quarta-feira, outubro 05, 2011

PAULO SANT’ANA - Mortes impunes no trânsito

Mortes impunes no trânsito
 PAULO SANT’ANA 
ZERO HORA - 05/10/11

É impressionante o que está acontecendo no trânsito de Porto Alegre. Examinem só: de janeiro a agosto deste ano, morreram 102 pessoas no trânsito. Foram 43 pedestres mortos por atropelamento, também 43 motociclistas mortos por colisão.

Nada menos que 85% dos mortos compreenderam pedestres e motociclistas. É fantástico o índice.

E, agora, o dado mais surpreendente e lamentável: de janeiro a agosto deste ano, 253 pedestres foram atropelados por motos. Algo que significa a síntese da selvageria do trânsito porto-alegrense.

Esses dados me foram fornecidos pela EPTC.

Temos, então, vários aspectos caóticos: o primeiro deles, o mais alarmante, é que as motocicletas estão aterrorizando Porto Alegre.

O segundo é que os pedestres estão sendo indefesamente caçados em nosso trânsito. Caçados pelas motos, caçados pelos carros.

Tanto que quem menos morre no trânsito são os motoristas e os passageiros de carros. Estes saem ilesos do trânsito, a comprovar que os carros demonstram sua hegemonia material sobre os outros atores do trânsito, prevalecendo-se de seu tamanho para afirmar a impunidade de seus tripulantes.

É preciso pôr um fim imediato à impunidade dos motociclistas da nossa cidade, a par da descortesia ostensiva dos motoristas, uns para com outros.

A EPTC começou a realizar batidas há dias na cidade, assustada com esses índices. Além da violência que espalham pelo volante, as motos são apreendidas em cerca da metade das que são apanhadas nas batidas, apresentando irregularidades como pneus carecas e falhas no sistema elétrico.

Eles podem estar se divertindo, falo dos motociclistas com suas diabruras, mas o povo está morrendo em suas mãos. Esses 253 pedestres atropelados por motos, alguns mortos, são uma bandeira de protesto pelo que está acontecendo conosco, isto vai ter de acabar.

E não há mais tempo para a educação, talvez não haja, daí que a hora é de repressão aos motociclistas desordeiros.

E não só multa, mas também prisão em flagrante dos faltosos. Enquanto não houver a autuação com prisão em flagrante nos casos mais graves, vai continuar o desmando.

Em certas evoluções de nossos motociclistas no trânsito, demonstra-se cabalmente o êxtase hedônico que têm em serem velozes com suas máquinas. Ou seja, um sadismo orgástico com o custo de vidas das pessoas que morrem no trânsito.

Até agora assistimos passivamente, nós, munícipes, a imprensa, a EPTC, a esse festival de loucuras das motos em nosso trânsito.

Agora todos teremos de reagir.

Não dá mais para prosseguir assim.

Chega de olharmos olimpicamente para a morte nas nossas ruas e avenidas. As motos terão de ser enquadradas, ou melhor, seus condutores.

Não pode o trânsito, que tem de ser uma maneira civilizada de administrarmos a circulação de veículos e pedestres, se tornar uma fábrica de mortes e lesões por irresponsabilidade clara de alguns motociclistas.

Olho neles, vigilância neles, cadeia neles!

GOSTOSA


MARCELO COELHO - Plano Pasárgada


Plano Pasárgada
MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 05/10/11

"Alguns amigos passaram recentemente pelos sustos de saúde típicos de quem está na faixa dos 50 anos. Aquele calorzinho discreto no peito, na hora da esteira ergométrica, termina em operação de safena. Uma dor estranha em todos os dentes (nunca tinha ouvido falar disso) pode ser também sinal de enfarte.
Ainda que fazer uma cirurgia cardíaca esteja longe de ser um passeio à Disneylândia (não sei qual dos dois prefiro), a técnica parece ter avançado muitíssimo.
Pelo menos, ao visitar esses amigos no hospital, um dia depois da operação, encontrei-os lépidos, eufóricos, mais jovens do que antes.
Algo semelhante ocorreu comigo, com uma ou duas intervenções cirúrgicas a que me submeti. Numa delas, tudo pareceu tão fácil, tão preciso, tão "eletrônico", que minha vontade era de rir.
Seria efeito da anestesia? Acordado o tempo todo, eu via meu coração ampliado na tela, espécie de aranha selvagem, caranguejeira aos botes, recebendo o "stent" que o deixaria novinho em folha.
Uma dose de bom humor forçado e a alegria real por ter escapado da morte se misturam nesse estado pós-operatório. É a primeira fase. A segunda consiste nos planos de nova vida; os "planos Pasárgada", por assim dizer. "E como farei ginástica/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo,/ Subirei no pau de sebo/ Tomarei banhos de mar!", diz o poema de Manuel Bandeira.
Dali a alguns meses, encontro os amigos numa festa ou num jantar. Estão ainda eufóricos; mas não é o efeito da anestesia que perdura. Provavelmente, seu estado de espírito se deve a algumas doses de bebida a mais.
Regra geral, ninguém emagreceu. Quem fumava ainda fuma, quem bebe não se afastou do copo, quem ia morar numa chácara continua preso no trânsito da Paulista.
É a terceira fase, na qual recaem quase todos, e onde encontram, por vezes, uma ou outra sombra de fracasso e depressão. Ignoro se há estatísticas a esse respeito. Sei, por mim mesmo, que mudar de vida nunca é fácil. É quase impossível, para dizer a verdade. Mas talvez o fenômeno não se deva apenas à força dos hábitos adquiridos, do próprio temperamento, do autoengano. Acho que existe, também, uma dimensão "existencial" nesse desleixo.
Confrontado com a cirurgia, o paciente já não tem a própria vida em suas mãos. Depende dos médicos, da sorte, do que vier a acontecer.
Durante algumas horas, ainda mais se a anestesia é geral, nosso amigo deixou de existir como sujeito; tornou-se objeto, coisa, campo de manobras do cateter e do bisturi.
Sua inconsciência não é semelhante à do sono de todas as noites. Acordar, bem ou mal, envolve um mínimo gesto de vontade própria. Sair de uma operação é diferente. Devolveram-lhe a vida; ei-la, agora é com você, faça dela o que quiser.
Há algo de muito especial nessa situação; nenhum esforço extremo de meditação, imagino, pode reproduzir a ideia básica por trás dela. A saber, a de que você é uma coisa e que sua vida é outra coisa, bem diferente. Sua vida, que era você mesmo, tornou-se agora um objeto, que você perde ou recupera. Um intervalo, uma distância, criou-se entre o ser vivo e a vida que ele tem.
Daí se explica, creio eu, tanto a vontade de fazer alguma coisa nova com a velha vida, como também a vontade de vivê-la exatamente do mesmo modo com que sempre foi vivida. Os anos à minha frente? Serão melhores, mais produtivos, mais saudáveis. Não, nada disso, responde o velho eu. O que querem fazer de mim? Não basta terem quase me levado ao túmulo?
Reafirmo meus velhos hábitos, meu gosto por cerveja e torresminho, minha carreira na Bolsa de Valores. Tomo posse, mais uma vez, de tudo o que tentaram me tirar.
Que tolice, responde a outra voz. Você não aprendeu a lição? Quer morrer da próxima vez? O recém-operado não se convence. Argumenta que já quase morreu na operação; e, afinal, a experiência não foi tão assustadora assim, depois de ter passado.A vida dele está de volta: viu perfeitamente o valor que ela tinha; não era, pensando bem, um valor tão alto assim. Pode ser trocado, com vantagem, por um pouco mais de torresmo, de cerveja, de trânsito, de rotina, desde que se leve tudo isso em boa companhia. A companhia do seu velho eu, dos seus velhos erros, amigos de quem não quer se despedir".

JOSÉ SIMÃO - Uau! Hebe compra gramofone 5!


