domingo, abril 03, 2011

ALAN GREENSPAN Lei Dodd-Frank não serve a esta era


Lei Dodd-Frank não serve a esta era
ALAN GREENSPAN

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Será que a resposta é que retornemos às práticas bancárias mais simples de meio século atrás?


AS AGÊNCIAS regulatórias dos Estados Unidos encontrarão nos próximos meses problemas devido aos efeitos adversos que surgirão quando traduzirem os princípios amplos da Lei Dodd-Frank em duas centenas de regras detalhadas.
A premissa subjacente da nova lei é a de que boa parte do que ocorreu no mercado antes da quebra do banco Lehman Brothers representou uma sucessão de excessos (o que quase ninguém nega) e que seria possível resolver esses problemas por meio das medidas que a lei contém (o que é questionável).
O sistema financeiro ao qual a Lei Dodd-Frank está sendo imposta é muito mais complexo do que os legisladores, e até mesmo a maioria dos funcionários das agências regulatórias, aparentam compreender.
Os resultados iniciais da reestruturação não são bom presságio.
Pouco depois que a lei foi aprovada, em julho de 2010, a Ford Motor Credit cancelou seus planos de emitir US$ 1 bilhão em títulos lastreados em ativos. A operação envolvia a necessidade de uma classificação de crédito, que a Ford não era capaz de obter naquele momento.
Uma das cláusulas da lei faz com que as agências de classificação de crédito possam ser responsabilizadas judicialmente por seus pareceres quanto a riscos. Para garantir a emissão dos títulos, a Securities and Exchange Commission (SEC, órgão que fiscaliza e regulamenta o mercado de valores mobiliários norte-americano) suspendeu a necessidade de uma classificação de crédito.
Mais recentemente, vem crescendo a preocupação de que, caso as instituições participantes não venham a conseguir isenção quanto à Lei Dodd-Frank, proporção significativa do mercado de derivativos de câmbio deixaria os Estados Unidos.
Muitas das regras quanto a sistemas exclusivos de transação, por exemplo, se aplicam aos bancos norte-americanos em todo o mundo. Mas as filiais de instituições estrangeiras concorrentes poderiam transferir esse tipo de transação a bancos europeus e asiáticos.
Para levar o processo adiante, as autoridades regulatórias terão a responsabilidade de prever, e presumivelmente prevenir, todas as repercussões indesejáveis que possam surgir no mercado quando as condições de regulamentação sofrem mudança importante.
O problema é que as autoridades regulatórias, e na verdade qualquer outra pessoa, obtêm, no máximo, um vislumbre quanto ao funcionamento interno até do mais simples dos sistemas financeiros modernos.
Os mercados competitivos hoje são propelidos por uma versão internacional da "mão invisível" de Adam Smith. Com raras e notáveis exceções (por exemplo 2008), a "mão invisível mundial" criou taxas de câmbio, taxas de juros, preços e salários relativamente estáveis.
Mesmo nos mais regulamentados mercados financeiros, a maior parte das transações jamais é visível. É esse o motivo para que a interpretação do moderno comportamento dos mercados financeiros esteja sujeita a tão ampla variedade de "explicações".
Será que a resposta à complexidade das finanças modernas é que retornemos às práticas bancárias mais simples de meio século atrás?
Isso pode não ser possível se desejamos manter os níveis de produtividade e os padrões de vida atuais. Nos anos do pós-Guerra, o grau de complexidade das finanças parece ter crescido em companhia dos avanços na divisão do trabalho, da globalização e da tecnologia.
Uma medida dessa complexidade, a proporção do PIB dedicada às finanças e seguros cresceu dramaticamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, subiu de 2,4% em 1947 para 7,4% em 2008, e ainda mais durante a contração severa de 2009, quando atingiu 7,9%.
A questão espinhosa que as autoridades regulatórias precisam responder é se essa alta na porção financeira do PIB foi uma condição necessária ao crescimento das últimas cinco décadas ou se representou apenas uma coincidência. Ao levarmos adiante os reparos do sistema regulatório, talvez tenhamos de lidar com a conexão ainda não comprovada entre o grau de complexidade financeira e a alta nos padrões de vida.

MERVAL PEREIRA Serra na luta


Serra na luta
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 03/04/11
 
O ex-governador de São Paulo José Serra pode se orgulhar de ter conseguido, mesmo depois da segunda derrota para a Presidência da República, continuar no centro das discussões políticas do país, mesmo que seja um consenso nos meios políticos que são mínimas as suas chances de conseguir concorrer pela terceira vez à presidência, como é seu desejo.
A mais recente lenda urbana coloca Serra como o grande articulador por trás da criação do PSD, o novo partido que o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, um serrista assumido, está organizando.
É verdade que, pela legislação eleitoral, Serra, que está sem mandato, pode entrar no novo partido a qualquer momento, o que excita a imaginação dos políticos.
Todos se espantam com a desenvoltura do prefeito paulistano, que está demonstrando uma capacidade de aglutinação política que não se esperava dele, e por isso procura nos bastidores a verdadeira força que o impulsiona.
Mas a verdade parece ser que Serra não tem nada a ver com o PSD, e que Kassab apenas está aproveitando uma circunstância criada pela legislação eleitoral para viabilizar seu projeto político pessoal.
Como a fidelidade partidária só permite que se troque de partido por razões específicas, como mudanças programáticas, a única maneira de sair de um partido onde se esteja desconfortável por qualquer motivo é criar uma nova legenda.
Kassab estava se sentindo constrangido no Democratas pela atuação do grupo do ex-prefeito do Rio Cesar Maia, cujo filho, o deputado federal Rodrigo Maia, presidia o partido.
Entre as disputas de poder de grupos históricos no partido, como a dos herdeiros de Antonio Carlos Magalhães contra o grupo do ex-senador Jorge Bornhausen, e também a divisão entre apoiadores de José Serra e do senador Aécio Neves com vistas à disputa presidencial de 2014, o DEM debateu-se em crises internas que não foram superadas a contento.
A saída foi tentar organizar um novo partido, aproveitando que políticos de diversas tendências, por motivos diversos, ansiavam por uma chance de mudar de legenda.
Essa chamada "janela de transferência", período em que seria permitida a troca de partidos sem punições pela lei eleitoral, chegou a ser negociada nas preliminares da reforma política, como uma maneira de reorganizar o sistema partidário.
Como a idéia não foi à frente, especialmente por que a oposição suspeitava de que ela seria uma manobra palaciana que se destinava a esvaziá-la, Kassab passou a articular um novo partido que ficou conhecido como "a janela do Kassab".
Mas sem contar com o apoio de seu "padrinho" José Serra, que, na véspera da decisão oficial do prefeito paulistano de deixar o DEM, passou a madrugada conversando com ele na tentativa de demovê-lo da decisão.
O DEM continua achando que a manobra tem por trás o Palácio do Planalto.
Na semana passada, já consumada a saída, Serra e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foram à casa do senador Agripino Maia, novo presidente do DEM, para conversar sobre a montagem do diretório de São Paulo, que interessa diretamente ao PSDB paulista.
A disputa da prefeitura na sucessão de Kassab está em discussão, pois é um dos cargos mais importantes do país, que está em poder da coligação PSDB-DEM desde a eleição de Serra, em 2004.
Maia comunicou aos dois que o deputado federal Rodrigo Garcia, eleito com mais de 220 mil votos, ficando entre os 10 mais votados de São Paulo, pretende ser candidato à prefeitura e terá o apoio do DEM.
Garcia sempre fez "dobradinhas" com Kassab, que disputava para deputado federal, e Garcia, para estadual, e mesmo assim permaneceu no partido.
Dois dias depois dessa conversa, o governador Geraldo Alckmin lançou a candidatura de Serra à Prefeitura de São Paulo em uma solenidade pública, na presença do ex-governador, que vinha dizendo a todos que não estava em seus planos se candidatar novamente à prefeitura, cargo que ocupou por um período antes de se candidatar ao governo de São Paulo.
A atitude de Alckmin, e sobretudo a de Serra, que não negou a possibilidade nem se mostrou incomodado com a sugestão pública, leva a que se pense que Serra pelo menos aceitou deixar o tema ser debatido, no partido e em público.
O PSDB está com dificuldades na composição de seu diretório municipal paulista, e na hora em que Alckmin lança um candidato contral o qual nenhum tucano pode ficar, abafa as discussões, inibe as divergências no partido. Além de colocar como "cenoura" para o partido uma expectativa real de manutenção de poder.
A candidatura de Serra também obrigaria o novo partido de Kassab a apoiá-lo, e isso o prefeito não discute.
Se a candidatura de Serra não se confirmar, para sucedê-lo, Kassab joga principalmente com dois nomes: Eduardo Jorge, do PV, e Guilherme Afif Domingos, vice-governador de Alckmin que o seguirá para o novo partido.
O PT, se não tiver Serra na disputa, deve concorrer com a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy ou com o ministro Aloizio Mercadante. Caso contrário, colocará um segundo time em campo, provavelmente do grupo do deputado federal Jilmar Tatto.
O ex-governador José Serra, portanto, continua sendo o peão no PSDB paulista, ao mesmo tempo em que tenta manter sua posição de candidato preferencial do partido à Presidência da República.
O mais provável é que acabe fazendo parte de um conselho de líderes do PSDB nacional, presidido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A questão é saber se, definida a impossibilidade de ser mais uma vez candidato a presidente da República, o que parece no momento o mais provável, Serra quererá encerrar sua carreira política como prefeito de São Paulo, o terceiro maior orçamento do país, ou como senador em Brasília. 

