domingo, dezembro 26, 2010

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Viver corretamente
JOÃO UBALDO RIBEIRO 
O Estado de S.Paulo
Não sei bem a que se pode atribuir a crescente moda de intervir na vida pessoal do cidadão brasileiro. Inclino-me a acreditar que isso se deve à falta do que fazer de um número cada vez maior de burocratas e tecnocratas. Todos eles detêm certezas sobre tudo o que julgam ser de sua alçada. Em matérias "técnicas", não há espaço para posições divergentes. Afinal, a técnica provém da ciência e a ciência fornece certezas. E essas certezas são tão poderosas que devem sobrepor-se até mesmo aos valores de indivíduos ou coletividades. O conceito de normalidade, tão enganoso não só científica como filosoficamente, parece para elas assente e inequívoco.
Claro que tais certezas, que amiúde se expressam em arrogância, autoritarismo e condescendência enfarada, não são certezas de coisa nenhuma, são apenas ignorância e estreiteza de horizontes em ação. O resultado é que nos vemos ameaçados a todo instante de sermos obrigados a nos comportar "normalmente" ou, pior ainda, corretamente. Volta e meia, alguma autoridade baixa regras sobre como devemos fazer compras em farmácia, que tipo de tomada nos convém usar ou que equipamento passou a ser compulsório nos automóveis. Com o nosso tradicional temperamento de rebanho ovino e de "tudo bem, contanto que não me incomode diretamente", vamos deixando que esse negócio se espalhe e tome conta de nossa vida.
Além do combate ao uso do tabaco e do álcool, creio que devemos esperar, a julgar por sinais aqui e ali, que nos ditem o que podemos comer. Em cantinas escolares, isso já é feito. Mas creio que os nossos mentores, protetores e tutores não considerarão seu trabalho concluído enquanto o pai que dê uma gulodice açucarada a seu filho não puder ser denunciado e enquadrado e perder o pátrio poder, se persistir em seu comportamento reprovável. Aliás, imagino que, com a vigência da lei da palmada, cedo chegará o dia em que pais e mães denunciados por palmadas desobedecerão a ordens judiciais e instruções de psiquiatras para serem corretos e normais e, portanto, o Estado os meterá na cadeia e lhes tomará os filhos, que terão seu futuro garantido, sob a guarda eficiente, carinhosa e científica de instituições modeladas na Funabem.
Assim como os fumantes oneram a saúde pública com as doenças causadas por seu feio vício, também o fazem os obesos, com seus problemas cardíacos, sua diabete, sua hipertensão. E não se pode esquecer que, caso essas pessoas de conduta e aparência condenáveis tenham filhos, estarão delinquindo ainda mais, pelo mau exemplo. Espero que em breve um dos mil braços do governo estabeleça padrões alimentares a que as famílias terão que obedecer, pelo bem de sua saúde e sob pena de suas compras de alimentos só poderem ser feitas sob a orientação de um técnico credenciado. Claro, ovo já foi um horror e hoje é permitido e até encorajado. Margarina já foi aclamada como o substituto sadio da manteiga e hoje é execrada. São as verdades científicas.
Ao contrário do que chegou a divulgar-se, os defensores da censura a Monteiro Lobato não foram derrotados nem alteraram suas posições. O livro pode ser lido, mas sob a supervisão de um professor com qualificações específicas. Ou seja, em última análise, um técnico em leitura literária, um guia. Diretamente, sem intermediários, o livro não pode ser lido. Acredita-se que existe a maneira certa de ler, entender e apreciar um determinado livro. As maneiras que não se encaixem no padrão correto são, por consequência, errôneas e inadmissíveis. Daí se passará, imagino eu, à exigência de que os livros, não somente na escolas, mas entre o público em geral, só possam circular depois de lidos pelos técnicos, que escreveriam uma espécie de bula ou modo de usar, para que os leitores apreendessem corretamente a leitura. Claro, não é censura, é apenas a aplicação da verdade científica ou objetiva.
Aliás, falando em livros há outras novidades, ainda no terreno da cultura. O plano é mudar a lei dos direitos autorais. Os proponentes das mudanças dizem que não estão de fato querendo mudar nada, porque todas as suas ideias estariam contidas em dispositivos legais já vigentes. Pergunta-se, nesse caso, por que é preciso fazer uma nova lei. Não sei bem, mas sei, pelo que já me foi contado, que a produção de cópias de livros ou textos sem pagar direitos autorais será permitida, contanto que para fins educativos. Ou seja, qualquer coisa, ainda mais no mangue educacional que é o Brasil. O sujeito escreve um livro que é adotado em classe e esse livro pode ter praticamente uma edição à parte, pois há máquinas que possibilitam isso, copiando um livro inteiro e cuspindo do outro lado volumes já encadernados, com capa e tudo. O autor não vê um centavo, embora os produtores da edição pirata se remunerem pelo seu trabalho de "difusão" e, principalmente, os fabricantes das máquinas ganhem.
Interessante isso. Acredita-se que um estudioso dedique anos de pesquisa e trabalho duro a produzir algo pelo qual não será pago, a não ser pela distinção de ser adotado nas escolas. Por que os funcionários do governo que lidam com cultura não abdicam de seus salários, já que a verdadeira cultura não pode ter preocupações materiais e o artista pode viver de brisa? Trabalhar para a cultura é isso, é ser filósofo e poeta aos olhos do grande público. Morrendo bêbado, tuberculoso e na sarjeta é ainda melhor, compõe o quadro romântico.
A interferência do Estado na elaboração, venda e circulação de livros e, acima de tudo, a tutela de seu uso, sua interpretação e sua avaliação não é mais nem autoritarismo, é totalitarismo fascistoide mesmo, é controle do pensamento. Mas moda é moda e, como ninguém reage, vão nos empurrando essas e outras goela abaixo, até o dia ideal em que não pensaremos mais, porque os pensadores certos já terão pensado tudo por nós. 

