domingo, março 20, 2011

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Toque
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/03/11

Cerca de 40% das mulheres consideram saber detectar o câncer de mama. O número é resultado de pesquisa feita em oito países, incluindo o Brasil, com 4 mil delas, entre 25 e 65 anos.

Os dados foram encomendados pela Siemens ao instituto alemão Gesellschaft für Konsumforschung (GfK), quarta maior empresa de pesquisa de mercado do mundo.

A ideia agora é iniciar campanha mundial para aumentar a conscientização do público a respeito do assunto.

Capa dura
Pedro Herz avança. Depois de anunciar a abertura de duas livrarias Cultura no Rio, o empresário abrirá uma terceira loja neste ano: em Curitiba.

Fechará 2011, então, com 14 unidades.

Direto do ABC
Lula e Marisa Letícia venceram a batalha contra as goteiras da cobertura de São Bernardo do Campo, mas ainda desempacotam a mudança.

O casal tem acordado cedo para malhar na academia montada em um dos cômodos.

Quem vem

Drew Faust, presidente de Harvard, chega ao Brasil semana que vem. Motivo? Debate o papel da universidade do Brasil e a internacionalização do ensino. No evento Harvard no Brasil, da Fundação Estudar.

Salão de baile

Aos 71 anos, Suely Franco está suando a polaina nos ensaios de Seis Aulas de Dança em Seis Semanas. Até a estreia do espetáculo, em abril, ela precisa aprender diferentes estilos de dança.

Responsabilidade social

Os alunos da Oi Kabum!, projeto social da Oi, assistem hoje ao discurso do presidente Obama no Theatro Municipal do Rio. O convite foi feito por Dennis Hearne, cônsul-geral dos Estados Unidos no Rio.

O Bar des Arts do Itaim, do grupo Leopolldo, está distribuindo kits educativos sobre o câncer de mama para os clientes. Parceria com o Instituto Se Toque, de Mônica Serra.

A Abbott ajudará com US$ 3 milhões as vítimas do terremoto e do tsunami que devastaram o Japão. A doação será encaminhada para à Cruz Vermelha daquele país.

Ana Cury e a Livraria da Vila uniram esforços. Vão arrecadar livros novos ou em bom estado de conservação para bibliotecas de entidades carentes durante o Fashion Weekend Kids. A partir do dia 25, no Shopping Iguatemi.

A Merck S/A, indústria química e farmacêutica, avisa que apoiará três projetos sociais em 2011: a Escola do Olhar e Expoarte, em São Paulo, e a Escola de Música e Cidadania da Cidade de Deus, no Rio. Investimento? R$ 320 mil.

Em comemoração ao Dia Internacional da Síndrome de Down, o Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural promove jornada de atividades. Com direito à mostra de arte com obras criadas por excepcionais. Amanhã, na Cinemateca Brasileira.

Começa na próxima semana a série de espetáculos-aulas Horizontes Musicais, com apresentações de Hermeto Pascoal, Quaternaglia, grupo PIAP e Camerata Aberta. Para 20 mil alunos do Projeto Guri em São Paulo.

CLÓVIS ROSSI

O que vale é a palavra
CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

SÃO PAULO - Vou ser teimoso e ainda torcer para que o discurso do presidente Barack Obama, hoje, no Rio, seja de fato capaz de produzir uma conexão entre ele e a sociedade brasileira, ou, ao menos, a parte da sociedade brasileira que se interessa por essas coisas.
Passo por cima da parte oficial da visita, que estava apenas começando enquanto escrevia, porque essa fatia é sempre acertada antes. Não promete nada de extraordinário, até porque as relações Brasil/Estados Unidos estão no ouro sobre azul desde as gestões Fernando Henrique Cardoso/Bill Clinton, passando por Lula/Bush (o melhor ponto) e assim seguindo com Lula/ Obama.
Rusgas, houve. Mas, do meu ponto de vista, bem menores do que o Fla-Flu que uma parte da mídia gosta de introduzir nas relações internacionais. Além disso, "não há relações perfeitas" entre países, quaisquer que sejam, como ensina Shannon O"Neil, especialista em América Latina do Council on Foreign Relations.
Mesmo no caso do Irã, a diplomacia brasileira seguiu basicamente o discutido com a Casa Branca. Se algo deu errado, foi culpa de um erro de cálculo do Departamento de Estado sobre a aceitação pelo Irã da proposta turco-brasileira a respeito do enriquecimento de urânio no exterior.
Ou seja, se houve irritação, ela deveria ter sido maior do lado brasileiro do que do americano.
Voltemos, pois, ao discurso. Barack Obama é rematado mestre nessa arte. Fez para os muçulmanos, no Cairo e para os europeus, em Berlim (antes ainda da vitória), discursos memoráveis pelo engajamento prometido e pela compreensão demonstrada das peculiaridades de cada tribo.
É verdade que, depois, o vento levou as palavras. Mesmo assim, espero que toque na corda certa hoje, ainda que o efeito seja efêmero. Tudo no mundo de hoje é assim.

GOSTOSA

ELIANE CANTANHÊDE

Chuvas e bombas
ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

BRASÍLIA - Choveu à noite e ainda chovia quando o Air Force One se aproximou de Brasília, famosa pela seca desértica. Mas, quando o avião tocou o solo, fez-se o sol. Um alívio para a diplomacia brasileira. Obama, Michelle e as duas filhas desceram as escadas sem problemas na primeira visita ao Brasil.
A torcida era para que a visita seguisse o mesmo "script" e, precedida de temores, resultasse em sucesso. Mas o tempo e o momento não ajudaram, com radiação atômica no Japão, o mundo árabe em chamas e principalmente as nuvens de guerra sobre a Líbia.
Enquanto Dilma e Obama se reuniam no Planalto, jatos franceses sobrevoavam o país de Gaddafi. A visita, o Brasil, as relações bilaterais passaram ao segundo plano. Sobretudo na mídia.
Para piorar, Obama desembarcou no Brasil dois dias depois da resolução da ONU que, além de liberar o ataque à Líbia, colocou EUA e Brasil em lados opostos.
Obama articulou a resolução e os dez votos decisivos, enquanto o Brasil trabalhava a abstenção dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e da própria Alemanha, com quem divide o G-4, grupo dos países que almejam uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Essas nuvens que pairaram sobre a visita pioravam a cada momento, diante do temor de que os ataques começassem bem na hora dos discursos e da assinatura do comunicado conjunto. De fato, começaram no meio do banquete no Itamaraty.
A quilômetros do Planalto e das solenidades oficiais, centenas de empresários brasileiros e americanos esfregavam as mãos diante das oportunidades a serem geradas, mas o grande tema econômico seria petróleo, e o secretário de Energia, Stevens Chu, cancelou a vinda na última hora.
O que sobra da viagem? O gesto, a elegância de Obama e o discurso de cobrança de Dilma. Nada disso foi ou será manchete no mundo.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Jundiaí tenta frear avanço de obras de grande porte
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

A Câmara Municipal de Jundiaí (SP) aprovou na semana passada um projeto de lei que pode barrar a entrada de empreendimentos imobiliários por até seis meses na cidade.
O objetivo é frear o crescimento desordenado, segundo o vereador Durval Orlato (PT), autor do projeto.
"A especulação imobiliária é grande. É caótico. A cidade tem mais de 300 anos e suas ruas são estreitas. Com tantas aprovações de loteamentos comerciais e condomínios para as classes A e B, há preocupação, o trânsito cresce", afirma.
A suspensão, por até 180 dias, abrange novos projetos de conjuntos habitacionais com mais de 4.000 m2 e centros comerciais, industriais e de serviços com mais de 3.000 m2, além de loteamentos acima de 50 lotes residenciais, segundo a prefeitura, que ainda necessita assinar a aprovação final.
Durante o período de "trégua", serão discutidos projetos de estudos sobre impactos para vizinhanças e eventuais contrapartidas que podem vir a ser cobradas do setor privado, de acordo com Orlato.
Pode ser suspensa a tramitação de 150 projetos de empreendimentos imobiliários que se enquadram nos parâmetros do texto, informa a prefeitura.
"Não serão paralisadas obras públicas de tamanho nenhum, nem projetos já em andamento. Só param os que ainda não receberam aprovação", afirma Júlio César de Oliveira (PSDB), presidente da Câmara.
Empresas do setor imobiliário, como MRV e Gafisa, entre outras, que estão presentes na cidade, não comentam o caso.