O MUNDO SEM HUMANOS 7

MÍRIAM LEITÃO Novos dilemas


Novos dilemas 
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 03/04/11

Há vários dilemas na política econômica, hoje. Alguns parecem antigos, mas são filmes refeitos com tecnologia atualizada e novos contextos. A inflação de hoje tem outro patamar daquela que, nos anos 1970, começou sua disparada, mas a ideia de que é possível conviver com mais inflação é a mesma. Os déficits público e externo parecem mais aceitáveis, mas ameaçam como antes.
O Brasil e o mundo são diferentes e mais complexos. No ano de 1977, o economista Dionísio Dias Carneiro escreveu e organizou o livro de ensaios "Dilemas da Política Econômica". O Brasil vivera o período de ajuste e reformas nos anos 60; depois, o milagre econômico, do começo dos anos 70; e estava sendo atingido por choques externos. Agora, um grupo de 38 economistas escreveu 28 artigos para o livro "Novos Dilemas da Política Econômica", uma homenagem ao Dionísio, morto no ano passado. No prefácio, Luiz Roberto Cunha explica por que a homenagem é feita com as tentativas de decifrar os problemas da economia: Dionísio foi "uma inteligência brilhante e independente", ajudou a modernizar o ensino e a pesquisa econômica no Brasil. Na orelha, o ex-diretor do Banco Central Eduardo Loyo conta que por 17 anos sempre houve um ex-aluno do Dionísio na diretoria do Banco Central. Ele influenciou sem ir para o governo, mas preparando quem foi.
O livro foi organizado por economistas de gerações diferentes: Edmar Bacha e Monica Baumgarten de Bolle. Conversei com os dois no programa da Globonews sobre alguns dos vários tópicos que os economistas tratam no livro que será lançado amanhã na Casa das Garças.
O mundo está tão cheio de mudanças que há até um "guia para os perplexos", escrito pelo economista americano Albert Fishlow. Há perplexidades até no livro, como o artigo em que John Williamson faz uma proposta bem heterodoxa: a de que o Banco Central tenha também uma meta de câmbio. Ele foi quem organizou o que ficou conhecido como "Consenso de Washington".
Um motivo para estar perplexo, segundo Fishlow, é a drástica mudança na situação fiscal americana em uma década: na campanha eleitoral que levou George Bush à presidência, em 2000, a discussão entre ele e o candidato democrata Al Gore era sobre o que fazer com o superávit orçamentário. Hoje, a economia americana tem um déficit de 10% do PIB.
- Isso é um problemão. Mas há outros, como a crise do mundo árabe, a questão atômica que aparece após o tsunami no Japão, mostrando que a busca por energia limpa tem mais um complicador. O mundo está num momento muito difícil - acrescenta Bacha.
Monica lembra que as mudanças após a crise de 2008 trazem velhos dilemas:
- É difícil escapar da ideia de que o mundo vai ser mais tolerante com a inflação, como tem sido mais tolerante com o déficit público.
Aí moram grandes perigos. Um deles, o de achar que comparado ao resto do mundo o déficit brasileiro não é grande ou que se todo mundo aceita mais inflação para preservar algum crescimento, por que não o Brasil? A crise criou o álibi perfeito para que o Brasil repita erros perigosos.
Há também velhos mistérios na economia brasileira, e um deles é por que os juros são tão altos no país? Bacha afirmou que tomar medidas de contenção de crédito por razões de prudência está correto, mas achar que elas são ferramenta contra a inflação, como o Banco Central tem insinuado, está errado.
Outro problema no crédito é o que Monica e Bacha chamam de "eficiência na alocação de recursos", ou seja, será que os financiamentos estão indo da forma certa para os setores certos?
- No meu artigo, dou uma série de sugestões sobre como reduzir os juros no Brasil. Em parte, isso se liga à ideia da nossa presidenta de que se tem que atacar a inflação pelo lado da oferta. Isso é um equivoco, se significar preservar os investimentos subsidiados do governo e os empréstimos subsidiados do BNDES. Os bancos públicos beneficiam setores menos produtivos em vez de alocar os recursos da economia para os setores que têm mais capacidade de produção - diz Bacha.
Além disso, explica, os créditos subsidiados dos bancos públicos são 30% do total dos financiamentos e não são atingidos pela política monetária do Banco Central. A Selic tem que ser mais alta porque ela atinge apenas 70% dos créditos.
Quando se compara o mundo em que Dionísio olhou para preparar seu livro e o de agora, nesse novo conjunto de ensaios, há diferenças e semelhanças notáveis.
- No contexto mundial, quando se comparam os dois momentos, naquela época o Brasil tinha menos margem de manobra. Hoje, tem um leque maior de escolhas, mas o contexto mundial está mais confuso. O risco é a opção por preservar o crescimento em detrimento do combate à inflação. Não é diferente do que já fizemos no passado. O que é preciso é buscar uma trajetória de inflação mais baixa, mesmo que isso signifique crescimento mais baixo, porque levará a juros mais baixos no futuro - diz Monica.
Para Bacha, os dilemas são mais fáceis de enfrentar se houver vontade:
- Estamos saindo de anos de muita facilidade. O mundo cresceu forte, as reformas feitas no Brasil aumentaram a produtividade. Houve então exagero em gastos e em crédito do setor publico no fim do governo Lula. A economia está superaquecida e precisa de ajustes.
Dionísio foi, segundo Bacha, o esteio do Departamento da PUC-Rio que virou centro de pensamento para soluções dos dilemas dos anos 1980 e 1990. Monica acha que aprendeu com seu "mentor" que a economia não é uma caixinha separada, está ligada ao que se passa em outros campos. É um livro para pensar. Como Dionísio gostava. 

JOSÉ SIMÃO Bolsonaro entra pro Guinness!


Bolsonaro entra pro Guinness!
JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

E eu vi um adesivo assim: "Jesus me ama, mas eu prefiro a Mulher Samambaia"


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Placa no Paraguai: "Caldo de piranha contra dengue". Você acha que, se piranha curasse dengue, ia ter epidemia no Brasil? Rarará!
E um leitor mandou perguntar quem demora mais pra entregar: o Kagaddafi ou o China in Box? E essa: "Rebeldes líbios aprendem a atirar pelo Playstation". E os corintianos treinam pelo Playstation e não aprendem a jogar! Rarará!
E o Dentinho tá namorando a Mulher Samambaia! Virou vegetariano? Rarará! E eu vi um adesivo assim: "Jesus me ama, mas eu prefiro a Mulher Samambaia". E eu tenho a foto de dois elefantes sendo içados. Qual a legenda da foto? Ronaldo e Adriano voltando da balada!
E o Corinthians não quer perder peso. O Ronaldo se aposentou e eles contratam o Adriano. Ronaldo e Adriano, duzentos quilos! O Bicentenário! E diz que o Timão contratou o Adriano porque Ficha Limpa só vai valer em 2012! Rarará!
E o grande babado da semana; Bolsonaro! Que numa única entrevista pro "CQC" conseguiu ser racista e homofóbico. Vai entrar pro Guinness. Pro Guinness do Preconceito! E ainda foi se meter com a Preta Gil! A Preta Gil devia ter dado uma voadora no Bolsonaro. E após a entrevista ele cuspiu no chão, deu rasteira numa quenga e cortou uma árvore!
E o site Piauí Herald revela: "Bolsonaro saiu do armário". E foi pescar. Com o Ricky Martin e o Elton John! Rarará! Tá nervoso, vai pescar com o Ricky Martin e o Elton John! E sabe o que uma biba falou sobre os homofóbicos? Todo pitbull é uma Lassie enrustida. Rarará!
E o Berlusconi, o Maluf pornô? Olha essa manchete: "Berlusconi arrolou Cristiano Ronaldo". O quê? Mas nem o Cristiano Ronaldo escapou! É que o Berluscome Todas chamou o George Clooney e o Cristiano Ronaldo como testemunhas de defesa, os arrolados.
Eu não perco esse julgamento. Já imaginou? "A senhora é a arrolada?". "Não, a arrolada é aquela de oncinha na primeira fila". Rarará!
E a última do Gervásio. Olha a placa que ele botou na empresa em São Bernardo: "Se eu sonhar que algum nó cego daqui vendeu ou trocou o bilhete do vale-transporte, vou fazer esse salim muchiba do inferno ir de joelhos pra Bahia até ficar só o cotoco da perna. Conto com todos. Assinado: Gervásio". Esse Gervásio podia dar um jeito no Bolsonaro. Rarará! Nóis sofre mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! 