VERISSIMO

Crer
VERISSIMO 
O Estado de S.Paulo - 26/12/10
O garoto me pediu um cavalo. Eu perguntei: "Um cavalinho de brinquedo?" Ele disse: "Não, um cavalo de verdade." Eu disse que ia ver, mas que seria difícil carregar um cavalo de verdade no meu saco.
Ele ficou me olhando. Depois disse:
- Você não é o Papai Noel de verdade, é?
- Claro que sou. Por que você pergunta?
- Porque no outro xópi tem um Papai Noel igual a você.
- E você pediu um cavalo pra ele?
- Pedi. E ele disse que ia me dar.
- Bom, talvez o saco dele seja maior do que o meu.
- Mas o Papai Noel de verdade é ele ou é você?
***
O que dizer para o garoto? É que nós temos o poder da ubiquidade, entende? Ubiquidade. A capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Onipresença. Pergunte a sua mãe. Só existe um Papai Noel, mas ele está por toda parte. Está em todos os shoppings do mundo. Cada Papai Noel é a manifestação de uma mesma e única entidade superior. Só muda o nome e o tamanho do saco. Eu sei, é um conceito difícil de entender. Ainda mais na sua idade. Há anos, séculos, discute-se a natureza desta entidade multipartida. Existiu um Papai Noel histórico, que viveu e morreu, mas seu espírito perdurou, e perdura até hoje, porque a sua essência transcendia a sua materialidade. Sua sobre-existência supratemporal e a-histórica, como a definiria Kierkegaard, depende de uma predisposição da humanidade para ver na sua figura a idealização de um paradigma infantil de bom provedor, e a eternização da infância num "pai" amável que nunca morre, e volta, ciclicamente, todos os anos, ano após ano, na mesma data. No resto do ano ele reassume a sua imaterialidade mas mantém-se introjetado nos que acreditam nele, controlando suas ações e pensamentos, que serão premiados ou punidos quando da sua rematerialização anual, numa espécie Juízo Final parcelado. Eu, o Papai Noel do outro shopping e todos os milhares, milhões de papais noéis que surgem nesta época do ano somos apenas caras diferentes do mesmo ente reincidente que traz presente ou castigo, representando uma cosmogonia moral que rege o comportamento humano. Há quem diga que esta entidade que recompensa e pune não passa de um mito infantilizante que aprisiona a razão numa superstição obscurantista. Que Papai Noel não existe. Que eu sou uma fraude. Que o Papai Noel do outro shopping é uma fraude. Que todos os outros papais noéis do mundo são impostores, que por trás das suas barbas falsas há apenas pobres coitados tentando faturar alguns trocados sazonais com a crença alheia, e enganando criancinhas. Não é verdade. Pode puxar a minha barba. Eu existo, eu...
***
Nisso o garoto fez xixi no meu colo. Foi levado pela mãe, com pedidos de desculpa. Melhor assim, pensei. Minha explicação só iria assustá-lo. E eu só estaria tentando convencer a mim mesmo. Sou gordo, tenho uma barba naturalmente branca, sou quase um predestinado para ser Papai Noel de shopping. Mas todos os anos preciso combater minhas dúvidas. Como em qualquer caso envolvendo crença e fé, o pior são as dúvidas. Com o xixi eu nem me importo.
***
Mas veja como crer é importante. Em seguida sentou no meu colo um homem dos seus 40 anos. Não queria me pedir nada, só queria colo. Tinha estourado o limite do seu cartão de crédito nas compras de Natal e precisava que alguém o consolasse. 

