quarta-feira, fevereiro 23, 2011

MÔNICA BERGAMO

SEXY NO ATOLEIRO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/02/11

A atriz Paloma Bernardi, a Alice de "Insensato Coração", teve que empurrar uma van antes de ensaio para a revista "VIP'; o veículo atolou a caminho de Arraial do Cabo (RJ), e ela se dispôs a ajudar no resgate

TROPA DE ELITE
A Polícia Federal vai comprar cerca de cem cães pastores belga malinois para a segurança da Copa de 2014. Todos serão importados da Europa e dos EUA, tradicionais no adestramento. Nesta semana, os responsáveis pela aquisição viajam para adquirir o primeiro lote, de 19 cães. Cada um custa US$ 6.000. O Brasil já tem 14 deles. A meta é chegar a 120.

TROPA 2
Os animais já vêm treinados para detectar explosivos e drogas em aeroportos e estádios e para fazer uma varredura em locais por onde passam autoridades. Eles serão distribuídos pelas cidades-sede da Copa. Depois do evento, serão deslocados para outras atividades policiais.

TROPA 3
A ideia da PF é ter, no futuro, um "exército" de cães exclusivo para atender à Presidência da República, nos moldes do que hoje atende o presidente americano, Barack Obama.

NO RITMO
Números preliminares mostram que as vendas no comércio em SP registrarão crescimento de 3% a 4% em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2010. Puxaram o aumento os setores de papelaria e uniformes escolares.

No ano passado, em janeiro, o crescimento foi maior -chegou a 5%.

ARTE E POLÍTICA
A vice-consulesa americana em SP, Deneyse Kirkpatrick, o ex-ministro Eloi Ferreira de Araújo (Igualdade Racial) e o vereador Jamil Murad foram ao lançamento da exposição do cartunista Maurício Pestana, anteontem, no Museu da Língua Portuguesa.

IMAGEM RUSSA
A fotógrafa Vania Toledo passou pela abertura da exposição de fotografias do artista russo Aleksandr Ródtchenko na Pinacoteca do Estado. A curadora russa Olga Svíblova também foi ao vernissage.

MISTURA FINA

Cao Hamburger ("O Ano Em que Meus Pais Saíram de Férias") deve assinar contrato em breve com a TV Cultura. O diretor foi convidado para fazer a supervisão artística de toda a programação -e também para criar um novo programa infantil para a emissora. Ele foi o responsável pela série "Castelo Rá-Tim-Bum", em 1994.

LETRA E FORMAS
Destaque da novela "Araguaia", no papel de Janaina, a atriz Suzana Pires assinou seu primeiro contrato longo com a Globo. Fechou acordo até 2014, também como autora -ela é roteirista do humorístico "Os Caras de Pau".

PANOS QUENTES
A Justiça do Rio trancou a queixa-crime que Regina Célia Silva, mãe do ex-marido de Susana Vieira, Marcelo Silva, apresentou contra Ana Maria Braga. Ela acusava a apresentadora de injúria e difamação por ter dito, em 2008, que ninguém sentiria falta se o policial, na época ainda vivo, desaparecesse. O advogado de Ana Maria, Fábio Vieira de Melo, diz que a Justiça considerou o delito de injúria prescrito e que não houve difamação.

À ESPERA
O advogado da família de Marcelo Silva, René Rocha, diz que ainda não foi intimado sobre a decisão, mas pretende apelar.

QUEIJINHO
Durante sua estadia no cruzeiro Emoções em Alto Mar, na semana passada, o Rei Roberto Carlos só comia queijo da marca francesa A Vaca Que Ri. Em sua cabine, pediu uma geladeira em vez de frigobar.

PIPOQUEIROS
De 571 mil pessoas residentes em Salvador que passaram o Carnaval na cidade no ano passado, 58,9% participam do desfile de blocos como "pipoca", ou seja, não compraram abadá para ficar no espaço delimitado pelas cordas dos trios elétricos. O levantamento foi feito pelas secretarias de Planejamento e da Cultura da Bahia.

PIPOQUEIROS 2

A pesquisa mostra que o folião "pipoca" tem um gasto diário de R$ 49,83, o que representa um total de R$ 44,1 milhões durante os seis dias de Carnaval.

MY NAME IS
Ronaldo deve passar um tempo em Londres nos próximos meses. A ideia é aprimorar o inglês e conhecer de perto o trabalho de marketing esportivo no país -área na qual atuará por meio da 9ine, em sociedade com Marcus Buaiz e a WPP.

CURTO-CIRCUITO

O Instituto dos Advogados de SP inicia hoje sua programação de 2011 com a palestra "O Direito Civil e a Pós-Modernidade", do argentino Jorge Mosset Iturraspe.

O livro infantil "Simplesmente Diferente", com audiodescrição para pessoas com deficiência visual, será lançado hoje na Livraria Saraiva do shopping Higienópolis.

A grife Schutz lança hoje sua coleção de outono, com um concurso entre cinco estilistas, a partir das 17h, na loja da marca, na rua Oscar Freire.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

EDUARDO GRAEFF

Contra o voto em lista
EDUARDO GRAEFF

 O Estado de S.Paulo - 23/02/11

A proposta do voto em lista preordenada parece boa demais para o PT. Se eu fosse a oposição, só isso bastaria para ficar com um pé atrás. Mas a proposta, além de tudo, periga aumentar a distância entre eleitores e deputados, ou seja, pode agravar o maior problema que uma reforma eleitoral deveria resolver. Isso basta para deixar com os dois pés atrás qualquer um preocupado com a saúde da democracia no Brasil.

Pelo sistema de lista aberta que adotamos, o eleitor vota diretamente num candidato e indiretamente no seu partido. Relativamente poucos usam a opção do voto na legenda. A soma dos votos da legenda e de seus candidatos determina o número de deputados eleitos pelo partido. Se o partido eleger X deputados, entram os X candidatos mais votados.

Pelo sistema de lista preordenada dá-se o contrário: o eleitor vota diretamente num partido e indiretamente nos seus candidatos. A votação do partido determina o número de deputados eleitos por ele. Se o partido eleger X deputados, entram os X primeiros colocados da lista de candidatos, na ordem previamente definida pelo partido.

Já escrevi neste espaço sobre os defeitos do sistema de lista aberta (Um caminho suave para a reforma, 26/11/2010). Ele deixa os deputados na corda bamba, enfraquece os partidos e desnorteia os eleitores. A grande maioria dos eleitores "perde o voto" e acaba sem um deputado que possa reconhecer como seu. Isso distancia os eleitores dos deputados e concorre para a baixíssima confiança do público no Congresso Nacional, constatada pelas pesquisas de opinião.

