sexta-feira, junho 03, 2011

CELSO MING - Um xerife para a Europa


Um xerife para a Europa
CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 03/06/11

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, guardião da saúde do euro, propôs ontem a criação de um Ministério da Economia e das Finanças para a área dos 17 países do euro. É uma ideia que desafia as novas tendências divisionistas da União Europeia. Se for aceita, mudará muita coisa no bloco.

Esse ministro da Economia e das Finanças teria mandato de xerife da integração fiscal, mas não viria para se meter na elaboração e na execução orçamentária dos países-membros do grupo. Teria três funções mais importantes: (1) monitorar o cumprimento dos tratados de Maastricht na área fiscal, ou seja, verificar o cumprimento da obrigação de não ultrapassar o limite do déficit de 3% do PIB; (2) terá competência na administração do sistema bancário da zona do euro, em níveis ainda não inteiramente claros; e (3) representar a União Monetária nos fóruns internacionais de economia e finanças.

Trichet vem denunciando a falta de um mínimo de coesão fiscal (e política) dentro do bloco para que o euro possa subsistir. A proposta vai na direção certa do ponto de vista técnico. Seu obstáculo mais relevante é político.

O momento não é de coesão, o princípio que prevaleceu na área desde os anos 50. Ao contrário, esta é uma crise de rachaduras no universo do euro.

Começou em 2005, quando a Constituição Europeia foi rejeitada. Agora, com o grande aumento da imigração, França e Itália estão pedindo a revisão do Tratado de Schengen, que garante a livre circulação entre os países signatários. Se isso acontecer, voltarão a funcionar as alfândegas e as políticas de fronteira. Por toda parte há manifestações contra as imposições de Bruxelas, a capital da União Europeia. As ideologias de fundo nacionalista estão ganhando corpo e, aparentemente, os políticos xenófobos estão mais fortes. Qualquer ruptura definitiva na área do euro tende a criar problemas ainda mais graves do que os que estão aí, especialmente para aqueles que se dispuserem a pular do barco sem colete salva-vidas. Em todo caso, a situação é de "ou vai ou racha".

Ainda não estão claras as funções desse superministro da Economia e das Finanças sugerido por Trichet. E qualquer um pode argumentar que não basta monitorar o comportamento de cada país-membro da área do euro em relação à disciplina fiscal. Nessa matéria, a questão mais importante é aquilo que os ingleses chamam de enforcement: até que ponto uma autoridade supranacional pode impor a cada governo soberano a observância dos tratados. E em que medida o bloco pode determinar punições aos descumprimentos. Nesse momento, por exemplo, nem mesmo os governos legitimamente constituídos vêm conseguindo convencer a população a aceitar sacrifícios.

Em todo o caso, essa Europa velha de guerra foi construída aos trancos. A união foi sendo costurada a partir das crises quase terminais. E foi somente quando tudo parecia se deteriorar inexoravelmente que as soluções foram sendo encontradas.

Ontem, por exemplo, foi anunciado um novo pacote de socorro para a Grécia. Não é a salvação final, mas é um desses passos que podem ajudar a encontrar uma saída. (Veja ainda o Confira).

CONFIRA

Não empolgou

A julgar pelo silêncio dos seus dirigentes, a proposta de Trichet (veja o texto ao lado) foi recebida com baixo nível de entusiasmo pela Alemanha e pela França, os dois membros mais importantes da área do euro.

Testamento

A proposta da criação de um Ministério da Economia e das Finanças da área do euro é uma espécie de testamento de Trichet. Em 31 de outubro ele terá de repassar seu mandato para o novo presidente do BCE.

Cadê o "Plano"?

Há 22 dias, o "Plano de Negócios 2011-2015" da Petrobrás foi rejeitado pelo seu Conselho de Administração. Uma semana depois, a Petrobrás avisou que não havia tempo hábil para refazer o programa de investimentos. E, de lá para cá, ninguém voltou ao assunto. Por quê?

Por enquanto, é isso aí

Em tempo: ontem, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, declarou que, para 2011, serão mantidos investimentos de R$ 92 bilhões.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


A era da incerteza
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/05/11

Entre petistas e principalmente aliados, dissemina-se a impressão de que a eventual saída de Antonio Palocci não será suficiente para pacificar a situação no Congresso, onde o governo, a despeito de sua folgada maioria teórica, segue tomando sustos.
Embora reconheçam que a situação do ministro da Casa Civil é crítica, deputados e senadores alegam que só haverá luz no fim do túnel se for abandonada a política de autossuficiência e confronto -da qual, lembram, Palocci era apenas o executor, obedecendo às ordens da presidente. "A crise é de gênero. O nome da crise não é Palocci", diz um expoente do PMDB.

Wally 
Senadores estranharam a ausência do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), durante a confusa sessão que terminou somente na madrugada de ontem e na qual a oposição conseguiu derrubar a votação de duas MPs. Segundo relatos, ele estava no gabinete assistindo à classificação do Santos para a final da Libertadores.

Para avaliar 
Das três MPs, só uma foi aprovada -a de interesse do principal ministro indicado pelo PMDB do Senado, Edison Lobão (Minas e Energia). Entre vários outros itens, a medida renova por mais 25 anos encargo da conta de luz.

Vírus do silêncio
Em audiência pública na Câmara, Chico Alencar (PSOL-RJ) se desculpou por sua rouquidão: "Peguei a gripe Palocci, aquela que tira a voz".

