domingo, junho 05, 2011

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Marginal Pinheiros concentra 22% dos escritórios "premium" em São Paulo
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11

A marginal Pinheiros é o local com o maior número de escritórios de alto padrão em São Paulo, de acordo com estudo da consultoria Binswanger Brazil.
A região abriga 22% dos imóveis comerciais "premium" na cidade. A avenida Brigadeiro Faria Lima aparece em seguida, com 15%.
"A tendência é esse mercado ficar mais concentrado na marginal, que é hoje o maior canteiro de obras de São Paulo", diz Melissa Spinelli, consultora da companhia.
Os escritórios de alto padrão são os das classes A e AA, com área útil mínima de 500 metros quadrados por andar, alta eficiência dos elevadores, acabamentos de qualidade superior, entre outras características.
A região da marginal Pinheiros entre as pontes Transamérica e Morumbi é a que reúne mais possibilidades para a construção de novos empreendimentos, segundo Danilo Camargo, gerente da BNCORP, joint venture entre a construtora Bueno Netto e o Bank of America Merrill Lynch e MaxCap.
"Há terrenos com valores adequados e o zoneamento permite edifícios mais altos", diz Camargo.
Os bairros da Barra Funda e da Vila Olímpia também devem receber uma quantidade maior de escritórios de luxo nos próximos anos, segundo a consultoria imobiliária Colliers International Brasil e a Odebrecht.
"A locomoção urbana dita as tendências de crescimento e esses são os polos mais promissores", diz o presidente da Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Altit.

Sem revitalização, centro é líder de unidades classe CO centro de São Paulo, que era ocupado por escritórios "premium" até a década de 1960, hoje concentra 57% das unidades para a classe C, segundo a consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle.
A ausência de ar-condicionado central é a principal característica da categoria, que representa 38% dos escritórios da cidade.
"Em algum momento o centro será revitalizado. É uma tendência das grandes metrópoles", diz o presidente Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Altit.
Para o gerente da BNCORP Danilo Camargo, a renovação da área não ocorrerá nos próximos cinco anos.
"Não há atratividade para reformar prédios no centro, pois o valor de locação é muito baixo", diz Camargo.
Outra opção utilizada por empresas é o aluguel de unidades em prédios menores, que não sofrem restrições urbanísticas.
"São os chamados escritórios de bairro, que têm crescido em importância devido aos problemas de mobilidade", afirma Camargo.

O QUE ESTOU LENDO

Jorge Simino, economista

O diretor de investimentos da Fundação Cesp, Jorge Simino, tem quatro livros na cabeceira. "Dependendo do dia, escolho um ou outro", afirma ele.
"On China", de Henry Kissinger, acabou de chegar à pilha, encomendado a um amigo. O economista lê também "Igreja Católica", de Hans Kung, "Escritos Coligidos", de Sérgio Buarque de Holanda e "História da Espanha", de José Vesga.

MOTOR ALCOÓLICO
A Scania Brasil fechou outra venda de ônibus movidos a etanol. A Tupi Transportes Urbanos Piratininga acaba de adquirir dez unidades, que começam a rodar no segundo semestre em São Paulo, segundo a montadora.
Também na capital, onde a prefeitura quer trocar a frota por modelos de combustível renovável, a Scania já havia vendido ao Grupo Metropolitana outros 50 ônibus. "Já temos operação de etanol consolidada na Europa. Surgiu oportunidade em São Paulo e há conversas para negócios em Belo Horizonte, Rio, Recife e outros", diz Roberto Leoncini, diretor-geral da Scania no país.

MÃES X NAMORADAS

Com o Dia dos Namorados, as vitrines das joalherias trocaram peças clássicas e caras por opções modernas e românticas.
No Dia das Mães, a procura é maior por joias de preços altos, pois são os pais que compram para os filhos presentearem, enquanto coleções arrojadas atraem jovens, diz a Tiffany. "A demanda de namorados é maior por joias com dizeres apaixonados", diz a Amsterdam Sauer.
A data é vista como oportunidade para pedidos de noivado ou casamento.
A demanda para as mães geralmente é por peças com pedras, segundo Jack Vartanian. "São presentes atemporais. Namorados dão presentes mais irreverentes e ousados."
A Dryzun criou peça que "materializa aquela sensação quando encontramos a pessoa amada, de o coração pulsar", diz Sheila Dryzun. Dentro de um topázio há dois diamantes que "pulsam" com o movimento.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Palofi é o Eike Petista!


Ueba! Palofi é o Eike Petista!
JOSÉ SIMÃO 
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11

Continua o bullying com o Palofi! Eu acho que peguei a gripe Palofi: desde ontem aumentou 20 vezes


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "TRE de Minas faz recontagem de eleitores". Em que cidade? MARMELÓPOLIS! "Produtor rural colhe mandioca gigante". Em que cidade? GLÓRIA DE DOURADOS!

E saiu a nova definição da Hebe: Palmirinha com acessórios da H. Stern. E o Silvio Santos é o único ser vivo que ainda fala "que rufem os tambores". "Agora vamos sortear dois carros! Que rufem os tambores". Rarará!

E no Pará estão matando tanto líder ambiental que não é mais desmatamento, é matamento. Matamento no Pará. Então o Brasil está com dois problemas na Amazônia: desmatamento e matamento!

E o Palofi? Continua o bullying com o Palofi! Eu acho que peguei a gripe Palofi: desde ontem aumentou 20 vezes. E o Palofi tá ampliando os negócios. Vai lançar o Fermento Palofi: aumente seu bolo em 20 vezes. E um poderoso Viagra; o PAULOCCI. Aumenta 20 vezes! Rarará.

E uma amiga disse que mulher de TPM é como o Palocci: tudo multiplica por 20! E o site QMerda disse que o Palofi é o Eike Petista. Não é o Eike Batista, é o Eike Petista!

E adorei a charge do Pelicano com a Dilma numa calculadora: "Bem, eu prometi tirar 16 milhões de brasileiros da pobreza. Descontando o Palocci que vale por 20, vai dar...". Vai dar merda! Rarará!

E o FHC Boca de Sovaco? Fernando Henrique defende a descriminalização da maconha. Fumando Henrique Cardoso ou Fernando Henrique Chapado. Meio chapadão ele sempre foi! E o recado de um amigo: "Avisa pro FHC que a última vez que eu fumei maconha eu votei nele". Rarará! E ele tá certo, porque esse é o único efeito colateral da maconha: quando a polícia chega!

E o Gabeira disse que até as velas das caravelas eram de maconha. Por isso que ele saíram pras Índias e acabaram batendo no Brasil. Não foi calmaria, foi leseira! Rarará!

E mais dois predestinados. É que o técnico de elevadores Schindler se chama: Ronaldo SEGURA! Quando o elevador estiver caindo, todo mundo grita: Ronaldo, SEGUUUURA!

