quinta-feira, março 24, 2011

ALBERTO TAMER

Petróleo não pressiona inflação

ALBERTO TAMER
O Estado de São Paulo - 24/03/11


Essa é a conclusão da OCDE em projeções feitas sobre os efeitos do aumento dos preços do petróleo na inflação mundial, hoje oscilando em torno de 2,5%. O maior índice é da China, 5%. O estudo (oecd.org) leva em conta um preço de até US$150 neste ano e no próximo. Isso confirma projeções do Fed, banco central americano, para o qual as pressões inflacionárias não vêm do petróleo, mas se opõem a previsões pessimistas da maioria dos analistas e institutos de pesquisas.
Para a OCDE, com uma alta de US$ 25 dólares no preço do barril de petróleo, o PIB mundial poderia recuar 0,5% no próximo ano, e a inflação apenas 0,75%. Não é algo para se assustar mesmo porque o comércio internacional voltou a crescer e as tensões cambiais provocadas pela China estão sendo absorvidas. Resta a crise do yen japonês, mas os bancos centrais injetaram mais de US$ 25 bilhões na última semana para conter a sua desvalorização.
"Considerando o baixo nível atual de inflação e tendo em vista as expectativas, não deve ser preciso nenhuma ação monetária para reagir a alta dos preços (do petróleo)" afirma o estudo da OCDE.
Mas a alta do petróleo não irá influenciar os preços já elevados das demais commodities? Aqui, também aqui, a OCDE tem uma atitude conservadora. "A energia representa 33% do custo da produção de grãos (desde o plantio até o consumidor final)," diz o estudo. Mas não é essa a causa dos preços atuais das commodities. Os fatores decisivos são o aumento da demanda, principalmente dos países emergentes, e a queda de safras, agora também na China.
Petrobras acalma. O presidente da empresa, José Sérgio Gabrielle, não se cansa de dizer que não vai reajustar os preços dos derivados por causa da alta cotação do petróleo. Não será isso que irá pressionar a inflação no Brasil. Não se sabe se o Brent, referência do mercado, ficará estável na faixa de US$ 110 e US$115. "Tanto a crise no Norte da África quanto o acidente no Japão são elementos de curto prazo,"afirmou ele. Gabrielli não fecha a porta para eventuais aumentos dos derivados, mas nos níveis atuais isso não é preciso.
A empresa produziu no País 2 milhões de b/d a um custo médio de US$ 12 o barril, e 250 milhões b/d no exterior, com a produção de novos poços na Nigéria. Importa petróleo leve e derivados, mas, devido mesmo aos preços internacionais, que interna no país, a Petrobras é uma empresa altamente rentável. Ganha muito e, agora, após tantos anos, está investindo muito no pré-sal.
Um temor novo. O clima no mercado do petróleo era de cautela, com apenas 50% das operações normais e os preços chegando ao nível mais alto dos dois últimos anos e meio. Entre US$ 105 o leve e US$ 115 o Brent. Havia uma nova preocupação com o prolongamento da intervenção militar na Líbia. Não é mais a queda da produção de petróleo, mas a possibilidade de Kadafi danificar as instalações de petróleo das empresas principalmente europeias no país, incendiar poços e destruir portos.
Saddam Hussein incendiou os campos do Irã, nas duas guerras, e do Kuwait. Kadafi não é diferente. Se mostra cada vez mais furioso, e para punir seu povo e o Ocidente, pode cumprir a ameaça de por fogo no Mediterrâneo. Essa uma razão para que se intensifiquem os bombardeios e se inicie uma operação terrestre. A outra, é impedir que seus tanques e canhões continuem bombardeando civis nas cidades rebeldes, como vêm fazendo deste o inicio da crise.
Agora, o euro. O Brasil tem condições para conviver com as repercussões da tragédia no Japão e uma nova alta do preço do petróleo. Está preparado também para as novas tensões financeiras na Eurozona, agora em Portugal. Tem sido até mesmo beneficiado com o aumento de investimentos externos, que nos dois primeiros meses do ano superaram todo 2010. Tem um mercado interno que o sustenta e um sistema financeiro saudável. Desta vez, sim, as ondas de fora podem se transformar apenas em marolas. É só fazer o que já se vinha fazendo. Investir em produção e cuidar da inflação que preocupa, mas ainda não assusta.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Setor de perfumaria espera deficit de US$ 360 mi da entidade
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/03/11

A indústria brasileira de cosméticos e produtos de higiene, que passou oito anos com saldos positivos na balança comercial, espera um deficit de US$ 360 milhões neste ano.
Enquanto as exportações do setor crescem 20% ao ano, as importações alcançam 70%, segundo João Carlos Basilio, presidente da Abihpec (associação do setor).
Os primeiros sinais do duro cenário que deve se estabelecer em 2011 apareceram no ano passado. O setor registrou saldo negativo de aproximadamente US$ 3 milhões, em transações correntes de US$ 1,5 bilhão em 2010.
Os desodorantes estão na categoria de produtos que aprofundam a crise.
Sem competitividade no envasamento dos aerossóis, o país importa muito da Argentina, segundo Basílio.
Os componentes do frasco -tampas, válvulas, embalagens e álcool- acabam sendo importados na esteira.
"O gás deve ter a característica de ser inodoro. Com o aumento da produção de gás no Brasil, o governo começa a investir e o país terá refinarias para isso", diz.
A Liquigás Distribuidora, empresa do sistema Petrobras, informa que acaba de lançar um produto, chamado Purogas, para atender o mercado de gases propelentes para aerossóis.
Uma nova planta de purificação de gases foi construída e a primeira entrega ocorreu em fevereiro, diz a empresa.

SEGURO PAULISTANO
A Prudential do Brasil abrirá três agências em São Paulo no dia 1º de abril.
Com as inaugurações, a seguradora terá 15 agências e três escritórios comerciais nos cinco Estados em que atua: MG, PR, RJ, RS e SP.
A companhia, que começou a comercializar seguros de vida no país em 1998, já é a segunda em participação de mercado nesse ramo, na categoria individual, segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados).
"Nossos clientes são das classes A e B", afirma Lins.
A empresa tem plano para pessoas que apresentam uma das 13 doenças que classifica como grave, como câncer e esclerose múltipla.
Entre os serviços da Prudential está a possibilidade da antecipação do benefício para os segurados que estejam com doença em estágio terminal e expectativa de vida de até seis meses.
"A pessoa pode conseguir até aumentar o tempo de vida com o dinheiro para mais remédios e tratamentos."

