domingo, março 20, 2011

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Vivendo de brisa
 JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 20/03/11


Penso em aproveitar minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos 

Costuma-se pensar que artistas de modo geral, inclusive os escritores, são ricos. Volta e meia sai uma reportagem que diz quanto um astro de TV famoso ganha e daí se difunde a crença de que artista é rico, quando, na verdade, matar cachorro a grito é atividade das mais exercidas pela maioria deles, mundialmente. Os escritores aparecem em notícias sobre como um romancista antes desconhecido vendeu para Hollywood, por zilhões de dólares, seu premiado best-seller. Ai de nós - escritor, quando é pago, recebe entre cinco e doze por cento do preço final do livro. E, não só aqui como no mundo todo, se vira em jornalismo, no ensino, na publicidade e em outros campos, já que de livro mesmo poucos conseguem sobreviver e ainda menos ficar ricos. 
Paralelamente, cultiva-se como bela a imagem do artista faminto e penurioso, agasalhando-se do inverno com um casaco puído e esburacado pelas traças, afogando-se em álcool e desprezado por uma musa tão formosa quanto ingrata. Antigamente ele com frequência ficava tuberculoso e morria esquecido, num asilo para indigentes. Para o artista, esse ser privilegiado e superior, não são importantes as preocupações materiais e querer ganhar dinheiro com o que faz beira o sacrilégio, além de mercantilizar odiosamente o talento. 
Se é verdade que a maior parte dos artistas é apenas remediada e olhe lá, a batalha por dinheiro sempre foi a regra e não a exceção. A lista é infindável. Balzac, Dickens e Dostoievski, por exemplo, passaram a vida disputando uns trocados e há quem diga que os dois primeiros morreram de trabalhar. A arte da Renascença era toda feita de encomenda. Os dramaturgos gregos escreviam suas peças para ganhar concursos, em meio a generalizada baixaria, como a difamação ou a ridicularização de concorrentes. Mozart era empregado da cozinha imperial e recebia encomendas do tipo "quero um concerto para piano e orquestra daqui a duas semanas e não me venha com repetições". Bach escreveu os concertos de Brandemburgo para adular um governante, que, aliás, parece nunca ter chegado a ouvi-los. Shakespeare vivia catando histórias que dessem público e faturando o que podia como empresário. 
E por aí vai, mesmo depois da implantação quase universal do direito autoral. O artista, seja ele escritor, compositor, pintor ou o que lá for, precisa e gosta de dinheiro tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral, ou impor-lhe severas restrições. Há muito que meus livros, incluindo versões em áudio abomináveis, estão disponíveis em dezenas de sites da Internet, sem que eu seja nem comunicado, quanto mais pago. Agora também sei que títulos meus estão sendo baixados em leitores eletrônicos, outra vez sem que nem eu nem meus editores tenhamos sido consultados. 
Já estava resignado a essa pirataria, mas dizem que vêm mais novidades por aí. Li uma entrevista com um desses gênios da informática em que hoje o mundo abunda, na qual ele previu não somente o inexorável fim do livro impresso como a abolição dos direitos de autor. Perguntado como, neste caso, o escritor viveria, ele a princípio pareceu não saber ou não dar importância a pormenores dessa natureza, mas depois sugeriu que o escritor sobrevivesse fazendo apresentações públicas, leituras, performances pagas e coisas assim. 
Não chegou ao ponto de outro, sobre cujas ideias também li não lembro onde, que recomendou que, com suas obras à disposição de graça, os escritores façam voto de pobreza como os franciscanos, ou arranjem, vendendo a alma ao demo como possam, um mecenato que os sustente. Pelo menos o primeiro ainda vê as apresentações como um reduto em que o escritor poderá refugiar-se. Claro, se este for gago ou tímido demais para exibir-se em público, vai ser um problema. Mas há maneiras de superar tais limitações e os escritores, em breve, estabeleceriam animada concorrência, um aprendendo mágicas para alternar com leituras, outro estudando sapateado e ainda outros, como o Verissimo, pegando pesado com seu saxofone. Estou pensando em reagir aproveitando minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos. Não conheço Daniela Mercury, Ivete Sangalo ou Margareth Menezes pessoalmente, mas tenho a esperança de que, com jeito, elas aceitem encaixar um número meu em seus shows, na base do "ajuda teu irmão". 
Pode ser que se esteja pensando também numa forma de remunerar o escritor que não dependa de vendas. O governo faz uma seleção dos nomes qualificados para receber algum pagamento e dá a eles, por exemplo, uma bolsa romance. Mas receio que para conseguir essa bolsa, ou qualquer outro estipêndio do Estado, será necessário arrumar um pistolão. Ou entrar para um partido político que disponha de quotas da bolsa, como parte do tudo a que tem direito por aderir ao governo. Ou talvez seja melhor a realização de concursos públicos. Quem quiser ganhar alguma coisa como escritor será obrigado a fazer uma espécie de vestibular e os aprovados terão direito a uma carteirinha e a receber dois salários mínimos por mês para seu sustento, além de uma eventual bolsa romance, bolsa poema ou bolsa ensaio. 
Seja o que Deus quiser, não se pode deter o progresso. Progresso este que faz um interessante revertério para o tempo em que o artista morria indigente. Ao que tudo indica, a moda está de volta e acho que vou procurar logo uma boa sarjeta e começar a treinar. Tenho, entretanto, um comentário final: tudo bem, são os novos tempos, mas os bens culturais "gratuitos" não são produzidos sem custos, pois não existe produto (ou almoço) de graça. Muita gente ganha dinheiro com essa produção, em todos os seus estágios, muita gente é paga. Por que só quem não deve ser pago é o autor? 
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor. 

GOSTOSA

FERREIRA GULLAR

O trinado do passarinho
FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

Ao passar a gravação para o disco, verificou ter captado um passarinho e, então, decidiu destruí-lo
 


ELE É um excelente e raro poeta, que terá escrito uns 20 poemas em toda a sua vida. Sou certamente o único amigo que possui no mundo. Tem alguns parentes, filhos de uma irmã já falecida.
Como herdou dos pais alguns bens, esses parentes tentaram obter um diagnóstico médico para considerá-lo louco e, portanto, incapacitado para gerir a herança da família. Ele percebeu o golpe, fugiu de casa e nunca mais apareceu. Mudou-se para Lisboa, onde viveu alguns anos, e depois voltou, na moita, de modo que, para os parentes gananciosos, ele deve ter morrido.
Na verdade, reside, faz alguns anos, num pequeno apartamento no centro do Rio, num prédio onde só há escritórios e firmas comerciais. Ninguém sabe quem ele é nem o que faz. Com o resto do dinheiro, comprou um terreno em Magé, no Estado do Rio, e o doou à prefeitura para que instalassem ali um clube esportivo para meninos pobres, com campos de futebol e quadras de tênis.
A prefeitura aceitou a doação e nada fez. Agora ele está tentando anulá-la para entregar o terreno ao governo do Estado, a fim de ali construir escolas e moradias para desabrigados. O processo burocrático está em marcha; marcha lenta, claro.
Quando o conheci, em 1952, na casa de Mário Pedrosa, ele era funcionário do Centro Psiquiátrico Nacional, do Engenho de Dentro, onde ajudou a dra. Nise da Silveira em seus ateliês de terapêutica ocupacional. Se não me enganou, quem o levou a Mário Pedrosa foi Almir Mavignier, braço direito de Nise. Ele escrevera já então os poucos poemas que constituem a sua obra poética.
Tornamo-nos amigos e vagabundávamos pelo centro do Rio, frequentando o Vermelhinho e os botecos da Lapa, em companhia de Oliveira Bastos, Carlinhos de Oliveira e Amelinha, que era pintora e minha namorada. Publicou uma plaqueta de 34 páginas e distribuiu a reduzidíssima edição entre escritores indicados por mim. Um dos poemas dizia:
"Tapei a flor na noite
e os dias se esconderam.
Descabida metade das partes
relâmpago das cores".
Mas eis que ele, dias depois, aparece no Vermelhinho com um exemplar de seu livro, abre-o, estica com a unha da mão a linha que prendia as páginas, e afirma: "Isto vai arrebentar e misturar os poemas, quebrando a ordem em que estão. Vou recolher todos os exemplares e queimá-los. O teu está aí contigo?". Respondi: "O meu você não vai queimar coisa nenhuma". E o tenho guardado até hoje.
Pouco depois, decidiu gravar os poemas num disco. Usou um gravador do Centro Psiquiátrico e, de manhã bem cedo, fez a gravação. Sucedeu que, ao passá-la para o disco, verificou ter o gravador captado o trinado de um passarinho e, então, decidiu destruí-lo. Tentei dissuadi-lo, mas, para minha surpresa, no dia seguinte, ele me procurou para me informar que o trinado do passarinho enriquecera a gravação.
Editou então um álbum com o disco e me deu um exemplar que guardei até que meus filhos, brincando, o inutilizassem. Sobrou o álbum vazio.
Ele tem hoje 84 anos e, de vez em quando, aparece em minha casa. Outro dia, surgiu sem me avisar, sentou-se diante de mim e me perguntou se ainda tinha o disco com o trinado do passarinho. Respondi que tinha apenas o álbum vazio, onde estão impressos os poemas do disco. Ele, então, me informou que viera com o propósito de destruir o disco, mas, como este já não existia, destruiria o álbum. Tomei-o de suas mãos e disse-lhe que não ia destruir álbum nenhum.
Ele empalideceu, me olhou nos olhos e afirmou: "Você não tem o direito de me impedir. Os poemas são meus, o álbum é obra minha. Esses poemas não correspon- dem mais ao que considero minha poesia".
Tentei explicar-lhe que a nova edição que fizera dos poemas, em 1990, já deixava claro que sua visão sobre seus poemas mudara, uma vez que excluíra dela aqueles que não considerava perfeitos, à altura de sua exigência. De nada adiantou. Acusou-me de adotar uma atitude autoritária em vez de agir como amigo e foi embora muito zangado. Essa zanga passa, pensei comigo, sorrindo. Abri o álbum e li:
"O indivíduo estava no chão
e a pose passeava na forma".