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Lei Áurea
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/04/11

Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, informa: "Em oito anos, 40 mil pessoas que trabalhavam no Brasil na condição de escravas, foram libertadas". Com esta estatística, a ministra está brigando pela aprovação da PEC do trabalho escravo.

Que prevê confisco e desapropriação de terras onde forem encontrados trabalhadores nessa situação.

Lei Áurea 2

Na mesma vertente, Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, alerta para a progressão geométrica do problema na... construção civil. "Com o boom nessa área, cresce também o número de pessoas que querem explorar os trabalhadores", avisa.

Da política
Convidado para presidir a sessão que elegeu Jamil Murad presidente da Comissão de Direitos Humanos, na Câmara Municipal, Aguinaldo Timóteo disse não e soltou os cachorros: "Tenho pavor de gente que apunhala pelas costas". Acusa o colega comunista de fazer jogo duplo ao cortejar Kassab.

Murad, por sua vez, desconversa: "Timóteo defende a ditadura até hoje e por isso não quis presidir a sessão".

Dia a dia

E Marta Góes estreia nas... telenovelas. Vai colaborar com Lícia Manso na novela que substitui Cordel Encantado em setembro, na Globo.

Quem vemAlain Ducasse, chef estreladíssimo, disse sim. A convite de Pascal Valero, fará jantar fechado em São Paulo. No fim do mês de maio.

Responsabilidade social
Acaba de ser inaugurado o Instituto Roberto Sampaio Ferreira, braço de responsabilidade social da Bombril focado no protagonismo feminino.

A pré-estreia de New York, New York, inspirado na obra de Martin Scorsese e dirigido por José Possi Neto, terá renda revertida para projetos sociais. No dia 13, no Teatro Bradesco. Iniciativa da Páscoa do Bem, do LIDE, de João Doria.

O Santander disse sim. Apoiará o Programa Responsabilidade Social Empresarial na Mídia 2011 do Instituto Ethos. O objetivo é estimular a discussão sobre sustentabilidade na imprensa.

Dois alunos da Etec Getúlio Vargas em SP, que reutilizaram óleo de cozinha para produzir tinta, foram premiados na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia. E vão apresentar a invenção em Los Angeles, no mês que vem.

A I-Stick avisa: lança a linha Causas - adesivos apropriados para celulares inteligentes - com 20% da renda das vendas para a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia.

Kris Peeters, ministro-presidente da região de Flanders, comanda coquetel em torno da ONG Aldeias Infantis, no Sofitel Ibirapuera. Terça.

Está saindo do forno campanha da APMPS, que apoia crianças e adolescentes com Mucopolissacaridose. Artistas e jogadores de futebol participaram do filme para ajudar vítimas dessa doença rara que não é coberta pelo SUS. Agora tentam encontrar espaço para veiculá-lo além da internet.

Hoje tem Caminhada pela Conscientização do Autismo no Leblon, Rio

MARCELO GLEISER - Uma mente sem limites



Uma mente sem limites
MARCELO GLEISER

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

O interessante é aprender a aceitar nossas limitações, ao mesmo tempo em que tentamos transcendê-las


IMAGINE UMA pílula que ofereça poderes intelectuais ilimitados, que cause uma avalanche de atividade neuronal, elevando o cérebro a um nível de percepção incomparável. Você toma aquilo e, por algumas horas, vira uma espécie de deus.
Essa é a premissa do novo filme "Sem Limites", dirigido por Neil Burger e baseado no romance de Alan Glynn. O enredo nos apresenta Bradley Cooper no papel de um escritor fracassado que é transformado num gênio pelos poderes de uma milagrosa droga psicotrópica.
Imagine se o cérebro tivesse um poder tremendo, uma capacidade ilimitada de percepção e dedução anestesiada pela rotina? O que chamamos de criatividade, de "insights" geniais, são meras fagulhas do que poderia ocorrer, a percepção de uma realidade que tudo engloba, uma nova dimensão da existência.
Será possível abrirmos as portas para essa realidade, libertando-nos da "trivialidade" a que somos acorrentados pelo uso de apenas uma fração do nosso córtex?
Na verdade, a ideia de que usamos apenas 10% do cérebro é um mito. Usamos o órgão por inteiro, cada parte com uma função bem conhecida. Caso contrário, teríamos evoluído de forma diversa, com cérebros menores e mais econômicos.
Portanto, o ponto não é ativar áreas adormecidas do cérebro, mas criar conexões mais eficientes entre os neurônios: o segredo está em aumentar o número de pontes entre eles, intensificar o trânsito, por assim dizer, criando novas ressonâncias que levem a um patamar mais elevado de consciência.
Será que uma pílula pode realmente fazer isso?
Ninguém sabe. Mas vejamos onde estamos hoje. Milhões de pessoas, incluindo crianças, tomam vários medicamentos à base de anfetaminas, todos estimulantes.
As drogas aumentam a quantidade de dopamina no cérebro, otimizando o foco e a atenção, a libido e o nível geral de eficiência cognitiva do paciente. Essas drogas são, de certa forma, versões simplificadas da NZT 48, a pílula mágica do filme: a ficção ampliando o que já existe. Será que a ciência pode chegar a algo assim? E, se puder, quem a tomaria?
Vemos aqui mais uma versão moderna da lenda de Fausto. Agora o Diabo veste as roupas da indústria farmacêutica, ou as de um traficante de drogas.
No romance "A Pedra Filosofal", de 1969, Colin Wilson imaginou um cenário semelhante: com o implante de eletrodos em pontos estratégicos do córtex pré-frontal, seria possível catapultar o cérebro a um nível de funcionamento inimaginável.
O "homem liberado" que resulta do experimento é transformado num profeta, num gênio, num deus, capaz de ver o passado e o futuro, de decifrar significados profundos sobre o Universo que as pessoas mais comuns nem sonham existir.
Será que nós podemos acender todas as luzes sem queimar o fusível central? Qual a vantagem de uma mente ilimitada?
No filme, as vantagens que temos permanecem: quem é mais inteligente continua mais inteligente. Talvez possamos extrair uma lição importante do filme e do livro: o que torna a vida interessante não é atingir níveis fantasiosos de percepção, mas aprender a aceitar nossas limitações ao mesmo tempo em que tentamos transcendê-las.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

O MUNDO SEM HUMANOS 7

DORA KRAMER - Sobrevivência na selva


Sobrevivência na selva
DORA KRAMER


O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/04/11

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia, está mais ou menos na situação descrita por Paulo Vanzolini na voz de Noite Ilustrada nos idos dos anos 60: reconhece a queda, mas não desanima.
Assim que conseguir reorganizar o partido em São Paulo, cuja estrutura de comando foi dissolvida para que não reste sombra da influência do prefeito Gilberto Kassab, o senador vai deflagrar uma operação de sobrevivência na selva, na tentativa de levar o partido a sacudir a poeira e dar a volta por cima.
Certeza absoluta de que será bem-sucedido ninguém tem, nem ele. O baque foi forte, admite.
O roteiro estabelecido quando da mudança de nome de PFL para DEM com renovação de lideranças não saiu como o previsto e o escândalo José Roberto Arruda foi fatal: "Cometemos grave erro de comunicação e o que acabou marcando foi a expressão "mensalão do DEM" no lugar do fato de que botamos para fora o Arruda". A decisão de Kassab de sair para criar um novo partido, completou a série de infortúnios.
Mas o tombo, no entender de José Agripino, não foi definitivo.
"Estamos bem longe do desmoronamento de que se fala, mas a crise é real e leva o partido a uma reflexão interna profunda sobre os erros cometidos e as ações necessárias para uma retomada do rumo perdido", diz, sem a menor preocupação de dissimular o litígio com Kassab, a quem atribui a construção da "imagem do destroço".
Duvida de que o prefeito provoque defecções significativas no DEM e duvida mais ainda do sucesso da empreitada com a legenda do PSD. "Quero ver como ele ficará depois que não for mais prefeito. Por enquanto tem a máquina da Prefeitura de São Paulo nas mãos. Em 2013 não terá mais nada."
Faz as contas: "Dos oito deputados federais do DEM em São Paulo ele leva dois; dos oito estaduais conseguiu convencer só um; dos 76 prefeitos, no máximo leva 14. E o que mais no resto do País? Uma chusma de gente movida pelo sopro do Planalto e que está a serviço do PT. Para o barulho que faz, a colheita dele tem sido modesta".
Segundo ele, os sinais de que o plano é atuar como linha auxiliar do governo - "Dilma quer concluir o projeto de Lula de nos eliminar da cena" - faz crescer no DEM um sentimento de autopreservação que, assegura, logo será visível.
Vai trabalhar para segurar as figuras de projeção nacional e nos respectivos Estados enquanto inicia uma campanha de filiação e promove reuniões estaduais, a começar por Santa Catarina, onde o governador Raimundo Colombo está vai não vai (Agripino aposta que não vai) para o PSD.
Na ausência de instrumentos de poder, a saída, na opinião do presidente do DEM, forçosamente terá de ser a aposta na conquista do público sensível à defesa da redução de impostos, do Estado de tamanho compatível com a qualidade do serviço prestado, parcerias público-privadas nos investimentos e preservação do meio ambiente com desenvolvimento.
"Não é possível que o partido que impediu a renovação da CPMF, impondo a maior de todas as derrotas do governo Lula, não tenha o que dizer nem saiba como atuar."
Lua de mel. Natural e nada surpreendente que a presidente Dilma Rousseff apresente índices altos de aprovação nas pesquisas divulgadas recentemente.
Por quatro motivos: carrega o legado da popularidade de Lula, que a elegeu; nesse período nada aconteceu que pudesse justificar perdas na avaliação; na comparação com Lula tem agradado à parcela da sociedade que não gostava do estilo dele; tem sido poupada pela oposição, que anda sem rumo, sem unidade e sem discurso.
O desafio dela de agora em diante é conseguir corresponder às expectativas.
Temporão 2012. Afastada a hipótese de fusão com o PSD de Kassab, o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão examina com carinho a proposta de concorrer à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSB. 