E tem uma funcionária da TIM que se chama Natália ALÔ! É verdade! Natália Alô Brito. "Natália! Alô! É da Tim?". Rarará.

E em Juazeiro na Bahia tem uma loja de CDs chamada Toca Gostoso Pra Nós Dois. Rarará. Nóis sofre mas nóis goza.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Novos desafios


Novos desafios
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O Estado de S.Paulo - 05/06/11

Passados os momentos de euforia por havermos ingressado no clube dos que tomam decisões no mundo (e não nos esqueçamos de que o G-20 começou como encontro entre ministros da Fazenda quando Pedro Malan ainda exercia a função), começam as dores de cabeça e as indefinições criadas pela nova situação. Se a estas juntarmos as advindas da política doméstica, não são poucos os enigmas e incertezas que temos pela frente.

O mundo está se reordenando. A liderança norte-americana, com Barack Obama, evita a arrogância e começa a aceitar novas parcerias. Ainda agora, ao proclamar que a melhora de posição dos Brics e dos demais países emergentes não põe a perigo a predominância anglo-saxã, não disse isso como ameaça, mas como conselho aos seus: não temam o que está surgindo porque surgirá de qualquer modo e é melhor ter aliados do que inventar inimigos. Diante dos novos atores políticos no Norte da África e no Oriente Médio, a atitude americana está sendo marcada por um encorajamento democrático discreto como há tempos não víamos. É cedo para saber até onde irá esse bafejo de idealismo pragmático e também para ver até que ponto evoluirá a situação dos países recém-ansiosos por liberalização.

De qualquer modo, a situação internacional é distinta daquela aterradora da era Bush. O que não quer dizer que o futuro será melhor. Depende de muita coisa. De os Estados Unidos superarem a crise financeira, pois o desemprego continua enorme e o gasto público, descontrolado. De a Europa mostrar ser capaz de suportar as agruras de uma austeridade "germânica" sem romper a coesão social produzida pelo modelo democrático e próspero sonhado pela União Europeia. De a China continuar a crescer e dar pitadas de bem-estar ao povo. Mesmo que tudo isso se realize da melhor maneira, sobram dúvidas.

Que farão EUA e China, gigantes em comparação com as demais economias e Estados em expansão, jogarão como um duo gestor do mundo? Haverá um G-2 com suas economias complementares impondo seus interesses ao conjunto do planeta? Ou, então, EUA e Europa imporão seu predomínio, como tentam fazer agora na sucessão do FMI? E nós nisso tudo?

As incertezas pesam e tornam necessárias estratégias de convergência doméstica e lucidez para organizar alianças internacionais. Dado o caráter dos interesses globais, que ora unem, ora repelem alianças entre os Três Grandes, o necessário é que participemos da grande cena mundial sem ilusões ideológicas e com muita coesão interna. Para tanto precisamos de uma estratégia consensual e de determinação política. Estratégia consensual não é um "projeto nacional", expressão que, em geral, significa o Estado conduzindo o povo para objetivos definidos por um partido ou um grupo de ideólogos. Não é disso que precisamos, mas de um consenso enraizado na sociedade sobre questões decisivas, sem supor adesão a governos nem oposições aquietadas.

Com a globalização os condicionantes geográficos não nos limitam, como no passado. Não há por que nos cingirmos ao "Ocidente", ao Hemisfério ou mesmo à América do Sul. Mas temos outros condicionantes. A demografia impõe-nos desafios, com o crescimento da população adulta e idosa. Há que criar empregos de qualidade para sustentar tal tipo de população. É certo também que aprendemos a amar a liberdade e a desejar uma sociedade com crescente participação de todos no bem-estar e nas decisões. Por fim, os imperativos de preservação do meio ambiente e da criação de uma economia baseada em energias de baixo consumo de carbono são onipresentes.

Não adianta sonhar com o "estilo chinês" de crescimento, pois o afã de liberdade e consumo impede tal proeza. Nem imaginar que a expansão econômica baseada na exportação de minérios e produtos alimentícios gerará, por si só, a quantidade e a qualidade de valor agregado necessário para distribuir melhor o bolo, que é o que queremos. Tampouco faz sentido limitarmos nossas alianças a este ou àquele parceiro: elas deverão ser com quem nos ofereça vantagens de conhecimento (tecnológico, científico, organizacional) que permitam nos apropriarmos do que de melhor há no mundo. É imperativo inovar, não abrir mão da indústria e oferecer serviços em quantidade e qualidade em saúde, educação, transportes, finanças, etc. Aproveitar, mas ir além do que as commodities nos permitem alcançar. Nosso caminho será o da democracia. Ela não é um obstáculo. É parte inseparável do desenvolvimento, como valor e como "método". Por isso é preciso aumentar a transparência das decisões e debater com o País os passos decisivos para o futuro.

É ai que pecamos. Desde o governo Lula, a modo do autoritarismo militar, as decisões fundamentais são tomadas sem debate pelo Congresso e pelo País (mudança da Lei do Petróleo, decisões na política energética, especialmente na nuclear, reaparelhamento militar, não decisões sobre a infraestrutura por medo das privatizações, ou pior, decisões com abuso de subsídios, como no caso do trem).

Quando o governo da presidente Dilma parecia dar passos certos para ajustar a política internacional e começava a permitir que o debate sobre as grandes questões nacionais se deslocasse do plano miúdo das divergências eleitorais, vem de novo "seu mestre" (que prometera ficar calado como ex-presidente) e joga em solo corriqueiro as questões políticas. Em vez de se preocupar com a veracidade do que transpareceu, acusa irresponsavelmente o PSDB pelo vazamento de informações relativas à evolução patrimonial do principal ministro do governo. E passa a operar a disputa por cargos e troca de votos no Congresso, ofuscando sua sucessora. Em vez de um passo à frente, mais um passo atrás no amadurecimento da sociedade e da política, que volta a se apequenar no jogo rasteiro de chantagens e pressões. No lugar de o líder sustentar valores, temos o retorno da metamorfose ambulante operando com o costumeiro desdém aos princípios.

Assim será difícil uma nação com tantas virtudes alcançar a maturidade que as condições materiais começam a tornar possível. É preciso ter lideranças à altura se quisermos jogar na grande cena mundial. Presidente Dilma: não desperdice sua chance!

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Sandra, Sandra...


Sandra, Sandra...
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O ESTADÃO - 05/06/11

Diga-se a favor da Cecilinha que ela esperou o marido acordar antes de fazer a pergunta. Não acordou o Tonho a tapa. Não tentou sufocá-lo com o travesseiro. Esperou. E quando o Tonho finalmente abriu os olhos, perguntou:

– Quem é a Sandra? O Tonho piscou. Olhou em volta como se tivesse acordado numa ilha exótica, sem reconhecer nada. Depois fixou-se no rosto da mulher como se ela fosse da fauna da ilha. E disse:

– Ahn? – Quem é a Sandra? – Quem?