Gelado 
A rede de "frozen" iogurte Yogofresh abrirá três lojas em São Paulo até abril. As novas unidades da empresa, que já possui outras seis na cidade, serão na av. Faria Lima, na rua da Consolação e no Jardim São Luís.

Patente 
O anti-inflamatório Toragesic, do laboratório brasileiro EMS, foi patenteado nos Estados Unidos. O certificado foi fornecido pelo United States Patent and Trademark Office, escritório americano para registros de marcas.

Software 

A Apdata lança no fim do mês uma ferramenta para diminuir os gastos com o setor de recursos humanos. O serviço será gratuito para clientes como Alcoa, Allianz e Sony. Para os demais, custará cerca de R$ 50 mil.

Ambiental 
Os prazos para obtenção de licença ambiental, assim como os seus possíveis aprimoramentos, serão discutidos em evento em Brasília, no dia 12 de abril, por representantes do governo, do Banco Mundial e de ONGs.

Direção 
A Recall Brasil, especializada em armazenamento de documentos, soluções digitais e proteção de dados, indicou o executivo Ricardo Guidorizzi como seu novo diretor-geral.

TIM-TIM
O Brasil comprou 979,6 mil garrafas de champanhe em 2010, o que representou aumento de 63,2% na comparação com o ano anterior, segundo o comitê profissional do vinho da região francesa de Champagne.
O Reino Unido foi o país que mais importou o produto, com 35,5 milhões de garrafas e crescimento de 16,3% em relação a 2009.
O segundo colocado foram os EUA, com 16,9 milhões de garrafas de champanhe.
A demanda chinesa foi a que mais aumentou no ano passado, 89,9%, ultrapassando a marca de 1 milhão de unidades da bebida.
As exportações de champanhe renderam 4,1 bilhões (cerca de R$ 9,6 bilhões) para a França em 2010. Foram comercializadas 319,5 milhões de garrafas para 196 países no período.

Lá e... 
Um acordo de turismo entre Nova York e São Paulo para promover os dois destinos será fechado no dia 29.

...cá 
O documento será anunciado por George Fertitta, presidente da NYC & Company (órgão oficial de turismo de Nova York), o presidente da São Paulo Turismo, Caio Carvalho, e Dilson Verçosa, da American Airlines.

Coque 
A L'Oréal Professionnel inaugura em julho seu primeiro instituto em SP. O centro de formação terá capacidade para 400 alunos. Os cursos, que vão durar entre três e seis meses, custarão, em média, R$ 300 por mês.

Lançado... 
Os dois primeiros iates fabricados pela italiana Azimut-Benetti em seu estaleiro no Brasil ficam prontos em abril. Cada unidade deve ser comercializada por R$ 2,5 milhões.

...ao mar 
A Azimut se instalou em agosto do ano passado em Santa Catarina, onde investirá R$ 200 milhões nos próximos cinco anos.

Peça 
O Grupo Lego faturou US$ 3 bilhões em 2010, crescimento de 36%. No Brasil, no ano em que a primeira loja da marca no país foi aberta, a expansão foi de 30%.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

CID HERACLITO DE QUEIROZ

Novo ataque à Lei de Responsabilidade Fiscal
CID HERACLITO DE QUEIROZ
O Estado de S.Paulo - 24/03/11

Em encontro com a presidente Dilma Rousseff, os governadores dos Estados nordestinos defenderam, segundo a imprensa, a modificação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a fim de alterar os limites estabelecidos para as despesas relativas a pessoal e, ainda, substituir o índice de atualização monetária - Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna, da Fundação Getúlio Vargas (IGP-DI, FGV) - das dívidas de Estados e municípios refinanciadas pela União.

A LRF (Lei Complementar n.º 101, de 2000) é, sem dúvida, um marco histórico nas finanças públicas do País, ao objetivar não só o saneamento financeiro da União, dos Estados e dos municípios, mas também a manutenção do equilíbrio das contas do Tesouro público, indispensável ao crescimento econômico e ao bem-estar social.

Responsabilidade fiscal é uma expressão-síntese que significa a gestão financeira e patrimonial das entidades públicas, nos três níveis de governo e nos três Poderes, com senso de responsabilidade e observância das disposições legais que previnem o déficit nas contas públicas, contêm o processo de endividamento e vedam a assunção de obrigações e encargos sem a correspondente fonte de receita ou a redução de despesa, de modo a assegurar a manutenção de finanças públicas equilibradas.

Com referência às despesas relativas a pessoal, os limites (artigos 18 a 23) são incontornáveis e já foram assimilados por boa parte dos Estados e dos grandes municípios. Cumpre a governadores e prefeitos o dever de reduzir a despesa pública, com medidas eficazes, que impliquem a redução de pessoal, tais como:

- Extinção, fusão ou temporária desativação de secretarias, autarquias, órgãos e unidades administrativas, com a exoneração dos titulares de cargos em comissão, o remanejamento do pessoal e dos equipamentos e a desocupação de salas e prédios;

- alienação de automóveis e outros veículos, equipamentos e materiais inservíveis;

- suspensão ou adiamento na execução de programas e atividades não essenciais ou supérfluos;

- desestatização de empresas, empreendimentos e atividades;

- arrendamento de centros de convenção, estádios e teatros;

- cessão de ginásios e outras instalações esportivas a universidades, colégios e clubes:

- concessão a empresas privadas de serviços públicos, como o transporte urbano, a coleta e destinação de lixo e a construção e manutenção de vias expressas, pontes e túneis;

- Transferência para entidades privadas dos encargos relativos a festejos e outros eventos e os de conservação e limpeza de parques, praças e praias, com a contrapartida publicitária, etc.

Já a questão concernente ao índice de atualização da dívida dos Estados e municípios refinanciada pela União, merece, realmente, solução, a qual, no entanto, independe de alteração da LRF, como já sustentamos em estudo para o então prefeito de São Paulo, José Serra.