VINICIUS TORRES FREIRE

Chiclete com Obama
VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

Diplomacia dos EUA tem pouco a oferecer ao Brasil; realidade econômica crua dita maior parte das relações



A QUESTÃO das "relações bilaterais" entre EUA e Brasil ainda parece muito com a da pauta estabelecida por Gordurinha e Almira Castilho em "Chiclete com Banana" nos idos de 1959, cantada pelo embaixador do forró, Jackson do Pandeiro.
Espécie de manifesto geopolítico, canção de protesto "avant la lettre", tapa na Bossa Nova e crítica antecipada ao Tropicalismo "entreguista", "Chiclete com Banana" dizia: "Eu só ponho bebop/ No meu samba/ Quando Tio Sam tocar o tamborim". Seguindo um princípio básico da diplomacia, o da reciprocidade, Gordurinha e Almira ofereciam um mix de chiclete com banana, de samba com rock, "mas em compensação" queriam ver um "boogie-woogie de pandeiro e violão".
O que os EUA têm a oferecer? O que queremos? Os governos petistas querem apoio para uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, ambição duvidosa que, satisfeita, deve render mais dor de cabeça e conflito do que vantagem real.
Barack Obama veio ao Brasil fazer relações públicas, "discursos históricos" e vender umas coisas. Bom que a gente converse, bom para nós e o mundo que Obama seja um tipo amistoso e "cool" etc. E daí?
As relações econômicas entre Brasil e EUA são determinadas por realidades bem mesquinhas. Nada será diferente se a "diplomacia presidencial" for apenas algo mais calorosa. Quede planos?
Claro que os EUA já foram mais relevantes e intrometidos. Por exemplo, quando deram uma força meio fraca à industrialização, em meados do século 20. Quando vieram com a "modernização" da Aliança para o Progresso, nos anos 1960, que distribuiu umas latas de leite, fez propaganda anticomunista, financiou a subversão da Constituição brasileira e ajudou empresas americanas. Ou quando mandou uma frota para auxiliar os golpistas de 1964, "just in case".
Agora, os americanos querem mercado para sua indústria, que aos poucos migra para a China e arredores. Querem que ajudemos num tico a evitar a desindustrialização deles. O que vamos ganhar?
Querem um ponto de abastecimento de petróleo mais confiável. Mas mesmo que o pré-sal seja um sucesso, seremos fornecedores menores. Ainda que fôssemos maiores, em termos políticos isso talvez seja mais um risco do que uma vantagem. Basta ver as intervenções americanas nos países petrolíferos.
A conversa sobre livre comércio morreu desde a desastrosa e inaceitável negociação da Alca em 2002. Foi quando o "sub do sub", o ministro da negociação comercial dos EUA, Robert Zoellick, disse que o Brasil teria de fazer comércio na Antártida se rejeitasse a Alca. Desde então, os EUA nada fizeram para retomar o diálogo de forma menos extorsiva e estúpida que a de Zoellick.
Na OMC, os EUA fazem de tudo para burlar decisões pró-Brasil. Obama pode fazer quase nada sobre o protecionismo agrícola, decidido em barganhas no Congresso, como no caso do etanol, barrado no baile de subsídios americanos. Por falar em etanol, aliás, se o plano de energia limpa de Obama decolar, nossos biocombustíveis terão sérios problemas. Os EUA querem ainda aliados para detonar a bárbara política comercial chinesa. Como em parte isso nos interessa também, ok. Mas os chineses não dão a mínima.
Então, a que veio Obama?

NO PAU TINHA UM ESPINHO

SUELY CALDAS

A antirreforma de Dilma

SUELY CALDAS

O Estado de S.Paulo - 20/03/11


A expectativa de saírem do seminário "O Futuro da Previdência Social no Brasil" ideias e propostas do novo governo para a Previdência foi transformada em decepção, frustração e na lamentável sensação de que privilégios e injustiças de um sistema desigual e caro para os brasileiros serão mais uma vez postergados. Não serão corrigidos nos próximos quatro anos e sabe-se lá quando surgirão um governante e um Congresso dispostos a enfrentá-los. Na campanha eleitoral a candidata Dilma Rousseff evitou falar em reforma. Limitou-se a defender o aumento da idade mínima para quem se aposenta no setor privado, e nenhuma palavra sobre mudanças para o funcionalismo. Tudo bem, não é assunto que candidato goste de falar em campanha. Mas os seis anos de comando no governo Lula deram a Dilma conhecimento, dimensão das injustiças e diagnóstico mais que suficientes do problema. É decepcionante começar o mandato sem absolutamente nada a propor.


"Não há plano novo para a Previdência", confessou no seminário o ministro Garibaldi Alves Filho, escolhido aleatoriamente por ser do PMDB, e não por virtudes técnicas ou de especialização. E acrescentou que a única ação determinada pela presidente é o "empenho" do governo em aprovar o fundo de previdência complementar dos servidores, parado há quatro anos no Congresso. No papel de senador, Garibaldi votou pelo fim do fator previdenciário. Como esperar que, no papel de ministro, ele se empenhe em convencer senadores e deputados a aprovar o fundo?


No caso da Previdência a presidente Dilma desistiu antes de começar. Não jogou a toalha porque dela nem sequer fez uso. Não deu a menor importância a um problema que cresce em ritmo progressivo e devora verbas públicas, prejudicando áreas socialmente mais carentes e abrangentes, como saúde, educação, segurança e até o programa Minha Casa, Minha Vida, seu filhote predileto. A aguerrida Dilma, que enfrentou o PMDB na ocupação de cargos no setor elétrico, nomeou um técnico para a Infraero, avisou que privatizará aeroportos e indicou Henrique Meirelles para garantir lisura em obras da Copa e da Olimpíada, não é a mesma quando dá de costas às injustiças da Previdência, curvando-se a interesses da classe política.


As injustiças começam pela existência de dois sistemas diferentes: o que regula a aposentadoria de servidores públicos, que têm garantido o mesmo benefício recebido na ativa; e o que limita ao teto de R$ 3.689,66 o benefício do setor privado do INSS. Essa duplicidade foi responsável em 2010 pela absurda disparidade: o déficit de R$ 51,2 bilhões do setor público, que beneficia menos de 1 milhão de pessoas, é 16% maior do que o de R$ 42,8 bilhões do INSS, que contempla 24 milhões de aposentados. É injusto e intolerável que os aposentados privados ganhem, em média, R$ 715, enquanto o salário médio de servidores do Legislativo e do Judiciário supere R$ 13 mil. Ou seja, 18 vezes mais.


Em 2010 saíram R$ 94 bilhões dos cofres públicos para cobrir os déficits dos dois sistemas, beneficiando 25 milhões de pessoas. É um inegável disparate social, quando comparado com o valor de R$ 70,9 bilhões previsto para atender mais de 100 milhões de brasileiros que dependem de saúde pública e o de R$ 54 bilhões para garantir educação a milhões de estudantes pobres distribuídos pela rede pública de ensino.


Aí está a prioridade em reformar a Previdência. Os números expressam um quadro alarmante de injustiça social e péssima distribuição do dinheiro público que, infelizmente, a presidente Dilma não quer enxergar. E na hierarquia de prioridades desponta a urgência em mudar a previdência pública, que a cada ano piora perigosamente. Para ter uma ideia, em 1995 a União gastava R$ 15,1 bilhões com a aposentadoria de seus funcionários. Em 2009 o valor quase quintuplicou, para R$ 67 bilhões. Embora não resolva o problema, a aprovação do fundo pelo Congresso ao menos estanca a sangria do crescimento sem limites do déficit. Mas determinar, vagamente, "empenho" em aprová-lo e entregar a tarefa a um senador do PMDB, convenhamos, não é o caminho certo.


