terça-feira, junho 29, 2010

MERVAL PEREIRA

O fator Palocci 
Merval Pereira 

O Globo - 29/06/2010

Uma das maiores incógnitas dessa campanha é qual será a função do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci num eventual governo Dilma Rousseff.

Colocado como um dos coordenadores da campanha oficial pelo próprio presidente Lula, Palocci vem assumindo importância cada vez maior como avalista de posições ortodoxas na economia, especialmente no contato com empresários.

Palocci vai além de tentar convencer os indecisos, ou mesmo os que tendem a votar em Serra, dos compromissos de Dilma com o tripé que sustenta a política econômica que vem desde o segundo governo de Fernando Henrique: câmbio flutuante, equilíbrio fiscal (superávit primário) e metas de inflação, com um Banco Central operacionalmente independente.

O ex-ministro, com frequência, alerta os empresários para o que seria o “risco Serra” que estaria embutido no que classifica de visão intervencionista do candidato tucano — que não se cansa de insinuar que, em um governo seu, o Banco Central não terá uma autonomia tão grande quanto vem tendo nos últimos anos.

Também as críticas de Serra quanto ao câmbio, que agradam muito aos exportadores que sofrem com a valorização do real, levam os governistas a apontarem riscos de uma intervenção governamental no câmbio.

Em ambos os casos, Serra insiste em que não haverá intervenção de seu governo para criar situações artificiais, mas uma política econômica harmônica que levará a uma situação de equilíbrio que não obrigará o governo a pagar altos juros para o investidor.

Assim como o governo usa Palocci para sinalizar sua postura, Serra tem usado o nome do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga como exemplo de economista que gostaria de ter em sua equipe.

Essa é uma discussão técnica que não dá um voto na maioria da população, mas que é fundamental para um tipo de eleitor formador de opinião e a classe média, que sempre rejeitaram posturas heterodoxas petistas, a ponto de terem obrigado Lula, em 2002, a assinar a “Carta aos Brasileiros”, assumindo o compromisso de manter a política econômica de Fernando Henrique.

Por outro lado, o candidato tucano, José Serra, tem fama de ser um grande gestor público, especialista em manter o equilíbrio fiscal com ganho de produtividade e corte do gasto público.

A decisão de Lula de colar Palocci na candidatura de Dilma se deveu justamente ao temor de que esse público rejeitasse a candidatura de Dilma por ela ter se colocado como o “contraponto” a Palocci quando este estava no Ministério da Fazenda e ela, no Gabinete Civil.

A famosa discussão entre os dois — quando Dilma, em uma entrevista ao “Estadão” em 2005, classificou de “rudimentar” a proposta que ele e o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, faziam de limitar a longo prazo o crescimento do gasto público ao crescimento do PIB — marcoua como defensora da gastança governamental: “Despesa corrente é vida”, disse Dilma na ocasião.

O papel do Estado em um futuro governo Dilma também é uma definição impor tante, e tanto ela quanto o governo Lula têm sido criticados pela visão de que, com a crise financeira de 2008, o Estado tem que ter necessariamente seu papel aumentado.

A influente revista inglesa “The Economist” critica o “capitalismo de Estado” do governo Lula, reforçado na segunda metade de seu segundo mandato, e atribui a mudança à predominância da visão da ministra Dilma Rousseff com a saída de Palocci.

Como aluna disciplinada, a candidata oficial vem repetindo em palestras para empresários, especialmente estrangeiros, o que o ex-ministro Antonio Palocci lhe orienta.

Ela ainda não chegou ao ponto de dizer, como Palocci sempre disse em conversas informais, que seu antecessor na Fazenda, Pedro Malan, merecia uma estátua por duas medidas adotadas: a renegociação das dívidas dos estados e a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mas, ao contrário de seu discurso para o público interno, quando insiste na tese da “herança maldita” deixada pelos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, no exterior ela é só elogios para a política econômica.

Recentemente, na festa que homenageou como Homem do Ano o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles — outro que Lula tentou colar em Dilma como seu vice — , ela atribuiu o sucesso econômico do país aos últimos 20 anos de continuidade das políticas.

E não é apenas em questões de macroeconomia que ela diz o que o interlocutor quer ouvir. Também com relação a questões políticas delicadas, que têm repercussão na economia, como a ação do MST, ela se desdiz em público.

Recentemente, em Uberlândia, Minas Gerais, ela se colocou contra “qualquer ilegalidade cometida pelo Movimento dos Sem Terra ou qualquer outro movimento”.

