!

O portador da encomenda foi Célio Soares Pereira, 30 anos, funcionário de uma academia de ginástica de Dias Ferreira. “Recolhi o dinheiro com representantes de entidades aqui do Distrito Federal que recebiam verba do Segundo Tempo e entreguei ao ministro numa caixa de papelão. Eram maços de notas de 50 e 100 reais”, confessou.

Se Nascimento saiu do governo sem que nenhuma pessoa se apresentasse para acusá-lo de nada, como Orlando Silva ficará depois de acusado por duas pessoas de roubar dinheiro público? Se elas não recuarem, Orlando será processado – ou no Supremo Tribunal Federal, caso permaneça como ministro, ou na Justiça comum.

E aí, Dilma? Boa parte de sua popularidade decorre da idéia de que você não tolera malfeitos. Não importa se isso é verdade ou não – importa que pegou. Funciona assim: Lula foi leniente com a corrupção. Você não é. Muita gente que não votou em você, agora seria capaz de fazê-lo. Em resumo: engana-me que eu gosto.

Aprendi a gostar com Lula, que, do mensalão, disse: “Isso me cheira a folclore”. Disse sobre os que montaram um dossiê contra o PSDB: “Se um bando de aloprados resolve comprar um dossiê, é porque alguém vendeu.” E debochou da quebra de sigilo fiscal da filha de José Serra: "Cadê esse tal de sigilo que não apareceu até agora?” Grande Lula!

Não vale, Dilma, perder seu sono por causa de Orlando. Nem dar pretexto para que as pessoas comecem a pensar: ora, por muito menos ela passou a vassoura em quatro ministros. O que detém seu braço? Tratou-se apenas de um lance marqueteiro? Em que estrela se escondeu a faxina ética? “O tempora o mores” (Oh tempos, oh costumes!)

FERNANDO VELOSO - Educação e crescimento econômico



Educação e crescimento econômico
FERNANDO VELOSO
FOLHA DE SP - 17/10/11

Estudos comprovam que a qualidade da educação influi mais no desempenho do país que acesso à escola

A educação é amplamente reconhecida como um dos principais determinantes do crescimento econômico. De fato, alguns dos países que mais cresceram nas últimas décadas -Coreia do Sul, Hong Kong e Cingapura- aparecem regularmente no topo das avaliações internacionais do nível de aprendizagem dos estudantes.

Existem pelo menos três mecanismos por meio dos quais a educação pode estimular o crescimento. O primeiro fator está relacionado à elevação do nível de qualificação da população e, em função disso, da produtividade do trabalho.

Os outros dois estão associados à sua importância para o progresso tecnológico. Por um lado, a educação aumenta a capacidade de inovação na economia e favorece o surgimento de novas tecnologias. Além disso, facilita a absorção de tecnologias já existentes e sua adoção no processo produtivo.

A despeito das diversas razões teóricas e dos casos de sucesso, somente na última década a relação empírica entre educação e crescimento foi claramente estabelecida. O processo por meio do qual isso ocorreu contribuiu de forma importante para a compreensão do papel da educação para a elevação do padrão de vida da população.

Em um conhecido estudo publicado dez anos atrás, "Where Has All the Education Gone?", Lant Pritchett mostrou que, apesar de vários indicadores educacionais terem melhorado significativamente nas últimas décadas em vários países da África e da América Latina, o crescimento desses países foi nulo ou mesmo negativo se analisado durante o mesmo período. As evidências empíricas encontradas por Pritchett foram alçadas à categoria de "paradoxo da educação" por William Easterly em seu livro "The Elusive Quest for Growth", o que motivou uma série de estudos.

Dentre as várias explicações, a mais importante foi a que estabeleceu o papel crucial da qualidade da educação. Em várias pesquisas, Eric Hanushek mostrou que o nível de aprendizagem dos alunos, medido pelo seu desempenho em testes padronizados de matemática e ciências, tem um grande impacto no crescimento econômico.