O sistema de lista preordenada teria duas vantagens, segundo seus defensores: fortaleceria os partidos e seria mais compatível com o financiamento público de campanha. Com efeito, o mandato dos deputados eleitos por esse sistema pertence indiscutivelmente ao partido, pois o partido é que foi votado. Por isso mesmo a propaganda eleitoral tem de dar mais peso aos partidos, o que tornaria natural entregar a eles, e não aos candidatos individuais, as verbas públicas para campanha.

Pode-se discutir infinitamente, em tese, as vantagens e as desvantagens dos sistemas eleitorais. Mas seria ingênuo ignorar que hoje, no Brasil, as vantagens do voto em lista preordenada seriam bem maiores para o PT. Atualmente o PT tem a marca partidária mais forte. Que outros partidos seriam páreo para ele? Talvez o PSDB e o PMDB. O PT levaria também a maior fatia do financiamento público de campanha, se o critério de distribuição for o número de deputados eleitos na eleição anterior. Sem contar as verbas públicas de sindicatos e ONGs que já financiam o PT por vias tortas.

Olhado assim, o voto em lista preordenada parece uma fórmula sob medida para fixar e exponenciar as vantagens eleitorais do atual esquema de poder. Isso interessa ao PT, claro. E à oposição?

A oposição poderia vacilar se a mudança, mesmo ruim para ela, fosse boa para os eleitores. Mas não é.

Na dúvida, o certo seria consultar os eleitores por um plebiscito. Aposto que o voto em lista preordenada seria rejeitado por ampla maioria, como o parlamentarismo foi rejeitado em 1993, por uma razão parecida: a percepção de estar sendo privado do direito de eleger diretamente o seu deputado. E não é disso mesmo que se trata, afinal?

De novo, pode-se discutir infinitamente, em tese, se eleição indireta pode ser tão democrática quanto a direta. O fato é que no Brasil, pela nossa história, a ideia de democracia está totalmente associada à eleição direta em todos os níveis. Imagine a confusão e a frustração do eleitor se fosse surpreendido por uma mudança dessa magnitude decidida pelo Congresso sem consulta popular.

Se o impacto inicial da mudança não bastasse para chocar o eleitor, o funcionamento do novo sistema teria tudo para frustrá-lo e esgarçar de vez suas relações com os deputados, os partidos e o Congresso. Quem quiser que se iluda imaginando a seleção dos candidatos a deputado pelos partidos sendo balizada por vivas discussões programáticas, com participação das bases. Conhecendo os nossos costumes políticos, o que eu consigo visualizar é, antes, um vale-tudo na disputa pelas posições no alto das listas preordenadas. Luta livre com a imprensa na porta das convenções partidárias, para registrar os lances mais escandalosos, e a polícia, o Ministério Público e a Justiça no dia seguinte, para fazer o rescaldo. Nada que não se corrija com a prática? Pode ser. Mas há caminhos e caminhos para o aprendizado político, como qualquer aprendizado. O caminho dessa proposta me parece absurdamente arriscado.

Tanto por instinto de sobrevivência quanto por cuidado com a saúde da nossa democracia, portanto, a oposição tem razões para se opor à proposta do voto em lista preordenada.

Para isso a oposição precisa, antes de tudo, definir uma alternativa. Boa parte dela se inclina para o voto distrital, que me parece a proposta mais fácil de explicar e ganhar o apoio da maioria dos eleitores. Se for mais difícil sensibilizar o Congresso do que os eleitores (lembrando que a adoção do voto distrital depende de uma emenda constitucional aprovada por 3/5 dos deputados e senadores), há propostas intermediárias que podem ser negociadas: o sistema misto, proporcional e distrital; talvez um sistema proporcional com circunscrições eleitorais de quatro a seis deputados cada, como eu sugeri no artigo citado.

O importante é que a oposição não demore para se definir e, sobretudo, que dialogue com a opinião pública e busque seu apoio ativo. Se a oposição, desidratada como está, deixar que essa discussão se limite ao Congresso, corre um enorme risco de ser tratorada.

CIENTISTA POLÍTICO, FOI SECRETÁRIO-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (GOVERNO FHC)

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Raio X
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 23/02/11

Hadi Ghaemi está no Brasil com objetivo de articular apoio para que o País condene as violações de direitos humanos praticadas pelo governo iraniano. Diretor da International Campaign for Humans Rights in Iran, ele traz debaixo do braço dados impressionantes levantados pela organização. Os números, obtidos pela coluna, mostram que a situação tem se deteriorado desde que Mahmoud Ahmadinejad subiu ao poder.

Segundo a pesquisa, 94 pessoas foram condenadas à morte no primeiro ano do seu governo, em 2005. Cinco anos depois, o número saltou para... 542. Entre 20 de dezembro de 2010 e 31 de janeiro de 2011, 121 pessoas foram enforcadas (incluindo três opositores do governo), uma média de execução a cada três dias.

E mais:
 além de 24 defensoras de direitos humanos terem sido presas, Ahmadinejad introduziu medidas discriminatórias contra mulheres. Exemplo? Cota fixa em universidades. E mais. A ONG Jornalistas Sem Fronteiras considera que o país abriga a maior prisão da categoria: 37 estão presos.

Bom gosto
José Safra acaba de comprar um canto para chamar de seu em Punta Del Este. Precisamente em um dos resorts mais seletos e discretos do planeta: o Las Piedras, pertencente à brasileira JHSF.

Notado

Zé Dirceu não esperou Dilma discursar, segunda, na festa de 90 anos da Folha. Partiu antes.

Na planilha
A Editora Três planeja ressuscitar a revista Status.

Way in
Ao que consta, é o Banco do Brasil o apoiador "secreto" guardado a sete chaves por André Sturm, do Cine Belas Artes. O BB pretende operação de guerra para aumentar seu share no mercado financeiro na cidade de São Paulo.

Vaca louca
Wagner Rossi, da Agricultura, prepara suas baterias contra a difamação da carne brasileira na Comunidade Europeia, liderada pelos produtores irlandeses. A gota d"água foi constatada em menus de restaurantes estrelados, em sua última viagem para Paris e Londres. No pé da página, a informação esdrúxula: "Só servimos carne estritamente europeia".

Cinco estrelas
Está acertado. São Paulo ganha um novo hotel, braço do luxuoso Royal Monceau, de Paris. Ele será instalado no ex-Hospital Matarazzo, que já passou pelas mãos da Prefeitura e também da Previ. O investimento de peso é do grupo francês Allard, com coordenação do fundo brasileiro WWI.

