domingo, setembro 25, 2011

MIRIAM LEITÃO - Futuro ameaçado


Futuro ameaçado
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 25/09/11

"Dizem que vai chover neste fim de semana", diz, esperançoso, o motorista da Globo em Brasília (DF). Quem vai à capital sempre, como eu faço há três décadas, percebe que as secas têm piorado. O ar em Brasília esteve irrespirável nesta estação em que no centésimo dia sem chuva nasceu minha neta Manuela. Os governantes não têm ideia de que é preciso mitigar os efeitos do clima.

Os governantes que administram a capital concretada no Planalto Central, e que dirigem o País de tão abundante biodiversidade, não parecem ter muita noção das necessidades impostas nestes tempos de mudança climática. Um estudo do Imazon e do Proforest, comparando vários países, dá uma noção de como o debate no Brasil se passa como se fosse travado por alienistas.

O Brasil quer mais facilidade para desmatar, quando inúmeros países que já desmataram estão reconstruindo cobertura florestal. A capital sofre rigores da seca, que ficam pior a cada ano, e nunca pensou que pode tomar medidas de mitigação para o futuro que será de piores extremos.

Quando a umidade do ar este ano chegou a 10%, senti aqui o que só havia sentido no deserto da Arábia Saudita. A mãe da presidente chegou a ser internada; a filha de cinco anos de uma ministra sangrava pelo nariz todas as noites. Quem chega de fora sente que tem piorado muito.

Puxa-se o ar e é como se ele tivesse dificuldade de entrar nos pulmões, a mucosa nasal fica irritada, a coriza aumenta como numa crise alérgica, a garganta queima, a pele coça, o corpo pesa. É agoniante.

Tudo isso é tratado com naturalidade. E não é normal. Brasília sempre teve invernos secos com calor de dia e frio à noite. O fogo começa em algum lugar, de repente. Uma das queimadas que vi jogou para o ar material particulado que me provocou uma forte reação alérgica. Tudo tem ficado pior a cada ano e a cidade está mergulhada em discussões que parecem bizarras para quem chega de fora e tem noção do contexto.

Os governantes querem autorizar um estacionamento numa área de preservação perto do aeroporto, querem um shopping sobre nascentes que alimentam o Parque Olhos D'Água, na Asa Norte, e a Floresta Nacional vai minguando por ocupações e incêndios. Há uma guerra de pareceres sobre se a água que surge no parque é nascente ou de origem fluvial. É água numa terra calcinada, é isso que importa. Uma foto exibida na sexta-feira no Bom Dia DF mostra como partes do parque que tinham nascentes foram cimentadas para construções.

O governo não se dá conta de que é preciso urgente adotar medidas de mitigação para enfrentar secas mais secas e mais longas. É preciso mais cobertura vegetal em Brasília e não mais concreto. O Brasil inteiro trabalha na direção contrária à lógica e ao bom senso. Este ano o desmatamento está aumentando. No mínimo, o governo deveria se preocupar com a imagem externa, afinal o Brasil está na vitrine por hospedar no ano que vem a Rio+20.

O debate do Código Florestal ressuscita argumentos do século passado sobre as florestas como impedimento ao progresso. Santa Catarina passou por duas enchentes terríveis, a Região Serrana do Rio soterrou moradores, o caudaloso Rio Negro na Amazônia vive mais uma seca recorde que o transformou num fio d'água. E mesmo assim, o Brasil quer menos áreas de preservação permanente (APP).

Brasília e Brasil têm o mesmo comportamento alienado. É como se as mudanças climáticas não estivessem em nossos calcanhares, ameaçando o futuro dos brasileiros que nascem hoje. Minha primeira neta, Mariana, aos 5 anos, tem mais consciência ambiental do que a maioria dos senadores que está hoje discutindo o Código Florestal. Ela é que alerta os pais e avós sobre separação de lixo e detesta histórias em que os bichos morrem. O futuro não nos pertence - é das crianças - mas sobre ele tomamos decisões perigosas e insensatas.

O estudo do Imazon e Proforest nasceu de uma dúvida que surgiu numa reunião do Greenpeace. Será mesmo verdade que o Código Florestal, com as restrições que querem flexibilizar, só existe no Brasil, como a jabuticaba? Quando os ruralistas dizem que um código assim só existe no País querem facilidade para desmatar, perdão para quem desmatou. Quando os ambientalistas estufam o peito e dizem que uma legislação boa assim é criação brasileira se enfraquecem sem saber. O estudo compara legislações do mundo e conclui que o desafio em todos os países é proteger e aumentar coberturas florestais. Estamos na contramão da História.

O estudo foi feito por Ruth Nussbaum, do Proforest, afiliado à Universidade de Oxford, na Inglaterra, e Adalberto Veríssimo, do Imazon. Mostra que quase todos os países seguiram a mesma trilha: aumentaram o desmatamento no começo do século XX, depois estabilizaram e, em seguida, iniciaram programas de reconstrução das coberturas florestais. O Brasil ainda permanece preso à primeira fase e nos últimos anos tudo o que teve para comemorar foi queda do ritmo da destruição. Este ano nem isso poderá comemorar porque o desmatamento aumentou.

O estudo, que será divulgado no começo de outubro, traz estatísticas e constatações. A primeira é que as leis nos países analisados - Estados Unidos, Inglaterra, China, Holanda, Alemanha, entre outros - favorecem o aumento da cobertura e não o contrário; a segunda é que o desmatamento zero é possível; a terceira é que floresta é riqueza e não obstáculo.

O cerrado que queima no coração do Brasil, a Amazônia que tomba ao ritmo de 10 mil quilômetros quadrados por ano, os últimos fragmentos da frágil Mata Atlântica precisam que o Brasil veja o futuro que se aproxima.

PAULO COELHO - A história de Buda - I


A história de Buda - I
PAULO COELHO
DIÁRIO DO NORDESTE - 25/09/11

Sidarta - cujo nome significa "aquele cujo objetivo é atingido" - nasceu em uma família nobre, por volta do ano 560 A . C. ,na cidade de Kapilavastu, no Nepal.

Conta a lenda que, no momento em que sua mãe fazia amor com seu pai, ela teve uma visão: seis elefantes, cada um com uma flor de lótus nas costas, caminhavam em sua direção. No instante seguinte, Sidarta era concebido.

Durante sua gestação, a rainha Maya, sua mãe, resolveu chamar os sábios de seu reino para interpretar a visão que tivera, e eles foram unânimes em afirmar: a criança que estava para vir ao mundo seria um grande rei ou um grande sacerdote.

Sidarta teve uma infância e uma adolescência muito semelhante à nossa: seus pais não queriam, de jeito nenhum, que ele tomasse conhecimento da miséria do mundo. Assim, vivia confinado entre os muros do gigantesco palácio onde seus pais habitavam, e onde tudo parecia perfeito e harmonioso. Casou, teve um filho, e conhecia apenas os prazeres e as delícias da vida.

Entretanto, quando completou 29 anos, pediu certa noite a um dos guardas que o levasse até a cidade. O guarda reclamou, já que o rei podia ficar furioso, mas Sidarta foi tão insistente que o homem terminou por ceder, e os dois saíram.

A primeira coisa que viram foi um velho mendigo, de olhar triste, pedindo esmolas. Mais adiante, encontrou um grupo de leprosos, e logo em seguida, um cortejo fúnebre passou. "Nunca tinha visto isso!", deve ter comentado com o guarda, que possivelmente replicou: "Pois trata-se de velhice, doença, e morte." Voltando para o palácio, cruzaram com um homem santo, de cabeça raspada e vestido apenas com um manto amarelo, que dizia: " a vida me aterroriza, então renunciei a tudo, de modo que não precise encarnar-me novamente e sofrer mais uma vez a velhice, a doença e a morte".

Na noite seguinte, Sidarta esperou que a mulher e o filho dormissem. Entrou silenciosamente no quarto, beijou-os, e pediu de novo ao guarda que o conduzisse fora do palácio; ali, entregou-lhe sua espada com o punho cheio de pedras preciosas, sua roupa feita do tecido mais fino que a mão humana podia tecer, pedindo para que devolvesse tudo a seu pai; em seguida, raspou a cabeça, cobriu o corpo com um manto amarelo, e partiu em busca de uma resposta para as dores do mundo.