Agência lança pacote para área restrita do Vaticano
Uma visita à Capela Sistina, no Vaticano, fechada com apenas 25 pessoas, assentos especiais em uma missa celebrada pelo papa, uma refeição em dependências onde o pontífice recebe líderes de governos estrangeiros e outros luxos exclusivos serão oferecidos por dois anos pela operadora de turismo Agaxtur.
O roteiro é resultado de uma sugestão feita por um empresário brasileiro aos patronos das artes para os museus do Vaticano em parceria com uma companhia norte-americana.
A viagem dará acesso a áreas até então fechadas ao público. O laboratório de restauração de esculturas, o museu de carruagens e os arquivos secretos com documentos como os do julgamento de Galileu são locais que poderão ser visitados.
"A ideia é passar a experiência arquitetônica e artística de áreas restritas do Vaticano", diz Aldo Leone Filho, presidente da operadora.
O passeio, com duração de uma semana, custará 7.960 (cerca de R$ 18,8 mil) por pessoa, a parte terrestre.
Uma parcela dos recursos será destinada à manutenção dos museus, segundo Marcus Macedo, diretor do Exim Licensing Group, responsável pelo roteiro e parceiro da Agaxtur no projeto.

O QUE EU ESTOU LENDO

Richard Jefferson, presidente do instituto Cambia

Especialista em biotecnologia agrícola, o PHD Richard Jefferson, presidente do instituto australiano Cambia, destaca um dos livros que lê: "The Murder of Nikolai Vavilov: The Story of Stalin's Persecution of One of the Great Scientists of the 20th Century" ("O Assassinato de Nikolai Vavilov: A História da Perseguição de Stalin a Um dos Maiores Cientistas do Século 20", ed. Simon & Schuster), do inglês Peter Pringle.
"É uma história fascinante de um "Indiana Jones" da botânica. Desenvolveu conceitos sobre biodiversidade e fez descobertas, inclusive do Brasil. Foi muito perseguido por Stalin, e, cruel ironia para um gigante da ciência da agricultura, morreu de fome na prisão", diz.

Motorizado 
Com nove unidades no interior de São Paulo, o grupo Citröen Le Mans investiu R$ 13 milhões para abrir duas lojas na capital paulista e planeja mais duas para a Grande São Paulo.

Entidade 

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo será lançado no próximo dia 25 durante o Fórum da Arquitetura e Construção, em São Paulo. A entidade começará a funcionar em 2012.

Carga... 

Grandes consumidores criaram, em São Paulo, a Frente para Defesa dos Consumidores de Energia, que reúne a Abrace (associação de consumidores industriais de energia), o Procon, entre outros órgãos do setor.

...tributária 

A redução de encargos e a metodologia das revisões tarifárias das distribuidoras estão entre as propostas que serão discutidas pela nova organização.

Banco de água 
A Sabesp e a Ambev fecharam uma parceria para criar um banco de água. Quem reduzir o consumo ganhará pontos que poderão ser trocados por descontos em compras on-line.

Economia 
A Petrobras reutilizou 17,3 milhões de m3 de água no ano passado. A empresa também dessanilizou 1,3 milhão de m3 de águas do mar para utilização em suas unidades marítimas.

Contaminação 
A Associação Brasileira da Indústria de Cloro, Álcalis e Derivados fechou acordo com a Planitox para utilização de produtos que evitem a transmissão de doenças em áreas alagadas.

Fronteiras 
A Pixeon vai ampliar seus trabalhos na região da América Latina. A empresa que desenvolve softwares para diagnósticos de imagem abrirá sua primeira unidade na Argentina.

ÀS COMPRAS

O grupo Almeida Junior planeja injetar R$ 1,1 bilhão na construção e na aquisição de shopping centers.
A empresa destinará R$ 600 milhões para investimentos que serão feitos em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul até 2015.
Outros R$ 500 milhões já estão sendo aplicados na ampliação dos três shoppings que o grupo administra em Santa Catarina e na construção de mais dois.
"Há cinco anos, planejamos dominar nosso Estado. Agora, que temos 55% do mercado, começamos a pensar em outras oportunidades no Sul e no Sudeste", diz o CEO do grupo, Jaimes Almeida Junior.
O empresário cogita entrar nas capitais e em cidades de médio porte.
Junior estuda ainda abrir o capital da empresa dentro de quatro anos.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

