segunda-feira, maio 23, 2011

GUSTAVO CERBASI - Quanto vale seu dinheiro?


Quanto vale seu dinheiro?

GUSTAVO CERBASI

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11 

Corte dos seus planos de compra o prazer que dura pouco e tira a oportunidade de consumo mais produtivo


HÁ DOIS MESES, estive em Lisboa para o lançamento de mais um livro meu em Portugal.
Na época, não haviam eclodido ainda os mais graves sinais da crise econômica, como o rebaixamento da nota de risco do país e o pedido de socorro à União Europeia.

Porém, o país já dava claros sinais da dificuldade de recuperação, incluindo desemprego e inflação em alta e esperança em baixa. Enquanto no Brasil nos referíamos à crise "de" 2008, em Portugal o termo usado era a crise "desde" 2008.

Em meio ao desânimo generalizado, demonstrei minha preocupação a meus editores, questionando se seria interessante, para eles, lançar novos títulos em um momento tão ruim do mercado.
Supunha que os trabalhadores portugueses tinham menos dinheiro no bolso para consumir qualquer coisa, incluindo livros.

Para minha surpresa, a resposta foi enfaticamente contrária às minhas suposições. Segundo meus editores, a crise que impunha mudanças até nos hábitos alimentares dos portugueses pouco influenciava o mercado de livros.

Acreditando que havia tropeçado em alguma diferença linguística entre os países, reformulei a pergunta com outras palavras, e recebi a confirmação estarrecedora: os portugueses realmente não abrem mão do consumo de livros.

Precisei de alguns minutos para digerir a informação, e a explicação foi admirável. Segundo meus editores, a compra de livros não tem exatamente a ver com a preocupação com educação ou com a flexibilidade de novos formatos de leitura.

Para os portugueses, assim como para a maioria dos europeus, leitura é lazer. Cinema, teatro, viagens, comer fora, práticas esportivas e jogos também são lazer, mas a procura por essas práticas havia caído drasticamente com a crise portuguesa.

O argumento para a sustentação na venda de livros era o de que o lazer obtido com um livro era barato, durava vários dias, podia ser repassado para toda a família e, ainda, doado a famílias com poder de consumo mais oprimido.

Em suma, o que sustentava o comércio livreiro em um país em crise era a durabilidade do prazer ou do benefício obtidos com esse tipo de produto. Nada traduz melhor o conceito de qualidade de consumo do que a ideia de obter do dinheiro um benefício mais duradouro.

Quando compramos um carro, levamos em consideração o benefício de contar com transporte por um longo período. Mas, ao comprar um carro com design diferenciado, maior potência e apetrechos tecnológicos, corremos o risco de desembolsar muito mais por benefícios apenas eventuais.
Só desfrutamos do design em situações sociais em que a imagem do carro seja associada à nossa.
O benefício da maior potência será tão frequente quanto forem nossas viagens. Os apetrechos tendem a cair em desuso, se não forem realmente funcionais. Comprar um carro popular e bem equipado tende a ser, na maioria dos casos, um consumo de mais qualidade do que comprar um carrão.

Quanto mais benefícios obtemos do nosso dinheiro, menos impulsos de consumo temos. O consumismo está diretamente relacionado à incapacidade de obter prazer duradouro nas compras, como uma droga que gera dependência. Por isso, a velha ideia de refletir antes de uma compra continua sendo uma das mais importantes ferramentas não só de consumo mas também de sobrevivência de nosso minguado saldo no banco.

Você quer mesmo aquilo que pensa em comprar? Ou é apenas um estímulo vindo de um vendedor habilidoso? Se quer, você precisa do que vai comprar? Se não lhe trouxer utilidade duradoura, esqueça. Há uso mais inteligente para seu dinheiro.

Se você quer e precisa, pergunte-se: você pode comprar?

Essa resposta só será obtida se você fizer a lição de casa antes de ir às compras. Não saia antes de checar o saldo na conta, a fatura do cartão e o orçamento doméstico.
Prazer que dura pouco e tira a oportunidade de consumos mais produtivos é justamente o que deve ser cortado de seus planos.

RUY CASTRO - Os periquitos


Os periquitos

RUY CASTRO 

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

RIO DE JANEIRO - Cada cidade com seus problemas, não? Vide Londres. Durante séculos, sofreu com o fog -ideal para a literatura e o cinema, mas que matava milhares por ano de bronquite e era só um misto de nevoeiro com fuligem, esta produzida pela queima de carvão, para cozinha e aquecimento, em milhões de casas. No que os londrinos foram proibidos de usar carvão, nos anos 60, o fog acabou.
Agora são os periquitos. Você não leu errado. Uma praga de periquitos está infernizando os parques da cidade. E, como Londres é cheia de parques, pode-se imaginar o tamanho do problema. Segundo estatísticas, uma população de 1.500 periquitos, em 1995, disparou para 30 mil em 2005 e, hoje, deve estar passando dos 50 mil. Mas não me pergunte como eles conseguem recenseá-los. É possível que alguns periquitos tenham sido contados duas vezes.
Teorias pululam. Uma, a de que os corvos, seus predadores naturais, cansaram-se de Londres e resolveram voltar para a roça. Outra, a de que há mais aposentados alimentando pássaros nos parques. Uma terceira é a de que os periquitos estão procriando mais que os ingleses, o que não é difícil. E não falta uma teoria da conspiração: naturais da Índia e da África, os periquitos seriam apenas pontas de lança de uma ocupação para valer. Seu objetivo seria abrir espaço para aquela gente diferenciada, os indianos e os africanos.
O fato é que, ao sentar-se hoje num parque em Londres, você ouve uma revoada. De várias árvores, centenas de periquitos levantam voo ao mesmo tempo, matraqueando em estéreo e Dolby, e dão um rasante sobre a sua cabeça. O filme "Os Pássaros", de Hitchcock, lhe vem à mente. Você fica com medo e volta para casa.
Nos "Pássaros", as armas eram as bicadas. Já em "Alta Ansiedade", de Mel Brooks, os pássaros também atacam, mas com esguichos.

GOSTOSA

GEORGE VIDOR - Dólar é que manda



Dólar é que manda
GEORGE VIDOR

O GLOBO - 23/05/11

O ouro já não serve de lastro para as moedas e o dólar perdeu muito da sua força. No entanto, a moeda americana ainda não perdeu a liderança nas transações internacionais e para mantê-la dificilmente os Estados Unidos aceitarão mudar agora as regras que definem o comando do Fundo Monetário Internacional (FMI). É assim desde 1946 e levará tempo para isso se modificar.