Por muitos anos vagou pelo norte da Índia, encontrando-se com monges e homens santos que caminhavam por ali, e aprendendo as tradições orais que falavam de reencarnação, ilusão, e pagamento dos pecados de vidas passadas (carma). Quando julgou que já tinha aprendido o bastante, construiu para si mesmo um abrigo na margem do Rio Nairanjana, onde vivia fazendo penitência e meditando.

Seu estilo de vida e sua força de vontade terminaram atraindo a atenção de outros homens em busca da verdade, que vieram ao seu encontro em busca de conselhos espirituais. Mas, depois de seis longos anos, tudo que Sidarta podia perceber era que seu corpo estava cada vez mais fraco, e as constantes infecções não lhe permitiam meditar como devia.

Conta a lenda que, certa manhã, ao entrar no rio para fazer sua higiene pessoal, já não teve forças para levantar-se; quando ia morrendo afogado, uma árvore curvou seus ramos, permitindo que ele se agarrasse, e não fosse levado pela correnteza. Exausto, conseguiu chegar até a margem, onde desmaiou.

Horas depois, passou pelo local um camponês que vendia leite, e ofereceu-lhe um pouco de alimento; Sidarta aceitou, para horror dos outros homens que ali viviam com ele. Achando que aquele santo não tinha conseguido mais forças para resistir à tentação, resolveram deixá-lo de imediato. Mas ele bebeu de bom grado o leite que lhe era oferecido, achando que ali estava um sinal de Deus e uma bênção dos céus. Conclui na próxima semana

JOÃO BOSCO RABELLO - O PSD é legal e legítimo


O PSD é legal e legítimo
JOÃO BOSCO RABELLO 
O Estado de S.Paulo - 25/09/11

Na próxima terça-feira, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) volta a se reunir para decidir o pedido de registro do PSD, decisivo para que a nova legenda possa participar das eleições municipais de 2012. À parte a polêmica artificial produzida pelos seus opositores, e o apego de alguns ministros a formalismos menores, o PSD nasce dentro das regras eleitorais e com absoluta legitimidade política.

O partido cumpriu as formalidades jurídicas impostas pela legislação, como atestam os tribunais regionais eleitorais e o texto da relatora, ministra Nancy Andrighi, defendendo a aprovação do registro. Os ministros divergentes na sessão da última quinta-feira entediaram os espectadores com tecnicismos que passam ao largo do mais importante: a questão política.

O PSD poderia não existir se os seus idealizadores tivessem alegado justa causa para deixar o DEM, onde foram vítimas de uma fraude comprovada que destituiu os poderes do Conselho Político, e migrado para outras legendas. Mas optaram por resgatar o ideário liberal e devolver ao cenário político uma representação com 60 parlamentares, assumidamente conservadora, capaz de reequilibrar o quadro partidário, quebrando a hegemonia nociva de PMDB e PT.

Importante alternativa para governos submetidos a uma base com poder de chantagem, o partido é um oxigênio para o debate político e uma opção indispensável para a diversidade ideológica.

ALBERTO TAMER - Semana de frustrações


Semana de frustrações
ALBERTO TAMER 
O Estado de S.Paulo - 25/09/11

Essa foi uma semana de frustrações para a economia mundial. Frustração com o Fed (banco central americano) que havia prometido reavaliar a situação nos dias 22 e 23 e veio com medidas paliativas. Bernanke e seus colegas apenas agravaram o clima de incerteza e insegurança que derrubou os mercados ao acentuar ainda mais que "há riscos significativos de desaceleração econômica." Passaram a impressão de impotência e inércia que não são tão graves se não fosse esse o clima também no banco central da Eurozona e nos governos da União Europeia.

Liderança coletiva. Na reunião do FMI, em Washington, só surpresas e declarações evasivas. Depois de uma visão muito lúcida sobre a desaceleração da economia mundial, sua diretora, Christine Lagarde, concluiu que o desafio é a falta de "liderança coletiva", que ninguém entendeu o que é. Liderança de todos seguida por todos ou liderança de alguns por todos?

Para a diretora do FMI, há os países emergentes! Eles estão crescendo, evitando um processo recessivo que poderia contaminar a economia mundial, mas para diretora do FMI "não estão fazendo o suficiente para crescer internamente e promover o reequilíbrio mundial." Mas não foi o próprio FMI que há pouco mais de uma semana alertou para o desequilíbrio não externo, mas interno desses países, apontando para as medidas que adotaram para defender seus mercados, produzir e crescer como defende agora o FMI? Diante das últimas análises do fundo, fica no mercado a impressão que nem o fundo sabe o que fazer. A única certeza é que a nova posição do fundo revela que não há decisão política dos países "avançados", que se aproximam da recessão e representam 50% do PIB mundial.

Nós? Não, vocês! Foi isso que responderam os países emergentes teoricamente. O problema não é nosso. É dos Estados Unidos, da Europa, que acumularam dívidas e se recusam a adotar medidas para evitar que a economia recue ainda menos de 0,2%, abrindo o caminho da recessão. Quando muito, nós podemos mais títulos da dívida dos países da Eurozona, mas não aqueles da Grécia, Itália ou Espanha. Aliás, já estavam comprando antes da crise. Uma parte das reservas brasileiras está em euros. Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul - o tal Brics - não só se abstiveram de assumir qualquer compromisso como acusaram os outros de não estarem conscientes da grave situação em que se meteram. E assim ficou tudo nessa semana de muitas palavras e nenhuma ação. Não muda nada. Até seria bom se ficasse assim, com economia mundial distorcida se conformando em crescer 4%, mas pode piorar com o aprofundamento da crise financeira da eurozona, e "se não houver uma solução rápida e em conjunto", como alertou o ministro Guido Mantega, em Washington. Quanto mais demorar, será mais difícil e oneroso sair da crise.

China se cala. Curioso é que nesse festival de declarações desencontradas, não se ouviu uma palavra da China, a segunda maior economia mundial. Seus lideres estavam mudos. Eles pararam de contar com o mercado mundial que recua, e decidiram "internar" os problemas. Estão crescendo "por dentro", para um mercado interno que pouco consome e representa 40% do PIB. Um mercado ansioso onde há pelo menos 700 milhões de pessoas ainda pobres que podem consumir mais.

Nos Estados Unidos há pouco a fazer porque as famílias já consomem muito e estão endividadas, mas no Brasil existe espaço a ocupar no mercado interno. E foi essa a política chinesa de "internamento", de quem pouco pode esperar do exterior, que está sendo adotada também no Brasil onde o mercado interno surge como uma das poucas opções viáveis nos próximos anos.

Mas há os desafios que não são apenas percalços, como o efeito da excepcional valorização do dólar sobre a inflação como registrou a coluna na quinta-feira. O Banco Central sentiu isso quando o dólar se aproximou de R$ 2 e fez uma intervenção no mercado, sinalizando que vai continuar agindo assim. A cotação recuou para R$ 1,80, mas neste mês a moeda americana se valorizou 15,5%.

Em meio a declarações conflitantes, o Banco Central afirmou que vai continuar atuando no mercado cambial futuro enquanto for necessário. A leitura do mercado é que a taxa deve ficar em torno de R$ 1,70, o que ocorreria em oito ou dez dias, quando os fundos de hedge acertarem suas posições vendidas em US$ 13 bilhões. Isso mostra as limitações do Banco Central e da equipe econômica para proteger a economia e estimular o crescimento sem provocar mais inflação que em doze meses, já está em 7,2%. O desafio é saber até quando os preços podem aumentar sem reduzir a renda e o consumo das família - uma peça mais central. A dúvida é até quando a política monetária e o câmbio podem ajudar.

Se as respostas a essas perguntas eram tímidas, elas ficaram mais evasivas diante das frustrações externas desta semana em que o FMI, EUA e a Europa deixaram muito claro que não sabem o que fazer para afastar o risco de recessão. Talvez, vão esperar a situação piorar. Nesse cenário sem perspectivas, o Brasil está sozinho e não pode esperar pela tal "aliança coletiva" da madame Lagarde.