GOSTOSA

GAUDÊNCIO TORQUATO

O ciclo Lula dá adeus
GAUDÊNCIO TORQUATO 
O Estado de S.Paulo 26/12/10
Daqui a seis dias, no final da tarde de sábado, Luiz Inácio Lula da Silva descerá a rampa do Palácio do Planalto, deixando a condição de mandatário-mor do País. Nesse momento, as cortinas descerão sobre um palco aberto em 1.º de janeiro de 2003, onde peças sempre bem aplaudidas exibiram a performance do mais prestigiado líder do Brasil contemporâneo, um dos raros a combinar dois celebrados conceitos de Maquiavel: a virtú e a fortuna. Ao maximizar seu prestígio junto às massas, reforçado por um perfil carismático, Lula administrou, de maneira exemplar, as circunstâncias de um tempo pleno de aspirações, atingindo, por consequência, o grau de maior provedor das necessidades do povo que governou. A sorte que bafejou o governante, soprada por ventos que revigoraram o ambiente econômico, foi usada por ele de maneira eficaz para estreitar as distâncias entre as classes sociais. Ajudou-o nessa tarefa a alma intuitiva de um brasileiro que saiu do andar mais baixo do edifício nacional. Alma plasmada pelas carências das populações mais sofridas. Esse tempero fez a diferença de estilo.
Afinal, o que foi o ciclo Lula? Foi, sobretudo, a era de intensa dinâmica social, que propiciou a inserção de apreciável contingente ao mercado de consumo. A pirâmide das classes teve seu meio alargado com afunilamento da base, ou seja, tornou-se menos triangular e mais retangular. Esse constitui o maior feito do governo comandado pelo ex-metalúrgico. Além de 30 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média (baixa), outro núcleo se movimentou da margem extrema da base para um degrau acima, ou, nos termos da estratificação social, subiram da classe E para a D. Abre-se, aqui, um parêntesis. A ascensão social foi, é e sempre será meta prioritária das esquerdas. Por consequência, o PT procurou validar o seu passaporte esquerdista - até para estabelecer um diferencial sobre outros partidos - a partir da política de inserção social da era Lula. Mas é arrematado exagero dizer que uma guinada esquerdizante passou por aqui. Há tentativas naquela direção - como criação de controles na área de comunicação e abordagens polêmicas na política de direitos humanos -, mas um sistema de freios tem segurado as intenções. Ademais, vale lembrar que o ciclo Lula caracteriza-se também por sediar uma teia de siglas insossas, inodoras e incolores. E mais: o sucesso do programa de distribuição de renda e acesso ao crédito teve uma semente plantada no passado.
Sob essa leitura se esvanece a tese de que o grid de largada do Brasil na pista internacional é coisa exclusiva do governo Lula. Na verdade, a montagem da corrida se deu lá atrás, quando o ciclo Itamar/FHC abria os tempos estáveis do Plano Real. Por isso, parcela ponderável da expressão cívico/ufanista do período que se encerra faz parte do enredo de autoglorificação. O verbo solto que se emprega para exalar os feitos contemporâneos chega a lembrar o ciclo militar, quando a harmonia social, flagrada nas imagens de crianças brincando em jardins, se fundia com o verde-amarelo da bandeira, enquanto um hino cívico enaltecia o Brasil Potência. Nem por isso se pode diminuir a inequívoca virtú do presidente Lula, exercida nos palanques populares e nos salões nobres e irradiando influência. Exemplo é a imagem externa do Brasil. Ficou mais forte, apesar de rompantes da diplomacia, ao cortejar países de inequívoca tradição repressiva, como o Irã. Não se imagina evento de magnitude no plano internacional sem a voz do Brasil.
Os êxitos do lulismo, como se aduz, se devem sobretudo ao gerenciamento da economia. Ali se desenvolveu uma política conservadora. Controle de câmbio e juros elevados. A habilidade do dirigente em aproximar os frutos econômicos do estômago das massas - entendendo-se que as camadas atendidas incluíram fortes estratos das classes médias - ganhou realce nos palanques da redundância, que deram ampliação aos fatos e versões. Portanto, na esfera da propaganda, o refrão "nunca antes na história deste país" pode ser considerado verdadeiro. Errado é usá-lo para comparações em alguns campos, eis que há cinco, seis ou sete décadas não havia parâmetros para medir programas governamentais. Ademais, não se pode comparar um país de 195 milhões de habitantes, num mundo globalizado, com um território de 50, 60 ou 70 milhões num espaço cheio de fronteiras.
Já na seara política, a situação não avançou. Pode-se até concluir que Luiz Inácio usou com mais astúcia do que seus antecessores os meios de cooptação para formar sólida base de apoio ao governo. Passou perto dele o trem do mensalão, mesmo que defenda ter sido o fenômeno uma invenção da mídia. Ora, a Justiça provou que o processo ocorreu. A mesma sensação de que a coisa não andou ocorre nos campos da saúde, segurança, Previdência, tributos e trabalho. Viu-se, em compensação, um Judiciário mais solto e aberto, descendo de um altar inacessível para ficar mais próximo da sociedade. E tomou às mãos pautas da mais alta relevância. Cassou mandatos. E contou com o esforço de um batalhão de defensores da sociedade, arregimentados no Ministério Público. A corrupção não acabou, porém ficou mais exposta a controles.
Por último, a dúvida: com a descida da rampa, o ciclo Lula se encerra? Sem dúvida. A explicação para a resposta leva em consideração o fato de que os ciclos governamentais não se repetem, mesmo que antigos dirigentes sejam reconduzidos ao posto de comando. Relembramos a velha lição do filósofo: "Um rio nunca corre duas vezes pelo mesmo lugar." Lula, como ele próprio já piscou, pode até voltar em 2014. Mas o ambiente deverá ser diferente. Outros movimentos aparecerão no cenário. A dinâmica social continuará em evolução, enquanto núcleos organizados energizarão a sociedade. É possível prever a migração do voto do bolso para o voto da cabeça. Bom sinal. O rio correrá por outros lugares.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

RUTH DE AQUINO

10 razões para se indignar
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA

Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta

Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Um pequeno livro, quase um panfleto, de 30 páginas, tornou-se a sensação literária na França neste Natal. O nome do autor, Stéphane Hessel, não explica o sucesso. Sua idade, 93 anos, muito menos. São dois os motivos para o livro sumir das prateleiras. O preço baixo, de € 3 (R$ 7). E o título provocativo, Indignez-vous (Fique indignado) . Por incitar os jovens ao não conformismo pacífico, Hessel virou uma celebridade pop. Lembra o candidato do PSOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, de 80 anos.
Hessel nasceu em Berlim, de pai judeu escritor e mãe pintora. Foi para Paris aos 7 anos de idade. Na Segunda Guerra Mundial, lutou na Resistência contra o nazismo. Ajudou a redigir a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. Suas causas hoje são o Estado palestino, o meio ambiente, os direitos dos imigrantes, a liberdade de imprensa e a batalha contra o mercado financeiro. “Meu fim não está muito longe”, escreve. “Desejo, a cada um de vocês, que tenham um motivo para se indignar. Isso é precioso.”
Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta. “Os governos, por definição, não têm consciência”, escreveu o romancista Albert Camus, em 1954. Felizes são os homens e as mulheres que não aceitam passivamente os malfeitos dos governos e dos indivíduos. A indiferença nos faz menos humanos. A resignação pode nos tornar cúmplices.
Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta
Reduzir a lista abaixo depende da vontade política da presidente eleita e da atitude pessoal de cada um de nós. Eis 10 razões para se indignar no Brasil:
  • o número de analfabetos funcionais na oitava economia do mundo. Uma contradição provocada pela contínua falta de prioridade na educação fundamental e na qualidade da instrução;
  • os absurdos privilégios dos deputados e senadores, que aprovam aumentos para si mesmos e, além do salário, dispõem de uma verba extra irreal. Com R$ 26 mil mensais, deveriam abrir mão das mordomias;
  • a influência excessiva da Igreja sobre o Estado laico brasileiro. Em assuntos como células-tronco, controle da natalidade ou descriminalização do aborto, por que a religião se sobrepõe a razões de saúde e ciência? Que se respeitem a fé e os ditames do Vaticano como opções individuais, mas não como condutores de políticas públicas;
  • a impunidade de assassinos confessos, como o jornalista Pimenta Neves. Com recursos em cascata permitidos por lei, quem tem dinheiro, prestígio e diploma se safa da prisão, mesmo depois de confessar crime hediondo e ser condenado por júri popular;
  • a agressividade no trânsito, que torna o Brasil recordista em mortes em acidentes. O antropólogo Roberto Da Matta acaba de escrever um livro sobre isso: “Dirigir com cautela no Brasil significa ser barbeiro, bobo e idiota”. Acelerar para assustar pedestres, fechar o outro veículo, entrar na vaga alheia, bloquear os cruzamentos, xingar. Não é assim no exterior;
  • a falta de educação da elite brasileira. Boa parcela de ricos desenvolve falta de educação associada à arrogância e à crença na impunidade. Joga lixo nas praias e da janela de carros importados, dá festanças ignorando a lei do silêncio, viola a legislação ambiental e sempre quer levar vantagem;
  • os impostos escorchantes, que não resultam em benefício para a população carente. Cartéis punem o consumidor e tornam produtos e passagens aéreas no Brasil muito mais caros;
  • a falta de sistema de saúde pública que dê dignidade a quem precisa e aos mais velhos. Gente morrendo em fila de hospital ou por falta de leitos e médicos é inaceitável. Quantas CPMFs o governo exigirá?;
  • a falta de política de habitação decente para os mais pobres, mesmo com tantos prédios públicos vazios;
  • a inexistência de transporte de massas, num país que fez opção equivocada pelo carro. Metrôs e trens, ligados a uma rede de ônibus sem ranço de máfias, deveriam transportar todas as classes sociais.
Indigne-se, mas não seja chato. Contribua para a mudança. Melhor ser um indignado otimista que um resignado deprimido. Boas festas.