Tais regras agradam à União Europeia, mesmo com sua moeda única (o euro) apontada como potencial rival do dólar, e ao Japão. A economia chinesa caminha para superar a americana em tamanho, mas o yuan nem circula fora de seu território. A China continua a acumular suas reservas cambiais em dólares (alguns trilhões) e certamente gostaria de influenciar mais o FMI para que a instituição pudesse ter mais ingerência sobre decisões de política econômica dos Estados Unidos capazes de afetar o comportamento da moeda americana. Mas a China ainda não faz parte do seleto clube que decide.

Agora no fim da entressafra de cana-de-açúcar, o álcool anidro (que entra com volume de 25%) estava participando com quase o mesmo valor da gasolina pura (75%) da mistura. Do preço total que os consumidores pagavam no posto, o anidro correspondia a 22% e a gasolina pura a 26%. O restante era composto por impostos e margem dos revendedores.

A proporção de pessoas com mais de 15 anos que fumam no Brasil caiu para 15,1% no ano passado, segundo o Ministério da Saúde. A queda tem sido mais expressiva entre os homens (o índice caiu de 20,2%, em 2006, para 17,9%, em 2010). Entre as mulheres, a proporção permanece estável em 12,7%.

Os índices de fumantes são maiores na zona rural, entre as pessoas de renda mais baixa e as menos escolarizadas, possivelmente por elas não serem atingidas pelas campanhas de esclarecimento sobre o estrago que o fumo faz à saúde (dos próprios fumantes e dos que estão à volta). A proporção de pessoas com até oito anos de instrução que fumam é de 18,6%, enquanto entre as mais escolarizadas (12 ou mais anos de instrução) o índice cai para 10,2%.

31 de maio é o dia que os órgãos envolvidos no esforço para reduzir o consumo de tabaco avaliam esse trabalho, e a Organização Panamericana de Saúde promoverá um encontro em Brasília. Embora no Brasil esteja em declínio, o consumo está em alta em alguns mercados emergentes, ainda que a China tenha recentemente restringido o fumo em locais públicos.

A campanha estará direcionada agora contra o uso de aditivos, açúcares e a "mentolização", que tornam o cigarro menos desagradável aos que o experimentam (crianças e adolescentes, principalmente).

Em setembro, chefes de estado e de governo vão se reunir nas Nações Unidas, em Nova York, para discutir iniciativas de monitoramento dos chamados fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, entre os quais o tabaco e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

A Cedae, companhia estadual de água e esgotos do Rio de Janeiro, ocupará sua nova sede, na Cidade Nova, no mês que vem. Além de casa nova, a empresa chegará ao segundo semestre com seus passivos financeiros restruturados. Está prevista a quitação de uma dívida de R$1 bilhão (herdada do governo estadual) com a União. Esse débito é que impede a empresa de contrair financiamentos que viabilizem investimentos na recuperação e na expansão da rede de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos.

Para essa reestruturação foi fundamental também a Cedae equacionar seus compromissos com o fundo de previdência dos funcionários (Prece). No lugar do sistema de benefício definido, que deixava o fundo em situação de risco, os participantes estão migrando para planos de contribuição definida. Com a mudança, a Cedae pelo menos sabe quanto terá de desembolsar para liquidar esses passivos.

Nas próximas semanas conheceremos a verdadeira disposição do mercado imobiliário para investimento em prédios comerciais na zona portuária do Rio. A legislação abriu a possibilidade para a construção de prédios altos, se os incorporadores pagarem um sobrepreço pelos terrenos, valor que será investido pela prefeitura na melhoria da própria região. Esse programa despertou um debate sobre os rumos do desenvolvimento urbano do município. Induzir novos empreendimentos para o antigo centro, cujas vias de escoamento se mostram já saturadas, ou o melhor seria continuar caminhando para Barra da Tijuca e Zona Oeste?

Uma opção não exclui a outra, na verdade, pois, como mostra a experiência de Barcelona, uma grande cidade deve ser multipolar, com vários "centros" capazes de reunir áreas comerciais e de moradia simultaneamente.

Meu entusiasmo com a visita à Turquia foi tanto que acabei não mencionando uma rápida passagem por Berlim. Pela primeira vez me hospedei no lado oriental, na histórica Gendarmenmarkt, junto à rua (Friedrichstrasse) que reúne boas lojas. A praça é uma graça, com antigas catedrais que viraram museus e uma grande sala de concertos. Ao seu redor há uma série de ótimos restaurantes (um deles, de comida alemã, tem mais de duzentos anos) e bares. A pé se chega a todos os pontos de interesse da área histórica da cidade.

Conheci Berlim em 1980, quando ainda era possível ver, mesmo na parte ocidental, vestígios das dramáticas últimas semanas da Segunda Guerra Mundial na Europa. O lado oriental era de uma tristeza abissal. Logo depois da queda do Muro, voltei lá, profissionalmente, em duas ocasiões. Os dois lados ainda se estranhavam. Há três anos revi uma Berlim revigorada e desde então deu para perceber uma contínua melhora. Berlim pós-reunificação virou o centro de arte contemporânea na Europa.

LUIZ FELIPE PONDÉ - Flagelo da classe média


Flagelo da classe média

LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Não sou bem resolvido, tenho muitos preconceitos. Um deles é contra a classe média.

Além disso, sou cheio de maus hábitos: charutos, cachimbos, álcool, comida com sangue e não ando de bike. Para mim, o vício e a culpa são o centro da vida moral.


Enfim, não sou uma pessoa muito saudável. Por isso, não sou de confiança. Mas não pense que sofro do fígado; sou apenas um fraco.

Tenho uma amiga, muito inteligente, que costuma me chamar de "flagelo da classe média".

Quando falo "classe média", não olhe para seu saldo bancário, olhe para dentro de si mesmo. Classe média é um estado de espírito, e não apenas uma "alíquota" do imposto de renda ou o tipo de cartão de crédito que você tem.

Uma das marcas da classe média é pensar que, quando se fala de classe média, pensa-se essencialmente em saldo bancário.

Você pode ter muita grana e pensar como classe média, quer ver? Vou dar um exemplo de um surto de classe média em alguém que não era da classe média.

O sociólogo húngaro radicado na Inglaterra Frank Furedi, em seu livro "Therapy Culture", comenta como a Lady Di (morta tragicamente em 1997), a "princesa da classe média inglesa" ou a "princesa do povo", lamentou para a mídia o fato de seu então marido, príncipe Charles (herdeiro do trono da Inglaterra), ter uma amante.

Podemos imaginar uma mulher do East End londrino se sentindo irmã da então princesa porque ambas sofreriam da mesma maldição: a infidelidade em um casamento infeliz. Choravam juntas, uma na frente da TV, outra na frente das câmeras.

Lady Di nunca entendeu o que é ser da aristocracia, confundiu-se com a classe média e seus anseios de que casamento, amor e felicidade sejam uma coisa só.