FERREIRA GULLAR - Quando o bicho nos pegou


Quando o bicho nos pegou
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 25/09/11

Thereza Aragão e eu, com nossos três filhos, morávamos num apartamento da rua Visconde de Pirajá, 630, no trecho de Ipanema chamado Bar Vinte.

Nesse apartamento fui preso pela primeira vez, no dia em que os militares impuseram ao País o famigerado AI-5, mas, quatro anos antes, em meados de 1964, pouco depois do golpe, houve uma reunião, convocada por Vianninha (Oduvaldo Vianna Filho), que daria origem ao Grupo Opinião.

Ninguém naquela noite falou nisso, porém. O objetivo do encontro não era fundar um novo grupo teatral, mas, antes de mais nada, voltar à ativa após a liquidação do CPC da UNE pela repressão militar.

Além dos donos da casa e de Vianninha, participaram da reunião Armando Costa, João das Neves, Pichín Plá e Paulo Pontes, todos ex-integrantes da CPC, e mais Nelson Xavier, ligado ao Teatro de Arena de São Paulo.

O propósito do encontro era montar um show inspirado num disco que Nara Leão acabara de lançar (com capa de Jânio de Freitas) intitulado "Opinião".

Vianninha propôs fazermos um espetáculo musical que reunisse Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale - uma moça de classe média, um malandro do morro e um sertanejo nordestino. Até aí, tudo bem.

O problema é que, como tínhamos integrado o CPC, contra o qual os militares moviam um processo por subversão, não podíamos aparecer como produtores do espetáculo. A polícia o proibiria de imediato. Que fazer então?

Foi aí que alguém sugeriu pormos, como produtor do espetáculo, o Teatro de Arena. A sugestão foi aprovada, mas teria de ser aceita pelos companheiros do Arena. Feito o contato no dia seguinte, a proposta foi acolhida e, então, Vianninha, Paulo Pontes e Armando Costa começaram a inventar o show, que se tornaria a primeira manifestação pública contra o regime de 1964.

Certamente, isso não estava explícito no espetáculo, mas, entre canções e tiradas engraçadas, defendia-se a democracia e condenavam-se o latifúndio e a desigualdade social.

Tomada a decisão de escrevê-lo, surgiu a questão de onde montá-lo. Prevaleceu a sugestão de Vianninha: montá-lo no mesmo local onde o Teatro de Arena se apresentara no Rio em 1959, isto é, numa arena improvisada no shopping center da rua Siqueira Campos.

Fez-se contato com seu proprietário, o senador Arnon de Melo, e acertamos montar ali um pequeno teatro de arena na área originalmente destinada à instalação de uma boate.

Com uma grana que sobrara do CPC, mandamos fazer um estrado de madeira que serviria de palco. A plateia foi constituída pelas cadeiras do cinema de um tio de Vianninha que falira e nos chegaram cobertas de lama seca, pois haviam ficado meses ao ar livre, acumulando poeira, debaixo de sol e chuva.

Nós mesmos as lavamos e, com a ajuda de dois operários, as parafusamos e montamos. Por isso é que, durante os espetáculos, se alguém se mexia na cadeira, ela rangia, mas isso não impediu que o show "Opinião" se tornasse sucesso de público, a ponto de ter casas lotadas com um mês de antecedência.

Àquela altura, os milicos já se haviam dado conta de que aquilo era coisa de comunista, mas não se atreveram a tirar de cartaz um espetáculo com tal aprovação do público.

Em compensação, passaram a cortar e proibir quase tudo o que a classe teatral tentava montar. Depois de "Liberdade Liberdade", chegou a vez de montarmos outra peça nossa, que foi "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come", escrita com o propósito deliberado de criar uma obra que, por sua qualidade estética, ganhasse os censores.

E os ganhamos: a peça foi montada sem cortes e mereceu todos os prêmios do teatro brasileiro naquele ano de 1966. Lembro-me de tudo isso com saudade, não daquela época de repressão e medo, saudade dos amigos, dos companheiros e companheiras, do nosso e dos outros grupos teatrais.

Lembro-me também de um fato engraçado. Ambrósio Fregolente, que fazia o papel de um coronel em "Se Correr o Bicho Pega", passou a trocar a fala "Comi a mulher de Brás das Flores" por "Comi o Brás das Flores", o que comprometia o herói da peça. Fui encarregado de falar com ele sobre isso, mas sua reação foi inusitada. Começou a gritar: "Kremlin, Kremlin, os comunistas estão querendo me censurar!". É que dera para tomar umas e outras antes de entrar em cena.

AS APARÊNCIAS QUE ENGANAM


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



"Empreendedorismo é a melhor alternativa para jovens nos EUA"
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 25/09/11

Por conta de trabalhos em que mostra como pessoas bem-sucedidas atingiram a excelência em suas carreiras e como as empresas podem mudar suas culturas, o escritor Malcolm Gladwell, colunista da revista "New Yorker", virou best-seller da área de administração e negócios.
Autor de "Fora de Série" e "O Ponto da Virada" (editados pela Sextante), Gladwell diz que o empreendedorismo é a melhor alternativa para recém-formados nos EUA.
"Os EUA têm uma cultura que encoraja correr riscos e apoia as ideias dos empreendedores. Há uma cultura que reconhece que construir uma empresa a partir do zero é algo legítimo e que isso pode ser mais importante do que um emprego estável", diz o britânico criado no Canadá.
O Vale do Silício, segundo Gladwell, exemplifica essa característica da cultura norte-americana. O Facebook, por exemplo, foi financiado por entidades da região.
"É uma estrutura receptiva a ideias não testadas."
A possibilidade de funcionários de uma empresa desencadearem mudanças culturais é outra questão abordada na obra de Gladwell.
"As pessoas desempenham papéis sociais que podem não estar representados em seus cargos. As empresas devem entender que o poder de indivíduos socialmente centrais também pode estimular mudanças."
O entendimento de sucesso também é discutido pelo escritor. "Há uma tendência em tentar reduzir os motivos que levam uma pessoa a ser bem sucedida. Além da inteligência, há outros fatores importantes como o contexto social em que as pessoas foram criadas, sua história familiar, sua geração e seu passado."

"Os Estados Unidos têm uma cultura que encoraja correr riscos e apoia as ideias dos empreendedores. Ser empreendedor é considerado prestigioso em nossa sociedade

"Há uma tendência em tentar reduzir os motivos que levam alguém a ser bem-sucedido. Além da inteligência, há outros fatores importantes, como a história familiar da pessoa e seu passado

O QUE ESTOU LENDO
José Eduardo Cardozo,
ministro da Justiça
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tem à cabeceira a coletânea de contos "Acqua Toffana", livro de estreia de Patrícia Melo. "Gosto muito dela, de como escreve; já havia lido outros livros da Patrícia, como 'Valsa Negra', sobre um maestro casado com uma mulher mais nova, e 'Inferno'."

SECA SUSTENTÁVEL
A Agropalma, produtora de óleo de palma, mudará seu processo industrial para reduzir o consumo de água e a emissão de gases do efeito estufa por efluentes. Serão investidos R$ 20 milhões. "Cinco indústrias serão readequadas. A primeira começou a operação neste mês", diz Hilário Rodrigues de Freitas, diretor-geral.
Em 2014, o volume mensal de água limpa consumida será reduzido em 25%. Em ação semelhante, as iniciativas ecoeficientes da Mexichem Brasil nas fábricas da marca Amanco desde 2001 geraram economia de US$ 60 milhões de 2002 a 2010. Entre ações para 2012 na Ambev está a meta de reduzir para 3,5 litros o consumo de água usado na produção de 1 litro de bebida.