Os contratos firmados entre a União, Estados e municípios, antes da entrada em vigor da LRF, constituem ampla novação, ou seja, objetiva (nova dívida), subjetiva passiva (substituição do devedor) e subjetiva ativa (substituição do credor). A União assumiu, perante os credores originários, as dívidas desses entes públicos e estes se obrigaram a pagar à União, em 360 prestações mensais, as dívidas por esta assumidas. Na forma do artigo 3.º, II, da Lei n.º 9.496/97 e do artigo 2.º, III, da Medida Provisória n.º 2.185-35/01, os Estados e municípios obrigaram-se a pagar as dívidas monetariamente atualizadas pela variação do IGP-DI da FGV ou por outro índice que vier a substituí-lo - logicamente, por acordo entre as partes - e juros nominais conforme taxas preestabelecidas.

Nos instrumentos contratuais, entretanto, foram acrescentadas duas condições não previstas na lei:

- A substituição do IGP-DI da FGV somente poderá ocorrer no caso da extinção desse índice;

- e a dívida não será monetariamente corrigida na hipótese de variação negativa do IGP-DI.

Por essa razão, os Estados e municípios têm o direito à rerratificação dos contratos, para correção desses dois pontos. O IGP-DI pode e deve ser substituído por índice mais adequado, tanto mais que a atualização da dívida refinanciada vem gerando valores muito superiores aos que decorrem do índice aplicado à dívida assumida pela União com os credores originários (basicamente, taxa Selic).

Ora, a ratio legis das disposições legais aplicáveis foi a de prescrever uma ajuda substancial aos Estados e municípios que se encontravam altamente endividados, nunca a de gerar ganhos financeiros para a União. Cumpre ao intérprete, na lição do mestre Carlos Maximiliano, "atribuir ao texto um sentido tal que resulte haver a lei regulado a espécie a favor e não em prejuízo de quem ela evidentemente visa a proteger".

Se, por absurdo, prevalecer uma interpretação literal restritiva das citadas normas, bastará ao governo editar uma medida provisória para ajustá-las ao bom senso.

É oportuno lembrar que as origens dos orçamentos públicos remontam à Magna Carta que os barões ingleses impuseram, na Idade Média (1215), ao despótico rei João sem Terra, a fim de conter as despesas da Coroa britânica, mediante a limitação à liberdade de o monarca, para custeá-las, lançar tributos indiscriminadamente. Desde então, "a história do Orçamento" - como observou o professor Alfred Buehler, da Universidade da Pensilvânia (EUA) - "é a história de séculos de lutas pelo controle popular do tesouro público".

Em boa hora a presidente Dilma rechaçou o novo ataque à Lei de Responsabilidade Fiscal, que é, sem dúvida, o principal instrumento legal de defesa do Tesouro público e de orçamentos equilibrados e exequíveis.

FOI PROCURADOR-GERAL DA FAZENDA NACIONAL, DEU FORMA JURÍDICA AO ANTEPROJETO DA LRF

BANCO

CELSO MING

Reservas, pra que te quero
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 24/03/11

Em seu depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tropeçou várias vezes na lógica ao defender a expansão das reservas externas, hoje de US$ 316,3 bilhões.
Tombini reconhece que "não existe na literatura (econômica) e na experiência internacional algo como nível ótimo de reservas". Mas as justifica, em primeiro lugar, como "colchão de segurança" contra crises.
Mas, se, em 2008, reservas de US$ 205 bilhões foram suficientes para enfrentar a maior crise desde os anos 30, é preciso encontrar outra justificativa não só para os níveis atuais, mas para que continuem aumentando.
Em seguida, argumenta que "o fluxo de capitais para o Brasil é mais intenso, em ambas as direções". E, com base nesse novo dado, avisa que "a perspectiva é de que o volume de reservas internacionais continue crescendo".
Não faz muito sentido. O fluxo de capitais ficou mais intenso para quase todos os países do mundo e, no entanto, poucos deles se sentem obrigados a amontoar reservas. Se a tendência é entrar mais capitais do que saem, como no Brasil, menos necessidade há - e não mais - de se fazer reservas, como parece sugerir Tombini.
Nenhum dos emergentes citados faz reservas por segurança, mas por terem de aplicar sua enorme sobra de dólares em conta corrente. O Brasil tem 15% do PIB em reservas, enquanto a China tem 49%; Hong Kong, 116%; e Cingapura, 105% (Veja o Confira). A partir daí, Tombini conclui que as reservas brasileiras têm de crescer para níveis equivalentes aos desses emergentes. Não faz sentido.
Um bom motivo para isso seria o de reduzir lá fora a percepção de risco. No entanto, o documento de Stephen Cecchetti, citado por Tombini, mostra que toda a zona do euro, atolada em dívidas como está, não detém mais do que 2% do seu PIB em reservas e não vê motivo especial para entrar nesse jogo.
O volume global de reservas externas em 2009 não passava de US$ 8,1 trilhões, ou seja, 15% do PIB do mundo. Reservas são títulos de dívida de outros países. Para que alguns ostentem montanhas de reservas, como o Brasil, outros têm de se afundar em dívidas. Nessas condições, o calote poderia ser inevitável e o risco passaria a ser de quem detivesse essas reservas.
Uma das propostas em estudo no G-20 para acabar com os enormes desequilíbrios da economia global é limitar o crescimento das reservas onde existem. Para os defensores dessa proposta, as reservas dos países emergentes têm de parar por aí, já que os ricos, com exceção do Japão (que detém 20% do PIB), as dispensam.
Tombini também argumenta que um bom nível de reservas reduz os prêmios de risco, ou seja, o custo do endividamento externo. Corretíssimo. O alto nível de reservas foi o argumento decisivo que garantiu o grau de investimento para o Brasil em 2007.
Tombini seria mais sincero se reconhecesse de uma vez duas coisas: (1) que o carregamento de reservas custa o olho da cara (mais de R$ 50 bilhões por ano, o equivalente aos cortes orçamentários anunciados pelo governo) e que essa despesa, por si só, deveria ser fator limitador do seu crescimento. E (2) que, hoje, a única razão pela qual o Banco Central amontoa reservas é evitar uma ainda maior valorização do real. Só que tem uma coisa: reservas atraem ainda mais dólares e a sua entrada em profusão (como agora) produz a indesejada valorização do real.