Mas não há muito o que fazer com relação à realeza hoje em dia, porque vivemos no mundo da opinião pública e "ter opinião sobre tudo" é um fetiche típico do espírito de classe média. Alexis de Tocqueville (1805-1859) já dizia que a democracia é tagarela.

Quando se depende da opinião pública já não há mais saída para escapar das "redes sociais" típicas do mundo contemporâneo, no qual as pessoas têm opinião sobre tudo a partir de seus apartamentos de dois quartos com lavabo.

Basta ver o tanto de bobagens que se fala no Facebook, tipo "fui ao banheiro" ou "vomitei". Além de "revoluções diferenciadas", as redes sociais potencializam a banalidade humana.

Quando a classe média sonha, ela sempre pensa como Cinderela. "Querer ser feliz" é coisa de classe média.

Você pode ser milionário e ter cabeça de classe média, por exemplo, quando faz algo preocupado com o que os outros vão pensar. Nada mais típico do espírito da classe média do que citar um restaurante numa ruazinha em Paris para mostrar que conhece a cidade.Por outro lado, você pode ser uma pessoa que "batalha" pela vida e não pensar como Cinderela. Basta não criar de si mesmo uma imagem de "reduto do bem e da honestidade". O bom-mocismo social é o novo puritanismo hipócrita do início deste século.

Uma clara semelhança de espírito entre "aristocracia" e as classes sociais mais pobres (aparente absurdo) é a pouca ilusão com relação à hipocrisia social, substância da moral pública.

A primeira porque está acima da hipocrisia social (não precisa dela porque tem poder), e a segunda porque está abaixo da mesma hipocrisia social (não pode bancar a hipocrisia porque hipocrisia é um pequeno luxo).

O que caracteriza o espírito da classe média é pensar mais de si mesma do que ela é. Já que não tem nada, mas não morre de fome, fabrica de si mesma uma história de grandeza que não existe.

Por exemplo, inventa para si mesma uma "história de dignidade familiar", quando ninguém sobrevive sendo "digno", acha que educa bem seus filhos sempre "brilhantes", calcula cada proteína que come, num movimento de ganância travestido de preocupação com a vida, diz coisas como "não minto", quando, sabemos, a vida se afoga em mentiras necessárias à própria vida.

A classe média adora ter uma família de pobres como "amigos" para exibir por aí. Enfim, a classe média sofre de avareza espiritual.

COMO FICAR RIIIIIIIIIIIIIIIIIICO EM 4 ANOS

MARCO ANTONIO ROCHA - Dos efeitos do priapismo na economia mundial


Dos efeitos do priapismo na economia mundial
MARCO ANTONIO ROCHA
O Estado de S. Paulo - 23/05/2011

Diz a lenda que o poder e o dinheiro são afrodisíacos, e que todo rico é priápico. Lenda que ganhou reforço na última semana, com o envolvimento, num escândalo sexual, do homem de grande poder que lidava com montanhas de dinheiro, de muitos países, sentando-se, por força do cargo, ele próprio, numa montanha de dinheiro, do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O caso está nas mãos da Justiça e da Polícia norte-americanas, e as finanças internacionais têm de tocar sua vida de qualquer modo.

Algum abalo ou perturbação sem dúvida advirá, dado o bom desempenho que Dominique Strauss-Kahn vinha apresentando nas funções muito mais discretas - embora muito mais pecaminosas - de salvar banqueiros e governos relapsos da bancarrota e evitar que o mundo financeiro venha abaixo em outra crise, pior do que a de 2008. Para tratar desses magnos problemas, nesta semana deverá haver a reunião de cúpula do G-8, em Deauville, na França, na qual o diretor-gerente do FMI seria uma presença-chave. Mas ele já renunciou ao cargo e é muito duvidoso que possa enviar suas orientações e seus conselhos por e-mail ou por outra via qualquer. Primeiro, porque não terá cabeça para isso, que estará centrada em como evitar a cadeia para o resto da vida. Segundo, porque a sua destituição cria um cenário diferente do que prevalecia antes dos fatos nebulosos ocorridos na suíte do Sofitel - cenário do qual estará distante.

É até possível um adiamento da reunião, para dar tempo a que um substituto europeu de Strauss-Kahn seja entronizado - pois o interino, que irá, ou iria, no lugar dele, embora fosse seu assessor no FMI, é um americano, John Lipsky, e não há quem não saiba que economistas americanos estão sempre sob suspeita entre representantes de governos europeus.

De qualquer forma, não será fácil escolher um substituto para S-K. A tradição é que o diretor-gerente tem de ser europeu, no velho formato de um europeu para o FMI e um americano para o Banco Mundial (Bird). Mas, desta vez, os emergentes estão emergindo para a disputa e querem alguém mais afinado com eles, mais capaz de entender o bricabraque - que é como muita gente do Primeiro Mundo ironicamente denomina a linguagem dos Brics - sem dúvida, difícil de compreender muitas vezes. É que a linguagem dos desenvolvidos (e hoje, desarranjados) é quase sempre uma só e está nos manuais de boa governança que eles próprios escreveram. A dos Brics parece que se está formando ainda e nem é a mesma: conforme o membro do grupo que fale, ela muda - na verdade, quase nunca é a mesma.

Por isso, acho que é prematura a pretensão dos emergentes de conseguir eleger um dos seus para diretor-gerente do FMI. Até porque, nessa nobre sociedade, os EUA detêm grande parte do capital, e o capital detido pelos emergentes não chega a ser decisivo. Mas pleitear não ofende, de modo que o nosso ministro Mantega aproveitou para pontificar que "antes de discutir nomes, devemos estabelecer critérios para uma seleção adequada". Até parece um líder dos minoritários de partido político brasileiro dando o seu "pitaco" na véspera da convenção nacional. E emendou: "Já se passou o tempo em que algumas decisões podiam ser tomadas por um grupo de países". Calma, ministro, esse tempo não passou de todo... e V. Exa. ainda não tem a menor chance de ser diretor-gerente do FMI.

De qualquer forma, também, não é fácil fazer uma reunião de cúpula que exige clima de serenidade para poder pensar a médio e a longo prazos, num ambiente como o que vive a Europa, com alguns governos reféns de agiotas. As ruas da Espanha estiveram cheias de jovens, na semana passada, protestando contra o desemprego e o caos social, e o importante jornal El País ponderava que a onda de inquietação que se propagou pelo norte da África, e ainda apresenta grandes riscos, pode ter chegado à Espanha.

O caso da Grécia está num impasse. Praticamente falido, o berço da filosofia ocidental se recusa a aceitar a proposta das lideranças da União Europeia de uma reestruturação da sua dívida de 150% do Produto Interno Bruto, com o seu primeiro-ministro, George Papandreou, argumentando que "a partir" de 2014 o país terá um excedente orçamentário que tornará sua dívida "viável" - seja o que for que isso signifique: "Nós estamos tomando todas as medidas necessárias", garantiu ele. O que deve levar seus credores a indagarem: por que as medidas necessárias não foram tomadas para evitar o endividamento?