INFLAÇÃO IMOBILIÁRIA
O preço do metro quadrado em Curitiba dobrou de valor nos últimos dois anos, de acordo com estudo da consultoria Binswanger Brazil.
O período coincide com a época em que a cidade foi confirmada como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.
A escassez de ofertas nos bairros mais procurados, como Batel, Ecoville, Champagnat e Cabral, é uma das principais razões para a alta, segundo Ulisses de Paula, diretor da companhia.
Nos últimos dois anos, o valor médio do metro quadrado também cresceu em São Paulo e no Rio de Janeiro, 39,1% e 36,9%, respectivamente, de acordo com a Jones Lang LaSalle.
"Nesses casos, o crescimento macroeconômico do Brasil teve mais influência que a Copa do Mundo", afirma André Costa, diretor da consultoria imobiliária.

Equestre A Hermès traz ao país a sela de salto Talaris, durante a Copa Hermès de Hipismo, em outubro. Projetada por artesãos da marca, a sela tem fibras de carbono e titânio que a tornam 1,5 quilo mais leve, segundo a empresa. O produto estará à venda no shopping Cidade Jardim, em São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION, LUCIANA DYNIEWICZ e FELIPE VANINI BRUNING

GILBERTO DIMENSTEIN - Um jornal está fazendo escola

Um jornal está fazendo escola
GILBERTO DIMENSTEIN
FOLHA DE SP - 25/09/11

Nunca se teve tanto acesso a notícias e tanta insegurança sobre as regras para sobreviver

Até pouquíssimo tempo atrás ninguém diria que um jornal seria uma escola para se estudar sobre assuntos tão variados como música erudita, vinhos da Califórnia, câncer, diabetes, funcionamento do cérebro, criação de blog, energia nuclear, história da arquitetura asiática, arte africana, comércio eletrônico ou urbanismo.

Esses são apenas alguns dos cursos à distância oferecidos pelo "The New York Times", muitos deles em parceria com universidades, que atraem alunos de várias partes do mundo. Além dos professores universitários, as aulas são ministradas pelos jornalistas e colaboradores do jornal. "É um segmento que vamos ampliar cada vez mais, as matrículas não param de crescer", afirma Felice Nudelman, responsável pelos projetos educacionais daquele grupo editorial.

Minha suspeita é de que estamos diante de uma nova fronteira do conhecimento: a fusão das linguagens da educação com comunicação.

É sabido como empresas jornalísticas têm realizado pesados investimentos, como no Brasil, para ganhar o mercado de livros didáticos e sistemas de ensino. No caso do "The New York Times" há um diferença: com a ajuda das universidades, eles estão fazendo da redação uma espécie de sala de aula, onde jornalistas viram professores e leitores, alunos. Na quinta-feira passada, aliás, eles reuniram 400 educadores de todos os continentes para discutir como as novas tecnologias estão moldando o jeito que se aprende e se ensina.

A novidade reflete a ansiedade generalizada nos meios de comunicação diante das incertezas geradas pelas novas tecnologias, estimulando os mais variados tipos de apostas para agarrar o leitor.

Um dos melhores resumos que ouvi sobre essa ansiedade veio do jor-nalista Joshua Benton, responsável por um observatório em Harvard focado nos impactos das novas tecnologias na mídia. "Vivemos um momento extraordinário para o jornalismo. E terrível para os jornalistas". Nunca se teve tanto acesso a notícias. Mas também nunca se teve tanta insegurança sobre as regras para sobreviver.

Certamente não ajudou a reduzir o clima de ansiedade a recente descoberta na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos: um software capaz de redigir notícias sem ajuda de humanos. O programa foi batizado com o sugestivo nome de Monkey (Macaco).

Nessa corrida, o "The New York Times" contratou cientistas e montou um laboratório para testar novas maneiras de disseminar informação. Dali surgiram um espelho e uma mesa que transmitem as notícias enquanto escovamos os dentes ou tomamos o café da manhã.

Na quinta-feira passada, o Face-book anunciou uma série de ino-vações para facilitar o compar-tilhamento de filmes, músicas e notícias. Entre outros acertos, fechou uma parceira com o "The Washington Post" e Yahoo!. A ideia, em síntese, é fazer de seus amigos curadores de conteúdos. Não por outro motivo, a Google está investindo pesado em redes sociais, temendo que seu mecanismo de busca impessoal perca força.

Não se sabe qual a regra do jogo que vai vencer. Mas o que se sabe é que a demanda por conhecimento não vai parar de crescer.

Como estamos na era da aprendizagem permanente, não se pode parar mais de estudar se não quiser ficar desatualizado. Vive-se mais e com mais saúde. As livrarias podem desaparecer, como estão desaparecendo em várias cidades. Mas a necessidade de livros não vai diminuir. Não é à toa que muitas livrarias imaginam que, para sobreviverem, terão de se transformar em centros culturais e educativos.

Em meio à abundância vertiginosa de dados, cresce a demanda de seleção sobre o que é relevante. Aí reside a fronteira entre a informação e o conhecimento.

Nenhuma forma de seleção consegue ir tão a fundo, relacionando fatos e conceitos, como o processo educativo numa sala de aula real ou virtual. Informação pode-se pegar em qualquer lugar: se quiser ver as aulas do MIT, sem pagar nada, basta apertar o botão do computador. Transformar isso em aprendizagem é outra coisa.

Certamente, nesse jogo de busca de seleção não vai faltar espaço para quem ajuda a contextualizar uma informação, gerando conhecimento.

Por isso a minha suspeita de que a escola do "The New York Times" é uma aposta consistente numa nova linguagem, misturando Redação com sala de aula.

PS - Para quem quiser aprofundar essas informações, coloquei no www.catracalivre.com.br mais detalhes sobre os cursos e o laboratório de novas mídias do NYT; o Monkey, desenvolvido pela Northwestern; os cursos gratuitos oferecidos pelas universidades americanas; o observatório de jornalismo on-line de Harvard.

PAULO SANT’ANA - Quem nos faz infeliz?


Quem nos faz infeliz?
 PAULO SANT’ANA 
ZERO HORA - 25/09/11

Ninguém tem o direito de tornar os outros infelizes.

A minha felicidade, de alguma forma, eu tenho a chance de construí-la, mas ela não pode ser destruída pelos outros. Se isso acontecer, está se verificando um desastre.

Há pessoas que tornam outrem infeliz sem consciência do dano tremendo que causam ao alvo do seu ataque.

Mas, muitas vezes, quem faz outra pessoa infeliz o faz por crueldade.

Eu não gosto de me fixar muito na maldade, ela é uma doença de quem a pratica.

Quero, no entanto, me fixar em quem infelicita os outros não tendo consciência disso.

Esse fato é muito frequente nas relações humanas.

Quero dirigir minha palavra para os chefes e para os que de alguma forma exercitam liderança no emprego, na família, em qualquer agrupamento social.

É muito difícil e delicado ser chefe ou líder. O centro dessa dificuldade é que o chefe tem o dever de respeitar a remota soberania dos seus liderados.

Deve auscultar a capacidade criativa e construtiva dos liderados e não permitir que ela seja desperdiçada. Quando isso acontece, o chefe está tornando infeliz o seu chefiado.

Eu diria que a melhor virtude de um chefe, de um líder, é tanto saber interpretar o silêncio dos seus liderados quanto fazê-los por alguma forma menos silenciosos. O chefe tem o dever de demonstrar a sensibilidade de permitir o desabafo dos seus chefiados.

A relação entre o chefe e o chefiado jamais poderá ser presidida pelo silêncio. Se o for, estará cavado o abismo. E o que me interessa é que esse abismo significa diretamente a infelicidade completa e lamentável do chefiado.

O pior é quando o chefe faz desse silêncio o seu método.

A fonte de infelicidade de uma pessoa não pode ser seu pai ou sua mãe.

Pai e mãe nasceram para fazer felizes os seus filhos, não há trauma maior na vida de uma pessoa que ser infelicitada por seu pai ou por sua mãe. Esse é um desastre tão imenso e, na maioria das vezes, irreparável quanto o de uma pessoa ser infelicitada por seu filho ou por sua filha.

A vida consiste também em ter-se a habilidade e a arte de não infelicitar os outros.

Não temos o direito de infelicitar ninguém. Só temos o direito de infelicitar a nós próprios.

Deus nos livre da sorte de infelicitarmos os outros.

E o pior é quando nas últimas contas, sem nos darmos conta, estamos infelicitando os outros no afã da nossa própria felicidade.

