terça-feira, janeiro 04, 2011

ILIMAR FRANCO

Um símbolo
ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 04/01/11

O último ato do governo Lula foi declarar a ex-ministra Erenice Guerra inocente. Ela foi demitida da Casa Civil em outubro passado por causa de denúncias de tráfico de influência. O primeiro ato do governo Dilma foi publicar no Diário Oficial, ontem, a demissão de toda a diretoria dos Correios. Eles tinham sido nomeados por influência direta da ex-ministra. A desenvoltura de Erenice na posse da presidente é motivo de constrangimento.

PMDB vai montar mapa dos cargos
Para evitar novos incidentes políticos, como os ocorridos no Ministério da Saúde, o PMDB vai montar um mapa com todos os cargos ocupados pelo partido no segundo escalão do governo federal. Essas informações serão entregues ao ministro Luiz Sérgio (Relações Institucionais) ainda hoje. Com esse gesto, a direção do PMDB pretende ser chamada para conversar sempre que os petistas quiserem ocupar cargos que hoje estão com o partido. “Esperamos respeito pelo espaço do PMDB. Não queremos impor nem colocar ninguém contra a parede, mas que as mudanças sejam negociadas”, diz o líder Henrique Alves (RN). Ousar lutar, ousar vencer” — Dilma Rousseff , palavras de ordem entoadas pela presidente e por suas companheiras de prisão durante a recepção no Itamaraty.

Inspirado

O ex-ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) resolveu reclamar de que não recebera a nominata de autoridades na solenidade de transmissão do cargo, quando Gilberto Carvalho sentenciou: “Saiu do governo, acabou, velho.” Risos. 

Bem-humorado

O ministro Paulo Bernardo (Comunicações), ao tomar posse ontem, após várias referências à sua gestão no Planejamento, sempre chamando a atenção da sua sucessora, Miriam Belchior, completou: “Vou ficar aqui me elogiando.” Risos.

Adotados pelos petistas
O petista Jorge Samek deve continuar na Diretoria-Geral de Itaipu. O cargo era reivindicado pelo ex-senador Osmar Dias (PDT-PR), a quem foi oferecida uma vice-presidência do Banco do Brasil. Dias não aceitou. O PT do Paraná também pediu ao ministro Antonio Palocci (Casa Civil) que coloque o ex-governador peemedebista Orlando Pessutti (PR) na presidência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

NOTÓRIO SABER. Em sua posse no Ministério da Saúde, Alexandre Padilha disse para seu amigo e ator José de Abreu, petista roxo, ir se preparando para estrelar as campanhas da pasta.

CONSOLO. Ex-presidente da ANS, Fausto Pereira dos Santos foi nomeado assessor especial de Alexandre Padilha. Ele chegou a ser cotado para ministro da Saúde.

O SECRETÁRIO Nacional de Justiça, Paulo Abrão, vai acumular o cargo com o de presidente da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça.

Novos tempos
Ao tomar posse, o ministro Luiz Sérgio (Relações Institucionais) chamou atenção para o ex-presidente Fernando Collor e o líder dos cara pintadas, Lindberg Farias, sentados juntos. Collor riu e deu um tapinha no ombro de Lindberg. 

Constrangimento

Na posse da presidente Dilma Rousseff, o ex-ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) foi tirar satisfação com o governador Jaques Wagner (BA) pela indicação de Afonso Florence para a pasta. Wagner deu de ombros.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Emparedado
RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 04/01/11

Reunida ontem para discutir o saldo do rateio de posições no governo de Dilma Rousseff, a cúpula do PMDB encarregou o presidente do partido e vice da República, Michel Temer, de transmitir à petista a insatisfação da sigla, surpreendida por sucessivos anúncios de perda de espaço na máquina federal.
A expectativa dos peemedebistas era a de que Temer se manifestasse logo na primeira reunião de coordenação do governo, com início marcado para o final da tarde de ontem. Quando alguém lhe perguntou se o vice de fato cumpriria o papel de porta-voz do PMDB diante de Dilma, um cacique não titubeou: "Ah, ele vai, sob pena de perder o controle do partido".


Em série Depois de perder postos na Saúde e o comando dos Correios para o PT, o PMDB recebeu a informação de que o próximo a rodar seria Alexej Predtechensky, diretor-presidente do Postalis, o fundo de pensão dos Correios. Sua ligação é com a família Sarney.

Os nossos Os peemedebistas, que com uma ou outra exceção ignoraram as posses dos ministros do PT, compareceram em peso às dos correligionários Edison Lobão (Minas e Energia), Garibaldi Alves (Previdência) e Pedro Novais (Turismo).

Retrato falado Secretário-executivo da Previdência, Carlos Eduardo Gabas arrancou risos da plateia ao batizar de "dupla gagá" sua parceria com Garibaldi.

Não para Do presidente do PT, José Eduardo Dutra, sobre o longo discurso de posse de Alexandre Padilha na Saúde: "Ministro twiteiro @padilhando fez discurso de 140000000000000000000 00000000000000000000 0000000 caracteres".

Em todas Ninguém marcou presença em tantas posses como Paulo Maluf (PP-SP). Antes de se jogar na maratona brasiliense, o deputado já havia prestigiado a cerimônia que marcou o início da nova temporada de Geraldo Alckmin (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes.

Inspiração Sobre a mesa do gabinete de Dilma estava ontem o livro "Bachelet en Tierra de Hombres", da jornalista Patricia Politzer.

Sujou Com dois projetos exigindo ficha limpa para secretários, a Assembleia paulista já analisa novo texto, do tucano Orlando Morando, proibindo a contratação até de assessores de deputados com condenação por colegiado.

Eu não O tucano Carlos Bezerra, suplente de deputado federal, vai declinar se for chamado a ocupar a cadeira como "tampão". Líder do PSDB na Câmara paulistana, ele foi eleito deputado estadual e assume o cargo definitivamente em março. Com a recusa, abriria caminho no Congresso para Raimundo Sales (DEM).

A regra... A polêmica que envolve a convocação de suplentes preocupa o PSDB também quanto a seu poder de fogo na nova legislatura. Se a Câmara desconsiderar o entendimento do STF que privilegia o partido e não a coligação, a eventual desidratação da bancada em fevereiro deixaria a sigla em maus lençóis para manobras de obstrução.

...é clara? É que o regimento da Casa confere prerrogativas a legendas com mais de 52 deputados, entre elas a verificação de quórum em votações. Como foram eleitos 53 tucanos, se dois deles derem seus lugares a políticos de outras siglas com as quais se aliaram na eleição, o uso do recurso ficaria impossibilitado.