E foi específica, referindose a problemas que os fazendeiros da região, importante para o agronegócio, enfrentam: “Invasão de terra, invasão de campo de pesquisa, invasão de prédio público é ilegalidade”.

Mas não se passaram 24 horas e lá estava Dilma com um chapéu do MST na cabeça, fazendo um discurso para os “companheiros” em Sergipe.

A candidata oficial, portanto, vem sendo reconstruída em público não apenas fisicamente, mas, sobretudo, em termos ideológicos.

O economista da PUC do Rio Rogério Werneck, em artigo na página de Opinião do GLOBO, comparou o trabalho de transformação de Dilma ao do professor Henry Higgins na célebre peça “Pigmaleão”, de Bernard Shaw, tentando transformar a florista Eliza Doolittle em uma grande dama. E duvidou que Palocci obtenha êxito.

A pergunta que não quer calar é qual a verdadeira Dilma que eventualmente assumirá a Presidência da República: a candidata-laranja de Lula que segue a orientação de Palocci, ou a integrante da ala radical do PT, intervencionista e estatizante?

A TERRORISTA MENTIROSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Tombados 
Sonia Racy 
O Estado de S.Paulo - 29/06/2010

Tudo certo. O PAC Cidades Históricas, no que se refere ao Estado de São Paulo, será assinado na quinta-feira. A adesão? São 12 municípios. Entre eles, Iguape, Itu e São Luiz do Paraitinga. O pacote não inclui a capital. São Paulo chegou a aderir mas deu meia volta para aparar arestas.

Captados nas três esferas do governo, os investimentos de R$ 222 milhões devem ser distribuídos, em quatro anos, por 164 ações junto ao Iphan.
Haja Frontal
A depender dos dados de José Gomes Temporão, os brasileiros com depressão, esquizofrenia e outros transtornos mentais mereceram atenção especial durante o governo Lula. A construção de novos Centros de Atenção Psicossocial triplicou: eram 424 unidades em 2002. Hoje, são 1.541.
Só para artistas
Dilma foi centro ontem de jantar organizado por Juca Ferreira e Ivaldo Bertazzo. No apê do coreógrafo.
Sem folga
Se o Morumbi está de "mala leche", o Pacaembu comemora.

O Museu do Futebol recebeu só neste mês mais de 49 mil pessoas. Crescimento de 36% em relação ao ano passado.
Do bem
Depois do Brasil e Colômbia, foi a vez de Moçambique. A Vale abriu ontem a sua Fundação Vale, que coordena ações de responsabilidade social da empresa. Será gerida por membros da ex-estatal, do governo moçambicano e por lideranças comunitárias.
Interlocutores
Entre os empresários que terão encontro fechado hoje com Lula e Berlusconi, durante seminário na Fiesp, estão Cledorvino Belini, da Fiat, Frederico Curado, da Embraer, Guillermo Kelly, da Pirelli, mais ... Oskar Metsavaht, da Osklen. E obviamente, Benjamin Steinbruch.

Prometem não falar de futebol.
Dois lados
Andrea Matarazzo garante que as 21 oficinas culturais do Estado de São Paulo não serão fechadas. "É boataria. Não temos intenção de demitir. Só estamos analisando a gestão da organização social checando cumprimento de metas."

Já Marcelo Fonseca, organizador de seminário na oficina Oswald de Andrade, jura que viu carta de demissão enviada a funcionários pela secretaria.
Ecos pós-Dilma
As cerca de 40 convidadas de Geyse Diniz, que estiveram com Dilma na sexta-feira, afastaram alguns fantasmas durante a reunião. Saíram com a impressão de que ela tentará o caminho do equilíbrio, caso seja eleita.

No entanto, não souberam como a candidata controlará o PT - claramente facetado e fragmentado. Lula usa sua indiscutível popularidade e faz isso com maestria. E ela, como fará?
Ecos 2
Dilma escapou de perguntas polêmicas, como essa acima, mas foi enfática em relação a um tema recorrente: a reforma tributária. Questionada sobre as prometidas reformas estruturais, se comprometeu com a da tributação. "Quero igualar o ICM em todos os Estados e fazer o mesmo com o IPI. Estamos crescendo e não há melhor hora para simplificar nossa estrutura", afirmou.

A candidata foi classificada como... otimista.
Ecos 3
Sobre política externa, falou pouco. E evitou opinar sobre Cuba. Perguntada, escapou com um "sou contra presos políticos" e mudou de assunto. Seu debate com uma executiva do mercado financeiro indicou que ela pode não ser uma expert em finanças mas tem bom senso. Ponderou sobre juros e BC de maneira sistemática e treinada, escorregando apenas na defesa do BNDES.