MestraE não é que Clarice Lispector será tema de encontro de intelectuais em Paris? Vinte e dois deles se reunirão na Maison du Brésil, em maio, para discutir e contextualizar a obra da escritora brasileira. Dentre os convidados, Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, publicada pela Cosac Naify.

Trocadilho
Inimigos da HP, grupo de pagode pop, está ensaiando show só com sambas de... Chico Buarque. Batizado de Meus Caros Inimigos, refere-se ao sucesso Meu Caro Amigo, do compositor carioca. A estreia? Em março, no Tom Jazz.

MissãoCarlos Alberto Torres, capitão do tri de 70, ganhará novo posto. Será embaixador do Cosmos, time que jogou com Pelé entre 1975 e 77, nos EUA. A ideia é reviver momentos de glória do time.

TécnicaBico Stupakoff, fotógrafo como o pai, Otto Stupakoff, resolveu inovar a pedido da grife Flor. Todas as imagens da campanha saíram das lentes de um... iPhone 4.

Na frente


A RBS e a Globo escolheram o novo dirigente da GEO - empresa de entretenimento. Leonardo Ganem deixa a Som Livre para assumir o cargo.

Foi visto almoçando no Freddy, segunda, o vice Michel Temer. Acompanhado de Celso Antônio Bandeira de Mello, José Yunes e outros dois advogados.

Não se sabe se com ou sem a presença do presidente da Fifa. Mas na quinta, no Country Club do Rio, será lançado o livro João Havelange - O Dirigente Esportivo do Século XX.

O DJ Milton Chuquer e Rico DeLargo, trompetista americano, tocam hoje na boate Disco.

Pedro Novais disse sim. O ministro vai ao Workshop & Trade Show CVC. Hoje, no Expo Center Norte.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

A sinfonia do poder
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/02/11

Quando Dilma Rousseff terminou de discursar e desceu do palco, formou-se logo um burburinho na plateia "vip" da Sala São Paulo.

Diante das evidências de que a presidente iria deixar o local, um séquito de ministros, governadores, parlamentares e aspones se acotovelou para sair em disparada atrás dela. Foi como se alguém no teatro tivesse gritado:

"Fogo!".

O comportamento extravagante desses políticos foi a nota insólita da noite que celebrava os 90 anos da Folha. Com a plateia esvaziada, a Osesp, enfim, entrou no palco e executou o hino nacional. Veio a seguir a "Sinfonia nº 6" de Villa-Lobos, também sob a regência de Isaac Karabtchevsky.

Imagino o que passava pela cabeça dos músicos da orquestra mais prestigiosa da América Latina. FHC, Alckmin e Serra, entre outros muitos convidados, ficaram até o fim do concerto. O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e o senador Eduardo Suplicy, quase.

A cerimônia, de fato, acabou sendo longa demais. Tempo suficiente para se perceber, disseminado entre os presentes, um certo clima de conchavaço tucano-petista. Com Dilma, parece haver um esforço de amaciamento nas relações com os tucanos, algo que não existia sob Lula. Guarde-se a imagem do tête-à-tête da presidente com FHC.

A festa também evidenciou que a sociedade civil, como era entendida nos anos 70/80 (um organismo "do contra", com voz e influência política), não existe mais. Em grande parte, ela foi substituída pela "sociedade dos banqueiros".

Outro sinal antipático dos novos tempos: a quantidade abusiva de seguranças e capangas reunida na Sala São Paulo. Talvez Muammar Gaddafi precisasse de tantos homens de preto com cara fechada, óculos escuros e ponto eletrônico na orelha. Mas Dilma? Seria a cracolândia ali ao lado uma terrível ameaça? A presidente não ouviu nem o hino nacional nem Villa-Lobos. Mas também não deve ter visto a lúgubre sinfonia do crack.

INFLAÇÃO

ILIMAR FRANCO

Começo torto
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 23/02/11
 
O Senado deu um passo em falso ao criar a Comissão da Reforma Política. A tendência da Câmara é ignorar o que os senadores aprovarem. As principais mudanças dizem respeito à eleição para a Câmara e, por isso, os deputados sustentam que cabe a eles a última palavra. Dizem: 81 senadores não podem decidir o futuro de 513 deputados. Para eles, a proposta deve iniciar na Câmara, ir ao Senado e voltar para a votação final na Casa.

Governos fazem acordo sobre APO
Os chefes da Casa Civil do governo do Rio, Regis Fichtner, e da capital, Pedro Paulo, entraram madrugada adentro, na noite passada, negociando mudanças no projeto da Autoridade Pública Olímpica. O governo federal acatou as sugestões das autoridades doRio, restabelecendo o princípio federativo, reduzindo poderes da APO e fortalecendo o Conselho Público Olímpico. Ontem à tarde, o secretário-executivo da Casa Civil, Beto Vasconcelos, conversou com o relator do projeto, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), sobre acolher as mudanças acertadas no relatório. A APO tem que estar aprovada até 1o- de março no Congresso.

"Os lobistas tomam conta do fundo do plenário, e a Mesa, placidamente, não toma nenhuma providência” — Jarbas Vasconcelos, senador (PMDB-PR)

NO PELOURINHO
. O jornalista João Santana, que comandou o marketing da campanha da presidente Dilma Rousseff, está com
as orelhas quentes. Integrantes do primeiro escalão do governo não ficaram satisfeitos com a marca do governo Dilma: “País Rico é País Sem Pobreza”. Argumentam que não se deve usar palavras negativas em slogans e que Santana não consultou ninguém sobre qual deveria ser a expressão mais adequada.

Guloso
Na negociação da criação da Autoridade Pública Olímpica, em tramitação no Congresso, Henrique Meirelles queria que a APO fosse o único órgão a ter contato com o COI. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, estava dando pulos de raiva.

A escolha
Candidato à reeleição em Belo Horizonte (MG), o prefeito Márcio Lacerda (PSB) recebeu um recado do PT: se quiser o apoio petista,
não poderá manter a aliança com os tucanos. Lacerda foi eleito em 2008 com o apoio do PT e do PSDB.

Brasil-EUA: juntos na África

Os governos do Brasil e dos Estados Unidos estão conversando sobre a criação de uma joint venture entre o BNDES e o Eximbank. Ela teria como objetivo financiar empreendimentos comuns de empresas brasileiras e americanas em terceiros países. A proposta partiu dos EUA e o Brasil é simpático à ideia. O alvo da operação são países africanos e da América do Sul. Na África, o
objetivo é enfrentar a agressividade da China. 