Precursor Antonio Patriota (Relações Exteriores) desembarca na Argentina no próximo dia 10. Vai acertar os detalhes da primeira viagem internacional de Dilma, provavelmente entre os dias 25 e 30.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"O Brasil tem muitos Pelés na política. Mas o importante mesmo é que eles joguem bem e que o juiz seja honesto."
DE DUARTE NOGUEIRA, futuro líder do PSDB na Câmara, sobre entrevista em que o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, recomenda à oposição não se animar, pois o PT agora tem "um Pelé na reserva", a saber, Lula.

contraponto

A modéstia me impede...


No discurso com o qual se despediu ontem do cargo de ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel teceu rasgados elogios à equipe que o acompanhou desde 2007. Dirigindo-se a seu antecessor, Miguel Rossetto, afirmou em tom convicto:
-Eu acho, Miguel, que consegui no ministério uma coisa que você não conseguiu....
Rossetto estranhou, e o outro então completou:
-Tive secretário-executivo melhor que o ministro!
Para entender: Cassel ocupou o posto número dois na época em que Rossetto respondia pela pasta.

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

Primeiros sinais 
Miriam Leitão 
O Globo - 04/01/2011

O novo governo começa cercado das mesmas dúvidas que circulam a presidente desde a campanha: como a nova governante pretende cortar gastos e ampliar investimentos e benefícios sociais? Como pretende ser um exemplo de crescimento acelerado com proteção ao meio ambiente com tantas obras na Amazônia? Como manter a coalizão política se ela já está conflagrada?

O PT e o PMDB brigam pelos cargos no segundo escalão, à luz do dia, com ameaças e ultimatos. Quem pacificará essa briga? Será o habilidoso e experiente ministro Antonio Palocci ou o inexpressivo indicado de José Dirceu, ministro Luiz Sérgio? Na posse, Palocci disse que a bola é de Luiz Sérgio, de quem seria um mero ajudante. Na posse de Luiz Sérgio, o PMDB não foi, numa demonstração visível de que o “dono da bola” não está com essa bola toda.
Nunca se viu um esforço tão explícito como o do ministro- chefe da Casa Civil para encurtar o alcance do próprio cargo. O Ministério de Palocci perdeu adereços como o PAC, o Minha Casa, Minha Vida, a Secretaria de Administração, o Sistema de Defesa da Amazônia, o Arquivo Nacional. Mas será difícil perder a majestade. Na campanha, quando rebatia a acusação de inexperiência na política, a exchefe da Casa Civil Dilma Rousseff dizia que havia ocupado o segundo cargo mais importante do governo. A tentativa de Palocci de reduzir a visibilidade do posto e já avisar aos jornalistas que dará raras entrevistas — uma pena, ele sempre foi bom comunicador — é o temor de que seu crescimento atice o fogo amigo. Fica também essa dúvida: o PT continuará sua guerra de facções que imobiliza o governo e fere seus melhores quadros?
O novo governo começa com a indigesta tarefa de sempre: cortar gastos, rever orçamentos, fazer um ajuste que passe sinais de que o setor público não continuará jogando lenha na fogueira da inflação. Isso talvez reduza a pressão inflacionária. A taxa anualizada deve cair porque nos primeiros meses de 2010 os índices foram muito altos. Quando saírem esses números da conta, a taxa em 12 meses pode cair. Mas no segundo trimestre o efeito será o contrário, porque no ano passado as taxas de abril, maio e junho ficaram perto de zero. O mais importante é o futuro. A tendência de aceleração que se vê nos IGPs, em 11% nos preços de alimentos e de serviços, é assustadora. O Banco Central tem um encontro marcado com o dilema de subir ou não os juros no próximo dia 19. Se até lá vier um sinal fiscal forte que compense a baixa credibilidade nessa área do ministro Guido Mantega — o mesmo que fez manobras fiscais e dizia que não era necessário ajuste fiscal — a alta dos juros poderá ser no mínimo adiada.
A ministra Tereza Campelo disse que virá em breve o reajuste do Bolsa Família. Isso é coerente com o que a presidente Dilma disse ser a maior das suas prioridades: erradicar a pobreza extrema. Pela linha atual, a pobreza extrema é definida como a situação da família que tem uma renda mensal per capita de até
R$ 70. O Bolsa Família sempre será instrumento para este resgate. Não pode ser o único e precisa ser aperfeiçoado. A política já mostrou que tem defeitos. Uma versão 2.0 do Bolsa Família teria que apertar o rigor da contrapartida educacional das famílias, estimular a ambição de melhoria de vida e conquista de renda através de emprego, microcrédito, qualificação, em vez de incentivar a acomodada espera do dinheiro mensal. É a isso que os especialistas em políticas públicas se referem quando falam da porta de saída. A rede de proteção social também precisa ser impulso de ascensão, o que é impossível fazer sem uma educação de qualidade.
O ministro José Eduardo Cardozo disse que a ação no Complexo do Alemão será modelo para todo o país. Se ele estiver se referindo à cooperação entre forças estaduais e federais no combate ao tráfico de drogas está certo, se está falando de ocupação de áreas urbanas pelas Forças Armadas não faz sentido. Não é comum, fora do Rio, haver controle territorial pelos criminosos. O Rio nisso é muito específico. O ministro Paulo Bernardo disse que as empresas têm obrigação de prover internet popular, em vez de ficar apenas oferecendo serviços caros para quem pode pagar. Ele tem razão, mas isso não se faz por ordem ministerial, mas sim através de duas ferramentas: uma boa regulação que estipule obrigações para as operadoras, e o uso dos recursos que estão no Fundo de Universalização das Telecomunicações, criado na época da privatização e já gordo com os depósitos feitos por taxas pagas pelos usuários.
A política externa vai passar por uma mudança? Há uma ponta de esperança na declaração da presidente Dilma quando disse que a defesa dos direitos humanos é uma das bases tradicionais da nossa diplomacia. Como o Brasil se omitiu recentemente nas condenações na ONU às violações de direitos humanos no Sudão, Irã, Miammar, esperase que não se omita mais. O ex-ministro Celso Amorim definiu sua política como “altiva”, como se ele tivesse inaugurado a altivez, que sempre foi a marca registrada da nossa diplomacia desde Rio Branco. A frase, que ele repetiu, de que o governo Lula “não falou fino com poderosos e grosso com os fracos” deveria ser esquecida. Mulheres têm voz mais fina que a dos homens. É da natureza das cordas vocais. Ruim é a ideia de que voz fina é subserviência.
Dúvidas continuam em várias áreas. As respostas virão dos atos que se seguirão nos próximos dias e meses, mais do que das palavras do discurso inaugural.

