segunda-feira, julho 11, 2011

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - "Deslulização"" a fogo lento

"Deslulização" a fogo lento
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 11/07/11

Em semanas, Lula perdeu dois ministros na Esplanada e um amigo no Senado por ação direta de Dilma Rousseff. Pode-se argumentar que a presidente não teve escolha, que as demissões de Antonio Palocci, da Casa Civil, e de Alfredo Nascimento, dos Transportes, eram inevitáveis pelas confusões em que ambos se meteram. E que o suplente João Pedro (PT) foi um dano colateral da volta de Nascimento ao Senado.

Mas é inegável que os substitutos no ministério têm muito mais a cara de Dilma do que a de Lula. Daí ter voltado à moda a expressão "deslulização" do governo. "Boutade" ou fato?

Há muito de torcida - da imprensa, por notícia; da oposição, por intriga entre criador e criatura - na "deslulização". Uma resposta truncada da presidente em uma entrevista para uma rádio em Rondônia virou manchete: "Dilma levanta possibilidade de segundo mandato". Se foi de propósito, pior ocasião seria difícil de achar. Se foi ato falho, nem Freud poderia cravar. E apostar no erro humano nunca empobreceu ninguém.

Mas há mudanças de comportamento do Palácio do Planalto - este ente inanimado que os jornalistas gostamos de transformar em personagem para ocultar fontes (ou a ausência delas). Em vez de hostilizar a imprensa, algo comum na gestão Lula, emissários de Dilma passaram a alimentá-la. Um vazamento aqui, um recado ali, uma confirmação "off the record" acolá. É o tempero de fritar ministro.

Nada comparável ao festival gastronômico do governo Sarney, por exemplo, quando a rotatividade ministerial era comparável à das mesas do McDonald"s. Mas que o ministro Nascimento saiu dos Transportes chiando como toucinho na chapa, isso saiu. Sua imagem pública lembra a do ditador do Iêmen, Ali Abullah Saleh, pós-bombardeio.

Tentadora, a fritura deve ser consumida com moderação. Pode saturar a base aliada com rapidez. Dilma parece apostar no efeito pedagógico do óleo fervente. Quem não se comportar direito ou, mais imprudente, desobedecer a chefe está sujeito à frigideira. É um jeito de lidar com a fome insaciável dos aliados do governo no Congresso muito diferente do que o apaziguador Lula costumava empregar.

Que o diga Gilberto Carvalho, principal herança palaciana deixada pelo ex-presidente. O noticiário descreve o secretário-geral da Presidência como um bombeiro tentando baixar a chama das várias bocas do fogão industrial que Dilma e a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) andam acendendo.

Segundo relato da repórter Tânia Monteiro, no Estado, Carvalho irritou Dilma por transmutar em "férias" a demissão do diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), Luiz Antônio Pagot, no auge da crise no Ministério dos Transportes. Acabou tendo que engolir a própria alquimia.

Cada um cozinha com os ingredientes que tem à mão, e o estilo de Dilma e suas "sous-chefs" é muito mais quente do que o de Lula. Mas fritar sem se queimar não é tão fácil quanto parece.

É o suficiente para falar em "deslulização"? Não como sinônimo de rompimento iminente. Sim no sentido de Dilma encontrar caminho e equipe próprios, que funcionem (ou tentem funcionar) além da sombra de Lula. O distanciamento é o processo natural, até esperado, entre sucessor e sucedido.

Só o titular da cadeira presidencial sabe o tamanho dos problemas, conhece todas as circunstâncias, tem a caneta para tomar as decisões e a responsabilidade de arcar com as consequências. É a tal solidão do poder. Quem palpita de fora, mesmo com oito anos de experiência, não precisa assumir o compromisso de seguir os próprios conselhos. No popular, falar é fácil, difícil é fazer.

Em contrapeso, Dilma está longe de fixar uma imagem própria e independente de Lula. Sua popularidade é inercial e hereditária. Os picos que galgou foram circunstanciais, empurrada, por exemplo, pelos elogios do presidente norte-americano, Barack Obama. O caminho imediato à frente promete muitos solavancos econômicos. Nada que incentive um voo solo.

Se esse balanço vai evoluir para uma separação entre Dilma e Lula, como tantos exemplos históricos sugerem, não há como prever sem travestir-se de pitonisa. E o carnaval ainda está longe.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - Com o dinheiro do governo

Com o dinheiro do governo
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O ESTADÃO - 11/07/11
O governo, qualquer um, não é bom administrador de imóveis. Há quanto tempo se ouve falar que o governo federal vai "otimizar" o uso de suas propriedades urbanas? E até agora não se sabe bem quantas são, quanto valem e para que servem.

Até se compreende que seja uma tarefa complicada, para os burocratas de Brasília, localizar e avaliar um terreno no interior de Rondônia. No caso de uma prefeitura, mesmo grande como a de São Paulo, o negócio, em tese, fica mais fácil. Os imóveis estão aí mesmo, à vista de todos, em mercados imobiliários bem desenvolvidos. Mesmo assim, é enorme a relação de propriedades municipais que estão abandonadas, mal utilizadas e/ou ocupadas por entidades privadas de qualquer natureza.

Um bom exemplo é o Estádio do Pacaembu em São Paulo. Custa dinheiro para a Prefeitura, a começar por uma folha de salários inchada. Há anos, políticos de todas as tendências conseguem acomodar correligionários ali. O que poderia ser um moderno e lucrativo centro de eventos permanece com um estádio velho (não conseguem nem reformá-lo nem preservá-lo efetivamente), mal utilizado e, de certo modo, apropriado por interesses privados - de times e suas torcidas até pessoas da região que o usam como se fosse um clube particular.