Conveniências 

Ontem, a Executiva do PT deixou para discutir o caso Palocci na iminência do encerramento da reunião. E se valeu da escanteada ala mais à esquerda do partido para sepultar a divulgação de uma nota pró-ministro. Integrantes desse grupo, como Renato Simões, pediram a saída de Palocci.

Gesto 

Criticada pela classe política, Dilma fez questão, ontem, de citar nominalmente grande parte dos presentes ao lançamento do Brasil Sem Miséria.

Reservado 

No jantar de anteontem no Alvorada, Dilma e Ellen Gracie, que em breve pedirá aposentadoria do STF, travaram bate-papo a sós por um bom tempo.

Pasta rosa 1 
Em depoimento que integra a investigação do escândalo de corrupção em Campinas, Marcelo Wegner Teixeira, segurança de um dos acusados de participação no esquema, diz que nas eleições de 2008 foram distribuídos dossiês a adversários do prefeito Dr. Hélio (PDT). Os papéis, com relatos da situação agora revelada, teriam sido enviados a Carlos Sampaio (PSDB) e Jonas Donizette (PSB).

Pasta rosa 2 
Os dois negam ter recebido a encomenda. "Nunca vi isso. E, se tivesse tomado conhecimento, teria encaminhado imediatamente ao Ministério Público", diz Sampaio.

Subterrâneos 
Em um dos diálogos flagrados nas escutas telefônicas, o coordenador de Comunicação da prefeitura, Francisco de Lagos, diz para a primeira-dama, Rosely Nassim -acusada de ser a coordenadora do esquema-, que recebeu a notícia dos bastidores da polícia de que havia "alguma coisa escondida no poço" da chácara dela.

Calculadora 
O governo paulista sustenta que a repactuação das taxas de retorno das concessionárias de rodovias não resultará, necessariamente, em redução nos preços dos pedágios. Apesar das dificuldades operacionais detectadas para a implantação da medida, a cobrança por km rodado é uma alternativa em estudo para as estradas sob concessão.

com LETÍCIA SANDER e RANIER BRAGON

tiroteio

"Dilma bem que poderia escalar o Palocci como consultor do programa Brasil sem Miséria. Seria certeza de sucesso."
DO PRESIDENTE DO PSDB, SÉRGIO GUERRA, comentando o lançamento das iniciativas do governo para combater a pobreza extrema em meio à crise provocada pela revelação do rápido enriquecimento do ministro da Casa Civil.

contraponto

Garfo e faca
Em almoço anteontem com Dilma Rousseff, os caciques do PMDB evitaram falar de cargos e de verbas federais, dois assuntos relacionados à imagem fisiológica da qual o partido procura se dissociar.
Na fila do bufê, o senador Renan Calheiros reparou na frugalidade do prato de José Sarney:
-O senhor veio até aqui para comer só isso?
Sarney pensou um pouco, e Renan emendou, rindo:
-Se eu fosse o senhor, colocava mais. Ninguém vai acreditar que o senhor saiu daqui com tão pouco...

MULHER MANIPULADA

FADI HAKURA - Secularismo no resgate da primavera árabe


Secularismo no resgate da primavera árabe
FADI HAKURA

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11

Os governos locais não devem privilegiar uma religião em relação a outras, nem derivar seus planos de ação política de fonte religiosa em particular

A primavera chegou cedo este ano no mundo árabe. A mudança climática despertou o Oriente Médio, antes comatoso, do torpor de lideranças singulares. Uma nova aurora de democracia e liberdade está surgindo, do Marrocos a Omã. Ou, pelo menos, é isso que nos é dito.
Fazer previsões meteorológicas é um negócio arriscado. Projeções futuras podem ser tremendamente imprecisas. A despeito dos modelos sofisticados e das imagens obtidas por satélites, o deciframento de padrões meteorológicos é uma ciência inexata. Adivinhar o futuro no Oriente Médio é uma miragem não menos ilusória no calor sufocante do deserto arábico.
O pluralismo democrático nunca é uma conclusão dada de antemão.
Contestações da velha ordem não podem garantir resultados lineares. Embora Mubarak tenha virado passado no Egito, o mesmo certamente não se deu com o aparato de Estado que ele construiu. O tribalismo iemenita e líbio não vai desaparecer com uma mudança de regime.
O sectarismo sunita-xiita continuará a ser uma característica que define o Bahrein, o Iraque e o Líbano. Minorias religiosas continuarão a se ressentir da governança de partidos islâmicos, moderados ou não.
O facciosismo vai continuar a dividir a unidade palestina.
A história nos ensina que eleições livres e justas não vão, por si sós, curar as divisões acirradas presentes nas sociedades árabes. Na realidade, é provável que as exacerbem. Destituídos de sentimentos de solidariedade nacional, os interesses sectários estreitos poderão ditar padrões de voto. Está faltando uma peça crucial do quebra-cabeça.
Sem ela, os países árabes possuirão a estrutura externa da democracia, mas não instituições representativas genuínas. Essa peça crucial que falta é o secularismo, um princípio que cinge as democracias mais vibrantes -a crença na ideia de que o Estado deve existir separadamente da religião ou das crenças religiosas.
Os governos não devem privilegiar uma religião em relação a outras, nem derivar seus planos de ação política de nenhuma fonte religiosa em particular. Devem ser equidistantes de todas as religiões -ou seja, concretamente, devem ignorar as persuasões religiosas das pessoas.
Os árabes confundem secularismo com ateísmo e o interpretam como ausência de religião, em vez de liberdade religiosa. Mais danosa ainda é a vinculação do secularismo com regimes passados no Egito e na Tunísia, conhecidos por terem refreado movimentos islâmicos.
No momento em que estuda uma nova Constituição, o Egito está debatendo o papel da religião na sociedade. O artigo 2º da Constituição atual, de 1980, define o islã como a religião nacional e "fonte principal" das leis. Enquanto os cristãos coptas pedem que seja revogado, a opinião muçulmana, maioria avassaladora, é favorável a sua manutenção. Os coptas veem esse artigo como excludente e divisório.
O Centro Pew de Pesquisas oferece evidências fartas dos benefícios da separação entre religião e Estado. Em pesquisa de 2009, mostrou que as democracias seculares liberais exibem as menores restrições governamentais e hostilidade pública contra religiões minoritárias.
Quer o secularismo seja flexível, quer não, alimentá-lo no mundo árabe é um desafio difícil. A democracia secular requer transformação de culturas e mentalidades.
Não será fácil, nem mesmo nos melhores dos tempos. Mas é o único ideal que pode impedir a chegada de um inverno árabe inclemente.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - Os "indignados" e o banqueiro