CELSO MING

Raras e cobiçadas 
Celso Ming 

O Estado de S.Paulo - 04/01/2011

A notícia correu o mundo: em setembro, a China, usando como pretexto um incidente sobre soberania territorial, suspendeu as exportações de terras raras para o Japão. O governo de Pequim negou o embargo.

Independentemente dos vaivéns diplomáticos, o fato é que a China tem reduzido a exportação desse material estratégico e isso levanta no resto do mundo preocupações de todo o tipo.

Terras raras são um conjunto de 17 minerais não ferrosos cujos nomes esquisitos estão nos manuais de química: gadolínio, térbio, disprósio, lutécio... Até há pouco tempo eram apenas usados nos laboratórios de pesquisa.

Hoje, são essenciais na fabricação de produtos de alta tecnologia, como mísseis, ou em artigos de uso cada vez mais intensivo, como lâmpadas fluorescentes, telefones celulares, notebooks, painéis de energia solar e turbinas eólicas.

Apesar de o nome sugerir escassez, há jazidas em vários países, mas o seu processamento é caro e altamente poluidor. Isso explica o predomínio da China na mineração e no refino nas últimas décadas. Em 2009, por exemplo, respondeu por nada menos que 97% da produção mundial.

Depois de ter reduzido em 40% as exportações de 2010 em comparação com as de 2009, dia 28 o governo da China avisou que vai restringir ainda mais os fornecimentos a partir do primeiro semestre deste ano. A informação chega num momento em que a demanda mundial já ultrapassa a oferta. Um relatório do Congresso americano avalia a atual produção mundial em 124 mil toneladas por ano, enquanto o consumo já é de 134 mil toneladas, e deverá alcançar as 200 mil toneladas em 2014. Como se vê, a reciclagem vai ficar cada vez mais importante.

O maior prejudicado pelas decisões da China, o Japão (um dos principais importadores), começa a se mexer. Tóquio planeja investir 100 bilhões de ienes (US$ 1,2 bilhão) para garantir o suprimento. Outros países estão nessa rota. No dia 15 de dezembro, o Departamento de Energia dos Estados Unidos divulgou documento que adverte sobre a necessidade de reduzir nos próximos 15 anos a dependência de metais raros de origem chinesa.

E como está o Brasil? Há terras raras a serem exploradas por aqui?

Estimativas dão conta de que as reservas brasileiras somam algo em torno de 48 mil toneladas, quantia suficiente para abastecer uma futura demanda interna e, se houver excedente, exportá-lo. Mas hoje não há nenhuma jazida em exploração.

Fernando Antônio Freitas Lins, diretor do Departamento de Tecnologia e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, conta que as reservas que até recentemente serviam à demanda do Brasil estão exauridas há anos.

De novo houve apenas a constituição, em junho passado, de um grupo interministerial integrado por especialistas do Ministério de Minas e Energia e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Está encarregado de fazer um mapeamento dos minerais estratégicos no Brasil. O estudo inclui desde o levantamento geológico em áreas potenciais até o apoio à pesquisa para definição de jazidas e o incentivo ao desenvolvimento de produtos de alta tecnologia. Os trabalhos estão em fase final, mas o diretor Freitas Lins avisa: "Os resultados só aparecerão a médio e a longo prazos."

Grande avanço

Não é o saldo comercial positivo, em 2010, de US$ 20,3 bilhões, bem acima do projetado, que merece mais comemoração. Mais importante foi o avanço das exportações, de nada menos que 31,4%, num ano em que as encomendas dos países ricos (os maiores compradores) estiveram travadas pelo baixo crescimento econômico.

Primeiro lugar

É, sim, um desempenho obtido com forte apoio das vendas de commodities. No entanto, deve apontar o Brasil como o país com maior crescimento das exportações em 2010.

O PUTEIRO

BENJAMIN STEINBRUCH

Ela e seu grande desafio
BENJAMIN STEINBRUCH
FOLHA DE SÃO PAULO - 04/01/11
O desafio da presidente Dilma Rousseff é levar o Brasil para o mundo dos juros civilizados

TODO PRESIDENTE brasileiro, ao assumir, enfrenta um grande desafio na área da economia. Na história recente, alguns fracassaram, mas os dois últimos conseguiram atingir boa parte de seu objetivo.
Fernando Henrique Cardoso chegou à Presidência da República, em 1995, com a missão de colocar o país no caminho da estabilidade. Uma luta sangrenta contra a inflação, com armas ortodoxas e heterodoxas, fora travada em mandatos anteriores, sem sucesso.
Uma vez no Planalto, FHC tratou de levar adiante o Plano Real, que ele mesmo lançara no fim do governo Itamar Franco. Foi muito bem-sucedido nessa tarefa. A inflação, que na gestão anterior havia subido para uma média anual de quase 800%, caiu para 8,75% ao ano no segundo mandato de FHC.
Na promoção de crescimento econômico, porém, o governo patinou e nos dois mandatos o PIB se expandiu em média 2,5% ao ano. Bem pouco para um país que na época já era chamado de emergente -não mais de subdesenvolvido.
Por isso, o grande desafio de Lula, ao se eleger, era desenvolver a economia a taxas próximas das dos demais emergentes, sem ameaçar a conquista da estabilidade.
Terminada a era Lula, pode-se dizer que ele chegou perto do objetivo. O crescimento médio anual do PIB situou-se em 4%, nada próximo do ritmo chinês ou do indiano, mas honroso, se forem consideradas as circunstâncias de crise global no segundo mandato.
E qual seria agora o grande desafio macroeconômico da recém-empossada presidente Dilma Rousseff? Eu o definiria em nove palavras: levar o Brasil para o mundo dos juros civilizados. Sem perder, obviamente, as conquistas de FHC e Lula.
O Brasil já se envergonha de algumas aberrações nacionais, como as deficiências em setores da infraestrutura, a insegurança dos cidadãos e o baixo nível educacional. Precisa também começar a ter vergonha da aberração dos juros.
Há décadas o Brasil ocupa as primeiras colocações entre os países com maior taxa básica de juros do mundo. Ainda hoje, a Selic está em 10,75% ao ano, nível absurdo quando comparado com 0,25% dos Estados Unidos, 1% na zona do euro ou 5,81% na China.
Mais vergonhoso se mostra esse cenário quando olhamos para as taxas internas cobradas pelas instituições financeiras dos tomadores, sejam pessoas físicas ou jurídicas.
Não quero aborrecer o leitor com excesso de números, mas vale citar alguns. As taxas mensais de juros para o crédito pessoal variaram de 1,12% ao mês até 26,35% ao mês na segunda quinzena de dezembro, dependendo da instituição financeira.
No mesmo período, os descontos de duplicatas, para pessoas jurídicas, custaram de 1,07% a 4,88% ao mês.
As taxas máximas nesses empréstimos significam juro anual de 1.500% no caso da pessoa física e de 77% no da jurídica. São aberrações, sem dúvida, que mostram uma realidade bem distante daquela que poderia ser chamada de civilizada em matéria de custo do dinheiro. Reduzir juros é crucial porque o crédito, no Brasil como em qualquer outro país, é o combustível financeiro da economia, fundamental, sobretudo, para impulsionar empreendedorismos que levam ao crescimento.
Em 2002, as operações totais de crédito no país representavam 20% do PIB. Em 2010, esse número se aproximou de 50%, num avanço razoável, explicado pela criação de mecanismos que proporcionaram a redução de juros em algumas operações, como o crédito para veículos e o consignado. Esse nível, porém, está ainda muito abaixo do verificado nas grandes economias, onde o crédito atinge 150% do PIB.
O desafio de Dilma nessa área, como se vê, é talvez tão grande quanto o enfrentado por FHC na estabilização e por Lula no crescimento e na distribuição de renda. O sucesso vai depender, em parte, da austeridade fiscal, com corte de gastos correntes (não de investimentos) para permitir uma política monetária menos ortodoxa.
Mas o sucesso também vai depender de uma mudança cultural na administração dos juros, que sempre primou pelo conservadorismo exagerado e pela falta de ousadia.
O Brasil não pode e não precisa continuar disputando, ano após ano, a liderança do campeonato mundial do juro alto.
BENJAMIN STEINBRUCH, 57, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