E nem se cogitou de utilizar o Pacaembu na Copa do Mundo de 2014. Claro, do jeito que ele está, não presta nem para clássicos locais. Mas, convenhamos, se haverá algo como R$ 750 milhões em dinheiro público para financiar o Itaquerão do Corinthians, não haveria alguns trocados para dar um jeito no Pacaembu e no seu entorno?

A propósito, para continuar em Copa do Mundo, se o Pacaembu fosse considerado um caso perdido para esse evento global, esse mesmo dinheiro público poderia ter aplicação melhor no estádio do São Paulo F.C. De novo, do jeito que está, não serve. Mas a reforma e as obras no entorno sairiam mais baratas do que todo o conjunto do Itaquerão.

Também haveria, ali, no Morumbi, um bom efeito de revitalização urbana, numa região já densa e carente de equipamentos e meios de transporte.

Ou seja, há bons argumentos para o apoio público ao Itaquerão, como comentamos aqui, na coluna da semana passada, Comprando com o dinheiro público (também pode ser lida em www.sardenberg.com.br, item Política Econômica). Mas a questão é o teor e o modo como foi tomada a decisão pelo estádio do Corinthians.

Também tratamos desse tema na coluna da semana passada, mas, aparentemente, de modo incompleto, dadas as observações de leitores. Por isso, voltamos ao assunto.

Que a CBF e a Fifa tivessem razões políticas para desqualificar o estádio do São Paulo, por divergências entre dirigentes, poderia ser antieconômico e antiético, mas um problema lá, deles. Desde que não envolvesse dinheiro público.

Ora, a decisão pelo Itaquerão teve clara motivação política, a começar pelo empenho do ex-presidente Lula e a concluir pelo esforço atual do prefeito Gilberto Kassab. A coisa só para de pé com financiamento público, mas a preocupação técnica e com o planejamento urbano ficou em último lugar, se é que apareceu.

A região, zona leste, merece incentivos para se desenvolver? Certamente, mas outras áreas da cidade também merecem. Qual a sequência de prioridades? Além disso, um estádio é o melhor meio de estimular? Fábricas não gerariam mais empregos? Conjuntos habitacionais? Um amplo centro educacional, com diversas escolas? Centros hospitalares?

Se um clube quer construir o seu estádio, problema dele e de seus associados. Mas, se esse clube vai fazer isso com financiamento público e incentivos fiscais da Prefeitura, o problema muda de nível. Por exemplo: quantos estádios cabem na cidade de São Paulo?

Cálculos dizem que um estádio de tamanho médio para grande, como esses de que falamos, só é rentável com 50 bons eventos por ano (jogos de futebol importantes ou espetáculos como um show da Madonna). Considerando o Pacaembu, o Morumbi, o Itaquerão e a arena do Palmeiras, além do Anhembi, seriam 250 grandes espetáculos ao ano. Tem isso?

É claro que, se o empreendimento for totalmente privado, o caso não é do governo. O São Paulo e o Palmeiras que se virem com suas arenas. Mas, se o governo vai emprestar dinheiro ou dar incentivo, essa preocupação é necessária. Se o estádio apoiado pelo governo não realizar esses grandes eventos na quantidade esperada, o empreendimento não terá rentabilidade para pagar a tempo o empréstimo tomado no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Nem gerará os negócios que "paguem" os incentivos fiscais dados pela Prefeitura.

Na verdade, esse é o risco que o setor público e, portanto, o contribuinte estão assumindo para os estádios da Copa. A maior parte deles não será rentável o suficiente para devolver o dinheiro público ali aplicado. E a conta fica para o contribuinte, claro. Ou alguém imagina que o BNDES ou a Prefeitura de São Paulo poderiam, por exemplo, confiscar o estádio do Corinthians, em caso de inadimplência?

Os políticos e dirigentes esportivos certamente estão levando isso em conta. Não pagar o que se deve ao governo não é propriamente uma novidade para esse pessoal.

Para falar francamente, suspeito que só ficarão de pé - economicamente falando - os estádios que forem de algum modo privatizados, com a construção e, sobretudo, a operação do negócio por companhias de mercado.

Voltaremos ao assunto dos terrenos municipais.

MARCELO DE PAIVA ABREU - Depois da bonança, a borrasca?

 Depois da bonança, a borrasca?
MARCELO DE PAIVA ABREU
O ESTADÃO - 11/07/11
A comemoração do aniversário de 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, o lançamento do livro de Miriam Leitão Saga brasileira. A longa luta de um povo por sua moeda (Rio de Janeiro, Record, 2011) e a morte de Itamar Franco reavivaram a memória coletiva quanto às mazelas da inflação e à crucial importância do sucesso do Plano Real para a história brasileira.

A percepção de alguns dos benefícios da estabilização demorou a amadurecer, mas, com grande atraso, está ocorrendo o reconhecimento de que o Plano Real foi o ingrediente principal no reerguimento econômico do Brasil, após quase um quarto de século de estagnação a partir do início da década de 1980. A saudação madura e civilizada da presidente da República a FHC, por ocasião de seu aniversário, reconhece esse fato.

É marcante o contraste entre Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. No caso deste, a síndrome do "nunca antes neste país" dificulta o reconhecimento de méritos de outros. E, no entanto, a competência de FHC no Ministério da Fazenda, ao criar as condições necessárias para o sucesso do Plano Real, foi crucial para que Lula tivesse sucesso na Presidência em 2003-2008.