Essas turbulências e incertezas se agravam num momento pouco feliz para a economia brasileira, que está sentindo os primeiros arranhões de um surto inflacionário que pode crescer; está vendo caírem os preços das commodities, que muito contribuíram para o nosso saldo comercial externo; que não está tendo os resultados que poderia esperar da prometida austeridade fiscal do novo governo; e que vê muitos economistas e empresários apostarem mais no menos do que no mais, em termos de crescimento, e mais no mais do que no menos, em termos de inflação nos próximos meses.

Tudo num momento em que a presidente Dilma dá alguns sinais de perda de rumo.

MARCO ANTONIO VILLA - O estrategista tupiniquim


O estrategista tupiniquim
MARCO ANTONIO VILLA
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Caso o ministro Moreira Franco não esteja satisfeito com suas atribuições, deveria então ter a dignidade de pedir demissão do posto que ocupa


Quando foi avisado por um correligionário que seria o responsável pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Moreira Franco respondeu: "Quer tirar sarro da minha cara?". Foi sincero.
Ele nunca se interessou por planejamento estratégico, despreza o trabalho de reflexão sobre o futuro do Brasil e desconhece como outros países emergentes tratam a questão. Para o ministro, o que importa é que a SAE tem um orçamento pífio e não pode servir para abrigar seus aliados com cargos rentáveis.
Dentro da lógica do PMDB, do é dando que se recebe, a secretaria é uma espécie de "engana trouxa".
Tomou posse a 4 de janeiro, porém seu primeiro compromisso na SAE ocorreu somente 24 dias depois. No dia 26, seu primeiro dia de trabalho, foi ao Ipea às 10h e oito horas depois recebeu um deputado do seu partido. E só.
No dia posterior, uma quinta-feira, rumou para o Rio de Janeiro e só regressou na segunda-feira seguinte: é o que se chama de fim de semana prolongado em pleno mês de janeiro. Mas como absenteísmo é uma marca do ministro, no dia 31 só teve um registro na agenda: às 17h, "despachos internos".
Resumindo: em janeiro, ele esteve na SAE apenas dois dias. Em fevereiro, permaneceu em Brasília cerca de metade do mês.
Contudo, sua agenda -estafante para seu padrão de trabalho- ficou restrita a oito dias com somente "despachos internos", mas só pela manhã e começando às 10h.
Nos outros dias, recebeu parlamentares do PMDB e teve tempo, inclusive, para se encontrar com o ex-deputado Genebaldo Correa, um dos tristemente célebres anões do Orçamento. Há um registro até de uma audiência para um vereador de Engenho Paulo de Frontim, município do interior fluminense de apenas 13 mil habitantes.
Mas em dois meses de "trabalho" não realizou nenhuma reunião, mesmo que inicial, para analisar as questões estratégicas do Brasil, tarefa central da sua pasta.
Como um bom folião, resolveu antecipar o Carnaval. Despachou até as 15h do dia 1º de março. Depois rumou para o Rio de Janeiro.
Reapareceu no emprego no dia 10, certamente exausto, mas com apenas dois compromissos na agenda.
Horas depois, voou novamente para a antiga capital federal.
A ausência de atividades afeitas à pasta é evidente. Basta citar o dia 17 de março. Só há um registro: às 17h, compareceu à posse do presidente da Federação Brasileira de Bancos. O padrão de preencher a agenda com atividades absolutamente distantes da finalidade da SAE é uma constante.
No dia 10 de março anotou que, às 10h, fez os tais "despachos internos" e, às 21h, compareceu ao jantar comemorativo dos 45 anos do PMDB. Seria crível imaginar que, após três meses na SAE, Moreira Franco fosse finalmente assumir o seu posto. Doce ilusão.
No mês de abril, na maioria dos dias -isso quando esteve em Brasília-, registrou somente uma atividade na agenda. Em quatro meses, não foi recebido sequer uma vez pela presidente. Mas não perdeu a oportunidade de viajar para Roma e assistir à cerimônia de beatificação de João Paulo 2º (é uma atividade afeita à SAE?).
Caso o ministro não esteja satisfeito com suas atribuições, deveria ter a dignidade de pedir demissão.
Afinal, é muito importante para o país pensar e desenhar o planejamento estratégico para as próximas décadas, como faz a China (será que o ministro chinês, de uma pasta correspondente à SAE, tem a mesma agenda de Moreira Franco?). Mas, como estamos no Brasil, a ociosidade de Moreira Franco foi premiada: vai presidir o Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Mas para que serve o Conselhão?

GOSTOSA

MÔNICA BERGAMO - CHAMA O SÍNDICO


CHAMA O SÍNDICO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

As construtoras envolvidas no projeto Minha Casa, Minha Vida vão propor ao governo um aumento na taxa arrecadada para a realização de trabalhos sociais no projeto. Elas querem que o percentual suba de 0,5% do valor dos imóveis para 2%. Em troca, as empresas assumiriam a administração e a manutenção dos prédios, evitando que se deteriorem. Elas argumentam que o risco é elevado, já que os futuros moradores dos imóveis não têm o hábito de viver em condomínio.

DOCE LAR
A presidente Dilma Rousseff (PT) está definindo com a equipe ministerial que cuida do Minha Casa, Minha Vida como serão os imóveis da segunda fase do programa. Está em estudo adotar energia solar para todas as casas e apartamentos, colocar cerâmica em pisos de cômodos que hoje não têm esse tipo de material e azulejos em todas as paredes do banheiro.

QUANTO CUSTA
A definição do acabamento dos imóveis parece detalhe, mas não é. Mudanças no material utilizado podem interferir no custo do programa, pois são multiplicadas por muitas unidades. E podem alterar também, segundo construtoras, o número de apartamentos que "cabem" no orçamento que já está destinado ao financiamento das construções.

COM LICENÇA
Bombardeada pela retirada do selo do Creative Commons, que permitia o uso livre do conteúdo, do site do MinC (Ministério da Cultura), a ministra Ana de Hollanda vai propor a criação de um sistema público de licenciamento para a internet.

A ideia da pasta é desenvolver um modelo para identificar o que já é de domínio público no ambiente digital e oferecer um meio de os autores disponibilizarem suas obras e definirem como poderão ser utilizadas na rede.

ARTE EM FOCO
O artista plástico e fotógrafo Newton Mesquita lançou livro de suas obras, com textos de amigos como Arnaldo Jabor e Paulinho da Viola, na Livraria da Vila dos Jardins. Foram à noite de autógrafos Luciana Gallo e o pintor Takashi Fukushima, com a neta Marianne, entre outros.

