segunda-feira, maio 23, 2011

RICARDO YOUNG - A ONU e as empresas


A ONU e as empresas 
RICARDO YOUNG
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Terminou na sexta-feira, em Copenhague, o fórum anual do Global Compact, a iniciativa da ONU estabelecida em 2000 para induzir a gestão empresarial sustentável e engajá-las nas discussões multilaterais.
Ao aderir voluntariamente ao Pacto Global, as empresas se comprometem a adotar, em suas estratégias de negócios, princípios internacionalmente aceitos em direitos humanos, relações trabalhistas, meio ambiente e combate à corrupção.
A aplicação e evolução das práticas nesses temas são avaliadas por meio de uma relatório chamado de "Comunicação de Progresso". As empresas são, então, classificadas em quatro categorias: iniciantes, ativas, avançadas e blueprints.
Até 2010, 8.000 empresas de 135 países haviam aderido ao Pacto Global. Mas, no ano passado, a entidade resolveu realizar uma avaliação mais rígida e retirou a adesão de 2.000 empresas. Por isso, o fórum deste ano iniciou-se sob o impacto dessa decisão.
Com essa atitude, o Pacto Global sinalizou que não basta aderir aos compromissos, é preciso aplicá-los num processo contínuo de engajamento que vá disseminando e induzindo boas práticas gestão.
Na teoria, temos o protagonismo empresarial engajado com temas centrais para a sociedade, promovendo mudanças de comportamento e de padrão de produção e consumo, por meio da gestão sustentável.
Na prática, porém, há muitos desafios a superar.
O principal deles é tornar evidente que o comprometimento da gestão com a sustentabilidade contribui para a transição à nova economia.
Um dos caminhos é integrar os balanços financeiros e os relatórios socioambientais, como os do modelo GRI que permite o reporte das ações nos mesmos temas do Pacto Global.
A disseminação desse novo relatório empresarial integrado servirá não só como balizador das empresas no sistema multilateral da ONU como dará à sociedade parâmetros para avaliar a evolução da gestão sustentável e sua articulação com a nova economia verde. Outra forma de protagonismo que os 500 representantes de empresas e entidades de cem países presentes ao fórum optaram foi a decisão de pressionar os governos dos seus países a virem à Rio+20 com propostas concretas que possam vir a ser adotadas globalmente e que contribuam para a transição para a economia sustentável.
É grande a expectativa de que o Brasil, por sediar o evento, por possuir um imenso capital natural e por ter conquistado avanços econômicos e socioambientais importantes nos últimos anos, assuma de vez a liderança do movimento pelo desenvolvimento sustentável. É uma oportunidade para não desperdiçar.

BRAZIU: O PUTEIRO

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Pedágio verde
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11

Entraves no licenciamento ambiental mantêm hoje represados R$ 60 bilhões em investimentos em São Paulo, quantia três vezes superior à previsão de gastos em obras do orçamento em 2011. O cálculo é baseado na taxa de 5% sobre o valor a ser aplicado nos empreendimentos, recolhida na requisição do EIA/ Rima -estudo de impacto preparado pelos técnicos da Cetesb. Os dados preocupam o governo Geraldo Alckmin, que teme ser penalizado numa versão "ecológica" da guerra fiscal, na qual investidores podem migrar para outros Estados e regiões do país em busca de celeridade nas certificações para início das obras e efetiva implantação de novos negócios.
Fumaça Líderes da oposição comemoram a manifestação de Michel Temer, que ontem evocou a regulamentação do lobby numa tentativa de proteger Antonio Palocci. Consideram que o gesto do vice é sintomático de que a consultoria do ministro pode ter advogado interesses privados em negócios com o poder público no ano em que chefiou a campanha de Dilma Rousseff.

Toma lá... 
A crise envolvendo Palocci não trouxe problemas para o governo somente nas negociações em torno do Código Florestal. Aliados dão como certo que Dilma perdeu força também na queda de braço em torno dos restos a pagar.

...dá cá 

A presidente vinha sustentando um discurso intransigente, apesar das pressões. Agora, os parlamentares estão mais perto de conseguir extensão do prazo de 30 de junho, quando seriam cancelados os convênios de anos anteriores cujas obras não foram iniciadas.

#prontofalei
Entre as declarações do evento capitaneado por Marina Silva (PV) contra a votação do código, prevista para amanhã, chamou a atenção a do líder do PT, Paulo Teixeira. Na contramão do Planalto, o petista pediu mobilização nas redes sociais para evitar que "se perpetue um crime contra a sociedade brasileira".

Onde pega 

Na avaliação do governo, parte da estridência de Roberto Requião (PMDB-PR) no Twitter contra Palocci deve ser creditada à indicação de Orlando Pessutti (PMDB-PR), ex-aliado e hoje desafeto do senador, para o conselho do BNDES.

Belezura 

Na tentativa de mostrar seu interesse pelo jogo inaugural da Copa, o comitê paulista quer acelerar os projetos do pacote de infraestrutura viária orçado em R$ 340 milhões para o entorno do "Itaquerão", na zona leste da capital. A promessa é que todas as obras terminem em junho de 2013, mesmo com a cidade fora da Copa das Confederações.

Par perfeito 
Reconduzido ao comando do PP paulista, Paulo Maluf atraiu Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e Michel Temer à convenção do partido, o que fez um antigo aliado refletir sobre o magnetismo do tempo de TV: "De patinho feio, Maluf virou noiva da vez".

Mulher no campo 

Ganhou força na bolsa de apostas para a Secretaria da Agricultura de Alckmin o nome de Mônika Bergamaschi, da Associação Brasileira do Agronegócio. Pedro de Camargo Neto, ligado aos exportadores de carne suína, é outro cotado para o cargo, vago desde abril.

Dois tempos 

A Assembleia paulista votará amanhã o projeto que regulamenta a Região Metropolitana de São Paulo, de interesse do Bandeirantes. Objeto de polêmica na base governista, a proposta que reajusta vencimentos dos defensores públicos ficou para junho.

tiroteio

"O cronograma das obras mostra que o governo está com novo PAC a todo vapor: o Programa de Atraso da Copa."
DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), sobre a CGU apontar investimento efetivo de R$ 590 milhões, até agora, dos R$ 23 bi previstos para o Mundial.

contraponto

Tomou Doril


Em 1992, quando comandava a UNE, Lindbergh Farias combinou de dar uma entrevista com Aldo Rebelo, ex-presidente da entidade estudantil.
A conversa com a repórter já corria solta quando os dois repararam que, na sala por eles escolhida para recebê-la, havia um grande pôster de Saddam Hussein.
Ciente de que não pegaria bem aparecer ao lado da imagem do ditador iraquiano, a dupla aproveitou saída rápida da jornalista para tirar o retrato da parede. Quando ela voltou à sala, olhou em torno e perguntou:
-Ué, cadê o Saddam?
Os dois caíram na gargalhada.

DURVAL DE NORONHA GOYOS - Embusteiros estrangeiros


Embusteiros estrangeiros
DURVAL DE NORONHA GOYOS
O Globo - 23/05/2011

Diversas bancas estrangeiras têm se estabelecido no Brasil recentemente para a prestação de serviços jurídicos. O movimento é devido não apenas ao notável desenvolvimento econômico que aqui se verifica, mas também à crise que se abate sobre os principais países provedores tradicionais de serviços legais, bem como ao esgotamento de seus estreitos mercados.