Uau! Hebe compra gramofone 5!
 JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 05/10/11

Rarará! Esse pessoal da Apple devia ser preso. Numa solitária. Pra não inventar mais nada!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
E esta: "Brasil dá o primeiro passo para definir slogan pra Copa 2014!". Eu já tenho dois! "Copa 2014! Vamos pegar uma gringa". Argentina não vale! E outro: "Copa 2014! Vamos roubar um gringo". Rarará! E a bola oficial vai se chamar Jabáculê! E diz que o aeroporto de Cuiabá estará pronto para a Copa. Pra Copa de 2018 na Rússia.
E a Dilma na Bulgária, tá gorda, né? Tá quase um PACderme. Rarará! Ela deve estar enquadrando todo mundo lá na Europa! E adoro esta manchete do Sensacionalista: "Voz de Justin Bieber começa a engrossar e ameaça shows no Brasil". Ainda bem que eu não comprei ingresso! Rarará!
E o julgamento do Berlusconi? Começou a fase oral do julgamento. E quando vai ter a fase anal? Quando começar a fase anal, me avisa! E diz que o Berlusconi, num ato falho, e por força do hábito, chamou a juíza de meretríssima! Rarará!
E a Apple lançou o iPhone 5! E já tem fila pra comprar o iPhone 6! E quando você estiver passando o cartão da compra do iPhone 6, a Apple lança o iPhone 7! Em represália eu vou comprar um gramofone! Como eu já disse: a Hebe não é do tempo do iPhone, é do tempo do gramofone. Vai comprar um gramofone da Apple. Rarará! Esse pessoal da Apple devia ser preso. Numa solitária. Pra não inventar mais nada!
E esse metrô de São Paulo? "Linha Amarela tem segunda pane em 3 dias". A Linha Amarela amarelou. Placa na porta do metrô: "Tá com pressa? Vá de ônibus!". É o famoso metrô genérico! E essa linha amarela não é aquela que desabou? É feita com areia, cuspe e meleca!E sabe o que o marido duma amiga minha falou depois do sexo? Estou com o pinto em frangalhos! Rarará! E este anúncio: "Troco sogra por víbora. Pago a diferença".
E mais um para a minha série Os Predestinados. Sabe como se chama o autor do documentário "O Mineiro e o Queijo"? Helvécio RATTON! E diz que o mineiro encontrou o Gênio da Lâmpada e fez três pedidos. Primeiro pedido: um queijo. Segundo pedido: um queijo. Terceiro pedido: uma mulher. E aí o gênio perguntou: "Por que você pediu dois queijos e depois uma mulher?". "Porque fiquei com vergonha de pedir ouro queijo." Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÔNICA BERGAMO - SOM ANTICRISE


SOM ANTICRISE
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 05/10/11

O cantor pop português David Fonseca, que se apresentou no domingo no Rock in Rio, faz show hoje no Studio SP. Ele diz que seu país "não está deprimido" com a crise financeira na Europa, mas "com vontade de virar o barco para coisas novas". "A cultura sofre, mas vive da criatividade, e é em momentos assim que as coisas mais maravilhosas podem acontecer", acredita.

BURBURINHO FASHION

A Osklen está à venda. O estilista Oskar Metsavaht, dono da grife, confirma a informação. A empresa diz que avalia "a possibilidade de parceria com três grupos distintos: um europeu, um americano e um brasileiro".

BURBURINHO 2
Um desses grupos seria a Alpargatas, dona da Havaianas. Tanto a empresa quanto a Osklen negam oficialmente qualquer conversa.

ÁGUA NO FEIJÃO
O Tribunal de Justiça de SP enviou para a Assembleia Legislativa um projeto de reforma da organização judiciária do Estado. Pela proposta, serão criados três novos foros, nove comarcas e cerca de 250 varas, com 254 cargos de juízes para atendê-las. E milhares de vagas na sequência: 3.159 escreventes, 1.123 oficiais de Justiça, 250 diretores, 47 assistentes sociais e um psicólogo.

AMPLIAÇÃO
A procuradora Luiza Eluf vai brigar para que assédio sexual em casa e na escola também seja considerado crime. Ela é um dos 15 juristas que elaboram o anteprojeto de reforma do Código Penal. Hoje, assédio sexual só é crime se cometido em ambiente de trabalho. Segundo Eluf, ameaças como má avaliação e repetição de ano, na escola, e maus-tratos, em casa, seriam equiparáveis às de demissão profissional.

LA SOLITUDINE
A italiana Laura Pausini confirmou um terceiro show no Brasil, no dia 23 de janeiro, no Credicard Hall, em SP.

9.5
O poeta Manoel de Barros, 95, um dos finalistas do Prêmio Jabuti, entregou recentemente à editora Leya seu novo livro, "Escritos em Verbal de Ave". Ele narra o final de Bernardo, personagem recorrente em seus poemas. O livro sai em novembro.

O ESPECIALISTA
O editor americano Bob Schreck e o autor Paul Pope avaliarão portfólios e quadrinhos de 40 brasileiros na feira Rio Comicon, que começa no dia 20 no Rio. Schreck trabalhou para a DC Comics e editou, entre outros, Neil Gaiman e Frank Miller.

PAULISTANANDO
Cauã Reymond passará os próximos três meses em SP. O ator se muda temporariamente para a cidade para filmar o longa "Acorda Brasil" (nome provisório) sobre a orquestra de Heliópolis, com direção de Sérgio Machado.

DR. FELIPE
Felipe Camargo interpretará um psiquiatra na versão brasileira da peça "Equus", que tem Leonardo Miggiorin no papel principal e estreia em março de 2012 no Teatro Amil, em Campinas. Daniel Radcliffe, o Harry Potter, participou de uma montagem internacional desse texto e apareceu nu em cena.

EU?
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) curtiu o show do Coldplay no camarote do prefeito Eduardo Paes, na área VIP do Rock in Rio, no sábado. Perguntado se havia gostado da festa de Lenny Kravitz na noite anterior, na qual esteve presente, desconversou: "Lenny Kravitz? Não sei de festa, não".
Sobre o programa de TV do PSDB-SP, que deixou de fora José Serra e Aloysio Nunes, disse: "Não tô sabendo de nada. Nem vi".

LETRAS E GRAFITES
A grafiteira Nina Pandolfo lançou o livro "Nina", anteontem, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Seu marido, Otávio Pandolfo, da dupla OsGêmeos, o galerista Marcelo Secaf e o fotógrafo Ignacio Aronovich circularam pelo evento.

ESPELHO MEU
O artista dinamarquês Olafur Eliasson abriu a exposição "Seu Corpo da Obra", na Pinacoteca de SP. O arquiteto Paulo Mendes da Rocha e a antropóloga Florencia Ferrari foram ver as instalações feitas com materiais como espelhos.

CURTO-CIRCUITO

Toda a obra de Chiquinha Gonzaga para piano e voz terá as partituras disponibilizadas em um site que será lançado no dia 18.

Sade faz show na festa da Globosat no ginásio do Ibirapuera, no dia 19.

Wanderson Castilho lança hoje, às 19h, o livro "Mentira - Um Rosto de Muitas Faces", na Livraria da Vila do Itaim.

A marca John John abre hoje seu showroom na rua Oscar Freire.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

CRISTIANO ROMERO - Europa: uma visão menos sombria


Europa: uma visão menos sombria
CRISTIANO ROMERO
VALOR ECONÔMICO - 05/10/11

O Fundo Monetário Internacional (FMI) trabalha com dois cenários para os desenvolvimentos da crise financeira mundial. No cenário-base, aparentemente irrealista, o ritmo de crescimento das economias avançadas é baixo neste e no próximo ano, mas em 2012 o mundo cresce na mesma velocidade de 2011 (4%). No cenário alternativo, o pior deles, os Estados Unidos e os países da zona do euro entram em recessão, com as economias encolhendo cerca de 2% no ano que vem. Ainda assim, a economia mundial não repetiria a recessão de 2009.

"Não há nenhuma dúvida de que a situação agora está pior do que estava há seis meses. Não é tão grave quanto era em 2008. Pode piorar. Agora, mesmo num cenário de piora, como prevê o FMI, não piora tanto quanto em 2008", observa Murilo Portugal, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Há duas semanas, Portugal participou, em Washington, das reuniões paralelas ao encontro anual do FMI e do Banco Mundial. Alguns dias antes, reuniu-se, na Europa, com ex-dirigentes de instituições como o próprio FMI, o Banco Central Europeu (BCE) e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Como se sabe, por mérito próprio e não por indicação do governo brasileiro, Portugal foi, entre 2007 e janeiro deste ano, o número 3 na hierarquia do Fundo, responsável pelo monitoramento de 81 países.

O depoimento do economista contrasta com a ideia de fim-de-mundo que tem prevalecido em alguns setores do mercado dentro e fora do país e mesmo do governo. Para Portugal, os riscos de piora da crise aumentaram bastante, o grau de incerteza é grande, um evento de crédito na Europa pode não se restringir ao país onde ele ocorra, mas ainda é muito cedo para prever uma crise mais grave que a de 2009.