ANCELMO GÓIS

A desmilitarização
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 04/01/11

Carlos Minc, que defende uma política mais liberal para as drogas, chama a atenção para uma mudança importante introduzida por Dilma. A transferência da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas do Gabinete de Segurança Institucional para o Ministério da Justiça.

E mais...
O Gabinete, que era presidido por um general (Paulo Roberto Uchôa), passa às mãos de um civil (Pedro Abramovay). 

Fator Geddel
Dilma vai tentar controlar as ações dos ministros para evitar o que ocorreu ano passado com o então titular da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que pôs mais de 60% do dinheiro da pasta em seu domicílio eleitoral (no caso, a Bahia).

Lula e Serra

Acontece nas melhores famílias. Um trabalho acadêmico sobre patentes de remédios da aclamada Universidade de Stanford, EUA, cita Lula, na página 2, como... ex-ministro da Saúde. O texto, assinado por David P. Baron, conta que, depois de ocupar o cargo, “o brasileiro foi eleito presidente”. 

No maisNestes dias em que se discute como está a alma de Lula fora do Planalto, vale lembrar comentário de Negrão de Lima a um amigo ao deixar o governo do antigo Estado da Guanabara sob os aplausos do povo:
— Preferia estar entrando no governo, mesmo debaixo de vaias.É. Pode ser.

Glass no Rio
Philip Glass, o grande pianista americano, autor de obras sinfônicas e trilhas para Hollywood, vai se apresentar pela primeira vez no Rio. O primeiro recital está marcado para 15 de setembro, na Sala Cecília Meireles. 

É muito dinheiro

Nessa licitação da Petrobras para construção de 28 navios-sondas, coisa de uns R$50 bi, houve diferença de até 25% nas propostas de preços feitas pelos estaleiros.

Rejuvenescimento
Em 2004, ao se casar com Marcela Araújo, o vice Michel Temer (na época, com 63 anos, enquanto a bela tinha 20) se tratou com a médica carioca Mariana Jacob, especialista em rejuvenescimento.

Não cabe, meu

Um parceiro da coluna, que de matemática entende tudo, duvida do número de pessoas no réveillon da Avenida Paulista anunciado pelos organizadores (2 milhões). Ele faz a seguinte conta: a Paulista tem 2,8km de extensão, 45m de largura e área de 126.000m²; para caberem 2 milhões ali, teria de haver, acredite, quase 16 pessoas por metro quadrado. Faz sentido.

Aderbal Alves Jr. assume quinta a presidência da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.

Será quinta, às 19h, na Igreja de São Francisco de Paula, na Barra, a missa de 7º dia de falecimento de Da Lourdes Moura de Souza.

A agência 11:21 conquistou a conta do fabricante do saquê Kirin.

Moyseis Marques, o cantor da Lapa, comanda o Baile Joia Rara, hoje, no Clube dos Democráticos.

Exalta Rei anima o Dia de Reis na Parada da Lapa, quinta, às 20h.

A Lacca lançou revestimentos em couro para armários.

Carlos Malta, Pife Muderno, DJ Zod e convidados fazem shows nas quintas de janeiro, às 21h, no Bola Preta.

Queda do muroO secretário de Conservação do Rio, Carlos Roberto Osório, encara com simpatia a sugestão do ator Paulo Betti, divulgada aqui, de substituir o muro do Itanhangá Golf Club por grades, para que as pessoas possam ver de fora seu belo interior:

— Pela natureza linda da cidade, há áreas que são patrimônio ambiental. Adoraria ver aberto o Itanhangá e também o
Gávea Golf, em São Conrado.

Em tempo...

Osório promete procurar os clubes para tratar da ideia. 

A arte da guerra

“A arte da guerra”, o velho livro do chinês Sun Tzu, vai ganhar um equivalente no Rio. O coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, comandante da PM, recebeu proposta de uma editora para escrever um livro sobre liderança empresarial baseado na saga dos policiais que atuaram na tomada do Alemão. 

Praia limpa
Jacques Rogge, presidente do COI, é mais um a elogiar o trabalho da Comlurb, a estatal carioca do lixo. Rogge passou o réveillon na Praia de Copacabana e acordou no dia seguinte impressionado com a tropa de lixeiros que deixou tudo em ordem.

Salão xilindróUma ONG de militância gay pediu, numa reunião com autoridades da área de segurança do Rio, que, no caso de prisão de transexual, não se corte seu cabelo à máquina no presídio, mas se adote um... chanel. Alguns travestis seriam humilhados nas penitenciárias.