Os estrategistas dos países hegemônicos vislumbraram essa perda de competitividade há mais de 20 anos. De fato, na Rodada Uruguai do GATT, lançada em 1986 e concluída em 1993, foi incluída na pauta das negociações a liberalização dos serviços legais. Na ocasião, os EUA e a União Europeia (UE) pretenderam a abertura dos mercados dos países em desenvolvimento, enquanto mantinham os seus fechados.

Desmascarada a posição hegemônica durante as tratativas, a questão não evoluiu no âmbito multilateral. Isso não impediu que os agentes governamentais dos EUA e do Reino Unido procurassem obter vantagens para o acesso ao mercado por seus provedores de serviços legais no âmbito bilateral.

Ao mesmo tempo em que lançavam tais iniciativas, mantinham os seus mercados fechados aos consultores jurídicos de outros países, principalmente daqueles em desenvolvimento. A principal barreira tem sido a horizontal: restrições à movimentação de advogados. É assim nos EUA e é assim na UE.

Escritórios brasileiros com operação na UE enviam advogados com dupla nacionalidade, uma delas europeia, para seus gabinetes no bloco. No Reino Unido, advogados brasileiros que desejam se qualificar no país devem tomar um número muito maior de exames do que aqueles vindos de outras regiões, em violação ao princípio da cláusula da nação mais favorecida do sistema multilateral de comércio.

Nos EUA, alguns estados, como a Flórida, impedem que escritórios estrangeiros contratem advogados locais. As normas de imigração compõem também ali uma grande barreira ao estabelecimento de escritórios de países em desenvolvimento, como o Brasil.

Em algumas jurisdições estrangeiras, como no Reino Unido, os provedores de serviços jurídicos não mais são advogados, de acordo com os tratados internacionais de regência sobre a matéria, conforme já decidiu o próprio Conselho de Ordens da União Europeia (CCBE). Moldadas como bancos de investimentos, podem tais firmas ter sócios e prestadores de serviços não advogados.

A orientação profissional de tais organismos difere da advocacia e se aproxima daquela dos bancos de investimentos, que tantos prejuízos causaram à economia mundial manifestos na crise econômica e financeira de 2008, cujos efeitos persistem até hoje.

O estabelecimento de tais entidades no Brasil diretamente, ou mediante o uso de interpostas pessoas, ainda que advogados, não apenas constitui fraudes diversas, em violação ao direito penal pátrio, mas apresenta graves riscos de ordem pública.

Sem a qualificação e o compromisso com o ordenamento jurídico brasileiro, tais entidades confundirão o público consumidor apresentando-se como advogados, qualidade que não possuem. Mais ainda, poderão, como fazem mundo afora, instruir o crime organizado, a fraude fiscal institucionalizada, a fraude do mercado de capitais, os crimes financeiros, a corrupção e o desvio do foro natural brasileiro para o exterior, entre outras anomalias.

A situação se apresenta tanto mais grave porque a OAB tem uma excelente regulamentação a permitir o funcionamento do consultor em direito estrangeiro, há mais de dez anos, outorgada unilateralmente, bem como a regular de maneira equilibrada e não discriminatória a qualificação de advogados estrangeiros no Brasil. Assim, o uso de subterfúgios para fraudar a ordem jurídica doméstica, dramático para advogados, é indicativo das piores intenções.

Algumas vozes pouco esclarecidas no Brasil acham que o fenômeno é uma manifestação da globalização. Tais pessoas não enxergam que, nos países dessas organizações, a chamada globalização não é possível, pelo protecionismo institucionalizado, pois valem apenas os próprios interesses. Mais ainda, não vislumbram a ameaça enorme que se apresenta à ordem pública brasileira.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Rio lança programa para fomentar inovação
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/05/11
O Rio de Janeiro dá uma resposta a quem pensa que seu crescimento é feito apenas de petróleo, siderurgia e escoamento de minérios.
O governo do Estado vai criar um programa para estimular a nova economia, a inovação tecnológica e a sustentabilidade em energia.
"O Rio é a capital da energia", diz Julio Bueno, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.
"Aqui estão 85% da produção nacional de petróleo, 45% do gás natural feito no Brasil, o maior parque térmico a gás do país e entidades que representam o setor."
Escolheu quatro setores: transporte, construção, indústria e serviços e comércio.
Na área de inovação em geral, o programa vai priorizar a formação de PHDs e mestres e o financiamento de risco e de linhas de fomento. O objetivo para transportes será estimular o desenvolvimento de combustíveis de baixa emissão de carbono.
A Bosch e a Man desenvolvem um motor a gás natural, segundo Bueno.
"O veículo roda com até 90% de gás. Podemos financiar e ter metade da frota movida a gás natural."
Na construção, o governo focaria o desenvolvimento de novos materiais e projetos de baixo consumo.
"Nas padarias, por exemplo, poderíamos estimular a troca de fornos elétricos por fornos a gás mais eficientes, financiados pelo governo."
O governo ainda discute se seria viável implantar um "bônus verde, que permitiria trocar baixo carbono", segundo o secretário.

"O governo quer tornar o Rio um centro mundial de inovação e sustentabilidade em energia"
JULIO BUENO
secretário estadual de desenvolvimento econômico

PERTO DE CASA
A marca americana de "delivery" Domino's Pizza decidiu baixar os preços em cerca de 30% e abrir unidades em regiões mais populares para atrair o consumidor da classe C.
Ao lado da China, o país ganhou importância internacional na rede como operação de maior crescimento da marca, segundo Henrique Pamplona, diretor-geral da rede no Brasil.
"Vamos expandir para áreas sensíveis a preço."
O projeto de expansão incluiu mapeamento sócio-demográfico.
A ideia é levar franquias a municípios do Grande Rio e da Grande São Paulo, além de novas capitais e cidades do interior paulista.
Atualmente com 33 lojas em operação, a rede deve fechar o ano com mais de 90 unidades no país.
"Apesar da queda nos preços, nós aumentamos em volume. O faturamento continua subindo."

ORÇAMENTO DE INOVAÇÃO
Investe-se pouco em inovação no país, segundo estudo da Amcham e da Fundação Dom Cabral. Cerca de 17% das empresas informam que aplicam mais de 4% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Quase 75% fazem aporte de até 4% e 9% não fazem.

"Made in Bahia" 
A baiana Amma, de chocolates orgânicos, fechou acordo de exportação para o mercado chinês. Ainda neste mês, Pequim e Hong Kong receberão uma tonelada de chocolate. O produto brasileiro estará disponível em lojas de produtos naturais e distribuidoras de alimentos.

Novata 

O Grupo de logística TPC abriu as operações da Reversa Soluções Logísticas, nova marca da holding para realização de logística reversa. Atuará na revenda de itens devolvidos pelo e-commerce. O segmento opera na movimentação de produtos após a entrega ao cliente.

Motor... 

Com US$ 30 milhões em vendas em 2010, o Brasil passou o México, há cinco anos na liderança de vendas de helicópteros Bell na América Latina. O montante vendido no país pela TAM Aviação Executiva ficou 20% acima do valor de vendas do México e 30% da Argentina, outro mercado relevante para a fabricante de helicópteros norte-americana.

... e hélice 
A força de vendas é atribuída à nova aeronave da Bell, o 429, que começou a ser entregue no Brasil. O modelo leva até sete passageiros e pode ser convertido em UTI aérea, segundo a empresa.