O contrafactual em relação à escolha de Fernando Henrique por Itamar Franco é claro. Se Itamar não tivesse "acertado a mão" com FHC, depois de três tentativas frustradas, não teríamos o Plano Real. Sem o Plano Real, em meio à inflação galopante e com boa parte do eleitorado vacinada contra caçadores de marajás, é bem provável que Lula tivesse sucesso na eleição de 1994. Ainda antes de tomar posse, teria enfrentado a pororoca mexicana do final de 1994 e as ideias econômicas estapafúrdias do Partido dos Trabalhadores não teriam sido ajustadas tendo como referência as políticas macroeconômicas adotadas por Fernando Henrique entre 1993 e 2002, como ocorreu em 2003.

No terreno econômico, a coalizão lulista sempre mostrou grande propensão a dar continuidade a políticas herdadas e gritante fraqueza na concepção de novos planos de jogo. Vitoriosa em 1994, não teria de quem copiar. E alguém acredita que teria sido possível uma Carta ao Povo Brasileiro em 1994? É difícil imaginar que o governo de Lula 1995-1999 pudesse ter sido um sucesso. Sua reeleição seria improvável.

A combinação de estabilização, reformas estruturais - mesmo que incompletas -, políticas de redistribuição de renda, descobertas minerais importantes e crescimento espetacular da economia chinesa levou ao restabelecimento da credibilidade do Brasil. Se no passado era o fracasso que nos rondava, o que preocupa agora são os exageros atrelados a um sucesso que, em grande medida, ainda está no futuro e pode ser bastante avariado por políticas públicas equivocadas.

Os fatos. O Brasil é, em termos de desempenho econômico, um carona destoante entre os Brics. A taxa média de crescimento do PIB per capita entre 2002 e 2009 é medíocre, a menor do grupo: 2,2% ao ano, comparada aos 2,4% da África do Sul, 5,2% da Rússia, 6,3% da Índia e 10,1% da China. A inclusão do ano de 2010 resultaria no deslocamento por margem mínima da África do Sul, com o Brasil abandonando a lanterna do grupo. Em termos de formação bruta de capital fixo (FBKF), a relação FBKF/PIB no Brasil nunca excedeu 19,1% nem mostra sinais de aumento, em contraste com os outros integrantes do Brics. A relação FBKF/PIB na Rússia e na África do Sul está na casa de 21%-22%, enquanto na Índia excede os 30%-32% e na China alcança 45%. O único conforto que o Brasil pode encontrar é na comparação com outras grandes economias latino-americanas, como o México, cujo crescimento do PIB per capita em 2002-2009 foi de 0,5% ao ano.

Um clima colorido por alta dose de otimismo afeta analistas brasileiros e internacionais. O relatório de força-tarefa montada pelo Council on Foreign Relations intitulado Global Brazil and US-Brazil Relations, a ser publicado esta semana, é um bom exemplo. Marca clara inflexão na posição do "establishment" norte-americano quanto ao Brasil. Mas, em meio a propostas construtivas, visando a incentivar o governo dos EUA a acomodar as posições independentes da diplomacia brasileira e a restringir o próprio protecionismo agrícola, há menções ao "forte crescimento econômico" do País e à "continuidade do programa econômico ortodoxo" que não parecem muito atualizadas.

De fato, tanto a possibilidade de assegurar trajetória sustentada de crescimento econômico futuro bem acima do que se registrou no passado quanto a manutenção de políticas macroeconômicas prudentes parecem hoje pressuposições infundadas. Mas aqui e ali já se vislumbram reservas sobre o futuro milagre brasileiro: reticências quanto à bolha imobiliária, aos perigos da expansão indevida de crédito, à imprudência fiscal persistente e à vulnerabilidade externa.

As dúvidas são pertinentes, pois não há indício de que o governo esteja disposto a usar a oportunidade criada pelos ventos favoráveis para se preparar para enfrentar futuras borrascas. No cenário ideal, estaríamos em meio a reformas estruturais adicionais, e não imersos na elucidação de falcatruas totalmente previsíveis.

GOSTOSA

RICARDO NOBLAT - Reféns de Pagot

Reféns de Pagot 
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 11/07/11

Quem tem medo de Luiz Antonio Pagot, diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) do Ministério dos Transportes, que a presidente Dilma Rousseff tentou afastar do cargo? Pagot bateu o pé e não se afastou. A Casa Civil da Presidência da República achou melhor autorizá-lo a entrar de férias. O Congresso ouvirá Pagot esta semana.

O coração do governo bate acelerado. Pagot fazia parte do bando dos quatro auxiliares do ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento desalojados dos seus postos por suspeita de envolvimento com irregularidades — licitações fraudulentas, contratos superfaturados, enriquecimento ilícito e cobrança de comissão para o PR. 

Os outros três membros do bando acataram a decisão de Dilma. Pagot, não — desafiou Dilma e venceu por ora. Voou para Cuiabá, onde tem casa. E ameaça jogar titica no ventilador. É o que assombra Dilma, Lula, a quem Pagot deve o cargo, ministros e o PT, dono de uma das diretorias do Dnit. 

Bem feito! Quem mandou nomear um sujeito como Pagot para administrar um dos maiores orçamentos da República? O Dnit tem para gastar R$ 17 bilhões somente este ano. Pagot foi parar no Dnit em 2007 a pedido de Blairo Maggi, na época governador de Mato Grosso, de quem foi sócio e a quem serviu como secretário de estado. 