Os "indignados" e o banqueiro
VINÍCIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
Protesto dos "indignados" da Espanha se dispersa sem contagiar Europa, cujo futuro é decidido pela banca


ALGUNS JOVENS "indignados" espanhóis fizeram manifestações simpáticas contra "tudo isso que está aí (lá)". Contra o desemprego de 40% das pessoas de até 24 anos. Contra a "corrupção". Contra a "política convencional" e os partidos dominantes: contra a opção entre os "seis" (a direita, o Partido Popular) e os "meia dúzia", os socialistas.
Os "indignados" pregavam o voto em ninguém na eleição havida faz uma dúzia de dias. Os espanhóis convencionais acabaram votando na direita, não porque o sejam, mas porque os socialistas eram o poder de turno na crise da vez.
Tal como jovens despolitizados do mundo todo gostam de alardear, o protesto "indignado" não tinha "lideranças" nem um "programa fechado". Tal como qualquer protesto sem liderança e programa (que não os tem ou não os cria), o camping dos "indignados" se dispersou como um protesto nuvem: virtual.
Domingo, há eleição em Portugal. O país viverá recessão neste ano, no próximo e talvez por muito tempo, pois quebrado e sob tutela europeia.
Não costuma haver protestos em Portugal. Espera-se abstenção grande. Um terço do eleitorado ainda não sabe se vota nos "meia dúzia" (os socialistas, que eram o poder de turno) ou nos social-democratas (a direita, os "seis"). Na falta de maioria clara e disposta a aprovar medidas que arranquem o couro da população, fala-se em "governo de união nacional".
Os governos europeus, da direita à esquerda moderadas, não têm o que dizer sobre política econômica faz quase 20 anos, e menos ainda o que fazer depois da união monetária, faz mais de uma década.
Mandam pouco nos ministros de Finanças e ainda menos no Banco Central Europeu (BCE). Temem também mexer no sistema de bem-estar social. Tal como os americanos, os europeus não sabem (ou não têm como) criar empregos, transferidos para o complexo China, problema piorado pelo engessamento das economias, de resto "competitivas" em setores de ponta, que empregam pouco e concentram renda.
Ao contrário dos "indignados" espanhóis e outros perdidos, a finança e a grande empresa europeia têm lideranças e programa. Ontem, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, sugeriu a criação de um ministério de Finanças europeu. Isto é, um ministério para regular gastos e impostos dos governos nacionais.
Em tese e em parte, tal regulação já existe, com os limites ora estourados do Tratado de Maastricht. Mas a ideia básica agora é acabar de vez com os governos locais.
Claro, trata-se de coisa enrolada e polêmica. Na prática, os países menores já estão sob intervenção europeia, como Grécia e, em menor grau, Irlanda e Portugal. De resto, Trichet deixa o BCE em novembro. Mas seu provável sucessor, o italiano Mario Draghi, já faz salamaleques para os donos do dinheiro na Europa, a elite alemã, que tem horror de relaxamento monetário e fiscal e quer conduzir o seu quintal econômico sob rédea curta.
Os "indignados" das ruas da Espanha e os desanimados de Portugal com razão já se mostram indiferentes às trocas de governo, de "seis" por "meia dúzia". A crise, a reação da finança e da Alemanha e as propostas de unificação econômica final vão tornar a política partidária local ainda mais irrelevante, assim como o voto de seus eleitores.