JORNALISTA, É PROFESSORA DA PUC-RIO

JIM O'NEILL

O Japão e o iene

JIM O'NEILL

O Estado de S.Paulo - 20/03/11

Na sexta-feira, 18 de março, o G-7 demonstrou uma nova razão para sua existência pela primeira vez em anos. Num claro sinal de seu desejo de ajudar o Japão, as autoridades do G-7 anunciaram que interviriam para sustar a valorização do iene. Essa é a primeira vez que ocorre uma medida desse tipo em dez anos e, ao menos da perspectiva japonesa, é extremamente bem-vinda. Após a declaração, as autoridades japonesas intervieram e, como resultado, pelo menos por enquanto, o iene enfraqueceu.

Embora continue difícil avaliar com segurança a escala dos danos causados pelo terremoto e o tsunami que assolaram o Japão, é imperativo que a situação não seja mais agravada por desdobramentos injustificados do mercado financeiro. No início desta semana, o primeiro-ministro japonês descreveu a situação como o maior desafio que o país enfrenta desde a 2ª Guerra Mundial. Um comentário desses requer medidas corajosas, e a intervenção para conter a força do iene se justifica plenamente, a meu ver.

Evidentemente, a origem da força da moeda japonesa é, em grande medida, a acumulação de superávits em conta corrente no balanço de pagamentos na última década e, com isso, o acúmulo de enormes ativos estrangeiros. Embora o governo pareça ter um problema de dívida, o país como um todo não o tem. Por definição, o saldo em conta corrente é a diferença entre a poupança nacional e o investimento nacional, e os superávits em conta corrente do Japão ao longo de muitas décadas são reveladores.

No entanto, nos últimos anos, essa poupança nacional tornou-se cada vez mais dependente do setor corporativo, na medida em que diminuía a poupança das famílias. Apesar de muitos financistas continuarem estupefatos com as atividades da infame sra. Watanabe (apelido no Japão para donas-de-casa que fazem investimentos cambiais), a poupança acumulada está de fato encolhendo. Como já mencionei em ocasião anterior, jamais pensei que ainda estaria trabalhando quando a taxa de poupança familiar nos Estados Unidos superasse a do Japão, mas isso já está ocorrendo há mais de um ano. Aliás, as famílias americanas poupam hoje duas vezes mais que as japonesas e a dívida pública bruta americana é menos da metade. Não era assim que a coisa funcionava.

É fato conhecido que a população do Japão começou a declinar alguns anos atrás, e muitos especialistas calculam que até 2050 ela estará em torno de 100 milhões de pessoas ou menos, cerca de 25% menor do que hoje. Com o aumento da expectativa de vida, porém, isso significa que, a menos que os japoneses aceitem trabalhar além da idade normal de aposentadoria, haverá cada vez menos pessoas trabalhando para sustentar cada vez mais pessoas. Segundo um interessante artigo recente do jornal Financial Times, 20% dos japoneses com mais de 65 anos já estão trabalhando em empregos de tempo integral, supostamente quatro vezes mais que na Europa. Todos eles terão de trabalhar muito mais, especialmente no Japão, que terá ainda que aumentar a imigração e imaginar maneiras de encorajar os pais a produzirem mais filhos.

Esses problemas chamaram a atenção por muito tempo de diversas mentes no exterior para os dramas financeiros do Japão, incluindo diversos investidores altamente bem-sucedidos. Muitos têm histórias famosas sobre quanto perderam tentando vender a descoberto Bônus do Governo Japonês ou ienes, ou ambos (apostando no enfraquecimento dos ativos japoneses). Durante boa parte dos últimos 15 anos, nunca concordei realmente com essa visão, por três razões (embora, nos últimos dois anos, eu também tenha entrado nesse campo).

A primeira das três razões é a seguinte: foi verdade, e ainda é, que o Japão é um grande credor estrangeiro. Quando o Japão precisou de mais financiamentos por causa do terremoto de Kobe e suas consequências em meados dos anos 90, os mercados internacionais suportaram as consequências negativas quando investidores japoneses repatriaram ativos estrangeiros para ajudar a financiar necessidades domésticas imediatas maiores. Observando de maneira geral os mercados na sexta-feira, a situação sugeriu uma reprise parcial.

A segunda razão é que, apesar de a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) real do Japão ter sido modesta e sua tendência de crescimento fraca comparada à de muitos outros países, em razão de sua demografia, a riqueza individual no Japão não sofreu - isto é, o PIB per capita não encolheu. Isso foi verdade antes de o Japão começar a testemunhar a deflação, mas as evidências são agora mais matizadas. A terceira é que a taxa de poupança no Japão era relativamente alta, mas isso agora começou a mudar, especialmente desde a crise global do crédito em 2008 e da reconstrução da taxa de poupança familiar americana. Foi esse último ponto, na verdade, que me levou a mudar a minha visão estratégica sobre o Japão.

Muitos observadores têm ficado confusos com a relativa timidez do Banco do Japão (banco central) para tentar estimular o crescimento, conter a deflação e sustar a valorização aparentemente inexorável do iene. Embora se possa explicar por que o iene chegou ao ponto em que está levando em conta os ativos estrangeiros líquidos do Japão, por quaisquer outras fórmulas de estimação da taxa de câmbio de equilíbrio, o iene está muito caro. Isso é obviamente verdadeiro numa simples base de PPP (paridade de poder de compra), e nos dois últimos anos, o mesmo resultado também é produzido por modelos de taxa de câmbio real ajustada. Ironicamente, isso ocorre num modelo que eu criei há cerca de 15 anos para explicar por que o iene se comportou da forma como se comportou, e que hoje mostra a moeda japonesa com uma sobrevalorização de 30%.

No último ano, circulou um argumento muito válido, em termos políticos, de que o Banco do Japão resistiu a medidas para enfraquecer deliberadamente o iene tanto por temer provocar um sentimento empresarial anti-japonês nos Estados Unidos (que foi abundante no fim dos anos 80 e começo dos 90), e por um desejo de fortalecer o yuan chinês. O fato é que o iene se fortaleceu consideravelmente mais que o yuan desde a crise de crédito global. Há agora uma clara necessidade de ousadia para assegurar uma superação acelerada dessa situação trágica. Os acontecimentos certamente o exigem. Eu aplaudo a declaração do G-7 e a intervenção que vimos e que, muito provavelmente, veremos mais. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

GOSTOSA

ILIMAR FRANCO

Um novo líder 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 20/03/11

A bancada do PT no Senado está revoltada. A presidente Dilma Rousseff está inclinada a fazer o deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS) líder do governo no Congresso. Os petistas querem o senador José Pimentel (PT-CE). Alegam que o PMDB já tem a liderança do governo no Senado, ocupada por Romero Jucá (RR). Mendes Ribeiro é integrante da bancada dos amigos da presidente Dilma.

O PMDB está com saudades de Lula
A cúpula do PMDB não fala abertamente, mas está muito descontente com seu espaço no governo Dilma Rousseff. Seus dirigentes só não estão soltando o verbo porque isso equivaleria a deixar numa situação delicada o vice-presidente Michel Temer. Mas, nas conversas entre eles, costumam citar os espaços generosos que ocuparam no governo Lula, sobretudo a partir da metadedo segundo mandato. Seus líderes reclamam que o partido ficou menor no governo Dilma, e que eles ainda são obrigados a conviver com insinuações e vetos dos petistas contra os quadros do partido que são indicados para os cargos de segundo escalão.

"Prevaleceu o bom senso. O (presidente Barack) Obama falar para o povão na rua (Cinelândia) seria de um ridículo” — Francisco Dornelles, senador (PP-RJ)

‘NEXT TIME, I WILL GO TO BAHIA’. Rápido no gatilho, o governador Jaques Wagner foi cumprimentar a presidente Dilma Rousseff, no fim do almoço no Itamaraty. Dilma apresentou Wagner ao presidente Obama, e o governador aproveitou para convidá-lo a visitar a Bahia. Obama falou que pretende voltar ao Brasil e que, quando isso ocorrer, sua prioridade é ir até a Bahia. O cerimonial de Wagner já havia enviado um Oxóssi de prata (deus das matas, da caça e da fartura) de presente a Obama.

Jardim de Infância

Enquanto os presidentes e ministros participavam de coquetel de despedida, ontem, no Palácio da Alvorada, as meninas Malia e Sasha foram ao jardim da residência oficial. Voltaram contando que tinham brincado com as emas.

Amenidades
No coquetel no Alvorada, Dilma Rousseff e Barack Obama caminharam pela varanda do Palácio. Obama ficou curioso com os ninhos de joão-debarro e quis saber se Dilma nadava na piscina. Ela contou que nadou uma vez só. 