ILIMAR FRANCO

Privilégio
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 26/12/10


O Senado gastou neste ano, até a primeira quinzena de dezembro, R$752.394 com reembolso de despesas médicas e odontológicas de ex-senadores e seus familiares. Isso é só com atendimento fora da rede credenciada e refere-se a 59 pessoas, o que daria um gasto médio de R$1.062 por mês para cada beneficiado. O Senado fornece plano de saúde vitalício para seus senadores e familiares.

A conta de telefone

O Senado pagou neste ano, até a primeira quinzena de dezembro, R$44.695 referentes a ressarcimento da conta de telefone residencial de dez senadores. O campeão foi o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), que foi reembolsado em R$9.148. Em segundo lugar ficou o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), com R$5.962, seguido de ADELMIR SANTANA (DEM-DF), com R$5.270. Apesar de o Congresso estar em recesso em janeiro, os pedidos de reembolso de gastos com telefone residencial não diminuíram nesse período de férias. Virgílio, por exemplo, teve ressarcimento de R$761 referente a janeiro de 2010.

Meu projeto no futuro é organizar o meu passado" - Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores, que quer escrever um livro ao sair do governo

CURTINDO A VIDA ADOIDADO. Depois de ser derrotado na disputa para deputado estadual, na eleição deste ano, o senador José Nery (PSOL-PA), que é suplente, aproveitou o restinho de mandato para fazer quatro viagens ao exterior em missões oficiais bancadas pelo Senado. Recebeu dos cofres públicos R$12 mil em diárias, sem contar as passagens aéreas. Ele foi a China, França, México e Chile, em um total de 17 dias.

Jatinho

O Senado pagou R$36.250 ao senador Gilberto Goellner (DEM-MT), no dia 17 de maio, pela utilização de um jatinho para "transporte aeromédico" no trecho Cuiabá-São Paulo-Cuiabá. Ele é suplente do falecido senador Jonas Pinheiro.

Vocação

O ministro Luiz Paulo Barreto (Justiça) vai voltar para a Secretaria Executiva da pasta. Ele ocupou o cargo nas gestões de Márcio Thomaz Bastos e Tarso Genro. O titular do ministério agora será o petista José Eduardo Cardozo.

Boquinha

O suplente de senador João Faustino (PSDB-RN) assumiu o mandato por quatro meses neste ano, enquanto o titular Garibaldi Alves (PMDB-RN) se dedicava à campanha de reeleição. Foi o suficiente para Faustino pegar uma missão oficial para Nova York, de 12 a 19 de outubro, participando como "observador parlamentar" da Assembleia Geral das Nações Unidas. Faustino recebeu do Senado R$5.757,44 em diárias.

Lobby natureba

Cerca de 50 instituições da área de saúde pública estão se mobilizando para pressionar o governo federal a regular a publicidade de alimentos processados para o público infantil. No último dia 17, foi criada a Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, 19% dos casos da doença no Brasil poderiam ser evitados com o controle do peso. De acordo com o IBGE, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos e um em cada cinco adolescentes estão acima do peso.

O SENADOR eleito Walter Pinheiro (PT-BA) rodou a baiana e ficará com o gabinete de Cesar Borges (PR-BA), que estava prometido para Ivo Cassol (PP-RO).

ENTUSIASTAS da volta da CPMF apostam suas fichas no perfil mais político do novo ministro Alexandre Padilha (Saúde) para aprovar a volta do imposto.

EX-PRESIDENTE da Comissão de Educação, o deputado Gastão Vieira (PMDB-MA) reivindica a presidência da comissão especial do Plano Nacional de Educação.