"Há no Brasil um certo exagero sobre o que está acontecendo na economia mundial. Esta crise não é igual à de 2008. Naquela, a crise foi muito mais forte. O PIB mundial caiu 0,7% e, como a população cresceu um pouco abaixo de 2%, o PIB per capita caiu 2,5%, uma queda acentuada, maior que a ocorrida nas recessões das décadas anteriores", compara o presidente da Febraban, lembrando que, em 2009, as economias americana e europeia tiveram crescimento negativo de, respectivamente, 3,5% e 4,3%.

"Realmente, o clima está muito negativo tanto na Europa quanto nos EUA. Todo mundo fica repetindo que a situação "está ruim" e ficam todos impressionados. Às vezes, você sai das conversas com a impressão de que [a crise] está um pouco pior do que realmente está", acrescentou.

O que talvez diferencie os dois cenários do FMI é a possibilidade, cada vez maior, de ocorrência de um evento de crédito na Europa. Na segunda-feira, o banco franco-belga Dexia, o primeiro a ser socorrido depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, fez reunião de emergência. Ontem, o jornal inglês Financial Times especulava se o caso do Dexia não é um "déjà vu" do Bear Stearns, banco americano que só não quebrou antes do Lehman porque o governo americano manejou para que ele fosse comprado pelo JP Morgan.

Do alto da sua experiência internacional - além de número 3, foi representante do Brasil no FMI entre 1997 e 2005 -, Murilo Portugal acredita que os europeus não cruzarão os braços diante de um evento de crédito na Grécia. Ele lembra que a economia grega detém apenas 2% do PIB europeu e que a dívida privada do país em mercado é de € 200 bilhões. Há, portanto, formas de conter a propagação de um possível evento de crédito.

O problema tem sido a lentidão e a resistência dos principais mandatários europeus em agir. A reação tem vindo sempre com atraso, quando as expectativas de uma crise mais profunda já estão cristalizadas. "Eles acabam fazendo o que é necessário. Só que no estilo "too little, too late" (muito pouco e tarde demais). Aí, as expectativas não mudam", comenta o economista. "O que sabemos de crise é o contrário: você tem que fazer mais do que todo mundo espera para mudar as expectativas e ficar à frente do mercado. Do jeito que eles estão fazendo, estão sempre atrás do mercado."

Um exemplo é o do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês), que deveria ter sido criado no ano passado, à época do primeiro evento da crise grega. "Se tivesse feito em maio do ano passado, quando foi feito um empréstimo para a Grécia, e se o empréstimo tivesse sido de mais longo prazo, com menores taxas de juros, talvez, tivesse resolvido naquela época. Eles fizeram agora e não adiantou muito. Mas acho que [se ocorrer um evento novo] vão reagir da maneira certa", diz Portugal.

No caso de um contágio praticamente certo de bancos europeus por causa da encrenca da Grécia, os governos vão capitalizar seus bancos, como fizeram na fase anterior da crise. De 2006 a setembro de 2011, segundo dados oficiais, o Banco Central Europeu adquiriu US$ 1,337 trilhão em ativos de bancos e governos, elevando para US$ 2,8 trilhões os ativos em sua carteira. "E o BCE não tem limite. Pode comprar tudo. Ele emite dinheiro", diz o presidente da Febraban.

GOSTOSAS


MARTIN WOLF - Como manter o euro no ar


 Como manter o euro no ar
MARTIN WOLF 
VALOR ECONÔMICO - 05/10/11

A aeronave da zona do euro foi criada "com uma asa e uma oração". A asa caiu e os deuses não estão ouvindo as orações. Todo mundo está se concentrando em evitar uma queda. Mas é igualmente vital indagar: como pilotar com segurança?

E como foi que a zona do euro mergulhou em seu infortúnio? Parte da resposta é que não dispunha de mecanismos para enfrentar crises, que seus membros divergiram enormemente e que foi prejudicada por seus primeiros sucessos.

As condições de crédito fácil e juros baixos na primeira década produziram bolhas no mercado imobiliário e crescimento explosivo na tomada de empréstimos pelo setor privado na Irlanda e na Espanha, captação exagerada de empréstimos pelo setor público na Grécia, declínios na competitividade externa da Grécia, Itália e Espanha, e enormes déficits externos, na Grécia, Portugal e Espanha. Quando os mercados financeiros entraram em pânico, os devedores sofreram uma "parada súbita", o que causou crises de iliquidez e insolvência em cascata de países e bancos. A zona do euro está correndo para alcançá-las. Mas a crise é mais rápida. Quase metade da dívida soberana exibe elevado risco de crédito.

A zona do euro não dispunha de mecanismos para o financiamento, entre países, dos tomadores de empréstimos que perderam acesso a recursos financeiros. Em tese, o ajuste deveria ter ocorrido por meio dos mecanismos clássicos: uma espiral de inadimplência de países, colapsos bancários, desaquecimento econômico, desemprego, salários em queda, austeridade fiscal e infelicidade generalizada. Ninguém preveniu a sociedade de que tal brutalidade está à espreita. Os políticos também não entenderam isso. Quando chegou a hora, todos hesitaram em agir.

Então, o que precisa ser feito? A resposta vem em dois pares: o primeiro é "estoques e fluxos", o segundo é "financiamento e ajuste". Estoques refere-se a zerar a herança do passado. Fluxos referem-se a necessidade de retomada do crescimento econômico sustentável. Financiamento e ajuste referem-se ao como e quando dos esforços para zerar os estoques e restaurar a sustentabilidade dos fluxos.

Vários membros da zona do euro saíram da crise com enorme excessos de dívida privada e soberana. Se esses estoques não puderem ser rolados, permanecerá uma mescla de financiamento e reestruturação. A reestruturação da dívida do setor privado que está sendo organizada não oferece praticamente nenhum alívio à Grécia, mas alívio substancial para antigos credores privados. No caso da Grécia, certamente (e, possivelmente, Portugal e Irlanda), é essencial uma redução substancial dos encargos do serviço da dívida.

Esse problema passa também pelos bancos, onde o estoque excessivo de empréstimos de qualidade duvidosa prejudica tanto a solvência como a liquidez. Novamente, nesse caso, a solução é financiamento - injeções de capital e apoio do banco central - e reestruturação - depreciação de ativos e de alguns passivos.

Lidar com os estoques é relativamente simples. Um desafio muito maior é conseguir fomentar fluxos sustentáveis de receitas e despesas a elevados níveis da atividade econômica. Isso significa muito mais do que a austeridade fiscal com a qual os europeus estão obcecados. Parafraseando o historiador romano Tácito, "eles criam uma depressão e a denominam de estabilidade". Para que a atividade seja restaurada, os déficits estruturais externos precisam cair para níveis facilmente financiáveis por meio de mercados privados. A Grécia e Portugal têm grandes déficits externos, um indicador irrefutável de grave falta de competitividade. Isso é também um pouco preocupante para a Espanha e a Itália, mas o problema ali é menor. A Irlanda tem um superávit externo, o que é animador para seu futuro.

Ajustes desse tipo levam tempo: é preciso que ocorram grandes mudanças tanto nos preços relativos como nos investimentos em novas atividades. Em análise pessimista para a londrina Lombard Street Research, Christopher Smallwood argumenta que a Grécia e Portugal - e até mesmo Itália e Espanha - restabelecerão sua competitividade por meio de dolorosas quedas salariais e demissões em massa.*

O que torna ainda mais difícil o ajuste é que ele envolve dois lados. Para que os déficits externos diminuam, também deverão encolher os superávits no outro lado da equação. Isso tem implicações evidentes para a Alemanha e outros países centrais. Mas esses países não reconhecem a necessidade de se ajustarem. Eles acreditam que uma só mão é capaz de bater palmas. A natureza dúplice do ajuste pode não ser tão importante para países devedores de pequeno porte. Mas é bem mais relevante no caso dos países de maior porte.

Se o ajuste necessário revelar-se impossível dentro da camisa de força da zona euro, existirão duas alternativas: abandonar o euro, com os riscos que comentei duas semanas atrás ou financiamento permanente por meio de uma união fiscal, mantendo, assim, as economias moribundas na UTI. Essa opção pode ser viável para uma ou duas economias de pequena dimensão. Mas seria impossível, economica ou politicamente, para as maiores. É por isso que os elevados spreads atuais sobre a dívida italiana e espanhola são tão perigosos para o futuro da zona euro.

O problema está nos fluxos, idiota. Apenas reduzir a carga de endividamento não resolverá esse problema. Devemos temer que economias profundamente não competitivas, não serão financiadas, mas não conseguirão se ajustar. Se assim for, eles poderão simplesmente definhar. É por isso que algumas pessoas já afirmam que a solução poderá ter de incluir o abandono do euro por alguns países. Em casamentos desfeitos, argumenta Nouriel Roubini, da Stern School, em Nova York, "é melhor ter regras - leis de divórcio - que tornam uma separação ordenada e menos onerosa para as duas partes".