Protesto contra o rigor da segurança

Os ministros brasileiros ficaram irritados com a revista a que foram submetidos pela segurança americana, no encontro empresarial com o presidente Barack Obama. Surpresos, se submeteram. Depois, irritados, Aloizio Mercadante, Fernando Pimentel, Edison Lobão, Alexandre Tombini e Guido Mantega se retiraram antes do discurso de Obama. “Nos levantamos e
fomos embora ostensivamente. Ninguém foi nos receber, e a segurança foi autoritária”, protestou Mercadante. 

Identidade
Depois de uma rápida conversa com o vice Michel Temer, o presidente Obama comentou com Dilma: “Nós somos professores de Direito Constitucional.” Temer disse a Obama que apreciou seu livro “A audácia da esperança”.

Degustação
Se a ideia era ampliar o mercado para a carne brasileira nos EUA, a picanha servida no almoço do Itamaraty deixou a desejar. Convidados que se sentaram à mesa com Obama e Dilma disseram que a carne estava “ruinzinha”.

 DURANTE o almoço no Itamaraty, os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama conversaram sobre o programa Bolsa Família e o desenvolvimento econômico do Brasil nos últimos anos.
 OS CONVIDADOS aplaudiram a iniciativa. Após o almoço no Itamaraty, a presidente Dilma Rousseff chamou para uma foto os ex-presidentes José Sarney, Fernando Henrique, Itamar Franco e Fernando Collor.
 O PRESIDENTE Barack Obama fez até brinde. Mas seus companheiros de mesa contam que ele não deu qualquer gole na taça de vinho que lhe foi servida.

ETHEVALDO SIQUEIRA

A segurança está em você

ETHEVALDO SIQUEIRA

O Estado de S.Paulo - 20/03/11

Não corra riscos, sem necessidade. Você poderá pagar um preço muito alto até por pequenos descuidos ao usar o computador, a internet, a câmera digital ou o smartphone. Cultive os melhores hábitos. Eles evitarão até 90% dos problemas que afetam os usuários de dispositivos eletrônicos. Aproveite as observações deste artigo para fazer um pequeno balanço dos procedimentos realmente importantes e reflita sobre as recomendações abaixo, mesmo que suponha saber tudo sobre o assunto.

Segurança. Use sempre software de segurança. Comece com antivírus grátis. Por que permanecer vulnerável a todos os tipos de ataques e contaminações?

Backup. Faça backup ou cópias de segurança do conteúdo mais importante de seu computador. Invista num HD externo de boa capacidade, de 500 gigabytes (GB) ou mais. Guarde cópias em lugares diferentes, em especial dos arquivos e documentos de maior importância ou valor. É claro, num futuro próximo, você guardará muita coisa na nuvem.

Privacidade. Tenha cuidado com sua privacidade, particularmente nas redes sociais, como Facebook, LinkedIn, Flickr, Orkut - nada de informações ou fotos que possam um dia se tornar comprometedoras ou inconvenientes.

Senhas. Não use a mesma senha para tudo. Eu sei que dá mais trabalho, mas, em nome da segurança, mude sua senha periodicamente. Não use datas de aniversário ou números de seus documentos. Aprenda a criar senhas alfanuméricas. Exemplo ilustrativo: s9e7n5h3a (eu intercalei os números 9, 7, 5 e 3 entre as letras da palavra senha).

Especificações. Nunca ignore as especificações de seu computador e de seus equipamentos eletrônicos. Elas definem as possibilidades e as limitações de cada um.

Delete o spam. Nunca responda a um spam. Não clique na frase "remova-me", pois ela pode conter um link para a invasão de um programa espião. Não acredite em propostas milagrosas. Não abra e-mails que prometem cenas de crimes, de terremotos no Japão, de tsunamis, de escândalos, de cenas pornográficas. Delete tudo que for suspeito.

Telas falsas. Cuidado com os physhings (ou fishings), que imitam telas de bancos, do Imposto de Renda, da Justiça ou de lojas famosas, para pedir recadastramento ou dados confidenciais e, a partir deles, entrar em suas contas.

Seu laptop. Não caminhe com seu laptop ligado, a não ser que seja em uma curta distância dentro de sua casa, da cozinha à sala, pois, com o disco rígido girando em alta velocidade, a máquina pode travar e quebrar.

Perigo na cama. Cuidado quando usar o laptop na cama. O maior risco é obstruir as portas de ventilação da máquina por um travesseiro ou pela colcha. O superaquecimento pode danificar seu laptop. Use uma mesinha de café ou aquela de servir breakfast na cama.

Evite imprimir. Pense um minuto antes de imprimir qualquer coisa. Há pessoas que imprimem tudo. Prefira armazenar ou fazer apenas o registro digital. Se for algum documento com assinatura digital, faça um arquivo em PDF.

Perigo na praia. Não leve sua câmera para a praia. Um grão de areia que caia no obturador ou no mecanismo de zoom e você terá um grande problema pela frente. Se você tiver que fazer fotos na praia, leve sua câmera num estojo impermeável ou num saco plástico. Compre uma câmera à prova d"água, totalmente impermeabilizada.

Selecione os e-mails. Guarde seus e-mails de forma seletiva. Lembre-se que eles podem ser arquivados em ordem cronológica, de remetente ou de assunto. Faça backup do que for importante. Não hesite em apagar o resto.

Use atalhos. Aprenda a usar os atalhos (ou shortcuts) de seu teclado. Muitas pessoas não sabem que Control-C quer dizer cópia. Ou que Control-V é atalho para colar. Ou que Control-B é o comando para salvar. Você não precisa voltar ao mouse e clicar outro comando e perder tempo. Atalho foi criado para ser usado.

Não entulhe seu PC. Faça uma seleção do que você realmente precisa. Não faça de computador uma lata de lixo, com mil bugigangas virtuais, como pequenos aplicativos, ícones, diferentes browsers na barra de ferramentas e coisas que você não vai usar tão cedo. Desinstale o máximo de coisas que não vai usar. Seu computador ficará muito mais leve e mais rápido.

Organize seus papéis. Salve seus documentos e organize tudo que você precisa guardar, como faz, aliás, com contas de luz, telefone e impostos. Abra pastas para esses documentos. Guarde cuidadosamente os documentos ou dados de garantia de seu computador e de outros eletrônicos. Os produtos de eletrônica de consumo costumam quebrar sempre alguns dias após o fim de sua garantia. Mas, algumas vezes, eles se quebram na vigência das garantias.

Carinho virtual. Trate seu computador com carinho. Evite que ele sofra quedas e pancadas, movimentos bruscos ou choques de qualquer tipo. Nunca deixe seu laptop dentro do carro. Ele vai ser roubado daqui a pouco. Use estojos disfarçados ou bolsas diferentes comuns.

NO PAU TINHA UM ESPINHO

MÔNICA BERGAMO

Bárbara no espelho
MÔNICA BERGAMO

O GLOBO - 20/03/11

Bárbara Paz, de volta à TV e ao teatro, corre de um lado para o outro e diz que tem um sonho: comprar uma rodoviária para a sua família

A imagem da atriz refletida no espelho de seu camarim
Carregando duas bolsas
Prada enormes, pelas ruas dos Jardins, Bárbara Paz diz que não consegue transportar tudo o que precisa. "O Juca de Oliveira diz que eu estou sempre carregada", conta ela, que ouviu do colega a pergunta: "Por que você traz tanta coisa, se vem sempre para o mesmo lugar?". A resposta: "Porque eu nunca sei onde vou parar".

"Preciso ter uma casa dentro da bolsa. Isso tem a ver com o meu passado, porque eu nunca tive um porto", diz ao repórter Diógenes Campanha. Ela ficou órfã de pai aos seis anos, começou a trabalhar aos nove e perdeu a mãe aos 17. Saiu de Campo Bom (RS) para virar atriz e modelo em SP. Ao visitar sua cidade para o Natal, sofreu um acidente de carro e ficou com cicatrizes no rosto, que esconde com maquiagem. "Vamos falar da nova Bárbara?", sugere.

A partir de amanhã, a parada da "nova Bárbara" é o horário das 19h da TV Globo. Ela será Virgínia, uma assistente de arqueóloga na novela "Morde & Assopra". Em 13 de maio, joga a âncora no Rio, onde estreará a peça "Hell", dirigida por seu marido, Hector Babenco.

A personagem da novela, que vende fósseis no mercado negro, é marcada pelo exagero. Virgínia terá uma veia cômica inédita para a atriz. "Já vivi tanta coisa que sou um pouco cansada de tudo. Isso te traz um olhar mais triste, e por isso me caem bem personagens densos."

Ela aprendeu a usar o rosto em seu favor. Recentemente, o ator e amigo Rafael Primot reclamou, depois de se ver no vídeo em uma série da Globo: "Não adianta, eu nunca vou perder essa cara de sonso". A resposta dela: "Então aproveita! Eu não tenho cara de louca?".

