quinta-feira, dezembro 09, 2010

CELSO MING

E a Petrobrás aguenta? 
Celso Ming 

O Estado de S.Paulo - 09/12/2010

O presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, está advertindo que é preciso mais cuidado com a louça. Não dá, avisa ele, para satisfazer os políticos que pretendem tocar os projetos do pré-sal em ritmo de marcha batida porque querem se apossar imediatamente dos bônus das licitações e, depois, dos royalties.

Gabrielli argumenta pelo lado dos fornecedores. A indústria nacional não vai dar conta de tanta demanda. "Apenas a Petrobrás e seus fornecedores investirão nos próximos quatro anos algo entre US$ 624 bilhões e US$ 824 bilhões", disse ao jornal Valor. O que ele prefere não explicitar é o fato de que a própria estatal não tem condições de avançar a essa velocidade.

Gabrielli desfila uma impressionante lista de necessidades. "Cada sistema de produção produz entre 100 mil e 180 mil barris por dia. Se vamos produzir 4,5 milhões de barris por dia em 2020, precisamos ter 40, 41 sistemas que custam, cada um, algo em torno de US$ 3 bilhões. Para funcionar, cada um precisa, em média, de cinco barcos de apoio. Estamos falando, portanto, de 200 barcos"... e vai por aí.

Depois de um demorado processo de capitalização, a Petrobrás só conseguiu um reforço de caixa de US$ 27 bilhões. O resto veio na forma de reservas de petróleo ainda lá embaixo, a 6 mil metros de lâmina d"água. Como previsto, o melhor resultado foi o aumento da capacidade de endividamento. Muito provavelmente, em dois anos, a Petrobrás terá de fazer mais um aumento de capital e não sabemos se o Tesouro terá condições de subscrever a sua parte em dinheiro vivo.

A nova lei do pré-sal prevê que a Petrobrás participará obrigatoriamente de todos os consórcios contratados para exploração do pré-sal, em regime de partilha, na proporção não inferior a 30%. Só o campo de Libra, que tem cerca de 8 bilhões de barris de petróleo recuperáveis e deve integrar a 1.ª Rodada de Licitações, "poderá suscitar uma quantidade enorme de bônus", afirmou Haroldo Lima, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Quando do exame do Orçamento da União para 2011, os políticos imaginaram que poderiam prever uma receita adicional, só com licitações, de US$ 20 bilhões. Se for isso, apenas a participação da Petrobrás nessa rodada exigiria cerca de US$ 6 bilhões de desembolso imediato.

Depois de um longo período de ufanismo e de sensação de que o Brasil pode tudo, o que precisa ser mais bem examinado não é só como dar tempo para que a cadeia de fornecedores nacionais se desenvolva, adquira tecnologia e se capacite para produzir equipamentos de alta qualidade, como sugere Gabrielli. É também se a Petrobrás tem condições de participar em pelo menos 30% de cada consórcio produtor do pré-sal.

Nem tudo é apenas uma questão de proporções. Somente no pré-sal há nada menos que 58% da área ainda a ser objeto de concessão. Entre a descoberta de petróleo e o início da produção em escala de um bloco são necessários de seis a oito anos. As reservas de Tupi, por exemplo, foram descobertas em novembro de 2007 e, até agora, não foram sequer definitivamente dimensionadas.

Se for observado o ritmo sugerido por Gabrielli, seriam necessários mais de 50 anos apenas para se iniciar a produção de toda a área do pré-sal. E não se sabe se até lá a era do petróleo já não terá terminado, como praticamente acabou a do carvão sem que tivessem sido explorados nem sequer 30% das reservas mundiais.

CONFIRA

O gráfico mostra como a inflação está crescendo cada vez mais forte.

Ficou para 2011

Em sintonia com a maioria dos analistas de mercado, o Copom manteve os juros básicos em 10,75% ao ano. Mas o comportamento da inflação é preocupante. A alta dos preços não está concentrada em um ou dois setores. Está espalhada por toda a economia. Isso sugere que o atual nível de aperto monetário não é suficiente para manter a inflação na meta. Parece inevitável uma nova rodada de alta dos juros no primeiro trimestre do ano que vem.

ILIMAR FRANCO

O derrotado 
Ilimar Franco 

O Globo - 09/12/2010 

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi o grande derrotado com a decisão do presidente do DEM, Rodrigo Maia, de convocar uma convenção para eleger seu sucessor em março. De malas prontas para ingressar no PMDB, Kassab queria, antes da mudança, realizar as convenções municipal e estadual, para assegurar seu controle sobre o partido. Seu cronograma foi para o espaço.

Se escalando para o Ministério

Para discutir a baixa representação do Nordeste no futuro Ministério, sentaram- se à mesa o ministro Antonio Palocci (Casa Civil), o presidente do PT, José Eduardo Dutra, o senador eleito Wellington Dias (PT-PI) e os governadores Jaques Wagner (BA) e Marcelo Déda (SE). Conversa vai, conversa vem, foram feitas citações de pastas e nomes de políticos nordestinos petistas que poderiam ser nomeados. Em algumas das indicações ministeriais, Wellington Dias fazia questão de dar um aparte, acrescentando um novo nome: “E tem eu!”. A crise petista está deixando os aliados, ainda sem cargos definidos, muito tensos.

Meu ministro
O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), quer a permanência de Orlando Silva (PCdoB) no Ministério do Esporte. “Nós temos ótima relação”, diz Paes, que não quer ser apontado como responsável por sua eventual substituição.

Cacife
O governador Jaques Wagner (BA) desistiu de fazer um petista baiano ministro. E adotou como sua a indicação do deputado Mário Negromonte (PP-BA) para a pasta das Cidades. Mas o ministro Márcio Fortes continua no jogo.

Dutra distribui raquetadas
Numa reunião com deputados do PT, anteontem, o presidente do partido, José Eduardo Dutra, perdeu a paciência. Ao responder às críticas de Jilmar Tato (PTSP), Dutra atalhou com um “espera aí, a presidente Dilma é do PT”. Quando foi questionado sobre quem respaldava a permanência da ministra Izabella Teixeira no Meio Ambiente, Dutra foi jocoso: “Leiam os jornais, que vocês saberão quem sustenta a Izabella.”

Inconformados miram o segundo escalão

Uma parte da bancada do PMDB na Câmara chegou a entregar ontem de manhã um manifesto para o líder Henrique Alves (RN) dizendo que não aceitava os ministérios destinados ao partido. Mas os integrantes do grupo descontente recuaram depois que Alves disse que as indicações eram um fato consumado, e o único caminho então seria romper com o governo. Eles agora entraram na briga pelos cargos de segundo escalão, como presidência e diretorias de estatais.