O mínimo essencial com que a zona do euro precisa lidar em sua crise é um mecanismo eficaz para descontar as dívidas de endividados privados e soberanos evidentemente insolventes, como a Grécia; recursos financeiros suficientemente grandes para administrar os mercados ilíquidos de títulos de governos potencialmente solventes; e maneiras de tornar o sistema financeiro crivelmente solvente imediatamente. Os montantes necessários certamente serão várias vezes maiores do que os €440 bilhões do Fundo de Estabilidade Financeira Europeu existentes, como adverti na semana passada.

Infelizmente, porém, a zona do euro exige mais ainda: é necessário um caminho crível de ajuste, no fim do qual vejamos a restauração da saúde das economias mais fracas. Se esse caminho não for encontrado, a zona do euro, na forma em que existe hoje, será desagregada. A questão não é se, mas quando. Esse é o tamanho do problema.

* "The eurozone must shrink", www.lombardstreetresearch.com (A zona do euro precisa encolher) www.lombardstreetresearch.com. (Tradução Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Enterro à vista
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 05/10/11

O esvaziamento do ato pró-reforma política em Brasília tem tudo para virar prenúncio de mais um naufrágio do debate sobre o tema. Depois muita saliva, o PMDB continuava, no início da noite, para lá de refratário ao relatório do deputado Henrique Fontana (PT-RS).
Estava marcada para mais tarde uma última rodada de conversa entre os dois partidos, mas quase ninguém esperava entendimento. Se Fontana não recuar do financiamento público exclusivo de campanhas, o PMDB pedirá vista, hoje, na votação do projeto em comissão especial. E anunciará o embarque na proposta de constituinte exclusiva do PSD de Gilberto Kassab.

Ah, é? Em recente reunião, Fontana sapecava vários "Lula quer", "Lula defende", até ser cortado por Eduardo Cunha (PMDB-RJ): "Se ele não aprovou a reforma durante os oito anos de Presidência, vai aprovar agora, que não tem caneta?".

Pano rápido Tão logo Ideli Salvatti chegou ao almoço de líderes, foi interpelada por Jovair Arantes (PTB-GO): "Nós só temos três cargos no governo e a senhora diz em entrevista que o problema do PTB é cargo?". A ministra calou. Cândido Vaccarezza (PT-SP) mudou de assunto.

Padrinhos mágicos 1 O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) tem consumido telefonemas em busca de apoio a Assusete Dumont Reis Magalhães para vaga no STJ. Vinda do TRF da 1ª Região, ela integra lista tríplice a ser submetida a Dilma.

Padrinhos mágicos 2 A juíza conversou ontem com José Sarney (PMDB-AP). Segundo a assessoria do senador, o encontro foi casual e breve. O escolhido para o STJ irá atuar na área criminal.

Cizânia Na audiência de conciliação no TST, ficou patente o racha na Federação Nacional dos Trabalhadores nos Correios. A sessão se estendeu por cinco horas em boa medida devido a disputas entre as facções internas. O acordo para colocar fim à greve será submetido hoje aos sindicatos da categoria.

Armistício Rivais no plano nacional, CUT e Força chegaram a acordo para compor chapa na eleição do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus, quinto maior do país, com 110 mil trabalhadores.

Sangria Já são seis os deputados de saída do PR: além de Sandro Mabel (GO) e Giroto (MS), que irão para o PMDB, há Liliam Sá (RJ), Dr. Paulo César (RJ), Diego Andrade (MG) e Homero Pereira (MT), cujo destino é o PSD.

Em bloco O PSB-SP, da base de Geraldo Alckmin, filiou três deputados estaduais expulsos do PSC, dobrando sua bancada na Assembleia.

Olha eu aqui Durante evento realizado anteontem pelo PSDB paulistano para Alckmin discorrer sobre as obras de seu governo na capital, José Serra interrompeu mais de uma vez o discurso do governador para lembrá-lo de feitos de sua gestão na prefeitura. Ao chegar, Serra havia dito que não falaria muito, pois estava ali na condição de espectador. Porém...

Holerite 1 Os reajustes salariais do funcionalismo estadual provocaram inchaço de R$ 5,2 bilhões nas despesas com a folha de pagamento previstas no Orçamento de São Paulo para 2012 em relação ao atual exercício.

Holerite 2 Ainda assim, governistas devem apresentar emendas propondo mais recursos para os servidores.

Recomeço O ex-deputado Orlando Fantazzini, que em 2005 trocou o PT pelo PSOL, retornou ao partido.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Dilma mostra que, ao contrário do que diz, é muito suscetível a pressões. Ela quis impor autoridade e acabou se curvando a quem nos trata como uma república de bananas."
DO LÍDER DO PSDB NO SENADO, ÁLVARO DIAS (PR), sobre as mudanças que o Planalto será obrigado a promover no texto da Lei Geral da Copa depois da nova rodada de negociações com a Fifa.

contraponto

Tratamento de choque


Ao chegar à sua primeira reunião com a bancada do PMDB depois de ter sido nomeado para o Turismo, Gastão Vieira fez questão de apertar a mão de cada um de seus ex-colegas de Câmara. Henrique Alves insistia em chamá-lo à mesa principal, mas o ministro seguia entretido com os deputados. Até que o líder passou a bradar:
-Pedro Novais, Pedro Novais!- em referência ao degolado antecessor de Vieira.
Os deputados estranharam, e Alves explicou:
-É pra ver se ele presta atenção e vem logo se sentar!

FAUSTO RODRIGUES DE LIMA - Bündchen também discrimina os homens


Bündchen também discrimina os homens
FAUSTO RODRIGUES DE LIMA
FOLHA DE SP - 05/10/11 

Para a campanha referida, o marido ideal precisa ser o provedor; caso contrário, não pode ter uma mulher linda e disponível para o sexo


Para gastar todo o dinheiro do marido e conseguir sua compreensão, a mulher brasileira precisa lhe conceder sexo. O ensinamento de uma campanha da lingerie Hope, protagonizada por Gisele Bündchen, causou justa indignação a ponto de a Secretaria de Políticas para as Mulheres pedir sua suspensão.
Essa e outras manifestações sexistas escamoteiam faceta pouca explorada: o homem também é discriminado. Ora, para a campanha referida, o marido ideal precisa ser o provedor; caso contrário, não pode ter uma mulher linda e disponível para o sexo. Como um cão no cio, necessita de sexo a todo momento e a todo custo. Não deve se importar com a satisfação da parceira; basta que ela finja prazer.
Se analisarmos comerciais dirigidos aos homens, veremos que, nessas peças, eles são tratados como crianças abobalhadas. Os de cerveja os perfilam como tipos pouco inteligentes, fazendo (e rindo de) piadas idiotas, e com um só objetivo na vida: sexo. Um recente comercial da Volkswagen mostra um pai com vergonha do filho pois o menino, além de não surfar ou tocar guitarra, ainda não "pegou" uma garota.
Como todo projeto de dominação e preconceito, a discriminação de gênero, embora baseada numa suposta inferioridade feminina, atinge a todos, porque cria regras "naturais" para o comportamento dessa ou daquela pessoa, baseando-se apenas em seu sexo. Adeus, individualidade e diversidade.
No mundo que se convencionou chamar masculino, não há lugar para poesia, para emoções. Sensibilidade é uma capacidade indesejável, ligada a tudo o que é considerado inferior, ou seja, ao feminino.
A educação dirigida aos meninos é completamente diferenciada. Bonecas são brinquedos educativos para as futuras mamães, mas causam horror se manipuladas por meninos. O "instinto materno" é aprendido desde a infância, mas não se ensina o paterno (não à toa, se considera tão natural as mulheres ficarem com os filhos numa separação).
Homem não chora, é autossuficiente, não demonstra fragilidade e não leva desaforo pra casa. Se ele se irrita, agride pessoas, deve ser compreendido, porque, afinal, é apenas um… homem, infantilizado pela família e pela sociedade. Enquanto mulheres dividem com outras medos e frustrações, o homem se fecha. Do ambiente familiar, repleto de emocionalidades, resta a ele fugir. O bar e o álcool são o refúgio viril que a sociedade lhe dá.
É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer "piadas inocentes".
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficiente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos nisso 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.
Por isso, pedimos ao Conar que suspenda a propaganda da Hope e outras ridículas, não só por ofenderem nossas mães, filhas e esposas, mas por nos agredirem profundamente enquanto homens.