A PIANISTA
Aos 24 anos, Juliana d'Agostini tem um diploma de piano da USP e passagens por conservatórios nos EUA e na França. A pianista lança seu segundo CD, em que toca Schubert e Villa-Lobos com o contrabaixista romeno Catalin Rotaru. Mas diz não deixar de viver fora do erudito: "Adoro sertanejo! Chega no fim do dia e preciso sair, senão piro".

FESTA DO INTERIOR

O DEM-SP regionalizou as inserções televisivas que fará neste mês. Além da capital, haverá peças específicas com as lideranças do partido em Campinas, Ribeirão Preto, Franca, São Carlos, São José dos Campos, Mogi das Cruzes e São José do Rio Preto.

HORA MARCADA
E a executiva estadual do DEM deve apreciar em duas semanas o pleito do vereador Carlos Apolinário, da capital, que ameaçou deixar o partido se não tivesse espaço no órgão. Ele voltou atrás na decisão de sair e se lançou pré-candidato a prefeito de SP, mas não quis gravar as inserções de TV enquanto seu pedido não fosse avaliado.

PER AMORE
Gilberto Gil, que tem cidadania italiana, compôs a música-tema do Momento Itália/Brasil ao lado da italiana Irene Grandi. E ele também gravou depoimentos com Felipe Massa e Christiane Torloni para a divulgação do ano que promove as relações entre os dois países. A abertura da programação, em outubro, deverá ser com um espetáculo na Lapa, no Rio.

OLHA A PIZZA

E uma "guerra da pizza" entre restaurantes de Nápoles e de SP está nos planos dos organizadores do Momento Itália/Brasil. Um júri escolherá a melhor pizza.

LETRAS

O BNDES decidiu apoiar a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho. O banco diz que será o maior patrocínio já feito na área de marketing, em que apoia a realização de feiras e eventos, por exemplo. Os valores não foram revelados.

TRATOR

O ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, participa hoje em SP da destruição de 4.000 armas. O ato simbólico faz parte da assinatura de convênio entre o governo e a prefeitura para a campanha do desarmamento.

CURTO - CIRCUITO

O filme "Sonhos Roubados", de Sandra Werneck, terá pré-estreia em Paris amanhã, no cinema Accattone, com a presença da cineasta.

Benito Di Paula se apresenta com o filho Rodrigo Vellozo na quarta, às 21h30, e na sexta, às 22h, no Café Paon. Classificação etária: 18 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

RICARDO YOUNG - A ONU e as empresas


A ONU e as empresas 
RICARDO YOUNG
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Terminou na sexta-feira, em Copenhague, o fórum anual do Global Compact, a iniciativa da ONU estabelecida em 2000 para induzir a gestão empresarial sustentável e engajá-las nas discussões multilaterais.
Ao aderir voluntariamente ao Pacto Global, as empresas se comprometem a adotar, em suas estratégias de negócios, princípios internacionalmente aceitos em direitos humanos, relações trabalhistas, meio ambiente e combate à corrupção.
A aplicação e evolução das práticas nesses temas são avaliadas por meio de uma relatório chamado de "Comunicação de Progresso". As empresas são, então, classificadas em quatro categorias: iniciantes, ativas, avançadas e blueprints.
Até 2010, 8.000 empresas de 135 países haviam aderido ao Pacto Global. Mas, no ano passado, a entidade resolveu realizar uma avaliação mais rígida e retirou a adesão de 2.000 empresas. Por isso, o fórum deste ano iniciou-se sob o impacto dessa decisão.
Com essa atitude, o Pacto Global sinalizou que não basta aderir aos compromissos, é preciso aplicá-los num processo contínuo de engajamento que vá disseminando e induzindo boas práticas gestão.
Na teoria, temos o protagonismo empresarial engajado com temas centrais para a sociedade, promovendo mudanças de comportamento e de padrão de produção e consumo, por meio da gestão sustentável.
Na prática, porém, há muitos desafios a superar.
O principal deles é tornar evidente que o comprometimento da gestão com a sustentabilidade contribui para a transição à nova economia.
Um dos caminhos é integrar os balanços financeiros e os relatórios socioambientais, como os do modelo GRI que permite o reporte das ações nos mesmos temas do Pacto Global.
A disseminação desse novo relatório empresarial integrado servirá não só como balizador das empresas no sistema multilateral da ONU como dará à sociedade parâmetros para avaliar a evolução da gestão sustentável e sua articulação com a nova economia verde. Outra forma de protagonismo que os 500 representantes de empresas e entidades de cem países presentes ao fórum optaram foi a decisão de pressionar os governos dos seus países a virem à Rio+20 com propostas concretas que possam vir a ser adotadas globalmente e que contribuam para a transição para a economia sustentável.
É grande a expectativa de que o Brasil, por sediar o evento, por possuir um imenso capital natural e por ter conquistado avanços econômicos e socioambientais importantes nos últimos anos, assuma de vez a liderança do movimento pelo desenvolvimento sustentável. É uma oportunidade para não desperdiçar.

BRAZIU: O PUTEIRO

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Pedágio verde
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Entraves no licenciamento ambiental mantêm hoje represados R$ 60 bilhões em investimentos em São Paulo, quantia três vezes superior à previsão de gastos em obras do orçamento em 2011. O cálculo é baseado na taxa de 5% sobre o valor a ser aplicado nos empreendimentos, recolhida na requisição do EIA/ Rima -estudo de impacto preparado pelos técnicos da Cetesb. Os dados preocupam o governo Geraldo Alckmin, que teme ser penalizado numa versão "ecológica" da guerra fiscal, na qual investidores podem migrar para outros Estados e regiões do país em busca de celeridade nas certificações para início das obras e efetiva implantação de novos negócios.
Fumaça Líderes da oposição comemoram a manifestação de Michel Temer, que ontem evocou a regulamentação do lobby numa tentativa de proteger Antonio Palocci. Consideram que o gesto do vice é sintomático de que a consultoria do ministro pode ter advogado interesses privados em negócios com o poder público no ano em que chefiou a campanha de Dilma Rousseff.

Toma lá... 
A crise envolvendo Palocci não trouxe problemas para o governo somente nas negociações em torno do Código Florestal. Aliados dão como certo que Dilma perdeu força também na queda de braço em torno dos restos a pagar.

...dá cá 

A presidente vinha sustentando um discurso intransigente, apesar das pressões. Agora, os parlamentares estão mais perto de conseguir extensão do prazo de 30 de junho, quando seriam cancelados os convênios de anos anteriores cujas obras não foram iniciadas.

