terça-feira, maio 31, 2011

VLADIMIR SAFATLE - Correndo no ar


Correndo no ar
VLADIMIR SAFATLE 
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11

É possível que, em algum momento na história do Exército brasileiro, ter senso de humor tenha sido condição para integrar suas fileiras.
Era bom ter um tipo de humor típico dos desenhos animados em que a raposa persegue sua presa e acaba não percebendo que o chão acabou.
Ela continua correndo, mas no ar. Todos veem que seus movimentos são irreais, menos a raposa. Até o momento em que a farsa não tem como continuar e a raposa cai.
Alguns militares responsáveis por crimes contra a humanidade, como tortura e terrorismo de Estado, agem até hoje da mesma forma. Eles continuam correndo no ar, como se o que todos enxergam não devesse ser levado a sério.
Vez por outra, eles nos escarnecem ao irem à imprensa e falar que nunca torturaram, sequestraram e ocultaram cadáveres, até porque, segundo os próprios, nem sequer houve tortura como prática sistemática de Estado. Operação Condor foi delírio de documentarista desempregado.
Em breve, eles nos convencerão que nem sequer houve ditadura militar. Tudo teria sido só um conjunto de medidas preventivas para impedir o "grande golpe comunista", inexoravelmente em marcha.
Há alguns meses, o antigo ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, nos mostrou um pouco dessa arte cômica ao afirmar que Vladimir Herzog se suicidou, já que era uma "pessoa assustada e não preparada".
Dias atrás, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi entre 1970 e 1974 (ou seja, no momento mais negro e brutal da história brasileira), nos mostrou a mesma habilidade ao dizer, nesta Folha, que nunca torturou ninguém, que a história contada por Persio Arida a respeito de sua tortura era uma farsa.
Da mesma forma, teria sido uma farsa a acusação da então deputada federal Bete Mendes ao identificá-lo, no começo da década de 80, como aquele que a tinha torturado. Ao ser réu em uma ação declaratória de tortura e sequestro impetrada pela família Teles, o coronel mais uma vez não titubeou e simplesmente negou tudo, mesmo que o juiz da 23ª Vara Cível de São Paulo tenha julgado a ação procedente.
Em qualquer outro país, torturadores como o coronel Ustra estariam na cadeia, tal como foram presos militares que fizeram o mesmo -como Manuel Contreras e responsáveis por crimes contra a humanidade, como Jorge Videla, Ernesto Galtieri e companhia.
Aqui, eles podem continuar a correr no ar. Assim, convivemos com responsáveis por crimes hediondos que acreditam poder apagar a história, insultar a memória, deixando a ameaça velada de quem diz: nunca fiz isso e, como nunca fiz, ninguém pode me impedir de não fazer novamente. Enquanto isso, ficamos esperando as raposas caírem.

MÍRIAM LEITÃO - O Fundo, no fundo


O Fundo, no fundo 
MIRIAM LEITÃO

O Globo - 31/05/2011

O FMI virou não se sabe muito bem o que depois do terremoto de 2008 e seus after-shocks. Tão duro e exigente com os emergentes, tão condescendente com os países que o controlam! É uma contradição insanável. Ontem, Christine Lagarde disse que ser europeia não é benefício nem falta. É benefício sim. É o que a mantém na frente da disputa.

Lagarde tem vários méritos, mas sua certidão de nascimento é o fator determinante de estar na frente da disputa pelo cargo mais importante do Fundo Monetário Internacional (FMI). Fosse tudo o que é, boa gerente, boa ministra das Finanças, advogada reconhecida, boa comunicadora, boa negociadora, com inglês perfeito, mas tivesse nascido em qualquer país não europeu, não seria a candidata do G-8. Portanto, não é uma falha ser europeia, mas é um benefício.

Lagarde será a nova diretora- gerente do FMI porque os ricos se uniram em torno dela e porque os emergentes não se uniram em torno de ninguém. A China está de olho em um lugar para si, o segundo posto. Os candidatos avulsos que aparecem são mais lembranças de analistas que qualquer movimento de articulação. Só o México lançou Agustín Carsten, presidente do Banco Central do país.

A imprensa inglesa tem criticado mais que os países emergentes esse monopólio do cargo mais importante do Fundo pela Europa. Segundo a “Economist”, o monopólio é há muito tempo uma anomalia.“ É tempo de acabar com isso.” Ainda de acordo com a revista, “dadas as circunstâncias da saída do Sr. Strauss-Kahn, o fato de ela ser mulher é um bônus.”

Na reunião de ontem no Ministério da Fazenda, Lagarde e o ministro Mantega conversaram a sós por 20 minutos. Depois foram para um almoço em que havia assessores. Na segunda parte da conversa os assuntos foram mais a situação da economia mundial, crise da Europa, do que propriamente a sucessão no FMI. O Brasil não tem intenção de lançar candidatura para marcar posição, mas gostaria que tivesse sido diferente a substituição de Strauss-Kahn. Inclusive quando o francês esteve no Brasil pedindo voto, o país tinha pedido que o critério de ser sempre um europeu a dirigir o Fundo fosse quebrado. Ele prometeu. Mas sua saída intempestiva e traumática invalidou o combinado.

Mais do que um critério ultrapassado, o que a “Economist” diz é que é inapropriado que seja um europeu porque é lá que ocorre a principal crise financeira do mundo hoje. “O Fundo teria que ser um árbitro imparcial da política econômica. É a única organização que pode forçar a repensar a estratégia falha para a solução dos problemas da Grécia, Portugal e Irlanda.” Segundo a revista, as pretensões presidenciais do ex-diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn o levou a ser muito suave nas exigências à região. Diz ainda que Lagarde fez parte desse movimento de “defender o indefensável.”

O mais influente colunista inglês, Martin Wolf, do “Financial Times”, também não acha que ela é a melhor pessoa. Argumenta que apesar de seu bom currículo, seu forte é assuntos jurídicos e que em economia seu conhecimento é limitado, o que a fará depender mais dos seus assessores. Portanto, se ela assumir será fundamental saber quem vai substituir o vicediretor- gerente, John Lipsky.

Mas ela será a nova diretora- gerente porque como ela mesma disse: manda quem paga. O Fundo é uma soma de contribuição dos seus sócios, vota mais quem depositou mais. A Europa tem 32% dos votos. Tem uma representação acima do seu tamanho no PIB mundial, que está caindo de 25% em 2000 para 18% em 2015; os Estados Unidos têm 16,7% dos votos. Juntos, eles têm quase metade dos votos. Para os Estados Unidos é conveniente o acordo feito com a Europa em que é seu o controle do Banco Mundial. Então fica tudo como dantes apesar das profundas alterações na distribuição do poder global. Segundo Wolf, é compreensível que para a Europa seja tão vital controlar o FMI neste momento: 79,5% dos créditos do Fundo foram concedidos para países europeus.

Para a “Economist”, é exatamente essa concentração de recursos para a Europa que deveria impedir que o FMI continuasse sendo controlado pela região. A revista compara: seria como entregar para a Argentina o controle do Fundo nos anos 1980, ou para a Tailândia, em 1997.

Argumentos bons, mas os próprios articulistas sabem que nada disso será levado em conta. O momento poderia ser bem mais interessante se houvesse um candidato só dos países emergentes, mas os nomes que surgem são mais lembranças dos analistas do que candidaturas do grupo. Cartens, do México, foi lançado por seu governo. Os outros citados pela “Economist” aparecem pelas qualidades que têm, como Tharman Shanmugaratnam, de Cingapura, ministro das Finanças e chefe do conselho do Fundo; Mark Carney, presidente do Banco do Canadá; e Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central brasileiro e que integrou o grupo de reforma do FMI.

A Europa não está toda mal. Pelo contrário, os países fortes estão se recuperando. O problema é a exposição do Banco Central Europeu às dívidas dos países mais encrencados da região. Foi por isso que ontem a Alemanha decidiu abandonar as exigências que fazia para dar novo empréstimo à Grécia.