SEM

MÍRIAM LEITÃO

Afirmação e fato
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 20/03/11 

Na primeira entrevista longa concedida pela presidente, e brilhantemente conduzida por Cláudia Safatle, do "Valor", fica claro que a presidente desposa um conjunto de confusões teóricas que já nos levou a apuros no passado.
Não há, como Dilma parece acreditar, um bando de malfeitores sádicos que tenha decidido no passado "derrubar a economia" só pelo prazer da derrubada. A luta do Brasil contra a inflação descontrolada levou à adoção de medidas que reduziram o ritmo do crescimento, em alguns momentos; mas a falta de crescimento sustentado se deve a obstáculos não resolvidos ainda, como a falta de poupança.
Um grupo de pensadores econômicos sempre defendeu a tese de que é preciso aumentar a oferta de bens para depois derrubar a inflação. Esse debate tem data vencida. A tese ficou para trás por absoluta incapacidade de dirimir uma duvida básica: antes de ser crescimento, o investimento é demanda agregada. Se a inflação baixa não é pré-condição, mas resultado final do processo, o que acontecerá no meio do caminho: alguma inflação e alguma gravidez?
O mais sensato é manter a economia estabilizada, como primeiro objetivo, para que haja mais segurança para o investimento e o crescimento se sustente. Depois de décadas de falso dilema, já está provado que a estabilização é base do crescimento; e que é perigoso pegar o caminho pelo lado contrário: aumentar o crescimento para elevar a oferta e assim derrubar a inflação.
Está datada também a tese defendida pela presidente de que a inflação não é de demanda. Houve um tempo em que o Brasil ficou parado nessa discussão: é-de-demanda-não-é-de-demanda. Hoje, já se sabe que a inflação quando se eleva nunca tem uma razão apenas. A taxa subiu porque algumas commodities, principalmente alimentos, subiram de preços. Inúmeros fatores influenciam nesses preços, como se viu nos últimos dias. Há aumentos sazonais, como os escolares, mas nem todo aumento de preço é de temporada apenas. Há também o fato de que o governo gastou demais no ano passado, o BNDES manteve seus estímulos em empréstimos subsidiados, o crédito cresceu fortemente animando consumidores às compras. Todas as lenhas alimentaram a mesma fogueira. Numa situação assim, alguém tem que recuar. Melhor que seja o governo. Os gastos públicos são cortados para que se possa manter o consumo privado. É diferente de "derrubar a economia". É apenas uma questão de bom senso.
A presidente diz que o Brasil não cresceu além das suas possibilidades e que não vai derrubar a economia, mas os juros subiram e já se sabe que a economia crescerá menos este ano. Ela não vê contradição entre anunciar R$50 bilhões de corte no orçamento e endividar-se em mais R$55 bilhões para emprestar para o BNDES, que emprestará para as empresas a juros abaixo do que o Tesouro paga. Isso é gasto público também e portanto incoerente com o corte de gasto.
Então suas frases fortes de que não aceitará a volta da inflação em nenhuma circunstância são tão convincentes quanto tudo o mais que ela disse que desmonta a frase. O governo não pretende conter de fato seus gastos, nem os gastos extra-orçamentários via BNDES, e avalia que a inflação é um problema sazonal, que dá e passa.
O BNDES usa todos esses abundantes empréstimos para continuar tomando decisões controversas: financiar siderúrgica a carvão de Eike Batista e entrar de sócio nessa térmica da energia suja; financiar hidrelétricas na Amazônia sem cautela social e ambiental; ser sócio de frigoríficos que não comprovam a origem da carne que compram.
O crescimento moderno tem que ter qualidade. Não é possível repetir os mesmos erros. Este fim de semana chegou com as duas obras de hidrelétricas do Rio Madeira paralisadas. Em Jirau, por assustadores problemas trabalhistas, e em Santo Antônio, por anúncio preventivo feito pela empreiteira responsável.
Por ironia, o consórcio que constrói Jirau chama-se Energia Sustentável. E nada é sustentável, a começar do preço estabelecido inicialmente. O consórcio ganhou a disputa pelo preço baixo, que foi considerado irrealista pelo concorrente. Na época, o governo disse que não aconteceria de novo o velho truque do passado de as empreiteiras pediram revisão de preço ao longo da obra. Pois já aconteceu: segundo o jornal "Valor Econômico" de 10 de março, Jirau que estava orçada em R$9 bilhões já está em R$13 bilhões. O truque? O mesmo de sempre: alegar que no meio do caminho havia uma pedra. Mais escavações foram necessárias e a obra ficou mais cara. Simples.
Mas caro mesmo ficou nos últimos dias quando uma rebelião de trabalhadores estourou no canteiro de obras e o governo em vez de mandar fiscais do Ministério do Trabalho para ouvir os operários mandou a Força Nacional para ajudar a empresa num conflito trabalhista.
Hoje em dia, crescimento tem que ser sustentável do ponto de vista ambiental, e sustentado do ponto de vista econômico. A presidente não parece estar atenta para as duas exigências quando defende velhas interpretações sobre a natureza da inflação brasileira e quando seu governo toca projetos de grande porte na Amazônia sem as devidas garantias ambientais e sociais. Afirmações e fatos precisam coincidir, do contrário, são palavras ao vento.
Afirmação e fato
A presidente Dilma Rousseff disse que não negociará com a inflação nem aceitará que ela suba. Daí em diante, todo seu raciocínio desmontou a afirmação. Acha que não há componente de demanda na inflação - que está perto do topo da meta, depois do PIB de 7,5% -; diz que se o país crescer, a inflação cairá; não vê contradição entre cortar R$50 bilhões e elevar gastos em R$55 bilhões.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O mundo ainda está perigoso
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
O Estado de S.Paulo - 20/03/11

Prometi em meu último artigo continuar a análise das dificuldades enfrentadas pela produção nacional, especialmente industrial, para crescer. Mas os acontecimentos das duas últimas semanas praticamente obrigam o analista a falar da situação internacional e deixar para mais adiante a questão do crescimento potencial.

Defendi aqui, por mais de uma vez, que a economia mundial irá crescer relativamente bem em 2011 e 2012. A expansão asiática parece firme, ainda que pesem as tentativas das autoridades, especialmente as chinesas, para reduzir as pressões inflacionárias; a expressiva recuperação da economia americana é cada vez mais evidente; Alemanha, Holanda, França, Polônia e países nórdicos ostentam um crescimento sólido. Mesmo a ameaça ao euro, colocada pelas crises de dívida do sul do continente, parece mais bem encaminhada, pela seriedade com que a maioria dos países tem encarado a questão fiscal, e pela crescente aceitação que uma reestruturação da dívida, pelo menos no caso grego, será inevitável.

Entretanto, considerem os seguintes fatos: os preços de commodities, exceto petróleo, caíram bem nos últimos dias; o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra sugeriram que irão brevemente apertar a política monetária para lidar com a elevação da inflação; o Japão foi assolado por um fortíssimo terremoto, um tsunami, um grave acidente em usinas nucleares, que provocaram uma crise humana e social, com fortes impactos econômicos (justamente quando se anunciava um crescimento do PIB em 2010, uma cruel ironia); e, finalmente, o conflito na Líbia escalou para uma guerra civil (culminando, inclusive, na decisão do Conselho de Segurança da ONU em intervir no conflito) enquanto movimentos oposicionistas crescem em Bahrein e na Arábia Saudita.

A pergunta que se coloca é se o cenário de crescimento mundial se mantém ou não. Em nossa opinião a resposta depende essencialmente do que ocorrer com o suprimento de petróleo, embora seja evidente que o risco se elevou e a nebulosidade seja maior. Está mal informado aquele que acha que sabe tudo o que está acontecendo.

Analisamos a seguir estes diversos eventos para submeter aos leitores o porquê de nossa conclusão.

Oriente Médio e preço de petróleo: Antes mesmo dos eventos que se iniciaram com a revolta no Egito já estava claro que o mercado de petróleo estava muito apertado e os preços já apontavam para a faixa de US$ 100. Com o forte crescimento dos mercados emergentes, a demanda global cresceu 2,7 milhões de barris/dia em 2010 e tem projetado um novo crescimento de 1,4 milhão neste ano, atingindo 89 milhões de barris/dia. A oferta vem acompanhando com dificuldade este crescimento, o que levou a uma queda dos estoques. Ainda assim, o crescimento chinês seguia forte, assim como a recuperação americana. Naturalmente, a escalada de conflitos elevou a apreensão de todos, especialmente depois que a situação na Líbia escalou para uma guerra civil. Este país produzia algo como 1,6 milhão de barris/dia, quantidade que se reduziu substancialmente com o conflito, mas não levou a uma explosão descontrolada de preços porque a Arábia Saudita, que tem uma capacidade ociosa de algo como 3 milhões de barris, anunciou que elevaria a produção, garantindo os embarques. O jogo principal se deslocou para uma eventual ocorrência de problemas no reino saudita, algo que os iranianos gostariam muito de ver, especialmente por estimular a revolta xiita em Bahrein. Enquanto escrevo este artigo não existe evidência de riscos iminentes para Riad, e a oferta de petróleo segue apertada, porém fluindo. Se isto continuar, como acredito, o preço do óleo ficará em torno de US$ 100 e a grande ameaça para a economia mundial não se concretizará. Em caso de um conflito maior, os preços sairiam de controle e o crescimento global poderia ser severamente comprometido. Mais uma vez, acredito que aqui está o único grande risco à expansão global.