Das bolsas de Bárbara saem dois livros, roupa de ginástica, perfume, remédio para alergia, carregador de celular e uma caneta que ganhou do ator Mauro Mendonça, "para não parar de escrever nunca". Óculos escuros Balenciaga no rosto, ela carrega outros dois. "Um é de estilo, um é do problema [1,75 grau de astigmatismo] e o terceiro é de sol com grau." A maquiagem vai numa maletinha. "Vendi muitas dessas quando não tinha contrato."

Antes de vencer o reality show "Casa dos Artistas", do SBT, e se projetar nacionalmente, em 2001, Bárbara comprava as maletinhas e fazia colagens com imagens de cidades, santos ou estrelas de cinema, dependendo do gosto da freguesa. Promovia bazares para colegas como a atriz Giselle Itié. Depois de se destacar em sua estreia na Globo, como a "drunkoréxica" Renata, na novela "Viver a Vida" (2009), assinou com a emissora por três anos. É seu primeiro contrato longo.

Depois de três novelas no SBT, entre 2002 e 2007, ficou "com muita cara" da emissora de Silvio Santos. Decidiu só voltar se fosse na Globo. "Se não ficasse fora por um tempo, eles nunca iriam me olhar de outra forma." Foi "desconvidada" de "O Clone" e ouviu de Manoel Carlos, após a reprovação em um teste anterior a "Viver a Vida", a promessa de que trabalhariam juntos. "Foram nove anos até acontecer. Poderia ter filha dessa idade."

No almoço, Bárbara devora um prato de risoto de aspargos com fondata de queijo taleggio no restaurante Piselli. "Só tem homem aqui, todos usando camisa listrada. Será que é tudo "business" [executivos]?", ela pergunta. "Eu vou contar para todo mundo que você tá comendo de tudo, não tá mais com aquele problema", diz um senhor, referindo-se ao distúrbio alimentar da Renata de "Viver a Vida". "Eu me internei, me curei", ela brinca. Comemora. "Eu me tornei conhecida como Bárbara [no reality show]. Agora tirei a Bárbara e coloquei a Renata. Era disso que eu precisava. Algumas pessoas nem sabem meu nome. Em Portugal, então [onde a novela foi exibida], é só Renatinha."

Mais cedo, naquele dia, a atriz havia sido convidada para participar de um seminário da revista "Marie Claire" sobre "sexualidade e o casamento". Quando o assunto era o homem brasileiro, a apresentadora Mônica Waldvogel disse que "Bárbara não é casada com brasileiro" e poderia contar sobre a diferença de ter um marido argentino -no caso, Babenco. "Você quer que eu fale da minha relação? Não vou." Relembra a cena no restaurante. "Era só o que faltava. Jamais faria isso com o Hector. Respeito muito ele."

A atriz tem 36 anos e o diretor, 65. "A gente foi um belo encontro. De almas, sabe? Amor não tem idade." O casal mora na casa dele, na Vila Nova Conceição. Num intervalo entre os compromissos, ela telefona. Diz que deu tudo certo no seminário. "Você tem que acreditar mais em mim", responde Babenco. "Me passa uma receita para eu ficar confiante?", ela pede. Avisa que não poderá ir à apresentação de balé da neta dele. "Mas leva a câmera. Está na cômoda."

Bárbara diz que faz parte de "uma família de amigos" de Babenco. "São pessoas que eu admirava demais. O Drauzio [Varella], o [Arnaldo] Jabor. No começo era... qual a palavra que eu posso te dizer? Fascinante. Falo que ele é meu Arthur Miller", referindo-se ao dramaturgo que foi casado com Marilyn Monroe. "Tudo em excesso me cansa, mas no amor eu não tenho dose."

Já com sua família, a relação é distante. "Tem pessoas que pararam no tempo, e só eu me salvei para contar a história. Ainda vou escrever um roteiro, um livro sobre isso." Parte desse texto já foi "encenado" no "Domingão do Faustão", em 2010: homenageada no programa, ela assistiu a um vídeo em que suas irmãs -ela é a caçula de quatro filhas- reclamavam que a atriz não mantém contato e que acha que elas só a procuram quando estão precisando de dinheiro.

"Foi um absurdo. Não é verdade. E elas são muito inocentes, não têm noção do que a TV pode alcançar. Não preciso falar de tudo o que eu já fiz pela família: dei casa, dei carro. Mas chegou uma hora em que achei que deveria parar. Foquei nos meus sobrinhos, que eu ajudo nos estudos e no que eu posso. Eles estão começando e podem se salvar."

Ainda assim, há um presente que Bárbara gostaria de dar à família. Filha de político, ela costuma dizer que seu batizado "foi um comício", de tantas autoridades presentes, e lembra que os Paz eram donos da rodoviária de Campo Bom. O imóvel foi vendido após a morte do pai. "Adoraria poder dar a rodoviária de volta pra minha família, mas ainda não tô podendo pegar esse ônibus."
BÁRBARA DISSE
"Já vivi TANTA COISA que sou um pouco cansada de tudo.
Isso te traz um olhar mais TRISTE,e por isso me caem bem PERSONAGENS DENSOS"

MERVAL PEREIRA

O sexto membro
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 20/03/11

Não é de hoje que o Brasil reivindica um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas nunca esteve tão próximo de consegui-lo quanto em 1945, quando da criação do organismo internacional ao final da Segunda Guerra Mundial. Essa história está relatada na tese do diplomata Eugênio Vargas Garcia, membro da delegação brasileira na ONU em Nova York, aprovada com louvor no Instituto Rio Branco, que ele pretende publicar em livro.

Com o título "O Sexto Membro Permanente ? O Brasil e a Criação da ONU", conta, com base em documentos, alguns inéditos, pesquisados tanto em arquivos nos Estados Unidos como no Brasil, como reivindicamos pela primeira vez a inclusão como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, que estava para ser criado de acordo com uma minuta aprovada na Conferência de Dumbarton Oaks, em 1944, "Propostas para o Estabelecimento de uma Organização Internacional Geral".

A tese de Eugênio Vargas Garcia é de que os EUA assumiram a dianteira do processo em parte porque seus aliados estavam ocupados demais para investir tempo e recursos em atividades de planejamento que não fossem voltadas para fins militares imediatos.

"Por um momento, a Grã-Bretanha travou quase sozinha a guerra contra a Alemanha nazista e a URSS suportou uma luta titânica de vida ou morte na frente oriental. Geograficamente distante das zonas de batalha, os EUA não tiveram seu território continental atacado durante o conflito. Eram, possivelmente, o refúgio mais seguro para conferências internacionais e conclaves do gênero", analisa em seu trabalho.

Entre outras fórmulas aventadas na época, o estudo mostra que Roosevelt acalentava a ideia de implantar um sistema chamado por ele de "tutela dos poderosos" já que, em sua avaliação, os mecanismos de consenso e participação universal da Liga das Nações não teriam funcionado. "Era preciso lançar mão de expedientes mais drásticos" .

Em discurso de 1944, Roosevelt sublinhou que o propósito supremo das Nações Unidas podia ser expresso em uma única palavra: "segurança". Este, aliás, era um ponto de sólido consenso entre os Três Grandes, ressalta Eugênio Vargas Garcia.

"Muito mais praticantes do que teóricos da Realpolitik, Roosevelt, Churchill e Stalin estavam de perfeito acordo quanto à prerrogativa dos poderosos de gerenciar a ordem internacional nos seus termos".

O plano a que se chegou em Dumbarton Oaks poderia ser visto, segundo o estudo, como uma versão fortalecida da Liga das Nações, controlada pelos Quatro Policiais (Estados Unidos, Rússia, China e Reino Unido). O Quinto Policial seria a França.

Mais tarde, na Conferência de Yalta, definiu-se a fórmula para a votação no Conselho de Segurança: a) cada membro do Conselho teria um voto; b) as decisões em questões processuais seriam tomadas pelo voto afirmativo de sete membros; e c) as decisões em todos os outros assuntos seriam tomadas pelo voto afirmativo de sete membros, inclusive os votos afirmativos de todos os membros permanentes. Neste texto, explica o trabalho, estava embutido o poder de veto.

Roosevelt instruiu sua delegação em Dumbarton Oaks a sugerir que o Brasil fosse considerado como o sexto membro permanente, uma possibilidade que ajudaria a "reforçar a posição do Brasil" na América do Sul.

Modelo de "bom vizinho", o Brasil era visto em Washington como parceiro confiável e "aliado fiel".

No entanto, analisa a tese de Eugênio Vargas Garcia, essa concordância de Roosevelt não foi uma iniciativa meticulosamente preparada nem chegou a ser amadurecida previamente nos círculos decisórios norte-americanos.

O presidente Vargas tinha a expectativa de que as aspirações do país seriam satisfeitas, como reconhecimento devido pela colaboração que o Brasil havia prestado aos Aliados.