Na ocasião, o Ministério Público do Mato Grosso investigava um negócio suspeito feito entre Pagot, quando era secretário de Infraestrutura, e Moacir Pires, secretário de Meio Ambiente. Empresa de Pires ganhou licitações na secretaria de Pagot. Dois anos antes, Pires havia sido preso pela Polícia Federal e denunciado por extração ilegal de madeira. 

O negócio suspeito: 
Pagot admitiu à Justiça ter morado de graça durante 22 meses em um apartamento de Pires. Disse que levou quase três anos para comprar o apartamento a prestações. E que pagou por ele R$ 205 mil com dinheiro que guardava em casa. E que entregou o dinheiro em mãos de Pires. E, por fim, que não tinha recibo da transação. 

Quer mais?
 Entre abril de 1995 e junho de 2002, Pagot servira no Senado como secretário do senador Jonas Pinheiro (DEM-MT). No mesmo período era acionista e diretor da Hermasa Navegação da Amazônia, empresa do grupo empresarial de Blairo, com sede em Itacoatiara, a 240 quilômetros de Manaus. 

Além de carecer do dom da ubiquidade para estar ao mesmo tempo em Itacoatiara e em Brasília, separadas por 3.490 quilômetros, Pagot não poderia acumular a função de servidor do Senado com a de sócio de uma empresa privada, segundo a lei 8.112 que “dispõe
sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União.” 

Crime de falsidade ideológica ocorre quando se omite “em documento público ou particular declaração que dele devia constar”. Para trabalhar no Senado, Pagot omitiu que era sócio e trabalhava para Blairo. Quando precisou da aprovação do Senado para assumir o Dnit, omitiu no seu currículo que fora servidor do Senado. 

Lula desconhecia o passado de Pagot quando o nomeou para o Dnit? E Dilma quando o manteve ali? Antes de o Senado aprovar a
nomeação, o passado de Pagot foi dissecado pelo senador Mário Couto (PSDBPA) em inflamados discursos. Lula, antes, e Dilma, depois, queriam, sim, agradar a Blairo, que doou dinheiro para suas campanhas. 

Como chefe da Casa Civil, Dilma monitorou de perto os ministérios com maior número de obras do Programa de Aceleração do Crescimento — e o dos Transportes era um deles. Escapoulhe o que se passava por lá? Só acordou quando soube que a Polícia Federal colecionava provas da bandalheira e estava perto de agir? 

Pagot avisou aos interessados que muitos contratos foram superfaturados para ajudar a pagar despesas da campanha de Dilma. Por sua vez, Dilma mandou dizer ao PR que o Ministério dos Transportes continuará sob o controle do PR. E despachou emissários para acalmar Pagot. Triste começo de governo. Mas coerente
com o anterior.

MÔNICA BERGAMO - PUXADINHO JUNINO

PUXADINHO JUNINO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 11/07/11

Depois de meses de relativa estabilidade, a venda de cimento no mercado interno voltou a subir. Registrou alta de 11,5% em junho, em relação ao mesmo mês do ano passado. Foram comercializadas 61,312 milhões de toneladas. O salto foi de 4,4% quando os dados são comparados aos do mês de maio.

HORIZONTAL

A venda de cimento serve de termômetro para medir a atividade na construção civil, tanto de pequenas reformas, o chamado cliente "formiguinha", quanto de grandes obras. Em junho, a alta foi puxada pela região Centro-Oeste (15,4%), seguida do Sudeste (12,7%).

OSSO DURO

Os banqueiros do BTG Pactual se espantaram com a reação de Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, que desembarcou no Brasil assessorado por grandes advogados e acusando Abilio Diniz de tentar expropriar os franceses ao propor a fusão com o Carrefour. O banco atua na proposta. E imaginava que Naouri até reclamaria - mas num tom bem abaixo.

FAMA

Larry Rother, jornalista do "New York Times", entrevistou Rafinha Bastos, do "CQC", para um perfil. O humorista teve seu Twitter eleito como o mais influente do mundo segundo pesquisa do jornal americano.

PASSE LIVRE

O fotógrafo e cineasta Mikael Colville-Andersen, criador do movimento Cycle Chic, que estimula as pessoas a pedalar com roupas comuns, passou por maus bocados ao desembarcar em SP, na sexta. Cidadão canadense e convidado para um fórum da Semana do Ciclista, ele chegou ao Brasil às 7h, sem visto, e foi retido em Cumbica. Só saiu às 18h, depois que o movimento Libvee, o Sesc e a prefeitura, que o convidaram, acionaram o Itamaraty para liberá-lo.

FROM BRAZIL
Numa palestra na Wharton Business School, na Pensilvânia (EUA), Caco Pires, da Camargo Corrêa, disse à plateia de estudantes e professores que os problemas de infraestrutura no Brasil representam, também, oportunidade de grandes negócios. E afirmou que o país vai investir US$ 1 trilhão nos próximos anos -US$ 300 bilhões apenas em grandes obras.

MAIOR E MELHOR

Suzy Rêgo, que começou a trabalhar como modelo aos 13 anos, volta ao ofício 30 anos depois. Vai desfilar na Fashion Weekend Plus Size, evento de moda para gordinhas. "Não é a forma que eu gosto de ter, de forma alguma, mas só posso estar muito grata", diz. "O peso hoje me ajuda a conseguir trabalho e pagar as contas."

PARA A BOLA

O ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., cancelou a entrevista que daria ao programa "Roda-Viva" de hoje. Alegou problema de agenda.

PÓS-ESCRITO

Estiveram pelas ruas de Paraty nos últimos dias de Flip personalidades como o cineasta João Moreira Salles, o jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima, a escritora Giovanna Vilela e os arquitetos Bel Lobo e Bob Neri.