Investimento especulativo?
O governo suspeita de que certos investimentos estrangeiros entram apenas para ganhar com os juros altos pagos no Brasil. O problema é que controlar esse capital aumentaria o risco de faltar investimentos quando o País mais precisa deles. 

GUSTAVO LOYOLA


Contradições alimentam o pessimismo

GUSTAVO LOYOLA

VALOR ECONÔMICO - 24/03/11

Recém divulgada pesquisa de opinião realizada pela Datafolha indica que aumentou o pessimismo da população brasileira quanto à capacidade do governo para conter a inflação. Apenas 13% da população acredita que a inflação vai diminuir, percentual inferior aos 19% registrados na pesquisa de novembro último.

A mesma inclinação pessimista pode ser observada em métrica e amostra distintas, na pesquisa Focus realizada semanalmente pelo Banco Central. Enquanto que, em novembro último, a mediana das expectativas de inflação para os 12 meses à frente era de 5,15%, agora esse número é 5,36%, evidenciando igualmente a piora das expectativas dos analistas de inflação nos últimos quatro meses.

Cabe ao governo, e mais especificamente ao Banco Central, com as políticas adequadas, frustrar tal onda de pessimismo o mais cedo possível, com o declínio da inflação nos próximos meses e rápida convergência para o centro da meta. Afinal de contas, num país em que apenas 13% de sua população crê na queda da inflação no futuro, os riscos de inercialização da inflação se mantêm elevados, o que, se acontecer, fatalmente gerar efeitos perversos de longo prazo sobre o crescimento e o emprego.

A tríade que sustenta a estabilidade da economia nos últimos dez anos vem sofrendo graves e continuados atentados, principalmente no que concerne à política fiscal e à política cambial. Nas finanças públicas, com o pretexto de políticas contracíclicas, houve forte queda dos superávits primários, redução da transparência na contabilidade fiscal e expressivo aumento dos repasses de recursos do Tesouro a entidades públicas, notadamente Petrobras e BNDES.

Por outro lado, o câmbio se tornou cada vez menos flutuante, como resultado das medidas administrativas de controle adotadas pelo governo e da intervenção continuada do Banco Central no mercado. Mesmo na política monetária, último bastião da estabilidade, a coordenação das expectativas tornou-se mais complicada a partir de meados do ano passado, quando o BC passou a ser percebido pelos agentes de mercado como mais disposto a aceitar riscos inflacionários no curto prazo.

Com a posse da presidente Dilma, expectativas positivas foram criadas na seara fiscal, como o anúncio do corte de R$ 50 bilhões dos gastos e o reajuste apenas pela inflação do salário mínimo. Essas medidas foram corretamente percebidas como indicação da reversão na trajetória de deterioração proposital das contas públicas, acelerada depois da crise de setembro de 2008. Por sua vez, a escolha de Alexandre Tombini para a presidência do Banco Central sinalizou a manutenção da autonomia operacional da instituição e a aderência ao regime de metas para inflação.

Entretanto, as contradições e extravagâncias em algumas manifestações de autoridades do governo federal continuaram alimentando dúvidas sobre o seu real empenho na busca do objetivo de controlar a inflação em 2011, muito embora a presidente da República tenha sido enfática em sua recente entrevista ao Valor, na qual afirma que não permitirá, em nenhuma circunstância, a volta da inflação no Brasil.

Outra tese exótica que grassa no governo é a de que o melhor ataque à inflação vem do aumento da oferta

De fato, aqui e acolá, tornaram-se frequentes declarações de autoridades minimizando o risco inflacionário e insistindo na tese de que a recente aceleração dos preços se deve majoritariamente a um fenômeno temporário de oferta e não ao aquecimento excessivo da demanda. Outra tese favorita (e exótica) que grassa no governo é a de que o melhor ataque à inflação vem do aumento da oferta. Como exemplo, o ministro da Fazenda recentemente chegou ao extremo de declarar que "o BNDES não pressiona a inflação, uma vez que investimento permite maior oferta de produtos na economia". E ainda arrematou que "o problema inflacionário é do lado do consumo e não do investimento (sic)".

Aliadas à ideia equivocada de que medidas macroprudenciais são mais eficazes para conter a inflação do que a elevação dos juros, essas crenças indicam, no mínimo, uma forte "torcida" para que o BC contenha o aumento da taxa Selic, o que torna ainda mais complicada a tarefa dos membros do Copom nos próximos meses. Numa perspectiva mais pessimista, tais manifestações são pressões diretas sobre o BC, o que configuraria um retrocesso flagrante comparado à situação nos governos FHC e Lula, quando a instituição operou com autonomia.

Os próximos meses serão cruciais para a contenção da inflação e do crescente pessimismo e caberá ao BC a maior responsabilidade nesse processo. O papel da autoridade monetária é sempre o de assegurar a estabilidade da moeda para permitir crescimento sustentado, mesmo quando isso implicar em sacrifícios no curto prazo decorrentes do aumento da taxa de juros. Medidas macroprudenciais como recolhimentos compulsórios - embora justificáveis em certos casos- não são um bom substituto para a elevação dos juros, quando se trata de restringir a demanda agregada, notadamente no Brasil, onde proliferam medidas "macroimprudenciais" como a expansão desmesurada dos desembolsos do BNDES turbinada com recursos do Tesouro.

Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, foi presidente do Banco Central e é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Quem se habilita?
SONIA RACY

O ESTADO DE SÃO PAULO - 24/03/11
Fred Hochberg volta ao Brasil no fim de abril para participar de seminário na Fiesp. Na turma de Obama, o presidente do Eximbank passou pelo Brasil colocando à disposição novos US$ 2 bilhões em financiamentos. Retorna para analisar onde o banco pode investir. "Obama mandou ele abrir o talão de cheques", explica Roberto Giannetti da Fonseca, da Fiesp.