– A Sandra. Você estava sonhando e disse o nome dela. Sandra, Sandra... Assim. Nesse tom. Quem é ela?

– E eu sei? – O sonho era seu. Você não se lembra de quem estava no seu sonho?

– Eu nem me lembro do sonho!

Cecilinha não se convenceu. Decidiu ficar acordada toda a noite enquanto o Tonho dormia, para flagrar outro “Sandra, Sandra...” e aí sim, acordar o Tonho a tapa para saber quem era. Dormiria de dia, quando o Tonho estivesse no trabalho.

À noite, manteria sua vigília. E claro que o Tonho também passou a dormir mal, com o risco de sonhar, dizer o nome “Sandra” e ser atacado pela mulher. Ninguém pode controlar os próprios sonhos. Ninguém escolhe o que vai dizer enquanto dorme.

De um ponto de vista puramente legal, ou mesmo ético, Tonho tinha toda a razão para se queixar da mulher. Aquilo não era justo. Um homem inconsciente é um homem indefeso.

Um homem dormindo não pode ser responsabilizado pelos seus atos, e muito menos pelo que diz, durante um sonho. Nada do que ele fala dormindo pode ser usado contra ele, pois ele estaria se autoincriminando sem, literalmente, saber o que diz.

Nenhum destes argumentos comoveu a Cecilinha. – Não me enrola. Quem é a Sandra?

– Eu não conheço nenhuma Sandra! – Quem é a mulher dos seus sonhos?

– Eu não sei! E a verdade é que o Tonho não sabia mesmo. Não conhecia nenhuma Sandra. Se sonhava com uma Sandra, esquecia o sonho. A Sandra podia muito bem acabar com o seu casamento sem nunca ter existido, sem aparecer nem em sonho. Sem nunca ter a cabeça dele entre seus seios para ele dizer “Sandra, Sandra...” daquele jeito, naquele tom.

Não adiantou ele inventar que Sandra era o nome de uma tia querida, morta havia anos. Segundo a Cecilinha, ninguém diria “Sandra, Sandra...” daquele jeito para uma tia. Não adiantou ele, uma noite, fingir que dormia e dizer “Cecilinha, Cecilinha...” no mesmo tom. Só serviu para ela chamá-lo de farsante e piorar o clima entre os dois.

E como era impossível continuar com aquele “Sandra, Sandra...” assombrando seu casamento – e como os dois andavam irritadiços com a falta de sono – resolveram se divorciar.

NOIS SABE CONTAR 10 - 7 = 4 PETISTA LADRÃO

FERREIRA GULLAR - Quando urubu está de azar...


Quando urubu está de azar...
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11

Nunca recebi qualquer correspondência vinda do governo que me trouxesse uma boa notícia

FAZ UMAS poucas semanas, ao receber do porteiro do prédio a correspondência chegada aquele dia, dei com um envelope da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e gelei. Gelei pressentindo alguma aporrinhação, porque, como se sabe, gato escaldado tem medo de água fria.

Nunca recebi qualquer correspondência vinda do governo -seja federal, estadual ou municipal- que me trouxesse uma boa notícia.

O governo, quando me envia alguma mensagem, é para me intimar a prestar esclarecimento sobre a declaração do imposto de renda e coisas semelhantes. Nunca me manda cumprimentos pelos tantos anos em que estou no batente nem agradecendo a quantidade de impostos que recolho anualmente. Para me devolver o que foi cobrado a mais, isso nunca! Pelo contrário: por mais que pague, estou sempre devendo.

O governo -que teoricamente existe para me proteger e amparar- é de fato meu inimigo público número um.

E assim foi que, grilado de antemão, abri o envelope. Não deu outra: era o Departamento de Transportes da Prefeitura do Rio de Janeiro comunicando-me que eu tinha sido multado por dirigir falando ao celular. Sucede que eu não tenho celular, nunca tive e jamais terei.

E mais: quase nunca falo ao celular e jamais o fiz dentro do carro, ainda que estacionado. Falo ao telefone o menos que posso. Donde saiu então essa imputação absurda?

Não faço a menor ideia. E ela não é absurda apenas porque não uso esse tipo de telefone: mesmo que o usasse, o guarda de trânsito não me poderia ver, porque os vidros do carro não o permitiriam, são escuros, protegidos com insufilme. Desconfio que esse guardinha amigo estava maconhado.

O certo, porém, é que, maconhado ou não, estava a serviço de uma espécie de azar que, nesse particular, me persegue. Não foi esta a primeira vez que a maconha ou o acaso me escolhem para vítima.Talvez o leitor já tenha ouvido falar que, durante a ditadura, fui para o exílio. Pois é, fui acusado de ações subversivas contra o regime militar. Pois bem, não digo que essa acusação fosse falsa, e tanto não era que decidi cair fora antes que o DOI-Codi me pegasse.

Não vou contar aqui o que passei, mudando de país conforme as circunstâncias e as ameaças. Em resumo, comi o pão que o diabo amassou, mas, um dia, consegui voltar para casa. Passei por alguns percalços ao regressar, mas pouco depois estava com minha família e, no Luna Bar, com meus amigos.

Fui então aconselhado, por um advogado amigo, a solicitar ao Superior Tribunal Militar cópia da decisão me havia absolvido e levei um susto: o cara, que os milicos procuravam e contra o qual iniciaram aquele processo por subversão, era José de Ribamar como eu, mas não era eu. Ou seja, o José de Ribamar que pagou o pato fui eu, mas o absolvido foi outro.

Por isso rezo todos os dias para que os militares não voltem ao poder, pois do contrário vou ter que me mandar de novo não sei para onde. Bem, isso é pouco provável que aconteça, mas, em compensação, sempre haverá um guarda de trânsito para me acusar do que não fiz.

Foi assim que, como disse no início da crônica, abri a carta do Departamento de Transportes da prefeitura, que me acusava de dirigir meu carro falando ao celular. Minha primeira reação foi de espanto e revolta, mas verifiquei que, junto com a acusação, havia informações do que deveria eu fazer, caso decidisse recorrer da multa que me havia sido imposta.

Aquilo me deixou mais revoltado ainda: para escapar da acusação infundada, terei eu que entrar com dois processos no tal famigerado Departamento de Transportes e tentar provar que sou inocente.

Provar inocência?! Mal consigo acreditar. Alguém precisa dizer a esse pessoal uma coisa que todo mundo sabe, isto é, que o ônus da prova cabe a quem acusa e não a quem é acusado. Não é esse o argumento que estão usando para dispensar o Palocci de explicar donde veio sua súbita fortuna? Quer dizer que o que vale para gente do governo não vale para nós?