FAUSTO RODRIGUES DE LIMA é promotor de Justiça do Distrito Federal e coautor do livro "Violência Doméstica - A Intervenção Criminal e Multidisciplinar"

ANDRÉA PACHÁ - É preciso ouvir o público


É preciso ouvir o público
ANDRÉA PACHÁ 
O GLOBO - 05/10/11

Quem exerce cargo público deve se preocupar com a opinião pública. Afinal, é a sociedade a destinatária dos seus serviços. Daí porque não se pode minimizar o impacto das sucessivas críticas da opinião pública ao Judiciário. Mesmo lento, caro e inacessível, o Judiciário é um Poder que, nas últimas décadas, experimentou um fortalecimento gradual. Composto por uma maioria absoluta de juízes que se submeteu a concurso público e que é comprometida com a efetividade da Justiça, precisa ainda de mudanças na sua estrutura — vertical, hierárquica e pouco democrática.

É natural que, nesse contexto, tensões permanentes coexistam. Esse quadro levou o professor e ex-conselheiro do Conselho Nacional deJustiça (CNJ) Joaquim Falcão ao diagnóstico de que são muitos os judiciários que integram o Judiciário brasileiro. Para que a Emenda Constitucional 45 fosse aprovada, emenda que resultou na criação do CNJ, muitos consensos tiveram de ser construídos.

A participação da AMB nesse processo foi fundamental. Se até a sua instalação sofreu o CNJ resistências de grande parte da magistratura, com o início de seu funcionamento mostrou-se um órgão vital para a democratização do Poder. Ao proibir o nepotismo, estabelecer critérios para remoções e promoções, uniformizar rotinas e procedimentos, reunir números do Judiciário e efetivamente trabalhar na implementação de políticas públicas — mutirão carcerário, implantação das varas de violência doméstica, conciliação, entre outras —, o CNJ tem cumprido papel relevante, ocupando um espaço institucional antes inexistente.

Mas também tem mostrado ocupar papel relevante ao fiscalizar e punir magistrados cuja atuação transborde os limites legais. Com a sua atuação, o CNJ revelou o que já se intuía: havia e há uma grande dificuldade dos Tribunais em gerir a administração da justiça sem um órgão sistêmico e externo a eles. Como órgão novo, no entanto, o CNJ passa por ajustes e controles cotidianos, exercidos pelo STF, com acerto e eficiência.

Nesse ambiente de divergências naturais, a AMB resolveu patrocinar a pretensão de se excluir do Conselho a possibilidade de punir magistrados antes da atuação das Corregedorias locais. É esse o contexto em que a Corregedora do CNJ, ministra Eliana Calmon, de forma generalizada, apontou a existência de “bandidos escondidos sob as togas”, suscitando, de um lado, reação corporativa sem precedentes, e, do outro, manifestações públicas em apoio às suas declarações. Na névoa formada por essa falsa dicotomia, a questão central corre o risco de perder o foco. O que se discute é a redução dos poderes do CNJ para fiscalizar e disciplinar a ação de magistrados.

Esta pauta, trazida pela AMB, a mesma AMB que há cinco anos ajuizou uma ação direta de constitucionalidade para proibir o nepotismo no Judiciário, é uma pauta que não traduz o sentimento da sociedade. Grande parte dos avanços e da visibilidade da Justiça vieram de projetos que se alinhavam com o sentimento dos cidadãos. Eleições limpas, simplificação da linguagem jurídica, adoção, são campanhas que, entre tantas, transformaram o Poder numa instituição mais próxima da população, mais pedestre e mais compreensível.

Ao abraçar um projeto exclusivo de parte da magistratura, por meio do questionamento dos limites de atuação do CNJ, esquece a AMB que foi pela atuação do Conselho que não só punições foram aplicadas sem o viés natural do corporativismo local, mas também juízes puderam se contrapor aos tribunais, para afirmar suas garantias. A legitimidade do Judiciário só ocorre quando a sociedade reconhece no Poder um aliado para a efetivação dos seus direitos.

A resistência corporativa é um processo que deve ser vencido com a atuação firme dos juízes que enxergam no seu serviço um instrumento de fortalecimento da cidadania. ANDRÉA PACHÁ é juíza do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, foi vice-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros e e conselheira do Conselho Nacional deJustiça (2007/2009).

DORA KRAMER - Clube da luta



Clube da luta
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 05/10/11

O mais recente charivari entre tucanos, envolvendo a exclusão do ex-governador José Serra e do senador Aloysio Nunes do programa de TV do PSDB paulista, seria só mais uma escaramuça entre correligionários não fosse também uma perfeita tradução da incapacidade do partido de se acertar internamente e tocar a vida em frente.


Aloysio reclamou no Twitter e o governador Geraldo Alckmin respondeu pelos jornais com uma desculpa esfarrapada - redução do tempo do programa - e a promessa de que no próximo serão todos devidamente "prestigiados".

Indigência total de espíritos. Como de resto têm sido as ações oriundas de um PSDB em crise de abstinência provavelmente resultante do poder precoce conquistado (em 1994) apenas seis anos após a fundação do partido (em 1988).

Uma hora é a briga pela "tomada" da máquina do partido, outra hora é a contratação de pesquisa para definir rumos e que só produz novos desacertos e, com frequência, propostas de temas para reflexão a fim de motivar ações são desqualificados internamente numa autofagia intelectual de dar dó.

Tucanos não conversam com tucanos a não ser que pertençam ao mesmo grupo de afinidades eleitorais, enquanto a direção do partido só se manifesta para dizer que vai tudo bem enquanto as evidências mostram como tudo vai mal.

Vivem de subterfúgios, troca de ironias, gestuais minúsculos e atos isolados em prol deste ou daquele interesse sem que haja qualquer formulação estratégica que indique à sociedade que por trás da sigla exista um partido.

O PSDB hoje é uma confederação de emburrados sem rumo, cuja principal ocupação é dar vazão a ressentimentos mútuos por intermédio de atos e palavras que não se conectam entre si.

Nada tem lógica ali: a atuação dos governadores não se comunica com a ação das bancadas no Congresso, que por sua vez não conseguem estabelecer uma conduta que transmita minimamente uma noção de conjunto.

As lideranças alimentam o clima interno de tensão sempre culpando o grupo rival por fazê-lo, sem coragem de explicitar nem de resolver as divergências.

Quando explode em público a discordância, improvisa-se uma cenografia qualquer para simular convergência, acumulando conflitos não resolvidos, que resultam na falta de unidade nas campanhas eleitorais importantes. Nelas há sempre um grupo a solapar o outro, o que se não acaba em derrota produz revanche.

Vem sendo assim desde a fundação, mas foi a partir de 2002 que a paralisia do PSDB em função dos ódios internos se tornou visível a olho nu.

A revitalização do partido é uma promessa eterna. Inexequível, porém, enquanto ali predominar a hipocrisia e a omissão.

Moral

O governador Geraldo Alckmin está interessadíssimo em pedir abertura de investigação para apurar denúncia do deputado Roque Barbiere de que parlamentares vendem emendas para empreiteiras na Assembleia Legislativa de São Paulo. Mas só o fará quando, e se, aparecerem os nomes dos acusados.

Antigamente, quando as palavras ainda correspondiam aos seus significados de origem, investigar queria dizer descobrir. Mas, nestes tempos de eufemismos, "investigação" refere-se ao que já foi descoberto.

Por essa e algumas outras é que a oposição perde autoridade para cobrar o que quer que seja da situação.

Na prática

Nova regra em vigor na Polícia Militar do Rio de Janeiro obriga a que só sejam nomeados para o comando dos batalhões policiais cujas fichas funcionais e criminais não registrem antecedentes.

Só entra quem passar pela triagem da corregedoria e do setor de inteligência da PM.

Parece até absurdo que exigência precise ser explicitada, mas partidos e governos também deveriam estabelecer vida pregressa livre de maus antecedentes para registro de candidaturas e nomeação para cargos de confiança e, no entanto, o País está na dependência de o Supremo Tribunal Federal considerar ou não a Lei da Ficha Limpa constitucional para que se atente ao óbvio.

MARCIA PELTIER - Geração Y e a poupança



Geração Y e a poupança
 MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 05/10/11

Jovens entre 20 e 33 anos estão investindo mais em previdência privada, segundo a Seguros Unimed. Essa faixa de investidores, os chamados nativos digitais, já representa 5% do faturamento total da companhia, um percentual cerca de 65% maior do que o registrado em 2008. A participação desse público em planos de previdência privada confirma estudos recentes de mercado, que apontam que 20% dos investidores dessa faixa etária já têm esse tipo de aplicação financeira.