ARNALDO JABOR - O ataque do ''vírus da irrelevância''


O ataque do ''vírus da irrelevância''
ARNALDO JABOR
O GLOBO - 31/05/11

Um amigo meu, muito culto, tem um filho muito "conectado" na internet. E o menino disse a ele: "Pai, você sabe tudo que já aconteceu, mas não sabe nada do que está acontecendo". O pai, como todos nós, embatucou. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a turbulência no mundo pós-industrial dissolveu tantas certezas, que caímos num vácuo de rotas.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos - não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um "absoluto" qualquer. Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Agora, na falta das "grandes narrativas" do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas "verdades" a desvelar - a aura deslizou da obra para o próprio autor.

Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido e ficamos à deriva. Por exemplo, "futuro". Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angústia da falta de "Sentido". Agora, no lugar de "futuro", temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, toda aquela dimensão espiritual chamada antigamente de cultura que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando um sentido à vida e uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu outro dia no El País, num ensaio chamado A Civilização do Espetáculo.
A verdade é que passamos da ilusão para o desencanto.
Temos hoje uma "horrenda liberdade" sem fins, porque (vamos combinar) os criadores querem mesmo é ser eternos, inesquecíveis, mesmo os mais radicais "instaladores" contemporâneos.

Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal "futuro" chegou; grosso, mas chegou.
Talvez este excesso de "irrelevâncias" esteja produzindo um acervo de conceitos "relevantes", ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas, isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de "grande arte" são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Isso me lembra o tempo em que achávamos que o "fluxo da consciência", "the stream of consciousness" ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. Será que houve a morte da "importância"? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O "importante" seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é "importante", nada o é. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo e para onde ela aponta, mesmo no túnel sem luz.

Se olharmos as obras-primas de, digamos, Jan Van Eyck, o gênio holandês, vemos ali todo o espírito da Idade Média, revelada nos detalhes mais banais, mesmo nas encomendas de príncipes ou cardeais.
Escrevo estas coisas porque meu artigo de hoje é a propósito de um "importante" ensaio de Alcyr Pécora de 23 de abril, no Prosa e Verso de O Globo, sobre a crise de nossa literatura. Alcyr acha que fomos atacados por "um vírus de irrelevância".

Ele escreveu:
"É como se o presente se absolutizasse e não mais admitisse um legado cultural como patamar exigente de rigor para sua produção(...) é como se alguma coisa se introduzisse na cultura e a tornasse inofensiva, doméstica. (...) A ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality shows, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe, como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido (...) Não basta haver conhecimento; tem de se produzir o que não é e o que não há (...) Na arte, não há nenhum valor simbólico que substitua o objeto (...) não há atitude ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição (...) Perdida a noção de herança cultural, perde-se a de crítica, de autocrítica, e naturalmente a de criação (...) Escrever literatura é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade (...) A recusa de muitos escritores de sequer considerar o impasse atual tem qualquer coisa de cegueira deliberada (...) Atitude resolve problemas do roqueiro, mas não resolve a questão da literatura".

No entanto, as questões levantadas pelo professor não tiveram repercussão teórica maior, além de reclamações mal-humoradas de que ele seria um crítico "estraga-prazer, um intrometido".
Contudo, é preciso que esses tópicos sejam discutidos, com ou sem polêmicas, pois, na tal conversa do pai erudito com o filho conectado, a resposta do pai poderia ser: "Você acha que sabe tudo que está acontecendo e nada sabe sobre o que já aconteceu".

Por isso, dou uma pequena contribuição ao assunto: tenho um filho de 11 anos, João Pedro. Eu, zeloso pai, botei o Quarteto de Cordas op. 133 de Beethoven para que ele ouvisse um momento máximo da história da música. Ouviu tudo atentamente enquanto, no ritmo exato do quarteto, jogava um game, o Hell Kid no iPad.

Beethoven e o game se uniram em harmonia. Talvez haja futuro.

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Os fantasmas de Clint Eastwood


Os fantasmas de Clint Eastwood
JOÃO PEREIRA COUTINHO 
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11

Se "Além da Vida", que a crítica desprezou, não é uma obra-prima do cinema atual, chore por mim, leitor


VALERÁ A pena ler críticas de cinema? Falo das críticas conceituadas de jornais conceituados. Tenho dúvidas.
Um exemplo: meses atrás, assisti a "Invictus", de Clint Eastwood. Não gostei.
Nelson Mandela pode ser figura importante na história sul-africana, mas, para santos, prefiro visitar a língua de santo Antônio, conservada numa redoma de vidro, na belíssima cidade de Pádua.
Quando Clint Eastwood dirigiu o filme seguinte, "Além da Vida", auscultei opiniões: antes de marchar para a sala, queria precaver-me de desilusões terminais.
Não há nada mais triste do que assistirmos à decadência de um diretor que admiramos. David Lynch, Francis Ford Coppola, Gus Van Sant -o meu cemitério é longo.
As críticas a "Além da Vida" eram piores do que imaginava. Nos Estados Unidos, havia uma mistura de compaixão e desânimo com Clint Eastwood. Na Inglaterra, o tom piorava: desprezo e mesmo sarcasmo.
Clint sucumbira a meditações espíritas e estava, numa palavra, acabado. Só os franceses salvavam a honra do convento. E, mesmo eles, com reservas.
Desisti de "Além da Vida" -como, admito, desisto de grande parte do cinema comercial em exibição nas salas.
Mas uma noite, em casa, alguém passou o filme em DVD. Abreviando: se "Além da Vida" não é uma obra-prima do cinema moderno, chore por mim, leitor. Sou eu quem está acabado.
Antes do enterro, porém, permita-me uma defesa.
"Além da Vida" centra-se na história de George, um operário americano que possui poderes mediúnicos que o permitem contatar com os mortos. Um fardo, um pesado fardo que ele transporta como Sísifo transportava a sua pedra -e que Matt Damon personifica com uma desolação magistral.
Ironia: a capacidade de se ligar com os mortos é o impedimento principal para que George se ligue com os vivos.
E uma sequência do filme resume essa maldição de forma só acessível aos criadores de gênio: quando George conhece Melanie (Bryce Dallas Howard), a convida para sua casa e, por insistência dela, toma as suas mãos e espreita para o seu passado. Se o leitor não desabar emocionalmente com a sequência, acredite, o melhor é legar o seu corpo à ciência ainda durante a vida.
Paralelamente à história de George, duas outras histórias: a de Marie (Cécile de France), jornalista francesa que sobrevive a um tsunami mas não à experiência aterradora de ter visitado, por breves momentos, o que existe do outro lado; e a de Marcus (Frankie McLaren), cuja perda do irmão será o início de uma busca desesperada para contatar com ele.
Resumido assim, pode parecer que "Além da Vida" é um filme sobre mortos. Nada mais errado. "Além da Vida" é tanto sobre mortos como as fábulas de Charles Dickens são sobre fantasmas.
E não é por acaso que o George do filme tem um gosto especial pela literatura de Dickens. Os bons espíritos sempre se encontram: a literatura fantástica de Dickens, e em especial o seu "Christmas Carol" que o filme evoca na visita final à casa-museu do escritor, apenas permite que os fantasmas corrijam o rumo perdido dos vivos.
Corrigir o rumo: não há tema mais caro no cinema de Clint Eastwood. Essa busca de uma ordem existencial ameaçada que leva o pistoleiro Bill Munny a vingar as prostitutas desfiguradas em "Os Imperdoáveis"; que leva o pequeno Phillip a sacrificar o seu amigo (e sequestrador) Butch em "Um Mundo Perfeito"; que leva Walt Kowalski ao supremo sacrifício em "Gran Torino".
E que levará George, através do seu desgraçado dom, a devolver a graça a Marie e a Marcus. E, devolvendo-lhes a eles a possibilidade de uma vida, a redimir-se por eles e com eles.
Como no citado conto de Charles Dickens, o fantasma do futuro só aparece no fim -quando o passado e o presente já assombraram o avarento Ebenezer Scrooge.
O mesmo acontece em "Além da Vida". Só que esse futuro não é feito de solidão e terror; mas de reconciliação e esperança.
É o único momento em todo o filme em que George abandona as grilhetas passadas e presentes que o visitam e atormentam. E se permite a imaginar um futuro para si também.