Preços de commodities: A queda das cotações, antes de tudo, reflete a diminuição das posições compradas frente a uma abrupta elevação dos riscos de um conflito maior no Oriente médio, do tamanho dos estragos no Japão e, especialmente, de uma possível redução no crescimento chinês. O curso futuro dependerá de uma avaliação mais precisa de todos estes elementos. Como colocamos acima se o fluxo de petróleo se mantiver, o crescimento da China será pouco afetado e, em consequência, os preços deverão voltar e refletir os fundamentos dos mercados, recuperando parte das quedas recentes. No caso mais específico dos preços agrícolas é útil relembrar que a demanda continua forte e os choques de oferta ainda estão presentes. Por exemplo, há poucos dias o New York Times publicou uma matéria mostrando que a produção de café na Colômbia despencou de 15 para 8 milhões de sacas no ano passado, especialmente por conta do aparecimento da ferrugem (velha conhecida dos brasileiros). A elevação das temperaturas e chuvas torrenciais permitiram o aparecimento da praga, que não existia na região. Criou-se uma aguda escassez de cafés finos no mercado, que não será resolvida no curto prazo, o que empurrou as cotações para níveis bastante elevados. Por outro lado se as safras das Américas forem realmente boas, como será a brasileira, os preços de grãos podem cair alguma coisa no segundo semestre.

Elevação dos juros na Europa: A inflação cheia atingiu 4,0% na Inglaterra e 2,4% na zona do euro, enquanto os núcleos foram, respectivamente, de 3,0 e 1,2%, o que levou os respectivos Bancos Centrais a sugerir uma elevação nas taxas de juros para breve. Neste caso a retomada inglesa ficará prejudicada e a situação do sul da Europa mais difícil; entretanto, não acredito que a força da economia alemã, holandesa ou nórdica será severamente prejudicada, desde que, mais uma vez, o suprimento do petróleo não seja fortemente prejudicado.

Japão: A catástrofe japonesa é gigantesca, mesmo não sabendo ainda como terminará o acidente nuclear e, portanto, de todos os seus custos humanos, sociais, ambientais, de infraestrutura e econômicos. É realmente uma cruel ironia este choque quando parecia que o país poderia iniciar uma recuperação econômica, depois de muito tempo de estagnação. Embora possa se dizer que os gastos com a recuperação irão gerar algum alento para a atividade econômica, parece-me claro que o vetor resultante é recessivo. Entretanto, nosso cenário básico de crescimento mundial não previa nenhuma contribuição significativa da economia japonesa. Mais uma vez, o crescimento da Ásia emergente, dos Estados Unidos, do norte da Europa e de países produtores de commodities (Canadá, Austrália, Brasil, etc.) é que dará o resultado deste ano.

Embora a volatilidade e a incerteza tenham se elevado, a oferta de petróleo é que dará o tom do crescimento. Se o fluxo de produção e embarque de óleo continuar, nosso cenário básico de crescimento deverá prevalecer. Entretanto, como filho de mineiro que sou, tenho que lembrar que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém numa situação desta. Definitivamente, não é hora de esperteza.

PS: Este artigo foi escrito na sexta-feira, 18 de março.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

GOSTOSA

YOANI SÁNCHEZ

Letras góticas na parede

YOANI SÁNCHEZ

O GLOBO - 20/03/11

Quando os filhos chegam a essa idade difícil que são os 17 anos, nós mães já estamos um tanto esgotadas pelas transformações de sua longa adolescência. Começam então a se cumprir, ou a frustrar-se, os sonhos de estudos superiores que, juntos, acalentamos. Aqueles que passaram pelo pré-vestibular faltando às aulas e com o caderno dobrado no bolso veem refletir-se o resultado de suas andanças na incapacidade de entrar na universidade. Todavia, para quem esteve maior tempo junto aos livros, nem sempre o desenlace corresponde a suas expectativas profissionais. A imprensa oficial cubana acaba de anunciar que haverá este ano uma importante redução das vagas para o ensino superior.

Durante várias décadas em Cuba, os jovens passavam automaticamente do ensino médio ao superior, sem vestibular. Eram os anos do escoramento do regime pelo Kremlin e existia a ideia de que todos devíamos obter um diploma de graduação em algo. Os trabalhos manuais foram subestimados e tarefas como semear a terra, varrer um parque ou reparar um eletrodoméstico eram muito pouco valorizadas socialmente. A profissão mais desejada pela maioria dos pais - os filhos em geral se deixavam levar pelo desejo dos progenitores - era a de médico. Daí que milhares e milhares de futuros doutores desfilaram pelas congestionadas aulas das faculdades de medicina.

Nas salas das casas podiam ver-se, emoldurados em dourado, títulos tão incríveis como "Engenheiro em reações nucleares" pela Universidade de Moscou ou "Especialista em exploração hidrelétrica" graduado em Leipzig, antiga Alemanha Oriental. As famílias competiam entre si em relação à especialidade a que se dedicariam seus rebentos, enquanto obrigavam os menores a entrar nas aulas do ensino superior. O pior desengano para um pai era escutar que seu jovem filho somente queria ser enfermeiro ou taxista. As ruas se encheram de gente com os mais altos estudos, mas faltavam braços para fazer as tarefas manuais de cada dia. A pirâmide profissional se inverteu e chegaram, então, novos problemas.

Ao nos cair em cima a crise econômica dos anos 90, todo esse desespero para obter um diploma foi por água abaixo. Passou a ser comum ver-se como motorista de um ônibus turístico o aplicado neurocirurgião que até há pouco salvava vidas numa sala de cirurgia. Salários ínfimos desestimularam professores, engenheiros e acadêmicos a seguir exibindo, com orgulho, o fruto de seus longos estudos. Ante as limitações legais para sair do país, os graduados em centros de altos estudos se viram em desvantagem diante de técnicos e operários que podiam viajar com mais liberdade.

Outro tanto ocorreu com os sonhos paternos em relação ao futuro profissional de seus filhos. Em muitos lares, deixou-se de estimular os adolescentes a entrar na universidade, para indicar-lhes o caminho curto de um emprego manual pelo qual obteriam melhor remuneração. Voltou-se a dizer, com orgulho, "meu filho é mecânico" ou "a menina quer ser cabelereira", pois em trabalhos como esses podia-se ganhar, num dia, o que um sacrificado médico obtinha num mês. Alguns até advertiam claramente os filhos de que o diploma já não era um fetiche para mostrar aos amigos, mas um forte grilhão que os ataria ao trabalho estatal.

Minhas amigas preferem que seus filhos vendam pizzas ou façam trabalhos de costura, numa sociedade repleta de profissionais que não encontram emprego de acordo com seus conhecimentos. Jogam-lhes na cara se preferem passar cinco anos estudando para depois receber um salário menor que o do vizinho, que preferiu trabalhar por conta própria.

Os papéis se inverteram e agora as avós alardeiam que um neto se tornou cozinheiro de um hotel, de onde traz todos os dias alguma carne e leite. Os diplomas de antanho seguem nas salas das famílias, embora hoje gerem mais interrogações do que poses de orgulho. Uma boa parte dos profissionais, ao ver as letras góticas que confirmam sua alta capacitação, somente atinam a se perguntar se valeu a pena, se tão longo sacrifício foi para isto.

YOANI SÁNCHEZ é filóloga. Blog: www.desdecuba.com/generaciony.

ELIO GASPARI

De eisenhower@edu para obama@gov
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11

Na campanha de 2008 o senhor dizia que "nós podemos", mas eu lhe pergunto: podemos o quê?