Cuidado, examine bem a vida que está vivendo e procure notar se você está infelicitando alguém. Se isso estiver ocorrendo, salde essa dívida com o seu infelicitado.

Há sempre tempo para parar de infelicitar os outros.

NOURIEL ROUBINI - Como prevenir uma recessão


Como prevenir uma recessão
NOURIEL ROUBINI
FOLHA DE SP - 25/09/11

Os riscos agora são de uma contração severa, que poderia se transformar em nova Grande Depressão

Os mais recentes dados econômicos sugerem que a recessão está voltando nas economias mais avançadas, com os mercados financeiros atingindo agora níveis de desgaste semelhantes aos registrados quando do colapso de 2008. Os riscos de uma crise econômica e financeira ainda pior que a anterior -e agora envolvendo países insolventes- são significativos.

Assim, o que se poderia fazer para minimizar as consequências adversas de nova contração econômica e prevenir uma depressão mais profunda e um colapso financeiro?

Primeiro, devemos aceitar que medidas de austeridade, necessárias para evitar um desastre fiscal, acarretam efeitos recessivos sobre a produção. Assim, se os países na periferia da zona do euro se virem forçados a adotar medidas de austeridade fiscal, outras nações capazes de prover estímulo em curto prazo deveriam fazê-lo, adiando seus esforços de austeridade.

Segundo, embora a política monetária tenha impacto limitado quando os problemas são dívida excessiva e insolvência, em vez de falta de liquidez, um relaxamento mais amplo das condições de crédito, em lugar de um simples relaxamento quantitativo, pode se provar útil.

Terceiro, para restaurar o crescimento do crédito, os bancos da zona do euro e os sistemas bancários subcapitalizados deveriam ser reforçados via financiamento público em um programa que abarcaria toda a União Europeia. Para evitar nova compressão de crédito à medida que os bancos reduzam seu nível de endividamento, os requerimentos de capital e liquidez que os bancos precisam cumprir poderiam ser relaxados por um breve período.

Quarto, é necessário prover liquidez em larga escala para os governos solventes, a fim de evitar uma disparada nos "spreads" e a perda de acesso a mercados que podem transformar a falta de liquidez em insolvência. Mesmo com mudanças de política econômica, governos precisam de tempo para restaurar sua credibilidade. Até que isso aconteça, os mercados manterão pressão sobre os "spreads" das dívidas nacionais, o que torna provável que o temor de uma crise ajude a criá-la.

Quinto, dívidas acumuladas que não possam ser reduzidas via crescimento, poupança ou inflação devem ser tornadas sustentáveis por meio de reestruturações ordenadas, redução de dívidas e conversão de dívida em capital.

Sexto, mesmo que a Grécia e outros países periféricos da zona do euro obtenham perdão de porção significativa de suas dívidas, o crescimento econômico não será restaurado até que a competitividade seja restaurada. E sem um retorno rápido ao crescimento, novos calotes, e novas inquietações sociais, não poderão ser evitados.

Sétimo, o motivo para o alto desemprego e o crescimento anêmico das economias avançadas é estrutural e inclui competição mais acirrada vinda de mercados emergentes. A resposta correta a mudanças de tamanha abrangência não está no protecionismo.

Oitavo, as economias de mercado emergente dispõem de mais ferramentas de política monetária que as economias avançadas, no momento, e deveriam relaxar sua política fiscal e monetária. O FMI e o Banco Mundial podem servir como recurso final de empréstimos aos mercados emergentes que corram risco de perda de acesso aos mercados financeiros, desde que aceitem reformas estruturais.

Os riscos que nos aguardam não são de uma amena recessão de duplo mergulho, mas sim de uma contração severa que poderia se transformar em nova Grande Depressão, especialmente se a crise na zona do euro escapar ao controle e resultar em colapso financeiro mundial.

Políticas econômicas incorretas e teimosas geraram guerras comerciais e cambiais, na primeira Grande Depressão, acompanhadas por calotes desordenados, deflação, alta na disparidade de renda e riqueza, pobreza, desespero e instabilidades econômicas e sociais que terminaram por produzir regimes autoritários e a Segunda Guerra.

A melhor maneira de evitar o risco de que essa sequência se repita é uma ação audaciosa e agressiva das autoridades econômicas mundiais -e já.

NOURIEL ROUBINI é presidente da Roubini Global Economics, professor da Escola Stern de Administração de Empresas (Universidade de Nova York) e coautor do livro "Crisis Economics".
Tradução de PAULO MIGLIACCI

CELSO MING - Risco de desarrumação


Risco de desarrumação
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 25/09/11

É a meta de inflação sendo transformada em meta de juros. É um superávit das contas públicas (superávit primário) sustentado com certa dose de enganação. E é o câmbio, cada vez mais, sujeito a flutuações arbitrariamente sujas. E vamos parar por aí, sem meter no mesmo cesto a política industrial protecionista e eivada de casuísmos, que tende a restaurar reservas de mercado.

Desde 1999 a política econômica do governo se assentara num tripé baseado na meta de inflação, na produção de um forte superávit primário destinado a controlar a dívida e no câmbio flutuante. A percepção que vai sendo consolidada nesses primeiros nove meses de política econômica do governo Dilma é a de que esse tripé vai sendo desmontado, sem que o governo entenda que deva uma satisfação desse desmonte à sociedade.

O Banco Central, por exemplo, ainda mantém o discurso de que trabalha para a convergência da meta de inflação em 2012. Mas, desde a última reunião do Copom, em 31 de agosto, ficou claro que a decisão é derrubar os juros, mesmo se levando em conta que o avanço do consumo segue fortemente acima do avanço da produção. A aposta é de que a crise externa será tão forte que os preços das commodities, especialmente alimentos e petróleo, despencarão. E que, nessas condições, o mundo passará por uma forte desinflação, que será retransmitida para o mercado interno. Além disso, o Banco Central acredita que, agora, pode contar com uma política fiscal (disciplina orçamentária) mais austera, que lhe abra espaço para a queda dos juros.

Essa austeridade fiscal, por sua vez, não passa firmeza. O governo federal alardeou que economizará mais R$ 10 bilhões, uma migalha num bolão de receitas que deverá chegar a R$ 1 trilhão. Em todo o caso, prepara-se para perfazer um superávit primário (sobra de arrecadação para pagar a dívida) de R$ 139,8 bilhões (3,1% do PIB). Mas 2012, ano de eleições, já começará com um reajuste do salário mínimo contratado em torno de 14% - uma paulada nas despesas com o funcionalismo público e com os beneficiários da Previdência Social.

O câmbio, por sua vez, vai sofrendo intervenções contraditórias por parte da equipe econômica - não apenas dos dirigentes do Banco Central, que atua nesse filme somente como ator coadjuvante.

De um lado, sua diretoria declara que continua empenhada em neutralizar volatilidades no câmbio. No entanto, nas últimas duas semanas, se viu que solavancos de 2% ou 3% ao dia, tanto para cima como para baixo, aparentemente não são mais considerados volatilidade.

E cabe acentuar que as autoridades desestimulam a valorização do real e, depois, trabalham na direção contrária, sem revogar os mecanismos anteriormente montados, que atuam em outra direção.

A presidente Dilma Rousseff poderia dizer que os tempos são outros, que está em curso uma vasta crise financeira; que, por toda parte, tesouros estão se endividando para muito além da irresponsabilidade; e que os grandes bancos centrais têm emitido moeda para financiar gastos públicos. E ainda que, diante desse jogo maluco, o Brasil não pode ficar parado, disposto a pagar todas as contas que lhe chegam.

Mas o problema não são as mazelas dos vizinhos de perto e de longe. O problema é a improvisação e as inconsistências a que todo o arcabouço econômico está agora mais fortemente sujeito. O risco de que tudo se desarrume é cada vez maior.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Dilma e o cavalo de Troia


Dilma e o cavalo de Troia
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 25/09/11

SÃO PAULO - Dilma Rousseff recebeu aplausos generalizados da imprensa brasileira. Veículos e colunistas em geral refratários a Lula e ao PT se derramaram em elogios ao discurso da presidente na ONU. Entre os chamados formadores de opinião, mesmo (ou sobretudo) os conservadores, essa atitude de quase espanto positivo em relação a Dilma -uma espécie de "Oh, muito bem!"- tem sido recorrente.