O fato é que o Brasil, dos nove países considerados prioritários para o banco, é o que menos recursos toma da instituição. Explicação? "Vai ver que o BNDES é melhor que o Eximbank", arrisca Giannetti.

Non grata
Toda movimentação em torno da Usiminas, quem sai, quem fica, tem também um objetivo além do comercial. Barrar a chegada de Benjamin Steinbruch na empresa. "Ele está querendo entrar pela porta dos fundos", aponta alta fonte envolvida no processo.

Como? Comprando ações diretamente no mercado.

Cadeira quente
Não se fala em outra coisa no mercado financeiro a não ser na troca de comando na Vale. Luciano Coutinho e Antonio Maciel encabeçando a lista.

Estresse

Zé Eduardo Dutra está fora do ar. Com quadro de hipertensão, pediu afastamento de 15 dias da presidência do PT. Será substituído interinamente por Rui Falcão.

Estresse 2
E sem poder comparecer à última reunião da executiva do partido, semana passada, pediu para retirar da pauta assunto primordial: eleições municipais de 2012. A discussão ficou para abril.

Mommie dearest
Adriane Galisteu levará Vittório, seu filho, às passarelas. Desfila com o pequeno pela PUC na Fashion Weekend Kids.

Generosidade
Nelson Mandela bateu o martelo. Sua fundação assinou acordo com o Google para a digitalização de notas, cartas e diários escritos pelo sul-africano durante os 27 anos em que ficou preso.

Troca-troca
Sandra de Sá ataca de atriz. Atua, no lugar de Solange Couto, na peça Gimba, dirigida por Silvio Guindane. Além da cantora, o diretor escolheu Cíntia Rosa para substituir Taís Araújo. Estreia? Em maio.

Inesperado

No percurso da viagem até a China, no mês que vem, Dilma fará pit stop em Sófia, capital da Bulgária.

Fuuuuuhhh

Zé Aníbal anda inspirado. Saiu-se com "a Europa será o grande ventilador natural do mundo", ao saber que europeus instalaram aerogeradores de energia eólica no mar. Em encontro com missão alemã na Secretaria de Energia.

Eu voltei
Daniel Filho, depois de produzir e dirigir para o cinema, volta a atuar na TV. No papel de Salomão Hayala, no remake de O Astro.

Curiosidade: Daniel foi o diretor da novela original em 1977.

Tô voltando
Ute Lemper remarcou a data do show que fará em São Paulo: 3 de junho. E já está negociando dar uma master class para brasileiros interessados em soltar a voz.

"Ser ético sai caro"
Em São Paulo para lançar sua coleção na C&A, Stella McCartney falou à coluna. Filha de Paul McCartney, estilista de Madonna e Gwyneth Paltrow, a moça é conhecida pela defesa dos direitos dos animais. Não apenas milita contra o uso de couro, peles e lãs em suas coleções, como faz questão de usar materiais orgânicos e recicláveis. Abaixo, trechos da conversa:

O corpo das brasileiras exigiu adaptações?

Escolhemos uma brasileira para o molde. E ajustamos a modelagem para corpos mais curvilíneos. Adorei trabalhar para a mulher brasileira, que considero bonita, afetiva e sensual.

Você foi pioneira na militância contra o uso do couro nos desfiles. Qual é a importância disso?


Fui criada com dieta vegetariana e embasamento ético. Seria muito hipócrita não comer animais e matá-los para fazer roupas, sapatos e bolsas. Quando comecei minha carreira, tinha isso muito claro. A indústria da moda mata quase 15 milhões de animais por ano, gerando grande impacto ambiental. Acho difícil entender o porquê de se usar peles exóticas, como a de crocodilo. Nem o animal se come! Isso está fora de moda. A nossa indústria é cruel com o planeta, mas ainda acredito que as coisas possam mudar.

Sua militância se estende ao uso de materiais orgânicos e recicláveis. Isso é viável economicamente?


Definitivamente, é mais caro ser ético. O que percebo é que, muitas vezes, tomam-se decisões pensando só em dinheiro e lucro. Não sou perfeita, mas se eu puder fazer camiseta orgânica tão bonita quanto a normal, eu farei. A dificuldade é explicar ao cliente a razão de às vezes um produto sair mais caro.

Como britânica, o que pensa sobre a monarquia e a futura princesa Kate Middleton?

Não falo publicamente sobre minhas posições políticas ou sobre a realeza britânica. Mas estou feliz pelos dois. E espero que sejam muito felizes.

Você acha que ela é elegante, veste-se corretamente?

Para a posição dela, sim, considero-a correta.

E o que pensa sobre a demissão de John Galliano, depois de ter feito declarações consideradas antissemitas?

Não gostaria de falar sobre isso. É muito triste para todo mundo. / MARILIA NEUSTEIN

Na frente


Daniela Mercury, Fafá de Belém, Christiane Torloni, Bruna Lombardi e Victor Fasano são alguns dos nomes confirmados no Fórum Mundial de Sustentabilidade. Começa hoje, em Manaus.

Zé Eduardo Cardozo ganha jantar-homenagem. Amanhã, na casa do jurista Fábio Ulhoa Coelho.

Hilal Sami Hilal e Dawit L. Petros terão obras expostas na Galeria Marilia Razuk. Hoje. E Oscar Oiwa abre exposição na Thomas Cohn. Já a Casa 8 inicia seu leilão.

CARLOS EDUARDO DE FREITAS E FELIPE OHANA

O descrédito das contas fiscais
CARLOS EDUARDO DE FREITAS  E  FELIPE OHANA
VALOR ECONÔMICO - 24/03/11
A gestão dos Restos a Pagar também foi deturpada.

Tem sido alvo de críticas a gestão criativa aplicada às finanças públicas federais. Mais especificamente, a compra de ações da Petrobras pelo governo federal, tendo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como intermediário, o que serviu para encobrir despesas fiscais no valor de R$ 25 bilhões.

Esse estratagema não tem sido o único na deturpação do sentido econômico das contas públicas. A gestão dos Restos a Pagar tem tornado ilegíveis os valores de déficit e superávit.