ATRATIVIDADE DOS BRICS
Brasil e China são os dois emergentes mais atraentes para investimentos de fundos "private equity", segundo a consultoria norte-americana Probitas Partners.
Cada um dos países foi indicado por 40% dos executivos ouvidos pela pesquisa.
Os entrevistados poderiam sugerir os dois destinos mais atrativos entre as nações em desenvolvimento.
A Índia aparece em seguida, com indicações de 30% dos executivos.
Para os próximos anos, a consultoria prevê aumento dos investimentos na Coreia do Sul, no México, na Indonésia e na Turquia. Nenhum desses quatro mercados, porém, foi lembrado por mais de 6% dos entrevistados.
O continente africano foi lembrado por apenas 1% dos empresários ouvidos pela pesquisa.

DESACELERAÇÃO REGIONAL

O Mercosul não terá crescimento econômico superior ao da América Latina pela primeira vez em cinco anos, de acordo com a EIU.
A previsão da consultoria é que tanto o bloco supranacional como a região aumentem em 4,1% o seu PIB (Produto Interno Bruto) em 2011.
Desde 2006, o Mercosul sempre tem apresentado indicadores melhores que os da América Latina.
O principal motivo para a desaceleração do bloco, que cresceu 6,8% em 2010, é o combate à inflação, segundo o estudo. A queda no consumo e na concessão de crédito para a iniciativa privada afetarão mais o Mercosul que o restante da América Latina, também segundo a EIU.
O crescimento previsto para o Brasil neste ano é de 4%, enquanto o do México está estimado em 4,9%.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

RICARDO NOBLAT - Traduzindo Palocci


Traduzindo Palocci
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 23/05/11
O que há em comum entre Antonio Palocci, chefe da Casa Civil da presidência da República, dono de um patrimônio que se multiplicou por 20 no curto período de quatro anos como deputado federal, e Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, preso em Nova Iorque por ter agredido sexualmente uma arrumadeira de hotel?

Em comum: Palocci e Dominique não podem contar exatamente o que fizeram - nem por que fizeram. Palocci alega que uma cláusula de confidencialidade o impede de tornar pública alista de clientes de sua empresa de consultoria. Somente no ano passado ela faturou R$ 20 milhões - metade entre o dia da eleição e o dia da posse de Dilma.

Dominique insiste em repetir por meio dos seus advogados que é inocente. Não, não se trancou com a arrumadeira em uma suíte do Hotel Sofitel, no coração de Nova Iorque. Não, não a jogou sobre acama para estuprá-la. Muito menos a obrigou a fazer sexo oral nele. A Justiça aceitou as sete acusações que pesam sobre Dominique.

Por ora, nenhuma acusação pesa sobre Palocci. Pesa a robusta suspeita de que enriqueceu rapidamente fazendo lobby para empresas empenhadas em fechar negócios com o governo. Ou municiando-as com informações privilegiadas às quais tinha acesso como ex-ministroda Fazenda do governo Lula e influente deputado do PT. Ou, ou, ou...

Palocci perdeu a voz desde que a "Folha de S. Paulo", há uma semana, publicou que ele comprara no final do ano passado dois luxuosos imóveis em São Paulo pela bagatela de R$ 7,4 milhões. Isso depois de ter declarado à Justiça Eleitoral que o valor do seu patrimônio em 2006 não chegava a R$ 380 mil. Agora, Palocci só fala por escrito.

Sem lhe cobrar tostão ou favor, ofereço-me para traduzir o que tem dito. Palocci disse que pôde comprar os dois imóveis graças ao salário de deputado e mais o que lucrou como consultor. Se apenas no ano passado a consultoria lhe rendeu R$ 20 milhões, imagine-se a preciosidade dos conselhos dados por ele a seus clientes...

Compare: quanto o mensalão do PT movimentou para pagar despesas de campanha do partido e comprar o apoio de dezenas de deputados? Algo como R$ 55 milhões. A empresa de Palocci se resumia a ele mesmo. O que faturou, contudo, iguala ou supera os ganhos das maiores empresas do ramo - algumas delas com cerca de 100 funcionários.

No ano em que mais embolsou dinheiro, justamente o das eleições gerais, Palocci dividiu-se entre as tarefas de consultor e de fiador da candidatura de Dilma junto ao mundo econômico. Diga-mos que de manhã ele vendia o projeto que Dilma tinha para o país. E que à tarde, e para as mesmas pessoas, vendia a Projeto, a consultoria dele.

Disse Palocci que os cofres da Projeto se entupiram de dinheiro nos últimos meses do ano passado só porque estava para fechar. Curioso! Justo na contra-mão de outras empresas que às vésperas de fechar costumam arrecadar pouco. Palocci repudia qualquer insinuação de que possa ter traficado in-fluência. Não. Jamais!

Donde se conclui que os clientes da Projeto, sem nenhuma outra intenção a não ser a de honrar compromissos assumidos no passado, pagaram a Palocci de boa fé a fortuna de R$ 10 milhões quando já estava certo que ele seria o mais poderoso ministro do novo governo. Nada esperavam dele em troca. Por que essa história soa como inverossímil?

Encerro a tarefa de traduzir Palocci lembrando o que aprendi em 29 anos de Brasília: quanto mais grave pareça um episódio envolvendo cabeças coroadas da República, maiores são as chances de que dê em nada. ACPI que investigou o caixa dois da campanha de Fernando Collor deixou em paz empresários e banqueiros.

A força de Palocci reside na ligação com os "donos do poder". Foram eles que financiaram sua eleição em 2006, a Projeto e o projeto de Dilma. Com acerto, aplica-se a Palocci a distinção conferida por Lula a Sarney: trata-se de um homem incomum.

CLÁUDIO HUMBERTO


"Temos que fazer tentativas de investigar"
 

Senador Álvaro Dias (PSDB-PR) acreditando que vai emplacar a CPI do Palocci

MG: licitação sob suspeita na Fazenda

A regional do Ministério da Fazenda em Minas realizou, em dezembro de 2009, um pregão cujo objetivo é a rapidez, mas só assinou contrato um ano depois com a vencedora, a CNC Soluctions Tecnologia da Informação. A licitação pode ter sido uma fraude. Apesar dos serviços orçados em R$ 170 milhões, o órgão emitiu uma nota de empenho (nº 2010/NE/901600) no valor de apenas 1 real, só para validar o contrato. A suspeita é que a tal CNC queria apenas o "registro de ata de preços".

Loteria MF

A adesão à ata de preços permite contratar vencedora de licitação em outros órgãos públicos por preços idênticos. Sem licitação. Uma loteria.

Removidos

O Ministério Público investiga por que foram destituídos os técnicos do Ministério da Fazenda que inabilitaram a CNC para a licitação.

Solução final

O avaliador técnico que substituiu um outro, afastado na véspera da licitação, julgou rapidamente a CNC como habilitada para a disputa.

TCEs na mira

Estão envolvidos em graves irregularidades cerca de 20% de todos os conselheiros de Tribunais de Contas do país, exatamente aqueles que são encarregados de fiscalizar a correta aplicação de recursos públicos pelos governos estaduais. O levantamento da Associação Nacional dos Procuradores de TCEs está em poder desta coluna. No total, estão sob suspeita, a maioria por corrupção, 54 conselheiros de 17 estados.

SP lidera

No Sudeste, seis conselheiros de São Paulo são investigados. Quatro em Minas, três no Rio de Janeiro e outros três no Espírito Santo.

Exceção

Na região Norte, o Amazonas não tem conselheiros sob suspeita. São seis em Rondônia, cinco no Amapá, dois em Roraima, um no Pará.

No Sul

Na região Sul, só em Santa Catarina não há conselheiros investigados. São cinco no Paraná e três no Rio Grande do Sul.