Não faltaram ponderações sobre os ensinos médio e básico. Dilma se mostrou preocupada com a falta de formação de professores e com a qualidade do ensino.
Ecos 4
Fora de contexto, a pergunta que abriu o encontro provocou constrangimento. Por ser católica, Dilma foi cobrada para que não frequentasse cultos evangélicos.
Ecos 5
Politicamente correto: Geyse se organiza agora para receber também Serra e Marina Silva.
Na frente
Aloizio Mercadante lança seu livro A Reconstrução Retomada. Hoje, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional

Começa hoje a exposição sobre a história do Teatro Cultura Artística, montada na fachada da rua Nestor Pestana. Com apoio da Racional.

Nietzsche, Filósofo da Suspeita, de Scarlett Marton, será lançado hoje na Casa do Saber.

Do comissário de bordo aos passageiros do voo Johannesburgo-São Paulo, no domingo: "Favor desligar todos os equipamento eletrônicos, celulares e, por favor, as vuvuzelas". A nova praga mundial.

MÍRIAM LEITÃO

Desafio da hora 
Miriam Leitão 

O Globo - 29/06/2010

A primeira linha do comunicado do G-20 é animadora. Diz que é o primeiro encontro de cúpula do grupo na sua nova capacidade de ser o mais importante fórum de cooperação econômica global. É um atestado de superação do G-8. O presidente Lula não estava lá. O Brasil perdeu peso político na conversa dos grandes e deu mais um sinal de como é errática sua política externa.

Os líderes mundiais, na reunião em que o Brasil se fez representar pelo ministro Guido Mantega, discutiram a decisiva questão de o que fazer nesta etapa da crise. De um lado, alguns países começam a retomar o crescimento, de outro, países estão ameaçados pelo crescimento exponencial dos déficits e das dívidas do setor público. O que eleva mais o risco de um crise em W, ou seja, com nova recaída mais adiante? O descontrole dos gastos públicos ou a retirada dos estímulos? Alemanha e Inglaterra, em campos opostos no futebol no exato fim de semana, estiveram unidos na visão de que é preciso ser rigoroso com o corte de gastos e essa foi a posição vitoriosa: o comunicado final se comprometeu a reduzir à metade o déficit até 2013. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não chegaram a ser eliminados. O presidente Barack Obama entrou em campo dizendo que era preciso manter os estímulos econômicos pela recuperação porque o fortalecimento da economia virá da criação de empregos. Esta posição, que o Brasil apoiou, está no comunicado final.

Mas o espectro que ronda a Europa é o de que o peso dos déficits extravagantes mantenha a onda de desconfiança em relação às dívidas que acabe pondo em crise os bancos que carregam estes títulos.

O FMI defendeu que o corte de déficit vai fortalecer a economia. Apresentou até números: a economia mundial cresceria 2,5% mais rapidamente se os Estados Unidos e os países mais ricos cortarem seus déficits mais fundo do que estão planejando. Na TV online do “Wall Street Journal”, o âncora Paul Vigna disse que o resumo da reunião do G-20 é uma palavra: austeridade.

O dilema do G-20 foi respondido de forma diferente do que o Ministério da Fazenda queria. O sinal mais forte foi de aperto fiscal, apesar de ter sido também contemplada no documento a preocupação com os estímulos. Não é trivial esse pós-choque de 2008. Como uma pedra jogada no lago, a crise continua provocando ondas sequenciais.

O Brasil não está fora dos riscos, mesmo vivendo momento muito bom. A Europa é um grande parceiro comercialeconômico do Brasil, um grande investidor. Os números divulgados pelo Banco Central mostraram o efeito da crise europeia nas contas externas: queda dos investimentos diretos e aumento das remessas das multinacionais europeias para melhorar suas matrizes estão aprofundando o déficit em transações correntes do Brasil.

A confortável situação das reservas nos protege de piores perigos, mas de qualquer maneira o Brasil não está imune. Nenhum país está.

O xadrez é complexo e não há uma solução simples.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na reunião do fim de semana na Basiléia, ressaltou a necessidade de controle dos déficits públicos para tentar evitar novos problemas com os bancos dos países desenvolvidos que poderiam levar à nova crise.

Guido Mantega em Toronto falou com jornalistas brasileiros sobre a necessidade de manter os estímulos econômicos e deixar o corte do déficits para depois. É o time do Brasil jogando de forma desencontrada, como joga aqui dentro.