O GOVERNADOR eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, está irritado com a pressão dos serristas pela manutenção dos secretários do governo anterior.

A BANCADA do PT na Câmara está de olho no Ministério das Cidades. Seus líderes reclamam que uma pasta com tal capilaridade não poderia ficar com um partido, o PP, que não participou da coligação que elegeu Dilma Rousseff.

PASSANDO O BASTÃO. Próximo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB) almoçou ontem com o atual, Márcio Zimmermann.

GOSTOSA

DEMÉTRIO MAGNOLI

Duas bandeiras no alto do morro
Demétrio Magnoli 


O Estado de S.Paulo - 09/12/10
"Blindados da Marinha entraram na Vila Cruzeiro. A população não acreditava. Pessoas saíam de casa espantadas. Começaram a tirar fotos, vinham agradecer, como se tivessem sido libertadas" (Ricardo Machado, sargento do Bope). As pessoas foram, de fato, libertadas do poder tirânico, opressivo, do crime organizado. As bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro, fincadas no cume do Complexo do Alemão, simbolizam a soberania do Estado. Do gesto inicial emana a imensa expectativa de consolidação de uma ordem legítima, baseada nos direitos de cidadania.
"Isso vai demonstrar que o Brasil tem responsabilidade e que está resolvendo seus problemas para ter grandes eventos" (Nelson Jobim, ministro da Defesa). As pessoas almejam direitos; Jobim, um homem do Direito, só tem olhos para a imagem externa do País. O ministro da Defesa não possui o dom de iludir típico dos políticos profissionais. Falastrão, ele vocaliza a lógica de um Estado que despreza os direitos das pessoas comuns. A Copa e a Olimpíada passam, a vida segue. Será a operação no Rio uma nova farsa, apenas maior que tantas anteriores?
"(...) ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Saddam Hussein e, depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos (sic) que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?" (José Cláudio Souza Alves, pró-reitor de Extensão da Universidade Rural do Rio de Janeiro). O pró-reitor, que escreve como eu toco piano, representa a visão clássica do brizolismo. Num longo texto, ele até sugere indagações pertinentes, mas as enterra sob os escombros do populismo. Qual é a "verdadeira guerra"? Eis a sua resposta: "(...) quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá (sic) o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade." Se o Estado veicula apenas, sempre e necessariamente, os interesses do poder econômico, ele deve ficar fora dos morros. Um quarto de século atrás, Leonel Brizola abandonou as favelas do Rio ao crime organizado. A abdicação territorial correspondeu a uma mutação no léxico político.
"O Morro da Favella, até então denominado morro da Providência, passa a emprestar seu nome aos aglomerados de casebres sem traçado, arruamento ou acesso aos serviços públicos, construídos em terrenos públicos ou de terceiros (...)" (Licia Valladares, socióloga). Favela, como substantivo genérico, insinuou-se nas páginas da imprensa na segunda década do século passado. O termo passou a definir uma "cidade ilegal", por oposição à "cidade legal". A sua referência era o direito de propriedade - ou melhor, a violação dele no processo de expansão da mancha urbana. Mas a palavra nada dizia sobre os habitantes da "outra cidade". Foi com a intenção de dizer muitas coisas sobre eles que se promoveu a substituição da "favela" pela "comunidade".
"(...) quando os habitantes das Ilhas Shetland mencionam a sua comunidade, eles se referem a uma entidade, uma realidade investida de todo o sentimento ligado ao parentesco, à amizade, à vizinhança, à rivalidade, à familiaridade, à inveja, que informam o processo social do cotidiano. Nesse nível, comunidade (...) articula-se crucialmente à consciência." (Anthony P. Cohen, antropólogo). Comunidade, no lugar de favela, coagula um projeto político: a atribuição de uma "cultura" singular aos habitantes das favelas. Obra coletiva de lideranças políticas, intelectuais, administradores de ONGs e chefes do crime organizado, o projeto equivale a uma demanda de autonomia. A "comunidade" tem direito a representação - ou seja, a intermediários que, em nome dela, dialogam com o Estado. O crime organizado territorializou seu poder sob o escudo dessa doutrina encantatória.
"É uma estratégia sensacional e inovadora, que coloca o Rio na vanguarda" (coronel Hudson Miranda, comandante da PM, 2005). Miranda comemorava a aquisição de um helicóptero, para desembarcar policiais no alto dos morros, e a instalação de uma torre no Complexo da Maré, para visualizar as favelas de uma posição elevada. O coronel da PM é o polo simétrico e complementar dos intelectuais ongueiros que celebram a "comunidade". Os dois polos rejeitam a presença perene da ordem estatal nas favelas. O primeiro organiza "invasões", os segundos preconizam a "autonomia". Ambos enxergam os morros como terra estrangeira: o "Iraque", pecaminoso ou virtuoso, do pró-reitor brizolista.
"Sem dúvida, os arrastões têm relação com reconquista de território e com a nova política de segurança pública do Rio" (Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro). É mesmo? Não há indícios reais dessa relação, proclamada por uma figura que jamais consegue descer do palanque. De qualquer modo, o fracasso de um modelo de convivência pacífica entre as UPPs e o poder paralelo do crime empurrou Cabral para o enfrentamento. Mas permanece intocada a fonte do modelo de convivência: a imbricação entre o Estado e o crime organizado, cuja expressão mais óbvia é a polícia bandida que contamina o aparato oficial de segurança pública.
"O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, antieconômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais)" (Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública). Soares caiu porque pretendia reformar as polícias, extirpando a polícia bandida. Ele aponta o risco de transição para uma nova ordem, baseada no poder das milícias. Uma ordem sem direitos serviria aos "grandes eventos", não à população dos morros. Nessa triste hipótese, as bandeiras que tremulam no Alemão seriam reduzidas ao estatuto de panos costurados: os disfarces de um Estado criminoso.
SOCIÓLOGO, É DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP.

MERVAL PEREIRA



DEM busca posicionamento 
Merval Pereira
O GLOBO - 09/12/10


Mais uma vez o Democratas tenta se reerguer dos escombros de uma derrota eleitoral para assumir o papel com que seus dirigentes sonhavam, mas que ainda não conseguiram transformar em realidade: ser um grande partido liberal próximo especialmente da classe média, trabalhando questões que afetam seu dia a dia, como o meio ambiente, os altos impostos, o desemprego, o apagão aéreo e a insegurança pública.
"O partido saiu-se mal das eleições, com poucas exceções, e tem que reencontrar seu caminho, porque está murchando", constata o presidente de honra, Jorge Bornhausen.