GOSTOSA

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - As causas estruturais do real forte

As causas estruturais do real forte
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
Entrada maciça de capitais e valorização de produtos primários no exterior estão entre as causas do real forte
UMA DAS QUESTÕES mais relevantes no debate econômico atual tem sido a força do real nos mercados de câmbio. Apesar do esforço do governo, a moeda norte-americana está novamente sendo negociada abaixo de R$ 1,60.
As causas por trás do real valorizado continuam a ser as mesmas que prevalecem há vários anos: entrada maciça de capitais e valorização de produtos primários importantes nos mercados internacionais.
A diferença agora fica por conta de uma mudança na composição dos recursos que estão entrando no país: as aplicações em títulos de renda fixa estão sendo substituídas por investimentos diretos no capital de empresas brasileiras.
Muitos analistas dizem que esse fluxo de investimentos -que, nos últimos 12 meses, chegou a mais de US$ 60 bilhões- não se sustenta no médio prazo e que o real vai voltar a se desvalorizar. Para esses pessimistas, uma nova crise internacional pode ocorrer a qualquer momento e o Brasil enfrentará a fuga desses capitais. A causa mais citada para esse cenário negativo é a de crise na China, seja por questões econômicas, seja por questões políticas.
Mas outro cenário provável é que o crescimento chinês se sustente -como vem acontecendo há mais de 20 anos- e que o mundo emergente atravesse a próxima década crescendo de forma sustentada.
Nessas condições, o Brasil continuará a receber investimentos maciços, principalmente se o governo Dilma resolver trilhar o caminho das concessões de serviços públicos ao setor privado e de outras reformas.
Para um país com taxas muito baixas de poupança -privada e do governo-, a única forma de financiar os investimentos para garantir crescimento anual de 4% será a absorção de poupança externa.
Essa é uma verdade derivada da teoria econômica, e não apenas uma posição ideológica de liberais extremados. Por essa razão é que o real forte é um subproduto natural da onda de investimentos que varre nossa economia e que o governo -corretamente- quer preservar a todo custo. Ou seja, não há como fugir desse fato, a não ser reduzindo os investimentos e, mais à frente, o próprio crescimento econômico.
Outras forças externas estão agindo também na direção do real forte. A principal delas é a valorização das exportações de produtos primários e que têm garantido saldo comercial expressivo, apesar do aumento vigoroso das importações.
Outra fonte externa de demanda pelo real está relacionada com os juros baixos que devem prevalecer no mundo desenvolvido nos próximos anos. A fraqueza da recuperação econômica nos Estados Unidos e em outros países do Primeiro Mundo e o choque deflacionário que ainda virá quando tiverem de lidar com os níveis insustentáveis do endividamento público devem manter esse quadro de juros baixos por um tempo ainda bastante longo. Os mercados, aliás, especulam com um novo movimento do Federal Reserve -que se ria chamado de QE3- no sentido de manter os mercados inundados de dólares em 2012.
Nesse ambiente, os países emergentes vão continuar a receber investimentos internacionais por muitos anos, movimento que deve sustentar as cotações atuais de suas moedas. E o Brasil, que alia um grande potencial de crescimento a juros internos elevados, vai ser uma das economias de maior atração.
Finalmente, podemos observar já há algum tempo uma busca por moedas alternativas por parte dos bancos centrais de países com superavit em conta-corrente -principalmente na Ásia e os produtores de petróleo- e grandes investidores institucionais privados para compor suas reservas e carteiras de investimento de renda fixa.
A gestora de recursos Pimco, a maior do mundo, revelou recentemente que tem hoje um volume de títulos de países emergentes maior do que sua carteira de papéis do Tesouro norte-americano.
Por todas essas razões, acredito que teremos de conviver por muito tempo com o real valorizado e buscar, por outros meios, minorar seus efeitos negativos, entre eles a perda de competitividade da indústria brasileira.

WASHINGTON NOVAES - Energia nuclear agita o panorama


Energia nuclear agita o panorama
WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo - 03/06/11

Uma informação publicada por este jornal no dia 27 de abril, num levantamento sobre energia nuclear assinado por Karina Ninni, começa a provocar fortes reações e manifestações públicas em Goiás. Já constava do levantamento que a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) estuda a possibilidade de depositar em Abadia de Goiás, a 27 quilômetros de Goiânia e a 200 de Brasília, "rejeitos radiativos de baixa e média intensidade, subprodutos de atividade radiativa" das usinas nucleares de Angra I e II. E em Abadia de Goiás já está o depósito de mais de 6 mil toneladas de resíduos contaminados pelo acidente com o césio 137 em 1987, que matou quatro pessoas e contaminou mais de mil, incluídos policiais, bombeiros (que trabalharam na remoção) e funcionários da área de saúde (que lidaram com possíveis vítimas).

A prefeitura de Abadia de Goiás está indignada. Recebe menos de R$ 20 mil por mês da Comissão Nacional de Energia Nuclear por haver, na emergência, cedido o local para remover do centro de Goiânia os resíduos. Ali um depósito foi construído, acima do solo - porque o lençol freático praticamente à superfície não permitia aprofundá-lo. E de temporário passou a definitivo, porque nenhum lugar no Brasil o aceitava - a ponto de goianos serem apedrejados em outras cidades quando as placas de seus veículos eram identificadas. Agora, sobrevém o temor de que o novo depósito não só seja definitivo, como abrigue os resíduos mais perigosos de Angra I e II, que permanecerão ativos durante séculos (e hoje estão depositados em piscinas nas próprias usinas). E até os de Angra III, porque a licença para sua implantação estabeleceu como condicionante que haja um depósito definitivo - que não existe em lugar nenhum no mundo; mesmo os Estados Unidos, que já investiram mais de US$ 100 bilhões para instalar um depósito 300 metros abaixo do solo na Serra Nevada, não conseguem liberá-lo na Justiça, que considera insuficientes as garantias.