MÔNICA BERGAMO - EM CASA


EM CASA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11

Toni Venturi lança na sexta o longa "Estamos Juntos", em que uma médica do sistema público de saúde em SP se descobre doente; a personagem, vivida por Leandra Leal, tem sotaque do Rio; "Ela me perguntou: "Você quer que eu perca meu sotaque carioca?" Eu disse que não, porque aqui em SP todo mundo tem sotaque"

EM NOME DE DEUS

Pastores de todo o país estão usando as TVs e rádios em que veiculam suas mensagens para convocar manifestação em frente ao Congresso, na quarta, em Brasília, contra o projeto que criminaliza a homofobia. Eles exigem que seja retirada da proposta qualquer restrição a pregações contra o homossexualismo nos templos. Devem participar cerca de 60 deputados da bancada evangélica e senadores como o bispo Marcelo Crivella (PRB-RJ).

TEMPLO PRESERVADO

Em reunião hoje com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), relatora do projeto, e Toni Reis, da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Crivella proporá que o projeto contra a homofobia seja "enterrado a sete palmos de terra". E que outro, apresentado pelos próprios evangélicos, aumente as penas a crimes contra homossexuais -deixando a pregação nas igrejas de fora.

PALAVRAS AO VENTO
O diálogo com Marta e Toni deve ser difícil. Defensores da criminalização da homofobia dizem que de nada adianta aumentar penas para crimes contra homossexuais se a lei não conseguir conter a incitação à violência ou o estímulo ao preconceito -inclusive nos templos.

SURPRESA
E o apresentador Marcos Mion e a TV Record estão sendo processados por homofobia. Entidades do movimento gay reclamaram de comentários dele sobre a drag queen Nany People, ex-"A Fazenda", no programa "Legendários". Mion disse que ela "tem surpresinha" e perguntou "o que ela faz com o pacote" na hora do banho. Ele diz que o caso está com o departamento jurídico da Record. A emissora afirma que houve "exercício da liberdade de expressão" que "não feriu ninguém".

MÃOS DADAS

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), líder do PT na Câmara dos Deputados, enviou e-mail ontem ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso "para parabenizá-lo pela importante e corajosa contribuição ao debate sobre drogas", diz. Como FHC, Teixeira defende a descriminalização do uso de entorpecentes.

ENGESSADA
A ex-ministra Marina Silva (PV-AC) está com um processo inflamatório nos tendões do braço direito. A dor começou na sexta. Ela foi ao médico, que imobilizou seu braço com um gesso provisório. E recomendou que Marina não viajasse. Ela então cancelou compromissos como a participação no programa "Roda Viva". Ontem à tarde, retornaria ao hospital Sarah Kubitschek para novos exames.

CORES IMAGENS
O MAC (Museu de Arte Contemporânea) da USP planeja para 2012 uma grande exposição em homenagem a Arcângelo Ianelli, artista morto em 2009. A mostra deverá reunir 180 obras de Ianelli, entre pinturas, desenhos e esculturas.

PASSARELA VAZIA
O modelo Tony Ward, que seria fotografado hoje por Terry Richardson no Rio para uma campanha de moda, cancelou sua vinda ao Brasil. É que ontem nasceu o quinto filho de Ward, ex-namorado de Madonna.

TREMENDO SETENTÃO
Erasmo Carlos vai comemorar 70 anos de vida e 50 de carreira com um show no Theatro Municipal do Rio, no dia 2 de julho. Marisa Monte cantará como convidada.

CANGACEIROS
O documentário "Os Últimos Cangaceiros", de Wolney Oliveira, será exibido no festival Cine Ceará, no dia 10. O filme conta a história de Durvinha e Moreno, integrantes do bando de Lampião que esconderam suas verdadeiras identidades dos próprios filhos. Para a família, eles se chamavam Jovina e José Antonio. Aos 95 anos, Moreno decidiu revelar a verdade. Durvinha morreu em 2008, e o marido, em 2010.

BAILE DOS MASCARADOS
Vanda Jacintho comemorou seu aniversário no fim de semana com baile de máscaras. A designer Fabiana Pastore, o banqueteiro Charlô Whately e a empresária Stella Jacintho se fantasiaram para a festa, em uma casa nos Jardins.

O RIO TÁ NA MODA

O Fashion Rio começou anteontem com festa no píer Mauá. A banda Orquestra Imperial tocou para os convidados, como a atriz Vera Zimmermann e a cantora Cibelle.

CURTO-CIRCUITO

Manoel Morgado, que fará uma travessia da Antártica ao polo Sul, lançou a campanha de arrecadação "Adote um Quilômetro", pelo site www.adoteumkm.com.br.

Alunos da rede pública de Santo André (SP) assistirão a peça "A Serva Patroa" no Auditório Clarice Lispector entre 6 e 10 de junho.

A montagem da peça "A Casa de Bernarda Alba", com Adriane Galisteu no elenco, ficou para 2012.

A chef Luiza Hoffmann comemora aniversário no restaurante Figo hoje às 21h.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

MERVAL PEREIRA - Novos rumos


Novos rumos 
MERVAL PEREIRA

 O Globo - 31/05/2011

Apesar das divergências, ou até por causa delas, o PSDB saiu de sua convenção nacional sábado passado melhor do que estava. Isso porque conseguiu não apenas expor suas diferenças de maneira aberta, o que anteriormente só aparecia por baixo dos panos ou em fofocas de bastidores, mas definir uma linha de orientação.

Ficou claro que, no momento, o grupo majoritário do partido apoia o ex-governador de Minas e atual senador Aécio Neves, e a direção política será dada a partir de agora por esse grupo.

Ao mesmo tempo em que teve que aceitar essa hegemonia, o ex-governador José Serra teve força suficiente para ganhar um papel de relevância na direção partidária, deixando explícito que sem São Paulo não é possível se pensar em um projeto viável na sucessão presidencial, assim como, nas três últimas vezes, não foi possível vencer sem o apoio de Minas.

Escantear deliberadamente uma liderança política como Serra, como setores do partido desejariam, seria suicídio, assim como não tinha o respaldo da realidade o sonho do grupo serrista de dominar o partido.

Se tentasse impor sua vontade - que primeiro foi ser presidente do partido, e por fim assumir a direção do Instituto Teotônio Vilela (ITV) para, a partir dali, fazer sua campanha para ser mais uma vez candidato a presidente -, Serra constataria que já não tem a maioria do partido a seu lado.

Pelo menos no momento.

Não chegou a haver uma disposição real de a representação paulista boicotar a convenção caso Serra não fosse aquinhoado com uma boa posição, pelo simples fato de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador paulista Geraldo Alckmin atuaram sempre de comum acordo e na base da temperança, não permitindo que predominasse a tentativa dos mais radicais, nem de um lado nem de outro.

A partir de agora, a realidade pautará as ações do partido e de cada uma de suas forças políticas. O ex-governador e candidato duas vezes à Presidência da República José Serra terá uma exposição política, se não à altura de seus sonhos, condizente com sua importância no cenário político brasileiro, de onde poderá ajudar o partido e ajudar-se, reorganizando seus contatos nas bases, à espera de uma mudança de ventos.

Já o PSDB começa uma nova fase claramente sob a liderança política do senador Aécio Neves, que manteve o controle da direção nacional e colocou no ITV o ex-senador Tasso Jereissati, recuperando para a vida pública uma das maiores lideranças do partido, e dando a ele uma tarefa a que está acostumado, com sucesso: reunir técnicos e pensadores para balizar as ações partidárias.

O senador Aécio Neves sai do embate como o provável candidato do PSDB à sucessão de Dilma Rousseff, retemperado pela vitória.

Mas também precisará demonstrar que está preparado para o papel que almeja há tanto tempo.

Com a manobra política que lhe assegurou a maioria partidária, Aécio Neves reafirmou sua capacidade de costurar acordos políticos nos bastidores, que já demonstrara em ocasiões anteriores.