Segundo a tese, o respaldo de Washington - particularmente de Roosevelt - era esperado como parte da "aliança preferencial" que haveria entre os dois países, pelo menos na visão do Rio de Janeiro.

O Brasil chegou a apresentar proposta de emenda à Carta para conferir à América Latina representação permanente no Conselho, na esperança de que, se aprovada, o país fosse indicado naturalmente, mas não obteve êxito.

O pesquisador ressalta que o presidente Franklin Roosevelt, que se havia empenhado pessoalmente em favor da China, vencendo as objeções de Churchill e Stalin, era quem melhor poderia levar adiante sua intenção de criar mais uma cadeira permanente, mas sua morte, pouco antes da Conferência de São Francisco, eliminou em definitivo essa possibilidade.

A posição do governo dos EUA, ressalta o estudo, evoluiu de 1944 para 1945, com marcante queda no interesse em reforçar o Brasil como seu principal aliado na América do Sul e no Hemisfério Ocidental, linha que havia sido seguida por Roosevelt.

Quando a Conferência de Yalta teve lugar, a conjuntura já havia, em parte, mudado, destaca Eugênio Vargas Garcia: a guerra se aproximava do fim, o perigo maior havia passado, e esquecida a importância estratégica que o Brasil teve na luta contra o Eixo (bases aéreas no Nordeste) ou na contenção da Argentina "antiamericana".

Quando Truman assume, não era mais imperativo cultivar a amizade de Vargas ou tolerar abusos de seu regime personalista.

Para Getúlio Vargas, magoado e decepcionado, não haveria sinal maior de ingratidão, mas o estudo demonstra que ele teve contra si situações políticas que não controlava: problemas internos o obrigaram a desviar seus esforços da questão internacional, e a morte de Roosevelt roubou-lhe um aliado inestimável.

GOSTOSA

JANIO DE FREITAS

Depois da hora certa
JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

A violência assumida pela revolta em Jirau  e pela dos árabes tem semelhança, mas as recepções aqui, aos dois casos, foram opostas


A ABSTENÇÃO do Brasil na ONU, quando aprovadas a proibição de voos na Líbia e a possibilidade de intervenção no conflito entre rebeldes e Gaddafi, nasceu condenada a sofrer pesadas críticas, por muito tempo. Nela pode-se ver, porém, ainda que não fosse esse o seu propósito, a condenação dos métodos e concepções caducos e prepotentes das nações em geral. Inclusive do Brasil, como expõe, agora mesmo, a rebelião surgida entre os 20 mil operários concentrados na construção, em Rondônia, da hidrelétrica de Jirau.
As rebeliões em cidades árabes e na populosa obra de Jirau têm traços em comum. Os levantes que surgem do nada, imprevistos, e se agigantam em instantes, sempre têm motivos profundos. Não se confundem com agitações por contrariedades convivíveis ou momentâneas. A dimensão e a violência assumidas pela revolta dos operários de Jirau e pela dos árabes têm, com as respectivas proporções, semelhança de profundidade e de ímpetos que se sobrepõe à diferença relativa de objetivos. Mas as recepções aqui, aos dois casos, foram opostas.
Aceitou-se logo, a cada foco de rebelião eclodido no mundo árabe, tratar-se de rejeição à já insuportável opressão policialesca e arbitrária do poder. A explicação imediata dada pelos operários de Jirau -reagiam às violências e arbitrariedades do sistema "de segurança" na obra- mal foi reproduzida, quando o foi, nos meios de comunicação.
Tratava-se também de opressão e da reação de possuidores, mas não portadores, de direitos humanos e direitos de cidadania. O que lá nos inquieta e comove não nos toca se aqui.
Rebeldes árabes e Jirau identificam-se em um ponto crucial. A ONU tem o dever explícito de investigar e mediar confrontos, na comunidade humana e não só internacionais, que contrariem a sua tábua de princípios. De acordo com esse dever, cabia-lhe, no conflito líbio como em incontáveis outros, mandar de imediato uma comissão para investigar as motivações, as práticas e os objetivos opostos. E mediar a solução. Seriam a conduta civilizada, como a criação da ONU pretendeu ser, e a solução civilizada.
O Conselho de Segurança só discutiu, porém, desde o primeiro momento, diferentes ações militares: bloqueio naval, exclusão aérea, doação de armamentos aos rebeldes, bombardeio de instalações governistas, intervenção por terra. Aumentar o conflito, portanto. Criar mais uma guerra sem antes procurar o desenlace pacífico, ou perto disso.
Uma obra com 20 mil operários, por sua vez, está sujeita a muitos problemas nas relações de trabalho. Pela dimensão; pelas exigências desse gênero de trabalho, a que só se sujeitam os que têm disposição extraordinária de trabalhar; e pelos resquícios escravocratas e desumanos persistentes em vários gêneros de atividade, como setores da construção civil, ainda do cultivo da cana, mineração, e mais. São razões adicionais para que o Estado não se dispense do seu dever de fiscalização das condições de vida e trabalho nas grandes obras, tanto mais se obras públicas. A eclosão da revolta em Jirau atesta que a fiscalização, ou não houve, ou é suspeita.
Iniciada a reação dos operários, com incêndios e destruição de instalações, a pronta atitude de governo seria mandar a Rondônia uma comissão para investigar e mediar o conflito, com representantes dos ministérios da Justiça, do Trabalho, dos Direitos Humanos, da Saúde, dos Ministérios Públicos. As ideias voltaram-se, no entanto, para a direção de sempre: a polícia. Pior: a encargo do governo estadual. Dias depois, a Força Nacional. E só então uns quantos procuradores do Trabalho.
Em contraposição a Nicolas Sarkozy, presidente da França, e James Cameron, primeiro-ministro inglês, sedentos de ação bélica em meio a suas quedas de prestígio, a Alemanha foi enfática na justificativa de sua abstenção: "Não há informações seguras da Líbia e, portanto, não há plano seguro de ação, o que torna muito arriscada a intervenção como está proposta. Há o risco de levar a problemas maiores". Iraque, Afeganistão, Paquistão.
As mesmas considerações podem servir à abstenção do Brasil. Não para todos. Quando a atitude devida não é adotada em seu tempo, seja pelos motivos relativos à Líbia ou a Jirau, depois tudo é discutível. Sobretudo se não corresponde à atitude monocórdica -a força.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Showmício do Obama!
JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

O Obama é brasileiro! Bota uma bermuda e uma havaiana nele pra você ver! Rarará!
 


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! "Tiririca é o parlamentar que menos gastou em postagem, R$ 42." Claro, ele não sabe escrever. A outra é sobre o Gaddafi. Ops, o Kagaddafi: "Gaddafi retoma cidade de Brega". Mas ele já não é o ditador mais brega do mundo? O bom filho à casa torna. Rarará!
E o comercial de cerveja da Sandy? Tem que mudar o nome da cerveja de Devassa pra Cabaço! E diz que o ponto G da Sandy tem sabor de chocolate. E a Hebe não é do tempo do iPhone, é do tempo do gramofone. A Hebe vai comprar um gramofone da Apple. Rarará!
E o Eramos6 revela que fizeram teste de radiação no Sarney. E descobriram que ele tem várias rádios. Rarará. E o melhor do Carnaval 2011 foi uma placa na praia do Forte, na Bahia: "Banheiro VIP de Carnaval! Xixi: R$ 0,50! Cocô feminino: R$ 2. Cocô masculino: R$ 5. Proibido: vômito, sexo, bronha, banho na pia e gases em eceço!". E a placa na Buate da Tia Janalice: "Favor não mexer nas quengas sem pagar. Obrigado". Fina. Adorei a Tia Janalice!
E hoje tem discurso do Obama na Cinelândia. Micareta na Cinelândia! Só falta ter show da Claudia Leitte. SHOWMÍCIO DO OBAMA! E o tamanho da comitiva? Eles vieram visitar ou invadir? Invadir!
E o Obama é brasileiro. Bota uma bermuda e uma havaiana nele pra ver. O Obama é filho do Bezerra da Silva. O Obama tem perfil de moeda, mas tem cara de primo do Romário. Como tem sósia do Obama no Brasil! Olha a manchete do sensacionalista: "Sósia do Bin Laden planeja atentado contra sósia do Obama". E o site comentando revela quem recebeu o Obama na Cidade de Deus: Zé Pequeno! "Obama é o Barack! Meu nome é Zé Pequeno, porra."
E, pra fazer sucesso no Brasil, o Obama devia ter vindo com o chapeuzinho do Tiririca! Até o Kassab homanageia o Obama. Aqui na rua tem um buraco tão grande que botaram a placa: Burack Obama. Vai ter avenida Obama, viaduto Obama e BURACO OBAMA! Adorei a charge do San Salvador com a dona Marisa pro Lula: "A Dilma só convidou três ministros pro jantar do Obama". "Não faz mal, a gente pede pizza."
E a Shakira? Eu não tenho inveja da voz, da fama, nem do dinheiro da Shakira. Tenho inveja da barriguinha. Ela não precisa encolher a barriga na hora de transar! Barriguinha-ódio: você vê e fica com ódio!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

NO PAU TINHA UM ESPINHO

PAULO SOTERO

Diplomacia do encontrão
PAULO SOTERO
O Estado de S.Paulo - 20/03/11

Para embaixador, Brasil e EUA são países com mais coincidências do que percebem, mas destinados a andar tropeçando um no outro

A quem ansiava por uma mísera declaração do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a respeito da reforma do Conselho de Segurança da ONU, a voz diplomática do Brasil fazia muxoxo: "Um discurso dos EUA sobre o país x ou y é uma manifestação de respeito pela política externa do país, mas não é em si mesmo uma panaceia", disse o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Aguardada era uma postura de igual para igual entre os dois lados, que envolvesse "múltiplas frentes de interlocução" nos temas de interesse global.