A nossa Constituição diz que todo cidadão é inocente até que sua culpa seja comprovada. Não obstante, parece que, para o Departamento de Transporte da Prefeitura do Rio de Janeiro, a Constituição não vale: é o acusado que deve provar sua inocência.

Diante disso, o que faço? Me exilo de novo?

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Cordão de isolamento
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11

Sem grande expectativa de reverter seu destino provável, Antonio Palocci tomou, nas entrevistas à Folha e ao "Jornal Nacional", providência típica de crises políticas como a gerada pela revelação de seu rápido enriquecimento: em contraste com relatos vazados do Planalto no início do caso, o ministro frisou que Dilma Rousseff jamais soube "os nomes dos clientes" de sua consultoria e tampouco "os serviços prestados a cada um deles". Disse ainda, mais de uma vez, que a crise não é "do governo", mas circunscrita a ele próprio.
Segundo os mais próximos, foi um esforço para encerrar o assunto com sua eventual saída do governo.

Brigadas 
Depois da estridente passagem por Brasília, Lula pediu a alguns governadores de sua confiança que baixassem na capital para ajudar a tranquilizar suas respectivas bancadas.

Como fica 
A hipótese de a Casa Civil virar um ministério de perfil técnico é vista com reserva pelo PMDB, sobretudo devido aos nomes cotados, alheios à sigla.

Musculatura
Para desanuviar o clima, Dilma passou parte da viagem de Brasília ao Rio, na sexta, discorrendo sobre a participação do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) no "Ironman", que envolve 3,8 km de natação,180 km de ciclismo e 42 km de corrida. A ministra Ideli Salvatti (Pesca), cujo marido também participou da prova, sabia de cada detalhe.

Peneira 1 
Em meio à crescente insatisfação dos aliados, o governo discute inserir na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2012 regras que flexibilizam a liberação das verbas de emendas parlamentares. A ideia é simplificar a forma de acompanhamento das obras pela Caixa, sobretudo as de valores inferiores a R$ 500 mil.

Peneira 2 
"Eu acho a simplificação altamente necessária e urgente", endossa o relator da LDO, Márcio Reinaldo Moreira (PP-MG).

Bafômetro 
Delator do escândalo de corrupção em Campinas, o ex-presidente da empresa de saneamento Luiz Augusto Castrillon de Aquino disse em depoimento que os lobistas o embebedavam para que ocorressem os acertos irregulares. Fitas apreendidas na casa de um deles trazem a seguinte fala: "Leva um "uiscão" pra ele e uma "aguinha" de coco, põe na geladeira e fica tomando com ele ali. Tá me entendendo? Esse safado gosta disso".

Ramificações 
Em outro diálogo, os lobistas indicam que o esquema também poderia ser replicado em uma cidade próxima, Jaguariúna.

Suor 
Depois que Gabriel Chalita assegurou o comando do diretório municipal do PMDB na capital paulista, Paulo Skaf, outro neofiliado, manifestou a aliados interesse no comando estadual da sigla, hoje nas mãos de Baleia Rossi. Apesar de Michel Temer ter garantido que o candidato a prefeito da capital em 2012 será Chalita, Skaf está de olho no posto.

Azuis 

Na disputa entre PSDB e PT para ver quem ficará com Márcio Lacerda (PSB) em 2012, empurrando o outro para fora da "tríplice aliança" em Belo Horizonte, os tucanos acreditam levar uma vantagem. Como não têm nome para lançar ao governo de Minas, podem acenar ao prefeito, que buscará a reeleição, com a perspectiva de apoio em 2014, na sucessão de Antonio Anastasia.

Vermelhos 

Já o PT tem contratada a candidatura ao governo do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), ainda que com a oposição interna do grupo de Patrus Ananias.

com LETÍCIA SANDER e RANIER BRAGON

tiroteio


"Palocci é o único consultor que aumenta o faturamento mesmo tendo interrompido o contrato. Os demais mortais pagam multa."
DO SENADOR DEMÓSTENES TORRES (DEM-GO), sobre a explicação de Palocci para justificar o recebimento de R$ 10 milhões no fim de 2010. Ele atribui o valor ao cancelamento de contratos para assumir o comando da Casa Civil.

contraponto

Melhor dizendo

No livro "Saga Brasileira", em que narra a trajetória do país da hiperinflação até a estabilidade da moeda, Miriam Leitão relembra sua primeira entrevista com Ciro Gomes, quando este assumiu o Ministério da Fazenda na reta final do governo Itamar Franco (1992-1994). Já famoso pela ausência de papas na língua, Ciro disse de cara que iria "matar os especuladores". Depois, hesitou por um instante, e a jornalista pensou:
-Ele sabe que exagerou e vai tentar atenuar...
O desfecho do ministro, porém, foi ainda mais duro e acompanhado de gestos com as mãos cortando o ar:
-Vou matar e esquartejar!