FLÁVIA MARREIRO - As razões peruanas



As razões peruanas
FLÁVIA MARREIRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Não faz muito tempo, o presidente do Peru, Alan García, queixava-se de seus compatriotas em uma rádio. Por que, no país que mais cresce na América Latina, lhe conferem melancólicos 26% de aprovação, com rejeição brutal longe da costa? "Nosso povo é assim. Somos como somos, tristões, desconfiados." E depois: "Não governo para os brasileiros, que têm outro tipo de raça, de alegrias e sol".
Ocorre que as razões dos peruanos parecem ser menos metafísicas e é por isso que nenhum dos candidatos que disputam a Presidência do país no próximo domingo quer o endosso explícito de García.
Há motivos políticos, econômicos e sócio-ambientais para o mal-estar peruano. E grande parte deles vem embalada num complexo quadro de disparidades regionais, um grande desafio para o próximo mandatário peruano.
Cito uma espécie de síntese, presente em "Peru, às portas de uma nova era", lançado pelo Banco Mundial nesta semana. O estudo diz: o país se orgulha de estar em segundo lugar no ranking que mede a qualidade do ambiente de negócios em 17 países da região, o "Fazendo Negócios". Mas se a medida for o Índice de Oportunidade Humana, que mensura o acesso a serviços sociais, o Peru despenca para o 13º lugar entre os 17.
Há outros fatores no mau humor peruano, como a truculência do governo, em especial para negociar com movimentos sociais, indígenas e ecológicos.
O presidente governou boa parte do tempo usando decretos de urgência e superpoderes legislativos -causando, aliás, muito menos escândalo do que seu colega venezuelano Hugo Chávez.
Ele ganhou a prerrogativa do Congresso para adaptar, por decreto, as leis do país ao TLC (Tratado de Livre Comércio) com os EUA, mas tentou passar de tudo. Num pacotaço, incluiu mudanças na lei de terras e florestal, a chamada "lei da selva", em 2009.
Só recuou depois de um confronto sangrento entre indígenas e policiais em Bágua, ao norte de Lima. Em janeiro, baixou dois decretos de urgência para facilitar investimentos em 33 grandes projetos -incluindo hidrelétricas em parceria com o Brasil.
Entre as facilidades, estava prescindir de um relatório de impacto ambiental. Foi tanto barulho, incluindo nota dos bispos católicos peruanos, que García teve de recuar e a exigência voltou.
De acordo com a Defensoria do Povo (Ouvidoria) peruana, 113 ou metade dos conflitos sociais listados pelo órgão em fevereiro último envolviam questões ambientais.
Se o futuro presidente repetir a fórmula de García para lidar com esses conflitos, não deve ter maior sorte com os índices de popularidade.

GOSTOSA

CELSO MING - Ora, direis, agregar valor



Ora, direis, agregar valor
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/04/11

Ontem, esta coluna procurou avaliar o que está por trás dessa ideia, gerada pelo Palácio do Planalto e depois desmentida pelo Ministério da Fazenda, de impor um confisco (Imposto de Exportação) sobre vendas externas de minério de ferro.
Hoje, convém avaliar melhor não propriamente os objetivos, mas a principal justificativa usada por formuladores de projetos desse tipo.
O argumento é o de que é preciso agregar valor. Mais ou menos assim: "O Brasil não pode ser transformado num buraco de onde se tiram sem parar os recursos naturais nem num fazendão que pouco contribui para incorporação de tecnologia. Produzir e exportar produtos primários é, em princípio, um mau negócio para o produtor e para o País, na medida em que o pode manter aferrado a padrões colonialistas de produção".
Por trás desse ponto de vista estão os pressupostos e as concepções do economista argentino Raúl Prebisch, que teve o grande mérito de identificar e medir a deterioração estrutural dos termos de troca dos países subdesenvolvidos. Eram eles que exportavam minérios, alimentos e petróleo e importavam produtos acabados. Por isso, afundavam no atraso, na pobreza e na dependência econômica e política.
Mas, de uns 20 anos para cá, os termos de troca mudaram substancialmente no mercado global. Um grande número de emergentes, como China, Índia, Coreia do Sul e Indonésia, é altamente dependente de fornecimento externo de matérias-primas, alimentos e energia - o que não ocorreu na época em que o grande emergente da hora eram os Estados Unidos (eles foram autossuficientes em quase tudo). Hoje, o produto escasso e estratégico deixou de ser preponderantemente manufaturado. Passou a ser energia, alimentos ou outros produtos primários.
É preciso entender também que o mercado financeiro não é mais o da segunda metade do século 20. Transformou-se e está mudando a economia global e, com ela, os termos internacionais de troca.
Não se pode olhar para uma commodity do mesmo jeito com que os opositores dos regimes colonialistas olhavam para o mercado de matérias-primas. As commodities se transformaram em ativos financeiros - e isso diz muita coisa.
Ninguém, por exemplo, despeja bilhões de dólares em panelas (ou caixilhos) de alumínio, em tachos (ou fios) de cobre nem em montanhas de caramelos ou de fubá. Mas é capaz de investir uma enormidade, sim, no mercado futuro e nos mercados de derivativos de alumínio, cobre, açúcar, milho e de tanta coisa mais. Ou seja, a enorme liquidez conferida pelos mercados a um grande número de matérias-primas as tornou especialmente mais atrativas do que produtos que, em princípio, ostentam a condição de maior valor agregado.
Nem o minério de ferro nem o etanol gozam hoje do status de commodity internacional, como são o petróleo, a gasolina, o café, a soja, o açúcar, o algodão e um grande número de metais. Mas suas condições de mercado hoje são muito próximas de começarem a ser.
Isso já significa que não se pode ir repetindo, a esmo, argumentos de que qualquer processo de agregação de valor seja, por si só, mais desejável do que a produção e o comércio de commodities. Os problemas são outros (como os da valorização excessiva da moeda) e as soluções também têm de ser diferentes. 

ELIO GASPARI - O PT quer aprovar a lista sem ter os votos

ELIO GASPARI
O PT quer aprovar a lista sem ter os votos

O GLOBO - 03/04/11

Se deixarem, com apoio de 129 deputados, o comissariado imporá uma reforma eleitoral que demanda 308


O COMISSARIADO PETISTA planeja um golpe regimental para impor ao país um sistema eleitoral pelo qual os cidadãos perderão o direito de votar nominalmente em seus candidatos para a Câmara.
Com o apoio do DEM, o PT conseguiu que a comissão do Senado encarregada de estudar a reforma política recomendasse a instituição do voto de lista. Nele, as direções partidárias enumeram seus candidatos, deixando à patuleia apenas o direito de escolher uma sigla.
O resultado dessa votação quer dizer pouca coisa. O golpe está noutro lugar, escondido.
Imagine-se a seguinte situação: chega-se ao mês de setembro e os plenários da Câmara e do Senado apreciarão as propostas de emendas constitucionais necessárias para que se aprove a reforma.
Uma quer o distritão, outra, o distrital puro e uma terceira sugere um sistema misto. Para ser aprovada, qualquer emenda precisa de três quintos dos votos de cada Casa. Ou seja, o apoio de 308 dos 513 deputados e de 49 dos 81 senadores. Cada emenda vai a voto e nenhuma consegue passar.
Nessa hora aparece um sábio pedindo que se passe à votação dos projetos de lei existentes na Casa. Há um, instituindo o voto de lista. Já foi rebarbado duas vezes, mas não custa apreciá-lo de novo. Como se trata de lei ordinária, não demanda três quintos. Basta a maioria simples. No caso da Câmara, uma reforma política travada pela falta de 308 votos poderá ser aprovada por apenas 129 deputados, numa sessão de frequência mínima. Admitindo-se que o plenário esteja lotado, a mudança passa se tiver 257 votos.
Os defensores da lista querem criar a figura do deputado sem eleitor. Tudo bem, mas devem se submeter aos três quintos exigidos pela Constituição. Senão, trata-se de uma tunga regimental para alavancar outra, cassando o direito dos brasileiros de escolher seus deputados pelo voto nominal e direto.