Reduzidos

No Nordeste, há dois conselheiros acusados em Sergipe. No Ceará, Alagoas e Bahia, um cada. No Centro-Oeste, MT e o DF têm dois, cada.

PC de Dilma

Lula está empenhado em salvar o pescoço de Antonio Palocci porque conhece, melhor que ninguém, o papel dele na campanha de Dilma: era o ministro quem chefiava o milionário esquema de financiamento

Daqui não saio

Amigos de Antonio Palocci garantem que ele avisou ao ex-presidente Lula: só sai morto do cargo de ministro da Casa Civil. Pedir demissão, jamais. Falta combinar com o "zagueiro", a presidente Dilma.

Outra derrota

O PSDB deverá indicar mesmo o coronel Tasso Jereissati para a presidência do Instituto Teotônio Vilela. José Serra perde mais uma vez e fica fragilizado na disputa interna contra o senador Aécio Neves.

'Paff'

A Procuradoria-Geral da República deu 15 dias para Palocci explicar seu PAP: Plano de Aceleração do Patrimônio. Com aquela língua presa, vai precisar de mais 15.

PODER SEM PUDOR

Cai fora, deputado
O jurista Paulo Brossard era deputado estadual, no Rio Grande do Sul. Discursava sobre a crise política da época e fingia não ouvir os insistentes pedidos de aparte de um adversário, Porcínio Pinto (PTB):
- Como é, vossa excelência vai ou não me dar uma palavrinha?
Brossard parou de repente e respondeu com calma e firmeza:
- Por favor, retire-se do meu discurso!

NA CAMA COM PALOCCI

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Conselheiros de Tribunais de Contas são investigados
- Folha: PM recebe R$ 200 mi em salários irregulares
- Estadão: Falta de investimentos é ameaça para o etanol
- Correio: Barco naufraga no Lago Paranoá com 104 pessoas a bordo
- Valor: BC prevê novas aquisições e fusões de bancos menores
- Estado de Minas: Perueiros à solta
- Jornal do Commercio: Mais aperto no consumo

domingo, maio 22, 2011

CONDENADA PELO MENSALÃO - REVISTA VEJA


CONDENADA PELO MENSALÃO
REVISTA VEJA

CLIQUE NA IMAGEM PARA LER


J. R. GUZZO - Direitos baratos


Direitos baratos
J. R. GUZZO
REVISTA VEJA

CLIQUE NA IMAGEM PARA LER

LYA LUFT - Chancela para a ignorância


Chancela para a ignorância
LYA LUFT
REVISTA VEJA

CLIQUE NA IMAGEM PARA LER 

CARTA AO LEITOR REVISTA VEJA - Preconceito contra a educação


 Preconceito contra a educação
CARTA AO LEITOR 
REVISTA VEJA
Uma reportagem desta edição de VEJA relata as reações provocadas pela revelação de que o livro Por uma Vida Melhor foi distribuído à guisa de material didático a 500 000 alunos de escolas públicas pelo Ministério da Educação. Nele, apregoa-se que não existem o certo e o errado no emprego da língua portuguesa. Que a norma culta urbana - ou seja, o modo correto de falar e escrever, segundo as regras da gramática - é apenas mais uma forma de expressar-se. De fato, existem outras maneiras de comunicar-se. O problema não está na eficiência da comunicação entre pessoas igualmente incultas, e sim na inclusão desses cidadãos no universo linguístico que produz filosofia, ciência e literatura - e que, assim, lhes possibilita pensar com mais profundidade acerca das realidades objetiva e subjetiva e, claro, conseguir um bom emprego e ascender profissionalmente. Esse universo é o da norma urbana culta. No livro, Heloisa Ramos, uma das autoras, diz que quem "fala errado" pode ser vítima de "preconceito linguístico". Esse sofisma não só tenta desqualificar as regras gramaticais, como procura estabelecer o preconceito contra quem segue os fundamentos do bom português. O pano de fundo dessa fraude intelectual é a concepção ideológica segundo a qual só o povo é detentor do verdadeiro conhecimento. O lado perverso desse desvario é que, com isso, se justifica o não fornecimento, as pessoas que mais precisam deles, dos códigos que lhes permitiriam alcançar uma vida melhor. A procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, resumiu a gravidade da questão: "Vocês estão cometendo um crime contra os nossos jovens, prestando um desserviço à educação já deficientíssima do país e desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir. Essa conduta não cidadã é inadmissível, inconcebível e, certamente, sofrerá ações do Ministério Público".

A discussão arcana sobre o "falar popular" ocupa um escaninho secundário na sociolinguística e seria um enorme favor aos brasileiros que estudam e trabalham se nunca tivesse deixado seu porão acadêmico. Mas deixou, em prejuízo de alunos já tão pouco predispostos ao estudo da gramática e atolados em um sistema educacional que, ao final do ensino básico, produz 62% de jovens que mal sabem ler e 89% que não sabem fazer as operações aritméticas básicas. Isso em um país que ainda abriga 14 milhões de analfabetos; em um país cuja economia tem 1 milhão de vagas nas empresas que não podem ser preenchidas porque os candidatos não apresentam qualificação técnica para ocupá-las; em um país que aparece na 53 posição entre os 65 avaliados pelo Pisa, o mais rigoroso teste comparativo internacional de desempenho escolar.

Ao contrário do que pensam ideólogos da educação como Heloisa Ramos, a educação formal é libertadora. Que o diga a americana Ursula Burns, de 52 anos, entrevistada das Páginas Amarelas desta edição. Negra, filha de faxineira, ela se tornou presidente da Xerox, gigante mundial da documentação digital e uma das 500 maiores empresas do planeta. "Minha mãe exigia apenas que os filhos tivessem bom desempenho na escola", diz Ursula. Um contraste melancólico com o caso brasileiro.