Não é o caso de retomar os tópicos da sua fala em Nova York. Basta dizer que ficou visível em várias passagens o acento pessoal do pronunciamento. Dilma fez questão de escrever ela própria certos trechos.

O ponto aqui é outro. FHC estava, afinal, certíssimo quando alertou o PSDB, naquele texto famoso sobre "O Papel da Oposição", de que era preciso encontrar formas inovadoras de conexão com as classes médias, caso contrário elas seriam atraídas para o campo petista. O tucano se referia à classe C emergente, com suas demandas novas, mas o raciocínio também se aplica ao eleitor tradicionalmente simpático ao PSDB.

A defesa intransigente dos direitos humanos, a imagem de quem combate a corrupção, o recato e os contrastes com o estilo de Lula -tudo compõe uma figura que é do agrado do mundo social a que pertencemos.

Mas é difícil discernir entre os que gostam de Dilma e os que gostam de gostar de Dilma porque não gostam de Lula. Nesse universo, de cada dez pessoas que batem palmas para a presidente, nove parecem fazê-lo exatamente porque ela seria uma espécie de negação do padrinho.

Diferenças entre eles existem, mas seria ingênuo demais pensar que Dilma e Lula se distanciam ou não estão jogando juntos. Isso não é verdade. Inclusive porque para cada admirador novo que Dilma conquista, Lula não perde nenhum que já tinha.

Quem sabe Dilma não seja, à revelia dela própria, o cavalo de Troia de que o PT precisava para conquistar a cidadela da classe média.

UGO GIORGETTI - Reflexões sobre um jogo ruim


Reflexões sobre um jogo ruim
UGO GIORGETTI 
 O Estado de S.Paulo - 25/09/11

Pela televisão assistia a Grêmio x Botafogo. Êta joguinho ruim! Fiquei pensando: quais as instruções que os técnicos deram a seus jogadores pra jogarem daquele jeito? Aquela ruindade responderia a algum esquema pré-determinado? Os treinadores secretamente odiariam tanto o futebol a ponto de montar táticas que anulassem qualquer resto de criatividade e alegria? Haveria um, ou dois, gênios do mal por trás daquilo? Felizmente o comentarista do jogo era o Batista, da dupla Batista e Falcão, não uma dupla de cantores caipira, mas uma dupla de gênios do meio campo.

Batista, como bom boleiro, não poderia esconder o que via e repetidas vezes testemunhou que o jogo era muito ruim, faltava criatividade e técnica às duas equipes. Continuei pensando no que os treinadores poderiam ter dito no vestiário. Para mim a preleção tática devia ter durado menos de trinta segundos. Por parte do Botafogo acho que o técnico disse: "Vamos jogar atrás e ver no que vai dar. Com a nossa posição na tabela um pontinho ganho aqui já tá de bom tamanho.Vamos lá ,e boa sorte pra todo mundo". Por parte do Grêmio: "Vamos pra cima porque no último jogo tomamos de goleada e esse aqui não dá pra perder. Vamos lá e boa sorte prá todo mundo".

É claro que estou simplificando, talvez porque não entenda nada de táticas e estratagemas de jogo. Vejo o jogo mais ou menos como um torcedor meio burro. Acho que sei quem está jogando bem e quem está jogando mal, mas essa condição pode se inverter rapidamente, porque só vejo o jogo como lances em separado, isolados, individuais. Portanto, quem me agrada num dado momento pode começar a me desagradar por causa de algum lance posterior que julgo insuportável.

Por isso sempre estou do lado da torcida quando acusada de não compreender tal jogador, coitado, que joga para o time e que taticamente é muito útil. Começo o jogo observando esse jogador e tento simpatizar com ele. Vejo que corre, se esfalfa, marca , se desdobra e tem minha simpatia. De repente, porém, executa um lance que me tira do sério, um mísero lance, quase imperceptível, mas que me revela toda sua mediocridade. E toda minha simpatia despenca por água abaixo, por causa desse lance isolado, fortuito, causal.

Mas voltemos a Grêmio x Botafogo. A coisa ia nesse nível, eu tentando me livrar do jogo, procurando ver alguma coisa em outro canal, mas por falta de qualquer manifestação mínima de inteligência que pudesse existir no resto da TV, acabava voltando hipnoticamente para Gremio x Botafogo. Em dado momento, porém, tive se não a prova, pelo menos fortes indícios que minha concepção de futebol não é tão burra assim.

No meio do festival de encontrões a bola sobrou para Maicosuel. Sim, o mesmo Maicosuel que jogou em vários clubes brasileiros. Ele partiu decidido para cima da defesa do Grêmio, rapidamente se desvencilhou de três marcadores desmontando qualquer possibilidade de detê-lo e colocou Loco Abreu na cara do gol. O Loco, que tinha passado o jogo inteiro esperando exatamente uma bola daquelas, com a precisão e segurança de um cirurgião, bateu no canto.

Botafogo 1 x Grêmio 0 e partida liquidada. Para minha alegria não foi a tática, mas apenas a técnica individual de um jogador, que de repente deu o ar de sua graça, que transformou tudo em campo. O Botafogo claramente esperava um empate, mas foi surpreendido pela jogada inesperada e criativa de um de seus jogadores. O Grêmio, por sua vez, não tinha esse jogador e a partida acabou. Lembrei de outros lances assim, como a arrancada de Ronaldo Gaúcho num já distante Brasil x Inglaterra de 2002, quando a inexpugnável defesa do English Team foi destruída por uma devastadora incursão do Gaúcho que deixou três ingleses para trás e jogou a bola para Rivaldo que, como o Loco, deu um tapa para o gol. Que bom! Ainda existe campo, não sei por quanto tempo, para jogadas individuais. Aliás, acho que é por isso que ultimamente estamos vendo tantas equipes com dez ganharem de equipes completinhas com os onze em campo. É que o bom de bola estava no time com dez.

EDITORIAL - FOLHA DE SP - Na direção errada


Na direção errada
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 25/09/11

Há quase 23 anos, a Constituição Federal definiu que o aviso prévio a ser pago pela empresa ao trabalhador que ela está demitindo deveria ser proporcional ao tempo que ele trabalhou naquela firma -sem especificar como seria o cálculo dessa verba rescisória.
No ano seguinte, 1989, o Senado aprovou projeto regulamentando esse item da Carta. Definiu os critérios desse cálculo, e a matéria passou à Câmara, onde se manteve na gaveta por inacreditáveis 22 anos -até a quarta-feira passada.
Tendo declarado inconstitucional essa omissão do Legislativo, o Supremo Tribunal Federal estava prestes a julgar causas envolvendo o tema. Isto significaria, na prática, que o Judiciário iria legislar sobre o assunto. Diante disso, as lideranças dos partidos na Câmara tiraram o projeto de lei do limbo e o aprovaram por unanimidade.
Para entrar em vigor, a nova regra -o trabalhador tem direito a 30 dias de aviso prévio se tiver até um ano na empresa, e a mais três dias a cada ano trabalhado, até o máximo de 90 dias- só depende de sanção da presidente Dilma Rousseff.
A intenção dos legisladores parece ser a de desestimular demissões, ao encarecê-las, e desta forma estimular uma redução da rotatividade dos trabalhadores entre empresas. A medida, contudo, pode se revelar ineficaz ou até contraproducente.
É plausível que muitas empresas tenham receio de se comprometer com um grande gasto caso venham a precisar demitir parcela relevante de seus quadros. Tais empresas poderão preferir, preventivamente, elevar a rotatividade dos empregados para limitar a despesa associada a eventual dispensa coletiva.
Mas é outro o principal problema da medida. Mais do que a rotatividade do trabalho, é a informalidade que precisa ser combatida -pelo que representa de prejuízo aos trabalhadores informais, privados dos direitos e garantias reservados aos empregados formais; pela concorrência desleal a que ficam sujeitas as empresas que cumprem a legislação vis-à-vis àquelas que se mantêm à margem do fisco; e pelo prejuízo aos cofres públicos (em particular da Previdência).
As novas regras do aviso prévio, sobretudo por não virem acompanhadas por redução da contribuição patronal sobre a folha salarial (tantas vezes prometida), encarecem a contratação formal e, portanto, incentivam a informalidade.