Que fará a CNEN, já que o seu projeto é de construir mais quatro usinas nucleares no Brasil, fora Angra III, mesmo enfrentando fortes resistências? A própria usina de Angra III já é vista com ressalvas claras pelo cientista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e um dos coordenadores da área do clima no País, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, afirmou que a sua localização deveria ser revista, uma vez que os cientistas apontam evidências claras de elevação do nível do mar no litoral fluminense.

Talvez se argumente que para o depósito projetado iriam apenas "filtros, resinas, água e equipamentos de proteção pessoal com contaminação de média intensidade", que serão transportados em caminhões (!). Mas há uma resolução do Conselho Estadual de Meio Ambiente goiano que, segundo o presidente da Agência Municipal de Goiânia, Clarismino Pereira Júnior, "impede a transformação do depósito de Abadia de Goiás em repositório nacional" (O Popular, 21/5). Outro temor é de que receba os resíduos mais perigosos de Angra, inclusive de Angra III - embora este projeto esteja com problemas, pois o financiamento para os equipamentos da usina parece ameaçado (O Globo, 6/5).

Essas pressões são parte de uma tendência mundial após o desastre de Fukushima, no Japão: 54% das pessoas ouvidas em muitos países pelo instituto Global WIN manifestaram-se contra a energia nuclear - 90% na Áustria, 89% na Grécia, 75% na Itália, 64% na Alemanha. E 54% no Brasil (Estado, 19/4). A conceituada revista New Scientist (26/3) afirma até que a energia nuclear "precisa cortar o cordão umbilical com a área militar", embora até 2015 mais 18 usinas devam entrar em atividade, somando-se às 437 já em atividade, 50% das quais na Europa Ocidental. Mas já em 2010, diz o WorldWatch Institute em seu relatório anual, as novas fontes de energia eólica, de biomassas, de resíduos e solar, juntas, suplantaram, com 381 gigawatts, os novos projetos de usinas nucleares (375 gigawatts). O investimento para isso foi de US$ 243 bilhões.

Em 22 anos 130 usinas nucleares fecharam as portas. A Alemanha já determinou a suspensão das atividades de todas as que tenham mais de 30 anos e até 2022 deixará de usar energia nuclear (Estado, 31/5). A Bélgica e a Suíça estudam "estratégias de saída", assim como o Chile. A China suspendeu novos projetos e os Estados Unidos descartaram dois novos reatores no Texas. "As consequências de Fukushima para a indústria nuclear serão devastadoras", diz o WorldWatch Institute. Ainda mais lembrando que em 80 anos deverão estar esgotadas as reservas mundiais de urânio.

Tudo pode complicar-se mais ainda com a revelação pela empresa Tepco, de Fukushima, de que, na verdade, três dos seis reatores se derreteram - não é possível sequer levar técnicos para as proximidades da usina, tal o nível de radiação (Fukushima, como Angra, mantém os resíduos reativos em piscinas). E também com as últimas informações sobre o agravamento da crise econômica japonesa, já que o desastre nuclear levou o PIB do primeiro trimestre a cair ali 3,7% em relação ao primeiro trimestre de 2010. E para completar, em abril o mundo relembrou, 25 anos depois, o desastre de Chernobyl, que matou 31 pessoas e atingiu mais de 1 milhão. Até hoje persistem problemas, porque a cobertura construída sobre o reator danificado precisa ser substituída. E a Ucrânia não tem recursos (Agência Estado, 27/4) - a ponto de vítimas que residem nas proximidades receberem apenas US$ 4 por mês.

Como têm observado, inclusive nesta página, vários especialistas, o Brasil tem várias alternativas em matéria de energia, algumas já mais baratas que a nuclear (como a eólica, por exemplo). E pode economizar muito do que consome. Não precisa continuar atado a uma forma de energia mais cara, muito mais perigosa e sem destinação para resíduos altamente perigosos, como a nuclear.