Dia da mulher
O governador Tarso Genro (RS) assina neste mês, com o governo federal, pacto para enfrentar a violência contra a mulher. O estado é o único que não o assinou no governo Lula, apesar de governado por uma mulher, Yeda Crusius.

Segundo escalão
Professor de Urbanismo da USP, Nabil Bonduki será secretário de Cidades Sustentáveis do Ministério do Meio Ambiente. Eduardo Assad, que coordenava as pesquisas sobre clima na Embrapa, será o secretário de Mudanças Climáticas.


 OS GOVERNADORES do Nordeste foram informados que está praticamente pronto projeto que aumenta os royalties pagos pelas mineradoras aos estados. 
 DISPUTA. O senador Eduardo Braga (PMDB-AM) quer manter Flávia Grosso como superintendente da Suframa. O PT quer emplacar o ex-superintendente adjunto José Alberto Machado.
 NAS COMEMORAÇÕES do Dia Internacional da Mulher, o Ministério da Saúde anunciará em março medidas para o tratamento de câncer de mama e útero; atenção integral à saúde da mulher e Rede Cegonha.

MARCELO COELHO

Truques sem mágica
MARCELO COELHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/02/11

"DÁ PARA sair bastante feliz (e aliviado) de "O Discurso do Rei", o filme altamente "oscarizável" de Tom Hooper.

Um rei gago, um especialista em problemas de fala, uma causa nobre (unir a Inglaterra na luta contra Hitler), a atuação espantosa de Colin Firth no papel principal... o que mais se pode desejar?
Arrisco a opinião de que o filme de Tom Hooper é ao mesmo tempo adequadíssimo para ganhar o Oscar e, talvez, insuficientemente hollywoodiano. O filme não tem muitas surpresas a serem estragadas, mas aviso que este artigo menciona detalhes da sua história.
Caso de gagueira extrema, o duque de York (Colin Firth) reluta em cuidar do seu problema; já se encheu de especialistas e tratamentos inúteis. Surge então, como última esperança, o australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush), cujo consultório caindo aos pedaços o duque visita e abandona, furioso, logo em seguida.
O espectador já sabe: essa briga inicial entre o terapeuta e o paciente (assim como outras ao longo do filme) só existe para ser superada logo em seguida, valorizando a harmonia do desfecho.
Até aí, estamos no cinema norte-americano convencional, sem maior brilho. Mas "O Discurso do Rei" foge do modelo na medida em que a história acaba sem grande milagre terapêutico.
O especialista vivido por Geoffrey Rush não descobre, como seria divertido de assistir, o método mágico de curar seu paciente da gagueira. Tudo se resume a um trabalho de paciência, com a superação de pequenas dificuldades isoladas, com exercícios de vários tipos -o que traz a vantagem de manter o espectador sempre em estado de incerteza quanto ao desempenho vocal do protagonista.
Talvez o defeito seja meu, mas fiquei a todo momento esperando que o pobre rei George e seu fonoaudiólogo descobrissem o truque, o passe de mágica que resolvesse a gagueira de uma vez por todas.
O problema é que o passe de mágica, estranhamente, já tinha aparecido no começo do filme -sendo esquecido depois.
Lembrando: na primeira consulta com Geoffrey Rush, Colin Firth teve de declamar o solilóquio de Hamlet diante de um microfone. Enquanto isso, fones de ouvido faziam uma gravação de música clássica entrar em sua cabeça a todo volume.
Miraculoso resultado: sem ouvir a própria voz, o duque despachava os versos de Shakespeare sem gaguejar nada.
Por que, então, não utilizar o mesmo truque, que já tinha dado certo, na hora decisiva do filme, quando o discurso real de declaração de guerra será transmitido pelo rádio aos súditos do Império Britânico?
E por que, numa hipótese menos honesta, não transmitir uma gravação editada do discurso? Numa derradeira hipótese, definitivamente canalha, poderiam colocar um locutor diante do microfone e dizer que era o rei quem estava falando...
Imagino que nos dias de hoje esse recurso seria adotado sem hesitação. Nossa convivência com a artificialidade dos meios técnicos e com a desonestidade dos procedimentos políticos não encontraria nenhum grande impedimento moral a essa alternativa.
Aparentemente, na Inglaterra de fins da década de 30 havia um "fair play" político maior do que na Alemanha de Hitler e na Rússia de Stálin. Se a BBC dizia que o discurso era do rei, teria de ser do rei o discurso.
Se os personagens se envolvessem numa discussão dessas alternativas, o filme de Tom Hooper talvez ganhasse em atualidade e tensão política.
A opção de "O Discurso do Rei", entretanto, é mais simples: trata-se de contar, pela centésima vez, uma bela história de superação e persistência. Soma-se isso a obsessão central de nossa época: a ideia de que, por mais rica e poderosa que uma pessoa seja, ela será sempre igual a nós (um pouquinho mais infeliz, de preferência).
Gagueiras, bebedeiras, tropeções, lágrimas, desgraças de celebridades. Mas, se possível, com final feliz. Ainda que tão humanas e fracas quanto nós, as pessoas especiais têm tarefas especiais a cumprir; e como são fortes e sobre-humanas nisso!
Superioridade de desempenho, em inferioridade de condições. É preciso ser no mínimo um duque britânico para conseguir isso. A plebe se encanta e aplaude; "O Discurso do Rei" é bom de assistir, e faz bem ao nosso espírito, impregnado de democracia e desigualdade ao mesmo tempo".

GOSTOSA

ELIO GASPARI

SuperVia, a paixão pela demofobia
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/02/11

Atendendo a um pedido do Ministério Público, a 13 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou que a SuperVia, concessionária dos serviços de transporte ferroviário da cidade, conserte e mantenha em funcionamento as escadas rolantes que dão acesso às estações do Méier e de Madureira. O Tribunal de Justiça teve que entrar no caso porque a empresa não cuidava das escadas, atrapalhando o acesso da patuleia às estações. Pior. Ela se recusou a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta e, segundo a promotoria, argumentou que, para o correto funcionamento das escadas, seria necessária "uma mudança nos padrões culturais da população, reeducando-a a preservar o patrimônio público".

A SuperVia produziu um documento histórico, primoroso exemplo de demofobia, o horror ao povo. Quem vai reeducar a população? A SuperVia, que foi multada em cerca de R$ 150 mil porque em 2009 seus jagunços chicotearam passageiros que estavam na estação de Madureira. Na ocasião, o diretor de Marketing da empresa procurou educar a população, ensinando: "Todos os passageiros que cumprem as regras são excelentemente tratados. Aqueles que são marginais, prendem a porta e fazem baderna não podem ter o mesmo tratamento". Falso. Imagens gravadas mostravam capangas agredindo passageiros que estavam dentro do vagão. O doutor foi mantido no cargo e quatro jagunços, aos quais havia sido dado apenas um dia de treinamento, foram sumariamente demitidos.