MERVAL PEREIRA - Poder fragilizado


Poder fragilizado
MERVAL PEREIRA
O Globo 22/05/11

A operação que está em curso para o Executivo tentar controlar o incêndio político provocado pelas denúncias sobre a “consultoria” que o hoje Chefe do Gabinete Civil Antonio Palocci mantinha quando era deputado federal e coordenador da campanha presidencial da atual presidente Dilma Rousseff, de 2006 a 2010, explicita, tanto quanto o fato em si, a fragilidade do Legislativo como poder atuante, e a característica perversa do nosso “presidencialismo de coalizão”, termo cunhado pelo cientista político Sérgio Abranches para explicar a maneira como nos organizamos politicamente a partir de um sistema presidencialista que tem resquícios de parlamentarismo legados pela Constituição de 1988.
Mesmo com uma ampla maioria parlamentar, o Executivo se movimenta para “adoçar” a boca dos muitos deputados e senadores descontentes com o não cumprimento de promessas de cargos e salários no segundo escalão do governo com o preenchimento de presidências e diretorias de estatais, autarquias e bancos oficiais.
Diz-se que o descontentamento é “suprapartidário” e abrange parlamentares dos dois maiores partidos da coalizão PT, PMDB, indo além para as bordas da aliança, atingindo siglas de tendências diversas: PSB, PC do B e PR.
Outro cientista político, Luiz Werneck Vianna descreveu recentemente esse fenômeno que chamou de “circuito perverso”, que faz com que parlamentares governistas desfrutem acesso aos recursos públicos e influência entre os agentes responsáveis pelas políticas públicas.
Como conseqüência, constata Werneck Vianna, “reforça-se a dissociação entre representantes e representados, e se reduz a cidadania a uma massa de clientes”.
Esse circuito que leva ao desfiguramento da representação popular tem vários caminhos: ou o deputado permanece no Legislativo atuando como intermediário entre interesses particulares e o Executivo, através de “consultorias” ou outras formas de atuação, ou tenta galgar um lugar no próprio Executivo, de onde poderá movimentar sua máquina política.
Ou ainda permanece na base governista fazendo pressão política a cada votação importante para transformar seu apoio em nomeações.
É o que está acontecendo neste momento no Congresso, onde o governo precisa de sua “maioria defensiva” para tentar barrar uma CPI para investigar a “consultoria” de Palocci ou mesmo evitar uma convocação para que se explique em uma das Comissões existentes.
O enfraquecimento da figura do até então ministro mais poderoso do governo Dilma retira dele a capacidade de negociação, como se vê na etapa final da tramitação do Código Florestal.
Não que a base governista tivesse condições de resistir à maioria suprapartidária que se formou a favor do texto do relator Aldo Rebelo, mas o que já era frágil enfraqueceu-se mais ainda, sendo até mesmo discutível se a presidente Dilma terá condições políticas de arrostar essa maioria vetando eventuais destaques que sejam aprovados em plenário.
A quarentena a que se submeteu a presidente, diante de um quadro de pneumonia que tudo indica foi minimizado pelos relatórios médicos com intenções de não conturbar o ambiente político, também agrava a situação, formando um quadro de apatia governamental propício aos aventureiros de sempre.
A postura dos deputados e senadores – com as exceções de praxe – que se colocam em posição subalterna ao Executivo, ora brigando por vagas no Ministério, ora se utilizando de suas prerrogativas para ganhos pessoais, é uma deturpação dos valores do presidencialismo e indica uma tendência ao patrimonialismo e ao fisiologismo.
A disputa de poder político fica restrita ao comando do Executivo, que coopta os aliados não com propostas de governo, nem com projetos de poder, que este é destinado à cúpula petista. Um sinal claro é que, no núcleo decisório do governo Dilma, não há ninguém eleito pelo voto, embora todos sejam da máquina partidária petista.
Um parlamentar que vai para o Ministério nessas condições, ou negocia seu apoio em troca de favores, abre mão de exercer um papel efetivo como membro de um dos poderes da República para aceitar papel secundário diante de outro poder.
A desagregação cada vez maior dos partidos políticos, e a abrangência da base governista, um agrupamento disparatado de partidos que não fazem liga programática, mas fisiológica, leva a que a negociação política obedeça cada vez mais a interesses pessoais, e os políticos fiquem apenas com a aparência de poder.
Como não estamos no parlamentarismo, a maneira como os partidos negociam seus pedaços de poder os transforma em meros coadjuvantes, que não palpitam - e nem desejam - nas diretrizes que porventura vierem a ser adotadas pelo governo a que aderiram por mero desfrute do poder.
Assim como para exercer um cargo técnico, como o de presidente do Banco Central, um político eleito tem que abrir mão de seu mandato – foi o caso de Henrique Meirelles, que renunciou ao mandato de deputado federal por Goiás - todos os políticos que se digladiam por uma vaga na Esplanada dos Ministérios deveriam renunciar aos mandato para servir ao Poder Executivo.
Mas raros são os que têm essa percepção ou essa visão da política. A maioria quer um ministério para, a partir dele, fazer política própria, e não para ajudar a implementar um programa de governo previamente aprovado nas urnas.
Da mesma forma, também o Executivo arma seu ministério com diversos ministros que simplesmente nunca despacham com a presidente, resultando que de um grupo de 37 membros, apenas meia dúzia tem realmente importância para os rumos do governo.

DORA KRAMER - Sangria desatada


Sangria desatada
DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 22/05/11

Com maioria cuja fortaleza é celebrada de norte a sul, de leste a oeste, espanta que o governo precise recorrer a estratagemas típicos de oposição para evitar uma derrota em plenário, como fizeram os líderes governistas na Câmara dias atrás ao obstruir a sessão e derrubar o quórum para a votação do novo Código Florestal.

É igualmente espantoso que, com toda sua capacidade de aniquilar a oposição que fez a história do mito Lula, o PT no poder necessite recorrer a expedientes exorbitantes para impedir que requerimentos de convocação do ministro Antonio Palocci sejam postos em votação, correndo a trancafiar salas para evitar reuniões de comissões na Câmara e mandando o guarda da esquina atrás de deputados a arrancar cartazes das paredes da Casa.

Assim como é intrigante que toda lisura existente no processo de enriquecimento do ministro da Casa Civil nos últimos quatro anos em que esteve deputado federal necessite da contratação de serviços de emergência em comunicação e mobilização do governo inteiro numa operação dita de contra-ataque.

Ou essa maioria não é aquilo tudo o que se diz ou o crescimento do patrimônio de Antonio Palocci não está tão acima de qualquer suspeita como alegam seus defensores, que há dias tentam dar o caso por encerrado a golpes de gestos truculentos e de retórica falaciosa.

Quando a semana começou, havia uma reportagem da Folha de S. Paulo mostrando que Palocci acumulara, entre 2006 e 2010, bens imóveis no valor de R$ 7,5 milhões e havia também uma expectativa de que o ministro conseguisse comprovar a licitude do patrimônio.

A semana termina sem a devida explicação e com muito mais: o governo movendo mundos e fundos para evitar que o ministro se explique, notícias sobre faturamento de R$ 20 milhões na consultoria do ministro só no ano eleitoral de 2010 e uma empreiteira com contratos no setor público dizendo-se cliente de Palocci.

À lista acrescente-se a suspeita do uso da votação do Código Florestal como moeda de troca com a tropa de defesa no Congresso, a proposta de criação de uma CPI e uma grande quantidade de requerimentos de convocação a serem apresentados na Câmara e do Senado.

No campo político, a contraofensiva governista obedece ao velho roteiro de criar uma realidade paralela em que transitam conspiradores interessados em desestabilizar a República e opositores empenhados em promover um "terceiro turno" das eleições.

Logo entrará em cena o espetáculo "nós contra eles", com forte inclinação a criminalizar o noticiário.

Um forrobodó digno de grave crise, onde não há nada de grave a não ser o fato de a evolução patrimonial do ministro continuar sem explicação.

A reação defensiva do governo é desproporcional às manifestações de confiança na lisura de Palocci.

Por que impedi-lo de falar ao Congresso? Quando ministro da Fazenda, acusado de frequentar uma casa de lobby em Brasília, Antonio Palocci tomou a iniciativa de se explicar.

É bem verdade que na ocasião mentiu, como se viu adiante pelo depoimento do caseiro da referida residência, Francenildo Costa, testemunha da presença constante de Palocci no local.

A propósito, Francenildo, quando suspeito de receber um dinheiro "atípico", no mesmo dia exibiu o extrato da conta com o depósito feito... pelo pai. Lançada no ar na tarde de uma sexta-feira, no sábado a acusação já não viu a luz do dia.

Desse modo simples é que se enterram suspeitas.

Uma no cravo. A emenda da senadora Marta Suplicy ao projeto de criminalização da homofobia, criando uma exceção para "manifestação pacífica de pensamento decorrente de ato de fé", tem o evidente objetivo de conquistar o apoio das bancadas evangélicas.

Diante das reações contrárias, a senadora já admite retirar a emenda. O que, de um lado, pode satisfazer às ponderações (justas) de que a exceção é uma brecha à aceitação da intolerância, de outro reacenderá a rejeição dos evangélicos capitaneados no Senado por Marcelo Crivella e na Câmara por Anthony Garotinho.