DILMA BARRIL

RUY CASTRO - O segundo ato


O segundo ato
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
RIO DE JANEIRO - O escritor F. Scott Fitzgerald dizia que não há segundo ato na vida dos americanos. Ele próprio foi uma prova. Derrubado (pelo alcoolismo e outras tragédias) do posto de maior revelação dos anos 20, o criador de "O Grande Gatsby" nunca se levantou. Quando morreu, em 1940, muitos se espantaram de que estivesse vivo.
No Brasil, o primeiro ato não termina ou o segundo é infalível, principalmente em certas categorias profissionais. Políticos, por exemplo. Mesmo que caídos em desgraça e condenados ao opróbrio, logo voltam à tona e retomam suas carreiras em grande estilo. A desmemória e o beneplácito do eleitorado garantem que eles nunca fiquem muito tempo fora de cartaz.
O ex-presidente José Sarney, que deixou o Planalto em 1990, e já o deixou tarde, nunca saiu dos subúrbios do poder. Até hoje, não passa uma semana sem ter de se explicar por algum passo em falso, mas sua vida é um ato único e interminável. Seu sucessor, Fernando Collor, foi limado da cena política em 1992 -e, tudo levava a crer, para sempre. Pois, cumprido certo período de carência, voltou para uma confortável zona fantasma no Senado, da qual pode sair a qualquer momento.
O ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que parecia liquidado pelo mensalão, continuou correndo em sua raia -passou apenas para o lado da sombra, que lhe assenta mais. E até seu correligionário Delúbio Soares, apanhado na mesma ratoeira, também já foi readmitido em sociedade. Ou na sociedade.
O único pecado que um político não pode cometer é morrer -os que fazem isso têm de encerrar prematuramente a carreira. Como a morte não parece estar em seus planos, o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, quando livre das peias do poder, poderá dedicar-se a continuar engordando seu patrimônio e preparar-se para, daqui a quatro anos, voltar à vida pública.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Indústria têxtil tem maior queda de produtividade no país, diz Fiesp
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
A produtividade da indústria brasileira sofreu queda em 13 setores da economia no primeiro trimestre deste ano, ante o mesmo período de 2010, segundo estudo que será divulgado hoje pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
A produção têxtil foi a mais afetada, com baixa de 13,8%, de acordo com a entidade, que avaliou 19 setores.
"É um setor que não consegue vender a produção, pois sofre muito com a concorrência dos importados", diz o coordenador da pesquisa, André Rebelo.
As indústrias de calçados e couro e de metalurgia básica também diminuíram sua produtividade, em 6,8% e 6,4%, respectivamente.
No trimestre analisado, as horas trabalhadas nas plantas industriais subiram 2,6%, enquanto a produção física cresceu 2,3%.
Com isso, a média da produtividade nacional caiu 0,2% no período, segundo o levantamento da Fiesp.
A reversão desse quadro não deverá acontecer neste trimestre, tampouco até o fim deste ano, segundo Rebelo.
"As medidas de contenção de demanda, como o aumento das dificuldades para obtenção de crédito, costumam fazer efeito após seis meses, o que deverá ocorrer no segundo semestre", diz.
Entre os setores que apresentaram aumento da produtividade no primeiro trimestre deste ano estão o madeireiro e o de refino de petróleo e álcool, com 12,5% e 9,7%, respectivamente.

PEQUENOS FRASCOS
A multinacional francesa SGD, especializada na fabricação de vidros para as indústrias farmacêutica e de perfumaria, vai investir R$ 70 milhões na fábrica em São Paulo.
A capacidade produtiva da empresa vai dobrar, de 1 milhão de unidades por dia para 2 milhões em 2012.
Com tecnologia importada da Alemanha e da Itália, a companhia vai fabricar embalagem "premium".
"Frascos como os usados por Chanel estarão disponíveis no mercado brasileiro", diz André Liberali, diretor-geral da SGD no Brasil.
Com o aumento da produção, a empresa prevê crescimento das vendas também para o mercado externo. "Venderemos para países que hoje compram dos EUA." A companhia já exporta para Argentina, Peru e Colômbia.
O faturamento mundial do grupo foi de 510 milhões no ano passado.
O mercado brasileiro representou 10% e a expectativa é dobrar a fatia em três anos, segundo Liberali.

CRÉDITO
A Agência de Fomento Paulista desembolsou R$ 61 milhões em crédito para pequenas e médias empresas de janeiro a abril deste ano.
No mesmo período do ano passado, foram aproximadamente R$ 49,5 milhões.
O volume total desembolsado pela instituição, desde que teve origem, em março de 2009, chegou a R$ 320 milhões até maio.
O setor de serviços, que registrou um crescimento de 14% nos primeiros quatro meses deste ano, tem hoje participação de 12% no total de crédito para financiamento oferecido pela agência.
A indústria tem 70,5% e o comércio, 12,5%. No setor público, as prefeituras do interior, a parcela é de 4,9%.

CAMINHO DAS ÍNDIAS
Os exportadores brasileiros do Sul terão mais uma rota para o mercado asiático.
Os armadores PIL, NYK, "K" Line e Hyundai farão a nova linha com escala no Portonave, terminal portuário de Navegantes (SC).
No Oriente, as embarcações da nova rota vão atracar nos portos de Ningbo, Xangai, Shenzhen, na China, além de Cingapura e Kelang, na Malásia.

Bebida... 

Coca-Cola Brasil e Walmart lançam em parceria projeto de gerenciamento da categoria de bebidas, para melhorar o fluxo de compra e aumentar a atratividade.

...com gás 

A loja Walmart Tamboré (SP) é a primeira a implementar a solução em fase de teste. Os resultados mostram aumento de 24% no volume de vendas e de 19% no faturamento de janeiro a março.

Inovação 
A Associação Brasileira de Biotecnologia prepara o mapeamento da biotecnologia brasileira, que será apresentado na BIO 2011, em Washington, no final do mês.

Contratação 
O ex-secretário municipal de Desenvolvimento do Rio de Janeiro Felipe Góes é o novo diretor-superintendente da São Carlos Empreendimentos, que administra imóveis comerciais.