O SÁBIO ARRAES
Em 2003, durante uma das tentativas fracassadas para se instituir o voto de lista, o deputado Aldo Rebelo foi encarregado de tentar convencer Miguel Arraes de que a mudança moralizaria as disputas eleitorais.
Deu-se o seguinte, na narrativa de Rebelo: "Eu falei durante quase uma hora, e Arraes, que era de poucas palavras, ficou cachimbando. Quando terminei, ele perguntou: "O senhor sabe me dizer quanto vai custar um bom lugar nessa lista?"

CONTA ELEITORAL
O palhaço Tiririca teve 1,3 milhão de votos. Pelo sistema atual, carregou a eleição de três deputados de sua coligação, na qual estava o PT. Colocado na cabeça de uma lista, carregaria os mesmos três deputados.
Criando-se o distritão, ele se elegeria, e só. Pelo sistema distrital puro, dificilmente seria eleito.

POBREZA APARENTE
Corre no andar de cima a seguinte história:
Um bilionário brasileiro que há muitos anos esteve na lista da "Forbes" e passa a maior parte do ano nos Estados Unidos, às vezes é visto nas salas de embarque dos aeroportos de Pindorama.
Septuagenário, o doutor pousa em Montevidéu, estaciona seu avião particular, que tem autonomia até para atravessar o Atlântico, e prossegue, disfarçado de cidadão comum.

COTAS NO SUPREMO
Depois de assistir aos desempenhos racistas dos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, pelo menos um ministro do Supremo Tribunal Federal sentiu a razão balançar na direção de um voto pela constitucionalidade da política de cotas para afrodescendentes nas universidades.

CENSURA DE "CARAS"
Trinta e dois anos depois de o presidente Ernesto Geisel ter retirado a censura ao jornal "Tribuna da Imprensa", uma publicação brasileira chegou aos seus leitores com tarjas pretas.
A revista "Caras" que está nas bancas tem uma reportagem de 19 páginas sobre as angústias da atriz Cibele Dorsa.
Ela se matou no dia 26, cerca de dois meses depois do suicídio de seu noivo.
Horas antes, enviara uma carta de despedida à família e aos amigos mais próximos, entre eles o jornalista Carlos Alberto Santiago, editor da "Caras".
A revista estava sendo impressa quando um dos ex-companheiros de Cibele, o campeão de hipismo Álvaro "Doda" Miranda, obteve, por intermédio de seu advogado, uma ordem judicial que proibia "Caras" de publicar qualquer referência ao seu nome.
"Doda" e a atriz tiveram uma filha. Como era tecnicamente impossível fazer os cortes, o único recurso foi o uso de tarjas.
Uma, pequena, está na capa da revista. Na reportagem, a tesoura comeu 53 linhas. Foi suprimida a íntegra da carta de despedida de Cibele.
A juíza que concedeu a medida e "Doda" justificaram suas razões. O advogado do cavaleiro, Antonio Carlos Mendes, deu um argumento adicional:
"Como uma pessoa que vai tirar a própria vida pode estar em estado normal para deixar uma carta?"
Não é o caso de se discutir onde termina o direito de expressão dos viventes. Trata-se de perguntar ao doutor o que ele sugere que se faça com a carta-testamento de Getúlio Vargas.
Como era de esperar, a carta censurada de Cibele está na internet.

OBRA SEM PROJETO VIRA BRIGA SEM FIM
A encrenca exposta pela revolta dos peões do PAC vai além da pauta trabalhista. Algumas das grandes obras do comissariado estão contaminadas pelo pecado original da falta de projetos detalhados de engenharia. Elas foram contratadas na lógica do "Pra Frente, Brasil" e a prova disso está num recente pleito da Camargo Corrêa, revelado pelo repórter Mauro Zanatta. A empresa, que lidera o consórcio da hidrelétrica de Jirau, pede R$ 1,2 bilhão adicional por conta de escavações e serviços que não estavam previstos.
Afinal, a usina ficará a 12 km de distância do local planejado, com mais duas turbinas. Para um custo inicial de R$ 9,9 bilhões, a nova cobrança significa aumento de 11%.
Sem projeto, todos os preços e prazos são exercícios de fantasia. Isso vale tanto para uma hidrelétrica na Amazônia como para a reforma de um banheiro. A ponte Rio-Niterói foi licitada nos anos 60 sem que houvesse projeto, o consórcio vencedor acabou enxotado e a obra caiu no colo da Camargo Corrêa.
O trem-bala arrisca ir a leilão sem que haja um estudo confiável da geologia do trecho Rio-São Paulo, mesmo sabendo-se que a ferrovia atravessará 103 quilômetros de túneis (três vezes a extensão escavada sob o canal da Mancha).
Como as grandes empreiteiras adoram administrar conflitos aveludando as cortinas do poder, encenam-se projetos em cima de marquetagens. De vez em quando, a receita desanda. Uma das maiores construtoras do século passado, a Mendes Júnior, quase desapareceu, por conta da proximidade que conseguiu no Planalto, no Banco do Brasil e nos negócios de ambos com o Iraque de Saddam Hussein.

O MUNDO SEM HUMANOS 6

Um legado de valores GAUDÊNCIO TORQUATO


Um legado de valores
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 03/04/11

Pergunta da semana: qual o legado que deixa José Alencar, o ex-vice-presidente da República? Na linguagem corrente, o conceito de legado abriga diversos significados: herança política, acervo de princípios, traços de personalidade, exemplos de atitudes e comportamentos. No caso desse mineiro, que travou uma luta de 13 anos contra um câncer, o legado político se esvai com seu desaparecimento. Permanece, porém, o legado valorativo, que salta aos olhos na trajetória vitoriosa de um brasileiro que, de balconista de loja de tecidos, construiu, tijolo a tijolo, um dos mais sólidos empreendimentos empresariais do País. Nesse percurso, o ator político tira a máscara e se mostra real, um ser humano com alegrias e aflições. Para início de conversa, não tinha papas na língua. Percorria, muitas vezes, a contramão na estrada do governo de que fazia parte. Exercia a vanguarda da defesa da obra governamental, mas brandia as armas da crítica contra a política de juros. A aparente contradição não diminuiu a lealdade, a colaboração e o entusiasmo que demonstrava pela administração comandada pelo companheiro de chapa, Luiz Inácio.

O vedetismo no poder procura seduzir mais que convencer, encantar mais que argumentar, iludir mais que cair na real. Daí se explicar a propensão para o Estado desenvolver certo "autismo", um mergulho voltado para si mesmo, acentuado quando as rédeas do governo são guiadas por um perfil carismático que se imagina onipotente e onisciente, como Lula. Zé Alencar, com sua humanidade, simbolizava o mundo real, ao escancarar a luta contra o mal que o afligia, e também ao não economizar palavras contra os altos juros. Matreiro e perspicaz, o ex-vice fugia das tramas de Narciso, não se deixando colher na armadilha do próprio reflexo. Quebrava com insistência o espelho do poder. Conseguiu o dom de ser ouvido, respeitado e aplaudido não por firulas da política, mas por cultivar valores cuja síntese pode ser expressa nesta lição: "Não tenho medo da morte, mas da desonra".

O legado de José Alencar não aparece no terreno da política tradicional, mas no plano dos princípios. Se não tem herdeiros políticos, deixa impresso nas páginas da História um curto dicionário de valores, alguns não muito prezados pelos atores políticos: transparência, coragem, lealdade, determinação. Na vida pública, transparência é um conceito-chave. A História ilustra casos de personagens que sofreram muito por esconder suas doenças. John Kennedy padecia intensamente da coluna vertebral, por ter sido ferido nas costas durante a 2.ª Guerra. Usava um colete dorsal de 20 cm. Estampa jovial da América, controlava as dores para exibir um permanente sorriso. Na França, François Mitterrand assumiu a presidência, em 1981, nunca revelando a doença (câncer na próstata) de que padecia. Resistiu 15 anos. Já na Inglaterra, o rei George VI, ao enfrentar publicamente a gagueira e a timidez, ganhou a simpatia da opinião pública.

Entre nós, uma luz fosca sempre envolveu os governantes. A enfermidade do marechal Costa e Silva - crise circulatória com manifestações neurológicas -, divulgada sob muita opacidade, abriu uma crise. Seu vice, Pedro Aleixo, cedeu lugar a uma junta militar. O ex-senador Petrônio Portela seria o candidato civil da ditadura militar, em 1986, para presidente da República. Escondeu o enfarte quando visitava Campina Grande (PB). Desembarcou em Brasília, onde morreu horas depois. Era sabido que Orestes Quércia padecia de um câncer, que sempre procurou ocultar. Até sua saída da última campanha para o Senado, no ano passado, foi envolta em mistério. E quem não se lembra de Tancredo Neves, sorridente, sentado na cadeira e rodeado de médicos, já perto de morrer? Envoltos num grande cobertor de silêncio, todos, mais cedo ou mais tarde, tiveram seus casos desvendados. O mistério não os ajudou em nada.