MESMA BOSTA

JANIO DE FREITAS

O melhor destino
JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10

Lula não consegue nem sequer controlar sua perturbação com a saída da Presidência



DEIXAR A Presidência quando desfruta da aprovação de 80 e tal por cento da opinião pública não pode ser fácil para Lula, nem o seria para presidente algum. Por muito menos, Juscelino já saiu do palácio, rumo ao aeroporto, com os primeiros passos de sua candidatura ao retorno.
Lula, porém, não consegue nem sequer controlar sua perturbação. Obcecado, cedo ainda, com a saída inevitável, veio em um crescendo a essas referências que o levaram pelo patético a dentro. Chegou ao despropósito de fazer sua despedida pública antes mesmo do Natal, a oito dias de deixar a Presidência.
Se algum sinal se pode intuir daí para o futuro, não é tranquilizador.
Futuro, quanto a Lula, em que já cabem muitas coisas dissociadas, desde ser apenas um homem que volta à rua, ou um dedicado aos problemas da África. Ou um viajante permanente para pregações pelo Brasil afora, ou idem nas extensões internacionais, e, sobretudo, "um exemplo de ex-presidente" em relação ao novo Poder. Não é o que a dificuldade do desapego umbilical sugere.
Nem a lembrança a que remete. Lá de trás, dos primórdios da ideia fixa: "Vou dizer o que achar errado e vou dar meus palpites". Esta é a ideia de futuro mais próxima do Lula que se vê agora. Seria a transferência de emoções pessoais perturbadoras para perturbação governamental.
Qualquer que seja o grau da crítica e do palpite não pedidos, o que seria apenas palpite e crítica anódina à Presidência -como as de Fernando Henrique a Lula- no caso de Dilma Rousseff, a criatura, assumem as dimensões e os sentidos originários do criador. Perturbação na certa, pessoal, governamental e político-partidária.
Ora os assessores de Lula informam que passará um mês em descanso no exterior, ora que ficará por uma semana em praia brasileira, ou que apenas volta a seu apartamento paulista, agora dignificado pela duplicação.
Não faz diferença. Pode até instalar-se em Brasília, onde não é hábito se ocupar a sério com governo. É o futuro necessário e o que Lula tem a fazer de melhor.

SUJAS TAMBÉM
Só por acaso a miudeza de atos reprováveis é captada, por parte de indicados à composição do governo, em tempo de não os incluir nas relações de escolhidos.
É o que se dá com as revelações de abusos nos gastos da "verba indenizatória", esta excrescência da vida parlamentar brasileira.
Nem por ser uma dentre tantas, de valores individuais em geral baixos, deixa de ser muito comprometedora.
Se a percepção em tempo útil é incomum, a reação não precisa sê-lo.
O "vou devolver o gas- to", próprio de todos os flagrados, não anula a improbidade.
E a improbidade deve anular, por dever dos futuros ou vigentes governantes, as nomeações dos indicados de contas sujas, pequenas fichas sujas.
Na relação de indicados ao novo ministério há meia dúzia deles (por ora) que testam Dilma Rousseff. Testam para nós outros.

EM VÃO
A culminância política de Orestes Quércia foi, como está lembrada por tantos, sua eleição ao Senado em 1974, quando a oposição deu um grande susto na ditadura, em quase todo o país. Foi o momento nacional de Quércia.
Mas a verdade é que, no Senado, deu-se a reversão. Quércia sumiu no silêncio e na omissão. Deliberados, com toda clareza.
Passado o aturdimento inicial pela inutilidade da vitória exuberante em São Paulo, oposicionistas davam-se uma explicação sobre o Quércia inesperado: o SNI tinha feito mais uma. Qual, ou se fez, não ficou provado.

MÍRIAM LEITÃO

Vermelho e verde 
Miriam leitão
O GLOBO - 26/12/10


O governo Dilma deve evitar o erro de considerar que a queda do desmatamento nos últimos anos torna o assunto resolvido. Como se sabe, a área ambiental nunca foi o forte da presidente. Mesmo com a queda na taxa anual de perda de florestas, os riscos continuam e ficam cada vez mais complexos. Algumas obras do PAC são indutoras de desmatamento, por isso o problema pode voltar a crescer.

Uma impressionante reportagem de Marta Salomon, no Estado de S.Paulo, domingo passado, mostra como é complexa a questão do desmatamento no Brasil. Ela conta que um proprietário que respeitou a lei na Amazônia de Mato Grosso e manteve os 80% de floresta vai ser desapropriado pelo Incra porque a terra foi considerada ´improdutiva`. Acampados por perto, já à espera do desfecho da briga, os sem-terra já se preparam, inclusive com serrarias no local.

A fazenda Mandaguari foi classificada como ´grande propriedade improdutiva`, apesar de ter pecuária, apenas porque o proprietário não desmatou 50%, que teria direito adquirido de desmatar, na estranha opinião do superintendente do Incra em Mato Grosso. Uma velha lei permitia a derrubada de 50% da floresta. Esta lei foi mudada pelo ex-presidente Fernando Henrique, elevando a proteção para 80%. O fazendeiro obedece a lei em vigor, mas não deveria, pelo visto. O líder do acampamento dos sem-terra avisou que, se puder, terá uma serraria, e as madeireiras locais já fazem as contas de quanto há de mogno, cedro, ipê e angelim, entre outras madeiras nobres, na terra que será desapropriada. Tomara que agora que está confirmada no cargo, a ministra Izabella Teixeira queira impedir esse crime ambiental, porque hoje assentamentos e desmatamentos em áreas pequenas são uma parte substancial da perda de florestas no país.

O conflito de visão entre o Incra e o Ibama se arrasta há anos. O caso mostrado pela reportagem é emblemático, mas não é o único. Numa visita que fiz a Amazônia, fui apresentada pelo Ibama do Pará a documentos autuando o Incra por queima de castanheira, uma árvore protegida.

A confusão dodesmatamento no Brasil é que a fronteira entre mocinhos e bandidos nunca foi clara. Há assentamentos de sem-terra em conluio com grandes proprietários para que a terra seja desapropriada e os donos embolsem grandes indenizações. O financiamento público a atividades que desmatam nunca foi interrompido. O próprio governo que tenta coibir é o que incentiva financeiramente a atividade predatória. Cada bioma tem a sua complexidade e todos têm fragilidades. Até a Mata Atlântica tem perdido cobertura apesar de só restarem fragmentos. Se não entender tudo isso, e ficar dormindo sobre os números de queda, o novo governo pode enfrentar um aumento do ritmo de desmatamento.