Especialmente quando surgiu como fato consumado a preferência dos tucanos e de outros partidos da base em vêlo presidente da Câmara em vez de Inocêncio de Oliveira, do então PFL, como estava combinado com o presidente Fernando Henrique.

O ex-governador José Serra, um especialista em manobras de bastidores, e político ousado e temido, negava a Aécio Neves essas habilidades, e tentou enfrentá-las, sem sucesso, nessa empreitada de agora.

A política, no entanto, volúvel como as nuvens do mineiro Magalhães Pinto, não dá a ninguém vitórias antecipadas, e nem declara a morte de véspera de qualquer político, especialmente da categoria de José Serra.

A partir de agora, ele terá de se adaptar à realidade que superou seus desejos, mas pode também aguardar em boa posição para ver como ficarão as coisas a longo prazo.

Tem tempo e paciência para tal.

Se decidir concorrer à prefeitura de São Paulo, que não era sua escolha até recentemente, Serra estará deixando o caminho livre para Aécio Neves.

O fim de sua carreira política no cargo de prefeito paulistano não é uma opção ruim, pois estará à frente do terceiro cargo mais importante politicamente do país, perdendo apenas para a Presidência da República e o governo de São Paulo.

Desse cargo, terá influência política de sobra, seja qual for o presidente eleito em 2014. Especialmente se ele for do PSDB.

Mas, se persistir na tentativa de disputar a Presidência da República, a presidência do Conselho do PSDB lhe dará uma exposição pública, e meios de manobras internas, desde que tal conselho venha realmente a funcionar.

O fato de ele ter ganhado poder deliberativo foi sem dúvida uma vitória de Serra, embora não tenha sido uma decisão de última hora como está sendo divulgado.

Já na sexta-feira estava claro que só faria sentido oferecer esse conselho a Serra se ele tivesse funções práticas. Porque seria suicídio político abrir mão de sua real contribuição ao partido.

Assim como não queriam que Serra assumisse o ITV para que não tivesse verba e autonomia para fazer dele seu palanque político, também o conselho não poderá ser usado com interesses eleitorais.

Da mesma maneira, Aécio Neves terá que se conduzir com cautela mineira para não usar a estrutura partidária em benefício próprio.

Fazer com que os interesses do partido estejam representados nos diversos estados, e levar a discussão dos temas nacionais para as bases partidárias, a partir da eleição municipal do próximo ano, será a tarefa principal da nova direção.

A candidatura de Aécio à Presidência terá que vir como decorrência desse trabalho, e não como imposição dele.

Mesmo porque as negociações mostraram que há outro líder que tem que ser levado em conta, o governador Geraldo Alckmin.

Com a ida de seu vice Afif Domingos para o PSD, Alckmin ficou um pouco preso à sua própria sucessão, para não deixar o governo nas mãos do partido de Kassab.

Mas, de novo, este é um retrato do momento. Até 2014 muita água vai rolar.

E Aécio terá de utilizar todos os truques que aprendeu na política mineira para manter a posição de favorito ao posto de candidato tucano na sucessão de Dilma Rousseff.

DORA KRAMER - À moda da tucanagem


À moda da tucanagem 
DORA KRAMER

 O Estado de S.Paulo - 31/05/2011

Na hora H tudo aparentemente se ajeitou no PSDB.

O partido deixou claro que, se a eleição presidencial fosse hoje e condições alheias à mera vontade permitissem, o senador Aécio Neves seria o candidato. Mas deixou patente também que não rasga voto nem pode abrir mão de José Serra, que já disputou e levou duas eleições presidenciais ao segundo turno.

Se a situação fosse simplesinha poder-se-ia descrevê-la assim: Aécio tem a preferência do partido, Serra tem presença na sociedade.

Aniquilar um em favor do outro seria ignorar o quanto são detentores de patrimônios complementares. Por isso, uma imprudência de resultado nitidamente previsível.

Frase precisa do deputado e ex-governador da Bahia Antonio Imbassahy: "Não podemos continuar fazendo dessa soma um déficit". Referia-se também ao fato de que ambos são fortes nos dois maiores colégios eleitorais do País, hoje governados pelo PSDB: São Paulo e Minas Gerais.

O ideal, dizia-se nas rodas de conversas na convenção nacional dos tucanos de sábado último em Brasília, seria que pudessem disputar e eventualmente governar juntos. Não fosse essa uma conjunção utópica, dadas as diferenças amazônicas que os separam e a carência de apreço pessoal mútuo.

Ante a impossibilidade objetiva, o partido optou por uma acomodação com vistas a adiar, e se possível evitar, um confronto mortífero.

A divisão ficou assim estabelecida: nos dois principais postos da Executiva, a presidência e a secretaria-geral, respectivamente um simpatizante e um aliado de Aécio: Sergio Guerra e Rodrigo de Castro. Na primeira vice-presidência, um serrista: Alberto Goldman.

Na presidência do Instituto Teotônio Vilela, um antipatizante de Serra: Tasso Jereissati. O ITV não decide, mas tem verba (uns dizem R$ 10 milhões, outros R$ 6 milhões por ano), presença - ou "capilaridade", como gostam de dizer os políticos - ampla em todo o País e uma tribuna.

No Conselho Político a presidência ficou com Serra, que conseguiu mudanças importantes: um colegiado enxuto, com poder deliberativo, verba (ainda não definida), endereço, estrutura e atribuições nada desprezíveis.

Será a instância onde se decidirão as diretrizes do partido, as formas de escolha de candidatos a todas as eleições e política de alianças, fusões e incorporação a outras legendas.

O poder é paralelo ao da Executiva e ambos respondem apenas ao Diretório Nacional. O conselho é composto por Fernando Henrique Cardoso, na condição de ex-presidente da República, pelo atual presidente do PSDB Sérgio Guerra e o ex-presidente Tasso Jereissati, por Aécio Neves como representante do Congresso e por Marconi Perillo, representando os governadores.

Terá reuniões bimensais, a primeira daqui a mais ou menos dez dias, cuja pauta ainda será definida, mas já está mais ou menos delineada: um diagnóstico sobre as necessárias correções no exercício da oposição ao PT e área de influência.

E com isso estará tudo resolvido? Nem de longe.

A tensão permanece. Serristas atrás de recuperar o terreno perdido em virtude da campanha presidencial pessimamente avaliada no âmbito interno e aecistas empenhados em fixar domínio do território.

Com o seguinte discurso: Serra poderá ser até mesmo candidato à Presidência em 2014 se Aécio não quiser (ou não puder, evitam acrescentar). Mas não dando as cartas do jeito que bem entender.

Era vidro. Seja qual for o desfecho do mais recente caso Palocci, é visível a olho nu o desencanto do "grand monde" da política, imprensa e finanças com o ministro, até então o mais querido das estrelas.

Há o peso das suspeitas e o efeito da reincidência, mas conta, sobretudo, a evidência de que a habilidade política de Palocci não corresponde à fama.

Dilma Rousseff mandar confrontar o vice Michel Temer com ameaça de demissão dos ministros do PMDB é uma coisa. Palocci cumprir a ordem tal como lhe foi transmitida é sinal de outra bem diferente: ausência de cálculo e falta de discernimento.

CLÁUDIO HUMBERTO



“Não dependemos do Congresso para trabalhar”
MINISTRO GILBERTO CARVALHO SUBESTIMANDO O RISCO DE O CONGRESSO ATRAPALHAR O GOVERNO

PALOCCI PODE TER ARRECADADO PARA ONG DE LULA 
O ministro Antonio Palocci (Casa Civil) pode ter usado sua empresa  de consultoria Projeto não apenas para prestar serviços a grandes empresas. Ele também foi encarregado de arrecadar doações para sustentar as atividades da ONG Instituto da Cidadania, chefiada pelo ex-presidente Lula, segundo confirmaram a esta coluna fontes do PT ligadas ao comando da campanha presidencial de Dilma Rousseff.