CONTRA "BULLYING"

A ACE Seguradora lança no Brasil um seguro para escolas com cobertura para "bullying".
O produto, que fará parte do portfólio de responsabilidade civil profissional da empresa, oferece garantia de recebimento de indenização em caso de condenação por negligência em episódios que envolvem "bullying", desvio de documentos do aluno e violência.
"Instituições de ensino no país começam a demandar esse tipo de solução securitária", de acordo com Daniel Gonzales, da ACE.
O seguro, que poderá ser contratado por universidades, colégios, escolas de idiomas, de música e outros, oferece também cobertura para tratamentos psicológicos dos alunos vitimados, segundo a empresa.
As proteções abrangem perdas financeiras devido a eventos previstos em contrato, custas da defesa e gerenciamento de crise.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA - A missão e o momento


A missão e o momento
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11

Dirijo-me à senhora agora, presidente, porque vejo seu governo ameaçado pelo caso Palocci; não deixe seu grande momento na política escapar

Presidente Dilma, nada é hoje mais importante para os brasileiros do que o bom êxito do seu governo.
Como um deles, torço para que a senhora entregue o poder para seu sucessor reconhecida por todos.
Ninguém deseja mais esse resultado do que a senhora mesma, porque é natural que almejemos o sucesso de nossos empreendimentos. E porque a senhora deixou claro em sua vida pública seu compromisso com o bem público; porque não escolheu a vida política para ficar rica ou para gozar o poder em nome do próprio poder, mas para contribuir para a construção de um Brasil mais próspero, mais democrático e menos injusto.
Torço pela senhora, e até há pouco estava confiante de que seria bem-sucedida, dados o equilíbrio e a firmeza com que iniciou o seu governo. Comecei a ficar preocupado quando não resolveu colocar como prioridade econômica administrar a taxa de câmbio e colocá-la em um nível compatível com o desenvolvimento sustentado do país, mas essa é uma outra história, para um outro momento.
Agora, me dirijo à senhora porque vejo seu governo enfraquecido e ameaçado pelo caso Palocci. O ministro estaria sendo injustiçado pela imprensa, a começar por esta Folha? Não creio, seu enriquecimento súbito só pode ser explicado por tráfego de influência.
Há mais fatos a serem verificados? Muito poucos. Ele reconheceu oficialmente seus ganhos em sua declaração do Imposto de Renda.
O nome de todas as empresas que o pagaram não foi divulgado, mas não há dúvida de que todas têm interesses no Estado. Há a pergunta sobre o que e quanto elas ganharam, mas as trocas que as empresas fazem com políticos influentes raramente são diretas e claras. Elas, porém, contam com o retorno do seu "investimento".
O ministro é insubstituível? Não o é mais em relação aos setores mais conservadores da sociedade.
Analistas sugeriram que ele era o "fiador" de seu governo com as elites, mas, se isso foi verdade, hoje, depois do escândalo, não é mais.
As elites são pragmáticas e impiedosas. Mas não seria ele necessário do ponto de vista político, dada sua habilidade em negociar? Sem dúvida, governar é fazer política. E a política é a arte de argumentar e de fazer concessões mútuas para alcançar maioria e governar.
Mas, hoje, Palocci é um político enfraquecido; é um peso, e não um ativo em seu governo.
Alguns me dizem que, se o chefe da Casa Civil for dispensado, seu governo sairá enfraquecido porque cedeu. Não creio. O malfeito não ocorreu no seu governo. Para governar, a senhora precisará fazer concessões, mas só vale a pena fazê-las com quem pode somar.
Antonio Palocci pode ser amigo de Dilma Rousseff, mas não é amigo da presidente do Brasil.
Uma presidente não tem amigos.
Tem apenas um compromisso consigo mesma e com seu país. Sei que essa afirmação não é verdadeira para muitos políticos, mas para a senhora é. A política para a senhora é uma missão, e a presidência do Brasil, seu grande momento. Não o deixe escapar.

GOSTOSA

ELIANE CANTANHÊDE - Procuram-se boias


 Procuram-se boias
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
BRASÍLIA - Como chefe da Casa Civil, Antonio Palocci saiu do lançamento do Brasil sem Miséria antes de Dilma e pelos fundos. Como ministro de fato da articulação política, não pôde sequer ir ao almoço da presidente com os senadores do PMDB. Como petista, criou um dilema para a Executiva do PT: fazer ou não nota em seu apoio.
O que se pode deduzir? Que, ao contrário do que querem fazer crer os governistas, o problema deixou de ser "pessoal" -de Palocci- e passou a ser do governo e da própria Dilma. Quanto mais o tempo passa, mais constrangedora é a situação. E sem luz no fim do túnel.
Se Palocci não fala, seu silêncio é ensurdecedor. Se falar hoje, sua fala será emudecedora. A não ser, claro, que explique tudo o que não conseguiu explicar em três semanas, desde que a Folha escancarou que seu patrimônio se multiplicara por 20, incluindo um apartamento maneiro de R$ 6,6 milhões.
Era a história de uma crise anunciada. Quem fica horrorizado com a filha de Fujimori concorrendo a presidente do Peru deveria igualmente ficar com o pulo do gato de Palocci. Ele caiu do governo Lula (depois das malas de dinheiro, da casa esquisitona em Brasília e da quebra do sigilo do caseiro Francenildo) e voltou a subir a rampa do Planalto como homem forte de Dilma. Não podia dar certo. A surpresa é que foi cedo demais, já no primeiro semestre de governo.
Com Palocci jogado ao mar, o ministro político Luiz Sérgio carimbado indelevelmente como "garçom" (o que só anota os pedidos), o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, ainda digerindo a derrota do Código Eleitoral, e o do PT, Paulo Teixeira, engolido pela insignificância, quem ocupa o vácuo? O PT é que não é.
Sobram o PMDB, que lambe os beiços depois do almoço com Dilma, e Gilberto Carvalho, em ascensão. O governo Dilma está cada vez mais com cara de governo Lula. Mas sem Lula.