O embaixador Luigi R. Einaudi segue raciocínio parecido nas linhas abaixo, produzidas para a National Defense University, em Washington, onde atua como pesquisador visitante. Ele vê a necessidade fundamental de um engajamento estratégico entre os dois países, que requereria basicamente o seguinte: os EUA aceitam o Brasil como potência emergente política e culturalmente próxima deles, e o Brasil se dá conta de que os EUA aceitam sua ascensão. Ex-professor em Harvard, Ucla e Georgetown, Luigi Einaudi dirige uma fundação de mesmo nome, que é também o de seu avô, o primeiro presidente da Itália pós-fascista. A seguir, suas considerações sobre esses dois países destinados a tropeçar um no outro ao redor do mundo.

O poder da singularidade

"A identificação do Brasil com a América Latina e o Terceiro Mundo impede a apreciação de sua importância pelos EUA. É verdade que, geograficamente falando, o Brasil é parte da América Latina, como é verdade que o país, fundador do Grupo dos 77, pareava com a Índia entre os líderes originais do Terceiro Mundo. Mas o Brasil é o Brasil - tão grande quanto os EUA e a China, e tão singular quanto ambos. Brasileiros e americanos têm um agudo senso pragmático e governos com alcance para além de suas fronteiras, mas são profundamente voltados para si mesmos e cientes de sua própria natureza excepcional (da qual, às vezes, decorre uma excessiva autoestima). Se essas características os aproximam, sua história e visão de mundo únicas também os separam. A aliança automática do passado já não existe mais.

Corrente antiamericana

"Uma nova geração de líderes brasileiros tende a ver a influência política e econômica dos EUA, e do Ocidente em geral, como obstáculo genérico à ascensão do Brasil. Sentimentos como esse alimentaram a Unasul, os mecanismos inter-regionais do Diálogo Sul-Sul e o Bric. Incontestáveis e positivas em si mesmas, essas iniciativas muitas vezes vêm acompanhadas de um subjacente antiamericanismo. A tentativa do presidente Lula de romper o impasse em relação ao programa nuclear do Irã teve suas raízes, parcialmente, em antigas tensões com os EUA sobre o programa nuclear brasileiro. Mas derivou também da convicção de que os americanos são muitas vezes parte do problema e o Brasil pode encontrar soluções que outros, inclusive os EUA, deixaram passar. A visão dos EUA sobre o Brasil como parceiro não confiável, relutante em fazer escolhas difíceis, porém necessárias, para a manutenção da ordem mundial, subitamente refletiu a visão brasileira sobre os americanos como dedicados ao aventureirismo militar no Iraque.

Extracurricular

"EUA e Brasil têm vastos interesses sobrepostos, mas uma parceria estratégica formal está fora de cogitação. Nos EUA, o Brasil tem que competir, em termos de atenção política, com China, Índia, Rússia, Japão, México e países europeus. E, apesar de sua importância nas organizações multilaterais, pode ser na melhor das hipóteses de limitada assistência prática para os EUA em suas duas guerras atuais. Por sua vez, pode-se dizer que os interesses do Brasil precisam se distinguir dos interesses americanos. Isso quer dizer que nenhum dos dois pode esperar do outro um acordo automático.

Toureando a rigidez

"A lista de questões globais em que o Brasil vem se tornando ator importante inclui solução de conflitos, questões nucleares, meio ambiente e desenvolvimento de leis internacionais. Assegurar consultas eficazes sobre tantos temas exige suavizar o estilo rígido de gestão. Historicamente, o Departamento de Estado americano tem deixado questões funcionais para os escritórios organizados mundialmente. Isso dificulta as consultas com países como o Brasil, cujo alcance vai além de sua região. O resultado é que as questões multilaterais são consideradas isolada e tardiamente no governo dos EUA. Há algo, por exemplo, que EUA e Brasil poderiam fazer para compensar os efeitos negativos do comércio da China sobre a indústria manufatureira em ambos os países? Tem-se a impressão de que são duas sociedades vibrantes, com mais coincidências do que percebem, mas sem uma linguagem comum.

Mais diplomacia, por favor

"Muitos brasileiros hesitarão em cooperar com os EUA se os americanos continuarem a proteger seus produtos agrícolas, seguirem com o embargo a Cuba, houver a percepção de que têm ambições sobre a Amazônia ou de manter tropas na América do Sul ou não endossarem as ambições brasileiras por um assento no Conselho de Segurança. Já alguns americanos questionarão a aproximação com um Brasil visto como um país que está desfrutando do luxo dos irresponsáveis até que aceite maior responsabilidade na não proliferação nuclear, distancie-se do Irã e esteja mais presente em questões de democracia e direitos humanos.

Internamente...

"As políticas externas de ambos deverão ser cada vez mais limitadas por fatores internos. Nos EUA, a preocupação com a dívida e o enfraquecimento da competitividade interna está aumentando. O Brasil teve dois presidentes sucessivos cujo carisma os ajudou a mascarar as vulnerabilidades internas; com isso, passaram para a presidente Dilma Rousseff o enorme desafio de institucionalizar seu êxito. Mas nem os EUA nem o Brasil são poderosos o suficiente para resolver sozinhos muitos dos problemas que afetam sua segurança nacional. Washington e Brasília, se não trabalharem juntas, perderão oportunidades e causarão dano aos próprios interesses." / TRADUÇÃO: ELOISA D. MARQUES

PAULO SOTERO É DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE, WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON

DORA KRAMER

Conselho de Segurança
DORA KRAMER

O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/03/11

A reivindicação de reforma do colegiado e cessão de um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU é o assunto principal da pauta de interesses brasileiros na visita do presidente Barack Obama neste fim de semana ao País.
O assunto entrou na pauta no governo Itamar Franco, saiu temporariamente de cena na gestão Fernando Henrique Cardoso, que num discurso na Cepal (Chile) afirmou que o Brasil não poderia ter como prioridade o desejo de ser "polícia do mundo", voltou com força no governo Luiz Inácio da Silva e permanece na agenda da presidente Dilma Rousseff.
Os Estados Unidos relutam em explicitar apoio já manifestado por razões estratégicas específicas, em favor do Japão e da Índia. A defesa clara em favor da reivindicação brasileira criaria arestas com a Argentina e mais acentuadamente com o México.
Do ponto de vista interno, a questão que se impõe é a seguinte: até que ponto é realmente importante o Brasil pleitear o assento permanente no Conselho de Segurança?
Na opinião de dois chanceleres do governo FH, Celso Lafer e Luiz Felipe Lampreia, a reivindicação que anteriormente não era prioritária hoje faz todo sentido.
Por quê? Na visão de Lampreia, porque o Brasil hoje tem uma posição consolidada internacionalmente e o lugar no Conselho de Segurança seria um "ícone" desse novo status.
"Antes a agenda do conselho não atendia às nossas prioridades, que eram meramente econômico-comerciais, mas agora a agenda prioritariamente político-militar dessa instância da ONU já pode se adequar perfeitamente ao papel que o Brasil joga no mundo."
Celso Lafer argumenta na mesma linha, afirmando que o País deixou de ser figurante para assumir o protagonismo adequado a uma nação de proporções (e importância) continentais e que um assento permanente no Conselho de Segurança consolidaria uma aspiração que data do início do século passado (governo Artur Bernardes), agora legitimada pela relevância conquistada pelo Brasil.
"São recursos de poder aos quais nem sempre tivemos, mas agora podemos ter acesso", conclui Celso Lafer.
Mau passo. De Ciro Gomes a Gabriel Chalita, o cientista político José Augusto Guilhon Albuquerque enxerga no PSB um "estoque de vilanias" que desaconselharia a pretendida fusão da legenda a ser criada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, com o partido presidido pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
Para ele, o problema do novo partido não está na trajetória, mas "no ponto de chegada", o PSB. "O estoque de vilanias aplicadas pelo PSB é impressionante. Se tivesse ficado no ninho tucano, o Chalita teria tido votação ainda mais consagradora para deputado federal, teria a secretaria que quisesse e seria candidato quase natural à Prefeitura de São Paulo ou ao governo do Estado", argumenta Guilhon.
Com a saída de Chalita do PSDB para o PSB, argumenta o professor, "Alckmin terá de se desdobrar para apoiá-lo a qualquer cargo pelo PSB". Cita também a "aventura" de Paulo Skaf na candidatura ao governo de São Paulo, em 2010, e lembra que "seria bom" a qualquer pretendente a aliado do PSB se informar com "os irmãos Gomes" (Ciro e Cid) antes de fechar negócio com o partido de Eduardo Campos.
"Se a iniciativa de Kassab não estiver coberta por um plantel considerável de deputados, a opção pelo PSB será um suicídio para o prefeito de São Paulo e seus aliados, entre os quais José Serra. Um golpe de consequências imprevisíveis", considera o cientista político.
Prazo. O prefeito Gilberto Kassab calcula que em três meses, entre coleta de quase 500 mil assinaturas e o sinal verde da Justiça Eleitoral, o novo partido cuja criação será anunciada amanhã estará devidamente legalizado.
Faz sentido. Descoberto por arqueólogos o que o senso comum pressentia: o dinossauro brasileiro era originário do Maranhão. 