GRANA SOBRANDO 
A campanha de Dilma já não precisava de dinheiro, por isso, a partir de um certo momento, Palocci passou a “fazer caixa” para a ONG de Lula.

TUDO A VER 
O trabalho de Palocci, na arrecadação para a ONG de Lula, explica o empenho do ex-presidente para tentar salvar o pescoço do ministro.

‘NÃO FAZ SENTIDO’ 
As assessorias de Palocci na Casa Civil e na empresa Projeto negam totalmente a arrecadação para a ONG: “isso não faz nenhum sentido”.

GRILL AMIGO 
Nas palestras que faz – este fim de semana esteve em Belém –, José Dirceu não perde uma chance de detonar o “companheiro” Palocci.

EMPRESA DE ORIGEM DUVIDOSA FINANCIA PETISTAS 
Generosa financiadora de campanhas do PT, a empresa M Brasil, controlada pelo ex-deputado estadual carioca Jair Marchesini (PDT), anda despertando suspeitas. A empresa foi criada em 2006 em nome de dois baianos pobres (o sargento bombeiro Marcelo Gondim, e Leandro Reis, funcionário de distribuidora de gás, moradores de bairros carentes de Salvador). Hoje tem capital de R$ 38 milhões e até colocou na Bovespa cédulas de crédito imobiliário no valor de R$ 100 milhões.

LOCAL INCERTO 
Apesar do patrimônio e de atuar na Bovespa, a M Brasil não funciona no endereço indicado em seus documentos (Av. Rio Branco, Rio de Janeiro).

LAVANDERIA? 
O Jornal de Brasília apura o caso, e concluiu pela suspeita de lavagem de dinheiro na M Brasil Empreendimentos Marketing Negócios Ltda.

LOROTA EM CAMPO 
O Corinthians “iniciou a obra” do estádio, com dois tratores e algumas pessoas, para a “abertura da Copa”. Não há perigo de isso dar certo.

CALMA, CAVALHEIROS 
O vice Michel Temer, um gentleman, ficou intrigado com a atitude do ministro Antonio Palocci, sujeito muito jeitoso, que por telefone lhe disse desaforos, ameaçando demitir os ministros do PMDB. Palocci agora chora pelos cantos: foi obrigado por Dilma a agir de forma “dura”. 

É MAIS EMBAIXO 
Também foi Dilma quem fez Cândido Vacarezza (SP) ofender a Câmara, chamando de “vergonha” o Código Florestal. Quis mostrar que manda no governo e, portanto, nos governistas. Sua inexperiência política a impediu de perceber que não é assim que funciona.

A FARRA NÃO PARA 
Determinação da presidência da Câmara deixou deputados eufóricos. A partir de agora, os líderes dos partidos com um só deputado terão carro oficial e mais dois cargos de confiança. Tudo por nossa conta.

PMDB É RUBRO-NEGRO 
Presidente do Flamengo e vereadora, Patrícia Amorim, hoje no PSDB, conversou em Brasília com o vice-presidente Michel Temer. E fechou com ele: vai para o PMDB em breve.

VELHO OPORTUNISTA 
A defesa que o ex-presidente FHC agora faz da “descriminalização” da droga não é apenas sintoma de perda de juízo. É que o velho político percebeu que é a maneira mais fácil de voltar a aparecer na mídia.

APENAS UM ESTAFETA 
Arrependido da entrega do PSD-DF ao ex-governador Rogério Rosso, o prefeito paulistano Gilberto Kassab telefonou a deputados federais jurando que não se trata de instância partidária, mas apenas “comissão provisória para providências jurídicas de criação do partido”. Ah, bom.

AGENDA TOMADA 
Não para mais em Natal a professora Amanda Gurgel, fenômeno no YouTube após um desabafo contra o descaso na Educação. Roda o País fazendo palestras em sindicatos. Ontem esteve em Santa Catarina, hoje vai a BH e amanhã a São Paulo. Semana que vem, Rio.

NO, GRACIAS 
Após encontro com o ministro Lupi (Trabalho) a diretora-geral de Cidadania Espanhola no Exterior, Pilar Pin, explicou ao jornal El País, por que os jovens desempregados da Espanha não emigrariam: “um professor no Brasil ganha um quarto do salário do professor espanhol.”

PEPINODUTO 
Alemães estão às voltas com pepinos contaminados, que já mataram 14 pessoas. Felizmente temos anticorpos contra pepinos de todo 
tipo. 

PODER SEM PUDOR
MEU MINISTRO 
Hoje governador campeão de votos e aprovação, o governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) era ministro de Ciência e Tecnologia quando retornava ao Recife, em meio ao noticiário intenso sobre maracutaias de petistas no governo Lula. E foi saudado assim por um eleitor e fã:
– Este é o meu ministro: chega sem mala e sem cueca!...

segunda-feira, maio 30, 2011

A saúde de Dilma - REVISTA ÉPOCA


A saúde de Dilma
REVISTA ÉPOCA 

Época teve acesso a exames, a relatos médicos e à lista de medicamentos usados pela presidente da República. Por que seu estado ainda exige atenção



Cristiane Segatto. Com Isabel Clemente e Leandro Loyola

No último dia 22, um domingo, a presidente Dilma Rousseff viajou para Salvador para participar da cerimônia de beatificação de Irmã Dulce. Foi seu primeiro compromisso público desde a pneumonia que a obrigou a cancelar viagens e a despachar durante três semanas do Palácio da Alvorada, sua residência oficial. Na capital baiana, a chuva obrigou a organização do evento a improvisar. Dilma foi acomodada sob um toldo que lembrava uma bolha de plástico. Não era apenas uma deferência justificada pelo cargo que ela ocupa. Era um cuidado necessário para evitar uma recaída da inflamação pulmonar que, segundo palavras que ela mesma disse, de acordo com um interlocutor de confiança, teria sido “a pior de todas as doenças que já enfrentei”.

O “foco de pneumonia” descrito no boletim médico no final de abril revelou-se mais pernicioso do que a sucinta comunicação oficial sugeria. Dilma voltou da China depois de dez dias de trabalho extenuante. Já estava gripada quando inaugurou oficialmente a campanha de vacinação contra a doença, tomando ela mesma uma dose. Na terça-feira 26 de abril, sentiu-se febril. Sua temperatura era de 36,8 graus. O médico oficial da Presidência, o coronel Cleber Ferreira, prescreveu o antibiótico Levaquin, sem avisar o chefe da equipe que a acompanha, o médico Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Dilma piorou. Na quinta-feira, o exame de raios X revelou uma pneumonia. Transferida para São Paulo, passou a receber na veia dois antibióticos: azitromicina e ceftriaxona – recursos usados em casos graves. Seguiu com esse tratamento durante 14 dias. Foi tratada também com um corticoide.

Assessores próximos contam que a doença afetou a disposição da presidente e seu estado psicológico. Ela sentia cansaço e falta de ar. Passou a despachar do Alvorada, a residência oficial, para evitar o ar-condicionado do Palácio do Planalto, onde as janelas são lacradas. Reclamava de dores de estômago e náuseas e não conseguia se alimentar direito. O fígado dava sinais de agressão. Os níveis da enzima TGP, que serve de parâmetro para avaliar as condições hepáticas, subiram, como resultado do esforço que o órgão fazia para processar o coquetel de remédios que Dilma usava. No dia 21 de maio, ela se submeteu a uma tomografia no tórax que, de acordo com os médicos, mostrou que ela estava curada da pneumonia.

Nos últimos dias, ÉPOCA teve acesso a relatos médicos, a exames e à lista de medicamentos que ela toma. Durante o tratamento da pneumonia, eram 28 remédios diariamente – entre drogas alopáticas, suplementos vitamínicos prescritos em tratamentos ortomoleculares e cápsulas que Dilma consome por conta própria, algumas pouco ortodoxas, como cartilagem de tubarão (leia a lista completa abaixo). Procurada por ÉPOCA, Dilma pediu ao Hospital Sírio-Libanês que emitisse um boletim exclusivo sobre sua condição de saúde. “Do ponto de vista médico, neste momento a Sra. Presidenta apresenta ótimo estado de saude”, afirma o boletim. Não há, segundo os médicos oficiais, nenhum sinal de que seu câncer linfático, diagnosticado e tratado em 2009, tenha voltado, nem de que as defesas de seu organismo tenham sofrido maiores consequências por causa do tratamento. “A Presidenta Dilma continua em remissão completa do linfoma, e não há nenhuma evidência de deficiências imunológicas, associadas ou não ao tratamento do linfoma realizado em 2009”, diz o texto.