As ações de governo não pagas no exercício são registradas para serem pagas em anos posteriores. Por isso, a denominação de Restos a Pagar. Deve se esclarecer que os pagamentos são efetuados com os recursos arrecadados no exercício fiscal em curso.

Um exemplo do problema. No caso de ações orçamentárias executadas em 2011, que não venham a ser pagas, dois eventos simultâneos ocorrem. Todos os efeitos macroeconômicos se desenvolvem. E tudo terá sido financiado pelos fornecedores, com capital próprio ou de terceiros.

Em 2010, as despesas voluntárias empenhadas totalizaram R$ 186,5 bilhões (5,1% do PIB). Se esse montante viesse a ser integralmente registrado como Restos a Pagar, nenhum pagamento seria feito. Como o Tesouro Nacional só registra despesas que tenham passado no "caixa", os 5,1% do PIB seriam considerados como poupança primária. Ou seja, ajudariam a encorpar o superávit primário, por ausência de despesa. Segundo, os Restos a Pagar - também denominados Dívida Flutuante -, no valor de R$ 186,5 bilhões, deveriam ser captados pelos registros que compõem o cálculo do déficit, na qualidade de novo passivo público federal. Se assim fosse, o cálculo do primário feito pelo Banco Central (abaixo da linha) apontaria a elevação da dívida em 5,1 pontos de percentagem do PIB, corrigindo as contas de "caixa" feitas pelo Tesouro.

Mas isso não ocorre. Parte dos Restos a Pagar é, de fato, registrada como dívida no balanço patrimonial da União (os classificados como "não processados" não são, sequer, dívida). Contudo, Restos a Pagar não caracterizam dívida financeira e, portanto, não são captados no cálculo do déficit. Consequência: pressão de demanda, associada a possíveis tensões inflacionárias, sem que as estatísticas fiscais indiquem as causas do fenômeno.

A tabela mostra a evolução dos saldos de Restos a Pagar ao final de cada ano, de 2006 a 2010. Variações positivas indicam aumento da dívida flutuante e, portanto, déficit primário adicional a ser acrescentado ao valor calculado pelo Governo.

Pelo andar das coisas pode-se substituir o ditado: não será a curiosidade a matar o gato, mas a esperteza

A consequência prática do não reconhecimento das variações da dívida flutuante na apuração dos resultados fiscais do Governo Central tem sido a superestimação de superávits primários, que é o que parece vir ocorrendo desde 2007 com os aumentos recorrentes dos saldos de Restos a Pagar. Em média os superávits primários registrados pelo Banco Central teriam sido 0,7 pontos percentuais do PIB superiores aos respectivos valores efetivos se computadas as variações da dívida flutuante. Os saldos são brutos (valores processados e não processados). Por isso, seria necessária investigação detalhada para isolar-se aquilo que de fato tem características genuínas de dívida flutuante. Em suma, nossos números de dívida flutuante estão superestimados. Isto, entretanto, não invalida o exercício, que evidencia a crescente opacidade das estatísticas fiscais e a dificuldade de sua interpretação.

O outro problema se refere ao "orçamento paralelo" que emerge de Restos a Pagar vultosos, uma vez que a sua liquidação financeira se faz com a arrecadação do exercício em que são efetivamente pagos. Um valor é aprovado no orçamento de 2011. Entretanto, a tabela mostra que há R$ 128,7 bilhões de saldo de Restos a Pagar que potencialmente podem vir a ser pagos ao longo de 2011, ou pelo menos uma parcela deles. Não há regras objetivas a serem atendidas, mas certamente parte dos recursos arrecadados em 2011 custeará uma fração daqueles R$ 128,7 bilhões, que não se sabe qual é; a execução orçamentária de 2011 por sua vez postergará para exercícios subsequentes o pagamento de ações de 2011.

Deve-se mencionar que a média anual dos valores efetivamente pagos nos últimos quatro exercícios alcançou o montante não desprezível de 1,33% do PIB.

Conclui-se com uma preocupação. A "criatividade" na gestão das contas públicas oblitera o significado econômico dos resultados fiscais. Pelo desenrolar da modernidade, pode-se substituir o ditado: não será a curiosidade a matar o gato, mas a esperteza.

Carlos Eduardo de Freitas e Felipe Ohana são economistas

TARTARUGA

TELMA ZOM

A preferência pela USP
TELMA ZOM

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/03/11

Considerar que a desistência de matrícula de alunos resulta do desprestígio da USP é hipótese indevida para uma instituição que tem reconhecido mérito

A USP, por meio de parâmetros universalmente reconhecidos, consolidou sua liderança entre as universidades brasileiras e da América Latina. Cumpre com excelência seu papel de universidade pública mantida pela sociedade. Esse reconhecimento decorre de trabalho permanente de reflexão, avaliação e renovação.
O número crescente de candidatos que não se matriculam na USP aponta para questão atual e importante: a expansão de vagas no ensino superior e a porcentagem daquelas que não são ocupadas.
Antes de qualquer análise, é necessário apresentar os dados corretos. Os números da Fuvest, divulgados pela imprensa, referem-se ao total de candidatos convocados para 2ª chamada, que incluem aqueles com ensino médio incompleto e que, portanto, não podem efetuar matrícula. Incluem também os remanejados para opção de curso de maior preferência, manifestada no processo de inscrição.
Esses candidatos remanejados e presentes na 2ª chamada também constam da 1ª chamada. É fato que eles não desistiram da matrícula na USP. A interpretação desses números feita até então não é precisa, e as conclusões são incorretas.
Dos 2.562 nomes constantes na 2ª chamada, 2.221 são candidatos que não se matricularam na 1ª chamada, sendo que, destes, 479 com ensino médio incompleto.
Assim, 1.742 candidatos, com ensino médio completo, não efetuaram matrícula após a 1ª chamada, o que resulta em 16,35% do total de vagas (e não 24,1%, como divulgado), os quais, por razões diversas, não efetuaram matrícula na melhor universidade do Brasil. O exame correto dos dados mostra que houve, de fato, aumento de 4,39 pontos percentuais em relação a 2010.
Os candidatos competem em vários vestibulares. É natural que o aprovado em mais de uma das boas universidades do Estado possa considerar para sua escolha, além do modelo acadêmico de cada universidade, fatores econômicos, familiares e geográficos.
Considerar que a desistência de matrícula resulta do desprestígio da USP é hipótese indevida para instituição de reconhecido mérito pela qualidade do ensino de graduação e pós-graduação, da formação de docentes e pela contribuição na construção do conhecimento.
A complexidade dos fatores nos obriga a realizar uma profunda anamnese, que dê informações precisas sobre as causas do fenômeno.
Está em andamento consulta direta àqueles que não se matricularam. Já se sabe, entretanto, que a multiplicação de vagas nas universidades federais e privadas e os programas instituídos pelo MEC propiciaram outras opções para os candidatos e promoveram a descentralização do ensino. É notória a relação inversa entre o aumento da oferta de bolsas do ProUni e o número de inscritos na USP.
A universidade não deve se apartar das transformações do meio externo e dos programas de desenvolvimento do país. Na última década, a USP contribuiu com a expansão do ensino superior, ao ampliar em 48,46% o número de vagas. Novas carreiras foram criadas e devem ser constantemente avaliadas.
Nesse sentido, a pró-reitoria de graduação elaborou o documento "Diretrizes para a Criação de Novos Cursos"", aprovado no Conselho Universitário em 2010, que convoca à reflexão sobre ampliação de vagas e criação de novos cursos.
O processo de expansão deve ser indissociável da análise crítica e, portanto, o documento prevê reavaliação de todos os cursos pelas unidades que os oferecem, em termos de atualidade com as demandas sociais e da sincronia entre as tendências científicas na área e o mercado de trabalho.
Cabe à USP preservar sua liderança acadêmica, ampliando, com qualidade, todas as suas atividades, o que é seu compromisso primordial com a sociedade.