Até porque, os números revelam sinais de riscos crescentes. O Imazon mostrou que o desmatamento na Amazônia Legal, em novembro, foi de 65 km2, 13% menor do que o de novembro de 2009. Porém, no mesmo período, o aumento da degradação - que é normalmente uma prévia do desmatamento - foi de 256% e atinge 2.805 km2. A maior taxa de perda de florestas ocorre exatamente em Mato Grosso.

O cientista florestal Paulo Barreto, do Imazon, conta que, apesar das restrições aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional ao financiamento de atividades que desmatam, o nível de crédito rural não foi afetado.

- Em 2008, o ano que começaram a valer as restrições ao crédito, o valor total dos financiamentos a atividades agropecuárias na Amazônia caiu apenas 1% em relação a 2007. Em 2009, o crédito rural na região subiu 11%. Parte desta subida se deu porque o governo aumentou os limites para o crédito para amenizar os efeitos da crise financeira. É importante notar que as restrições do CMN focaram principalmente nos imóveis acima de quatro módulos (entre 200 e 400 hectares). Os imóveis menores continuam tendo acesso ao crédito, diz Barreto.

Outras reportagens têm mostrado que o BNDES é grande financiador de frigoríficos que ainda não conseguiram fazer a sua parte no pacto contra o desmatamento, feito com supermercados e ONGs: não conseguem provar que compram apenas de quem não desmatou recentemente.

Paulo Barreto, do Imazon, acha que a maior derrota para a Amazônia é o governo insistir em certos projetos:

- Alguns são desastrosos, como o asfaltamento da BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, outros são duvidosos, como Belo Monte. Isso mostra que o governo não teve e não tem um projeto coerente e inovador para a região. Responde a emergências, de um lado, atende a demandas pontuais de aliados, de outro, e investe no modelo antigo.

O ministro dos Transportes do novo governo é o mesmo Alfredo Nascimento que tentou fazer da BR-319 uma plataforma para a sua eleição ao governo do Amazonas. Derrotado, voltará ao cargo. A área energética continua com aliados de José Sarney. As vitórias que produziram queda no desmatamento são em grande parte derivadas de medidas iniciadas na gestão Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e, depois, com Carlos Minc. Mas a ambiguidade do governo Lula continuará no governo Dilma.

O aumento da degradação, mostrado pelo Imazon, é um indicador antecedente de desmatamento. As obras mais ameaçadoras foram colocadas na agenda nacional por pressão direta da própria presidente Dilma, quando chefe da Casa Civil. O conflito entre agências do governo, com o Incra e o Ibama, produzem fatos absurdos como o mostrado na reportagem sobre a Fazenda Mandaguari, punida por respeitar a lei do país.

VINICIUS TORRES FREIRE

O mundo do dinheiro em 2011
VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10

Bancão vê baixo risco de colapso chinês, reclama da inflação no Brasil e está otimista com "emergentes"


OS PROBLEMAS da economia do Brasil não são, no curto prazo, lá muito dramáticos. A impressão geral vem das avaliações de investimentos e mercados do Goldman Sachs, o bancão de investimento mais bem-sucedido no mundo. O mais interessante nesses relatórios, dirigidos a clientes, é que o nível de hipocrisia é quase nenhum. Seus redatores não estão interessados em pregação ideológica e não dão a mínima para o bem-estar ou para o futuro do país. Ou melhor, tal perspectiva importa apenas quando se trata de analisar quais são os riscos e as oportunidades de investimento.
Como se trata de estudos de estratégia global de investimento, não há consideração sistemática sobre o caso de país algum, com exceção da China. A preocupação maior é avaliar o risco de bolhas, de crises financeiras e de mudanças dramáticas em políticas econômicas e preços de ativos. O pessoal está otimista.
A economia mundial estaria saindo da lama, "não emergentes" incluídos. O risco de colapso chinês seria baixo. Até o alardeado excesso no mercado imobiliário chinês não é levado muito a sério -na conta do pessoal do Goldman Sachs, os preços médios e relativos dos imóveis chineses estão num patamar aceitável. A inflação chinesa continua a acelerar, para mais de 6%, mas é administrável.
Uma reviravolta negativa nos mercados financeiros, ações em particular, não deve acontecer antes de 2012, afora a hipótese de alguma catástrofe. O mercado deve piorar com o fim do relaxamento monetário no mundo rico, com a alta de juros nos Estados Unidos e/ou com a baixa relevante do desemprego americano. As catástrofes por ora improváveis seriam uma crise da dívida europeia (agora detonada pela Espanha) ou de "pouso forçado" na China (com inflação explodindo).
No geral, o bancão continua a sugerir investimentos além da média em "emergentes", como o faz há uma década. Segundo economistas do banco, o "mercado" começaria a antecipar a hipótese de fim do crescimento dos "emergentes" apenas quando tais países passassem a ter grandes deficit em conta-corrente e sua dívida externa voltasse a aparecer, "o que está muito longe de acontecer".
Além do mais, continuam firmes os vetores do crescimento emergente: crescimento acelerado da produtividade, baixo endividamento do setor privado e público e moedas desvalorizadas. No Brasil, porém, o crescimento da produtividade é relativamente menor. Ainda mais discrepante, a moeda brasileira é a mais supervalorizada do mundo emergente em relação ao dólar, entre 30% e 40% mais cara do que seu "valor justo", na conta do banco.
O que parece incomodar mais o bancão é a economia crescendo além do "potencial", que, segundo o banco, é de 4%, e a inflação decorrente já atingiu um nível "problemático" (maior que 5% ao ano). De 19 "mercados emergentes" avaliados, Brasil, Argentina e Índia levam bandeira vermelha.
Porém, do ponto de vista do investidor global, o problema brasileiro estaria longe de ser crítico, como observado acima: o superaquecimento se torna um risco mais assustador depois de anos de elevados deficit em conta-corrente e da volta da dívida externa.
A perspectiva de tal coisa ocorrer no Brasil é remota, por ora.