Ambos da base do governo.

ALBERTO TAMER - Vamos esquecer a China?


Vamos esquecer a China?
ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 22-05/11

Como? Esquecer a China? Sim, mas apenas como parceiro comercial que só importa do Brasil commodities e, para nós, exporta produtos industrializados sem transferir tecnologia. O Brasil deve conquistá-la como fonte de investimentos diretos, e não apenas na área de matérias-primas. Há pouco mais de cinco anos, a China nem figurava entre os investidores nos registros do Banco Central. Agora, caminha para a liderança. Desde 2003, foram US$ 37 bilhões.

O ministro do Comércio chinês, Chen Deming, que esteve aqui com 40 representantes de 40 empresas estatais, anunciou US$ 1 bilhão só este ano. Otimista, o governo fala em US$ 8 bilhões. Há previsões de que chegue a US$ 40 bilhões em 2014. Os números estão inflacionados, mas, descontando exageros, não há duvida de que eles estão interessados no mercado brasileiro. Pode até haver surpresas agradáveis.

A questão é saber o destino desses recursos. A China investe no mundo todo em petróleo, minérios e agricultura. Precisa garantir o futuro e já armazena imensos estoques estratégicos. E o Brasil tem tudo. Querem repetir aqui o que já fazem na África há alguns anos.

O comércio. Quanto ao comércio, a China se cala. O ministro Chen disse que vai estudar as queixas contra as barreiras chinesas aos produtos industrializados do Brasil, mas não criou expectativa de mudança. Quando pressionado, respondeu com a face mais ingênua do mundo que o Brasil teve superávit de US$ 1,6 bilhão no primeiro quadrimestre do ano, sem esclarecer que foi por causa do aumento dos preços das commodities.

Diante da insistência dos ministros do Desenvolvimento e Relações Exteriores, acrescentou: "Não vamos tocar no superávit. Estamos de braços abertos para os produtos brasileiros". Ou seja, eles vão continuar importando as matérias-primas que precisam, para atender à demanda de um crescimento de 9%. Seguirão fazendo estoques estratégicos para compensar a dependência do mercado externo. E onde encontrariam parceiro tão cordato que importa até equipamentos pesados e exporta soja, petróleo e celulose?

60% mais barato. Chen Deming deixou bem claro que a China quer matéria-prima e não vai mudar a política comercial por causa do Brasil. Os parceiros de verdade da China são os Estados Unidos e a Europa, com mais de US$ 200 bilhões cada um. Os chineses podem fazer algumas concessões isoladas, mas sabem que a indústria brasileira simplesmente não pode competir.

O professor Antonio Correa de Lacerda, em artigo publicado esta semana no Estado, foi muito claro: estudos mostram que o yuan está desvalorizado em 40% sobre o dólar e o real valorizado em 20%. Ou seja: "um produto fabricado na China em dólares americanos, que é a base de comparação internacional, tem um preço cerca de 60% menor que o fabricado no Brasil". Isso apenas no câmbio, sem contar os custos menores decorrentes do desrespeito chinês às leis de patentes e propriedade intelectual, meio ambiente, salários baixos e custos trabalhistas, lembra Lacerda.

O antidumping? Para a pesquisadora do Ipea, Fernanda De Negri, a adoção de medidas antidumping é paliativa. Não funciona. "Faz 20 anos que setores industriais estão reclamando e faz 20 anos que eles não ganham competitividade. Não adianta dar salvaguarda sem cobrar ganho de competitividade", diz a pesquisadora. "Existem fronteiras tecnológicas importantes em vários setores industriais. O Brasil teria mais condições de competir com os chineses investindo nesses setores do que dando salvaguardas", afirma ela. Nunca se disse tudo em tão poucas palavras.

É a hora. E aqui entra esse novo interesse chinês - que começou só no segundo semestre de 2009 - em investir no Brasil. Onde? Só em commodities, de baixo valor agregado? O ministro Aloizio Mercadante afirmou que está preocupado com o perfil desses investimentos. Ele quer que os chineses transfiram tecnologia para que possamos no futuro produzir esses produtos acabados aqui. Assim, vamos continuar a exportar matéria-prima, mas produzindo itens de valor agregado internamente também.

TUTTY VASQUES - Sob o céu de maio


Sob o céu de maio
TUTTY VASQUES
O Estado de S.Paulo - 22-05/11

Deve ter alguma coisa a ver com o alinhamento de Mercúrio, Vênus, Marte e Júpiter com a Terra no céu de maio. De uma hora pra outra, a temperatura caiu, o Palocci ficou rico, o diretor executivo do FMI atacou uma camareira de hotel em Nova York, o Schwarzenegger anunciou que teve um filho com a empregada da família, a implosão do estádio Mané Garrincha não deu certo, o cineasta dinamarquês Lars von Trier declarou-se em Cannes fã de carteirinha de Adolf Hitler, Júlio Medaglia foi readmitido na TV Cultura, Donald Trump desistiu de concorrer à presidência dos EUA. Deu a louca no mundo!

Não sei se existe algum estudo sobre a influência dos astros no teor do noticiário, mas há muito tempo os jornais não surpreendiam tanto seus leitores quanto nas últimas três semanas. Do "enterro" relâmpago de Bin Laden, logo no primeiro dia do mês, à estreia do beijo gay na teledramaturgia brasileira, o metrô virou coisa de pobre em São Paulo e a Câmara do Rio desistiu da compra de carros de luxo para vereadores.

Tem sido um susto atrás do outro! Essa semana, do nada, Sérgio Cabral liberou publicamente o uso de farda e de carros oficiais por homoafetivos da PM e do Corpo de Bombeiros do Rio na parada gay de Copacabana. Dia seguinte, a emenda de um oficial indignado saiu pior que o soneto do governador em manchete de duplo sentido: "Homem meu não vai!" Pode?

Naquela mesma tarde, a rainha da Inglaterra foi vista saindo de uma cervejaria na Irlanda, Rivaldo fez as pazes com Carpegiani, o boato da gravidez da primeira-dama Carla Bruni se confirmou, pela primeira vez a Globo perdeu no ibope da manhã para a Record.

Quando a gente pensou que já tinha visto de tudo em maio, o MEC invadiu o noticiário para anunciar a abolição dos erros de português. Tomara que junho chegue logo, né?

País que vai pra frente

O Brasil não para de crescer! Numa progressão maior até que a evolução patrimonial do ministro Antonio Palocci, o desmatamento da Amazônia aumentou cinco vezes no bimestre março/abril em relação ao mesmo período do ano passado. Essas coisas a oposição não vê - ô, raça!

Aí tem!

Pediu demissão ontem, sem mais nem menos, a empregada da casa da filha de Dominique Strauss-Kahn residente em Nova York, onde o ex-diretor executivo do FMI cumpre, desde sexta-feira, prisão domiciliar.

Nota 10

Tiririca vai pedir revisão de prova àquele promotor que duvidava de seus conhecimentos da língua portuguesa. Está certo de que, pelas novas normas gramaticais adotadas pelo MEC, dificilmente o Ministério Público encontrará erros em seu texto.

Pensando bem...

Se é para ficar em cana no Brasil, Cesare Battisti vai acabar pedindo a própria extradição para a Itália. Ou será que as cadeias de lá são piores que as nossas?