ROUPA DE FESTA

O empresário Sergio Kamalakian, da marca Sergio K., fez festa de aniversário, com direito a atendentes seminuas servindo drinques. Bia Parente e Marina Ratton foram à balada, em casa do Jardim Europa.

CURTO - CIRCUITO
A missa de sétimo dia de Mário Chamie será hoje, às 19h, na Catedral Metropolitana Ortodoxa, no Paraíso.

A Escola São Paulo terá curso de formação em fotografia de 8 de agosto a 7 de dezembro.

A Secretaria Municipal de Habitação lança hoje, às 19h, a revista "Renova SP", no Instituto Tomie Ohtake.

Magic Paula e Sócrates
participam do projeto Memória do Esporte Olímpico Brasileiro, que será lançado hoje às 15h na Cinemateca de SP.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

CU SEM TAMPA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Bahia atrai multinacionais e vira polo de produção de energia eólica
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 11/07/11
Multinacionais da área de energia eólica têm desembarcado atrás dos bons ventos baianos e de incentivos para desenvolver a cadeia produtiva do setor.
A GE (General Electric) negocia a instalação de uma fábrica na Bahia.
"A GE está se preparando para ter uma nova planta de eólica no país e há uma grande tendência de que ela seja construída no Estado", afirma o diretor-executivo da Associação Brasileira de Energia Eólica, Pedro Perrelli.
A empresa chegou a agendar reunião no dia 14 deste mês com o governador Jaques Wagner (PT) para bater o martelo na decisão de investir cerca de R$ 50 milhões, mas cancelou o encontro.
A companhia nega que esteja em "negociação concreta para construção de nova fábrica", mas afirma "observar atentamente as oportunidades para a expansão de seus negócios no Brasil".
A espanhola Gamesa inaugurou na sexta-feira passada suas instalações no Estado, enquanto a francesa Alstom estreia até o final deste ano uma planta para fazer turbinas eólicas na Bahia.
Segundo a secretaria baiana da Indústria, Comércio e Mineração, cinco empresas do setor negociam a instalação de unidades no Estado.
Com 18 projetos contratados em 2009 e 16 em 2010, a Bahia vai oferecer uma potência de 977,7 MW já nos próximos anos. Foram cadastrados mais de 2.000 MW para este ano.
"As empresas querem produzir equipamentos perto de onde se vai gerar energia eólica. Daí o interesse na Bahia, que é o maior PIB da região Nordeste", diz o secretário James Correia.

Previdência privada é opção para atrair profissionais
Com a escassez de mão de obra qualificada, cresce o número de empresas brasileiras que criam fundos de previdência privada para atrair e manter profissionais.
Hoje, 70% das companhias brasileiras com faturamento superior a R$ 600 milhões já oferecem essa possibilidade, segundo a Brasilprev.
"A alternativa é interessante para reter profissionais de qualidade", diz o presidente da Bradesco Vida e Previdência, Lúcio Flávio de Oliveira.
Qualquer companhia pode procurar uma seguradora para ter um plano de previdência complementar, mesmo as que não têm fins lucrativos.
Não há restrições quanto ao valor do salário para que o profissional faça parte do plano. Algumas seguradoras, como a Porto Seguro, exigem apenas que o tíquete mensal seja de, pelo menos, R$ 50.
"As empresas também saem ganhando, pois não têm custos tributários", diz o professor do Insper Régis Braga. Nos salários, os impostos são de R$ 0,80 para cada R$ 1 pago, segundo Braga.

BANDEIRA SUÍÇA
A suíça Zellux, de serviços financeiros, começa a operar no Brasil e negocia com quatro bancos o desenvolvimento de cartões de crédito, débito e benefícios.
"O nosso nicho de mercado são bancos e empresas de varejo que ainda não possuem uma bandeira de cartão de pagamento", diz Walter Queiroz, diretor-geral da Parsec, empresa brasileira licenciada pela Zellux para a emissão dos cartões.
A empresa vai oferecer aos bancos participação no faturamento das operações efetuadas com o cartão, de acordo com Queiroz.
A companhia já fechou contratos com as redes de supermercados Bergamais e Nagumo e com a Cesta Nobre, de cestas básicas.
"Grande parte da população brasileira não tem acesso a cartões de crédito. Só essa fatia de mercado que não é atendida por nenhuma empresa atualmente já é atraente para nós."
Fundada em 2005 na Suíça, a Zellux atua em 12 países, na Europa, no Oriente Médio e nas Américas.

EFEITO LIMITADO
As recentes medidas do governo para tentar restringir a entrada de moeda estrangeira tiveram pouco efeito, segundo a Tendências Consultoria. A redução das entradas de capital pode ter sido só reflexo de uma antecipação no primeiro trimestre. Havia expectativa de colocação de barreiras no curto prazo, o que pode ter incentivado investidores a antecipar remessas ao país e levado à queda nas entradas. "Agora, com o dólar baixo, o governo voltou a cogitar medidas, mas não vemos grandes opções", diz o economista Silvio Campos Neto. "Soluções drásticas podem prejudicar a imagem do país." RECEITA MÉDICA
As indústrias farmacêuticas investem em medicamentos indicados às doenças do sistema nervoso central para o mercado brasileiro.
A Sandoz, fabricante de genéricos do grupo suíço Novartis, acaba de lançar o cloridrato de donepezila e o fumarato de quetiapina, indicados, respectivamente, para o tratamento de pacientes com doença de Alzheimer e de esquizofrenia e bipolaridade.
Em abril, já havia lançado o ziledon (para Alzheimer).
O portfólio desses medicamentos passa a representar 16% das vendas da empresa em 2011, ante 8% em 2010.
A EMS também lançou neste ano os genéricos do fumarato de quetiapina e do olanzapina (esquizofrenia), além de dois similares.
A companhia prepara mais dois lançamentos para este ano. A receita acumulada em 2011 da EMS nesse segmento é de R$ 23,5 milhões.