Até por isso a palavra do presidente Lula em Toronto seria importante. Em momentos diplomáticos como a cúpula do G-20, os líderes dos países se reúnem nas reuniões formais e em encontros paralelos. Ao sair de um desses com o primeiroministro da Índia, Manmohan Singh, o presidente Barack Obama disse que quando o primeiro-ministro indiano fala, o mundo ouve, pela sua liderança e influência crescentes.

A China fez mais uma das suas. Disse antes que iria valorizar o yuan e assim livrou sua política cambial de ser um dos pontos de controvérsia da reunião.

Deixou uma referência a esse compromisso até a penúltima versão, mas na última versão retirou o trecho dizendo que a política cambial é soberana. Assunto interno chinês. Falso. O tema afeta o mundo inteiro.

Outra questão decisiva ficou para a próxima reunião: a regulação bancária.

Os grandes bancos terão que se adaptar à nova regulação americana e terão que enfrentar novas exigências de capital e de medidas contra riscos numa regulação global. O que ganharam agora foi apenas o adiamento de discussões detalhadas para novembro.

Há momentos em que a diplomacia brasileira faz esforços fortes no que não é tão decisivo, e outros momentos em que não aparece.

O motivo apresentado foi que o presidente precisava coordenar as ações de ajuda ao Nordeste. A tragédia das chuvas foi grave, mas é o governo todo que precisa estar envolvido e o presidente poderia ter se ausentado, sem que isso significasse evidentemente interromper a ajuda às vítimas.

A próxima reunião será em Seul, em novembro, quando o governo Lula estará chegando ao fim.

CRIANÇA TOMANDO BANHO DE SÕL

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Chuvas devem frear o setor da construção no Nordeste 
Maria Cristina Frias

Folha de S.Paulo - 29/06/2010

As chuvas que atingiram Alagoas e Pernambuco na última semana devem comprometer temporariamente o desempenho do setor da construção no Nordeste.

A região vem se destacando, ao lado dos Estados do Norte, graças à onda de investimentos em obras de infraestrutura de saneamento, energia e transportes e projetos ligados ao turismo.

No Norte, no primeiro trimestre deste ano, a comercialização de material de construção em Rondônia -que desponta com as obras das usinas do rio Madeira- registrou crescimento de 54,6% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os dados fazem parte do novo relatório da Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção), elaborado pela FGV, que será divulgado hoje com abordagem de cada região.

Entre os Estados do Nordeste, o aumento foi de 17,7% no período. O destaque é o Ceará, com alta de 26,4%.

Os temporais, porém, devem desacelerar o andamento na região, diz Melvyn Fox, presidente da Abramat.

Pressão negativa semelhante foi verificada no Rio, que, devido às fortes chuvas que atingiram o Estado no início deste ano, cresceu apenas 12% nos três primeiros meses. "Esperamos que o próprio esforço de reconstrução impulsione novamente."
Clássicos Italianos
O embaixador Umberto Vattani, que veio com a comitiva do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, assina hoje acordos de cooperação técnica com o Senai, a Apex e a Fundação Getulio Vargas.

No dia 9 de julho, mais um acordo será firmado, desta vez, em Roma, com a Suframa (Zona Franca de Manaus). A iniciativa visa a incrementar a transferência de tecnologia e o intercâmbio cultural entre os dois países.

Deve facilitar o comércio bilateral, principalmente no que se refere a pequenas e média empresas, além de promover a ida de universitários para estágios em companhias italianas, segundo Vattani. É fruto da parceria subscrita entre o premiê Berlusconi e o presidente Lula em Washington, em abril passado.

"Foi tão rápido o resultado que já temos os acordos prontos para assinar", diz o embaixador, que é também presidente do Instituto Italiano para o Comércio Exterior, presente em 87 países.
Na comitiva, vieram executivos de diferentes setores, principalmente de máquinas, componentes e alimentos, os que mais exportam ao país.
Intercâmbio no Chile
A partir de julho, a terceira idade brasileira terá pacotes turísticos no Chile, idealizados para a faixa etária. A oferta resulta da primeira parceria internacional do programa Viaja Melhor Idade, do Ministério do Turismo e da Braztoa (que reúne operadoras). São esperados 500 turistas em cada país.
Controle remoto
A Linear, fabricante de transmissores de TV, investirá US$ 3 milhões em nova fábrica no Uruguai. A medida acompanha a inclinação do país vizinho de adotar o sistema nipo-brasileiro de TV digital. A empresa utilizará os benefícios da legislação uruguaia para importar componentes.
Em grupo
O brasileiro Jim Otto, presidente da Financeira Otto, e 49 Jovens Líderes Globais de 24 países, integrantes do programa do Fórum Econômico Mundial, se reúnem nesta semana em Paris com o governo francês. O objetivo é traçar recomendações da reunião do G20, marcada para 2011 sob a presidência francesa.
Bactéria Amiga
A SuperBAC, empresa brasileira de biotecnologia, realizou uma joint venture com a portuguesa Partex, do setor de petróleo, para tratar a água que sai dos poços de extração em Omã, no Oriente Médio.