GOSTOSA

CLAUDIA COSTIN

Ginásio Carioca
CLAUDIA COSTIN
O GLOBO - 04/01/11
Há alguns anos, entrar para o ginásio era um feito memorável: as famílias comemoravam e associavam o sucesso nas provas de admissão, especialmente se a criança fosse de origem humilde, com um talento grande e um futuro promissor.

Muitos lançam olhares saudosos a esse passado, em que a escola pública apresentava qualidade, e culpam os novos tempos por oferecer um projeto de ensino populista e sem conteúdo forte. Culpam, em especial, o poder público por ter permitido a inclusão de um número grande de crianças pobres na escola, sem assegurar a qualidade necessária. De fato, o ginásio público era para poucos, normalmente os filhos dos letrados ou de famílias que tinham clareza do papel da Educação como mecanismo de ascensão social. Os demais eram excluídos.

No Brasil, as reformas educacionais do período militar acabaram com o ano de admissão e com os exames de entrada no ginásio. Alguns anos mais tarde, após a redemocratização do país, o acesso ao ensino fundamental se universalizou, o que representou, sem dúvida, um grande avanço.

No Rio de Janeiro, após o anúncio pelo prefeito Eduardo Paes do fim da aprovação automática e quase dois anos de esforço para dar um salto na qualidade da educação carioca, os resultados são surpreendentes, nos anos iniciais: a adoção de um currículo claro, acompanhado de provas bimestrais unificadas e reforço escolar estruturado, trouxe uma evolução importante no Ideb, índice que mede a aprendizagem do aluno e dados de repetência e evasão. Esse sucesso, porém, não se repetiu, na mesma medida, nos anos finais. Do 6º ao 9º ano, tivemos melhorias importantes na Prova Brasil, mas esse resultado positivo foi suplantado pelo aumento em 366% na taxa de reprovação. Além disso, as notas, embora melhores que em 2007, ainda deixam a desejar.

Nesse sentido, concebemos um novo modelo de ensino do 6º ao 9ºano que chamamos de Ginásio Carioca. O nome empresta do antigo ginásio a associação com excelência acadêmica e agrega-lhe o adjetivo carioca, porque se quer excelência sem exclusão, para todos. É fácil oferecer bom ensino para alunos excelentes, mas com isso acabamos com a ideia de que a escola pública pode ser fonte de oportunidades.

Como lograremos implantar semelhante modelo? Adotando uma estratégia que vem dando certo em várias cidades: instrumentalizando o professor com um material adequado para um ensino mais eficiente. O professor neste segmento de ensino tem pouco tempo para preparar seus planos de aula e se vê muitas vezes sozinho com a tarefa de preparar aulas instigantes para um público adolescente e inquieto. Decidimos, nesse sentido, chamar 220 professores, a maioria deles de sala de aula, para aos sábados preparar aulas digitais e apostilas, para seus colegas. Cada professor assina uma ou mais aulas. A UFRJ capacitou e acompanhou os professores, e consultores de outras universidades também nos ajudaram na tarefa.

Para viabilizar o Ginásio, projetores serão acoplados a computadores em cada sala, projetando as aulas digitais que incluem vídeos, exercícios, pesquisas e jogos. O professor terá um plano de aula e textos para sua preparação e os alunos, material para revisão e dever de casa. Para completar, cada aluno será orientado para preparar seu projeto de vida. Planejar o futuro, entender a ligação entre o estudo e um caminho profissional desejável, em que empenho seja valorizado, resgatando uma ética e um sentido de esforço. Não há sonho realizado sem luta. A escola pública deve oferecer ensino de qualidade. O resto é com cada aluno, protagonista de sua própria vida!

CLAUDIA COSTIN é secretária de Educação da prefeitura do Rio.

CLÁUDIO HUMBERTO


Foi Dilma que decidiu retirar Saúde do PMDB

A cúpula do PMDB está irritada com o ministro Alexandre Padilha (Saúde), mas foi a presidente Dilma quem decidiu retirar do partido cargos no segundo escalão no ministério, como a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e Secretaria de Assistência à Saúde. O líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN) afirmou a esta coluna que Padilha "começou mal", fechando a porteira da Saúde para o PT, mas a decisão não foi de Padilha e sim de quem manda nele: Dilma Rousseff.


Honrados

O PMDB fez pose de "solidariedade a um injustiçado" na posse de Pedro Novais (Turismo), aquele que pagou motel com dinheiro público.


Inspiração

O Brasil abriu embaixada no arquipélago da Micronésia, capital Palikir, com sete mil habitantes, chamada "Ilha dos Ladrões" pelo descobridor.


Frente fria

Lula anunciou, na despedida, que quer voltar ao Pacaembu para assistir o Corinthians da arquibancada. As outras torcidas agradecem...


Ringue

Um especialista começou no TCU, ontem, o curso de três dias "Como enfrentar jornalistas com êxito". Não forneceu luvas ou protetor bucal.


Incompleto

No momento em que Dilma Rousseff recebeu a faixa presidencial, o Supremo Tribunal Federal atingia o recorde de 154 dias sem a formação completa. Em dois mandatos, Lula escolheu oito dos 11 ministros do STF. Em quatro anos, a presidenta Dilma deverá nomear, além do substituto de Eros Grau, os ocupantes das futuras vagas de Cezar Peluso e Ayres Britto, que se aposentarão em 2012.


Possibilidades

Dilma pode nomear mais dois, caso seja confirmada a aposentadoria voluntária dos ministros Ellen Gracie e Celso de Mello, decano do STF.


Saúde delicada

As fortes dores nas costas, que atormentam Joaquim Barbosa e o STF, podem gerar outra vaga no STF, por afastamento voluntário.


Lobby in natura

A poderosa CBF tem escritório em Brasília, mas seus lobistas trabalham nas dependências do Senado. Só falta crachá de senador.


Mordomia

Novos ministros ainda não receberam orientação quanto ao uso de jatinhos da FAB. Roga-se menos sede ao pote. A grana anda curta, na Aeronáutica, até para pagar o combustível dos bacanas.


S/A em gestação

Sob o comando de seu novo presidente, Wagner Pinheiro, os Correios devem criar duas novas diretorias: Infraestrutura e Jurídica. Sinal de que a vem mesmo por aí a Correios S/A.?


Lorota cearense

Dispensado da Secretaria de Portos, Pedro Brito, espalha que vai para importante cargo no segundo escalão por indicação da própria presidenta Dilma, com quem apregoa ter grande amizade.


Renovada

Dilma não quer nem ouvir falar de Infraero, nem para noticia boa, que não costuma acontecer na empresa. Não vê a hora renovar a diretoria e nomear um presidente que goste mais de trabalhar do que de viajar.