Peso... 
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas colocou emfuncionamentoaFiber PlacementMachine, uma máquina para fabricação precisa de peças leves para a indústria aeronáutica, automotiva, naval e de energia.

...leve 
A máquina, de R$ 5 milhões, foi instalada em São José dos Campos (SP), onde o IPT terá um novo laboratório até 2012, com investimento de cerca de R$ 90 milhões, para concretizar materiais leves para a indústria nacional.

Residencial 

A incorporadora Lindencorp investiu R$ 11 milhões em seu novo empreendimento, na Vila Mariana. O VGV (Valor Geral de Vendas) da obra, que possui cem apartamentos de até 74 metros quadrados, é de R$ 62 milhões.

VIZINHANÇA

O número de ações de cobrança por falta de pagamento da taxa de condomínios registrou queda de 15,5% em junho, de acordo com levantamento do Secovi-SP (Sindicato da Habitação).
Foram ajuizadas 778 ações no mês, ante 921 casos em maio. Na comparação com junho de 2010, a queda é de 6%.
No primeiro semestre, o total acumulado foi o mais baixo desde 2006.
A procura por acordos extrajudiciais, que envolvem negociações e pagamentos parcelados, contribui para o resultado, segundo Hubert Gebara, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

VINICIUS MOTA - Um certo mal-estar

Um certo mal-estar
VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 11/07/11
SÃO PAULO - Aos seis meses, o governo Rousseff afeta senilidade precoce. Comporta-se como administração envelhecida e desgastada em práticas, quadros e ideias.
No nono ano da coalizão lulista, a reposição de peças nos ministérios é uma agonia. Palocci, convocado do mundo das sombras, para lá voltou depressa. A pasta dos Transportes é do PR, mas não surge quem, com garantia mínima de durabilidade, possa assumi-la.
O Código Florestal, a extinção de verbas represadas de congressistas, as licitações sigilosas, a negociação de royalties com governadores, a ajuda ao Pão de Açúcar, onde o governo põe a mão, a coisa emperra. Sai a tempo a privatização, decidida sobre as coxas, de aeroportos? A que preço?
A situação geral não é de crise; está mais para a letargia, a modorra, a saturação. Por coincidência, combina-se com a sensação de mal-estar que avança na economia, induzida pelo embotamento das expectativas sobre EUA e Europa.
A digestão de uma dívida gigantesca no mundo rico vai longe. Prolonga-se, com isso, o artifício dos americanos de baratear ao limite a sua moeda. As economias emergentes, entretanto, não aguentam mais sustentar níveis razoáveis de alta no consumo global. A China registra a inflação mais elevada em três anos; o Brasil, em seis anos.
Por aqui, o aluvião de dólares entorpece e desorienta agentes públicos e privados. Favorece opções de risco no câmbio e atiça o crédito, que o governo tenta frear. Aumenta o dano potencial de um mergulho súbito no preço das exportações. A alta frenética dessas mercadorias, extraídas do campo e das minas, determinou o sucesso econômico e eleitoral do consórcio lulista.
Aqui, como lá fora, vive-se um momento de postergar definições, de colocar esparadrapos nas feridas mais evidentes. Mas já provoca incômodo essa longa travessia de um oceano que, sem ser tempestuoso, tampouco oferece calmaria.

GOSTOSA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Frente ampla
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 11/07/11

Ficou claro na reunião da Executiva do final de junho que o PT se prepara para, no encontro de agosto do Diretório Nacional, no Rio, aprovar resolução vetando coligações nas eleições de 2012 apenas com DEM, PSDB e PPS -ou seja, liberando a união com o nascituro PSD de Gilberto Kassab em todo o país.
Coube ao presidente da legenda, Rui Falcão, pregar na reunião "cautela" aos Estados. Citou o episódio de São Paulo, onde por pouco o diretório não aprovou veto a alianças com o partido de Kassab. "A gente será muito cauteloso nas formulações de restrição para não criar problema onde não existe", diz Falcão.

Diretriz 
Reforça o secretário nacional de Comunicação do partido, André Vargas: "O PSD tem que ser tratado como potencial aliado".

Calcanhar 
Petistas consideram preocupante a situação da legenda nas grandes cidades do Nordeste. O partido demonstra especial receio com Recife e Fortaleza, capitais que comanda hoje.

Prioridade 

Por ora, o PT está dividido em outro ponto relativo à política de alianças: uma ala defende reeditar o ocorrido em 2010, alçando o PMDB à categoria de "aliado prioritário", enquanto outras argumentam que isso traria encrenca com as demais siglas governistas.

Mão do gato 1 
Por força de acordo com Michel Temer, o presidente do PSB, Eduardo Campos, não se mexeu, mas o dirigente paulista, Márcio França, está empenhado em tomar o mandato do deputado Gabriel Chalita, que foi para o PMDB.

Mão do gato 2
Foi França, também secretário estadual de Turismo, quem orientou Marco Ubiali, suplente já acomodado na Câmara, a entrar na Justiça contra Chalita. A liminar foi indeferida. O caso vai ao STJ.