Na sua opinião, se não houvesse uma solução razoável como a alcançada, com a antecipação das eleições da direção nacional para março, o partido explodiria.

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ganhou um conforto interno com a saída iminente do deputado federal Rodrigo Maia da presidência do partido e tempo para pensar qual o melhor passo, se permanecer no DEM ou ir para o PMDB.

Ele e a senadora Kátia Abreu são hoje os principais nomes do partido, e a decisão de renovar a direção nacional do DEM deu a Kassab o tempo necessário para não tomar decisões precipitadas: "Não se sabe se vai haver janela, o que o governo pretende fazer. Ele não precisa tomar nenhuma atitude precipitada agora", comenta Bornhausen.

A visão que prevalece é a de que o partido foi muito corroído pelo episódio do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, que surgia como a grande estrela do DEM e foi apanhado em um vasto esquema de corrupção que ficou conhecido como "o mensalão do DEM".

O episódio foi "dramático" na definição de Bornhausen, que considera, no entanto, que o partido pagou "dez vezes mais do que merecíamos".

Apesar de ter expulsado os membros do partido envolvidos no episódio, o DEM ficou marcado, num processo que o desgastou muito politicamente, provocando o enfraquecimento do partido.

Quando a Frente Liberal foi criada, de uma dissidência do PDS, não conseguiu impor seu conceito de liberal. O ex-vice-presidente da República Aureliano Chaves, que era um dos líderes, era um estatista absoluto, lembra Bornhausen.

Para ele, o PFL só começou a ganhar uma cara ideológica em 1993, quando preparou um trabalho para a revisão constitucional. "Mesmo ela frustrada, nós conseguimos fazer uma revisão completa, nos posicionando", ressalta.

O político que melhor refletia essa posição liberal do antigo PFL era o falecido Luís Eduardo Magalhães. Na própria Constituinte ele organizou o Centrão para se contrapor ao espírito esquerdista que imperava.

Sua morte prematura, ele que estava sendo preparado para ser candidato à Presidência da República, e o caso de Roseana Sarney, que teve de desistir de disputar a Presidência quando liderava as pesquisas de opinião por denúncias de caixa 2, são episódios que trouxeram abatimento ao partido, apesar de uma participação importante no governo Fernando Henrique.

Quando promoveram a refundação programática do partido, numa posição que Bornhausen classifica de "centro humanista e reformador", não houve a reformulação das bases partidárias, e os chamados cartórios eleitorais continuaram em vários estados.

O ex-senador Jorge Bornhausen considera que é preciso buscar novas formas de interagir na sociedade, "ir para as associações comerciais, diretores lojistas", estar mais próximo do eleitor de classe média.

A derrubada da CPMF, comandada por uma campanha do deputado Paulo Bornhausen, foi a única vitória da oposição em oito anos, ressalta.

A mudança programática já se desenhava desde uma reunião da Internacional Democrática de Centro (IDC) realizada no Rio, em 2005.

A IDC, presidida pelo ex-presidente do governo espanhol José María Aznar, contrapõe-se à Internacional Socialista, que reúne os partidos de esquerda e social-democratas no mundo.

Eles pretendiam apresentar uma plataforma verdadeiramente liberal como alternativa para o desenvolvimento do país. Essas mesmas políticas estariam representadas também por Jacques Chirac, na França; Durão Barroso, do PSD, em Portugal, hoje presidente da Comissão Europeia, e o Partido Republicano nos Estados Unidos.

O que os Democratas sugerem é que estaria na hora de tentar uma verdadeira experiência liberal, com uma reforma do pacto federativo para diminuir o tamanho do Estado e assim conseguir também uma redução de impostos.

O exemplo do governo Aznar, quando a Espanha teve um surto de desenvolvimento e geração de empregos, é usado para explicar os objetivos do novo partido.

Embora nenhum político brasileiro se declare "de direita", e o presidente Lula tenha destacado a determinada altura da campanha eleitoral que era um luxo não ter qualquer candidato "de direita" na disputa, a direita política está sempre presente nos governos formados a partir da redemocratização, em 1985, quando Tancredo Neves se elegeu presidente da República.

Transformar-se em um representante com credibilidade do centro-democrático, uma caracterização que a direita mundial tenta emplacar, seria o objetivo, e foi esse o papel que o deputado Indio da Costa, candidato a vice na chapa de José Serra, exerceu na campanha eleitoral, vocalizando as críticas ao esquerdismo mais radical do PT, assumindo-se como porta-voz de um eleitorado mais conservador.

"Só onde o partido estava muito sólido, como em Santa Catarina e Rio Grande do Norte, tivemos condições de aguentar o tranco", comenta Bornhausen.

Não é à toa, portanto, que o futuro presidente do partido deva ser o senador reeleito José Agripino Maia, do Rio Grande do Norte. Agora, a tarefa primordial é "recuperar um posicionamento".

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Cabo de guerra
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/12/10


Precisando pagar 13º salário e direitos de imagem de atletas, alguns times estariam recorrendo aos cofres da Globo para antecipar pagamentos referentes ao Brasileirão 2011. Por conta disso, emissoras e portais ameaçam entrar com uma representação no Cade. Consideram que o socorro financeiro pode ser uma forma de amarrar os clubes na futura concorrência pelos direitos de transmissão do Brasileirão 2012.

Consultada, a rede de TV garante que a informação não procede e o planejamento dos pagamentos continua o mesmo.
Cerca tucana
Não é só o Núcleo de Inteligência proposto por Aécio que entrou na pauta de refundação do PSDB. Sérgio Guerra é a favor que se crie também setor de pesquisa qualitativa para medir demandas e anseios do eleitorado.
Aluga-se
Paulo Bernardo, que mora em hotel em Brasília, procura casa. Sua mulher, Gleisi Hoffmann, foi eleita senadora.
Oxigênio
Depois de quase ir à falência, a VarigLog começa a respirar sem aparelhos. Desde julho, a companhia deixou à disposição da Justiça cerca de R$ 4 milhões para o pagamento da dívida com ex-funcionários.
Bê-á-bê
Longe do imbróglio do Enem, o Santander anunciou 200 bolsas de estudos para o exterior em 2011. Cada uma no valor de 5 mil euros.
Casulo
Alckmin está de olho em imóveis no centro de São Paulo. Quer concentrar algumas secretarias já existentes no quadrilátero das avenidas São João, Ipiranga, São Luís e da rua Xavier de Toledo. Tudo para aproveitar o baixo custo no centro e provocar sinergia maior entre equipes.
Fundo, o mar
A SOS Mata Atlântica parte para seu segundo fundo perpétuo pró-unidades de conservação marinhas. O primeiro mantém o Atol das Rocas. O segundo ajudará a Apa Guapimirim e Estação Ecológica da Guanabara. Será lançado hoje, em Guapimirim.
Chance de ouro
Miranda Kassin, cover de Amy Winehouse, cantará no mesmo Summer Soul Festival que sua musa inspiradora.
Só clássicos da soul music.
Olho no olho
A Faculdade Anhanguera tem piscado para a sua colega Anchieta.
Mister M
Durante embarque no aeroporto de Brasília, na sexta-feira, um passageiro foi cobaia de uma mágica: seu iPhone entrou por um lado da esteira de Raio X e não saiu pelo outro. O moço sequer percebeu e viajou para o Rio.
Depois de algum suor e lágrimas, a PF recuperou o aparelho. E o funcionário foi preso.
Estranha, a vida
Aviso no site da Prefeitura de São Luiz do Paraitinga pede a suspensão de doação de alimentos e roupas. Motivo? A população está plenamente atendida e a capacidade de estocagem, esgotada.
Avesso do avesso
Matilde Mastrangi acaba de receber o suado diploma... de Teologia. A ex-musa da pornochanchada será pastora. Amém.