*TELMA ZORN é pró-reitora de graduação da USP.

ELIANE CANTANHÊDE

Gol de Fux
ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/03/11

BRASÍLIA - A votação de ontem no Supremo Tribunal Federal é um alívio, ao mostrar que o Fla-Flu na mais alta corte do país acabou e da melhor forma: com a vitória da lei, da experiência e da técnica jurídica sobre o apelo fácil da demagogia.
Ninguém que não tenha rabo preso nem dívidas na polícia e na Justiça pode ser contra a Lei da Ficha Limpa. Eu, tu e nós (nem sempre eles) somos a favor de moralidade na vida pública e exclusão dos piores quadros e dos mais lamentáveis exemplos de homens públicos. A questão, porém, é que juízes não julgam pela impressão ou pela simples vontade, mas friamente com base no que está escrito nas leis vigentes e na Constituição.
Luiz Fux, que veio para desempatar, elogiou o princípio da lei, como todos nós elogiamos, mas votou de acordo com a Constituição: a Lei da Ficha Limpa foi sancionada em junho do ano eleitoral de 2010 e, portanto, só pode valer para as próximas eleições -a de 2012, municipal, e a de 2014, geral.
Dói? Dói, mas doeria mais se Fux jogasse às favas os escrúpulos de consciência e a letra da lei em favor dos aplausos e dos elogios. Para "ficar bem" com a opinião pública.
A Ficha Limpa, para ele, é "a lei do futuro, a aspiração legítima da sociedade brasileira". Mas, igualmente, deve ser aspiração da sociedade brasileira o Estado democrático de Direito regido de fato pelo direito, não ao sabor do clamor popular e do aplauso fácil.
Que, assim como Fux teve a coragem de enfrentar as câmeras e as críticas, a Justiça brasileira a tenha também para perseguir uma sociedade mais justa, em que a lei valha efetivamente para todos. Haverá então um dia em que lei, realidade e aspirações legítimas da sociedade andem, enfim, juntas. Vai demorar? Vai. Mas devagar e sempre.
Comemorem "fichas-sujas" do PT, do PSDB, do PP, do PSB. Sem esquecer de que o Brasil avança e que quem ri por último ri melhor.

GOSTOSA

LUÍS FERNANDO VERISSIMO

O porrete
LUÍS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 24/03/11

“Fale suavemente mas carregue um porrete” era a receita do presidente (1901 a 1909) americano Theodore Roosevelt para o sucesso na política externa. Barack Obama fala suavemente, como se viu na sua visita recente ao Brasil, mas não descartou o porrete como arma política que herdou dos seus antecessores, apesar de tê-lo criticado para se eleger. Tudo se repete na Líbia, a começar pela hipocrisia da indignação seletiva: alguns tiranos antes tolerados, quando não abertamente apoiados como o Saddam, passam a ser inaceitáveis e atacáveis enquanto o porrete poupa outros, que ainda servem. Depois virão as baixas civis denunciadas por um lado e negadas pelo outro, as fotos de crianças mutiladas, as discussões sobre a eficiência ou não dos ataques aéreos “cirúrgicos”, etc. E teremos mais um exemplo dessa contribuição moderna às táticas de guerra, a estranha doutrina do bombardeio humanitário.
TESES CHOCANTES
Cristopher Hitchens e Alexander Cockburn se alternavam numa página da revista americana The Nation, uma semana um, uma semana outro. Até que Hitchens surpreendeu leitores e editores da Nation com sua posição a favor da intervenção americana no Iraque, uma posição que até hoje ele é obrigado a defender da perplexidade geral quando se apresenta em público. A revista não o demitiu mas Hitchens acabou pedindo para sair. Ficou Cockburn, que continua, apesar de também destoar da linha da revista, no seu caso sendo às vezes até mais radicalmente esquerdista do que ela. Mas Cockburn também teve seu momento Hitchens, expondo uma opinião inesperada que chocou todo o mundo. Sua tese é que toda a questão ambiental, do aquecimento global e dos males do combustível fóssil é na verdade uma campanha da indústria nuclear, que quer nos assustar para monopolizar o fornecimento de energia no planeta. Segundo Cockburn o mundo não está esquentando, os polos não estão derretendo, os rios não estão morrendo, há petróleo de sobra para mais alguns milhares de anos e quando o petróleo acabar teremos o etanol e outras fontes naturais renováveis. E o vento. E a energia solar.
Cockburn é um jornalista respeitado. Suas posições progressistas o credenciam para os leitores da Nation que, no entanto, na sua provável totalidade, não tem dúvida sobre os estragos da poluição ambiental negados por Cockburn. É previsível que as cartas de leitores incrédulos atacando Cockburn diminuam depois das notícias do desastre ecológico na usina nuclear de Fukushima, mas ele não vai conseguir convencer muita gente. E será interessante ver o que Cockburn escreverá sobre Ann Coultern, a boneca loira do reacionarismo americano, que há dias propôs na TV outra tese chocante, a de que a radioatividade faz
bem às pessoas.