#prontofalei
Entre as declarações do evento capitaneado por Marina Silva (PV) contra a votação do código, prevista para amanhã, chamou a atenção a do líder do PT, Paulo Teixeira. Na contramão do Planalto, o petista pediu mobilização nas redes sociais para evitar que "se perpetue um crime contra a sociedade brasileira".

Onde pega 

Na avaliação do governo, parte da estridência de Roberto Requião (PMDB-PR) no Twitter contra Palocci deve ser creditada à indicação de Orlando Pessutti (PMDB-PR), ex-aliado e hoje desafeto do senador, para o conselho do BNDES.

Belezura 

Na tentativa de mostrar seu interesse pelo jogo inaugural da Copa, o comitê paulista quer acelerar os projetos do pacote de infraestrutura viária orçado em R$ 340 milhões para o entorno do "Itaquerão", na zona leste da capital. A promessa é que todas as obras terminem em junho de 2013, mesmo com a cidade fora da Copa das Confederações.

Par perfeito 
Reconduzido ao comando do PP paulista, Paulo Maluf atraiu Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e Michel Temer à convenção do partido, o que fez um antigo aliado refletir sobre o magnetismo do tempo de TV: "De patinho feio, Maluf virou noiva da vez".

Mulher no campo 

Ganhou força na bolsa de apostas para a Secretaria da Agricultura de Alckmin o nome de Mônika Bergamaschi, da Associação Brasileira do Agronegócio. Pedro de Camargo Neto, ligado aos exportadores de carne suína, é outro cotado para o cargo, vago desde abril.

Dois tempos 

A Assembleia paulista votará amanhã o projeto que regulamenta a Região Metropolitana de São Paulo, de interesse do Bandeirantes. Objeto de polêmica na base governista, a proposta que reajusta vencimentos dos defensores públicos ficou para junho.

tiroteio

"O cronograma das obras mostra que o governo está com novo PAC a todo vapor: o Programa de Atraso da Copa."
DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), sobre a CGU apontar investimento efetivo de R$ 590 milhões, até agora, dos R$ 23 bi previstos para o Mundial.

contraponto

Tomou Doril


Em 1992, quando comandava a UNE, Lindbergh Farias combinou de dar uma entrevista com Aldo Rebelo, ex-presidente da entidade estudantil.
A conversa com a repórter já corria solta quando os dois repararam que, na sala por eles escolhida para recebê-la, havia um grande pôster de Saddam Hussein.
Ciente de que não pegaria bem aparecer ao lado da imagem do ditador iraquiano, a dupla aproveitou saída rápida da jornalista para tirar o retrato da parede. Quando ela voltou à sala, olhou em torno e perguntou:
-Ué, cadê o Saddam?
Os dois caíram na gargalhada.

DURVAL DE NORONHA GOYOS - Embusteiros estrangeiros


Embusteiros estrangeiros
DURVAL DE NORONHA GOYOS
O Globo - 23/05/2011

Diversas bancas estrangeiras têm se estabelecido no Brasil recentemente para a prestação de serviços jurídicos. O movimento é devido não apenas ao notável desenvolvimento econômico que aqui se verifica, mas também à crise que se abate sobre os principais países provedores tradicionais de serviços legais, bem como ao esgotamento de seus estreitos mercados.

Os estrategistas dos países hegemônicos vislumbraram essa perda de competitividade há mais de 20 anos. De fato, na Rodada Uruguai do GATT, lançada em 1986 e concluída em 1993, foi incluída na pauta das negociações a liberalização dos serviços legais. Na ocasião, os EUA e a União Europeia (UE) pretenderam a abertura dos mercados dos países em desenvolvimento, enquanto mantinham os seus fechados.

Desmascarada a posição hegemônica durante as tratativas, a questão não evoluiu no âmbito multilateral. Isso não impediu que os agentes governamentais dos EUA e do Reino Unido procurassem obter vantagens para o acesso ao mercado por seus provedores de serviços legais no âmbito bilateral.

Ao mesmo tempo em que lançavam tais iniciativas, mantinham os seus mercados fechados aos consultores jurídicos de outros países, principalmente daqueles em desenvolvimento. A principal barreira tem sido a horizontal: restrições à movimentação de advogados. É assim nos EUA e é assim na UE.

Escritórios brasileiros com operação na UE enviam advogados com dupla nacionalidade, uma delas europeia, para seus gabinetes no bloco. No Reino Unido, advogados brasileiros que desejam se qualificar no país devem tomar um número muito maior de exames do que aqueles vindos de outras regiões, em violação ao princípio da cláusula da nação mais favorecida do sistema multilateral de comércio.

Nos EUA, alguns estados, como a Flórida, impedem que escritórios estrangeiros contratem advogados locais. As normas de imigração compõem também ali uma grande barreira ao estabelecimento de escritórios de países em desenvolvimento, como o Brasil.

Em algumas jurisdições estrangeiras, como no Reino Unido, os provedores de serviços jurídicos não mais são advogados, de acordo com os tratados internacionais de regência sobre a matéria, conforme já decidiu o próprio Conselho de Ordens da União Europeia (CCBE). Moldadas como bancos de investimentos, podem tais firmas ter sócios e prestadores de serviços não advogados.

A orientação profissional de tais organismos difere da advocacia e se aproxima daquela dos bancos de investimentos, que tantos prejuízos causaram à economia mundial manifestos na crise econômica e financeira de 2008, cujos efeitos persistem até hoje.

O estabelecimento de tais entidades no Brasil diretamente, ou mediante o uso de interpostas pessoas, ainda que advogados, não apenas constitui fraudes diversas, em violação ao direito penal pátrio, mas apresenta graves riscos de ordem pública.

Sem a qualificação e o compromisso com o ordenamento jurídico brasileiro, tais entidades confundirão o público consumidor apresentando-se como advogados, qualidade que não possuem. Mais ainda, poderão, como fazem mundo afora, instruir o crime organizado, a fraude fiscal institucionalizada, a fraude do mercado de capitais, os crimes financeiros, a corrupção e o desvio do foro natural brasileiro para o exterior, entre outras anomalias.

A situação se apresenta tanto mais grave porque a OAB tem uma excelente regulamentação a permitir o funcionamento do consultor em direito estrangeiro, há mais de dez anos, outorgada unilateralmente, bem como a regular de maneira equilibrada e não discriminatória a qualificação de advogados estrangeiros no Brasil. Assim, o uso de subterfúgios para fraudar a ordem jurídica doméstica, dramático para advogados, é indicativo das piores intenções.