Apresentar-se saudável, robusto, jovial é a orientação dos profissionais que manejam as armas do marketing. Tolice. Os fios da verdade sempre se desdobram aos olhos da opinião pública. Por vezes, a emenda sai pior que o soneto. O espetáculo em torno da robustez pode ser estratagema para esconder outras coisas. Quem não se recorda da imagem de um presidente no cooper diário, voando em jatos supersônicos, dormindo em cabanas de lona no meio da floresta, fazendo estripulias que causavam impressão às turbas? Deu no que deu. Há um ditado espanhol que reza: "No meio da mentira encontrarás a verdade". Ou, para usar a imagem bíblica, "o homem não é capaz de acrescentar um palmo à sua altura e, desse modo, alterar a modelagem que o Senhor dos Céus lhe deu". Zé Alencar intuía tal sabedoria ao estraçalhar a caricatura espalhafatosa que a mídia produz do homem público. No planalto ou na planície, via-se um cidadão determinado a conter o ímpeto de suas mazelas. Isso contribuiu, seguramente, para angariar simpatia para o governo. O Zé, cheio de humanidade, acabava abrindo outras portas para Lula. Serviu como aríete para quebrar resistências do empresariado. A determinação de percorrer as estações do calvário (17 intervenções cirúrgicas) fazia crer, em certos momentos, que ele, ufa!, encontrara a poção mágica para exterminar uma das maiores desgraças do planeta.

Há, pois, um legado a medir na planilha de vida de José Alencar Gomes da Silva, nascido em Itamuri, município de Muriaé, Minas Gerais. Consiste essencialmente na ideia de que o homem simples vive como respira, sem maiores esforços nem glórias, sem maiores efeitos nem vergonha. O homem comum é aquele que sabe que as casas são construídas para dentro delas se viver, e não para serem admiradas por fora. A simplicidade, arremata André Comte-Sponville, é a vida sem frases de efeito, sem mentiras, sem exageros e sem grandiloquência. É a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. No ciclo de tormentas por que passa nossa política, quem as atravessa incólume faz a diferença.

Dia de silêncios JANIO DE FREITAS

Dia de silêncios
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11


A falta de manifestações agressivas no 31 de março abre caminho para resolver impasse até aqui intratável 
A AUSÊNCIA DO 47º ano sucessivo de manifestações mutuamente agressivas, no 31 de março, de representantes militares da ditadura e de parte dos seus opositores, tem significações maiores do que deu a perceber de imediato.
Pelo lado dos opositores ao golpe e aos 21 anos de regime de violência e antidemocracia que se seguiram, sua conduta, se traduzida em palavras, explicaria que "agora vemos, afinal, uma disposição honesta, no comando do governo, de não se curvar aos temores e radicalismos militares em relação aos seus feitos e à história, quando se fizeram poder absoluto".
No lado dos militares, os três comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica reproduziram para os subordinados a instrução do ministro Nelson Jobim contra ordens do dia e outras manifestações sectárias. Mas o primeiro daqueles comandantes, general Enzo Peri, tem no caso um destaque particular. O general Augusto Heleno Pereira, com a ira que o acometeu desde que voltou da missão no Haiti, estava prestes a transgredir a instrução do ministro. O general Peri calou-o, e aos componentes do ato planejado, com uma intervenção firme. Como não houvera ainda em relação ao assunto.
O general Augusto Heleno tornou-se conhecido quando a Procuradoria da República constatou ser destinada a ele, servindo no Palácio do Planalto durante o governo Fernando Henrique, a quantidade injustificável de telefonemas do então juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que à época fazia fortuna com o dinheiro da construção do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo.
A manifestação no dia 31 seria a última participação do general antes de oficializada, com a passagem para a reserva por prazo no posto, sua troca das fardas por uma roupinha paisana e doméstica. Mas sem motivo para frustração pelo silêncio como encerramento. Na reserva, terá mais oportunidade de se manifestar. Espera-se que até para explicar, de maneira mais convincente do que já fez, também os telefonemas do Lalau, mas sobretudo suas relações com a ONU no Haiti e sua volta imprevista e sem a extensão possível. Este último tema é de interesse amplo.
Seria exagerado considerar que a passagem pacífica do 31 de março prometa alguma coisa. Mas é inegável que pode facilitar, e muito, a relação entre o radicalismo militar e a condução de fatos como o trâmite da Comissão da Verdade no Congresso e, depois, suas atividades, se aprovada. É uma porta para a oportunidade de abordagem de um impasse venenoso e até aqui intratável.


EXPLICA-SE

Sem sair do assunto, duas memórias que explicam não só o ataque a negros e gays mas cada palavra e cada gesto de Jair Bolsonaro, sempre. Esse Bolsonaro notabilizou-se como autor de um plano para estourar, na origem do sistema, o abastecimento de água do Rio. Sua pretensa razão, como integrante de um grupo de oficiais jovens do Exército, distribuído por vários Estados: obter aumento de vencimentos. O plano foi exposto pela então mulher de Bolsonaro, em sua casa, por iniciativa dele de procurar a "Veja".
Para quem não pode entender a eleição e as repetidas reeleições de Bolsonaro como deputado federal fluminense: em seguida àquele episódio, Bolsonaro foi incentivado a candidatar-se, com a garantia de eleitorado mais do que suficiente - os militares servindo no Estado do Rio. Desde então é como um candidato oficial com seu eleitorado cativo.
Muito verdeoliveiramente sadio.

GOSTOSA

Um pouquinho menos não dói CLÓVIS ROSSI

Um pouquinho menos não dói
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

SÃO PAULO - Os tempos de inflação alucinada legaram uma teoria que o mundo político toma como palavra de Deus: sempre que a inflação dispara, a popularidade do governante despenca.
Mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, que, na oposição, se beneficiava da teoria, quando coincidia com a realidade, passou a ser adepto incondicional dela ao chegar ao governo. Tanto que, logo após assumir, topou elevar os juros de 25% para 26,5% porque Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, lhe disse que a inflação dispara sempre que chega a dois dígitos.
Teoria tão científica quanto o jogo de búzios, mas quem é louco de desafiar os espíritos?
Não é que o Banco Central do pós-Meirelles bancou o desafio, ao jogar apenas para 2012 a obtenção da meta de 4,5% de inflação? Parece, mas só parece, que o BC está adotando outra teoria que os políticos às vezes acariciam, a de que às vezes é bom aceitar um pouquinho mais de inflação em troca de um pouquinho mais de crescimento (ou um pouquinho menos de desaceleração do crescimento).
Na verdade, o BC de Alexandre Tombini faz o contrário dos búzios de Meirelles: não acredita que a inflação vá disparar só porque há alguma pressão sobre os preços.
Por isso, contraria o mercado que cobra mais sangue, na forma de juros mais altos. Que os riscos existem, é evidente. Mas ninguém, nem o BC nem seus críticos, podem ter certezas sobre o futuro, ainda mais em um país em que é difícil ter certezas até sobre o passado.
Entre os críticos, haverá certamente gente honestamente preocupada com uma eventual disparada dos preços.
Mas com certeza há também gente triste porque a contenção nos juros reduz a transferência de renda de todos nós, contribuintes, para a minoria de rentistas que detêm títulos do governo e exige a maior remuneração para eles.

“For chayote” LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO


“For chayote”
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 03/04/11

Há tempos o Millôr se divertiu especulando sobre como seria a versão para o inglês de alguns ditos nacionais, como “a vaca foi para o brejo”. Fez até um livro, cujo título era justamente The Cow Went to the Swamp. Não me lembro se ele incluiu a expressão “pra chuchu” – como em “O Eike tem dinheiro pra chuchu” – na lista. Qual seria a sua tradução? Fui procurar chuchu no meu português-inglês e dei com “chayote”. Chayote?!
Pode ser, mas a palavra não existe em dicionários só de inglês, pelo menos nos que eu tenho à mão.Consultas a pessoas que poderiam me ajudar não ajudaram muito. As respostas iam de “o chuchu só existe no Brasil” a “chuchu é tão sem graça que ninguém mais no mundo se incomodou em lhe dar um nome, só nós, por piedade”. Apareceu “chou-chou” do francês antilhano, mas sem especificar se era o nome do legume ou de alguma safadeza. Na falta de alternativas, portanto: “Eike has money for chayote”.
De onde vem a expressão “pra chuchu” significando “muito”, afinal? O significado da vaca atolada no brejo é pelo menos deduzível, se não é perfeitamente claro. “Pra daná” e “pra burro” também querendo dizer “muito”, com um pouco de boa vontade, fazem sentido. Mas “pra chuchu”? Nem todo o mundo concorda que o chuchu não tem gosto de nada e parece um sólido fazendo força para não se transformar em água, sua verdadeira vocação.
Há quem faça o elogio do suflê de chuchu, e rapsódias em defesa do ensopadinho de chuchu com camarão. Mas suflê de qualquer coisa acaba sendo bom e a única virtude discernível do chuchu no ensopado 
é a caridade, pois ele só está ali para fazer companhia aos camarões.
Curiosamente, se chuchu é um símbolo do insosso e do imprestável, seu diminutivo, “chuchuzinho” – “little chayote” – é um termo amoroso, para descrever uma mulher apetitosa. Vá entender.
FOBIAS
Por falar em curiosidade. Quando o deputado Jair Bolsonaro, tempos atrás, lamentou publicamente que a ditadura não tivesse matado o então presidente Fernando Henrique Cardoso quando teve a oportunidade, a reação não foi a metade da causada pelas suas recentes declarações racistas e homofóbicas. Fobias por fobias, a FHCfobia extrema pareceu só um destempero enquanto as manifestadas agora chocaram todo o mundo. Mas o Bolsonaro é o mesmo, com o mesmo cargo. Talvez, antes, só não se tivesse prestado atenção.