GOSTOSA

CLÁUDIO HUMBERTO

Banda familiar de Chico Buarque


A coluna não é vidente, mas acertou: o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda terá um feliz 2011: à parte o indiscutível talento, o eleitor declarado de Dilma terá a irmã Ana de Hollanda no ministério da Cultura - já anunciada pela presidenta eleita - e um festival de homenagens bancadas pela Caixa por R$ 12, 5 milhões, sem licitação, para comemorar os 150 anos do banco estatal, criado em 1861. 

"Não é assim, sim ou não, dá ou desce"

Luiza Bairros, futura ministra da Igualdade Racial, sobre a imposição de cotas raciais

Festa antecipada 

O feliz 2011 de Chico começou antes, com seu terceiro (e polêmico) prêmio Jabuti de "melhor ficção" por "Leite derramado". 

Escafandro 

A nova ministra da Cultura, Ana de Holanda, tuitou: "O desafio é enorme, mas nada que seja impossível para quem respira cultura." 

Muda o disco

O ministério da Cultura, que já teve Gilberto Gil, pode ter melhorado do ministro, no caso ministra, mas piorou muito de música... 

Toma lá, dá cá

Os irmãos Cid e Ciro Gomes indicaram o prefeito Leônidas Cristino para a secretaria dos Portos e o PT herdou a prefeitura de Sobral.

Mega-contrato nos Correios

Os Correios estão dando máxima urgência, em fim de governo, a uma licitação por pregão eletrônico para escolher a empresa aérea que vai tocar a chamada Rede Postal Noturna. O contrato terá valor de R$ 2 bilhões e duração de cinco anos. A pressa tem sido interpretada como espécie de Baile da lha Fiscal da era Erenice Guerra, aquela ex-ministra da Casa Civil que indicou amigos para a direção dos Correios.

Apelo dramático...

Os irmão Tião Viana e Jorge Viana, governador e senador eleitos no Acre, têm feito apelos dramáticos para serem recebidos por Dilma.

...de investigados

Alem de Dilma ter ficado  em terceiro lugar no primeiro turno, no Acre, o que está pegando contra os irmãos Viana é a investigação da PF e MP.

Te cuida, ministro 

A turma de Marta Suplicy indicou Rodrigo Zerbone, hoje no Cade, para cargo "importante" no Ministério das Comunicações. Qualquer cargo.

Ruralistas com Aldo

A bancada ruralista na Câmara dos Deputados pode apoiar, quem diria, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a presidência da Casa contra o petista Marco Maia (PT-RS). Com quase 200 deputados, o grupo tem poder e pode mexer com a sucessão, colocando o PT contra a parede.

Lula não vai sair

O presidente desistiu de criar um Instituto Lula, nos moldes do iFHC. Depois que passar a faixa para Dilma Rousseff, Lula sairá em longas férias e deve retomar seu antigo Instituto Cidadania.

Só para constar

Dilma anotou em seu temido caderno, para não esquecer, que a idéia de indicar o futuro ministro do Turismo, Pedro Novais, aquele da farra no motel por nossa conta, foi do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

BNB é nosso 

A bancada de 25 deputados nordestinos do PT, com apoio dos governadores Marcelo Deda (SE) e Jaques Wagner (BA), insistem na indicação o presidente do Banco do Nordeste.

Drible socialista

O deputado Fernando (Coelho) Filho, do PSB-PE, deu um drible no democrático sorteio de gabinetes, na Câmara. Reeleito, ele trocou sua acanhada sala 272 no Anexo 3 pelo gabinete do senador eleito Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) no Anexo 4, antes que o sorteio fosse realizado. 

O homem certo

Secretário do governo do Rio, Carlos Minc, militante de passeatas em defesa da maconha, deveria ser destacado como negociador em futuras incursões da polícia nas favelas controladas por traficantes.

Literatura de ouvido 

Lula, que enxerga longe, tem "azia" com livros. Mas os deficientes visuais querem muito ouvir literatura. A Audioteca Sal e Luz (www. audioteca.org.br/catalogo.htm) tem 2,7 mil áudios à disposição, grátis.

Máfia russa chegou

A Polícia Federal investiga a presença de membros da máfia russa em praias do litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará. Estariam "lavando" dinheiro sujo na compra de imóveis. Pagam sempre em espécie.
Poder sem Pudor
Ameaça esquecida
Em 1990, eletricitários em greve ameaçavam promover um grande apagão no País. O governo designou uma comissão de negociação da qual fazia parte o ministro Antônio Rogério Magri, que presidiu o Sindicato dos Eletricitários de São Paulo. Um repórter de boa memória provocou:
- Quando era sindicalista, o senhor não ameaçou provocar um blecaute?...
- Foi só uma ameaçazinha... – respondeu Magri, ruborizado.
Em 1988, numa greve, ele ameaçou “apagar o País do Oiapoque ao Chuí”.

ELIO GASPARI

O mau sinal do governo que nem começou
ELIO GASPARI

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10

A permanência do deputado Pedro Novais (PMDB-MA) no Ministério do Turismo, e da senadora Ideli Salvatti (PT-SC), no da Pesca são um mau presságio para um governo que nem começou. Revelam ligeireza com o dinheiro da Viúva, onipotência e descaso pela opinião pública.

Novais recebeu da Câmara R$ 2.156 por conta de uma nota fiscal do Motel Caribe, de São Luís, relacionada com despesas feitas no estabelecimento durante a noite de 28 de junho. A senadora, que recebe R$ 3.800 mensais para custear sua moradia na Capital, cobrou à Viúva R$ 4.606 referentes a diárias de hospedagens no hotel San Marco, de Brasília, entre janeiro e dezembro deste ano.

Descobertos, ambos atribuíram as cobranças e os "erros" praticados por assessores e informaram que devolveriam o dinheiro. Pedir desculpas à patuleia, identificando publicamente os responsáveis, nem pensar. Cobrança de parte da presidente eleita que acabara de indicá-los para o ministério, muito menos. Preservou-se o padrão de casa-grande dos maganos de Brasília. Ao pessoal da senzala restou o alívio da descoberta do avanço sobre seu dinheiro, feita pelos repórteres Leandro Colon, Matheus Leitão, Andreza Matais e José Ernesto Credencio.