GOSTOSA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Lua de mel
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

Decorridos cinco meses desde o segundo turno presidencial, Dilma Rousseff conquistou a confiança de parcela expressiva dos eleitores do PSDB e de José Serra. Na primeira pesquisa Datafolha de avaliação do novo governo petista, apenas 15% dos entrevistados que manifestam preferência pela sigla tucana e votaram no seu candidato consideram a administração ruim ou péssima, e 31% a classificam como boa ou ótima. O desempenho da presidente é regular para 45% dos que se declaram tucanos e para 41% dos que optaram por Serra em 2010.
É o mínimo Eleitores do PDT, cuja bancada rachou na votação do salário de R$ 545, dão maior aprovação a Dilma (45% de ótimo e bom e 31% de regular) que os simpáticos ao fiel PMDB - 40% e 42%, respectivamente.

É o máximo 
Entre os petistas, a presidente obtém 56% de conceitos ótimo e bom e 32% de regular. Só 2% consideram seu início de mandato ruim ou péssimo. Os que declaram ter votado em Dilma dão a ela aprovação similar: 57% de bom e ótimo, e 30% de regular.

Colateral1 
Em pelo menos um aspecto, Aécio Neves poderá se beneficiar do jogo do serrista Gilberto Kassab, adversário, no DEM, justamente da ala mais próxima do senador tucano. Ao arrastar Guilherme Afif para seu novo partido, o prefeito ajudará a manter Geraldo Alckmin amarrado a São Paulo.

Colateral 2 
Com um vice acoplado ao projeto daquele cujo objetivo maior é tirar-lhe a cadeira, o governador não teria condições de deixar o cargo, em 2014, para se lançar em campanha nacional.

Alfabeto 
Do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), comentando no Twitter o batismo da legenda de Kassab: "O partido nem nasceu e já mudou de nome. Não será mais PDB. Virou PSD e vai terminar como PDK".

Lybia is...
A tensão no Planalto só se dissipou depois de confirmado que Barack Obama embarcara no Air Force One rumo a Brasília. Devido à escalada da tensão na Líbia, o governo contemplava a possibilidade de o presidente suspender a visita na undécima hora.

... on the table 

O atraso de mais de meia hora na chegada de Obama ao Palácio foi creditado a telefonemas e outras providências dele exigidas em razão da crise com Muammar Gaddafi. Dilma pediu a assessores uma atualização sobre o assunto antes de se sentar para a conversa com o visitante.

#prontofalei 
De José Serra, no Twitter, em raro momento de concessão: "O voto de abstenção do Brasil na ONU sobre a Líbia foi correto. O governo acertou".

Photo-op 
Descritos no noticiário como adversários dentro do governo, Antonio Palocci (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda) conversaram animadamente -e a dois- enquanto as câmeras registravam o espaço reservado aos ministros na chegada de Obama ao palácio.

Avisa lá 
Dilma soube na quinta-feira, dia de sua viagem a Uberaba (MG), que Lula recusara o convite para comparecer, ao lado dos demais ex-presidentes, ao almoço oferecido a Obama no Itamaraty.

Onde pega 
Quem conhece Lula desdenha da versão segundo a qual a recusa se deveu a um cuidado para não fazer sombra a Dilma. A questão é que o petista não se interessa por eventos nos quais é só um entre vários.


com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio
"Nem os cariocas entenderam a pressa do Obama de chegar logo ao Rio."
DO DEPUTADO EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), sobre a decisão da comitiva americana de deixar Brasília no final da tarde de ontem, o que inviabilizou o jantar que seria oferecido ao presidente e sua família.

contraponto

O meu, o seu, o nosso

Ao defender, no Conselho de Ética, a representação contra Jaqueline Roriz (PMN-DF), Chico Alencar (PSOL-RJ) referiu-se ao "mensalão do DEM", o que irritou o gaúcho Onyx Lorenzoni:
-Quando o esquema começou, o DEM nem existia...
-Entendo sua reação, similar à de meus ex-correligionários, quando se fala no "mensalão do PT", e do PSDB, quando é o "mensalão tucano" em Minas...
Incomodados, deputados desses partidos ameaçaram pedir a palavra, mas o presidente do Conselho, José Carlos Araújo (PDT-BA), resolveu intervir:
-Assim a sessão não acaba nunca!

CELSO MING

Perigo no rótulo
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/03/11

Terça-feira, por meio de seu Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, o Ministério da Justiça abriu processos administrativos contra dez empresas de alimentos por não notificarem em rótulo que seus produtos contêm transgênicos.
Os Procons de São Paulo, da Bahia e de Minas Gerais também participaram da iniciativa que flagrou a irregularidade em biscoitos, bolos, salgadinhos e barras de cereais elaborados com grãos produzidos a partir de sementes geneticamente modificadas. Atinge tanto empresas relativamente pequenas, como Zaeli e J. Macedo, como multinacionais do porte de Nestlé, Kraft, Oetker e Pepsico.
A obrigatoriedade de rotulagem especial foi determinada pelo Código de Defesa do Consumidor. Lei do Estado de São Paulo (número 14.274) também exige que, a partir de 1.º de junho, produtos assim não só apresentem rotulagem diferenciada, mas, também, que sejam expostos e vendidos em lugares especiais.
Esses procedimentos são, no mínimo, discutíveis. Lembram os que vão nas embalagens de cigarro, em que a autoridade sanitária adverte para os graves riscos para a saúde de quem inala os gases da queima de tabaco. A maioria dos transgênicos (casos da soja e do milho) foi desenvolvida para dispensar aplicações dos agrotóxicos que vão nas culturas convencionais. Então, se é para alertar para eventuais riscos para a saúde humana ou animal, seria preciso também advertir o consumidor de que o alimento que leva compostos convencionais pode ser ainda mais nocivo do que o transgênico.
Afora isso, não se sabe o que esperar do consumidor. Por que deveria ele rejeitar os transgênicos, se até agora não houve nenhuma evidência de prejuízos para a saúde? Uma pesquisa do instituto Ipos, encomendada pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação, em 2010, apresentou um resultado nada surpreendente: 74% dos brasileiros nunca ouviram falar em transgenia. Nessas condições, não têm como optar entre o transgênico e o produto convencional. E, até agora, o governo não entendeu que deva fazer algum esclarecimento público sobre o tratamento a ser dado a esses produtos. Devem eles ser evitados como o cigarro?
Edilson Paiva, pesquisador da Embrapa e presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), observa que todos os produtos transgênicos cultivados no Brasil são submetidos a rígidos testes de segurança e que não há nenhuma evidência científica dos supostos males provocados por eles. Se é assim, por que, então, insistir com essas determinações sem sentido?
Atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de commodities transgênicas há duas safras. Na última (2009/2010), foram produzidos a partir de sementes modificadas nada menos que 76% da soja, 57% do milho e 27% do algodão (veja o gráfico). Em alguns anos estarão disponíveis mudas de cana-de-açúcar também transgênicas (veja o Confira).
Esse avanço da transgenia tem lá suas razões econômicas. Seus custos de produção são substancialmente mais baixos: 5,4%, na média nacional da soja, com um retorno 9,9% maior. O aumento da produtividade desse grão transgênico nos últimos dez anos no Brasil foi de 45%. E, se o mundo aguarda uma nova crise de oferta de alimentos, será ainda mais difícil observar determinações conservacionistas desse tipo. / COLABOROU GUSTAVO S. FERREIRA 

NO PAU TINHA UM ESPINHO