Acredite se quiser

Os vírus transmitidos em mensagens eletrônicas podem ter chegado às cartas convencionais. Dez mil funcionários dos Correios encontram-se em licença médica.

Pior que é verdade!

Desde que o Lula deixou a Presidência da República, o Corinthians não ganha nada. "E ainda me chamavam de pé-frio!", desabafou o ex-presidente com dona Marisa.

Sem preconceito

Em defesa de Arnold Schwarzenegger, pode-se ainda dizer que, na hora do sexo, ele não discriminava "gente diferenciada" em sua cama.

Boato infame

Sérgio Cabral não chegou a cogitar a criação de uma UPP-Gay no Rio.

E não se fala mais nisso, ok?

Inexpugnável

Blindado pelo governo, Antonio Palocci ganhou apelido novo no Palácio do Planalto: Caveirão!

GOSTOSA

CAETANO VELOSO - Por uma vida melhor


Por uma vida melhor
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 22/05/11

Quero ler o livro de Heloisa Ramos por inteiro. Estou na Bahia gravando a voz de Gal com Moreno no estúdio Ilha dos Sapos, de Carlinhos Brown (que fica no Candeal, um bairro com muitas características de favela mas que transpira tranquilidade e autoestima, o que se deve ao trabalho da Timbalada de Brown na área): não tive tempo de procurar o livro e estudá-lo. Fico com as notícias exageradas da imprensa, que estamparam manchetes alarmistas sobre o MEC ter aprovado uma cartilha que “ensina a falar errado”, e os artigos de Bagno e Possenti, os sociolinguistas que parecem crer que a língua é viva hoje, mas que também parecem negar que as normas vigentes são criação do povo (“o inventalínguas”) através dos séculos.

Os linguistas estão certos ao denunciarem a açodada reação dos jornais: estes tratam um comentário feito numa página como se fosse a totalidade dos ensinamentos do livro. Mas os jornais são jornais: têm de excitar, entusiasmar, fazer indignar-se seus leitores, enquanto os informam. Não é absurdo que tenham tomado o breve comentário como sintoma de um problema grande que o livro pode representar. A pressa com que os sociolinguistas, em atitude verdadeiramente esnobe, desqualificam os jornalistas por conhecerem menos bem a norma culta do que eles próprios sugere uma euforia de superioridade,um deslumbrament de qualificação científica quemais aponta para uma vaidadearrogante do que para o alegado pendor igualitarista. No fim das contas, ouvimosecos das odes ao português de Lula que eram mantra da campanha petista (a qual começou faz décadas e nunca terminou, nem mesmo com o metalúrgico cumprindo dois mandatos e fazendo a sucessora), o que, por sua vez, remete aos cargos distribuídos aos companheiros.

Não entendo que se queira ensinar linguística ou sociologia aos alunos de alfabetização. De qualquer idade. É auspicioso que se informem os professores sobre as descobertas dessas disciplinas. Mas ao aspirante ao letramento, quanto mais firmeza simples melhor. Possenti está certo ao afirmar que ninguém precisa ensinar quem diz “os peixe” a dizer “os peixe”. Ensinam-se as regras de concordância da norma culta. A menção à legitimidade da forma em que o plural se exprime apenas (e satisfatoriamente) no artigo é só uma demonstração do professor de que ele não acha que o aluno “é burro” ou que a forma que usa é “errada”. O mestre, depois de anunciar a equivalência essencial das duas formas, alertaria o estudante para o fato de que o uso de uma delas pode levá-lo a ser vítima de “preconceito linguístico”. Mas quem busca alfabetizar-se tem sede de conhecer os mecanismos da gramática vigente neste ponto da história. E explicações complexas não fazem avançar o aprendizado. Esses linguistas têm grande ciúme do sucesso que fazem os professores de gramática que, oferecendo aquilo de que tem sede a grande massa, ocupam espaços em jornais e tempo no rádio e na TV. Deduzem — e alardeiam — que estes são representantes dos esquemas de dominação de classe. A busca de lógica na criação da gramática — de uma mínima lógica que mantém a língua de pé e a faz mais capaz — é tida como imposição de gramáticos vilões. Ora, se a gente diz “se suicidar”, vendo que é logicamente errado (por pleonástico) mas admitindo que o povo consagrou a forma pronominal do verbo, e se os mestres, do primário à universidade, ensinam assim, é prova de que o que fazemos é adotar as mudanças que pegam. Milhões seriam os exemplos de fatos semelhantes. Se o inglês é uma espécie de “português popular às avessas”, por deixar o artigo inalterado e indicar o plural apenas no substantivo (“the books”, enquanto dizemos “os livro”), devemos louvar a hegemonia do inglês (e sua combinação de altíssima entropia com capacidade de acolher repertório de outras línguas)? Ou o quê?

O fato é que a novidade de livros didáticos legitimarem formas como “os peixe” não pode deixar de ser notícia espalhafatosa. Pelo simples fato de que esse assunto interessa, surpreende, indigna, excita, alegra e exalta semianalfabetos que desejam aprender, jornalistas bem ou medianamente letrados, pais de família preocupados com o futuro dos seus filhos, professores de gramática — e linguistas semi- ou ultra sofisticados (para usar aqui o hífen à moda inglesa). Ou seja, dos sem-poder aos mais poderosos. Os linguistas não estão entre os primeiros. O Brasil, a Terra em Transe de Glauber, que é o país que pôs Lula no mapa-múndi (ele é nominalmente citado no livro de Khanna por uma fala sua sobre vontade política), não pode aparecer aos próprios olhos como um exemplo de nação linguisticamente preconceituosa. William Bonner dando a notícia sobre o livro de Heloisa não tem nada de monstruoso. Os sociolinguistas petistas, por sua vez, não são meros esnobes inúteis ao reagir como se assim fosse: há algo de bom em termos esse tipo de alerta. Contanto que não deixemos a confusão (inclusive essa minha aparente indefinição aqui) atrapalhar nosso desejo de criar uma vida melhor.

Sandra de Sá cantando com Seu Jorge no Municipal semana passada é resposta melhor a tudo isso. Para não falar em Djavan, Milton, Sandy, Olodum Mirim, Guto Graça Mello, e, sobretudo, Bethânia. Tem momentos em que parece mesmo que temos recursos para fazer o que devemos. E o que devemos é salvar o mundo com a nossa (como diz Khanna) nacionalidade forte. Por que fazer por menos?

ETHEVALDO SIQUEIRA - Os desafios da regulação


Os desafios da regulação 
ETHEVALDO SIQUEIRA
O ESTADO DE SÃO PAULO - 22/05/11

Para as comunicações, o maior problema futuro talvez seja a adequação da lei e da regulação, pois legisladores e reguladores parecem não compreender corretamente nem no tempo certo as profundas mudanças ocorridas na tecnologia nos últimos anos, em especial aquelas decorrentes da expansão da internet em escala planetária.

Poucos especialistas conhecem tão bem esse desafio quanto Ben Verwayeen, ex-presidente da British Telecom e atual presidente executivo ou CEO (Chief Executive Officer) da Alcatel-Lucent. Por sua experiência na indústria e numa das maiores operadoras europeias, tem uma visão ao mesmo tempo clara e didática do problema. Eis a seguir alguns dos pontos mais significativos da entrevista que esse executivo concedeu ao Estado em sua recente visita Brasil.

Para Verwayeen, o primeiro grande aspecto desse desafio é a diversidade de infraestruturas nas áreas de telefonia (redes fixas), comunicação sem fio (redes móveis) e internet, com seu protocolo dominante (IP). Embora se apoiem em infraestruturas diferentes e tenham conteúdos diferentes, essas três formas de telecomunicações se convergem cada vez mais.