Algumas vozes pouco esclarecidas no Brasil acham que o fenômeno é uma manifestação da globalização. Tais pessoas não enxergam que, nos países dessas organizações, a chamada globalização não é possível, pelo protecionismo institucionalizado, pois valem apenas os próprios interesses. Mais ainda, não vislumbram a ameaça enorme que se apresenta à ordem pública brasileira.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Rio lança programa para fomentar inovação
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11
O Rio de Janeiro dá uma resposta a quem pensa que seu crescimento é feito apenas de petróleo, siderurgia e escoamento de minérios.
O governo do Estado vai criar um programa para estimular a nova economia, a inovação tecnológica e a sustentabilidade em energia.
"O Rio é a capital da energia", diz Julio Bueno, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.
"Aqui estão 85% da produção nacional de petróleo, 45% do gás natural feito no Brasil, o maior parque térmico a gás do país e entidades que representam o setor."
Escolheu quatro setores: transporte, construção, indústria e serviços e comércio.
Na área de inovação em geral, o programa vai priorizar a formação de PHDs e mestres e o financiamento de risco e de linhas de fomento. O objetivo para transportes será estimular o desenvolvimento de combustíveis de baixa emissão de carbono.
A Bosch e a Man desenvolvem um motor a gás natural, segundo Bueno.
"O veículo roda com até 90% de gás. Podemos financiar e ter metade da frota movida a gás natural."
Na construção, o governo focaria o desenvolvimento de novos materiais e projetos de baixo consumo.
"Nas padarias, por exemplo, poderíamos estimular a troca de fornos elétricos por fornos a gás mais eficientes, financiados pelo governo."
O governo ainda discute se seria viável implantar um "bônus verde, que permitiria trocar baixo carbono", segundo o secretário.

"O governo quer tornar o Rio um centro mundial de inovação e sustentabilidade em energia"
JULIO BUENO
secretário estadual de desenvolvimento econômico

PERTO DE CASA
A marca americana de "delivery" Domino's Pizza decidiu baixar os preços em cerca de 30% e abrir unidades em regiões mais populares para atrair o consumidor da classe C.
Ao lado da China, o país ganhou importância internacional na rede como operação de maior crescimento da marca, segundo Henrique Pamplona, diretor-geral da rede no Brasil.
"Vamos expandir para áreas sensíveis a preço."
O projeto de expansão incluiu mapeamento sócio-demográfico.
A ideia é levar franquias a municípios do Grande Rio e da Grande São Paulo, além de novas capitais e cidades do interior paulista.
Atualmente com 33 lojas em operação, a rede deve fechar o ano com mais de 90 unidades no país.
"Apesar da queda nos preços, nós aumentamos em volume. O faturamento continua subindo."

ORÇAMENTO DE INOVAÇÃO
Investe-se pouco em inovação no país, segundo estudo da Amcham e da Fundação Dom Cabral. Cerca de 17% das empresas informam que aplicam mais de 4% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Quase 75% fazem aporte de até 4% e 9% não fazem.

"Made in Bahia" 
A baiana Amma, de chocolates orgânicos, fechou acordo de exportação para o mercado chinês. Ainda neste mês, Pequim e Hong Kong receberão uma tonelada de chocolate. O produto brasileiro estará disponível em lojas de produtos naturais e distribuidoras de alimentos.

Novata 

O Grupo de logística TPC abriu as operações da Reversa Soluções Logísticas, nova marca da holding para realização de logística reversa. Atuará na revenda de itens devolvidos pelo e-commerce. O segmento opera na movimentação de produtos após a entrega ao cliente.

Motor... 

Com US$ 30 milhões em vendas em 2010, o Brasil passou o México, há cinco anos na liderança de vendas de helicópteros Bell na América Latina. O montante vendido no país pela TAM Aviação Executiva ficou 20% acima do valor de vendas do México e 30% da Argentina, outro mercado relevante para a fabricante de helicópteros norte-americana.

... e hélice 
A força de vendas é atribuída à nova aeronave da Bell, o 429, que começou a ser entregue no Brasil. O modelo leva até sete passageiros e pode ser convertido em UTI aérea, segundo a empresa.

ATRATIVIDADE DOS BRICS
Brasil e China são os dois emergentes mais atraentes para investimentos de fundos "private equity", segundo a consultoria norte-americana Probitas Partners.
Cada um dos países foi indicado por 40% dos executivos ouvidos pela pesquisa.
Os entrevistados poderiam sugerir os dois destinos mais atrativos entre as nações em desenvolvimento.
A Índia aparece em seguida, com indicações de 30% dos executivos.
Para os próximos anos, a consultoria prevê aumento dos investimentos na Coreia do Sul, no México, na Indonésia e na Turquia. Nenhum desses quatro mercados, porém, foi lembrado por mais de 6% dos entrevistados.
O continente africano foi lembrado por apenas 1% dos empresários ouvidos pela pesquisa.

DESACELERAÇÃO REGIONAL

O Mercosul não terá crescimento econômico superior ao da América Latina pela primeira vez em cinco anos, de acordo com a EIU.
A previsão da consultoria é que tanto o bloco supranacional como a região aumentem em 4,1% o seu PIB (Produto Interno Bruto) em 2011.
Desde 2006, o Mercosul sempre tem apresentado indicadores melhores que os da América Latina.
O principal motivo para a desaceleração do bloco, que cresceu 6,8% em 2010, é o combate à inflação, segundo o estudo. A queda no consumo e na concessão de crédito para a iniciativa privada afetarão mais o Mercosul que o restante da América Latina, também segundo a EIU.
O crescimento previsto para o Brasil neste ano é de 4%, enquanto o do México está estimado em 4,9%.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

RICARDO NOBLAT - Traduzindo Palocci


Traduzindo Palocci
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 23/05/11
O que há em comum entre Antonio Palocci, chefe da Casa Civil da presidência da República, dono de um patrimônio que se multiplicou por 20 no curto período de quatro anos como deputado federal, e Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, preso em Nova Iorque por ter agredido sexualmente uma arrumadeira de hotel?

Em comum: Palocci e Dominique não podem contar exatamente o que fizeram - nem por que fizeram. Palocci alega que uma cláusula de confidencialidade o impede de tornar pública alista de clientes de sua empresa de consultoria. Somente no ano passado ela faturou R$ 20 milhões - metade entre o dia da eleição e o dia da posse de Dilma.

Dominique insiste em repetir por meio dos seus advogados que é inocente. Não, não se trancou com a arrumadeira em uma suíte do Hotel Sofitel, no coração de Nova Iorque. Não, não a jogou sobre acama para estuprá-la. Muito menos a obrigou a fazer sexo oral nele. A Justiça aceitou as sete acusações que pesam sobre Dominique.

Por ora, nenhuma acusação pesa sobre Palocci. Pesa a robusta suspeita de que enriqueceu rapidamente fazendo lobby para empresas empenhadas em fechar negócios com o governo. Ou municiando-as com informações privilegiadas às quais tinha acesso como ex-ministroda Fazenda do governo Lula e influente deputado do PT. Ou, ou, ou...