Divórcio à italiana

A presidenta Dilma enfrentará o primeiro protesto hoje. Em Bolonha, Itália, por ratificar a decisão de Lula de manter o terrorista Cesare Battisti no Brasil. Modena e Ravenna poderão rever os laços comerciais com as "cidades-gêmeas" Londrina (PR) e Laguna (SC).


FRASE DO DIA


"Vamos eliminar áreas por onde escoam recursos, como festas"
Ministro Pedro Novais (Turismo), aquele do motel, prometendo pôr fim ao desperdício

PODER SEM PUDOR

O poder paulista
Inconformados com o crescente poder paulista na cena brasileira, políticos, empresários e banqueiros de Minas Gerais se reuniram no final dos anos 1970 para discutir formas de enfrentar São Paulo. Em meio a discursos tão coléricos quanto inúteis, pediu a palavra o sábio José Aparecido Oliveira, que representava o Banco Nacional, do mineiro Magalhães Pinto. E sepultou a reunião com sua ironia:
- Amigos, só o fato de não precisarmos trocar moeda, usar passaporte, nem falar outra língua para entrar em São Paulo, já está bão demais...

CUECÃO

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Ministro prepara ensino médio em tempo integral

- Folha: Alckmin resolve auditar contratos da gestão Serra

- Estadão: Tombini prioriza controle da inflação

- Correio: Dilma imprime a sua marca

- Valor: Múltis avançam nos emergentes

- Jornal do Commercio: Livro didático sobe 8% em média

- Zero Hora: Polícia projeta até 10 delegacias exclusivas para conter homicídios

segunda-feira, janeiro 03, 2011

RUI NOGUEIRA

Infraestrutura, falsa solução e Estado
Rui Nogueira 
O Estado de S.Paulo - 03/1/11


Aqui e ali, nas resenhas, retrospectivas e balanços sobre o fim do governo Lula, surge a ideia de que o presidente foi melhor nos dois mandatos pelo mal que evitou fazer do que pelo que propriamente fez. A síntese do mal menor no governo Lula quase sempre é feita por remissão comparativa ao passado retórico do PT e do líder sindical metalúrgico do início dos anos 80 até meados dos anos 90.

Com a manutenção das políticas fiscal, monetária e cambial, ficou em segundo plano a profusão de sinais trocados emitidos por Lula. Diante do essencial, as dúvidas semeadas por Lula nos dois mandatos foram tratadas como algo acessório. O atual estágio do crescimento econômico, o estado das contas públicas (sem lastro para maiores investimentos, propagandas do PAC à parte) e a proposta de expandir as políticas sociais impõem, porém, o enterro desses sinais trocados.

Vamos a dois exemplos, aeroportos e banda larga, sobre o padrão de zigue-zague que a nova chefe de Estado, Dilma Rousseff, precisa encarar.

O Brasil fecha 2010 com um crescimento econômico na casa dos 8%, um recorde para as últimas duas décadas. A saúde econômica dos EUA e da Europa está resfolegante, mas a China continua exuberante. Mesmo que o ritmo do crescimento do País diminua um pouco, é certo que a infraestrutura disponível e o padrão de financiamento bateram no teto. Há um nhenhenhém nesse debate.

Há importantes obras em andamento, mas o tamanho das necessidades brasileiras obrigará Dilma a dizer se o governo adota regras claras para uma inédita atração de capitais privados ou se o Planalto continua a flertar com jogos de palavras que falam em mais Estado, em Estado parceiro, em Estado que resolve. O governo Lula não conseguiu botar em pé sequer as Parcerias Público-Privadas (PPPs). O País não precisa ser governado por um privatista vesgo, por alguém que satanize o setor público, mas não pode perder tempo com ilusões e falsas dúvidas.

Essa chacota ideológica sobre o Estado salvador ganhou força no auge da crise financeira de 2008, quando os governos foram obrigados a resgatar os bancos à beira da falência. Os governos que adotaram tais políticas para o conjunto da sociedade são os mesmos - ainda que as pessoas no comando possam ter sido outras - que, anos atrás, flexibilizaram as regras de controle e regulação dos mercados financeiros. Na hora de endeusar o Estado, os críticos esquecem, por conveniência, que a história está repleta de políticos que levaram à falência centenas de cidades grandes e pequenas e que levaram nações inteiras à bancarrota. De um modo geral, saem do buraco enfiando a mão no bolso do contribuinte e tomando dinheiro emprestado onde existe, nos bancos públicos e privados.

O certo é que, ao contrário da ladainha em curso, o Estado, pela fartura de exemplos, faz pouco ou quase nada com eficiência quando se trata de prestar um serviço. A maioria dos serviços prestados pelo Estado nem se submete às regras de qualidade apropriadamente impostas aos do setor privado.

Banda larga feita e servida pelo Estado é uma piada de mau gosto, um exemplo caricato do sinal trocado com que o governo Lula foi entretendo o País. O governo que não conseguiu universalizar a telefonia não o fará com a internet. Dirão alguns que os governos anteriores são uma coisa e os de Lula e Dilma são outra coisa bem diferente. Nomes de presidentes à parte, o padrão de cobrança do servidor público não mudou nada. No governo Lula, só aumentou a taxa de corporativismo. Governo é governo, não importa o presidente.

O Estado é movido por almas trabalhadoras, mas o espírito reinante é esse. E aí quero ver o consumidor cidadão na hora de reclamar do burocrata do governo que presta o serviço de banda larga! Quem já foi ao Procon ou usou o Judiciário para acabar com as filas nos postos de saúde e hospitais públicos? Quem tem a pachorra de processar o Estado por conta de uma correspondência que os Correios largaram em um canto e foi de um lugar para lugar nenhum?!

Uma coisa é o Estado, em nome de uma ideologia, arvorar-se a fazer o que, comprovadamente, não fará bem feito. Outra é adotar um mix de estímulos (persuasivos, indutivos e punitivos) que leve o setor privado a fazer o necessário.

A demanda por infraestrutura num país que precisa crescer ao ritmo de 8% não vai ser atendida com base em uma política de sinais trocados. Que o Estado cumpra o papel de regulador sério, mas não tenha dúvida sobre o óbvio: quanto mais investimento privado e maior for a transparência da contratação, maior será a rapidez da construção e a eficiência do serviço construído e prestado. Antes de saber quanto vai ganhar, o investidor quer regras claras para saber como. E, quanto mais estável é a regra, para que ganhe no longo prazo e com segurança, menos ganho de curto prazo exige.