Mas as informações obtidas por ÉPOCA revelam que a saúde da presidente ainda exige atenção. Não por causa do câncer. Mas em virtude de preocupações naturais para uma mulher de 63 anos. Dilma convive com vários problemas que consomem energia. Ela sofre de diabetes tipo 2 e, há vários anos, toma o remédio Glifage para mantê-la sob controle. O tratamento tem funcionado. Com o remédio, os níveis de glicemia ficam um pouco acima do normal. Além do diabetes, Dilma também tem gordura acumulada na região abdominal. Em conjunto, são dois sinais característicos de uma condição conhecida como síndrome metabólica, extremamente comum no Brasil e no mundo, considerada um fator de risco para doenças cardiovasculares, como infarto e derrame. Cerca de 80% das pessoas que têm diabetes tipo 2 estão acima do peso. Quando o diabético engorda, fica mais difícil manter os níveis ideais de açúcar no sangue, e o remédio torna-se imprescindível.

Há duas semanas, a lista de remédios de Dilma tinha 28 itens

Dilma sofre também de problemas hormonais. As células de defesa de seu organismo reconhecem a glândula tireoide como um corpo estranho e passam a atacá-la. Ela sofre de uma doença autoimune conhecida como tireoidite de Hashimoto, a causa mais comum de hipotireoidismo. “Sem tratamento, a pessoa sente desânimo, percebe que suas funções orgânicas e cognitivas ficam mais lentas, o cabelo cai com facilidade e as unhas ficam fracas”, diz Laura Sterian Ward, presidente do departamento de tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “O tratamento é para a vida inteira. É como usar óculos. A dose do hormônio tem de ser ajustada corretamente, e o remédio precisa ser tomado todos os dias em jejum.” Quando a dose do hormônio é inadequada, o paciente sente alterações da frequência cardíaca. Depois de décadas de doença, a tireoide de Dilma praticamente não produz mais hormônio. É por isso que ela precisa tomar disciplinadamente o remédio Synthroid. Durante o tratamento da pneumonia, nem sempre ele pôde ser tomado em jejum, e a absorção do hormônio tireoidiano ficou prejudicada. Quando sente taquicardia, a presidente percebe que a dose do hormônio precisa ser ajustada.

A presidente tem colesterol normal, mas às vezes sofre de pressão alta. Para manter a pressão arterial na faixa dos 13 por 8, precisa tomar o anti-hipertensivo Cozaar. Os médicos dizem que o coração da presidente vai bem. Ela já passou, no entanto, por um episódio vascular complicado. Para receber a quimioterapia e fazer exames sem precisar puncionar veias com frequência, ela recebera um cateter implantável, chamado port-a-cath, que permite o fácil acesso às veias. Em 20 de março de 2010, ela apresentou um inchaço na região do pescoço (um edema), como resultado da formação de um coágulo. Poderia ser o início de uma leve trombose na veia cava, a principal veia que transporta o sangue venoso para o coração. Em alguns casos, uma trombose desse tipo pode ser fatal se provocar embolia pulmonar ou uma grave obstrução na própria veia. Não foi o caso de Dilma. “Nesta mesma data, optou-se pela retirada do cateter venoso central (port-a-cath) com resolução do quadro clínico”, diz o boletim emitido pelo Sírio-Libanês.

Outro motivo de preocupação é a variação de seus níveis de potássio. Às vezes, eles caem rapidamente. Ela percebe quando falta potássio no organismo porque sente cãibras. Os médicos revertem o problema com a prescrição de doses elevadas do composto. Para controlar esse problema, ela toma o medicamento Slow-K.

Além da última pneumonia, Dilma contraiu gripe suína na Europa no final de 2009, quando era ministra da Casa Civil. Foi tratada com Tamiflu e Levaquin. Os dois episódios levantaram especulações sobre a condição imunológica da presidente. Para alguns especialistas envolvidos no tratamento, sua imunidade nunca mais foi a mesma desde a quimioterapia adotada para combater o linfoma, embora os médicos oficiais digam o contrário. Oncologistas especializados no tratamento de linfoma dizem que a imunidade do paciente costuma ficar comprometida nos meses que se seguem à quimioterapia. Em geral, porém, o sistema imune volta a funcionar bem seis meses depois do final do tratamento. “É incomum que a imunidade do paciente fique baixa depois desse tempo”, diz o hematologista Garles Miller Matias Vieira, do Hospital AC Camargo, em São Paulo.

A saúde de um presidente é um tema tão relevante para o jogo político quanto a ética das autoridades O principal parâmetro para avaliar se o organismo é capaz de reagir a infecções é a contagem de glóbulos brancos do sangue, os leucócitos. No exame realizado por Dilma no dia 30 de abril no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, esse índice estava dentro dos parâmetros normais. Segundo Kalil, a presidente não tem apresentado infecções urinárias ou gástricas repetidas vezes, eventos que poderiam caracterizar um quadro de baixa imunidade.

Além dos remédios convencionais, Dilma consome também cápsulas de curcumina e óleo de linhaça, produtos vendidos com a promessa de perda de peso. Também usa um suplemento de fibras, um polivitamínico e o Q-10, um produto antioxidante que supostamente protege o coração. O item mais curioso da lista são as cápsulas de cartilagem de tubarão. Apesar da crendice popular, não há nenhuma comprovação científica de que elas ajudem a prevenir o câncer. A presidente toma as cápsulas por conta própria. A pedido de ÉPOCA, ela confirmou a Kalil que usa o produto e ele se disse surpreso.

O histórico de saúde da presidente inspira cuidados. Uma mulher de 63 anos, com sobrepeso, intolerância à glicose, pressão arterial controlada com medicamentos e uma vida extremamente estressante precisa passar por rigoroso acompanhamento médico como vem fazendo. Até agora, Dilma tem demonstrado mais disposição para o trabalho que muitos jovens. ÉPOCA apurou que um dos ministros desistiu de acompanhá-la à China quando viu que a agenda seria muito mais extensa do que ele imaginava.

Mais preocupante que a saúde de Dilma é o silêncio sobre ela. Quando era ministra, ela só convocou uma entrevista coletiva para contar que tinha câncer depois que a notícia já estava publicada no jornal Folha de S.Paulo. E tentou manter em sigilo que já começara a fazer quimioterapia.

A falta de transparência sobre a saúde da presidente alimenta boatos num setor em que o Brasil coleciona traumas. Em 1909, último ano de seu mandato, Afonso Penna morreu de pneumonia no exercício do cargo. Em 1967, o marechal Arthur da Costa e Silva, segundo presidente da ditadura militar (1964-1985), sofreu um derrame. Costa e Silva ficou preso a uma cama, sem conseguir falar e com um dos lados do corpo paralisado. Paranoicos, os militares esconderam a doença e impediram a posse do vice, Pedro Aleixo, um civil. O mistério alimentou boatos. Um dizia que Costa e Silva já estava morto. Outro dizia que a causa do afastamento não era doença, mas um tiro. Em 1981, dois anos depois de tomar posse, o último presidente militar, general João Figueiredo, sofreu um infarto. Figueiredo foi operado nos Estados Unidos. Mesmo num regime ditatorial, a doença de Figueiredo foi divulgada e o vice, Aureliano Chaves, assumiu.