SENHOR PRESIDENTE,
Outro dia acompanhei o Juscelino Kubitschek numa caminhada pela avenida Rio Branco. Ela passa ao lado do Teatro Municipal, onde o senhor discursará, depois de desistir de um comício blindado. Há 50 anos eu e JK fizemos esse percurso num carro aberto, sob uma chuva de papéis, confetes e serpentinas. Disseram que a cidade antecipara o Carnaval. Nas calçadas, o povo acenava com bandeirinhas de "We Like Ike". (Esse apelido pegou. Até o Stálin me chama de Ike.)
Dói ver as restrições a que submetem o senhor, Michelle, Malia e Sasha. Nos oito anos que fiquei na Casa Branca, de 1953 a 1961, nunca passei por coisa parecida. Na minha passagem pelo Rio só me assustei quando um sujeito fardado veio na minha direção com uma enorme espada. Era um general, saudando-me. Os estudantes estenderam uma bandeira no seu prédio dizendo que "We Like Fidel". Eu lhes fiz um aceno. Espero que o senhor Castro não apareça por aqui tão cedo porque não o tolero e pretendo evitá-lo. Até com o Mao Tse-tung convivo bem, apesar de sua presença ser desconfortável, pois não toma banho nem escova os dentes. Faço-lhe uma confidência: ele e o general De Gaulle ficaram muito amigos e estão escrevendo um livro a quatro mãos.
Soube que há gente comparando seu novo estilo na Presidência com o meu. Eu cheguei à Casa Branca como general, depois de comandar os exércitos aliados na maior guerra da história. Sim, nós vencemos. O senhor chegou com uma currículo de coronel, dizendo que "sim, nós podemos". Eu acabei com uma guerra que ninguém poderia vencer, na Coreia. O senhor herdou duas, ambas sem vitória possível. Eu teria acabado com elas no primeiro ano de mandato. Podemos o quê? Quero propor-lhe um cenário de crise.
Imagine-se no auge da campanha de 1956, sabendo que a Inglaterra, França e Israel atacaram o Egito para tomar-lhe o controle do canal de Suez. Dois dias antes da eleição, tanques da União Soviética invadem a Hungria, depõem o governo, cujo primeiro-ministro será enforcado, e matam 2.500 pessoas. Eu tivera um infarto, operara o intestino e o secretário de Estado acabou no hospital, com um câncer no estômago.
O que fiz? Nada. Condenei as duas invasões.
Às vezes, fazer nada, ou o mínimo, parece difícil, impossível mesmo. A oposição democrata achava que podíamos entrar em pelo menos uma dessas brigas. Havia até um professor, Henry Kissinger, acreditando que seria possível usar armas atômicas em guerras limitadas. Disso eu entendo, era maluquice. Nós ganharíamos a Terceira Guerra evitando-a. Diante do terror nuclear, no qual se estimava que morreriam 65% dos americanos, eles supunham que poderiam começar um conflito no estilo doce e suave do que houve entre 1939 a 1945. Guerra é o inferno, não é um brinquedo, como os videogames dos meus bisnetos.
Uma coisa é fazer o mínimo quando a valentia pode levar a um desastre, bem outra é não usar a força quando ela é o meio adequado de dissuasão. Um ano depois de não fazer nada na Europa e no Egito, eu mandei a 101ª Divisão de Paraquedistas para Little Rock, onde o governador se recusava a cumprir uma decisão da Corte Suprema que mandava acabar com a segregação racial nas escolas. Tem gente que acha que esse tipo de passo foi dado pelo meu sucessor, John Kennedy. Paciência.
Presidente Obama, acredite: o mais difícil é descobrir quando nós não podemos. Só não digo que esse foi o erro de seu antecessor porque o 11º mandamento determina que um republicano não fala mal de outro.
Finalmente, um pedido. Kubitschek contou-me que um brasileiro interessado em obter um visto para visitar os Estados Unidos precisa esperar 105 dias para a entrevista no nosso consulado do Rio. Em Brasília são 134 dias e em São Paulo, 107. Acabe com essa incompetência estrutural. Não devemos esconder inépcia atrás da máscara da arrogância. Isso, nós podemos.
Mamie recomenda-se a Michelle e despeço-me, como seu obediente soldado.


FOGO PAULISTA

O ministro da Educação, Fernando Haddad, está debaixo de chumbo. Os tiros vêm da Casa Civil.


TOCA MAIS, ARRUDA

Estava escrito nas estrelas que um dia José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília e grão mensaleiro do DEM, daria nomes e números aos bois. Ele fez isso dentro da lógica petista segundo a qual coletar e embolsar dinheiro a pretexto de campanhas eleitorais não é crime. Apresentou-se como um irradiador de recursos para o DEM, o PSDB e até o PT.
Segundo ele, "dancei a música que tocava no baile", pois "fazia tudo de coração, com a melhor das intenções".
Se a Polícia Federal e o Ministério Público puxarem todos os fios da meada, Arruda poderá vir a prestar o maior serviço de sua carreira política. É só falar mais.
QUEM É KASSAB?
Gilberto Kassab começou a sua carreira política no malufismo e chegou ao secretariado do inesquecível prefeito Celso Pitta. Passou pelo PL, mudou-se para o PFL e, graças a uma aliança com o PSDB, aninhou-se na Prefeitura de São Paulo.
Com a decadência do seu partido, negociou uma aproximação com o PT, ameaçou filiar-se ao PMDB e flertou com o PSB. Agora, informa que poderá criar um novo partido, o PSD.
Ganha uma viagem de ida a Trípoli quem for capaz de repetir uma ideia política defendida por Kassab. Ganha uma viagem de volta quem for capaz de dizer o que significará esse partido.
Numa época em que a caciquia política nacional defende uma reforma política para fortalecer os partidos, Kassab simboliza a sinceridade dessas opiniões.


VIVA O AMARELINHO

Para a coleção de frases do ano, de Eduardo Paes ao repórter Ancelmo Goes, depois de saber que o companheiro Obama cancelara o showmício da Cinelândia:
"Pelo menos não entro para a história como o prefeito que fechou o Amarelinho."
E o Amarelinho entra para a história como o bar que nem o presidente dos Estados Unidos conseguiu fechar.


EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e resolveu fazer um servicinho extra para que o presidente da Claro, doutor Carlos Zenteno, possa avaliar o desempenho de sua empresa.
Ele tomou um caso de cobrança indevida da operadora contra uma vítima que acabara de contratar o plano mais barato disponível, de R$ 92,90, e ao fim do mês recebeu uma conta de R$ 322,86. Coisas da vida, erros acontecem.
O idiota resolveu anotar tudo o que lhe aconteceu a partir daí. Teve que tratar pessoalmente do caso em duas ocasiões, dar 14 telefonemas e mandar cinco e-mails. Em troca, recebeu uma nova cobrança, de mais R$ 776,28. O aparelho (que o imbecil não sabe usar) foi bloqueado.
Eremildo consumiu sete horas de trabalho ao longo de 29 dias para se livrar da faca da Claro. Cretino profissional, ele vive com salário de R$ 5.000. Isso resulta em R$ 31,25 a hora. Portanto, perdeu R$ 218. Como devia apenas R$ 166,33, ao longo de um mês gastou mais em tempo trabalhando para escapar da Claro do que usando os seus serviços.
Apesar de tudo, Eremildo está feliz. Para ele é um prazer registrar que a empresa do homem mais rico do mundo esteve a fim de meter a mão no seu bolso.

QUE TE VIU, QUEM TE VÊ

CELSO LAFER

A ''Oração aos Moços'', de Rui Barbosa: 90 anos
CELSO LAFER
O Estado de S.Paulo 20/03/11

Em março de 1921, a Oração aos Moços, de Rui Barbosa, foi ouvida na sessão solene da formatura da turma de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo. Rui foi o paraninfo dessa turma e para ela, que se empenhou em homenageá-lo no jubileu de ouro da sua formatura, escreveu a Oração aos Moços, que foi lida pelo professor Reinaldo Porchat, pois Rui, adoentado, não pôde comparecer à cerimônia, que, nas suas palavras, assinalava os seus "50 anos de consagração ao Direito" no "templo do seu ensino na São Paulo", onde estudou e se formou em 1870 e teve como colegas Castro Alves, Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves e Afonso Pena.