Além disso, a qualidade da educação tem um efeito muito maior no desempenho econômico do que medidas de quantidade, como taxas de matrícula e número de anos de estudo da população.

Segundo Hanushek, o fraco crescimento econômico da América Latina em comparação aos países do Sudeste Asiático deve-se em grande medida ao fato de que, apesar dos progressos em indicadores de quantidade, a qualidade da educação nos países latino-americanos ainda é muito baixa.

O desafio para esses países será complementar o acesso à escola com políticas que assegurem um nível elevado de qualidade da educação. Disso dependerão suas perspectivas de crescimento econômico sustentado.



FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do Ibre/FGV.

CLAUDIO HUMBERTO


Assassino e terrorista tem que viver na via-crucis
Walter Silva Pinto Filho, promotor de Justiça, sobre Cesare Batista.

Avião espião era também para vigiar a oposição
A oposição recebeu informação inquietante de alta fonte policial: o avião não-tripulado que entrou em operação semana passada, após muito tempo e muitos micos, foi comprado durante o governo Lula não apenas com o objetivo de policiar as fronteiras, mas também de vigiar alvos políticos definidos pelo Planalto. A dúvida é se no atual governo o plano de voo original foi mantido ou se a presidenta corrigiu a rota.

Big brother
De fabricação israelense, o avião não tripulado é dotado de potentes câmeras, capazes de fotografar e filmar com nitidez e grande precisão.

Bisbilhoteiros
Petistas bem situados no governo tinham a intenção de monitorar propriedades e até a movimentação de opositores.

Ambiciosos
O projeto era adquirir 14 aviões não tripulados (Vant), ao custo unitário de R$ 8 milhões. Agora, cada um pode sair até por US$ 20 milhões.

Monitoramento
A Polícia Federal queria os aviões não tripulados para monitorar as fronteiras, por onde entram drogas e armas contrabandeadas.

Secretaria esnoba GDF e aumenta a folha
Contrariando decisão do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), a Secretaria de Governo aumentou os gastos com a folha de pagamento de comissionados, em vez de cortar custos. O governo decidiu reduzir em 45% os cargos, mas a pasta abriu vagas. A folha saltou de R$ 1,511 milhão para R$ 2,51 milhão (66%). Consultada, a assessoria informou que não poderia divulgar dados desatualizados.

Só elas
A deputada federal Sandra Rosado (RN) substituirá Ana Arraes (PE) na liderança do PSB. Ficará no cargo até fevereiro, quando assume a função o deputado Fernando Coelho (PE).

Correndo atrás
O PCdoB quer valorizar o passe com a presidenta Dilma. O líder na Câmara, deputado Osmar Junior, (PI) defenderá na TV em inserções do partido o fortalecimento da aliança com o governo federal.

Editando o Diário Oficial
Político folclórico do Rio Grande do Norte, o major Teodorico Bezerra não poupava esforços quando queria ajudar Santa Cruz, município de sua base eleitoral. Ao saber que a vizinha Nova Cruz ganharia agência dos Correios, foi à editora do Diário Oficial e mandou trocar Nova por Santa, na ordem do serviço. Santa Cruz ficou com o posto da ECT. Questionado por um adversário, anos mais tarde, Teodorico desconversou:- Sou um homem de 75 anos, de modo que só lembro do que aconteceu de seis horas da manhã para cá.

Ninguém viu
O Decreto 33.201 de 19 de setembro prevê o corte de gastos no DF. Ninguém leu: eram 676 comissionados na secretaria, agora são 760.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Bombeiros intensificarão blitzes em restaurantes

Estadão: MP da desoneração vai aumentar imposto

Correio: Por que a alta do dólar afeta tanto a sua vida

Valor: Renda sobe e 2,2 milhões de lares saem do Bolsa Família

Estado de Minas: A morte volta a assombrar nossas estradas

Jornal do Commercio: Triguerreiros

Zero Hora: Ministério do Esporte - Dilma exige explicações públicas de Orlando Silva