Conservadores 

Os filhos da internet respondem por 15,8% dos clientes da previdência complementar da empresa, que tem uma carteira de 17 milhões de clientes em todo o país. Já os nascidos entre 1966 e 77, de 34 a 45 anos, integrantes da geração X, somam quase 26% dos que contrataram o produto.

Mais uma causa 

A Marcha Contra a Corrupção e a Impunidade, marcada para o próximo dia 12, em Brasília, incluirá a defesa do Conselho Nacional de Justiça. Ophir Cavalcante, presidente nacional da OAB, comunicou, ontem, aos 27 presidentes de seccionais e aos 81 conselheiros federais da Ordem a participação ativa da entidade no evento, solicitando o apoio deles para a caminhada de protesto, que sairá às 10h do Museu da República, na Esplanada, rumo à Praça dos Três Poderes.

Festa no museu 
A atriz espanhola Marisa Paredes, que chega ao Brasil hoje para o Festival do Rio, terá agenda intensa. Além de dar entrevistas sobre seu novo filme A Pele que Habito, de Pedro Almódovar, a estrela confirmou presença na festa da abertura oficial do evento. O black tie, marcado para as 23h30 de amanhã, será no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. E Marisa, com 65 anos de idade e mais de 100 filmes no currículo, ainda quer conhecer melhor o Rio.

Nem aí 
O comediante Rafinha Bastos parece estar aproveitando bem os dias em que está suspenso do programa CQC. Com agenda lotada até novembro, ele leva seu humor sarcástico para os palcos do interior do Brasil. Também se prepara para lançar um jogo on line em seu site, com patrocínio de uma empresa de suplementos alimentares. O game, que se chamará Mortal Kombastos, conta com advogado, jornalista e políticos enfurecidos que lhe dão tapas, maletadas, chutes, microfonadas, canetadas e cusparadas. O pior: o jogo não tem fim e o participante precisa desistir. Fala sério!

Turbulências 

Nasceu de “uma pequena briga pessoal com a poesia, do desejo de não lançar um livro em um formato certinho”, segundo o autor, a exposição de fotos sobrepostas a poemas escritos e rasurados à mão por Omar Salomão, que tem vernissage, hoje, na Galeria Mercedes Viegas. Prova de que se reconciliou com a poesia, o filho de Wally Salomão prepara o lançamento do livro Impreciso, que também combinará versos com trabalhos visuais. E mais um CD de poemas musicados, que, ele garante, não será nada experimental, agressivo, mas “gostoso, bom de usufruir”.

Exposição dupla 

Na mesma galeria, quem também inaugura exposição é a premiada Gisele Camargo, com a instalação Metrópoles, formada por quadros independentes.

Sem descarte 

A sustentabilidade no mercado da beleza será apresentada ao público carioca durante a Hair Beauty 2011, a partir de sábado, no Riocentro. O Roll Meches Colors é um acessório que substitui o papel de alumínio para fazer mechas. Trata-se de um polímero transparente, lavável e reutilizável até mil vezes. A economia de produto pode chegar a até 25%. Pesquisa feita nos salões de São Paulo mostrou que, diariamente, 15 toneladas de papel de alumínio são lançadas na natureza.

Fé familiar 

A bonita Maria Frering está seguindo a devoção da avó por Santa Terezinha do Menino Jesus. Na sexta, dia consagrado à santa, foi ela quem entrou levando uma coroa de ouro, na missa especial rezada na igreja ao lado do RioSul.

Livre Acesso

O empresário Antonio Campos, da Zahil, investiu R$ 350 mil na festa de 25 anos da importadora. A noite de gala, na sexta-feira, no Gávea Golf Club, além dos chefs Claude Troisgros, Roberta Sudbrack e os franceses Benoît Sinthon e Yves Michoux, da Ilha da Madeira, terá como estrela principal o chef Daniel Boulud, 3 Estrelas Michelin, radicado em Nova Iorque, e que pela primeira vez cozinha para o público carioca. O convite, a R$ 475, dá direito ao jantar e ao um passe de degustação em evento na véspera, também no Gávea.

Vai ser badalado o lançamento do livro Quem pintou my horse de green, do jornalista Sandro Vidal, amanhã, na Livraria Cultura, no Fashion Mall. Os atores Luciano Szafir e Gustavo Leão, amigos do escritor, confirmaram presença no evento. Parte da renda obtida com a venda do livro será doada ao Lar Frei Luiz.

Daniel Boaventura vai apresentar seu CD Songs 4 U no Oi Casa Grande, no Rio, hoje. No repertório, clássicos de Frank Sinatra, Barry White, Carly Simon e George Michael. O show será como uma espécie de ensaio para a gravação do primeiro DVD dele, prevista para dia 26 na capital paulista.

O Projeto Grael foi escolhido pela Starbucks para ser beneficiado com a renda da venda de convites de degustação na abertura de sua nova loja no Plaza Shopping, em Niterói, sexta-feira.

O Vertical Shopping, em comemoração ao seu aniversário de oito anos, vai presentear as clientes, hoje, com chocolates recheados de vales-compras.

A Geração Futuro promove hoje e amanhã a palestra Meninas Iradas - Planejando o Futuro dos Seus Filhos, no prédio da Bolsa de Valores, na Praça XV. As consultoras de investimentos Anna Carolina Campos e Daniele Duarte darão dicas de investimentos para os pais que querem planejar o futuro de suas crianças.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

BRAZIU GANHA NOBEL



MIRIAM LEITÃO - Medo do pânico


Medo do pânico
MIRIAM LEITÃO
FOLHA DE SP - 05/10/11

Um fantasma rondou ontem a Europa quando se anunciou que o Dexia estava perto do colapso. É um banco biestatal, pertence a dois governos, mas, mesmo que seja isolado e saneado com dinheiro do contribuinte, existem os outros. Os bancos estão desconfiando até da própria sombra e por isso os governos têm medo do pânico. No ano, há muitas instituições mergulhadas num mar vermelho.

O dia foi de instabilidade. As bolsas fecharam em queda na Europa e abriram em queda do lado de cá do Atlântico. Quando o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, falou, o mercado melhorou o humor. No final do dia teve uma recuperação forte. Olhem só os gráficos abaixo do Ibovespa e do índice S&P 500. Às 10h09m, o Ibovespa caía 1,25%. Às 10h57m, a perda chegava a 2,52%. Por volta de meio-dia, recuperava uma parte da perda, mas ainda marcava 0,63% no vermelho. Ficou oscilando na casa de -1% até as 14h. Depois disso, afundou e chegou a cair 2,43%, para na última hora do pregão ganhar dois pontos e fechar em -0,21%. A bolsa americana também teve uma melhora súbita no final. Volatilidade da bolsa é outro sintoma da crise: ela reage excessivamente a cada boato, expectativa ou notícia.

Bernanke fez uma análise pessimista da crise e da economia americana e os analistas acharam que isso era um alívio: concluíram que se Bernanke está pessimista, alguma coisa será feita pelo governo americano. No final do dia, já com o pregão fechado, saiu outra notícia: a redução em três níveis da nota da Itália pela Moody's. A dúvida é: o que a dívida da Itália estava fazendo lá em cima. Ela caiu três níveis e ainda ficou acima do nível do Brasil. Eles têm uma dívida de 120% do PIB e o Brasil tem metade disso. Essas agências!

O Dexia foi resgatado em 2008; ontem amanheceu na Europa com suas ações despencando e o aviso de que precisaria de socorro. Chegou a estar em queda de 38%. Foi apoiado por declarações conjuntas dos ministros da França e da Bélgica, que têm o controle de suas ações; foi assunto na reunião dos ministros das finanças da Zona do Euro e provocou uma reunião de emergência do gabinete belga. Resultado, vão fazer um Proer para o Dexia: separar o banco bom do banco podre. Vender bons ativos para ajudar a sustentar os ativos sem liquidez da instituição. E a parte podre é exatamente a que carrega os títulos dos governos como Grécia e Portugal. Aí a queda acabou se reduzindo para -22%. Mas um olhar para as ações das outras instituições financeiras mostra como o medo se espalhou. Bancos grandes americanos e europeus e a seguradora AIG - que foi capitalizada em 2008 - estão com fortes quedas de ações este ano. Vejam a tabela abaixo. Isso, em parte, é efeito de suas próprias decisões: um banco tem medo do outro, o dinheiro não circula entre eles, e os bancos se livram das ações dos bancos.