A Oração aos Moços tem sido qualificada como o testamento político de Rui. Pode ser considerada uma explicitação do seu legado. Foi, como disse, uma oportunidade para, no termo da sua existência intelectual, tratar do significado da sua lida com o Direito.

Rui é um paradigma em nosso país dos advogados que se valeram do Direito como instrumento de ação política, como observou Afonso Arinos. Por isso viveu os grandes temas do Direito, que dominava em profundidade, em função do agir, como realçou Miguel Reale.

Em discurso no Instituto dos Advogados (18/5/1911) Rui, nessa linha, afirmou que o trato usual do Direito ensina e predispõe a desprezar a força, apontando que "os governos arbitrários não se acomodam com a autonomia da toga nem com a independência dos juristas". Daí o positivo papel dos advogados na vida de uma democracia. Na Oração aos Moços explicita que se dedicou, desde os bancos acadêmicos, à tarefa de "inculcar no povo os costumes de liberdade e à República as leis do bom governo, que prosperam os Estados, moralizam as sociedades e honram as nações". Destaca o papel da Justiça e observa que ela tem dois braços: "a magistratura e a justiça". Critica os "togados que contraíram a doença de achar sempre razão ao Estado, ao governo". Na missão de advogado engloba uma espécie de magistratura: a da justiça militante. Nisso inclui: "Não colaborar com perseguições ou atentados nem pleitear pela iniquidade ou imoralidade. Não se subtrair à defesa das causas impopulares nem das perigosas, quando justas".

A Oração aos Moços tem a característica de um local de memória da tradição cívica jurídico-política da Faculdade de Direito, que Rui encarnou e da qual é um grande ícone. Noventa anos depois de ter sido proferida, cabe a pergunta sobre sua atualidade.

Bolívar Lamounier apontou que o legado de Rui enfrentou, no correr dos anos, uma dupla desqualificação. Uma, proveniente do pensamento autoritário da direita, outra, do pensamento autoritário da esquerda. Assim, por exemplo, seja na perspectiva da ditadura republicana dos positivistas, seja na da ditadura do proletariado dos comunistas, a militância de Rui em prol da democracia e do governo das leis foi impugnada. Viu-se desacreditada por não levar em conta as diferenças que separam o Brasil real do Brasil legal, o ser do dever ser, a infraestrutura da superestrutura.

A depreciação deslegitimadora do que foi tido como o formalismo liberal e juridicista de Rui oculta, como realçado por Bolívar Lamounier, o significado e a atualidade da sua ação em prol da formação da esfera pública e da construção institucional da democracia no Brasil.

Nessa construção, uma vertente é o tema da ampliação da cidadania nos seus componentes civil, político e social. Rui cuidou desse tema desde o tempo de estudante, integrando com o ardor da justiça militante a campanha abolicionista e a luta contra a escravidão.

Da sua agenda, nesta vertente, cabe lembrar, com a instauração da República, a separação da Igreja e do Estado e, com isso, a laicidade da esfera pública e a liberdade de culto; a afirmação do voto como a primeira arma do cidadão e a liberdade como a sua condição substancial; a defesa da "extensão cada vez maior dos direitos sociais", que põe limites nas "noções jurídicas do individualismo".

A outra vertente foi a da construção de instituições democráticas, a que Rui se dedicou no seu empenho político de ser "o mais irreconciliável inimigo do governo do mundo pela violência" e "o mais fervoroso predicante do governo dos homens pelas leis", como disse no Instituto dos Advogados em 1911. Suas duas campanhas para a Presidência da República, seu papel no Senado e na imprensa têm esse significado exemplar, assim como sua ação diplomática na Segunda Conferência da Paz de Haia, em 1907.

Na sua lida de "sujeitar à legalidade os governos, implantar a responsabilidade no serviço da nação", opor-se "à razão de Estado" como "negação virtual de todas as Constituições", insere-se o papel que teve na criação do Supremo Tribunal Federal (STF) na nossa primeira Constituição republicana e na subsequente sustentação do "direito-dever" do STF "de guardar a Constituição contra os atos usurpatórios do governo e do Congresso", como afirmou no Instituto dos Advogados em 1914.

Em síntese, com o reconhecimento do valor da democracia, que a Constituição de 1988 positivou, vem perdendo terreno, em nosso país, sua desqualificação no espectro político, tanto à esquerda quanto à direita. Daí a atualidade do legado de Rui e a continuidade da importância da Oração aos Moços, passados 90 anos da sua inserção no mundo público. Com efeito, é visível para todos sem maiores necessidades de exemplificação que, no Brasil, a plena realização do valor da democracia é estrada com muitas etapas de construção institucional e cidadã a serem percorridas. Por isso, como disse Oswald de Andrade em 1949, Rui, "como a semente do Evangelho que precisa morrer para frutificar, (...) soube sempre morrer pelo dia seguinte do Brasil".

JOSÉ AGRIPINO MAIA

A importância do DEM para o Brasil
JOSÉ AGRIPINO MAIA
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/03/11
Defendemos a participação do capital privado nos setores nos quais o Estado não tem recursos para proporcionar a infraestrutura que o país exige


Nosso partido, o Democratas, defende o liberalismo econômico com justiça social. Nossos compromissos são fortes e transparentes.
Temos identificação programática com a economia baseada na livre-iniciativa, com o sistema político plural e participativo, com a liberdade irrestrita de imprensa, e com a diminuição da carga tributária. Acreditamos que o Estado deve servir à sociedade e não a sociedade ao Estado.
Nossas formulações também levam em conta o cidadão comum, que quer ver sua pequena empresa crescer e gerar empregos mas que, por outro lado, enfrenta dificuldades burocráticas, precisa pagar inúmeros impostos e não tem a contrapartida necessária do Estado em saúde ou segurança.
Heróis, os empreendedores brasileiros são os principais responsáveis pela criação de vagas de trabalho e diminuição da pobreza.
O DEM possui compromissos irrevogáveis com os direitos individuais, a meritocracia, a educação de alto nível e a igualdade de oportunidades. O partido não tolera os regimes não democráticos, não importa a sua ideologia, e defende a participação do capital privado nos setores nos quais o Estado não tem recursos para proporcionar a infraestrutura que o país exige.
É evidente que o Brasil passa por um período de notável desenvolvimento. O governo do PT, entretanto, esconde que os avanços só foram possíveis pois ideias sempre defendidas pelo Democratas foram implantadas nos governos Itamar Franco e FHC e mantidas no começo da gestão Lula. Entre elas, o combate à inflação, o equilíbrio das contas públicas e o cumprimento à Lei de Responsabilidade Fiscal.
Sem essas ações de cunho liberal, somadas com a enorme demanda pelas commodities brasileiras, governistas sabem que não teriam muito a comemorar. Foram premiados pelas circunstâncias e tiveram a sensatez de não terem colocado em prática muitas ideias que sempre abraçaram, como o rompimento com organismos internacionais.
Mas é preciso dizer que o governo não aproveitou a bonança mundial para tomar muitas medidas necessárias ao Brasil, como aprimorar nossa infraestrutura. Portos, estradas e aeroportos de má qualidade travam a possibilidade do desenvolvimento a longo prazo. Além disso, para ajudar a eleger a atual presidente, o PT novamente desarrumou as contas públicas.
Para se ter uma noção, entre 2006 e 2010, as despesas correntes do governo, decorrentes do gigantismo do Estado, aumentaram em R$ 221 bilhões, ajudando a elevar a dívida interna para R$ 1,7 trilhão, e obrigando o Tesouro a pagar de juros, só em 2010, R$ 195,4 bilhões. Aí vai pelo ralo o dinheiro que falta para investir em infraestrutura.
Fora o corte no orçamento, o governo ensaia tentativas de fazer a população pagar o rombo por meio da recriação da CPMF. Em 2007, não conseguiu. À época, o DEM liderou o movimento que impediu a manutenção da contribuição. Foi o fato mais visível do seu trabalho em obediência ao desejo da sociedade, reafirmando a independência do Poder Legislativo.
Mas a história do DEM é longa. No mínimo remete a 1985, quando a então Frente Liberal contribuiu decisivamente para a eleição de Tancredo Neves, permitindo a volta da democracia, com a realização de eleições diretas em todos os níveis. Atualmente, o partido honra sua tradição exigindo dos integrantes padrão ético. No DEM, envolvidos em desvio de conduta são expulsos ou obrigados a renunciar.
A quem não vence eleições é destinado o papel de oposição, que precisa fiscalizar o governo de modo responsável e propor alternativas. Este é o nosso dever. Uma atuação rigorosa na qual não se permite a presença de oportunistas. Tendo nossas ideias como principais armas, cumpriremos nossa missão.
JOSÉ AGRIPINO MAIA é senador pelo Rio Grande do Norte e presidente do Democratas

GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

O ubíquo Mr. Summers
LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 20/03/11

“Ubíquo. Adj. Que está em toda parte”. Exemplo: Lawrence Summers. Mr. Summers conseguiu até ser personagem de dois dos filmes que concorreram ao Oscar, este ano. Num, A Rede Social, ele aparecia como presidente da Universidade de Harvard, interpretado por um ator. Ou era ele mesmo? Não duvido. No outro, Trabalho Interno, ele era um membro da gang responsável pela desregulamentação do sistema financeiro e pelos favores a Wall Street que deram nos escândalos dos derivativos e das hipotecas podres, e na crise das finanças internacionais. Neste, era certamente ele mesmo. Acho que não há outro caso na história dos oscares de uma coincidência parecida de vilões.
No filme A Rede social, se me lembro bem, Summers dá alguns conselhos cínicos aos estudantes que se queixam da apropriação de suas ideias por outros alunos, dizendo que o roubo de ideias é apenas uma prova do espírito empreendedor cultivado em Harvard. No documentário Trabalho Interno ele é um dos principais exemplos da culpa de economistas e conselheiros econômicos na meleca toda. Quando era secretário do Tesouro do governo Clinton, Summers escreveu um memorando que ficou famoso, recomendando que indústrias poluidoras fossem transferidas para países subdesenvolvidos, onde os trabalhadores eram pobres e portanto o custo social seria menor. Citava a África como uma área sub-habitada e, na opinião dele, sub-poluída. Summers depois disse que o memorando era uma brincadeira. Também alegou ter sido mal-entendido quando num discurso, já como presidente da Harvard, atribuiu a falta de nomes femininos de destaque nas pesquisas científicas a uma inferioridade mental da mulher. Foi uma das razões para correrem com ele da universidade.
Apesar dos maus conselhos e das gafes, Summers não perdeu seu prestígio. E depois de ser um símbolo da política econômica comprometida com os vigaristas de Wall Street, tornou-se um símbolo, mais triste, de desilusão com o Barack Obama, que durante a campanha tinha prometido acabar com a farra dos bancos desregulados e a submissão dos políticos aos interesses dos “gatos gordos” do sistema financeiro, e quando tomou posse convidou para liderar a sua equipe econômica – Larry Summers!
Summers não está mais com o Obama. Mas depois da decepção inicial o Baraca não recuperou as esperanças despertadas com sua retórica eleitoral e hoje é atacado pela esquerda, como um enganador, tanto quanto pela direita, que o chama de demônio socialista e coisa pior. As esperanças da esquerda – que incluíam a retirada imediata do Iraque e do Afeganistão, além de um plano de saúde social revolucionário e ferro em Wall Street – eram irrealistas. Obama é apenas humano. Mas o convite ao ubíquo Mr. Summers , depois de tudo que se sabia dele, foi um pouco demais. 

CLÁUDIO HUMBERTO

“Atendi dos pequenos favores aos financiamentos de campanha”
EX-GOVERNADOR DO DF JOSÉ ROBERTO ARRUDA, REVELANDO DISTRIBUIÇÃO DE DINHEIRO AO DEM

PSDB ELEGEU JAQUELINE E IRMÃO DE DURVAL NO DF
Jaqueline Roriz (DF) era filiada ao PSDB, em 2006, quando recebeu de Durval Barbosa dinheiro sujo para sua campanha. A cena, revelada em vídeo, pode custar o mandato da atual deputada federal, filha de Joaquim Roriz. Na ocasião, Milton Barbosa, irmão de Durval, após campanha milionária, também foi eleito deputado distrital pelo PSDB. Mas não há vídeos dele com o mano, operador e depois delator do esquema.

FAMÍLIA BARBOSA 
Milton Barbosa é pai de Tiago, o sobrinho citado por Durval, que, preso na Papuda, seria fiel depositário dos vídeos pornográficos das propinas.

DURVAL É SUSPEITO... 
Conspira em favor de Jaqueline Roriz a suspeita crescente, entre deputados, de que Durval estaria manipulando até a Câmara.

...DE MANIPULAÇÃO 
Segundo deputados, Durval vazou o vídeo para provocar a cassação de Jaqueline e a posse do suplente Laerte Bessa (PSC), amigão dele.

CADAFALSO 
É improvável Jaqueline se livrar da cassação. A Câmara cogita revogar a tradição de não punir malfeitorias cometidas antes do mandato.

TURMA DE ARRUDA TENTA CONTROLAR SINDUSCON-DF 
O grupo ligado ao ex-governador José Roberto Arruda trava uma briga de bastidores para controlar o Sindicato da Construção Civil. O influente Sinduscon-DF cultiva a tradição de chapa consensual, e a vez de assumir a presidência seria do atual diretor Júlio Cesar Peres, primo de Flávia Peres, mulher de Arruda. Ele anunciou que havia desistido de disputar a presidência, mas foi demovido pelo seu grupo
político.

EMINÊNCIA PARDA 
Quem persuadiu Julio Cesar Peres a continuar na disputa, citando velhos compromissos, foi Márcio Machado, ex-secretário de Obras de Arruda.

ARRECADADOR OFICIAL 
Presidente do PSDB-DF, Márcio Machado foi também tesoureiro da campanha de Arruda e, claro, acabou na Operação Caixa de Pandora.

TESOUREIRO EM AÇÃO 
Na lista de empresas enroladas na corrupção no DF, escrito a mão por Márcio Machado, figurava a construtora Ipê Omni, de Júlio Peres.

GRAMPOLÂNDIA PAULISTA 
A guerra na área de segurança paulista parece fora de controle. Um major da PM teria grampeado políticos, incluindo seus nomes entre os grampos solicitados pela Secretaria de Administração Penitenciária. O cunhado lobista de Geraldo Alckmin, Paulo Ribeiro, seria um dos alvos. 

PAZ DOS CEMITÉRIOS 
O Brasil se absteve na votação da zona de exclusão aérea na Líbia por ser “contra o uso da força”. Essa lorota irritou os membros do conselho de segurança da ONU: afinal, é o ditador Gaddafi quem tem a força.