LUIZ FERNANDO VERISSIMO - Beijos


Beijos
LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 25/09/11

Queria ser um homem moderno, mas tinha alguma dificuldade com o protocolo. Por exemplo: não sabia quem beijava. Quando via aproximar-se uma conhecida do casal, perguntava para a mulher, apreensivo, com o canto da boca: “Essa eu beijo? Essa eu beijo?”. Nunca se lembrava. 
Para simplificar, passou a beijar todas. Conhecidas ou não. Quando lhe apresentavam uma mulher, em vez de apertar sua mão, beijava-a. Dois beijos, um em cada face.
– Muito (muá) prazer (muá).
Outro problema era a quantidade de beijos. Já tinha dominado os dois beijos, estava confortável com dois beijos, quando a moda passou a ser três. Um dia, a mulher comentou:
– Não sabia que você era tão amigo da Fulana (o nome verdadeiro não é este).
– Beijo todas.
– Quantas vezes?
– Quem está contando?
Às vezes, ele partia para o terceiro beijo e a beijada não esperava. Ou então esperava e ele não dava, e quando ele voltava ela já recuara. Não havia nada mais constrangedor do que oferecer a face para o terceiro beijo (ou o quarto, quando a moda passou a ser esta) e o beijo não vir. Ficar, por assim dizer, com a cara no ar enquanto a mulher se afastava, rezando para que ninguém tivesse notado. O problema da vida, pensava ele, é que a vida não é coreografada.
Aí os homens começaram a se beijar também. Tudo bem. Seu lema passou a ser: se me beijarem, eu beijo. Mas não tomava a iniciativa. Quando chegavam numa reunião, fazia um rápido levantamento dos presentes. Essa eu beijo duas vezes, essa três, esse me beija, esse não me beija, aquele já está me beijando quatro vezes...
Na outra noite, numa 
recepção de casamento, a mulher comentou:
– Você enlouqueceu?
– Me descontrolei, pronto.
– Você beijou todo o mundo.
– Todo o mundo estava beijando todo o mundo.
– Mas beijo na boca?
– Foi só um.
– Mas logo o padre?!
Tomado por uma espécie de frenesi, depois de beijar uma fileira de conhecidos e desconhecidos, ele dobrara o padre pela cintura e o beijara longamente, como no cinema antigo. 

CLAUDIO HUMBERTO

“Nós não sabemos o que poderá acontecer em 2014”
PRESIDENTE DO PMDB, VALDIR RAUPP, SOBRE A DISPUTA COM O PT POR PREFEITURAS EM 2012

MP INVESTIGARÁ ESCÂNDALO NO GOVERNO DO CEARÁ 
O Ministério Público do Ceará abrirá inquérito para investigar uma panelinha que manda no crédito consignado no governo do Estado. A Promus, que concede empréstimos com exclusividade a 150 mil servidores, seria da família do chefe da Casa Civil de Cid Gomes, Arialdo Pinho. E a ABC, que opera o cartão único para os servidores, está registrada no mesmo endereço da Promus, em Fortaleza. 

BOLSO CHEIO 
O crédito consignado movimenta R$ 40 milhões por mês na folha do Estado. Pelo menos 19% disso vão para a conta da Promus.

CONTA DO GÁS 
A Promus está no nome de Zé do Gás, o cunhado de Arialdo Pinho, que por sua vez já foi patrão de Ciro Gomes no Beach Park, em 1994. 

TUDO EM FAMÍLIA 
Arialdo Pinho foi o coordenador das duas campanhas de Cid Gomes ao governo do Estado. O governador é padrinho de uma das filhas dele. 

SEM VOZ 
O governo faz pressão no MP para abafar o caso. O chefe da Casa Civil, procurado pela coluna, perdeu o gás. Não quis se manifestar. 

PC DO B SE ALIA ATÉ A TUCANOS PARA ELEGER MANUELA 
O Partido Comunista do Brasil quer mesmo fazer a deputada Manuela D’Ávila (RS) sua estrela nacional. Para reforçar a candidatura dela à Prefeitura de Porto Alegre, o PCdoB tem se aliado até ao capeta ou a quem consideravam como tal. Obteve a promessa do PSB de apoiar Manuela, mas teve de retribuir apoiando a reeleição de Marcio Lacerda à prefeitura de Belo Horizonte, que tem o PSDB como seu maior aliado.

ACORDÃO 
O enlace comuno-tucano, de jacaré com cobra d’água, foi abençoado por Lula há quinze dias, durante reunião em São Paulo com o PCdoB.

PAÍS ADENTRO 
Pelo poder na capital gaúcha, o PCdoB estuda mais alianças com o maior número de partidos em outras capitais.

ALDO NA CABEÇA 
O acordo PCdoB-PSB para eleger Manuela e reeleger Lacerda também pretende fazer de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) presidente da 
Câmara.

BAMBOLÊ INESQUECÍVEL 
Rivais contam com a suposta antipatia de Dilma pelo líder do PMDB, Henrique Alves (RN), candidato à presidência da Câmara. É que certa vez, bem-humorado, ele quis presentear a então chefe da Casa Civil com um bambolê para ensinar-lhe “jogo de cintura”. Ela não esquece.

LUTA PARA LIMPAR O NOME
O governo do DF ainda luta para limpar o nome: desde a era Joaquim Roriz, em 2003, foram 116 calotes em convênios de mais de R$ 100 milhões que o colocaram no Cadim, o SPC do Tesouro Nacional.

CALOTE DENUNCIADO 
Três ex-governadores são processados pelo governo do DF: Joaquim Roriz, por não prestar contas de R$ 17 milhões recebidos do governo federal, e os sucessores Maria de Lourdes Abadia e Arruda por não fazerem nada sobre isso. Condenados, ganharão nova 
inelegibilidade.

JOGO RÁPIDO 
O pessoal da comissão da Fifa que visitou Brasília sexta-feira ficou encantado com a constatação de que, saindo do estádio, chegaria ao aeroporto em dez, quinze minutos no máximo. Já no Itaquerão...

PELO RALO 
Não vazaram só pelo gramado as reformas sem-vergonhas do Maracanã. O governo gastou R$ 250,5 milhões para “modernizar” o Parque Aquático e o Maracanãzinho. Continuam feios.

VIGIAI E ORAI 
Diligente assessor elaborou o ranking dos auxiliares mais chamados por Dilma na jornada palaciana: 1) Miriam Belchior; 2) Gleisi Hoffmann 3) Giles Azevedo; 4) Helena Chagas; 5) Alexandre Padilha; 6) Ideli Salvatti; 7) Paulo Bernardo. E distante deste grupo, Gilberto Carvalho. 

SAPATADA 
O deputado Olair Francisco (PTdoB), o “rei do atacadão de calçados”, homenageou em sua casa os senadores que apoiam a abertura da Copa em Brasília. Do movimento, liderado pelo paraibano Vital do Rego Filho Filho (PMDB), não participa Cristovam Buarque (PDT-DF). 

E A COPA, HEIN? 
O Ministério Público do Rio propôs ação civil pública contra cinco ex-dirigentes da Riourbe, da prefeitura, por suposto superfaturamento de R$11,3 milhões no Parque Aquático Maria Lenk, no Pan 2007. 

PERGUNTA NO PREGÃO 
Se uma mecha de cabelo de Elvis Presley foi vendida por US$115 mil num leilão em 2002, quanto valerá fio de bigode de Sarney em 2030? 