"Não existe bem e mal"
Na mesma noite em que o filme Tropa de Elite 2 conquistou a maior bilheteria de todos os tempos, superando Dona Flor e Seus Dois Maridos, José Padilha foi centro das atenções, anteontem, na Livraria Cultura. O cineasta protagonizou o debate dividido com Bráulio Mantovani, Eduardo Giannetti e Guilherme Malzoni, tendo como pano de fundo o lançamento de mais uma edição da revista Dicta & Contradicta.
Antes de entrar no palco, Padilha e Giannetti tanto conversaram sobre o último livro do economista, A Ilusão da Alma, que atrasaram o bate-papo público. "Sou fã desse cara há anos, ainda mais agora que ele resolveu abordar uma questão central para mim: o corpo e a mente", justificou o diretor.
No debate, registrada a paciência de Padilha e Mantovani. Eles responderam várias questões sobre os seus dois Tropa de Elite. A Giannetti coube fazer pertinentes intervenções, que se estenderam ao assunto da violência carioca.
Sobre o papel da polícia nas favelas do Alemão e na Vila Cruzeiro, o cineasta destituiu sua resposta de maniqueísmos. "Nessas invasões, não existe o bem e o mal", analisou, lembrando que a única cidade do mundo onde boca de fumo tem endereço é o Rio. "Não há um só ponto de droga que não tenha participação da polícia", avisa.
Ele, que já entrevistou mais de 40 policiais, foi além. Descartou o lugar comum de que há ausência do Estado nas favelas. Ao contrário. É a gestão desta presença, como é administrada, que se dá de maneira incorreta. Ao criticar a estrutura da instituição, Padilha chegou a afirmar que a polícia carioca produz xampu, Tylenol e, "se não me engano, até adoçante".
O sucesso do evento foi registrado na falta de lugares. Nem todos conseguiram entrar no Teatro Eva Hertz: 60 pessoas tiveram que se contentar com um telão instalado na própria livraria.
MARILIA NEUSTEIN
Na frente
Maria Helena Lacerda, vulgo Pirilena, está liquidando todo seu estoque. A estilista angaria recursos para estrear como... escritora.
O filme A Última Estação, de Márcio Curi, tem pré-lançamento na Câmara de Comércio Brasil-Líbano. Hoje.
Exposto na 29ª Bienal, o projeto Menos-Valia, de Rosângela Rennó, será leiloado hoje. Com renda revertida para livro sobre a artista.
A primeira loja Leica no Brasil abre com mostra de Bob Wolfenson. Amanhã, no Cidade Jardim.
Ao perceber a ansiedade de um petista louco por um ministério, tucano de alta plumagem sugeriu: "Fácil. Pegue a...Via Dutra". 

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O Estado aumenta a desigualdade
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O GLOBO - 09/12/10


Maílson da Nóbrega nasceu em 1942, no interior da Paraíba, em Cruz do Espírito Santo. Seu pai era alfaiate e não é difícil perceber como devia ser duro ganhar a vida costurando roupas numa pobre cidade de 2 mil habitantes, sobretudo tendo dez filhos para criar.

Pois foi de lá mesmo que Maílson saiu para se tornar ministro da Fazenda, em 1987. Como Começou com educação. Por sorte, seus pais davam importância ao estudo. Por sorte, ainda, havia na cidade uma boa e dedicada professora de primário. Assim, Maílson ia para a escola de manhã e passava as tardes fazendo lição e tomando aulas particulares.

Foi levando nessa toada estudo! até passar no concurso para o Banco do Brasil, em 1963. Na época, a prova incluía, além de português, matemática, contabilidade e datilografia, testes de inglês e francês. Daí em diante, foi mais natural. A carreira no Banco levou-o à direção, no Rio, e aos ministérios da área econômica. Já em Brasília, arranjou um tempinho para fazer faculdade de economia.

A história relatada na sua autobiografia, "Além do feijão com arroz", editora Civilização Brasileira é uma demonstração de como a educação tem duas funções: uma, a de igualar as oportunidades; outra, de permitir o avanço pessoal.

No regime capitalista, a desigualdade é inevitável, mas ao final das histórias. Como funciona pelo mérito, pela capacidade de empreender, pelo trabalho duro e eficiente, pelas ideias inovadoras, pelo talento, o capitalismo premia os mais bem-sucedidos. Alguns vão ganhar mais, outros ficarão pelo caminho.

O Estado pode reparar algumas situações dramáticas atendendo, por exemplo, os muito pobres ou ainda oferecer condições básicas de vida, mas não tem como igualar a renda, a riqueza e o bem-estar das pessoas.

O melhor que o Estado pode fazer está na partida, no início da vida das pessoas, na preparação para a atividade profissional. Pode igualar as oportunidades ou chegar muito perto disso. Ou, inversamente, quando falha, pode ser a causa de mais desigualdade.

No Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), testes aplicados a estudantes de 15 anos de 65 países, os brasileiros conseguiram notas melhores na prova de 2009, cujos resultados foram divulgados nesta semana. Mas, olhando mais de perto, levando-se em conta a renda familiar dos alunos, a realidade é triste: melhoraram os nossos alunos mais ricos; os mais pobres ficaram no mesmo lugar.

Ou seja, os mais pobres já chegam à escola em desvantagem. E o sistema educacional amplia essa desigualdade ao longo dos anos. Considerando que estamos em plena era do conhecimento, o desastre não poderia ser maior.

A escola pública fundamental e média, no conjunto da obra, não cumpre suas funções, senão muito parcialmente. Há unidades boas aqui e ali, e são essas que permitem as sortes como a de Maílson.