O MUNDO SEM HUMANOS 5

Fim de uma era ELIANE CANTANHÊDE

Fim de uma era
ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

BRASÍLIA - Um quarto de século depois da morte morrida do regime de 1964, o governo conseguiu exorcizar mais um fantasma: as cerimônias e "ordens do dia" em que comandantes militares faziam a apologia do golpe, prolongando a agonia e constrangendo o poder civil.
O 31 de março de 2011 passou quase suavemente e ninguém soube, ninguém viu, ninguém deu bola. Sem frisson nos quartéis, tensão no Planalto, atenção da mídia. Muito menos crises como a que derrubou o primeiro ministro da Defesa do governo Lula. Foi-se o tempo.
Nelson Jobim vetou atos alusivos à data nas três Forças, o comandante do Exército repassou a ordem, a tropa bateu continência. E o general Augusto Heleno arquivou sua palestra sobre "a Contrarrevolução que salvou o Brasil".
Ficou aborrecido? Pode até ser, mas declarou: "Sou militar, respeito a disciplina e a hierarquia. O superior determinou, eu cumpri".
Heleno foi comandando no Haiti e na Amazônia, sempre defendendo suas ideias. Uma das mais polêmicas foi quanto à questão da segurança nacional na Raposa/Serra do Sol. Falou na dupla condição de militar e de expert em Amazônia. Causou mal-estar, mas foi ouvido.
Ele completa 12 anos de generalato junto com o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), José Elito, e ambos passaram para a reserva do Exército no dia 29 de março. Elito fica no cargo, que não é cativo de oficial da ativa, mas Heleno tem 45 dias a partir de então para costurar o pijama.
Não pense que vá se contentar em dormir o sono dos justos ou se integrar a esses clubes militares que fazem festinhas e entopem a internet com textos fora de tom e de época nos 31 de março. Heleno tem mais o que fazer -e o que dizer.
Em 2011, o Brasil vira mais uma página da sua história. Só falta a Comissão da Verdade, aberta a todos os lados para clarear o passado e mirar o futuro. Com a palavra e o voto, o Congresso Nacional.

Esquerda, política e cultura LUIZ SÉRGIO HENRIQUE


Esquerda, política e cultura
LUIZ SÉRGIO HENRIQUE
 O Estado de S.Paulo - 03/04/11

Não é de bom alvitre aceitar pelo valor de face o que um indivíduo ou mesmo toda uma época pensam de si mesmos. Feita a ressalva, consideremos juízos recentes da presidente da República sobre o legado recebido do seu antecessor. Segundo Dilma Rousseff, só levando em conta quatro orientações básicas se entenderia o País redesenhado a partir de 2003: manutenção do crescimento com estabilidade, redirecionamento social do gasto público, expansão do mercado interno e, last but not least, nova inscrição do País na ordem global, na qual, pela primeira vez, ele se moveria autonomamente em busca de alianças no sul do planeta.

Se o mundo fosse um mecanismo automático, tal conjunto de circunstâncias felizes haveria de acontecer em paralelo com uma efervescência cultural semelhante à de outros momentos de inflexão historicamente incontroversos.

Assim, retomando o raciocínio de outro prócer petista, os anos 1930 trouxeram não só a modernidade industrial, ainda que sob forma autoritária, mas também obras do porte das de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado Júnior. Depois, o período áureo do nacional-desenvolvimentismo, particularmente com JK, seria contemporâneo dos teóricos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), dos sociólogos da USP, da arquitetura de Niemeyer e da música de Tom Jobim. E nesta primeira década do século 21 não haveria nada comparável, em termos de reflexão sobre o Brasil, aos dois momentos decisivos mencionados.

O argumento tem fôlego, mas tem também pelo menos uma forma torta de tentar ser aceito por muitos, até pelos adversários, e se tornar mais ou menos consensual. A forma torta consistiria, obviamente, em se valer de recursos do Estado, em especial de seus órgãos de cultura, para uma experiência in vitro de animação intelectual em torno dos dois governos Lula e deste que lhe sucede. Mas, como também é óbvio, nada impede que instâncias como fundações partidárias ou encarregadas de preservar o legado de ex-presidentes promovam a tentativa legítima de influenciar os rumos da cultura e preparar, da forma que acharem melhor, suas novas florações.

Política e cultura ou, mais especificamente, esquerda e cultura - eis um tema extremamente rico em nosso país, no qual, a partir da década de 1920, um Partido Comunista, quase sempre tragicamente ilegal, exerceu gravitação maior ou menor, temporária ou mais constante, sobre gente como os citados Caio Prado e Niemeyer, como Drummond e Oswald de Andrade, Graciliano e Portinari, Jorge Amado e Ferreira Gullar.

Essa fatal clandestinidade, nos seus momentos ruins, significou espírito de seita e consequente empobrecimento político e cultural, mas, nas horas mais distendidas, ao menos fazia entrever abertura e mútua fecundação. E, o que me parece mais importante, acenava para uma espécie de reconciliação não conservadora com a cultura nacional e, em outro plano, com a ideia decisiva da democracia política.

Valha como signo daquela primeira reconciliação a profunda relação entre Astrojildo Pereira, um dos pais fundadores do PCB, em 1922, e o velho Machado de Assis, suposto autor elitista. Os céticos podem dizer que se trata de um belo exemplo anacrônico, mas cabe opor a esse ceticismo o último e esplêndido romance de Moacyr Scliar, Eu vos Abraço, Milhões, no qual aquela relação é um dos motivos centrais. E como signo da adesão democrática, a árdua defesa do caminho pacífico de resistência ao regime militar, em certo momento uma decisão solitária na esquerda, ainda não suficientemente compreendida em todo o seu largo alcance, muito além daquela conjuntura.

É num sentido próximo a esse, acredito, que o sociólogo Luiz Werneck Vianna interpretou a vitória de Lula em 2002 como uma espécie de absolvição da História brasileira. Narrativas da nossa História como sucessão de desgraças ou de arranjos pelo alto estavam entranhadas em parte da melhor tradição intelectual, e não só de esquerda, e também na ideologia do partido que então assumia o poder. Contudo, segundo o sociólogo, não podia ser inteiramente desventurado um país que, só 14 anos depois da promulgação de sua Carta mais democrática, permitia que um líder de origem sindical, figura central de um Partido dos Trabalhadores, alcançasse a condição de dirigente máximo de uma nova fase do seu trajeto histórico.

Esse fato de enorme significação demandava, e ainda demanda, uma revisão de fundo por parte do novo sujeito à frente do País por um período que, já agora, se estenderá por, no mínimo, 12 anos. Terminou definitivamente o tempo das bravatas, como, para ir à raiz do problema, o leguleio obreirista por ocasião da assinatura da Carta de 1988. Não faz sentido, como a crise de 2005 se encarregou de demonstrar, promover o uso distorcido das instituições, primeiro entre todas o Parlamento, cuja centralidade está assegurada em todas as modernas democracias. E chegou o tempo, também, de inventariar e arquivar as variadas formas de "patriotismo de partido", que vê rupturas imaginárias a partir do próprio surgimento, exagerando-as retoricamente até o ponto da caricatura: "Nunca antes neste país"...

Sociedade "ocidental" que somos, de vocação aberta e plural, nenhum ator conseguiria moldá-la a seu arbítrio. Na sua projeção externa, o País está fadado a impregnar a defesa dos seus interesses com a consigna fundamental dos direitos humanos, atuando em mais do que prováveis situações de colapso de autoritarismos de direita ou de esquerda. E, internamente, o desafio é combinar, de modo permanente, o programa social com o método da democracia. Quanto mais profunda a convicção do ator, mais coerente a sua ação - e mais produtivo o impacto sobre modos de fazer cultura, que por ora nem sequer pressentimos. Porque, no fundo, não importa a virtù do ator, o espírito sopra onde quer.