A ideia de que o brasileiro precisa ser reeducado é uma interessante manifestação demofóbica. Todos os brasileiros? Inclusive os diretores da SuperVia? Só aqueles que usam os serviços da empresa? Que tal reeducar a SuperVia?

O metrô mantém dezenas de escadas rolantes, inclusive aquelas que dão acesso ao lindo edifício da velha Central do Brasil. Funcionam perfeitamente. Aqui e ali aparecem problemas e atos de vandalismo. Daí a se atribuir à população uma genérica falta de educação vai distância enorme. Problemas sempre ocorrem, uns provocados por vândalos, outros, por doutores. Até hoje, a SuperVia não cumpriu suas próprias metas e, com alguma razão, diz que o governo do Estado descumpriu parte do que havia combinado. Este, por sua vez, mimou a empresa prorrogando por 25 anos o contrato de concessão do serviço. Em novembro acreditava-se que todos ficariam felizes porque a Odebrecht parecia prestes a ficar com o negócio. Essas encrencas não seriam suficientes para se achar que os empresários e governantes brasileiros precisam ser reeducados para que se possa preservar o patrimônio público. Assim como nas estações de Madureira e do Méier, basta ficar de olho na freguesia, dissuadindo visigodos que destroem escadas e ostrogodos que negociam privatarias.

Choldra mal-educada, herança escravocrata, legado da colonização ibérica, preguiça tropical e outros menosprezos são artifícios criados pelo andar de cima para defender seus interesses em nome do horror ao povo. Quando um sujeito diz que o brasileiro não sabe fazer isso ou aquilo, cabe sempre a pergunta: "Inclusive você?". Nunca, o brasileiro inepto é sempre o outro, e o argumento da sua incapacidade frequentemente serve a um interesse. No caso, um cascalho, não consertar as escadas rolantes das estações do Méier e de Madureira.

Como os doutores não podem trocar de povo, o povo poderia arrumar outro concessionário de trens.

VINICIUS TORRES FREIRE

Mais ruídos na economia de Dilma
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/02/11
Governo tem dificuldade de cortar os R$ 50 bilhões anunciados e vaza ideias confusas sobre impostos

Faz quase duas semanas que o governo de Dilma Rousseff anunciou que reduziria em R$ 50 bilhões as despesas do Orçamento federal de 2011. Deu o número mágico de meia centena de bilhões e mais não disse. Não explicou onde passaria a faca.
Então, naquele 9 de fevereiro da revelação dos R$ 50 bilhões, o anúncio do tamanho do talho já estava atrasado fazia pelo menos uma semana. Faz, pois, quase três semanas que se adia o anúncio de qual vai ser o Orçamento real da União, que, enfim, acaba sendo praticamente decisão do Executivo. Note-se que março começa na semana que vem.
O governo simplesmente não sabe como reduzir as despesas autorizadas pelo Congresso sem diminuir também o total de dinheiros destinados a investimentos.
A presidente havia prometido que não haveria cortes em despesas de benefícios sociais e de investimento. Faz sentido. O problema é conciliar tal desejo com a necessidade de reduzir gastos a fim de evitar mais inflação, aumento excessivo da taxa de juros e da dívida pública.

NO MERCADO
Entre economistas "de mercado", há estimativas de que a redução das despesas com investimento teria de ser de 10% a 20% para que se atinja a meta de corte de R$ 50 bilhões. Seria a grande rubrica de despesa que mais perderia dinheiro, caso estejam corretas as contas do pessoal.
Supondo que não seja possível cortar R$ 50 bilhões sem mexer no investimento, qual será a decisão de Dilma? Cortar menos ou respirar fundo e dizer "desculpem, foi engano, vamos cortar investimentos?".
Não reduzir as despesas não vai pegar muito bem na praça, que vai levantar suas estimativas de inflação futura e contaminar o ambiente já mal-humorado em relação a preços. De resto, o gasto ainda alto do governo vai continuar a estimular o consumo, que já anda excessivo.
Por falar nisso, a "prévia" do IPCA, o IPCA-15, foi de 0,97% neste mês, acumulando alta de 6,08% em 12 meses. Aumento de preço de escola, de ônibus, de metrô, ainda os reflexos de aumentos salariais do final do ano passado, tudo isso pesou no IPCA-15 de horroroso quase 1% neste mês. Mas há aumentos em muitas outras categorias de produtos e serviços, mais que nos piores repiques da inflação nos anos Lula.

IMPOSTOS
Causam ainda mais ruído na política econômica de Dilma os balões de ensaio a respeito de impostos.
A presidente disse que cuidaria da reforma tributária.
Depois, gente do seu governo vazou regularmente a ideia de que poderia haver redução de impostos para alguns tipos de empresa. Ora se dizia que seriam beneficiadas empresas intensivas em mão de obra.
Agora, volta a se falar que os exportadores terão uma redução de impostos especial, pois quem disputa o mercado externo apanha do real forte e do dumping chinês (embora muita empresa não exportadora também sofra do mesmo problema, dada a invasão de importados).
Por último, como quem não quer nada, a presidente deixa emergir a ideia da volta de algum tipo de CPMF, um imposto sobre movimentação financeira qualquer, destinado a financiar a saúde (mas é imposto, de qualquer modo).
Cortar gasto? Imposto? Aumentar imposto? O que vai ser?

TERCEIRIZAÇÃO

MERVAL PEREIRA

O difícil equilíbrio
MERVAL PEREIRA
O GLOBO 23/02/11
As duas principais reivindicações dos governadores reunidos com a presidente Dilma Rousseff têm características distintas. A recriação da CPMF, supostamente para que haja verba para investir no sistema de saúde, é uma mera tentativa de reverter uma derrota política, aliada a uma busca desesperada de mais recursos para financiar gastos correntes do governo que não podem ser cortados, seja por questões legais, seja por interesses políticos.

A mudança de critério para a avaliação da dívida de estados e municípios, dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal, é uma reivindicação justa e que não fere os princípios do equilíbrio fiscal.

A chamada "flexibilização" da Lei de Responsabilidade Fiscal nada mais é do que a mudança do indexador que mede as dívidas dos estados e municípios, coisa que é preciso fazer para adequar a LRF à situação atual da economia do país, muito diferente de há dez anos, quando foi editada.