A falha é de políticas públicas, para usar expressão tão empregada por aqui e tão mal utilizada. Oferecer igualdade na partida é uma função essencial do Estado ? todos dizem isso. Mas, quando se olha para os orçamentos públicos, como nota Ilona Becskeházy, diretora da Fundação Lemann, apenas 3% do gasto total vão para educação e cultura. É claramente insuficiente. Demonstra que a prioridade para a educação é apenas retórica.

Como o governo arrecada um monte de impostos, a conclusão é óbvia: não falta dinheiro, falta gastar de acordo com as reais prioridades.

De uns tempos para cá, ganhou nova força a tese de que o Estado tem mesmo que gastar para acelerar a economia e aplicar programas sociais. Ora, ninguém é contra isso. A questão é: quanto gastar Onde E isso considerando-se que o dinheiro não é infinito.

O que faz mais sentido, gastar com escola ou subsidiar frigoríficos? É, sim, o mesmo dinheiro público.

O Brasil passa por um bom momento. O sentimento é positivo nos diversos setores da economia privada. Mas quais são as principais queixas que a gente ouve pelo país todo? Onde estão os obstáculos a uma atividade ainda mais forte?

Nas coisas do governo. Uma empresa atacadista do Nordeste, que distribui remédios pelas cidades do interior, reclama das estradas, da falta de segurança, dos aeroportos e do horror que é lidar com o ICMS de cada estado.

O agronegócio exportador reclama das estradas, dos portos e dos impostos embutidos na cadeia de produção.

Pessoal dos bancos mostra como impostos mal aplicados ? como o IOF sobre apólices de seguro, pago adiantadamente encarecem e burocratizam, com custos, as operações financeiras.

Luíza Helena Trajano, do Magazine Luíza, mostra como mesmo ideias boas, como a substituição tributária, que combate a informalidade, acabam se transformando em infernos burocráticos.

Tudo considerado, proponho de novo a tese liberal: que o Estado cumpra a função de igualar as oportunidades boa escola para todos, saúde básica, segurança para todos que gaste muito dinheiro nisso, que pague bem os profissionais desses serviços, e deixe o resto, inclusive portos, aeroportos e estradas, para a iniciativa privada. E facilite a vida de quem quer fazer negócios honestamente.


Os mais pobres já chegam á escola em desvantagem

VOCÊ NÃO MANDA EM NADA

ELIANE CANTANHÊDE

O que que o Sarney tem?
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/12/10


BRASÍLIA - Ao fatiar o seu governo entre PMDB, PT, PSB, PP e outros menos cotados, Dilma Rousseff caprichou na "cota" de um partido muito particular, o PJS, Partido do José Sarney. Se não, vejamos algumas comparações.
O governador Sérgio Cabral, que é do Rio, Estado chave inclusive eleitoralmente, peleja para fazer Sérgio Côrtes ministro da Saúde, sem sucesso. Sarney, do Maranhão, não precisou muito para reconduzir o afilhado Edison Lobão para o rico Ministério de Minas e Energia.
O PT do Rio também deu um duro danado para nomear o deputado Luiz Sérgio para o Ministério do Turismo, em vão. O PMDB do Maranhão ganhou a parada e indicou o deputado Pedro Novais, da bancada do Sarney. Aos 79 anos, seu foco estará em dois eventos internacionais de marcar a história, a Olimpíada e a Copa do Mundo.
Não satisfeito, Sarney deu um jeito de empurrar o senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) para a Previdência. O cargo não é lá essas coisas, mas tira Garibaldi da parada e é meio caminho andado para Sarney manter a presidência do Senado, apesar de tudo.
Nada disso é porque Dilma considere Lobão, Novais e Garibaldi o suprassumo dos quadros políticos e técnicos do país, mas porque Sarney quer e Lula manda.
Além do MME, do Turismo e do Senado, Sarney elegeu a filha, Roseana Sarney, para o governo do Maranhão -e com apoio do PT, que havia décadas lutava, ou dizia lutar, contra a oligarquia local.
Mas não é "só" isso. Espere para ver o rateio do segundo, do terceiro, do quarto e do quinto escalões do governo federal, de alguns governos estaduais, do Senado, da Câmara, de assembleias e de câmaras legislativas por aí.
E a gente continua sem a resposta para aquela perguntinha que arranha a garganta: por que raios Lula dá tanto poder a Sarney? Afinal, o que que a baiana e o Sarney têm?

MÍRIAM LEITÃO

Impasses do BC
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 09/12/10


O Copom manteve os juros, apesar de a inflação estar subindo, e isso tem dois motivos. Primeiro, porque o Banco Central já anunciou medidas que em si elevam os juros ao consumidor; segundo, porque hoje será anunciado o PIB do terceiro trimestre, e ele será o mais fraco do ano. As previsões dos bancos e consultorias oscilam entre 0,3% e 0,8%.

A MB Associados acha que o PIB crescerá 0,5% na comparação com o segundo trimestre, o que representa 7% em relação a 2009. Isso é uma leve desaceleração em relação ao primeiro e segundo trimestres, que subiram, respectivamente, 2,7% e 1,2% na comparação com o trimestre anterior (veja no gráfico). Muda pouco no ano. A previsão do PIB de 2010 foi revisada na MB de 8% para 7,7%.

Não é um esfriamento generalizado, mas serve de argumento para o BC adiar a alta dos juros. A indústria está descolada do resto da economia, com desempenho mais fraco. Foi o setor que mais caiu logo após a crise de 2008. O varejo caiu menos e retomou mais rápido o ritmo por causa das medidas de expansão do crédito. A indústria ficou sempre num ritmo menor (veja no gráfico).

Há um debate hoje sobre a tese de desindustrialização. Por causa do dólar baixo, fica mais barato importar do que produzir aqui. A MB acha que isso é verdade para os setores mais sensíveis como calçados, têxteis e vestuário.

Essa é uma das várias sinucas de bico que o governo Dilma herdará. Controlar o câmbio não é possível. A inflação subindo talvez torne inevitável subir juros, que derrubam mais ainda o dólar e aprofundam esse risco.

Newton Rosa, da SulAmérica Investimentos, prevê um PIB de 0,6% em relação ao segundo trimestre. Em parte, o descompasso entre o crescimento mais fraco da indústria em relação ao resto é, segundo ele, resultado do fato de que o setor exportador de manufaturados, de todos os tipos, desde aviões, automóveis, suco de laranja, está perdendo participação no total das exportações. A indústria sente o efeito do real mais valorizado e da redução da demanda mundial. A produção de manufaturados representa 30% da indústria. Ao mesmo tempo, a indústria também enfrenta a competição dos importados. Está perdendo nos mercados externo e interno. Em 2006, a participação dos manufaturados na exportação brasileira era de 50%, hoje, é de 39%.