Quando tudo está muito ruim, como ontem, de repente aparece uma avaliação salvadora como a que circulou dias atrás e reapareceu: a de que a Europa vai elevar o fundo de estabilização dos atuais C 440 bilhões para um ou dois trilhões. Com isso, montaria uma operação definitiva: separar países com problemas de liquidez, como a Itália, dos países com problemas de solvência, como a Grécia; capitalizar os bancos que compraram ações desses governos e por isso estão com ativos sem liquidez e com o risco de uma quebra em dominó.

As dúvidas são: de onde sairá tanto dinheiro? O contribuinte está disposto a pagar essa conta? Nas ruas, as manifestações ganham força. É difícil entender como pequenos negócios quebram, empresários médios perdem suas empresas, trabalhadores ficam sem emprego, mas bancos não podem quebrar. A Europa precisa de uma saída que preserve o depositante e não beneficie nem o controlador nem os grandes executivos.

ANTONIO DELFIM NETTO - Dúvidas


 Dúvidas
ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 05/10/11

Há um enorme "ruído" de alguns analistas financeiros que não se conformam com um fato elementar: quando as condições se alteram, altera-se também a resposta da política econômica.

Como o futuro é opaco e cheio de surpresas, a política econômica exige uma visão prospectiva preliminar que procura avaliar o cenário mais desfavorável possível e levá-lo em conta em sua formulação.

Podemos sofisticar esse comportamento atribuindo "probabilidades" (de sentido altamente duvidoso) aos diversos cenários. Não devemos esquecer, porém, que o futuro só será desvendado quando transformar-se em presente!

Não é estranho, portanto, que haja diferenças profundas entre os formuladores da política econômica devido às suas visões do presente e às percepções do futuro.

É absolutamente natural (e saudável) que haja divergência sobre o diagnóstico e sobre as formas de corrigir o que se supõe que sejam "distorções" (a diferença entre a realidade e o paradigma com a qual a comparo) ou prevenir possíveis ocorrências futuras sobre os quais não temos controle.

Por definição, o poder incumbente tem menos grau de liberdade na sua formulação porque, querendo ou não, corre o risco dos efeitos da sua ação. Os críticos, por mais honestos e responsáveis que sejam, sentem um peso muito menor. Não tendo o poder de decidir e implantar suas sugestões, não arcam com as suas consequências.

A esse respeito, aliás, talvez haja algumas críticas produzidas por puro desconhecimento, como a que a ideia de dar maior peso na fixação da taxa de juros ao PIB com relação à inflação destrói o sistema de "metas".

No fundo, a versão básica do sistema de "metas de inflação" se baseia num modelo novo-keynesiano de três equações simples, uma das quais é a chamada "regra de Taylor".

Esta sugere que a taxa básica do juro nominal deve ser a soma da taxa de juros "real" neutra (de difícil estimativa) somada à expectativa de inflação à qual se juntam, ainda, com pesos variáveis (cuja soma é cem) os desvios da taxa de inflação à meta e do PIB com relação ao PIB potencial (de difícil estimativa).

Desde a origem, a moda foi dar o mesmo peso aos dois desvios, ou seja, supor que um desvio de 1% com relação à meta é equivalente a um desvio de 1% com relação ao PIB potencial. Mas não há nada de destrutivo (dentro do próprio modelo) dar, por exemplo, o peso de 30% para o desvio inflacionário e de 70% para o desvio do PIB, lembrando que há uma relação relativamente estável entre o nível do crescimento e o do desemprego.

Significa, apenas, que se aceita alongar o cumprimento da meta de inflação para tentar manter um nível maior de proteção ao PIB e do emprego.

HÉLIO SCHWARTSMAN - Uma questão de peso


Uma questão de peso 
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 05/10/11

SÃO PAULO - A polêmica dos remédios para emagrecer opõe médicos sanitaristas, cujo bastião de resistência é a Anvisa, a clínicos, entrincheirados na Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

A disputa entre as especialidades é antiga e revela vieses profissionais característicos: enquanto o sanitarista olha para tendências e números agregados, os clínicos pensam sempre em pacientes individuais.

E, em termos globais, parece forçoso concluir que anorexígenos em geral, assim como dietas, não são lá muito eficientes. Vários estudos mostram que a redução média de peso é modesta e geralmente de curta duração. Como as drogas apresentam risco de efeitos adversos, não haveria muita razão para utilizá-las.

Para os clínicos, porém, é enganoso guiar-se por médias. Vale lembrar que, na média, a humanidade tem um testículo e um seio.

Desde que exista um grupo de pacientes para o qual o remédio traz mais benefícios do que riscos -o que, numa população de quase 200 milhões, é praticamente uma fatalidade estatística-, não há motivo racional para retirar a droga do arsenal terapêutico à disposição do médico. "O abuso não tolhe o uso", já ensinavam os antigos romanos.

Isso bastaria para dar razão aos clínicos e encerrar o debate. Ocorre que existem outras maneiras de interpretar o histórico de decisões da Anvisa nessa área.

Se a agência insiste tanto em limitar e regular a oferta de anorexígenos, é porque chegou à conclusão de que os médicos, como categoria, não são muito confiáveis para prescrever remédios, pois receitam qualquer coisa para qualquer um, justificando assim medidas radicais.

É até possível que isso seja verdade, mas, nesse caso, o que temos é uma das principais autoridades sanitárias do país afirmando nas entrelinhas que não podemos confiar nos médicos. Não é lá uma mensagem muito alentadora.

RICARDO LOUREIRO - Não há bolha de crédito no Brasil


Não há bolha de crédito no Brasil
RICARDO LOUREIRO
FOLHA DE SP - 05/10/11

No exterior, os empréstimos de alto risco evoluíram em um impressionante vácuo regulatório e fiscalizatório, o que não se verificou aqui

Desde o início do ano, ouvimos alertas quanto aos riscos de estouro de uma bolha de crédito no Brasil. O crescimento acelerado do crédito no país, o alto comprometimento de renda do brasileiro com dívidas e a escalada dos preços dos imóveis nas principais urbes costumam ser listados como sinais da existência dessa bolha. Assim, mais cedo ou mais tarde, sucumbiríamos à crise que acomete o hemisfério Norte.

Em primeiro lugar, o termo não é, a rigor, adequado ao mercado de crédito; tecnicamente, "bolha" representa o descolamento significativo e prolongado do preço de algum ativo financeiro ou real dos seus fundamentos. No entanto, como bolhas especulativas costumam ser precedidas por "booms" de crédito, acaba-se utilizando a terminologia, com certa liberalidade.

Essa associação entre "boom" de crédito e bolha especulativa foi o que ocorreu nos EUA e na Europa: um longo período de crédito farto gerando movimentos especulativos nos preços das residências. Para que essa "tempestade perfeita" se dê, entretanto, é preciso um combustível: a prevalência, por tempo razoável, de taxas reais de juros próximas de zero ou até negativas.

É aqui que começam as diferenças entre o mercado de crédito brasileiro e aquilo que se viu no exterior. Nossa taxa de juros é uma das mais altas do planeta, o que faz com que os bancos brasileiros não precisem, a título de rentabilização, buscar mercados de altíssimo risco.

Outra grande diferença: no Brasil, os bancos possuem baixa alavancagem e operam num ambiente regulatório e fiscalizatório que é referência mundial. Lá fora, os empréstimos de alto risco evoluíram em um impressionante vácuo regulatório e fiscalizatório, disseminando o risco através de operações cruzadas com derivativos exóticos.

Assim, a expansão do crédito no Brasil ocorre sob rigoroso monitoramento da autoridade monetária, que adota medidas macroprudenciais para coibir excessos.

Há quem diga que o mercado de veículos, influenciado pela expansão do crédito nos últimos anos, seria o "subprime" (títulos de crédito hipotecário de alto risco que levaram à crise de 2008) brasileiro. Outros enxergam na valorização dos preços dos imóveis o esboço de uma bolha imobiliária no Brasil.

Não é o que pensamos. No caso dos veículos, é fato que o preço de um zero km pode recuar pouco mais de 20% após o seu primeiro ano de uso, fragilizando a garantia do financiamento. Mas é por isso mesmo que se costuma exigir uma entrada mais ou menos equivalente, no ato do financiamento.

Quanto aos imóveis, as altas de mais de 100% em algumas regiões metropolitanas, nos últimos três anos, refletem o forte crescimento da demanda -induzida pelo elevado grau de confiança dos consumidores, pela ascensão das classes C e D, pelos impactos das novas regras de financiamento imobiliário introduzidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida-, que não encontrou devida resposta da oferta.