O caso dos aeroportos é igualmente exemplar para esse debate. O governo Lula vem, literalmente, enrolando sobre o assunto. E, nesse caso, com a ativa participação da então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Abre o capital da Infraero, estatiza a Infraero, deixa a Infraero com os grandes aeroportos ou deixa a Infraero só com os pequenos (porque as empresas privadas só querem o filé!). Junta filé e osso e cria um pacote de concessões.

Esse foi o pano de fundo dos oito anos de Lula, pura inanição à porta das necessidades impostas pelo crescimento, havendo ou não Copa do Mundo e Olimpíada.

Por trás desse debate reina, mais uma vez, a tática a adotar para contribuir com a estratégia estatista. Uma desnecessidade. Se a Infraero, depois de uma avaliação objetiva, tem contribuição estratégica a dar numa parceria com o setor privado, que se adote o modelo. Se a Infraero mais atrapalha do que ajuda, que se estude o destino a dar à estatal. O que não pode é perder tempo com o debate sobre o futuro da Infraero, quando o debate deve ser sobre o que fazer para ter uma infraestrutura aeroportuária à altura do crescimento do País. O investidor convive mal com esse zigue-zague.

JORNALISTA, É CHEFE DE REDAÇÃO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA DO "ESTADO"

DENIS LERRER ROSENFIELD

Pornografia política
Denis Lerrer Rosenfield 
O Estado de S.Paulo - 03/1/11


A composição do novo governo deu mostras de sexo explícito, com os diferentes partidos da base aliada numa disputa desenfreada por cargos políticos. Nenhum pudor ou vergonha presidiu a ação desses partidos, como se tal busca desenfreada pelo poder não se devesse mascarar. O "prazer" que cada um almeja se mostrou da forma mais crua, mais nua, não se fazendo necessária uma "mise-en-scène", uma encenação. Formas simbólicas de encenação da política, como apresentação de programas, justificativas do que é pretendido fazer com as novas posições de poder e ideias orientadoras da ação nem se fizeram presentes. Foi o deserto da sedução.

A pornografia distingue-se do erotismo. Ela se caracteriza pela crueza, pela apropriação do corpo do outro, pela ausência de qualquer encenação. Desaparecem quaisquer formas de simbolismo, de aproximação gradativa, de sedução. Os corpos já aparecem nus, em ato. Não há propriamente jogo, salvo o jogo da submissão, da busca imediata do prazer, do objetivo a ser alcançado. Ninguém aparenta algo diferente do que é, assim, apresentado. A política brasileira torna-se, nessa perspectiva, cada vez mais "pornográfica", pois os partidos partem imediatamente para a satisfação dos seus desejos mais imediatos, particulares, procurando mostrar que o poder é somente um instrumento de sua satisfação.

Noções como bem coletivo, validade de ações numa ótica universal e ideias do que seria feito com o poder conquistado são simplesmente descartadas. Cada partido apresenta suas posições de "força", número de deputados, senadores e governadores, como se aí apenas se justificasse a sua ação. Alguns, de forma mais elaborada, poderiam dizer que se trata da própria natureza do "presidencialismo" brasileiro. Este necessitaria desse tipo de aliança, de coalizão, como se outras formas de negociação não fossem possíveis, como, por exemplo, acertos com as oposições em torno de alguns projetos e ideias essenciais para a Nação, independentes de qualquer componente partidário. Ideias de interesse nacional são, por definição, suprapartidárias. Em vez disso, temos a "orgia" das alianças em torno do poder.

O erotismo, por sua vez, encena a aproximação com o outro, joga com formas simbólicas, os corpos não aparecendo nus. Há todo um processo de "despir-se", de acariciar-se, de encenações que devem ser feitas, podendo estas concretizar-se ou não pela "conquista". Os dizeres, as formas de expressão das frases e as palavras utilizadas têm todo um papel essencial, porque delas depende o tipo de aproximação, reservando ao outro o papel de responder com um sim ou um não. Não há imposição. A crueza da abordagem, aqui, se traduziria por seu fracasso. O simbólico preenche uma função essencial no erotismo, sendo um componente central da ação.

Algo análogo se pode dizer da política não pornográfica. Ela se traduziria pela utilização de formas simbólicas, por dizeres implícitos que esconderiam, num primeiro momento, a intenção declarada. A encenação da aproximação é aqui o principal, pois ela se faz sob a forma de discursos e ideias que comprometem os agentes. Há uma "mise-en-scène", uma encenação do coletivo, do universal, do que é o bem de todos, criando parâmetros que devem ser seguidos. A natureza da busca do poder muda, pois, embora ele permaneça o objetivo, se coloca a questão do que fazer com ele. Uma vez de posse desse instrumento, como justificar o seu uso?

Quero dizer com isso que a encenação "erótica" da luta pelo poder obriga os contendores a apresentarem ao público, no caso, os cidadãos, as ideias que dizem defender, as ideias que justificariam suas ações. Estabelecem-se, desta maneira, formas de cobrança pública, obrigando os parceiros a prestar contas de suas ações. Se isso não ocorre, vale somente a conquista crua e a distribuição de privilégios e favores aos que galgaram essas posições. Os que não participam da pornografia política estão fora. Os "vitoriosos" vão usufruir o poder exclusivamente para si.

Velhas oligarquias alternam-se com as novas. O jeito lulista de governar terminou produzindo uma afinidade entre oligarquias alicerçadas na tradição patrimonialista e clientelística brasileira e oligarquias "modernas", disputando entre si espaço num governo de "unidade", capaz de preservar os interesses de ambas. "Peemedebistas" maranhenses tornam-se companheiros de "socialistas" cearenses, cada qual apresentando suas "demandas" por favores e privilégios. O aparentemente novo nada mais é do que a reapresentação de uma velha forma de fazer política.

O PMDB tem sido apresentado como o partido com maior "voracidade", uma amostra da "pornografia política" vigente entre nós. Um olhar mais detalhado talvez nos permitisse colocar uma outra questão. Em que esse partido se distingue dos demais? Os escândalos dos últimos anos, os mensalões, os sanguessugas, as cuecas e os aloprados não foram "peemedebistas", atingindo o PT e outros partidos. A própria palavra mensalão começa também a ser utilizada para caracterizar escândalos de partidos oposicionistas. Ou seja, a "voracidade" tem uma conotação pluripartidária, um nome que serve para distintas agremiações, da situação e da oposição, pondo em cena uma forma de fazer política carente de valores e ideias, carente de qualquer compromisso com o bem coletivo.