Mesmo assim, a tese de que o país está se desindustrializando tem mais adeptos nas associações que defendem a indústria do que entre economistas do mercado financeiro.

Rosa acha que a redução do ritmo da indústria é causada pela retirada dos estímulos fiscais de automóveis e eletrodomésticos. A importação está tendo efeito complementar na oferta de produtos dentro do Brasil. Sem o dólar baixo e a importação, a inflação estaria mais alta.

Segundo a MB, o IPCA deve fechar o ano em 5,8%. Para 2011, a projeção é de 5,3%. Por isso, há previsões no mercado de que a Selic chegará a 12,75% no ano que vem.

O saldo da balança comercial deve cair para meros US$3 bilhões no ano que vem. As importações crescem 32%, mas as exportações também vão crescer 22% em valor. O déficit em conta corrente deve bater US$70 bi este ano e US$76 bi em 2011, cerca de 3,7% do PIB. Outro resultado do dólar baixo.

A inflação foi causada pelo choque dos alimentos, provocado pelas quebras de safras mas também pela alta dos preços internacionais das commodities. Essa alta ajuda o Brasil no fechamento das contas externas.

Mas há outros fatores. No IPCA, em julho, 48,7% dos itens subiram, em outubro, a taxa foi para 64,8%. É o que eles chamam de índice de difusão, que mostra se a inflação está concentrada ou disseminada.

A inflação de serviços, acumulada em 12 meses, já está em 7,5%. Ela reflete principalmente a melhora da renda e das condições do mercado de trabalho. Quer dizer que uma manicure, um cabeleireiro, a empregada doméstica, enfim, todos que trabalham fornecendo um serviço, estão conseguindo aumentar o preço do seu trabalho porque a demanda está forte. Esse profissional percebe que os preços dos alimentos nos supermercados estão mais caros, que ele tem perda da renda, e para compensar isso aumenta o preço do seu serviço. Como as famílias estão com mais dinheiro, ele não perde clientes.

A inflação para 2011 já está ao redor de 5%, ou seja, pelas normas do regime de metas de inflação o Banco Central já deveria ter começado a subir juros. Mas ele preferiu apertar o crédito para que as vendas a prazo fiquem mais caras.

Alexandre Maia, da Gap Asset, prevê alta de 0,4% no PIB no terceiro trimestre, exatamente pelo ritmo menor da indústria, que está abaixo do nível de março. Mesmo assim, o uso da capacidade de produção, o NUCI, está num nível historicamente alto.

Para 2011, todos preveem um PIB menor, por volta de 4,5%. É o fim dos estímulos e a previsão de que o BC tentará segurar a inflação subindo juros e esfriando a economia.

A dúvida é sobre se essa alta será mesmo possível no governo Dilma. A inflação está subindo, mas os juros altos aprofundam algumas distorções da economia.

GOSTOSA

BRASILIO SALLUM JR.

O ''distritão'' proporcional e a democratização
Brasilio Sallum Jr. 


O Estado de S.Paulo - 09/12/10
Estamos num período normalmente fértil em projetos políticos. A nova presidente eleita, Dilma Rousseff, terá não só de decidir qual será a sua equipe de governo, mas também de definir as suas pretensões de governo. Pretende apenas fazer uma boa gestão dentro das regras institucionais que herdou? Ou pretende, além disso, inovar o quadro político-institucional recebido? E o novo Congresso? Seguirá funcionando de acordo com o prato que recebeu do antigo? Ou almeja melhorar as regras democráticas sob as quais funcionamos? A presidente Dilma Rousseff prometeu e o Congresso discute há anos uma - porque há várias possíveis - reforma política.
Mas o que reformar? Como avançar no caminho da democracia? Como aprofundá-la? O que é evidentemente insatisfatório em nosso sistema político? Creio que o ponto central a mudar, o pior do sistema atual, está nas relações entre cidadãos e representantes eleitos. Não me refiro aos representantes eleitos para postos executivos. O nosso problema está mesmo é na relação dos cidadãos com os representantes eleitos para o Legislativo.
De fato, não é razoável que renovemos a cada eleição 50% da representação parlamentar; que a grande maioria dos eleitores nem sequer se lembre, poucos meses depois da eleição, de qual candidato a deputado mereceu o seu voto; que se torne "usual" em todas as eleições aparecerem campeões de voto que os recebem comente por serem diferentes, engraçados ou "esquisitos".
O nosso sistema eleitoral beira a insanidade. A cada eleição o cidadão - que em geral só se preocupa com política na hora da eleição - defronta-se com a tarefa de escolher entre mais de mil candidatos pertencentes a mais de uma dezena de partidos pouco diferenciados entre si. Imaginem fazer a compra do mês num supermercado sem gôndolas! Procurar uma pessoa numa cidade sem endereço! É algo desse tipo que o eleitor tem de enfrentar em todas as eleições. Como escolher entre desconhecidos ou quase? Ou entre candidatos que defendem praticamente as mesmas teses - saúde, educação, segurança...
A questão é: o que fazer a esse respeito?
No dia 26 de novembro, Eduardo Graeff defendeu, nesta mesma página, uma reforma no sistema eleitoral (Um caminho suave para a reforma). Argumentou com razão que, em vez de quebrarmos a tradição do voto proporcional, deveríamos apenas reformá-la para que se acentue a conexão entre representantes e representados.
A ideia é simplificar a vida do eleitor e dos candidatos e pode ser aprovada por maioria simples no Congresso Nacional. Trata-se de reduzir as circunscrições em que são travadas as eleições proporcionais - em vez de serem disputadas em âmbito estadual, elas o seriam em circunscrições menores, que elegeriam, cada uma, de quatro a seis deputados. O Estado de São Paulo, por exemplo, tendo direito a 70 representantes, seria dividido em 14 "distritões" que elegeriam, cada um, cinco deputados. Isso significa que os eleitores de cada "distritão" teriam de escolher entre 50 ou 60 candidatos a deputado federal - número muito mais razoável - apresentados, digamos, por 10 ou 12 partidos. Os mesmos "distritões" elegeriam os deputados estaduais. Tanto eleitores quanto candidatos podem, em âmbitos eleitorais menores e com menos candidatos a escolher, conhecer-se muito melhor. Ademais, os eleitores podem mais facilmente saber da conduta de seus representantes.
Do ângulo dos partidos, um sistema como esse seria também muito bom: os maiores apresentariam, sem dúvida, candidatos em todos os "distritões"; os pequenos partidos poderiam, se assim o desejassem, concentrar os recursos mais escassos de que dispõem num número menor de circunscrições, aquelas em que imaginam ter mais chances de eleger representantes. Obviamente, eleições desse tipo seriam muito mais baratas para cada candidato, dado que o número total de eleitores a conquistar em cada "distritão" seria muito mais limitado que o da atual circunscrição estadual. Mais: as listas de candidatos poderiam continuar abertas, sem hierarquia entre os candidatos de cada partido, o que preservaria a possibilidade de serem escolhidos candidatos de vários partidos em cada circunscrição. O eleitor continuaria votando em quem quisesse. Por fim, embora continuando aberta, a lista limitada de candidatos de cada partido sinalizaria a identidade partidária, o que poderia ser reforçado em suas campanhas sem que para isso tenhamos de entregar aos dirigentes dos partidos a fixação de uma hierarquia entre os candidatos, como ocorre com a lista fechada.
Há nessa reforma do sistema eleitoral, além de tudo, um aspecto que merece ser enfatizado. Ela realiza em mais alto grau os valores da Constituição de 1988. Além de a reforma aproximar representantes de representados, a criação dos "distritões" constituiria novos âmbitos de disputa política, dando aos cidadãos espaços muito mais manejáveis e factíveis para debater questões estaduais e federais. Os "distritões" incluiriam vários municípios ou, nas grandes capitais, um certo número das atuais zonas eleitorais. Em cada um deles haveria um número diversificado de atores políticos profissionais, de organizações coletivas, de lideranças para competir não só pelo voto em períodos eleitorais, mas capazes também de disputar em torno das prioridades da região e do modo de satisfazê-las. Com a criação de "distritões" proporcionais melhora-se a representação, sem dúvida, mas abre-se também maior espaço para a participação política. Exatamente como está escrito na Constituição.
A reforma proposta tem a grande virtude de fugir aos voluntarismos, sem ser irrelevante. Ela tende a produzir uma melhora substancial na vida política nacional sem, contudo, romper com a tradição que nos permitiu chegar à democracia.
PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E PESQUISADOR DO CEDEC 