O maior marco da falta de transparência foi a doença de Tancredo Neves. Eleito primeiro presidente civil após 21 anos de regime militar, Tancredo sabia que estava doente meses antes. Escondeu seu estado clínico. Tancredo foi internado às pressas no hospital de Base de Brasília na noite anterior à posse, marcada para 15 de março de 1985, com uma diverticulite. Sua longa agonia de 39 dias no hospital foi um show de desinformação. Para tentar passar a falsa impressão que estava tudo bem, seus aliados montaram uma farsa. Tancredo foi retirado da cama, vestido num robe de chambre, e posou para uma foto ao lado da mulher, Risoleta, e da equipe médica, todos sorridentes. Divulgada para toda a imprensa, a foto era uma farsa: Tancredo tinha sondas injetadas no corpo que ficavam escondidas atrás do sofá. Morreu quase um mês depois. Como no caso de Costa e Silva, a contradição entre o divulgado e a realidade sobre o estado de saúde de Tancredo criou um terreno fértil para lendas urbanas sobre a causa da morte.

A saúde de um presidente é um tema tão relevante para o jogo político quanto a ética das autoridades. É um bem de interesse público que extrapola as fronteiras do direito ao sigilo médico. A situação seria diferente se os candidatos à Presidência fossem obrigados a prestar uma declaração sobre sua condição de saúde da mesma forma como são obrigados a abrir o sigilo do Imposto de Renda? Alguns países valorizam mais a transparência que outros. Mesmo sem regras escritas, os americanos tendem a adotar a transparência total quando está em jogo a saúde de presidentes da República. Boa parte da história médica de 41 presidentes americanos está compilada num livro, The health of the presidents, escrito por um médico. Um exemplo: ainda em campanha, o então candidato democrata, senador John Kerry, na disputa com George W. Bush nas eleições de 2003, revelou seu tratamento de um câncer de próstata. “Eles se adiantam nas informações porque transparência, nesses casos, é essencial. Sem isso, começam boatos e fica tudo pior”, diz Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Por ocupar o mais alto cargo majoritário de um país, a saúde do presidente precisa ser um livro aberto? A sociedade tem direito a saber todos os detalhes de tratamentos, de males, quaisquer que eles sejam? “Eu me inclino a considerar que somente venham a ser expostos ao público dados sobre a saúde do governante que ameacem a continuidade de seu governo e possam ter graves efeitos sobre o país”, diz o cientista político Leôncio Martins Rodrigues. Moléstias prolongadas teriam, para ele, um potencial muito maior de gerar instabilidades econômicas e políticas no país do que a morte em si, um fato consumado. Foi com certo constrangimento que o ex-presidente americano James Carter (1977-1981) falou publicamente sobre suas hemorroidas. Era preciso acalmar o mercado financeiro, inflamado com boatos muito piores sobre sua saúde.

Na França, em 1981, o presidente François Mitterrand determinou a divulgação de boletins médicos semestrais sobre sua saúde. A iniciativa pretendia afastar o fantasma da morte de Georges Pompidou, em 1974, atingido por um raro tipo de câncer, quando ainda estava na Presidência. Soube-se, depois, que os boletins sobre Mitterrand teriam sido falsificados por seu médico particular, autor de um livro em que revelava como Mitterrand escondera, por mais de uma década, a doença que lhe consumia. O câncer que matou Mitterrand se tornou público apenas em 1992, mais de dez anos depois de sua descoberta, de acordo com o relato feito por um médico particular. Se Dilma quiser se inspirar nos exemplos que a história tem a lhe oferecer, a estratégia mais recomendada é a transparência. Na falta dela, as especulações podem fazer ainda mais mal para sua saúde.

GUILHERME FIUZA - A última tentação de Palocci


A última tentação de Palocci
GUILHERME FIUZA 
Época - 30/05/2011

Finalmente a verdade veio à tona. Foram cinco meses de doce hipnose. Muita gente que detesta Lula e não vota no PT nem amarrado declarou-se entusiasmado com Dilma Rousseff. Por que, afinal? Porque ela é mulher. Porque ela fala pouco. Porque ela não faz bravatas. O Brasil avalia presidentes como se avaliasse ator de novela: “está muito bem no papel”, “acertou no figurino”, “não me incomoda na hora do jantar”. Só uma pessoa poderia cortar esse estranho devaneio coletivo: Lula.

E ele o fez com uma única frase, sincera e definitiva: “Se tirarem o Palocci, o governo dela (Dilma)vai se arrastar até o final”.

Não deixa de ser um grande alívio. Já estava ficando aflitiva a catalepsia geral. Até o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – uma espécie de recreio dos governantes, onde notáveis se reúnem para fazer nada em grande estilo – vinha sendo exaltado como ponto positivo da administração Dilma. O próximo passo seria a indicação do Ministério da Pesca ao Nobel da Paz. O país deve ser grato a Lula pelo esclarecimento providencial: sem Palocci, o governo Dilma não anda – se arrasta. Com todo respeito à laranjada de mitos feministas e esquerdistas que o sustenta.

Lula disse isso a senadores do PT, na já famosa reunião SOS Palocci. Sua intenção era nobre: lembrar aos distraídos que o ministro-chefe da Casa Civil não é importante para o governo – ele é o governo. O ex-presidente sabe bem do que está falando. Em 2002, quando foi eleito sucessor de Fernando Henrique, Lula tinha nas mãos nada mais que as bandeirolas xiitas do PT e uma alegoria de marketing chamada Fome Zero. O único de seu time que compreendia a diferença entre bater panela e governar era Antonio Palocci.

Quem mais naquela turma entenderia que o Banco Central não era exatamente um lobo mau a ser abatido com slogans populistas? Quem entenderia que responsabilidade fiscal não era palavrão da direita? Quem mais entenderia, política e tecnicamente, o que eram metas de inflação e superavit primário? Ninguém mais – tanto que a assembleia petista bombardeia esses conceitos até hoje. Acreditam que eles foram a “concessão neoliberal de Lula”, e nem de longe desconfiam que aí estava a galinha dos ovos de ouro, que os alimentou fartamente de votos.

Palocci foi um excelente ministro da Fazenda, e Lula teve seu momento de estadista ao lhe dar poder. Mas Palocci caiu, e Lula teve de inventar Dilma para suceder-lhe. Sabendo da aventura em que estava se metendo, o ex-presidente fez o óbvio: escalou Palocci para governar Dilma, na campanha e na Presidência. Tinha plena consciência de que sua sucessora, que mal consegue completar um raciocínio em público, não teria estatura para construir uma liderança de fato.
Palocci fraquejou no lema que parece religioso na escola petista: usar o Estado para arrecadação privada

É o que se viu nesses cinco meses. A inflação soltando suas labaredas, Dilma e Mantega dando ordens-unidas que o mercado ignora, e Palocci segurando as pontas sozinho do combate à gastança pública – e sendo, naturalmente, sabotado pelo PT por causa disso. Mas permaneceu forte, porque o mundo político respeita quem sabe o que faz. Só quem não respeita Palocci é ele mesmo.

Um dos políticos mais promissores do país, capaz de se reerguer depois de cair em desgraça por causa de uma casa de tolerância, o médico de Ribeirão Preto calibrou mal suas ambições pessoais. Fraquejou no lema que parece religioso na escola petista: usar o Estado para arrecadação privada. Palocci não resistiu à tentação de converter sua influência política em cachê. Mesmo no comando da campanha vitoriosa de Dilma, com seu futuro atrelado ao futuro do país, achou que era hora de faturar uns milhões por fora. Ou, no caso, por dentro.

A notícia é muito pior para o país do que para o governo. Este, como disse Lula, vai só se arrastar. O outro talvez ande para trás.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - Exemplo à brasileira


Exemplo à brasileira
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
O ministro Cezar Peluso , presidente do Supremo Tribunal Federal , chamou-o de ” aspecto psicológico da pena ” . Um outro nome do mesmo fenômeno é ” caráter exemplar da pena ” . Os casos de Domenique Staruss-Kahn , nos Estados Unidos , e de Antonio Pimenta Neves , no Brasil , ilustram a distância oceânica entre os dois países quanto a esse ponto . Strauss – Kahn , o diretor do Fundo Monetário Internacional e candidato favorito à eleição presidencial francesa do ano que vem , foi arrancado de dentro de um avião ; detido ; exibido algemado na delegacia de polícia diante dos fotógrafos e das câmeras de TV ; levado a um tribunal ; novamente exibido ; e enfim conduzido a um presídio – tudo nas meras 48 horas que se sucederam à denúncia de que praticara violência sexual contra a camareira de um hotel em Nova York . Estava em curso o habitaul show com que os americanos lembram que as leis existem para ser observadas , a justiça para fazê-las valer e a polícia para prender os infratores .