Quem, aliás, começou a defender essa alteração foi o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, logo depois de eleito, mas o governo alegou na ocasião, erroneamente, que para alterar o indexador seria preciso mudar a Lei de Responsabilidade Fiscal, o que não é verdade.

A reivindicação de Alckmin tem fundamento técnico, porque a dívida dos estados e municípios ainda é indexada pelo IGPM, pois naquela época havia o câmbio fixo.

Quando o câmbio flutuante passou a ser usado, praticamente tudo que ainda é indexado tem como referência o IPCA, e só contrato de aluguel e tarifas é que ficaram em IGP, além da dívida dos estados e municípios.

Isso gera distorções importantes, por mais que os estados e municípios paguem a dívida só faz aumentar. Os governadores deviam 12% do PIB em 2000 e hoje devem 11%, mas pagaram muito mais do que esse ponto percentual de redução.

A movimentação de governadores eleitos para recriar o chamado imposto do cheque, extinto em 2007 pelo Congresso na grande derrota de Lula em seus oito anos de mandato, aconteceu logo no início da nova administração, o que sugeriu à oposição um jogo de cartas marcadas para fazer com que a volta da CPMF parecesse um movimento das bases políticas, a que o novo governo acederia.

A reação da opinião pública foi tão negativa que o assunto foi deixado de lado, para ressuscitar agora na reunião dos governadores do Nordeste, a maior parte deles governistas.

Na verdade, não há nenhuma razão para a criação de mais impostos, já que o governo aumentou o IOF logo depois da derrota no Senado e, de lá para cá, a arrecadação só tem feito crescer, levando a carga tributária brasileira para cerca de 36% do PIB.

Mas o governo tem imensas dificuldades para fazer cortes em seu orçamento, e já tem, mais à frente, algumas armadilhas preparadas por ele mesmo, como a política de reajuste do salário mínimo, que está sendo aprovada no Congresso, que já contratou um aumento para o próximo ano de 14%.

Um estudo feito por Marcos Mendes, consultor legislativo do Senado Federal, doutor em Economia (IPE/USP), demonstra que, devido à forte rigidez da despesa, decorrente de legislação que obriga a realização de gasto mínimo em determinados setores (como pessoal e saúde), o espaço para corte de despesas é mínimo.

Um corte profundo das despesas não rígidas levaria a uma economia de, no máximo, R$19 bilhões, longe do ajuste de R$50 bilhões anunciado pelo governo.

O estudo demonstra também que há significativo espaço para ajuste nas despesas com inversões financeiras, mas isso requereria mudanças significativas nas políticas industrial e de desenvolvimento regional.

Duas grandes e polêmicas políticas públicas consomem R$27,6 bilhões: a política industrial (basicamente, repasses ao BNDES e financiamentos à indústria naval) e a política de desenvolvimento regional (repasses aos Fundos Constitucionais de Desenvolvimento).

As despesas com pessoal e encargos sociais, por sua vez, são rígidas, em função de uma legislação que privilegia a estabilidade no emprego do servidor, a irredutibilidade de remuneração, promoções por tempo de serviço etc.

O candidato derrotado à Presidência, o tucano José Serra, apontou os cargos comissionados - cerca de 20 mil - como passíveis de cortes, mas esses não estão na mira do governo por questões políticas: é neles que estão abrigados os petistas e aliados partidários.

O estudo conclui pela necessidade de se promover um ajuste fiscal com elementos voltados para o longo prazo, como racionalização da política de pessoal, voltada para a qualidade na contratação, o estímulo ao bom desempenho e o controle da folha de pagamento; forte esforço de avaliação dos investimentos públicos prioritários, com o cancelamento de investimentos desnecessários ou questionáveis.

Seria necessária, ainda segundo o estudo, uma revisão da política de reajuste do salário mínimo, para reduzir a velocidade de crescimento das despesas a ele indexadas; a complementação da reforma da Previdência Social; revisão da regra de despesa mínima em saúde, vinculando-se a expansão da verba a melhorias na gestão e a indicadores de qualidade.

CELSO MING

A inflação assusta
CELSO MING
O Estado de S.Paulo

A inflação vai ficando mais virulenta e, pior do que isso, a cabeça dos marcadores de preços está cada vez mais turbinada com a alta que vem pela frente. Ou seja, não é apenas a inflação que está ficando mais séria; é, também, a expectativa do mercado que vai se deteriorando, tornando ainda mais difícil o seu combate.

O IPCA-15 é apenas uma antecipação do que pode vir a ser a inflação do mês, mas apontou um avanço muito forte, de 0,97%, o maior desde 2003. Esse IPCA-15 é o mesmo IPCA, com uma diferença: mede a evolução dos preços também em 30 dias, só que captados no período que vai do dia 15 de um mês ao dia 15 do mês seguinte.

O IPCA-15 de fevereiro, ontem divulgado pelo IBGE, mostrou que, em 12 meses, a inflação já é de 6,08%. E a Pesquisa Focus, do Banco Central, apontou segunda-feira que as projeções do mercado para a inflação deste ano, medida pelo IPCA, já estão em 5,79%. Mas os analistas começam a apostar em números mais próximos dos 7%. Se passar dos 6,5%, a meta estará estourada, já contada a área admissível de escape, de 2 pontos porcentuais.

O fato positivo é o de que o impacto dos alimentos no custo de vida já é mais baixo do que há algumas semanas. Foi de 1,21% e agora caiu à metade, para 0,57%. Em compensação, o governo e outros organismos encarregados da política anti-inflação têm de lidar com novos fatores adversos.

O primeiro deles é a estocada dos preços do petróleo. Aí há dois condicionantes trabalhando na mesma direção. O primeiro deles é a alta que já vinha vindo e que tem a mesma qualidade da esticada das commodities agrícolas. Reflete aumento do consumo. Esse condicionante vai continuar atuando, embora mais devagar. O outro tem a ver com a crise no mundo islâmico, o chamado efeito dominó que vai arrastando um a um os governantes da região. Alguns desses países, como Líbia e Irã, são grandes fornecedores de petróleo. Uma paralisação prolongada da produção por lá pode derrubar a oferta e pressionar os preços. E, assim, mais cedo ou mais tarde, a Petrobrás, que já vai sangrando em seu caixa, poderá vir a ser obrigada a reajustar os preços dos derivados.

O segundo fator que trabalha contra o governo é o câmbio (âncora cambial). Quanto mais baixa for a cotação do dólar, mais fácil será segurar a inflação porque ajuda a baratear em reais os preços dos produtos importados. Com algumas interrupções de percurso, desde 2004, o câmbio vem derrubando a cotação do dólar em reais. Daqui para frente não se pode contar mais com esse efeito - até porque a decisão de política econômica é evitar maior valorização do real.