GOSTOSA

MERVAL PEREIRA - Interesse público


Interesse público
Merval Pereira
O GLOBO - 05/06/11

Estamos diante de uma situação típica de governo de visão política autoritária, que considera que certas informações não são do interesse público, como se coubesse ao governo definir que informações a opinião pública tem o direito de saber.
Assim como Palocci disse que o faturamento de sua "consultoria" não é de interesse público, também os boletins médicos não esclareceram à população que a pneumonia da presidente Dilma era dupla e não "leve".
A relação de doenças com que a presidente Dilma lida, revelada pela revista "Época", é outro exemplo de como, no Brasil, os agentes públicos não consideram seu dever revelar questões que, embora íntimas, se tornam de interesse público, pela circunstância de fazerem parte da vida de um político que tem responsabilidades pelos destinos do país.
Em vários países, onde o cidadão tem mais noção dos seus direitos, como nos Estados Unidos, seria impossível alguém concorrer à Presidência da República sem revelar os mínimos detalhes de sua condição física.
Justiça seja feita, esconder doenças não é uma inovação do governo Dilma.
O exemplo mais óbvio é a foto do presidente eleito Tancredo Neves cercado de médicos, sorrindo como se estivesse se recuperando quando havia um aparato por trás dele assegurando que as aparências não revelassem a gravidade de seu quadro.
Diz-se que o governo pretende fazer uma pesquisa de opinião para saber qual foi a reação do eleitorado às supostas explicações do ministro Antonio Palocci e, a partir daí, estabelecer uma linha de ação.
Não me parece provável que a entrevista de Palocci ao "Jornal Nacional" de sexta-feira tenha tido a capacidade de dissipar as dúvidas do público em geral, embora sua aparente tranquilidade possa ter dado às evasivas com que respondeu uma aparência de esclarecimento.
Mas será preciso mais do que uma pesquisa de opinião para que o principal coordenador político do governo recupere sua operacionalidade.
O (ainda) ministro Antonio Palocci pode ter ganhado um fôlego, do ponto de vista do governo, com a entrevista ao "Jornal Nacional", mas continuará com problemas para cumprir suas funções na coordenação política do governo.
A reação dele à lembrança de que o deputado federal Garotinho o tinha classificado como "um diamante de R$20 milhões" é típica de quem tem que ter cautela até mesmo com figuras políticas do baixo nível do ex-governador do Rio.
Ao pedir que acreditem em sua boa-fé, Palocci está simplesmente pedindo à opinião pública que acredite nele, quando seu passado recente indica que suas versões nem sempre coincidem com o que realmente aconteceu.
Absolvido pelo Supremo Tribunal Federal da acusação de ter sido o mandante da quebra de sigilo do caseiro Francenildo, sabe-se, agora, por meio de uma nota oficial da Caixa Econômica Federal, que o que todo mundo desconfiava foi o que realmente aconteceu: a quebra do sigilo foi autorizada pelo gabinete do então ministro da Fazenda.
O presidente da Caixa na ocasião, Jorge Mattoso, foi condenado pelo STF como único responsável pela ação criminosa e não se defendeu oficialmente, provavelmente por lealdade política.
Quando coube à instituição CEF a defesa oficial, a acusação ao Ministério da Fazenda surgiu, cristalina, agora já sem possibilidade de colaborar com a condenação de Palocci.
Pedir que acreditem na sua boa-fé pela segunda vez em tão pouco tempo é pedir demais ao cidadão comum, tão calejado em assistir a manobras de membros do governo para esconder questões que interessam, sim, ao público - como o estado de saúde da presidente Dilma ou as contas do deputado dublê de consultor que, no último ano, teve ainda o terceiro papel de coordenador da campanha presidencial da candidata oficial.
Imaginar que ele pudesse exercer todos esses papéis simultaneamente sem misturá-los é dar a Palocci um cheque em branco que nenhum político deveria receber, justamente porque políticos têm que prestar contas permanentes à opinião pública, sem o que ficariam acima das leis.
O ministro Antonio Palocci defende sempre que sua empresa cumpriu todos os ritos legais, sem que nunca tenha havido uma acusação sobre isso contra ele. Talvez porque a parte formal de sua "consultoria" seja a mais fácil de provar.
No entanto, e sem que esteja inferindo que tenha acontecido isso - embora circulem em Brasília muitas hipóteses nesse sentido -, dar notas fiscais para "esquentar" dinheiro de origem duvidosa é a prática mais comum em empresas de fachada criadas justamente com esse fim.
O governo vai tentar sair das cordas nos próximos dias, mas, se PT e PMDB continuarem sentindo cheiro de carne queimada mesmo depois da entrevista, continuarão a deixar Palocci no sereno, negando-lhe o apoio político de que necessita.
Ele mesmo, ao assumir como uma questão pessoal a crise política em que envolveu o governo, assumiu a versão oficial do PT, que quer dissociar sua imagem da do governo.
Em vez de salvar sua pele, essa manobra pode colaborar para apressar sua saída.
Aliás, se considera mesmo que o que está em jogo é uma luta política contra ele, Antonio Palocci deveria ser o primeiro a pedir para sair, para livrar o governo desse ônus.
Ele ressaltou que as acusações são da ocasião em que era deputado e não ministro do governo Dilma. A mesma defesa, com sinais trocados, que o então ministro José Dirceu tentou quando se viu envolvido com o mensalão: não poderia ser cassado como deputado porque exercia o cargo de ministro na ocasião.
Nas duas ocasiões, as figuras públicas de Palocci e Dirceu são indissociáveis de seus atos, sejam quais forem os cargos que ocupem.

ELIANE CANTANHÊDE - Vão-se os dedos, ficam os anéis


Vão-se os dedos, ficam os anéis
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11

BRASÍLIA - Não faz o menor sentido Antonio Palocci, chefe da Casa Civil pelo menos até o fechamento desta edição, demorar três semanas para dizer o que disse aos brasileiros em entrevistas à Folha e à Rede Globo: que a Projeto, sua empresa de um empregado só, é legal e declarou seus ganhos à Receita.
Isso ele poderia ter dito no primeiro dia depois que a Folha publicou a reportagem sobre a multiplicação do patrimônio dele por 20, incluindo um apartamento de R$ 6,6 milhões que ele pagou praticamente "cash". Ou quando a mesma Folha informou que o faturamento da empresa fora de R$ 20 milhões no ano eleitoral. Ou, ainda, quando acrescentou que, ao receber metade disso, já era chefe da transição e virtual primeiro-ministro.
O principal continua soterrado por interrogações. Quem pagou? Por que pagou? Que consultoria mágica era essa? O resto dos recursos foi aplicado, doado ou está debaixo do colchão? Ou seja: de onde veio e para onde foi o dinheiro?
Isso tudo sem falar que apartamentos, histórias mal contadas e dinheiros estranhos continuam se amontoando com a quebra do sigilo do caseiro Francenildo, que relatou a presença de Palocci numa casa esquisita onde rolavam malas de dinheiro e uma gente heterodoxa de Ribeirão Preto.
Como Palocci está no topo da pirâmide do governo, ao desabar deve arrastar Luiz Sérgio, das Relações Institucionais, e toda a coordenação política, facilitando uma rearrumação no Planalto que pode se espalhar pelo Congresso. Dilma tem uma crise, mas também a chance de um freio de arrumação.
Quanto a Palocci, não tem do que reclamar. Foi abandonado pelo PT, pelo governo e pela própria Dilma, mas manteve a fidelidade à clientela e está livre para simplesmente voltar à Projeto e às suas "consultorias". Bom negócio.
No caso dele, como eu disse ontem na Rádio Folha, vão-se os dedos, ficam os anéis. E que anéis!

NÃO FALO!