TRADUTOR E ENSAÍSTA, É UM DOS ORGANIZADORES DAS OBRAS DE GRAMSCI EM PORTUGUÊS

GOSTOSA

O PSD, críticas e crenças GILBERTO KASSAB

O PSD, críticas e crenças
GILBERTO KASSAB 

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Criar um novo partido, reunir companheiros em torno de princípios: esse é um desafio que eu tinha o direito e que tenho o dever de enfrentar


O mundo caiu na minha cabeça. Dizem que eu tenho cabeça dura, mas tenho, acima de tudo, convicção da minha decisão e do caminho a seguir. Criar um novo partido, reunir companheiros em torno de princípios e da crença em outra maneira de fazer política -esse é um desafio que eu tinha o direito e que tenho o dever de enfrentar.
Tenho 17 anos de vida pública. Fui de vereador a prefeito. Como os que já viveram os embates da linha de frente da política e da administração pública, enfrentei dificuldades, tive bons e maus momentos.
Aprendi muito. Os que agora nos unimos no PSD (a exclusividade da denominação depende do registro da sigla na Justiça Eleitoral) teremos humildade para continuar aprendendo e seremos fortes e perseverantes nessa empreitada.
Acreditamos que chegará o momento da tão esperada concentração partidária. Mas o PSD crê que a experiência pluripartidária brasileira ainda não se esgotou. Tem características próprias, é ainda um processo em andamento.
Com as grandes transformações políticas das últimas duas décadas (tão recentes!) vividas pelo Brasil e pelo mundo, o PSD tem consciência do espaço a ocupar e das bandeiras a defender. Nossa Constituição é de 88, há muitas reformas a fazer. Entre elas, a reforma política. O PSD acredita que a discussão dessa concentração partidária, por exemplo, está no cerne da reforma.
Nas últimas décadas, tivemos governantes que se esforçaram para o avanço democrático e social e para o desenvolvimento econômico. Não foram de direita nem de esquerda. Não se submeteram a rótulos, tampouco se renderam a recaídas autoritárias.
Deixando o DEM, estranham que eu torça pelo sucesso da presidente Dilma. Que reconheça as virtudes de José Serra. Que faça parcerias administrativas com Geraldo Alckmin. A luta partidária não é conflitante com a convivência administrativa. Esse espírito federativo é uma das nossas bandeiras.
O PSD será uma trincheira de onde vamos defender nossos sonhos. Acreditamos na democracia, na liberdade, no exercício legítimo das forças do mercado, na atuação de um Estado ativo e cumpridor de suas ações sociais. Na atuação dos movimentos populares que defendam interesses legítimos, que contribuam para o fortalecimento da cidadania. O PSD acredita num governo guardião da lei, distante dos radicalismos, cada vez mais próximo dos que mais precisam.
Temos instituições fortes, mas nem por isso imunes às transformações: a democracia carrega os genes da autoavaliação e do aperfeiçoamento. Temos atores vigilantes, como a mídia, cada vez mais conscientes do seu papel. Temos um Judiciário cada vez mais independente e defensor das normas constitucionais e republicanas.
O Legislativo, como em todo o mundo democrático, enfrenta ainda hoje um forte fogo cruzado. Já foi humilhado, constrangido, perseguido, cassado. Com seus defeitos e qualidades, assumiu compromissos e se expôs. A classe política sabe que tem um dever com os eleitores que representa.
O PSD crê no amadurecimento da política, na participação ativa e crítica da sociedade, na transparência da administração, no desenvolvimento sustentável e na convivência altiva com parceiros internacionais que respeitem os direitos e a dignidade de seus cidadãos.
Estou trabalhando muito como prefeito de São Paulo -e nunca será o bastante, dada a dimensão dos problemas da nossa capital. Farei mais, lutarei até o fim do mandato.
Contudo, neste momento em que lançamos o PSD, não é hora de falar dos feitos nem de ficar olhando para trás, mas, sim, de pensar no futuro. Com desprendimento, espírito público e amor pelo país que queremos construir.

GILBERTO KASSAB-engenheiro e economista, é prefeito da cidade de São Paulo. Foi secretário municipal de Planejamento (gestão Pitta).

CLÁUDIO HUMBERTO

“A gente é bom para dar ideias”
JOSÉ AMÉRICO NICCOLINI, HUMORISTA, NOMEADO PARA A ASSESSORIA DO DEPUTADO TIRIRICA

DEPRIMIDO, DUTRA DEVE DEIXAR PRESIDÊNCIA DO PT 
A presidente Dilma foi informada de que ex-senador José Eduardo Dutra, presidente do Partido dos Trabalhadores, não deseja reassumir. Ele foi internado com problemas de saúde, há duas semanas, e se licenciou da presidência do PT. Porém, mergulhado em nova crise depressiva, não pretende retomar o cargo, ocupado interinamente pelo vice-presidente, o paulista Rui Falcão, por quem Dilma sente ojeriza.

FALCÃO FORA 
Dilma vetou a presença de Rui Falcão na última reunião do conselho político do governo. E o PT teve de se virar para achar um substituto.

PIETÁ DENTRO 
O secretário-geral Eloi Pietá representou o PT no conselho político e será a cara do partido em eventos do governo. Rui Falcão, nunca mais.

USINA DE CRISES 
Dilma não quer Rui Falcão, que é ligado a Marta Suplicy, nem mesmo frequentando o Planalto. Acha que ele está na origem de várias crises.

TRAPALHÃO 
Para derrubar adversários internos, Rui Falcão teria vazado a suposta produção de dossiês contra José Serra, na campanha de Dilma.

MARTA SE ARRISCA EM POLÊMICA COM BOLSONARO 
Pode ser um novo tiro no pé a proposta da senadora Marta Suplicy (PT-SP) de pedir a cassação do deputado Jair Bolsonoro (PP-RJ), pelas infelizes declarações homofóbicas no programa CQC, da Band. Candidata derrotada à prefeitura paulistana em 2008, teve que retirar da campanha a pergunta se o rival, Gilberto Kassab, “era casado, tinha filhos”, após a enorme repercussão da insinuação preconceituosa.

CARISMA 
Oremos: ex-assessor da deputada Eliana Pedrosa (DEM-DF), Leandro Salles é o presidente do recém-criado Partido Carismático Social.

UM PARTO 
Líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros já acertou no governo os cargos de segundo escalão para o partido. Caso único na base aliada.

ESCAFEDEU 
O DEM estranha o sumiço de Jorge Bornhausen, que se juntou a Gilberto Kassab para derrubar Rodrigo Maia da presidência do partido.

DF: APOSENTADORIAS SUSPENSAS 
Mais de dez mil aposentados e pensionistas do governo do DF não atenderam às chamadas para recadastramento, por isso os proventos podem ser suspensos já no final de abril. O governo suspeita que pelo menos duzentos já morreram e “fantasmas” recebem no lugar deles.

CELEBRIDADES 
Entre as figuras ilustres que recebem aposentadorias do governo do DF estão o arquiteto Oscar Niemeyer e o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), pioneiro na cidade. Ambos se recadastraram.

CALA-BOCA, MINISTRO 
Dilma Rousseff detesta Alfredo Nascimento (Transportes). Na última reunião do conselho político, ela deu a palavra a ministros como Guido Mantega (Fazenda) e Alfredo tentou falar. O cala-boca foi duro e constrangedor: “Você, não. Você está aqui como presidente de partido, só isso”.

CAMARADA DILMA 
Diplomatas se divertem, nos preparativos da visita da presidente Dilma à China, lembrando que em Pequim ela se sentirá em casa, bem à vontade: o governo de lá é fechado, estilo burocrático, gelo afetivo.

A BRONCA VEM A GALOPE 
Dilma virou motivo de deboche, em Portugal, ao se revelar surpresa, durante entrevista, com a renúncia do primeiro-ministro, ocorrida uma semana antes. O chanceler Antonio Patriota, coitado, vai ouvir.

MORENO DE ANGOLA 
Qualquer dia baixa por aqui (de novo) o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, 32 anos no poder, beneficiado por Lula com empréstimos bilionários.
A Human Rights Watch denunciou prisões de opositores e fuga de partidários do regime para o Brasil e
Portugal.

A MAIOR BOMBA 
Os governadores da Bahia, Jacques Wagner (PT), e de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), arrefeceram o entusiasmo com a instalação de usinas nucleares em seus Estados. Riscaram o tema da pauta.

OPERÁRIO NO PARAÍSO
Lula viaja com três seguranças para Acapulco, semana que vem, para conferência em território amigo: a Associação dos Bancos do México. O único risco é a famosa “maldição de Montezuma”, o conhecido piriri.

ESCALADA 
O quiproquó de Bolsonaro lembra a tirada de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: “Pelo jeito, em breve o terceiro sexo estará em segundo”.

PODER SEM PUDOR 
JÓQUEI VALENTE 
Gaúcho com a faca na bota, o general e ex-governador Flores da Cunha achou, certa vez, numa corrida de cavalos, que o jóquei fora desonesto.
– Você roubou a corrida, seu safado!
– Ladrão é sua mãe! – reagiu o jóquei, para a perplexidade geral.
– Muito bem, você reagiu como homem – surpreendeu Flores da Cunha – Se outra tivesse sido sua resposta, confirmaria que era um canalha.
Cumprimentou o jóquei e foi embora.

BRAZIU: O PUTEIRO

DOMINGO NOS JORNAIS

O Globo: 100 dias- Dilma descumpre promessas mas distende o clima e ganha apoios

Folha de S. Paulo: China que investir na produção de soja do país

O Estado de S. Paulo: Gasto público no trimestre contraria discurso de Dilma

Correio Braziliense: Quando envelhecer é um castigo

Estado de Minas: Como vive Bruno

Jornal do Commercio: Timbú vence... Leão e Santa Festejam