CLÁUDIO HUMBERTO



“Lula demitiu Palocci. Não deveria pedir a Dilma para mantê-lo”
SENADOR PEDRO SIMON (PMDB-RS) AO SUSTENTAR QUE PALOCCI CONSTRANGE A PRESIDENTE

LULA INDICARÁ O EVENTUAL SUBSTITUTO DE PALOCCI 
Assim como impôs Antônio Palocci para a Casa Civil do atual governo, o ex-presidente Lula também escolherá seu eventual substituto, segundo definiu a presidente Dilma. O mais cotado é outro homem de confiança de Lula, seu ex-secretário particular Gilberto Carvalho, hoje secretário-geral da Presidência. Mas a saída de Palocci provocaria um outro problema: a articulação política do governo seria desmobilizada.

MOSCA-MORTA 
A demissão de Palocci, também chefe da articulação política, forçaria a saída do ministro mosca-morta Luiz Sérgio (Relações Institucionais).

FRACASSO 
Luiz Sérgio tem sido um fracasso. Ele não conseguiu blindar Palocci do vexame da convocação, apesar da maioria governista na Câmara.

JOGO DE XADREZ 
Demitindo Luiz Sérgio, Dilma vai precisar de solução que agrade a José Dirceu, a quem o ministro é ligado, e ao PT-RJ, ao qual ele é filiado.

PADILHA, O RETORNO 
A base aliada no Congresso já sinalizou ao Planalto que deseja o retorno do ministro Alexandre Padilha (Saúde) à articulação política.

TELEBRÁS: SOBREPREÇO NO CAMINHO DE EX-DIRIGENTE 
Posando de “perseguido” pelas empresas de telefonia, o presidente demitido da Telebrás, Rogério Santana, é vítima dos próprios erros. O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) o demitiu, sem pestanejar, após o plenário do Tribunal de Contas da União confirmar as denúncias de superfaturamento de R$ 43 milhões (o cálculo dos auditores apontam R$ 121 milhões) na licitação da estatal para equipamentos e sistemas de fibras ópticas do Plano Nacional de Banda Larga. Vexame.

GRANDE IRMÃO 
Após aprovação do projeto que criminaliza jornalistas que divulgarem fatos sob investigação, só falta outro criando a “polícia do pensamento”. 

PERGUNTA NO PASTO 
Será que agora a vaca vai para o brejo com a convocação de Palocci pela Comissão de Agricultura da Câmara?

MARCHA DE VICIADOS 
Viciados em maconha de Brasília fazem uma marcha, nesta sexta, pela legalização da droga. Ainda não apareceu um juiz que proíba a asneira.

FARDO PESADO 
Senador peemedebista que esteve no almoço com Dilma, quarta-feira, achou a presidente abatida, olhar cansado, características típicas de quem está sofrendo com algo bem maior que o estresse, por exemplo.

PLANTAÇÕES MANTEGA S/A 
Assessores do ministro Guido Mantega (Fazenda) estão excitados com os sinais de possível queda de Antônio Palocci. O ministro da Casa Civil é a sombra que mais incomoda o chefe deles.

CALA BOCA, MINISTRO 
Na conversa com senadores do PMDB, Dilma desautorizou Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, proclamando o contrário do que afirmara o subalterno: “Ninguém governa só com o Executivo”. 

COMO DEVE SER 
Chamou a atenção de Dilma a defesa do senador Waldemir Moka (PMDB-MS) do Código Florestal. Até sugeriu que o debate no Senado se desse com dados e informações técnicas. Sem fundamentalismos.

COMO PINTOS NO LIXO... 
A empresa de limpeza Limpel manda mesmo na secretaria de Finanças da Prefeitura de Maceió. Com um crédito de R$ 1,5 milhão adquirido com deságio, furou a fila de precatórios e quitou uma dívida em ICMS. 

...E IMÓVEL GARANTIDO 
O deputado Marcos Barbosa (PPS) denunciou que uma filha da secretária de Fianças de Maceió, Marcilene Costa, comprou um imóvel de Antônio Tarcísio, dono da Limpel, e o registrou em outra cidade.

A CASA CAIU 
O Tribunal de Justiça-SP negou por unanimidade reconsiderar a negativa da liminar pela quebra do sigilo bancário e fiscal do tesoureiro petista e ex-presidente da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) João Vaccari Neto, suspeito de desviar fundos ao PT. 

ACERTOU NO MILHAR 
O Itamaraty vai adiantar até agosto R$ 20,1 mil em diárias, fora salário de US$ 8 mil e passagens da funcionária em Washington que cuida da reforma da residência oficial do chanceler Antônio Patriota, em Brasília.

PENSANDO BEM... 
...Palocci seria um excelente garoto-propaganda do programa “Brasil sem miséria”. 

PODER SEM PUDOR
BATEU, AMOU
Questionado por um colega se tinha mesmo batido em uma deputada no plenário da Câmara, certa vez, o polêmico deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que é militar reformado, respondeu fazendo piada:
– Não bati. Quando eu bato, elas se apaixonam.

UM CARA MUITO ESCROTO

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Já sem apoio do PT, Palocci promete explicação pública
Folha: Não sou refém, diz Dilma; Palocci promete respostas
Estadão: Dilma pressiona e Palocci planeja dar explicações
Correio: Fim do incentivo fiscal ameaça economia do DF
Valor: Emprego reforça tendência de novos apertos nos juros
Zero Hora: Falta de investimento vai reprisar inverno de emergências lotadas