DANUZA LEÃO - Um punhado de vergonhas


Um punhado de vergonhas
DANUZA LEÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 05/06/11
Chantagear lembrando que tem na mão diamante de 20 milhões foi a coisa mais vergonhosa que ouvi falar

O NOTICIÁRIO está riquíssimo, cheio de assuntos palpitantes. Se a atuação dos políticos tirasse notas, estariam reprovados Palocci, José Sarney, Fernando Haddad e Garotinho -isso porque não estou aprofundando o assunto.
O problema é a reincidência; tem alguma coisa pior do que o que fez Palocci no episódio mensalão, com o caseiro Francenildo?
Do ponto de vista moral, um ministro usar seu poder para abrir a conta de um homem modesto é mais grave do que fazer lobby e ganhar tanto dinheiro em quatro anos.
Francamente, não sei qual foi pior, mas não vamos nos esquecer que, quando o sigilo do caseiro foi aberto por ordem de Palocci -com a desculpa de um depósito atípico-, em 24 horas Francenildo se explicou e mostrou que não tinha culpa em nenhum cartório.
O ministro pediu demissão, mas voltou, com aquela cara de santo.
Vamos agora a José Sarney, que nem Sarney é, seu nome é Ribamar; o Estado que ele comanda, o Maranhão, é o mais pobre do Brasil, e o senador já deveria estar aposentado há séculos, por amor ao Brasil.
Então o episódio Collor foi um "acidente" que não deveria ter acontecido? E a culpa, segundo ele, é dos funcionários do Senado, que escolheram os fatos que fariam parte do "Túnel do Tempo"?
Sobre Garotinho, não há muito a dizer; ele sempre foi o que pode haver de pior na vida pública, e o Rio de Janeiro não merecia ter sido governado por ele e por sua mulher, Rosinha. Chantagear a presidente lembrando que tem na mão um diamante de 20 milhões foi a coisa mais vergonhosa de que jamais ouvi falar -e Dilma quieta.
Agora, o capítulo Fernando Haddad. Eu queria que alguém me explicasse o que é Fernando Haddad, e por que razão ele é ministro da Educação.
Toda vez que ele aparece, é para se explicar: ou porque na prova do Enem aconteceu algum erro -em quase todas acontece, aliás-, as cores da impressão saíram erradas, os estudantes poderão -ou não- fazer uma segunda prova, ou o livro do "nós pesca" deu uma confusão; se quem redigiu o "nós pesca" queria dizer aos professores que, se chegassem ao colégio crianças falando errado, deveriam agir com calma e paciência para não espantar os alunos, e não ir logo corrigindo, então redigiu mal.
Fernando Haddad, que é o responsável, não viu, e acha melhor Stálin do que Hitler, porque sabia ler, ou era Hitler que era melhor? Francamente.
Quanto aos vídeos sobre a homofobia, cheguei a vê-los, e são francamente péssimos; mas Fernando Haddad, que é o responsável, não viu, e se viu, não notou que eram péssimos.
Como dizem que uma foto diz mais do que mil palavras, destaque para Lula, rodeado por seus aliados -de Sarney a Marta Suplicy, todos rindo como se fossem um punhado de misses; já a de Dilma com Michel Temer foi aquele desastre.
E os novos Estados do Tapajós e Carajás vão ter deputados e senadores também?
Cheguei a pensar que Dilma talvez fosse diferente; agora, querem o esquecimento dos escândalos, lançando um plano de Brasil sem miséria.
E Erenice, de quem nunca mais se falou? E quem matou Celso Daniel?

CLÓVIS ROSSI - Uma confissão sub-reptícia


Uma confissão sub-reptícia
CLÓVIS ROSSI
Folha de São Paulo - 05/06/11

A chave do esquema Palocci aparece na seguinte frase de sua entrevista à Folha: "Quando a empresa [a que dava consultoria] tinha que lidar com órgãos públicos, não era a Projeto [a sua empresa] que fazia isso".

Digamos que seja verdade, toda a verdade. Digamos também que seja legal. Mas é imoral, aético, indecente, não republicano.

Seria preciso não a boa-fé que Palocci cobrou na entrevista à Globo, mas uma supina ingenuidade, uma inocência totalmente fora da realidade para acreditar que não há nessa situação uma promiscuidade clara entre o público e o privado.

Vejamos como funcionam as coisas: uma empresa contrata a consultoria de um deputado que havia sido ministro da Fazenda, é um quadro importante no partido do governo e, logo, se torna ainda mais importante, ao ser designado coordenador da campanha da candidata favorita à Presidência da República, afinal eleita.

O deputado-consultor-futuro ministro dá as dicas que considera oportunas e, na hora em que a empresa que o contratou precisa "lidar com órgãos públicos", dispensa os conselhos do consultor, esquece de dizer ao órgão público que tem contrato com Antonio Palocci?
Você acredita nesse comportamento angelical?

Enfim, depois de toda a "enrolation" levada ao ar na sexta-feira e ao papel ontem, quem sabe das coisas, como Fernando de Barros e Silva, dá Palocci como liquidado. Pode ser, mas o assunto não deveria ser liquidado se ainda sobrou alguém interessado em moralidade pública.

Primeiro, é preciso investigar quais entre as contratantes de Palocci tiveram que "lidar com órgãos públicos" e no que resultou a lida.

Segundo, é preciso acabar com o duplo emprego de parlamentares. Ou bem o sujeito é deputado ou senador ou bem é consultor. As duas coisas criam uma sórdida parceira público/privado.

ELIO GASPARI - De CelsoFurtado@org para Palocci@com


De CelsoFurtado@org para Palocci@com
ELIO GASPARI

O GLOBO - 05/06/11

O senhor inverteu o dilema de Prebisch ao privatizar sua influência, agora não estatize as consequências


SENHOR MINISTRO,
Sua geração leu meu livro "Formação Econômica do Brasil" procurando entender nosso país, pensando em mudá-lo para melhor. Não creio que meus leitores buscassem lições para enriquecer. Seria perda de tempo. Havia neles uma mistura de fé na nossa gente e até de solidariedade pela fantasia desfeita de um economista que foi do Ministério do Planejamento, em 1962, ao desterro voluntário, dois anos depois.
Escrevo-lhe para pedir que tire das costas do governo a carga de problemas que são seus, derivados daquilo que chamei, referindo-me ao Roberto Campos, de "temperamento concupiscente".
A cobiça por bens materiais é coisa natural. Quando ela se mistura com biografias públicas, é comum que surjam conflitos políticos. Vivi 84 anos, fui ministro de dois governos e embaixador na Comunidade Europeia, publiquei cerca de 50 livros, um deles com 34 edições. Nunca me faltou o necessário.
Acusaram-me de muita coisa, jamais de ter comprado um par de meias sem que pudesse tornar pública a origem dos recursos. Morri num apartamento de Copacabana, com padrão suficiente para meus hábitos, bastante inferior ao que o senhor comprou por R$ 6,6 milhões. (Jantei outro dia com os ex-ministros Roberto Campos, Eugênio Gudin e Octavio Gouvêa de Bulhões. O Campos, com sua corrosiva maledicência, disse que as moradias dos comensais, somadas, não cobrem o preço da sua.)
Os discípulos dos meus colegas de jantar seguiram outro caminho. Depois que retornei ao Brasil, vi como fizeram rápidas fortunas, mas vi também como deixaram de fazê-las. O serviço público nada rendeu à minha querida Maria da Conceição Tavares ou ao Carlos Lessa.
Talvez sejamos uma espécie em extinção. Gente que gosta de relembrar e seguir a lição que ouvi do Raúl Prebisch, o grande economista argentino. Depois de presidir o Banco Central do seu país, viu que ficara "sem meio de vida". Convidado para a direção de grandes bancos, recusou: "Como podia colocar os meus conhecimentos a serviço de um se estava ao corrente dos segredos de todos?"
O senhor privatizou sua influência e justificou a própria concupiscência invertendo o dilema de Prebisch. Foi uma escolha pessoal, e Don Raúl admite que está no seu direito fazê-la. Não estatize os reflexos de sua opção patrimonial, transferindo o ônus para um governo eleito por 55 milhões de pessoas.
Do seu patrício,
Celso Furtado