O outro fator que agora está trabalhando contra é a inflação externa. A crise derrubou o consumo e os preços. Até há alguns meses, o grande temor dos países industrializados era a deflação. A nova situação é o oposto disso. A alta dos alimentos, a escalada do petróleo e a reativação do consumo tendem a acelerar a inflação global e a obrigar os bancos centrais a voltar a puxar pelos juros.

A força da inflação aqui no Brasil exige ação do governo, sob pena de perder o controle. É a situação que aumenta a importância do corte de despesas públicas e, ao mesmo tempo, exige ainda mais aperto dos juros.

CONFIRA

É o câmbio real
Em debate no Sindicato da Indústria da Construção Pesada do Estado de São Paulo, Delfim Netto analisou o projeto de desoneração da folha salarial como um efeito sobre o câmbio real: aumento da competitividade do setor produtivo. "Câmbio real é salário dividido pelo câmbio. Quando a folha de pagamentos for desonerada melhorará o câmbio real para o produtor brasileiro."

Sumiço dos créditos
O ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel advertiu para dificuldades até agora pouco apontadas que aparecerão quando (e se) for instituído o critério de arrecadação de ICMS pelo destino. "Não vai ter como apropriar créditos de ICMS", avisou ele. (Imposto cobrado no destino caberá ao Estado onde a mercadoria for consumida e não onde é produzida.)

Tecnocracia
Delfim está gostando deste início de governo. "Dilma é uma tecnocrata com boa sensibilidade social. Tem tudo para dar certo."

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

Nada é impensável

MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 23/02/11
O Egito aceitou pela primeira vez em 32 anos que navios iranianos passassem pelo Canal de Suez. Foram para a Síria, para manobras militares conjuntas. Isso preocupa Israel e Estados Unidos. A Europa teme o suprimento de petróleo da Líbia. A Arábia Saudita tem medo do que acontece no Bahrein. O mundo prende a respiração com os fatos do norte da África.

Tudo que acontece hoje em cada país, mesmo pequeno, tem efeitos muito além das suas fronteiras. Não há simplificações possíveis. Tudo é de uma complexidade estonteante. A dúvida na Líbia é para onde vão os chefes tribais, como no Egito era para onde iriam as Forças Armadas. O destino do ditador Muamar Kadafi será o resultado desse jogo tribal, cada vez mais contra ele. Ele cometeu o erro de deixar tribos, principalmente as que ficam perto de Beghazi, em situação social de abandono. A renda superconcentrada é combustível de insatisfação. O que a Europa teme é o suprimento de petróleo e gás, os negócios de suas empresas e o risco de fragmentação do país.

O Egito ainda não voltou ao normal. A bolsa de valores não conseguiu ontem abrir novamente. Teme-se que as ações despenquem. Há um enorme risco de desinvestimento no país. Um exemplo: dias antes da eclosão do movimento, a Votorantim foi ao Egito em missão comandada por Fábio Ermírio de Moraes com um plano de investimento na área de cimento. A tendência é deixar suspenso esse plano até a situação ficar mais estável. Inúmeras empresas estrangeiras suspenderam decisões de investimento. Há cinco milhões de egípcios fora do país e que mandam renda para suas famílias. Essa importante fonte de renda e divisas está também se reduzindo. Desses, um milhão trabalham na Líbia, portanto, os problemas na Líbia também afetam o Egito.

O povo que da Praça Tahrir derrubou um ditador quer tudo para já: melhores serviços na educação, saúde, maiores salários, empregos. E quer também que sejam demitidos todos os ministros nomeados por Mubarak. Vários já foram, mas o próprio chefe da junta militar, Mohamed Hussein Tantawi, foi ministro da Defesa de Mubarak por 20 anos. O primeiro-ministro, Ahmed Shafiq, também. Portanto, o novo poder nasceu no velho regime. Até na idade: um tem 79 anos, o outro, 73 anos.

A economia em crise aumenta a insatisfação. O turismo está parado, hotéis e restaurantes, vazios. Bancos com dificuldade de retornar às atividades normais. E os preços dos alimentos estão subindo. O Egito pediu à Austrália que forneça trigo mais barato, mas o governo australiano respondeu que a cotação é internacional. Além disso, a produção do país foi atingida pelas recentes enchentes.

As exportações brasileiras para o Oriente Médio quadruplicaram durante a última década, de US$2,04 bi, em 2001, para US$10,5 bi, em 2010. A Líbia não é parte desse grupo. Para lá, as vendas saíram de US$35 milhões para US$456 milhões. Houve um aumento grande de empresas brasileiras nos países árabes, como construtoras, mineradoras, e fornecedoras de alimentos. O desafio agora é manter na nova situação a mesma intensidade das relações. Mas hoje, o pior problema é como proteger as centenas de brasileiros em Tripoli e Benghazi, na Líbia.

Os países da região temem o contágio por vários motivos. Veja-se a situação da Arábia Saudita. Ela é uma monarquia como a de Bahrein, e até agora as repúblicas é que têm caído. A primeira monarquia que cair aterrorizará as outras. Bahrein é um país pequeno, uma ilhota com um milhão de habitantes, mas tem uma ponte que liga à Arábia Saudita. Do lado de Bahrein, a maioria da população é xiita e reclama que não tem seus direitos respeitados porque o governo favorece os sunitas. A Arábia Saudita tem uma pequena parte da população xiita, mas vivendo exatamente perto da ponte que a liga ao Bahrein. Para complicar ainda mais a situação, em Manama, onde a população está nas ruas protestando, está uma base naval americana de 3.500 efetivos.

A Arábia Saudita tem um governo que parece sólido, a mesma dinastia que governa o país desde que ele foi fundado nos anos 1930. O problema é que os príncipes governantes que se sucedem no cargo ainda são os filhos de Abdulaziz Al-Saud, o fundador do Reino. Ele teve 36 filhos homens. O rei Abdullah tem 87 anos e ontem voltou ao país depois de três meses de tratamento médico. Seu irmão, o príncipe herdeiro, tem 83 anos. O ministro da Defesa tem 81 anos. Essa gerontocracia governa o país de forma tirânica, tendo o Alcorão como constituição, e a Sharia como código penal. Fala-se pouco das barbaridades dos Saud porque é uma ditadura amiga do Ocidente que fornece preciosos 10 milhões de barris/dia de petróleo.