É bem verdade que o PMDB fez, particularmente, por merecer. O episódio de nomeação do deputado Pedro Novais, do Maranhão, para o Ministério do Turismo veio acompanhado da descoberta de que verbas de representação, exclusivas da atividade parlamentar, foram utilizadas para gastos num motel. Sua atividade "parlamentar" terminou por produzir indignação pública, porém uma reflexão mais aguçada mostra que sua orgia - vários casais teriam sido convidados para a festividade - se enquadra perfeitamente ao quadro geral da pornografia política. Na verdade, ela faz sentido.

PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS.

FERNANDO RODRIGUES

"Gravitas"
FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SÃO PAULO -03/01/11
BRASÍLIA - Nas cerimônias da posse de Dilma Rousseff, no sábado, muitos observaram a abordagem menos emocional dos discursos da nova ocupante do Palácio do Planalto em comparação ao seu antecessor. Seria assim com qualquer político na fase pós-Lula.
O agora ex-presidente comportou-se como uma estrela pop durante a maior parte de seus mandatos. Sua origem humilde, a pouca educação formal e o fato de ser o primeiro operário a ter ocupado o Planalto o investiam de uma certa licença para transgredir protocolos. Petistas e áulicos em geral passaram a enxergar como normais as incivilidades de Lula. Críticas, mesmo as mais leves, eram interpretadas como preconceito.
Esse campo de força em torno do petista impediu maiores repercussões quando num evento recente ele sugeriu que um repórter fosse se tratar ("quem sabe fazer uma psicanálise"). Esse foi apenas um exemplo das muitas grosserias indesculpáveis de Lula. Para matizar a impropriedade dessas atitudes basta trocar as personagens. Imagine o leitor qual seria o impacto se Barack Obama nos EUA sugerisse em uma entrevista que um jornalista procurasse um médico. Teria de passar pelo constrangimento de se desculpar em público.
Desde a sua eleição e até a posse, no sábado, Dilma seguiu de forma estrita o ritual traçado. Não produziu ações fora do estabelecido pela liturgia do cargo. Parece pretender conferir à função mais "gravitas", no sentido latim do termo -mais dignidade, serenidade e nobreza.
É positiva essa mudança de paradigma. A função de presidente da República requer do seu ocupante não só a capacidade de se comunicar com as massas como se o Planalto fosse um programa de auditório eterno. Um pouco de temperança fará bem ao país e à política.




Depois do ano eleitoral, uma folga de três semanas. Feliz 2011 ao leitor e até a volta no fim de janeiro.

O VAGABUNDO

CLÁUDIO HUMBERTO


Diretor teria usado 'parentesco' com Dilma
Dilma Rousseff já descobriu que bom político precisa ser mau parente: ela pode se ver obrigada a afastar o superintendente da Infraero no Rio de Janeiro, Willer Larry Furtado. Funcionários da estatal o acusam de proclamar ser casado com uma prima da presidente e de usar esse suposto parentesco para atormentá-los com uma "lista de demissões". Procurado por meio de sua assessoria, Furtado não se pronunciou.


Avestruzes

A assessoria da Infraero nacional, com sintomas de quem está à beira de um ataque de nervos, também se recusou a comentar a denúncia.


Novos tempos

O DEM e o PT tendem a marchar juntos na eleição para prefeito de Dourados (MS). O ex-vice-governador Murilo Zauith terá vice petista.


Prefeito

Após disputar o Senado pelo PSDB, o deputado Gustavo Fruet deve ser candidato à prefeitura de Curitiba, em 2012.


Guerra petista

A briga no PT de Recife já começou: candidato à reeleição em 2012, o prefeito João da Costa disputará prévias com o antecessor João Paulo.


Não estável

Servidoras em licença maternidade, ocupantes de cargos de confiança ou "em comissão", nomeadas para os governos que acabaram no dia 31, não têm direito a "estabilidade". O tema é objeto de Direito Público e não de Direito Trabalhista, conforme um especialista, o advogado Marcos Kaufmann, de Brasília. No setor público, há servidores e não "empregados", cujas relações de trabalho são orientadas pela CLT.

Estertores

Derradeiro sinal da influência da ex-ministra Erenice Guerra nos Correios - exercida por meio do diretor de Operações, Fábio Vieira Cesar - é o lançamento de edital de megalicitação para contratar uma nova empresa aérea para a rede postal noturna.


Liberalidade

Alguns governantes adotam a decisão política de manter nos cargos as servidoras sob licença maternidade, mas não são obrigados a isso.


Garantias

Um juiz do Acre, Alysson Fontenele, decidiu no caso de servidora grávida que "garantias sociais se sobrepõem à vontade do empregador".


Boquinha

Geraldo Alckmin arrumou boquinha para o ex-candidato ao governo do Acre, Tião Bocalom. Cuidará das relações com os tucanos, país afora.

Acabadaço

O ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) andou muito abatido, às vésperas da posse. Até parecia infeliz com o convite da presidente Dilma, após mais uma derrota eleitoral em São Paulo.


Nepotismo cruzado

O governador do Piauí, Wilson Martins, indicou o irmão Rubem para a presidência da Codevasf. O ministro Fernando Coelho (Integração) não gostou. Disse que consultaria a presidente Dilma sobre a nomeação.


Perguntinha

Será que Dilma reservou lugar na janelinha para Lula no seu novo avião "Banana Republic"?

PODER SEM PUDOR

O síndico mirim
O deputado ACM Neto (DEM-BA) mostrou desde cedo que herdou o jeito ACM de se impor. Nos anos 80, o alto clero carlista (Antonio Imbassahy, atual prefeito, o ex-senador ACM Jr etc) morava no Condomínio Bosque Suíço, em Salvador. Mal saído das fraldas, aos dez anos, Neto quis ser síndico do condomínio, alegando, claro, que era o "neto do homem". Foi impedido pela convenção do condomínio, mas criou a figura do "síndico mirim", à revelia dos moradores. Tinha até verba mensal. Foi o primeiro e único a ocupar o cargo.

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: 'Ação no Alemão é modelo para todo o pais', diz novo ministro

- Folha: Dilma decide privatizar ampliação de aeroportos

- Estadão: Dilma enfrenta crise entre PT e PMDB pelo segundo escalão

- JB: Dilma se une a Cuba contra a cólera no Haiti

- Correio: Dilma quer pacto contra o crime

- Valor: Planos de saída no Bolsa Família

- Estado de Minas: Como garantir seu emprego em 2011

- Jornal do Commercio: Desafio de Dilma é cortar despesas

- Zero Hora: Dilma vai cobrar metas de ministros