ANCELMO GÓIS

BOM DE TIRO
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 09/12/10
 
Numa competição esportiva de tiros, sexta, em Candeias, BA, a estrela foi José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. Obteve 51 dos 60 pontos disputados.

LATIFE NO BC 
Zeina Latife, economista-chefe do Banco ING, vai assumir uma diretoria do Banco Central.

CRIME E CASTIGO 
O Ministério da Justiça aplicou multas que totalizam R$ 6 milhões em sete empresas de telefonia (Vivo, Nextel, GVT, TIM, Claro, Telemar/Oi e Embratel) por deficiência no atendimento às queixas dos clientes.

BOCA FECHADA 
Antonio Palocci, futuro ministro da Casa Civil, fechou a boca. Literalmente. Já não dava entrevistas há bom tempo e, agora, resolveu fazer dieta para perder os quilos a mais que ganhou na campanha.

PAPOS COM AMORIM 
Celso Amorim, o chanceler, quando deixar o governo, publicará um livro com suas palestras nos oito anos de governo Lula. Vai se chamar Conversas com jovens diplomatas.

CLUBE DO MILHÃO 
O filme brasileiro Muita calma nessa hora, de Felipe Joffily, chegou a 1 milhão de espectadores.

SÓ GRAÚDO 
O clima não é bom numa certa embaixada de país asiático em Brasília. É que o pessoal recebeu do Palácio do Planalto a determinação de que, na posse de Dilma, só serão aceitos convidados de ministro para cima.

MÉXICO NA LAGOA 
A mexicana Cinépolis, quinta maior rede de cinemas do mundo, chega ao Rio ainda este mês. Abrirá seis salas (três com 3D). Os cinemas vão integrar o Lagoon, novo centro de gastronomia, entretenimento e esporte às margens da Lagoa.

MERCADO CRESCE... 
Veja por que a Cinépolis investe pesado no Brasil. Pelas contas de Manoel Rangel, diretor da Ancine, o País fecha o ano com cerca de 135 milhões de bilhetes de cinema vendidos. Um salto de uns 20% em relação ao ano passado.

MAIS QUE O MÉXICO... 
É bem provável que, com isso, o Brasil passe o México em bilhetes vendidos — embora disponha de 2.200 salas, menos da metade do número disponível na terra de Zapata. Lá, há uns 4.500 cinemas, 40% deles da rede Cinépolis.

BOLETIM MÉDICO 
Ivo Meirelles está de cama, com dengue.

VIVA WILDE! 
Oscar Wilde, o grande escritor irlandês que era homossexual, será “julgado” às 19h de hoje, 110 anos após sua morte, por um tribunal de alunos e professores da Faculdade de Direito da UFRJ, no Rio. Em 1895, ele foi condenado a dois anos por “cometer atos imorais com rapazes”.

ÁLCOOL DA MÁFIA 
Segunda, a máfia dos combustíveis no Rio sofreu um golpe. Fiscais da Receita estadual apreenderam, na Via Dutra, oito carretas de álcool combustível, cada uma com 30 mil litros.

PAÍSES BRIC 
O Rio vai ganhar um centro de estudos sobre os países Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Vai se chamar Bric Policy Center (BPC), parceria da PUC com a prefeitura. 

GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

A rotina e a História
VERISSIMO
O GLOBO - 09/12/10

Nada me impressionou mais no relato que li, certa vez, sobre os últimos dias da Segunda Guerra Mundial na Europa do que saber que, enquanto as tropas russas entravam em Berlim, em algumas zonas da cidade o leite continuava a ser entregue, os carteiros continuavam a fazer suas rondas, a vida “normal” seguia seu curso. Não sei se achei isso admirável – o poder de resistência ao caos do banal e do cotidiano – ou um exemplo assustador da rotina desconsiderando a História. Viver “normalmente” num mundo em conflito permanente entre riqueza e miséria, privilégio e exclusão, progresso e atraso é a experiencia comum de todo o mundo. Isto inclui os desenvolvidos e os sub, inclui todos sem exceção – a não ser, talvez, os escandinavos. Mas mantemos nossas rotinas mesmo sabendo dos bilhões de despossuídos da Terra, incluindo os que vemos pelas nossas janelas. Fazer o quê? Sentimos muito, nos indignamos, votamos em quem promete melhorar a situação pelo menos na nossa vizinhança, mas nossas vidas têm que seguir seu curso. Como em Berlim, o conflito está acontecendo longe do nosso cotidiano. Mas às vezes – como no Rio – o conflito invade o cotidiano. A rotina é abalroada pela História. Nosso dia-a-dia não é mais refúgio nem álibi e somos obrigados a enfrentar a realidade.
Além das características peculiares do confronto que o incendiou – o trafico, a polícia, as milícias, os políticos, uma velha História tipicamente brasileira –, o Rio serve como um microcosmo das divisões sociais, raciais e econômicas do mundo, apenas complicado pela
sua geografia nada comum. Discute-se quais seriam as piores favelas do mundo – dizem que as do Haiti e da África do Sul disputariam a medalha de latão – mas todas as favelas são iguais no que elas representam de descaso de um lado e de ameaça do outro. Antigamente, quando quem morava nos morros do Rio vivia pertinho do céu e arma de bandido era navalha, já se falava no que aconteceria quando os morros “descessem”.
O temor, explícito ou implícito, é de todo o mundo. Mas enquanto a invasão não vem, ou só vem de vez em quando, a rotina prevalece e a vida segue seu curso.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Foi uma candidatura desastrosa, sem agregar nada à oposição”
Deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) sobre a campanha de José Serra no primeiro turno