O Irã tem conseguido manter pela repressão o governo, por dois motivos. De um lado, o governo islâmico que assumiu há 32 anos montou um programa de assistência social das áreas rurais que haviam sido abandonadas pelo Xá Reza Pahlevi. Isso dá ao regime uma base de lealdade junto à população mais pobre. Segundo, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, oriundo das Guardas Revolucionárias, aumentou o poder desse grupo militar dando a eles empregos na direção do complexo industrial estatal, que é 60% da indústria do país. No Egito, uma parte da diplomacia vinha defendendo a ideia de que o país nada tinha a ganhar hostilizando o Irã. A permissão inédita em 32 anos de que navios de guerra iranianos passassem pelo Egito é um sinal de que esse grupo está sendo ouvido. Afinal, o atual governante era o mesmo Tantawi que, como ministro da Defesa, recusou outros pedidos. O mundo está mudando rapidamente, as peças no tabuleiro se mexendo com enorme rapidez. Nada mais é impensável.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Se eu tivesse um cargo renunciaria e esfregaria isto na cara de vocês”
DITADOR MUAMMAR KADAFI, QUE LULA CHAMOU DE “AMIGO, IRMÃO E LÍDER”, EM 2009 NA LÍBIA

REFORMA POLÍTICA NÃO ANDA: É QUE FALTA CONSENSO 
O presidente do Senado, José Sarney, sonha com o legado de uma reforma política, por isso promoveu ontem o lançamento da comissão que tem 45 dias para estudar o tema. Mas ele sabe que são escassas as possibilidades de êxito, até porque não há consenso sobre aspectos importantes para uma reforma, como lista fechada de candidatos, voto distrital misto, tamanho de mandato e até extinção da Justiça Eleitoral, invenção brasileira considerada tão dispendiosa quanto desnecessária.

PRATELEIRA 
Na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, apesar do caráter terminativo, há 75 projetos de reforma parados por falta de consenso.

USOS E COSTUMES 
Na democracia brasileira, dependendo do escândalo, autoridades em geral só renunciam “a pedido”. Já na ditadura da Líbia...

ELE TEM A FORÇA 
Observação da turma de Lula em Brasília: a influência de Antonio Palocci (Casa Civil) é bem maior que a de José Dirceu na era Lula.

RECESSO 
O restaurante Piantella, de Brasília, um dos preferidos dos políticos, fechará para reforma em julho, por 20 dias.

TEMER LUTA PARA EVITAR A COMPANHIA DE CUNHA 
O vice Michel Temer já não sabe como se livrar do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aquele que “alugava” o sofá de sua casa, dia e noite, quando presidia a Câmara. Temer até criou uma segunda sala de espera, na vice-presidência, para manter Cunha a distância, mas não tem jeito: o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), que tem “passe livre”, sempre introduz o amigo no gabinete do vice-presidente.

DESGASTE 
A defesa dos interesses de Eduardo Cunha desgastou Henrique Alves junto à presidente Dilma. Ela também quer distância do deputado.

QUEM AVISA... 
Michel Temer sempre foi aconselhado pelo ex-presidente Lula a evitar a companhia de Eduardo Cunha, mas, tímido, jamais o conseguiu.

EVOLUÇÃO 
As críticas do chanceler Antônio Patriota ao ditador Gaddafi mostram que há algo de novo e animador, na condução da diplomacia brasileira.

NEGÓCIOS À PARTE 
Em nome de US$ 20 bilhões em negócios e de ideologia anacrônica, a diplomacia Lula-Celso Amorim hostilizou Israel, que é uma ilha de democracia na região, e se omitiu diante de ditaduras em países árabes. O ex-chanceler até ganhou medalha pelo feito.

LULA QUEM? 
Louco por pedra fundamental, Lula foi saudado nos jornais da Guiné, ontem, na cerimônia de reconstrução de ferrovia com apoio do Brasil, como “Loula Dasilva” e “Lula Dasylva”. E batalhou tanto pela África...

DISPUTA PELO DNPM 
Há uma briga de foice pela indicação do diretor-geral do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Uma federação de partidos, incluindo o PT, indicou Sergio Damaso. Seu rival é Claudio Scliar, mineiro do tipo radical, que não tem aval nem mesmo do PT-MG.

NÃO DEU CERTO 
Durante a vigência do contrato (já suspenso) de R$ 60 milhões anuais, entre o governo do DF e a empresa educacional Sangari, do argentino Jorge Werthein, caiu o desempenho dos alunos em exames nacionais. 

A PRAÇA E O BANCO 
Personagem do escândalo do mensalão, o banco BMG – alvo agora de ação de improbidade administrativa envolvendo Lula – acessou em 2006, ilegalmente, dados cadastrais de pensionistas, segundo o TCU. 

LEI NA LATA DO LIXO 
O candidato barrado Jáder Barbalho (PMDB-PA) tem dito que voltará triunfal ao Senado após a posse de Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal. Crê piamente que a Lei da Ficha Limpa irá para a lata do lixo.

O PREÇO COMPENSA 
O valor da conferência de Lula deveria seguir a máxima do ex-ministro Mario Henrique Simonsen sobre obras públicas: é mais barato pagar “comissão” para o ex-presidente não falar. Bom para ambas as partes. 

EXPERTISE 
Uma associação local de pizzaiolos chega em março ao Brasil para difundir a “verdadeira pizza napolitana”, informa a imprensa italiana. Já a verdadeira “pizza” brasileira é coisa nossa, conhecida mundialmente. 

KADAFI 51 
Taí uma boa ideia do bufão sanguinário da Líbia: “Morrerei como um mártir.” 

PODER SEM PUDOR
MENTIR É PRECISO 
Logo após propor um “choque de capitalismo” no Brasil, em discurso redigido por Jorge Serpa sob encomenda de Roberto Marinho, o candidato tucano a presidente em 1989, Mário Covas, foi a uma reunião com 21 capitães da indústria paulista para tentar obter apoio e doações. Falando de improviso, Covas atacou duramente a Zona Franca de Manaus. Um dos presentes, empresário da área, segredou ao então deputado José Serra:
– Sinceridade, assim, não é possível! Ele tem que mentir um pouco...

QUARTA NOS JORNAIS

Globo: Ainda mais isolado, Kadafi diz que só deixa poder morto
Folha: Ditador líbio diz que só sai morto
Estadão: Oposição avança e Kadafi promete ‘morrer como mártir’
Correio: Kadafi resiste e ONU faz apelo
Valor: Mercados temem efeitos da escalada do petróleo
Estado de Minas: Execuções na serra provocam pressão pelo fim do Rotam
Jornal do Commercio: Membros do PCC capturados no sertão
Zero Hora: A fúria do ditador