Palocci perdeu a voz desde que a "Folha de S. Paulo", há uma semana, publicou que ele comprara no final do ano passado dois luxuosos imóveis em São Paulo pela bagatela de R$ 7,4 milhões. Isso depois de ter declarado à Justiça Eleitoral que o valor do seu patrimônio em 2006 não chegava a R$ 380 mil. Agora, Palocci só fala por escrito.

Sem lhe cobrar tostão ou favor, ofereço-me para traduzir o que tem dito. Palocci disse que pôde comprar os dois imóveis graças ao salário de deputado e mais o que lucrou como consultor. Se apenas no ano passado a consultoria lhe rendeu R$ 20 milhões, imagine-se a preciosidade dos conselhos dados por ele a seus clientes...

Compare: quanto o mensalão do PT movimentou para pagar despesas de campanha do partido e comprar o apoio de dezenas de deputados? Algo como R$ 55 milhões. A empresa de Palocci se resumia a ele mesmo. O que faturou, contudo, iguala ou supera os ganhos das maiores empresas do ramo - algumas delas com cerca de 100 funcionários.

No ano em que mais embolsou dinheiro, justamente o das eleições gerais, Palocci dividiu-se entre as tarefas de consultor e de fiador da candidatura de Dilma junto ao mundo econômico. Diga-mos que de manhã ele vendia o projeto que Dilma tinha para o país. E que à tarde, e para as mesmas pessoas, vendia a Projeto, a consultoria dele.

Disse Palocci que os cofres da Projeto se entupiram de dinheiro nos últimos meses do ano passado só porque estava para fechar. Curioso! Justo na contra-mão de outras empresas que às vésperas de fechar costumam arrecadar pouco. Palocci repudia qualquer insinuação de que possa ter traficado in-fluência. Não. Jamais!

Donde se conclui que os clientes da Projeto, sem nenhuma outra intenção a não ser a de honrar compromissos assumidos no passado, pagaram a Palocci de boa fé a fortuna de R$ 10 milhões quando já estava certo que ele seria o mais poderoso ministro do novo governo. Nada esperavam dele em troca. Por que essa história soa como inverossímil?

Encerro a tarefa de traduzir Palocci lembrando o que aprendi em 29 anos de Brasília: quanto mais grave pareça um episódio envolvendo cabeças coroadas da República, maiores são as chances de que dê em nada. ACPI que investigou o caixa dois da campanha de Fernando Collor deixou em paz empresários e banqueiros.

A força de Palocci reside na ligação com os "donos do poder". Foram eles que financiaram sua eleição em 2006, a Projeto e o projeto de Dilma. Com acerto, aplica-se a Palocci a distinção conferida por Lula a Sarney: trata-se de um homem incomum.

CLÁUDIO HUMBERTO


"Temos que fazer tentativas de investigar"
 

Senador Álvaro Dias (PSDB-PR) acreditando que vai emplacar a CPI do Palocci

MG: licitação sob suspeita na Fazenda

A regional do Ministério da Fazenda em Minas realizou, em dezembro de 2009, um pregão cujo objetivo é a rapidez, mas só assinou contrato um ano depois com a vencedora, a CNC Soluctions Tecnologia da Informação. A licitação pode ter sido uma fraude. Apesar dos serviços orçados em R$ 170 milhões, o órgão emitiu uma nota de empenho (nº 2010/NE/901600) no valor de apenas 1 real, só para validar o contrato. A suspeita é que a tal CNC queria apenas o "registro de ata de preços".

Loteria MF

A adesão à ata de preços permite contratar vencedora de licitação em outros órgãos públicos por preços idênticos. Sem licitação. Uma loteria.

Removidos

O Ministério Público investiga por que foram destituídos os técnicos do Ministério da Fazenda que inabilitaram a CNC para a licitação.

Solução final

O avaliador técnico que substituiu um outro, afastado na véspera da licitação, julgou rapidamente a CNC como habilitada para a disputa.

TCEs na mira

Estão envolvidos em graves irregularidades cerca de 20% de todos os conselheiros de Tribunais de Contas do país, exatamente aqueles que são encarregados de fiscalizar a correta aplicação de recursos públicos pelos governos estaduais. O levantamento da Associação Nacional dos Procuradores de TCEs está em poder desta coluna. No total, estão sob suspeita, a maioria por corrupção, 54 conselheiros de 17 estados.

SP lidera

No Sudeste, seis conselheiros de São Paulo são investigados. Quatro em Minas, três no Rio de Janeiro e outros três no Espírito Santo.

Exceção

Na região Norte, o Amazonas não tem conselheiros sob suspeita. São seis em Rondônia, cinco no Amapá, dois em Roraima, um no Pará.

No Sul

Na região Sul, só em Santa Catarina não há conselheiros investigados. São cinco no Paraná e três no Rio Grande do Sul.

Reduzidos

No Nordeste, há dois conselheiros acusados em Sergipe. No Ceará, Alagoas e Bahia, um cada. No Centro-Oeste, MT e o DF têm dois, cada.

PC de Dilma

Lula está empenhado em salvar o pescoço de Antonio Palocci porque conhece, melhor que ninguém, o papel dele na campanha de Dilma: era o ministro quem chefiava o milionário esquema de financiamento

Daqui não saio

Amigos de Antonio Palocci garantem que ele avisou ao ex-presidente Lula: só sai morto do cargo de ministro da Casa Civil. Pedir demissão, jamais. Falta combinar com o "zagueiro", a presidente Dilma.

Outra derrota

O PSDB deverá indicar mesmo o coronel Tasso Jereissati para a presidência do Instituto Teotônio Vilela. José Serra perde mais uma vez e fica fragilizado na disputa interna contra o senador Aécio Neves.

'Paff'

A Procuradoria-Geral da República deu 15 dias para Palocci explicar seu PAP: Plano de Aceleração do Patrimônio. Com aquela língua presa, vai precisar de mais 15.

PODER SEM PUDOR

Cai fora, deputado
O jurista Paulo Brossard era deputado estadual, no Rio Grande do Sul. Discursava sobre a crise política da época e fingia não ouvir os insistentes pedidos de aparte de um adversário, Porcínio Pinto (PTB):
- Como é, vossa excelência vai ou não me dar uma palavrinha?
Brossard parou de repente e respondeu com calma e firmeza:
- Por favor, retire-se do meu discurso!

NA CAMA COM PALOCCI

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Conselheiros de Tribunais de Contas são investigados
Folha: PM recebe R$ 200 mi em salários irregulares
Estadão: Falta de investimentos é ameaça para o etanol
Correio: Barco naufraga no Lago Paranoá com 104 pessoas a bordo
Valor: BC prevê novas aquisições e fusões de bancos menores
Estado de Minas: Perueiros à solta
Jornal do Commercio: Mais aperto no consumo