O deputado Novais, um maranhense octogenário, que vive no Rio de Janeiro e chegou ao Ministério do Turismo por indicação do senador José Sarney, do Amapá, foi imediatamente defendido pelo líder de seu partido, Henrique Eduardo Alves: "Ele está esclarecendo de forma competente". Em seguida, pelo futuro ministro da Articulação Política, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ): "O Pedro Novais é um parlamentar experiente e, pela história dele, precisamos dar crédito à sua versão".

Num primeiro instante, a reação de Novais foi típica dos senhores de escravos: "Pare de encher o saco. Faça o que você quiser". Depois, apresentou uma explicação que tem muito de experiente e pouco de competente: "Indignei-me como parlamentar e homem público, mas, acima de tudo, como cidadão e marido. A acusação leviana tenta atingir minha moral e a firmeza de minha vida familiar. Sou casado há 35 anos. Na noite de 28 de junho, data da emissão da nota fiscal, pelo estabelecimento, estava em casa, ao lado de minha mulher. Não posso aceitar que essa falha seja usada para acusações irresponsáveis à minha pessoa".

Mesmo que na noite de 28 de junho o deputado estivesse na Igreja Evangélica Brasileira, que fica na Rua do Amor, nas cercanias do motel Caribe, isso não teria qualquer importância. Foi seu gabinete que apresentou à burocracia da Câmara a nota fiscal do motel. Ademais, uma funcionária do Caribe informou que houvera uma reserva em seu nome.

Admitindo-se que tudo não passou de um erro, Novais deveria ser grato ao repórter Leandro Colon, pois ele permitiu que expurgasse de sua longeva biografia e de seu firme matrimônio a sombra de uma despesa de R$ 2.156 num motel.

Em 2002, a nação petista sabia que o tesoureiro Delúbio Soares ia além de suas chinelas nas mágicas financeiras que fazia com o publicitário Marcos Valério. Acharam que dava para segurar. Em 2003, o poderoso José Dirceu sabia como operava seu assessor Waldomiro Diniz. Achou que dava para segurar. Depois que as acrobacias confluíram no mensalão, Nosso Guia deu-se conta de que deveria ter substituído Dirceu logo depois do caso de Waldomiro. Em todos os episódios, o governo comprou o risco da crise porque tolerou malfeitos que lhe pareciam toleráveis. Isso, supondo-se que Dilma Rousseff não fazia ideia das atividades da família Guerra quando patrocinou a ascensão da doutora Erenice à chefia da Casa Civil da Presidência.

A senadora Salvatti e o deputado Novais foram preliminarmente exonerados pela teoria do "erro", sempre praticado por assessores jamais identificados e nunca disciplinados. Repetindo: nem desculpas pediram. Passou-se adiante o pior dos sinais: "Vamos em frente, não tem problema".

AeroAlckmin

Durante a campanha eleitoral de 2006, o tucano Geraldo Alckmin anunciou que vendera o jato HS do governo do estado de São Paulo e, caso fosse eleito presidente da República, passaria adiante o AeroLula. Fez isso depois de ter usufruído a conveniência do brinquedo durante os cinco anos em que o teve à disposição. Alckmin perdeu a eleição, e seu sucessor recomprou o jato.

Na próxima semana o avião estará a sua espera. 

Caso encerrado

Na quarta-feira, o Senado aprovou o crédito de R$ 10,1 milhões para o pagamento das indenizações e das bolsas de estudo para os familiares dos 18 militares mortos em janeiro, durante o terremoto do Haiti. Demorou, mas saiu. 

Futuro de Cuba

A constatação de que a Coreia do Sul e a China discutem serenamente o futuro do regime de Pyongyang serviu para fortalecer a ala da diplomacia brasileira que defende o cultivo de uma relação amigável com Cuba.

Por mais que os Estados Unidos briguem com a Coreia do Norte, certamente estarão interessados em evitar que aquele principado das trevas se transforme num condomínio econômico compartilhado por Seul e Beijing. Como diria o rei Leopoldo da Bélgica no século XIX, "quero meu pedaço do bolo".

Não haveria motivo para o Brasil se afastar de Cuba para depois assistir a uma entrada dos Estados Unidos na economia da ilha.

No século passado, o Brasil ficou a reboque dos Estados Unidos, isolando a China, e em 1971 acordou com a notícia de que o presidente Richard Nixon fizera uma surpreendente aproximação com o Grande Timoneiro Mao Zedong.

Aerocracia

Uma previsão maledicente dizia que a primeira lombada do governo de Dilma Rousseff surgiria no caminho de suas relações com os aerocratas.

Ela pretendia criar o Ministério dos Aeroportos. Desistiu e achou melhor deixar as coisas como estavam. Nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o governo Lula termina com mais uma semana de caos nos aeroportos, explicado pela Anac como consequência do excesso de demanda. Como se fosse novidade o fato de a companheirada viajar no final do ano.

Talvez a doutora Dilma se lembre quando ela achou racional redistribuir os balcões das empresas quebradas e foi convencida a mudar de ideia.

São dois os tipos de interesses que rondam os palácios. Um é o bloco das escavadeiras, que disputam obras físicas. Para o bem ou para o mal, constrói alguma coisa. Outro é o dos teclados, que mexe apenas com papéis. Esse bloco fatura mercadejando normas. O caos aéreo nasce desse segundo tipo. 

Jogo de segredos

Um dos jogos prediletos da diplomacia mundial de hoje é a especulação em torno do tempo que demorará até o aparecimento de um mega-arquivo de país emergente no site da WikiLeaks.

Ideia maluca

Apareceu uma ideia tão maluca que pode acabar dando samba. Acompanhado por um vice de algum peso, capaz de permitir-lhe uma saída honrosa em 2014, Lula pode sair candidato a prefeito de São Paulo em 2012, com o propósito exclusivo de iniciar o desmonte da influência tucana no estado.

O VAGABUNDO