PODER SEM PUDOR
ESPORTES FAVORITOS 
Meses depois da Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil venceu a Itália e conquistou o tetra, o então vice-governador Geraldo Alckmin e o secretário de Planejamento paulista, André Franco Montoro Filho, conversavam em Roma com Giorgio Mottura, presidente da federação das indústrias da Itália. Para ser simpático, Mottura fez uma brincadeira: 
– Os italianos têm dois esportes favoritos: futebol e sonegação fiscal. 
– E são vice nos dois! – respondeu Montoro Filho, na lata.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo:Excesso de leis urbanas estimula ilegalidade no Rio

Folha: Má gestão coloca em risco legado da Copa

Estadão: Ministério do Trabalho vira balcão do PDT

Correio: Justiça vai leiloar mansão de Durval

Jornal do Commercio: Noites de degradação

Zero Hora: Crise global encerra a lua de mel com o dólar

sábado, setembro 24, 2011

ANCELMO GOIS - GOIS NO ROCK IN RIO 1


GOIS NO ROCK IN RIO 1 
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 24/09/11

No estande do Ministério da Saúde no Rock in Rio, foram feitos 104 testes de aids ontem. Um deles deu positivo. Para ele, a festa acabou mais cedo. 

MINISTÉRIO DO PATRÃO 
Veja como o Ministério do Trabalho, de Carlos Lupi, às vezes, joga mais para a torcida do que para o time.
Deu no Diário Oficial de quinta: 1.044 multas trabalhistas aplicadas contra empresas do setor aéreo foram canceladas por falta de cobrança da pasta comandada por Sua Excelência. O ministério perdeu o prazo de cobrá-las, simplesmente.

GOIS NO ROCK... 2 
Deve ser lenda urbana. Mas uma parceira da coluna ouviu de cinco porteiros de Copacabana que o bairro está sem água há três dias porque a Cedae desviou o precioso líquido para o... Rock in Rio.

SHIMBALAIÊ NA ABL 
Marcos Vilaça, presidente da ABL, no discurso que saudou a posse do coleguinha Merval Pereira, citou um verso de uma jovem “filósofa” brasileira, a querida cantora Maria Gadú. 
É da música Tudo diferente: “Todos os caminhos trilham pra gente se ver / Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu.”
Não é fofo?

GOIS NO ROCK... 3 
A Fundação Cacique Cobra Coral pediu à prefeitura para ser credenciada para o Rock in Rio.
Não se sabe se este pessoal gosta de rock ou foi pessoalmente apenas para garantir que não haverá chuva no espetáculo.

VOVÓ FAFÁ 
Fafá de Belém, a querida cantora, foi às compras em Nova York. Rodou a meca do consumo montando o enxoval do primeiro neto, que chega no fim do ano.
Comprou até babá eletrônica na loja da Apple.

CALMA, GENTE 
Pode ter sido o calor do momento. Mais de um interlocutor diz ter ouvido de Joseph Blatter, logo após o anúncio da Lei da Copa de 2014 semana passada, que, naqueles termos, o Mundial seria levado para outro país.
O acordo Fifa/governo pode ser rompido até 2012.

SUBIU NO TELHADO 
A sondagem para Henrique Meirelles ser diretor-executivo da Copa foi dia 25 de agosto. Até agora, não houve nenhuma conversa tête-à-tête entre Ricardo Teixeira e o ex-presidente do BC.

CRAQUE SOVINA 
Quinta à noite, Preta Gil doou US$ 10 mil, no jantar anual da Brazil Foundation em Nova York, que arrecadou US$ 1,7 milhão para projetos sociais por aqui.
Presente ao evento, Ronaldo Fenômeno discursou, ofereceu autógrafos, mas botar a mão no bolso... nem pensar.

PRETINHO GOSTOSO 
O cafezinho brasileiro faz sucesso na França. Nos três primeiros dias da Top Resa 2011, badalada feira de turismo, foram distribuídas mil xícaras de café. Teve gente de todo o mundo pedindo bis. Por isso, a Embratur e a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) vão estender a ação às próximas feiras internacionais.

RUTH DE AQUINO - A paz é feminina?


A paz é feminina?
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA


Mulheres israelenses e palestinas cansaram de perder filhos e maridos. A solução depende delas
RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
Helena, Júlia, Nadine. Três mulheres a favor da tolerância religiosa e contra o absurdo da guerra. Helena Salem, judia sefardita, teve de se passar por árabe para cobrir a Guerra do Yom Kippur como jornalista, em outubro de 1973. Júlia Bacha dirigiu um documentário revelador sobre a resistência pacífica num vilarejo palestino, Budrus, que será lançado em DVD no Brasil em outubro. Nadine Labaki, libanesa cristã, ganhou no domingo passado o Festival de Toronto, com seu filme encantador numa aldeia remota onde uma mesquita e uma igreja ficam lado a lado.
“O que é ser judeu? E árabe? E judia com nome árabe? Que guerra é essa? Só pode ser assim?”, escreveu Helena Salem em seu belo livro Entre árabes e judeus, publicado em 1991. “O que faz com que me sinta tão próxima do soldado israelense como do egípcio? Será que eles não sabem que são tão parecidos? Como juntar aquela menininha que jurou nunca se casar na sinagoga com a mulher que agora assume uma identidade de árabe para poder circular livremente por Egito, Síria, Jordânia, Líbano, sem medo de ser molestada? Como ser, ao mesmo tempo, alvo de repúdio da colônia israelita e de desconfiança dos árabes? O que fazer com meus véus interiorizados de mulher judia oriental, que reconheço tão próximos dos véus que recobrem a face das mulheres árabes?”
Aos 22 anos, jornalista, Helena Salem foi conhecer o Cairo. Três dias depois, estourou a Guerra do Yom Kippur. Ela insistia em dizer que os palestinos não deveriam ser outro povo nômade, sem o chão de uma pátria. Ficava impressionada em como se sentia em casa numa mesquita no Cairo: “Mulheres em cima, homens embaixo, o canto choroso, conhecia tudo isso”. Divertia-se também em descobrir comidas parecidas: o folheado árabe semelhante à bureka, “a maior iguaria oferecida na casa de vovó Judith”.
Agnóstica, carioca, Helena teria hoje 63 anos. A injustiça da vida a levou precocemente, aos 50. Seu livro, que ela me deu num jantar em sua casa e que li de um trago só, traz muitas luzes para o que está em jogo na ONU: o reconhecimento do Estado palestino.
Mulheres israelenses e palestinas cansaram de perder filhos e maridos. A solução depende delas 
Quando a carioca Júlia Bacha, de 30 anos, foi a Israel, tinha a mesma idade de Helena no Cairo: 22 anos. Fez a assistência de direção de Encounter point, documentário que mostra como mães israelenses e palestinas se reúnem em ONGs para buscar uma saída de paz. Júlia também dirigiu Budrus, que registra como um vilarejo palestino de 1.500 habitantes resistiu pacificamente ao muro planejado por Israel. A cerca dividiria o cemitério ao meio, destruiria 3 mil oliveiras e ficaria a 40 metros da escola. Jovens ativistas israelenses e europeus aderiram ao movimento. E Israel mudou o muro de lugar depois de 55 manifestações ao longo de um ano.
“Tanto israelenses quanto palestinos vivem em sociedades machistas onde o Exército ou a luta armada acabam por valorizar os homens”, diz Júlia. “As mulheres e as mães estão cansadas de perder seus filhos e maridos. Em Budrus, a cena mais tocante acontece quando a menina Iltezan, de 15 anos, se joga no buraco feito pela escavadeira do trator e ali se senta, pequena e impassível, diante da máquina.” Iltezan arriscava a vida para defender as oliveiras. Sem jogar uma pedra, uma granada.
Na semana passada, assisti ao filme E para onde vamos agora?, de Nadine Labaki, libanesa de 37 anos. Numa aldeia, as mulheres cristãs e muçulmanas se unem para evitar novos lutos. Desligam os fios da única televisão da praça. Queimam os jornais que relatam conflitos. Escondem as armas. Contratam dançarinas ucranianas para distrair os maridos. Mas palavras ou gestos enviesados continuam a provocar brigas entre os homens. Um dia, as cristãs despertam com véus pretos e chamam seus maridos para a mesquita. E as muçulmanas acordam de vestidos leves, braços e pernas de fora, chamando os maridos para a igreja. Eles acham que todas enlouqueceram.
Não sei se a paz é feminina. Mas talvez dependa, sim, da força, da persuasão e da tolerância das mulheres. E do desejo profundo de não mais chorar por seus homens.