NATASHA MATRICULA O REITOR DO SÃO BENTO

Madame Natasha defende a norma culta e combate o bullying do idioma. Por isso concede ao reitor do Colégio São Bento do Rio (onde menina não entra) uma de suas bolsas de estudo pelo uso da palavra "acidente" (cinco vezes) na primeira nota oficial em que tratou do caso de um aluno de seis anos agredido por outro de 14, acoitado por mais dois.
O São Bento é um dos melhores colégios do país, celeiro de um pedaço da elite nacional. Não lhe fica bem manipular o idioma.
Na sua acepção principal, "acidente" é um acontecimento casual, fortuito. Pode designar também um fato desagradável ou infeliz que envolva perda, lesão, sofrimento ou morte. (Houaiss)
Embaralhar as duas acepções é malabarismo retórico. O menino foi espancado. Para isso existe a palavra "agressão". Dom Marcos Barbosa, professor de português do São Bento, sempre pedia à criançada que, em suas redações, colocasse o vocabulário a serviço da clareza.
Digamos que o reitor desce do mosteiro e um caminhoneiro mete-lhe o veículo em cima. Dom Miguel sofreu um acidente ou foi atropelado?
(Dias depois, o reitor divulgou uma outra nota, trocando a palavra "acidente" por "incidente". Vá lá.)

EREMILDO NO BC
Eremildo é um idiota e gostou da última ideia do Banco Central para sanear a moeda e enxugar o meio circulante. O cidadão vai ao caixa eletrônico, saca R$ 100 e percebe que recebeu uma nota de R$ 20 manchada. A partir daí, precisa guardar o extrato, procurar o banco e contar o ocorrido. Se não for possível, deverá registrar a ocorrência numa delegacia.
Caso a nota apareça à noite, a operação poderá consumir, numa boa, duas horas. Nesse caso, o BC quer que um cidadão que ganha R$ 2.000 por mês perca R$ 25 de seu tempo para recuperar R$ 20.
O cretino teve mais uma de suas ideias. O BC determinará que todo e qualquer pagamento feito por serviços de consultoria a pessoas que passaram pelo governo nos últimos cinco anos seja feita em dinheiro vivo. Cada nota será carimbada com uma pequena estrela vermelha. Continuará valendo, mas lembrará à choldra por onde ela passou.

GIRAFA

O governo federal (mais precisamente o Planalto) patrocina um programa chamado "Um Computador por Aluno". Ele tem três pontas. Numa, a Viúva comprará 150 mil máquinas. Na outra, paga a capacitação de professores. A terceira, faz-se de conta que não existe: trata-se da entrada dos livros didáticos eletrônicos na mochila dos estudantes.
A ponta que compra máquinas, dentro de especificações que cheiram a mico, vai de vento em popa. No último pregão, numa proposta, cada peça ficou R$ 553, ou US$ 346. Noutra, R$ 654, ou US$ 409.
A ponta que capacita professores não recebe verbas desde o início do ano.
Que tal fazer o contrário?

MÁ AULA
Segundo a narrativa do senador Eduardo Suplicy, o ministro Antonio Palocci contou ao PT que, entre 2008 e 2009, aconselhou seus clientes a sair do mercado de derivativos (nome chique do sistema de apostas do mercado). O conselho não valia o tempo perdido para ouvi-lo. Essa modalidade de especulação estava no vinagre desde o final de 2007.
Se o doutor fosse o craque sugerido pelo faturamento da Projeto, iria na direção oposta. Um investidor que, no início de 2009, apostou em derivativos de opções de papéis da Bolsa brasileira, lucrou 50% em algo como dez meses.

LIÇÕES CHINESAS

Era uma vez um presidente da China, irmão de armas de Mao Tse-tung, que se chamava Liu Shaoqi. Ele escreveu o livro "Como Ser um Bom Comunista". Em 1968, foi deposto, espancado e preso. Aos 70 anos, jogaram-no numa solitária onde viveu nu, sem cortar os cabelos ou a barba. Diabético, não recebia medicação. Morreu no ano seguinte e cremaram-no com nome falso.
Sua mulher passou 12 anos na cadeia. Reabilitada em 1980, morreu em 2006 e foi sepultada no cemitério dos revolucionários.
Ting Liu, filha do casal, conseguiu um MBA em Harvard, trabalhou na administração da fortuna da família Rockefeller, fundou a consultoria Asia Link Group e levou US$ 4,5 bilhões de dólares para seu país. Ganha rios de dinheiro e já doou dois anos de salários para um programa de ajuda a mães pobres da área rural.
O Brasil e a China estão praticamente empatados numa lista que aferiu o nível de corrupção em 180 países. Pindorama tem o 75º lugar e o Império do Meio, o 79º.
Ting nunca teve cargo público.

GOSTOSA

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Bananas


Bananas
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 05/06/11

Li que a família de Jacobo Arbenz lançou uma campanha para recuperar o seu nome, na Guatemala. E nós com isso? Nada. Só que tive um assomo de nostalgia ao ler a notícia, por uma época em que a história era mais simples e seus vilões e vítimas mais facilmente identificáveis. Talvez só na Guerra Civil Espanhola se soubesse, com a mesma nitidez, qual era o lado “bom” de uma questão – antes, claro, dos nazistas surgirem como os bandidos indiscutíveis do século. A Guatemala era o protótipo da “banana republic”. Sua dona era a americana United Fruit Company, que lá mantinha não só vastas plantações de bananas mas grandes extensões de terra ociosa, como investimento e como garantia para futuras expansões. O domínio da United Fruit sobre a política e a economia da Guatemala trazia escasso proveito social para o país. Jacobo Arbenz foi eleito livremente prometendo uma reforma agrária que fatalmente atingiria as propriedades americanas. A United Fruit tinha notórias ligações políticas e um ativo lobby em Washington e não foi difícil, com a Guerra Fria esquentando, convencer o presidente Eisenhower de que Arbenz significava um regime comunista no quintal dos Estados Unidos. A CIA foi autorizada a intervir e derrubou Arbenz com menos pudor do que mostraria em intervenções futuras, na mesma zona – como em San Salvador – e no resto da América Latina e do mundo. O golpe ficou como um exemplo clássico, sem disfarces e sofismas, do neocolonialismo cru em ação. Os disfarces, os sofismas e a retórica geopolítica viriam depois. No caso da Guatemala era um povo contra a prepotência dos bananeiros.
Simples.
Uma das consequências do golpe pro-United Fruit e da instalação de um regime apoiado pelos americanos foi uma sangrenta guerra civil que durou mais de 30 anos, com diversos grupos lançando-se na clandestinidade, milhares de mortos e atrocidades de lado a lado. O fato da família de Arbenz estar buscando sua reabilitação indica que na história oficial do país ele ficou como vilão, não como vítima. Já a United Fruit não teve nada a ver com a
história. Aliás, nem existe mais. Seu simpático nome agora é “Chiquita Brands” e seu produto principal a “Chiquita Banana”.