CLÁUDIO HUMBERTO

“O melhor dos direitos não pode ser aplicado contra a Constituição”
Ministro Luiz Fux, para quem a Lei Ficha Limpa não poderia ter sido aplicada em 2010

Kassab se apossa das iniciais JK e registra site 
O prefeito de São Paulo agora é “Jilberto Kassab”. Ele registrou na internet o domínio www.JK.org.br, tentando se apossar da imagem positiva do ex-presidente do Brasil, que foi do PSD, sigla da “nova” agremiação que GK fundou, o Partido Social Democrático. O site está em nome de uma Comissão Provisória Estadual do seu ex-partido, o DEM, mas o prefeito aparece como o “responsável” pelo domínio.

Briga judicial 
A família do ex-presidente Juscelino Kubitschek ficou injuriada com a iniciativa de Kassab, e considera recorrer à Justiça contra ele.

Conta outra 
Não, não é piada de português o título de “doutor honoris causa” que Lula receberá na Universidade de Coimbra.

A pé, não mais 
O Exército gastou 34 milhões para adquirir 133 caminhões Man, 4x4, para transporte de tropa, ao custo unitário de R$ 256 mil.

Mala extraviada 
O porralouca da Venezuela, Hugo Chávez, deve baixar no Brasil neste domingo (27), apesar de aconselhado pelo Itamaraty a vir só em abril.

Agnelli resiste, mas Vale terá outro presidente 
O chamado “mercado” e os acionistas já absorveram a demissão de Roger Agnelli da presidência da Vale/SA. Ele tem espalhado que a oscilação das ações da empresa na bolsa decorre das notícias sobre sua iminente demissão. Não é bem isso. Segundo especialistas, o que provoca a instabilidade é a incerteza sobre quem será o seu substituto. Inconformado, Agnelli não parece disposto a entregar a rapadura.

Colo da ‘mãe’ 
Dilma cochichou ao pé do ouvido de Roger Agnelli, que estava muito aborrecido após o almoço com Obama. Pareceu afago, mas não era.

Detector de metais 
O Ex-Im Bank, dos EUA, vai emprestar US$ 1 bilhão para projetos de infraestrutura da Copa no Rio. O problema é que vigiam.
E cobram.

Acha pouco? 
Se a Copa de 2014 e Olimpíadas paralisam (de medo?) governantes, vêm aí em 2017 os Jogos Universitários Mundiais, no Rio de Janeiro.

Advogado do diabo 
Em evento no Ministério Público do Rio Grande do Sul, o “peremptório” governador Tarso Genro (PT) disse que o STF decidiu “ilegalmente” contra o terrorista Cesare Battisti e, de novo, atacou a imprensa. 

Balança, Obama 
O Brasil continua dando mais do que recebe: importou 200 milhões de litros de etanol anidro para suprir 90% do mercado interno, diz o site americano especializado Icis. “Nunca vi isso”, afirma um produtor. 

Teoria da conspiração 
O blogueiro Ricardo Gama levou três tiros, num suposto assalto ontem de manhã, em Copacabana. Ele virou hit na internet por flagrar Lula e o governador Sérgio Cabral xingando um menino, na campanha de 2010.

Os profissionais 
O senador Tião Viana (PT-AC) acertou na briga com José Sarney, dizendo que “dossiê é coisa de profissional”. Os dossiês petistas contra FHC, José Serra, Geraldo
Alckmin etc, foram fiascos dignos do inspetor Clouseau. 

Na boca do Lupi 
A Câmara dos Deputados aprovou requerimento do deputado Augusto Coutinho (DEM-PE) para o ministro Carlos Lupi explicar a denúncia de que o ministério do Trabalho beneficia ONGs processadas na Justiça.

Mau começo 
O novo presidente da Infraero, Gustavo Vale, que assume nesta quinta, cedeu à tentação festeira dos bajuladores da estatal e marcou a posse para o aeroporto de Brasília – como se os passageiros necessitem de mais esse tipo de coisa para atrapalhar suas vidas.

Mais do mesmo 
A Câmara de Teresópolis (RJ) ignorou seis mil assinaturas pedindo abertura de CPI, para investigar supostas fraudes do prefeito petista Jorge Mário. O município ainda sofre com a mortal enchente de janeiro. 

Voando alto 
É um sucesso a agência Promotional Travel: em fevereiro venceu contrato de R$ 11,5 milhões no 1º Comando Naval, e prorrogou o de R$ 15 milhões com a Anac, para fornecer passagens aéreas. Faturou R$ 13,3 milhões com a Eletrobras e R$ 495 mil com a Uerj,
em 2010.

Pensando bem... 
como provocou um leitor, só pode ser “flolcoris causa” o título que Lula receberá em Coimbra. 

PODER SEM PUDOR
Lula de sobremesa 
Após um lanche na Câmara dos Deputados, certo dia, o deputado Alberto Fraga (DEM-DF) pediu a sobremesa:
– Traga um governo Lula.
O garçom não entendeu, depois arriscou, com ar de esperteza:
– O senhor quer dizer “uma cachaça”?
– Não, rapaz, quero “governo Lula”: um abacaxi!
Foi atendido. E estava azedo.

INFLAÇÃO

QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Novo ministro surpreende e joga Ficha Limpa para 2012
Folha: STF anula Ficha Limpa nas eleições de 2010
Estadão: Ficha Limpa só vale a partir de 2012
Correio: Sujou
Valor: Greves de 80 mil param principais obras do PAC
Estado de Minas: Sujou!
Jornal do Commercio: Fichas-sujas de volta
Zero Hora: Guinada na Ficha Limpa muda o quadro eleitoral