Consórcio 
Antes de convencer Ubiali, França tentara, sem sucesso, recrutar para a missão o primeiro suplente do PSB, Marcelinho Carioca. Para estimulá-lo, acenou com a possibilidade de abrigar aliados do ex-jogador na Secretaria de Turismo e também na Prefeitura de SP -onde manda Gilberto Kassab, que não pode nem ouvir falar na candidatura de Chalita à sua sucessão.

Do fundo...

Exonerado sob suspeita de integrar esquema nos Transportes, o ex-chefe de gabinete do Ministério Mauro Barbosa foi elogiado em 2005, em sabatina no Senado. "Ele tem apoio do governo passado, do presente e, com certeza, terá do futuro", disse, à época, o presidente da CCJ, Heráclito Fortes (PI).

...do baú 
Barbosa, indicado ao Dnit na ocasião, agradeceu assim os elogios: "Aproveito a oportunidade para registrar meu sincero agradecimento ao ministro dos Transportes Alfredo Nascimento (...) que, segundo minha visão, é um homem sereno, muito equilibrado".

Dinastia
Na quinta-feira, um dia depois da queda do ministro dos Transportes, crise que consumiu a agenda de Ideli Salvatti, a ministra das Relações Institucionais se submeteu a sessão com o acupunturista de Lula e Dilma, Gu Hanghu.

No escuro 
Apesar do eventual interesse do PMDB no espólio dos Transportes, Michel Temer não participa nem é informado das negociações entre Planalto e PR para a sucessão na pasta.

Padrinho 
Valdemar Costa Neto (PR-SP), agora na berlinda, indicou Tiago Lima à Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).
com FÁBIO ZAMBELI e ANDREZA MATAIS

tiroteio


"Não há Correio no mundo que seja capaz de entregar essa mercadoria prometida por Dilma na campanha eleitoral."
DO SENADOR ALOYSIO NUNES (PSDB-SP), sobre a perspectiva de ingresso dos Correios na construção do Trem-Bala entre Rio de Janeiro e Campinas, cujo leilão, marcado para hoje, corre risco de novo adiamento.

contraponto

Fome zero

Em churrasco promovido na semana passada pelo deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, um dos pontos altos do menu era um suculento leitão no rolete. Chamado a discursar, o ministro Garibaldi Alves Filho (Previdência) hesitou, mas disse umas poucas palavras sobre o fator previdenciário, em que não anunciou nada de novo.
Encerrando sua breve fala, foi direto ao ponto:
-É que na verdade, eu não vim aqui para falar. Eu vim aqui para comer o porco!

IGOR GIELOW - Zona de turbulência

Zona de turbulência
IGOR GIELOW
FOLHA DE SP - 11/07/11
BRASÍLIA - Com um pífio semestre nas costas, o governo Dilma desliza sobre o fio da navalha. A operação que defenestrou um grupo do PR da chefia do Ministério dos Transportes, vendida aos quatro ventos pelo Planalto como um marco civilizatório, aproxima-se perigosamente de um conflito aberto.
O governo tenta apaziguar Luiz Antonio Pagot, afastado do Dnit, órgão que praticamente rima com negócios suspeitos.
Pagot prometeu só falar amanhã no Congresso, mas vem dando um recado mais ameaçador que o outro ao governo. O PR, que não é bobo, o estimula e aproveita os 15 minutos de fama -é óbvio que nunca deixará de ser governista.
O que Dilma fez? Convidou o padrinho de Pagot, Blairo Maggi, para ser ministro. Ele não aceita, e agora o PR e Planalto ganham tempo. Mas a presidente parece não querer repetir seu mentor, Lula, que enfrentou o mensalão após deixar na chuva Roberto Jefferson.
Declarações de Pagot sugerindo atos pouco republicanos do ministro Paulo Bernardo, atingindo por osmose sua mulher, Gleise Hoffmann (Casa Civil), gelaram espinhas. Sem juízo de valor, vale o óbvio: apesar de "outsider", Dilma não surgiu do nada.
É comovente ver o Planalto vendendo a versão de que agora ela vai falar grosso, que os aliados feiosos (que nunca são do PT ou do PMDB) devem parar de roubar e que a herança maldita de Lula será extirpada, como se Dilma não estivesse no mesmo barco desde 2003.
Assim, fogo amigo ou voluntarismo amador podem explicar a enumeração de novos alvos para a faxina. São opções ruins para Dilma, que periga ver seu governo virar um pequeno Afeganistão, dividido entre facções rivais e armadas.
Há um cheiro de descontrole político no ar. Caixas-pretas podem ser abertas indiscriminadamente, o que será excelente notícia para o país. E péssima para o governo.