SERRA COMEMORA 
A acusação do ex-governador José Roberto Arruda de que Sérgio Guerra, presidente do PSDB, estaria entre os políticos que recebeu dinheiro, deixou o tucano e desafeto José Serra sorrindo de orelha a orelha. Voltou a sonhar com a escolha do novo presidente do partido.

ESTÁGIO PROBATÓRIO 
O PV aguarda provas de que a prefeita de Natal, Micarla Sousa, levou algum do mensalão do DF para sua campanha, segundo afirmou Arruda, a fim de examinar eventual desligamento dela do partido.

O DISCURSO MUDOU 
Pegou muito mal o discurso do deputado distrital Chico Vigilante (PT) defendendo a manutenção da proteção para Durval Barbosa, paga pelo contribuinte. Ele continua sob escolta da Polícia Civil do DF.

OUTRA DO SUPLICY 
O ministro do Meio Ambiente ironizou o abilolado senador Eduardo Suplicy (PT-SP) no jornal The Namibian: por que viajou lá do Brasil para promover o Renda Mínima na Namíbia, se não conseguiu convencer seu governo a implementá-lo?”, indagou Shangula Kalumbi.

FIM DA IMPUNIDADE 
A Justiça Federal aceitou denúncia contra o prefeito de Iguatu, Agenor Neto (PMDB), e tornou seus bens indisponíveis, na investigação sobre fraudes na Funasa do Ceará. Outros políticos estão sem dormir.

EMPADINHA A BORDO 
O número impressiona: 3.428 ex-funcionários da Varig ganharam indenização judicial, mas o total de créditos trabalhistas é de R$ 892,02 – de R$ 0,01 a pouco mais que R$ 100. A planilha está em poder da coluna. 

PERGUNTA NA CINELÂNDIA 2
Barack Obama não é mais candidato a governador do Rio? 

PODER SEM PUDOR
CAVALO MILITANTE 
Em campanha para deputado no Paraná, Mário Pereira e Luiz Henrique Bonaturra chegaram juntos a Guaraniaçu para falar no salão paroquial. Pereira discursou primeiro e Bonaturra foi precedido de grande foguetório. Ao final do barulho, ele já ia falar quando um homem entrou esbaforido: “Mataram meu cavalo!” Todos saíram à rua, e o cavalo saiu em disparada. Aquilo gerou muita conversa e todos ficaram lá fora, enquanto Bonaturra permanecia diante de cadeiras vazias. Retornou só o homem do cavalo:
– Desculpe, doutor. Vai ver, ele só desmaiou de susto com o foguetório...
Bonaturra sempre desconfiou que a história foi uma armação de Pereira.

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DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Obama promete ajuda para Copa e Olimpíadas
- Folha: Países aliados iniciam ação militar na Líbia
- Estadão: Dilma cobra de Obama suspensão de barreiras
- Correio: De Brasília, Obama detona guerra a Kadafi
- Estado de Minas: Obama admite que Brasil é o futuro
- Jornal do Commercio: Líbia sob ataque
- Zero Hora: França lança ação militar contra Kadafi

sábado, março 19, 2011

RUTH DE AQUINO

Militantes, “go home”
RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Qualquer um tem o direito de ser contra os EUA, mas não há nada mais ridículo que o ato anti-Obama


Época
RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
raquino@edglobo.com.br
Nada mais ridículo que a convocação de uma manifestação na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, “em repúdio” à primeira visita de Barack Obama ao Brasil. Quem convocou foram os “movimentos sociais”. Leia-se CUT, MST, UNE e vários outros grupos com complexo de minoria colonizada. “Obama é persona non grata”, dizia o texto, endossado por líderes do PT. A presidente Dilma Rousseff se irritou e enquadrou a militância petista. O governador do Rio, Sérgio Cabral, perguntou: “O que é isso? Piraram?”.
Não é o protesto em si que incomoda. Qualquer um tem direito de ser contra os Estados Unidos e seu presidente, mesmo que ele não seja mais George W. Bush. Mas o texto dos sindicalistas petistas é pretensioso e ultrapassado: “Os movimentos sociais brasileiros rechaçam a presença de Obama em nosso país”. Com que autoridade essas organizações se intitulam representantes do povo brasileiro?
As 11 entidades que assinam a convocação acusam Obama de “manter a orientação belicista de ocupar países e agredir povos em nome da ‘luta ao terrorismo’”. Trata-se de uma defesa velada da autonomia da Líbia e de seu ditador, Muammar Khadafi, há 42 anos no poder. Continua assim a convocação: “Obama chega ao Brasil num momento em que os EUA e seus aliados, principalmente os europeus, preparam-se, sob falsos pretextos, para perpetrar novas intervenções militares... e assegurar o domínio sobre o petróleo”.
Esta é a primeira visita do presidente Obama à América Latina. Vem acompanhado da mulher, Michelle, e das filhas, Sasha e Malia. Não perceber as diferenças entre Obama e Bush e continuar com o discurso anti-imperialista é aprisionar-se ao passado e ir contra os interesses do país. No almoço previsto para este sábado no Itamaraty, em homenagem ao convidado, dificilmente alguém sentirá a ausência da Central de Trabalhadores do Brasil, ligada ao PCdoB. Eles alegaram “incompatibilidade ideológica” para recusar o convite ao almoço.
O Brasil pode não conseguir nada com a visita de Obama. Nem acordos comerciais vantajosos nem um gesto de boa vontade dos Estados Unidos à pretensão brasileira de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas Dilma está empenhada numa reaproximação Norte-Sul. E Obama sabe que vai encontrar uma líder que não posará rindo e aos abraços com o apedrejador de direitos humanos Mahmoud Ahmadinejad.
Qualquer um tem o direito de ser contra os EUA, mas não há nada mais ridículo que o ato anti-Obama
Os militantes enraivecidos com Obama devem ser os mesmos que aplaudiram a aproximação entre o Brasil “do cara” e a ditadura do Irã, sob o argumento do pragmatismo. Não irão jamais às ruas protestar contra Khadafi, que massacra quem discorda. São os mesmos que idolatram o fanfarrão do Chávez e defendem qualquer regime autocrático e populista latino-americano, desde que seja contra os ianques.
Entre eles está o secretário de Movimentos Populares do PT-RJ, Indalécio Wanderley Silva. Ele enviou e-mails convocando para o protesto anti-Obama, e foi a uma reunião no Sindicato dos Petroleiros do Rio. Indalécio é filiado a um diretório presidido até o ano passado pelo ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, articulador político de Dilma. Aí começa o constrangimento da presidente, comandante máxima do país e integrante do Partido dos Trabalhadores. Imediatamente, o PT do Rio desautorizou qualquer protesto, “em nome de toda a Executiva Partidária”.
O mundo das patrulhas ideológicas é muito chato. Convicções se tornam dogmas. Há um ranço nesses grupos que cheira a mofo e não tem mais lugar em nosso país. Militante de esquerda se parece demais com militante de direita. Na Europa, especialmente na França, comunistas desiludidos acabam aderindo a candidatos de extrema direita, racistas, moralistas e xenófobos. Entoam palavras de ordem nacionalistas. Temem por seus empregos e por isso odeiam imigrantes.
O mesmo pode-se dizer dos radicais sociais: são chatos os militantes gays, as militantes feministas, os militantes afrodescendentes, os militantes religiosos, os militantes intelectuais. Não escutam nem debatem, só protestam ou aclamam. Please, go home.