Pimenta Neves matou a namorada , Sandra Gomide , em 20 de agosto de 2000 ; foi preso apenas no mês seguinte ; obteve habeas corpus em março de 2001 ; deixou a cadeia ; foi a júri apenas em 2006 ; condenado a 19 anos de prisão , ganhou o direito de recorrer em liberdade ; e em 2008 teve a pena reduzida para 15 anos pelo Superior Tribunal de Justiça. Recurso vai , recurso vem , só na semana passada o Supremo Tribunal Federal decidiu que era hora dele ser recolhido à prisão . Durante este tempo todo , os brsileiros tiveram diante dos olhos um show de impunidade que raros países ofereceriam , ainda mais em se tratando de assassino confesso .

A estratégia da exemplaridade tem sentidos opostos , num e noutro país . Nos EUA , o exemplo é mostrar que a lei funciona ; no Brasil , que não funciona . Os EUAlevaram 48 horas para montar seu show ; o Brasil onze anos . Ponto para a estratégia brasileira . Durante onze anos , foi martelado na cabeça dos brasileiros que se pode matar , pois são enormes as chances de escapar impune . É mais difícil de esquecer do que as meras 48 horas dos americanos . As imagens de um e outro dos protagonistas são eloquentes . Staruss-Kahn apareceu na polícia abatido , olhos baixos , silencioso . No tribunal que lhe pronunciou o indiciamento , tinha expressão vazia e barba por fazer . Sempre metido em ternos impecáveis , agora vestia uma jaqueta sobre camisa de colarinho aberto . Pimenta Neves mostrava-se tranquilo na hora da prisão . Manteve conversação amável com os policiais . Estava bem vestido . Parecia saudável e bem disposto .

Os dois vinham , claro , de situações diferentes . Pimenta Neves saía do sossego do lar e já tivera onze anos para amansar as feridas da transição de jornalista vitorioso , diretor de um dos principais matutinos do país , a assassino conhecido como tal em todo o país . Staruss-Kahn ainda vivia o calor da hora entre todas ingrata em que , metamorfoseara no mais ilustre estrupador do planeta . Certo , mas as imagens mostravam também as perspectivas que um e outro tinham pela frente . Strauss-Kahn , a do fim imediato e enapelável da carreira política na França e do mandato supremo em uma das três ou quatro mais importantes instituições internacionais , além da possível condenação a até 25 anos de prisão . Pimenta Neves … Bem , Pimenta Neves tinha pela frente o show brasileiro de impunidade , fase 2 : a expectativa de ganhar em dois anos o mínimo conhecido como ” progressão de pena ” . Com ele virão o regime semiaberto e o direito de sair da cadeia para trabalhar , descansar em casa ou divertir-se .

O ministro Cezar Peluzo defende reforma constitucional pela qual , uma vez condenado em segunda instância , o réu já passe a cumprir pena . Hoje , o excesso de recursos disponíveis , bem manipulados pelos advogados , pode empurrar a excecução da pena ao infinito . Os ministros do Supremo concordaram todos , no julgamento da semana passada , em que o excesso de recursos é que arrasta casos como o do jornalista . Não citaram a lentidão do Judiciário , o outro fator que deve ser levado em conta . Contra a proposta de Peluso já se levantam conhecidos advogados e entidades de advogados . os recursos fazem bem para os seus clientes e para eles mesmos . Com relação à lentidão do Judiciário , o mais imobilista dos poderes da República , a redução dos recursos pode ajudar , mas não resolve todo o problema . No caso Strauss-Kahn , dada a bem fundamentada acusação , a aposta é que não escapará de muitos anos de xadrez . No de Pimenta Neves , a voz do povo é : ” Quero só ver por quanto tempo ele permanecerá na cadeia ” 

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Cruzeiros marítimos giram R$ 1,3 bilhão na economia
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

A temporada 2010/2011 de cruzeiros movimentou R$ 1,3 bilhão entre gastos feitos por armadores, passageiros e tripulantes.
Desse total, R$ 332,7 milhões giraram a economia de cinco grandes cidades portuárias do Brasil.
Os números são de estudo inédito feito pela Fundação Getulio Vargas sobre impactos econômicos do setor, que será divulgado hoje no Seatrade South Americ Cruise Convention, em São Paulo.
Do total deixado pelos passageiros e tripulantes nas cidades portuárias, a maior fatia, de R$ 172,6 milhões, ficou com o setor de varejo. Seguido pelo de alimentos e bebidas, de R$ 155,1 milhões.
Em termos geográficos, nos dias que antecederam ou sucederam a viagem, as despesas dos viajantes foram maiores no Rio de Janeiro, seguido por Santos.
Os combustíveis aparecem em primeiro lugar (R$ 291,7 milhões) entre os itens mais dispendiosos para empresas que operam navios de cruzeiro. Em segundo lugar estão as taxas portuárias e impostos, com gastos que atingem R$ 215,2 milhões.
Devido à falta de infraestrutura dos portos brasileiros, o custo com água para abastecer as embarcações e para levar o lixo ao continente também é alto. As empresas desembolsaram R$ 28,1 milhões com essas despesas.

ESTRATÉGIA CIRÚRGICA
A operação brasileira da Stryker -empresa de tecnologia médica de equipamentos cirúrgicos- assumirá o comando da estratégia regional da companhia para a América Latina, que passa a ser feito a partir de SP.
Além do crescimento econômico brasileiro, a mudança se deve aos projetos de expansão por que passam os hospitais no país.
"Temos neste ano uma ampliação do portfólio de instrumental para cirurgias ortopédicas e de coluna e equipamentos de endoscopia", afirma Pablo Toledo, diretor-executivo da empresa no Brasil.
O portfólio de neurologia também será expandido, após a recente incorporação pela companhia da divisão neurovascular da Boston Scientific, fabricante multinacional de stents.

"IOGURTERIA"
A rede de "frozen" iogurte Yoggi vai inaugurar dez unidades no mês de junho.
Até o fim do ano, a empresa terá mais de cem lojas e duas fábricas. A segunda planta abrirá no começo do semestre, em Três Rios (RJ).
"A cidade fica perto do Estado de São Paulo, o que facilitará o escoamento da produção", afirma Bruno Grossman, um dos sócios-fundadores da marca.
A companhia investirá R$ 30,5 milhões até o final de 2011 no desenvolvimento de novos sabores, na abertura de lojas e em ações de marketing.

Crédito... 
O estoque de Letras de Arrendamento Mercantil cresceu 96% nos últimos 12 meses na Cetip. O instrumento saltou de R$ 400 milhões, em abril de 2010, para R$ 784 milhões no mês passado.

...no leasing 
Esses títulos de crédito oferecem maior agilidade às operações de captação de recursos de sociedades de arrendamento mercantil (leasing). A Cetip é depositária de título privado de renda fixa.

Pioneirismo 
A diretora da consultoria Monitor no Brasil, Flavia Almeida, é a primeira brasileira eleita para o conselho de ex-alunos da Universidade Harvard, que faz o acompanhamento estratégico da instituição (University's Board of Overseers).

Laser 
A Trumpf Brasil investirá 9 milhões (cerca de R$ 21 milhões) no país nos próximos três anos. A empresa, filial da fabricante alemã de máquinas a laser para processamento de chapas metálicas, aplicará os recursos em novas instalações e em treinamento.

"Data verde" 

A Tetra Pak do Brasil será a primeira das 40 filiais no mundo a receber data center sustentável. O sistema terá gerenciamento inteligente de consumo de energia, para redução de 30%, e atenderá demais empresas do grupo na América Latina.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e EDUARDO GERAQUE