CONFIANÇA NA JUSTIÇA

AÉCIO NEVES - O resgate de Itamar

O resgate de Itamar
AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 11/07/11
Inicialmente, registro a minha satisfação em participar, a partir de hoje, semanalmente, deste fórum de debates, marcado pela independência e pela pluralidade de ideias acerca das grandes questões do nosso tempo.
Confesso que havia me preparado para abordar, neste artigo inaugural, um outro tema da agenda nacional. No entanto, colhido pela dolorosa perda de Itamar Franco, impus-me uma natural revisão.
Escrevo ainda impactado pela despedida do amigo fraterno e pelas emocionantes demonstrações de respeito e justo reconhecimento feitas a ele em seu funeral em Minas.
Nesses dias tristes, quase tudo se disse sobre o ex-presidente. Lembramos a sua personalidade única, a retidão do caráter, a coragem política, a sua integridade e a sua intransigência quanto aos valores éticos e morais, e o papel central que desempenhou à frente da Presidência da República.
Tudo isso é verdadeiro. Mas a verdade não se resume a isso. Precisamos reconhecer a legitimidade da mágoa que Itamar carregou consigo durante muito tempo, fruto das incompreensões e da falta de reconhecimento à sua contribuição ao país.
Se há no Brasil quem diga que, depois de morto, todo mundo vira santo, acredito que os elogios com que Itamar foi coberto após a sua morte não tinham a intenção de "absolvê-lo" ou, muito menos, de santificá-lo aos olhos da opinião pública, mas sim de nos redimir dos pecados da ingratidão e da injustiça com que tantos de nós o tratamos, durante tanto tempo.
Nesse sentido, os mineiros prestaram a Itamar, sem saber que seria a última, uma belíssima homenagem. Ao conduzi-lo de volta ao Senado, retiraram-no do ostracismo, encheram de brilho e orgulho o seu olhar e permitiram que o Brasil se reencontrasse com o ex-presidente. Permitiram também ao grande brasileiro se reencontrar com o seu país.
Durante esses poucos meses, ele caminhou com altivez sobre o chão do Parlamento, o qual considerava sagrado.
Seus passos foram guiados pelo sentimento de urgência que move os que, verdadeiramente comprometidos com o país, sabem que os homens podem, às vezes, esperar. Mas a pátria, não. Sua presença iluminou o Senado e ele nos deixou fazendo o que mais gostava: lutando pelo Brasil.
A obra de todos e de cada um é sempre inconclusa. De tudo que vou guardar comigo, levarei sempre a lembrança do sentido preciso que ele tinha da nossa transitoriedade. Esses dias, voltou-me à memória trecho antigo que diz: "Dizem que o tempo passa.
O tempo não passa.
O tempo é margem.
Nós passamos.
Ele fica".
Pena que alguns estejam passando por nós e seguindo em frente tão depressa, quando ainda são tão necessários...

CLÁUDIO HUMBERTO


Lula agora usa recados para dar palpites a Dilma

As relações da presidenta Dilma com o ex-presidente Lula continuam amistosas, mas eles falam cada vez menos. No começo do Governo, jantavam secretamente pelo menos uma vez por semana, no Palácio Alvorada, e os contatos ao telefone eram diários, mas esses momentos foram diminuindo e hoje Lula tem recorrido até mesmo a recados, por amigos comuns, para fazer chegar os seus palpites a presidenta.


Nem ao telefone

Lula e Dilma falam tão pouco que ela não demitiu o ex-ministro Alfredo Nascimento, no primeiro momento, para não chatear o ex-presidente.


Demissão imediata

No velório de Itamar Franco, Lula pediu a Michel Temer e José Sarney para dar um recado a Dilma: "Demita o Alfredo logo, para não ter crise".


Boca fechada

Sarney ouviu o recado de Lula para Dilma, sobre Alfredo Nascimento, e depois cochichou com um amigo: "Eu não sou de levar recados..."


Recado tardio

Só na terça (5) chegou a Dilma o recado de Lula, aconselhando-a a afastar o ministro dos Transportes. E Dilma mandou Alfredo se demitir.


Estatal investiga viagens

Escaldado com os passeios do governador Cabral (PMDB) em jatos e helicópteros amigos, o presidente da estatal de águas e saneamento (Cedae) Wagner Vícter mandou abrir sindicância para apurar denúncias de que três diretores viajaram à Europa e EUA com tudo pago pela Piralise do Brasil, e fornecedora mundial de centrífugas para tratamento de esgoto e detentora de contratos milionários na estatal.


Nervos de aço

A filha do diretor de produção da Ceade, Jorge Briard - responsável pelos contratos - é funcionária da Piralise. Vícter está uma arara.


Síndrome de Cabral

Vícter, que sonha com o Legislativo, só se mexeu após o denunciante, ex-diretor da Cedae, ameaçar representação no Ministério Público-SP.


Lexotan

Dilma afirmou, no teleférico do Complexo do Alemão, no Rio, que quer contribuir "para o ambiente de paz". Mas logo ela, que gosta de gritar?


Aviso prévio

Esfriaram de vez as relações de Dilma e Sergio Gabrielli (Petrobras). Ela não o mandou de volta à Bahia por causa da sucessão de crises, de Palocci a Nascimento. Na próxima maré de tranquilidade, ele roda.


Classificados

Aliados procuram um lugar ao sol para o suplente do senador Alfredo Nascimento (PR). Amigo de Lula, João Pedro (PT-AM), que presidiu a inútil CPI da Petrobras, é conhecido pelas abobrinhas no plenário.


FRASE DO DIA


"Ela droga é prejudicial, mas não devemos repreender quem usa"
FHC, que parece haver pedido o juízo, voltando a defender a liberação das drogas

PODER SEM PUDOR

Cobra morreu faz tempo
Em debate acalorado sobre a veracidade dos dados do Cadastro Geral de Empregos nos governos FHC e Lula, o senador abestalhado Eduardo Suplicy (PT-SP) prometeu:
- Vou mostrar o pau e a cobra morta...
O então senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM) jamais perderia a chance da ironia carregada de perversidade:
- A "cobra morta" fica por sua conta...

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: TCU apontou irregularidades em contratos para obras

Folha: Dinheiro público domina parcerias em obras da Copa

Estadão: Empresa diz ter alertado Petrobrás sobre fraude

Valor: Indústria perde investimento e vira deficitária

Jornal do Commercio: Recife dos buracos

Zero Hora: Alerta em escolas tenta barrar avanço da gripe A