CLÁUDIO HUMBERTO



“Ai, meu Deus do céu!...”
SENADORA MARTA SUPLICY (PT-SP) AO SER BAJULADA, NO PLENÁRIO, PELO EX-MARIDO ABILOLADO 

SOCIALITE DO MENSALÃO AGORA QUER CARTEIRA DO PT 
A socialite paulista Maria Christina Mendes Caldeira, que em 2005 envolveu o ex-marido e deputado Valdemar Costa Neto (PL) no “mensalão” e numa “caixinha” de Taiwan para a campanha de Lula, quer se filiar ao PT com o “aval” do ex-ministro José Dirceu, o “chefe da quadrilha”, como apontou a Procuradoria Geral da República. 
O desejo foi revelado no Facebook  a um velho amigo de Lula, há dias. 

CONFIDENTE 
Ela trocou mensagens com Mohamad Laila, de São Bernardo (SP), ex-assessor especial da Presidência e vice-presidente do Instituto Futuro. 

AVALISTA 
Laila ia sempre com Lula ao Oriente Médio e foi com ele à Venezuela, dias atrás, prometendo falar com Dirceu, visitando Cuba com “o chefe”.

FAMÍLIA UNIDA 
O Instituto Futuro apoia muçulmanos sunitas no Brasil. Duas filhas de Laila trabalharam na Prefeitura de São Bernardo com Luiz Marinho. 

COMPANHEIRA 
A socialista terá que vestir saia justa no PT: ela envolveu Delúbio Soares, o “reintegrado”, na denúncia de “doação” de US$ 2 milhões. 

MG: FAZENDA NEGA FRAUDE EM CONCORRÊNCIA 
A regional do Ministério da Fazenda em Minas nega fraude no pregão vencido pela empresa CNC Soluctions, em dezembro de 2009, com proposta de R$ 34 milhões para serviços orçados em R$ 170 milhões. A suspeita é que o objetivo não era executar o contrato, mas obter o “registro de ata de preços”, habilitando a empresa a contratos idênticos, sem licitação, em órgãos públicos. Para o MF é “absolutamente normal” emitir nota de empenho de 1 real para providências iniciais do contrato.

LOTERIA 
O “registro da ata de preços” foi utilizado pela empresa CNC antes mesmo de executar os serviços para o MF-MG, o primeiro licitante.

NOVO APORTE 
O MF informa que tão logo houve aporte de recursos, outro empenho de R$ 1 milhão foi liberado. Pouco, para um contrato de 
R$ 34 milhões.

SEM OBSTÁCULO 
O Ministério Público investiga a destituição de técnicos que inabilitaram a CNC para a licitação. Após a substituição, a empresa foi habilitada. 

CARA BRINCADEIRA 
Os 137 projetos votados pelo 24 deputados distritais na Câmara Legislativa do DF custaram R$ 337 milhões ao contribuinte, em 2010: R$ 232 milhões só em salários. R$ 2,4 milhões por projeto. 

ELES SÃO VOCÊS AMANHà
Em vez de proibir passeatas de viciados em maconha, a Justiça deveria determinar que fossem feitas na “Cracolândia”, para que esses bobões vejam o que os espera, no futuro mais próximo que imaginam.

GIRAMUNDO 
Por pouco não se esbarraram há dias em Oslo, Noruega, o assessor top-top Marco Aurélio Garcia e o ministro Cardozo (Justiça). Garcia veio exausto da “Conferência de Governança Progressista”, em Paris. 

DF TEM PLANO DE METAS 
O governador do DF, Agnelo Queiroz, reúne seu secretariado nesta segunda-feira, na residência oficial de Águas Claras, para discutir seu plano estratégico de ação. Os secretários vão sair da reunião com as metas a serem cumpridas até o final da administração.

ISOLADOS ANTENADOS 
Os Yanomami, na fronteira do Brasil com a Venezuela, descobriram o sequestro de avião como protesto contra a “má gestão da saúde”. É a segunda vez que deixam deixam funcionários da Funai a pé, no mato. 

IMPOSTO DIGITAL 
Ex-reitor da Universidade de São Carlos, o deputado Newton Lima (PT-SP) apresentou proposta destinando parte dos lucros do sistema financeiro para que o governo federal entregue um computador a cada aluno da rede pública, a partir da 5ª série.

ATRASADO 
Ganha uma viagem a Cuba o brasileiro que descobrir em algum país da Europa relógios com horário de Brasília, além de Londres, Tóquio, Nova York etc. Buenos Aires continua a única capital latina nos painéis.

VOZ DO BRASIL 
Ambos dizem que saíram, mas o deputado Carlos Alberto Grana (PT-SP) e o secretário da prefeitura de São Bernardo, Tarcísio Secoli, estão à frente da Fundação Sociedade, dona da TV dos Trabalhadores. 

PENSANDO BEM...
...poderiam ter esperado São João para jogar o Palocci na fogueira. 

PODER SEM PUDOR
SHOW FRUSTRADO 
O senador mala sem alça Eduardo Suplicy (PT-SP) sempre recorda a frustração de uma entrevista ao programa de Jô Soares, certa vez:
– Eu estava preparado para cantar...
Antes de ir para a tevê, ele ensaiou exaustivamente, até no avião, “Father and son”, celebrizada por Cat Stevens. 
Os telespectadores foram poupados.

DINHEIRO MANCHADO

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: No Rio, crime do colarinho branco fica sem punição
- Folha: Dilma decide ouvir Lula sobre destino de Palocci
- Estadão: Nova denúncia sobre imóvel agrava situação de Palocci
- Correio: Rombo da Caixa de Pandora em dez anos chega a quase R$ 1 bi
- Zero Hora: Roubo de carros volta a desafiar a polícia
-Jornal do Commercio: Protesto e guerra no Rio