Abin investiga futuro ministro antes de anúncio 
A demora em oficializar ministros do futuro governo, mesmo depois que seus nomes são vazados, deve-se à Agencia Brasileira de Inteligência, que vasculha a vida pregressa dos indigitados. Ou seja, a demora decorre do tamanho da ficha do futuro ministro. A Abin produz um relatório, sem emitir juízo, listando ligações políticas e pessoais, ações na Justiça, acidente de trânsito, pensões alimentícias, Serasa/SPC etc.

O começo 
Como no atual governo, Gilberto Carvalho, futuro secretário-geral, pede o crivo da Abin por meio do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A intermediação 
O chefe de gabinete do general Jorge Félix, ministro do GSI, é quem aciona o serviço secreto da Abin para investigar o indicado.

Barriga de aluguel 
José Sarney apenas foi informado da escolha do futuro ministro Pedro Novais (Turismo). A indicação foi de Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Quem vai mandar 
O “pacote” do Turismo inclui Geddel Vieira Lima presidindo a Embratur. Aliado de Eduardo Cunha, ele tem ascendência sobre Pedro Novais.

ANP quintuplica seus gastos em informática 
Nem só o presidente Lula desdenha de Guido Mantega. O ministro da Fazenda afirmou que o futuro governo vai cortar gastos para reduzir os juros, mas Lula deu nele um pito público e a Agência Nacional do Petróleo uma eloquente “banana”: às vésperas da posse de Dilma Rousseff, a ANP abriu licitação de serviços de “manutenção corretiva, adaptativa e evolutiva, e suporte” em informática. Vai substituir um contrato de R$ 3,8 milhões por outro de R$ 17,5 milhões.

É a demanda 
Alan Kardec, diretor da ANP, diz que o contrato atual é insuficiente para desenvolver novos sistemas, e o novo pode ser reduzido em até 40%.

No petismo, a teoria... 
O jornalista Ricardo Kotsho, ex-assessor de Lula, garantiu no Programa do Jô que o petismo jamais restringiria a liberdade de imprensa.

...na prática é outra 
Já o ex-jornalista Franklin Martins, ministro da Propaganda, continua sonhando com mecanismos de controle e “regulação” da mídia.

Novidade na Abin
Marcelo de Carvalho Lopes pode ser a opção partidária de Dilma para a poderosa Agencia Brasileira de Inteligência (Abin). Ele hoje dirige Sebrae-RS e atuou no serviço de sensoriamento remoto da Amazônia.

O negociador 
O presidente da Comissão Mista de Orçamento, deputado Waldemir Moka (PMDB-MS), conduziu três reuniões para convencer o senador Gim Argello (PTB-DF) a renunciar à relatoria, abortado a crise.

Vistoria 
D. Marcela, jovem vice-primeira-dama, conhecerá dia 23 o Palácio Jaburu, onde vai morar com o filho de vinte meses e o marido, Michel Temer. Será ciceroneada pela atual ocupante, Marisa Gomes da Silva.

Os ‘artistas’ da Cop-16 
A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu, disse que na conferência do clima, em Cacún, há quem defenda a natureza conciliada com a produção de alimentos e os que só fazem teatro. E pergunta: “De que tipo de gente o mundo realmente precisa?”

Exibicionismo
Um grupo com farda preta empacotada a vácuo, da chamada Polícia do Senado, imitando Polícia Federal, roda os estacionamentos com sirene estridente, aplicando “multas” que nada valem nos servidores.

Policiando o nada 
Os quase quinhentos PMs colocados à disposição da Presidência da República têm sido subtilizados em tarefas como distribuir botijões de água, lavar carros oficiais, servir como motoristas ou porta-celulares. 

Tarso falha, a Justiça, não 
A Justiça gaúcha devolveu ao economista Júlio Leite o clube campestre de 22 hectares em Porto Alegre, invadido por um caseiro. Arrolado como testemunha, ex-ministro Tarso Genro (Justiça) relutou. Júlio, deficiente físico, contou em livro a saga jurídica e o papelão de Genro.

Baiano folgado 
A prefeitura de Salvador retirou outdoors do cantor de axé Tomate que citam a música Eu te amo, porra. O cantor reclama de censura, os soteropolitanos do seu mau gosto e da musiquinha chinfrim.

Pensando bem...
...foi a bela Carla Bruni quem vendeu os caças Rafale ao Brasil. 

PODER SEM PUDOR
Gracinhas de deputados 
Certa vez, a deputada estadual Heloneida Studart (PT) combinava entrevista com uma repórter de Brasília, que não a conhecia, e descreveu assim a subcomissão parlamentar da Assembleia Legislativa do Rio que chegaria à capital:
– É simples você nos achar. Sou baixinha, gordinha e bastante sorridente. Já a minha colega Graça Matos (PMDB) é alta, esbelta e muito elegante. O meu colega Leandro Sampaio (PMDB) é gordinho, calvo e bem bonitinho...

09/12: DIA MUNDIAL DE COMBATE A CORRPÇÃO

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Inflação já é a maior em 5 anos mas BC mantém juros

- Folha: Lula entrou e vai sair com o maior juro real do mundo

- Estadão: Farra das emendas faz verba do Turismo aumentar 2.351%

- JB: Novo Código Penal não controla fugas de Natal

- Correio: Saúde de Brasília em estado terminal

- Valor: No PAC, ‘empenho forçado' de R$ 12 bi

- Estado de Minas: Agora é ter fé na Justiça

- Jornal do Commercio: Alimentos puxam alta da inflação

- Zero Hora: RS cresce a ritmo chinês em 2010