Afinal, o setor imobiliário passou por quase 20 anos de letargia, com baixo investimento em mão de obra, produção de insumos e bancos de terrenos. Quando a demanda aflorou, a oferta não conseguiu evoluir no mesmo ritmo, e os preços subiram. Logo, são os fundamentos -e não a bolha- que explicam a alta dos preços das residências.

Uma última consideração: a inadimplência dos consumidores está crescendo pouco mais de 20% neste ano. Mais um sinal de bolha, diriam alguns. Porém, se há bolha de crédito, a inadimplência sobe depois, e não antes do seu estouro. Na verdade, a alta da inadimplência em 2011 se deve à aceleração da inflação no início do ano. Nossos indicadores já apontam para uma estabilização da mesma.

Em suma, não vislumbramos existir bolha de crédito no Brasil. Temos, sim, um movimento saudável de crescimento do crédito.



RICARDO LOUREIRO é presidente da Serasa Experian e da Experian América Latina

FERNANDO RODRIGUES - Falta um gesto


Falta um gesto
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 05/10/11

BRASÍLIA - Do ponto de vista cartesiano, gerencial, faz todo o sentido a proposição do presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, quando se trata de investigar juízes acusados de malfeitos.
Peluso acha que o Conselho Nacional de Justiça pode vasculhar casos individuais de magistrados corruptos Brasil afora, mas deve focar sua atuação nas corregedorias locais, órgãos responsáveis pela fiscalização nos Estados. Em termos operacionais está correto. Seria inexequível o CNJ investigar todos os juízes suspeitos do país.
O problema é que nem sempre a vida real segue os ditames da lógica. Muito menos na condução de um dos Poderes da República. O Judiciário é o mais imperial dos Poderes, hermético e desacostumado a se abrir para a sociedade.
Basta dizer que o CNJ foi criado em 2004 e até hoje há relatos de dificuldades enfrentadas pelo órgão quando precisa ir até algum Estado e fazer uma auditoria num Tribunal de Justiça. A corregedora do Conselho, ministra Eliana Calmon, foi espirituosa quando afirmou que conseguirá inspecionar a Justiça paulista "no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro".
A corregedora fala a verdade. Não há como enxergar normalidade quando quase nunca um juiz é punido. Ou apresentar como se fossem punições meras "aposentadorias compulsórias" com a preservação do salário integral. Quem comete um crime não deve apenas ser aposentado -prática comum entre juízes. Criminosos devem ser condenados e ir para a cadeia.
Cezar Peluso parece estar antenado. Sua posição é ponderada ao propor a investigação das corregedorias locais. Mas essa atitude ainda é tímida. Para avançar, falta um gesto prático do CNJ com apoio do STF. Por exemplo, punir exemplarmente alguns juízes corregedores que protegem colegas. Fazer menos é optar só pela retórica.

CLAUDIO HUMBERTO

“Sou baixa, gorda e índia”
APARECIDA GONÇALVES, DA SECRETARIA DA MULHER, TOMADA PELA INVEJA DE GISELE BÜNDCHEN

NO MP, 80 PROCURADORES GANHAM ACIMA DO TETO 
Habituado a denunciar malfeitorias no serviço público, incluindo o recebimento de supersaltos no Poder Legislativo, o Ministério Público Federal também coleciona mazelas. Segundo informação do próprio Conselho Nacional do Ministério Público, por solicitação da Câmara dos Deputados, oitenta procuradores da República recebem remuneração acima do teto constitucional de R$ 26.723 mensais.

REGALIAS 
As regalias no MP não se limitam a supersalários. Até fizeram o Conselho Nacional de Justiça estendê-las também aos magistrados.

SÓ OS OUTROS 
O MPF pediu e a Justiça ordenou que o Senado corte os supersalários de servidores. Mas o MPF não agiu assim contra o próprio MPF. 

TUDO INCLUÍDO 
A Justiça Federal tem decidido que na conta do teto de R$ 26.723 devem ser incluídos penduricalhos como horas extras e gratificações.

VIVA O TST 
A ministra Maria Cristina Peduzzi, do TST, comandou com elegância e firmeza admiráveis a conciliação que pôs fim à greve dos Correios.

ROYALTIES: ‘PRODUTORES’ DÃO SINAIS DE DESESPERO 
Deterioram as chances de “Estados produtores” nas negociações sobre a derrubada do veto presidencial à lei que determinou a distribuição equânime dos royalties de petróleo do pré-sal. A presidente Dilma ficou irritada com a advertência do governador Sérgio Cabral de que ela perderia eleitoralmente no Rio. Cientes da derrota iminente, governos do Rio de Janeiro e do Espírito Santo conseguiram adiar a votação no Congresso, mas avisaram: vão apelar ao Supremo Tribunal Federal.

NO VOTO NÃO DÁ 
Somente a negociação impedirá a derrubada do veto do ex-presidente Lula à lei da distribuição equitativa dos royalties do petróleo. 

ÓLEO NA MESA 
Para o capixaba Renato Casagrande (PSB), o governo Dilma deveria “liderar” a negociação. Teme a desorganização das contas do Estado.

CONFUSÃO NÃO É DELA 
Dilma foi convencida pelo governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) a se manter distante da confusão. Ela aquiesceu. Por enquanto.

INTRANSIGÊNCIA 
Em reunião com governadores do Centro-Oeste, Agnelo Queiroz (DF) culpou a intransigência dos Estados confrontantes (e não produtores) do pré-sal pela falta de negociação sobre a divisão dos royalties.

MEIRELLES VAI FALAR 
A convite do tucano Marconi Perillo (GO), o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles falou bem da economia a governadores da região, mas avisou que não ficará vinte anos sem criticar as políticas do BC, como prometeu Alan Greenspan, ex-presidente do FED americano.

AGU NO CIRCUITO 
Cansado de esperar por uma solução “caseira”, na ECT e no Ministério das Comunicações, o Palácio do Planalto pediu para a Advocacia Geral da União entrar na negociação para acabar a greve dos Correios.

EFICIÊNCIA EM SÓFIA 
Chama a atenção da comitiva da presidente Dilma a eficiência da nossa embaixada em Sófia, Bulgária. O embaixador Washington Luís Pereira de Sousa 
é neto do ex-presidente Washington Luís, para quem “governar é construir estradas”. Seu neto as pavimenta, na diplomacia.

TRISTEZA 
O hospital Samer se recusa a informar, mas amigos dizem que o cadete Renan Gama teve morte cerebral. Ele foi vitima de maus tratos em treinamento na Academia das Agulhas Negras em Resende (RJ).

CUMPRIU-SE O FADO 
Como esta coluna antecipou, a EBP, preferida de Marcelo Guaranys, diretor-geral da Agência Nacional de Aviação Civil, foi a escolhida para elaborar os editais de concessão dos aeroportos de Guarulhos (SP) e Viracopos (Campinas). Cada edital vai nos custar R$ 7 milhões.

RORAIMA, 23 
Roraima completa 23 anos nesta quarta (05), e o governador Anchieta Jr. (PSDB) vai homenagear próceres tucanos como o deputado Sérgio Guerra, presidente do partido, e o ex-governador paulista José Serra.

QUEM MANDOU... 
Ex-secretário de Educação do DF, José Luiz Valente criou um sistema que permitia às escolas comprar diretamente cartuchos e toner, para fazer funcionar impressoras que estavam fora de uso há anos. 

...SER BURRO? 
Agora, o TC-DF condenou José Valente a devolver o dinheiro do toner e dos cartuchos. 
Se não tivesse feito nada, hoje estaria tranquilo. “Bem feito, para deixar de ser burro!”, exclamou o ex-secretário no Facebook. 

PODER SEM PUDOR
HAMLET BRASILEIRO 
O médico Maurício Lacerda Filho visitou o irmão Carlos Lacerda no cárcere, em 1968, depois do AI-5, tentando convencê-lo a desistir de uma greve de fome:
– Não estou aqui para falar como médico, nem mesmo como irmão. Vim trazer uma palavra de lucidez. Esta greve de fome é uma loucura!
Mas Lacerda somente desistiria do jejum ao ouvir um argumento poderoso:
– Acabe com esta besteira. Você está querendo bancar o Hamlet na terra de Dercy Gonçalves?

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Rio vai dobrar indenização para remover mais favelas

Folha: Para deputado, cada colega de SP tem um preço

Estadão: No Judiciário, mais de 4.800 podem ter supersalário

Correio: Dilma freia desmonte do BB em Brasília. Falta brecar a Caixa

Valor: Capital externo garante o aumento de investimentos

Estado de Minas: Eles estão em toda parte

Zero Hora: Sites municipais omitem dados de contas públicas