Novo cenário. Vejamos o que ocorre em cada área. Na radiodifusão tradicional ou nos serviços de TV por assinatura, o destinatário está em casa ou no carro, como simples receptor da comunicação de voz, vídeo, áudio ou música. Na telefonia fixa, o usuário está em casa ou no escritório, e se comunica basicamente por meio de voz e dados.

Com as comunicações móveis, o usuário está em movimento e passa a utilizar a internet, com seus laptops, netbooks, iPods, smartphones, iPads ou tablets. Eis aí a grande revolução: o usuário móvel pode receber praticamente quaisquer conteúdos - sejam de voz, dados, imagens e até conteúdos de jornais, revistas, rádio e TV.

Na visão de Ben Verwayeen, a grande revolução veio com a internet. Sua infraestrutura é diferente. Seu conteúdo é diferente, porque é o mais variado possível. E o protocolo IP integra tudo: livro, jornal, revista, rádio e televisão.

Por isso, prevê, a TV do futuro será a IPTV. Hoje, já temos a TV conectada, com acesso crescente à internet. Esse processo é irreversível, não tem volta, só se intensifica. É claro que os radiodifusores resistem, protestam e se opõem às mudanças de regras que os órgãos reguladores são obrigados a fazer.

Essa resistência existe, também, nos jornais mais conservadores. "É claro que, para essas mídias tradicionais, o novo desafio é o modelo de negócios. A maioria dos veículos busca resposta a esta pergunta: como viabilizar a publicidade na internet?"

Ben Verwayeen preocupa-se, de forma especial com o papel das agências reguladoras e dos legisladores: "O regulador precisa ver o lado do usuário. E é bom destacar um aspecto fundamental: os que mais precisam de atenção não são os mais velhos, cujos hábitos terão que ser adaptados aos novos tempos, mas os adolescentes e os adultos mais jovens, que já nasceram nesse novo ambiente digital. É para eles que o regulador precisa preparar os serviços e toda a evolução, pois são os jovens que irão viver nesse novo mundo das comunicações móveis, em banda larga, com interatividade crescente".

Cocriação. O presidente da Alcatel-Lucent fala com entusiasmo sobre o futuro da comunicação móvel, com os avanços recentes na área das estações radiobase, hoje em processo de mudança tecnológica acelerada, em particular com a miniaturização extrema dos equipamentos. O melhor exemplo é o LightRadio, pequeno cubo de apenas alguns centímetros que poderá substituir as enormes estações radiobase (ERBs), com enorme redução de custos de investimento e de consumo de energia.

Em quanto tempo deverá ocorrer a migração das ERBs tradicionais para essa tecnologia? Ben Verwayeen é realista: "Não esperamos que o mundo vá migrar de repente ou em alguns meses para a nova tecnologia. É mais lógico esperar uma longa transição, com um trabalho conjunto entre fabricantes e operadores, no processo que podemos chamar de cocriação".

Eis aí uma palavra que seduz os especialistas que olham para o futuro: cocriação. Para Ben Verwayeen, ela é a que melhor representa o momento que vivemos nas tecnologias da informação e da comunicação. "A cada dia que passa, temos que trabalhar mais próximos do cliente, do usuário ou do consumidor. É com eles que devemos dialogar e pensar juntos, para cocriar. É o que estamos fazendo, em diversos lugares, a começar da China, analisando os resultados e ouvindo sugestões das operadoras, nossas clientes".

No final desta década, por volta de 2020, há expectativa de uma demanda gigantesca de banda de frequências, quando o mundo deverá estar utilizando cerca de 50 ou 60 bilhões de dispositivos de comunicação móvel. Para Ben Verwayeen, esse é mais um entre os grandes desafios que o mundo terá de enfrentar. Esses bilhões de dispositivos móveis atuarão tanto na comunicação homem-homem, como homem-máquina e máquina-máquina. A maior importância dessas novas formas de comunicação serão aquelas ligadas diretamente ao ser humano, como no uso de sensores, que poderão enviar um comando da estrada para o veículo e evitar um erro humano e um desastre de sérias consequências.

MARCELO GLEISER - Sobre a vida após a morte


Sobre a vida após a morte
MARCELO GLEISER 
FOLHA DE SÃO PAULO - 22/05/11

Do ponto de vista científico, vida após a morte não faz sentido,embora a esperança de que ela exista seja muito compreensível

Já que no domingo passado escrevi sobre o fim do mundo (era para ter sido ontem), é natural continuar nossa discussão refletindo sobre vida após a morte. especialmente nesta semana, quando o famoso físico Stephen Hawking falou do assunto em entrevista ao jornal inglês "The Guardian". "um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro", disse.
Mantendo a discussão ao nível "científico", o que podemos falar sobre experimentos que visam detectar vida após a morte?
eis o que escrevi sobre o tópico em meu livro "Criação Imperfeita": "quando ingressei no curso de física da PUC do Rio em1979, era a encarnação perfeita do cientista romântico, com barba, cachimbo e tudo.
Lembro-me, com um certo embaraço, do meu experimento para 'investigar a existência da alma'. Se a alma existia, pensei, tem que ter uma natureza ao menos em parte eletromagnética, de modo a poder animar o cérebro. e se eu convencesse um hospital a dar-me acesso a um paciente em coma, já prestes a morrer? Assim, poderia circundá lo com instrumentos capazes de detectar atividade eletromagnética.
Talvez pudesse detectar a cessação do desequilíbrio elétrico que caracteriza a vida [...] Por via das dúvidas, o paciente deveria também estar deitado sobre uma balança bem precisa, caso a alma tivesse peso." Continuo:"Na verdade,minha incursão no terreno da "teologia experimental" era mais brincadeira do que algo que levei a sério. Porem, minha metade vitoriana charlatã, devo dizer, tinha ao menos um predecessor.
em 1907, um certo Dr. Duncan MagDougall de Haverhill, em Massachusetts, conduziu uma série de experimentos para medir o peso da alma.emborasua metodologia fosse altamente duvidosa, seus resultados foram mencionados no prestigioso "New York Times":"Médico crê que alma tem peso", afirmou a manchete. O peso era em torno de 21,3 gramas, embora tenha havido algumas variações entre os poucos pacientes investigados. Como grupo de controle, ele pesou 15 cães, mostrando que eles não sofriam qualquer mudança de peso. O resultado não o surpreendeu, pois suspeitava que só humanos têm almas."
Os experimentos de Mag Dougall inspiraram o filme "21 Gramas", com Sean Penn fazendo o papel de um matemático à beira da morte.
De volta a Hawking, devo dizer que concordo com ele. Tudo o que sabemos sobre como a natureza opera indica que a vida é um fenômeno bioquímico emergente que tem um início e um fim.
Do ponto de vista científico, vida após a morte não faz sentido: existe a vida, um estado complexo da matéria em que um organismo interage ativamente com o ambiente, e existe a morte, um estado em que essas interações tornam-se passivas.
Morte é ausência de vida. (Mesmo o vírus só pode ser considerado0 vivo dentro de uma célula anfitriã.) É perfeitamente compreensível querer mais do que algumas décadas de vida, ter esperança de que existe algo mais.
Porém, nosso foco deve ser no aqui e no agora, e não no além. O que importa é o que fazemos coma vida que temos, curta que seja.Após ela, o que persiste são as memórias naqueles que continuam vivos.

GOSTOSA