A empresa irá desenvolver o sistema biotecnológico e montar uma estação de tratamento de água naquele país. A água que sai durante a extração de petróleo é contaminada por hidrocarbonetos.

"Em testes realizados em poços brasileiros em que a Partex é sócia, houve redução de 98% dos hidrocarbonetos presentes na água", afirma Luiz Chacon Filho, presidente da SuperBAC. A água tratada poderá ser usada na agricultura e nas indústrias, de acordo com o executivo.

Com investimentos de cerca de US$ 6 milhões, o negócio está na fase de montagem das instalações. A expectativa é que a estação de tratamento esteja em operação dentro de 12 meses, segundo Chacon Filho.

WANDA ENGEL ADUAN

A hora e a vez do ensino médio
WANDA ENGEL ADUAN
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/06/10

Há problemas de cobertura, modalidade de currículo e forma de atendimento, com graves reflexos no fluxo e no desempenho dos alunos


A sociedade brasileira parece ainda não ter-se dado conta da verdadeira crise de audiência que vem afetando nosso ensino médio, com previsíveis consequências para o desenvolvimento sustentável do país. Trata-se de uma verdadeira bomba-relógio.
Para entendermos a gravidade da situação, o primeiro fato a encarar é o de que vivemos em uma sociedade do conhecimento, que exige, como passaporte mínimo para que os jovens sejam inseridos no mercado de trabalho, o diploma do ensino médio.
Também para os países, a vantagem competitiva passa a ser esse nível de escolaridade de sua população. Entretanto, a média brasileira de anos de estudo ainda é de sete anos e apenas 16% da população economicamente ativa concluiu o ensino médio.
Sem dúvida, isso é fruto de um processo histórico, mas, se os dados atuais fossem animadores, poderíamos prever boas perspectivas para o futuro. Infelizmente, é justamente aí que se processa a montagem da bomba-relógio.
O ensino médio no Brasil sofre de males seríssimos. Há problemas de cobertura, modalidade de currículo e forma de atendimento, com graves reflexos no fluxo e no desempenho dos alunos. Em termos de cobertura, menos da metade daqueles que deveriam estar nesse nível pode ser aí encontrada.
Parte ainda está no fundamental e quase 20% estão fora da escola. O mais grave é que, na faixa de 18 a 24 anos, 68% estão nessa situação.
Quanto ao currículo, observa-se que menos de 10% dos alunos cursam o ensino profissionalizante. Ou seja, mais de 90% dos jovens estão sendo "preparados" para uma universidade na qual a maioria não pisará.
O dado mais incompreensível é o turno em que o ensino médio regular é ofertado. Mais de 40% dos alunos estudam à noite, inclusive nos Estados mais ricos, quando apenas 17% conjugam escola com trabalho. A soma desses fatores está por trás de uma verdadeira sangria, responsável pela perda de metade de nossos alunos (entram 3,6 milhões e concluem 1,8 milhão).
Estamos perdendo esses jovens para o desemprego, para a reprodução da pobreza (22% dos mais pobres já têm filhos) e para a violência. Dos que concluem, apenas 9% (em matemática) e 24% (em português) apresentam um desempenho considerado adequado.
Em face dessa situação, cabe a pergunta: quem é o responsável pela oferta do ensino médio? De fato, 86% das matrículas estão nos sistemas estaduais, cujos governantes serão eleitos neste ano.
O voto de cada um de nós deveria estar condicionado a propostas dos candidatos sobre como pretendem enfrentar tais problemas.
Seria necessário um compromisso com metas claramente definidas, tais como universalizar o acesso e a permanência dos jovens entre 15 e 17 anos, melhorar o desempenho e diminuir o abandono, aumentar a autonomia das escolas, promover maior estabilidade das equipes de direção e flexibilizar os currículos, mas definindo mínimos para cada série.
Outras metas possíveis são aumentar o ensino profissionalizante, criar formas de articulação entre educação e trabalho, concentrar o ensino médio regular nos turnos diurno e vespertino, reservando o noturno apenas para a EJA (Educação de Jovens e Adultos, a partir de 18 anos), e criar sistemas de incentivos baseados em resultados.
Além disso, os candidatos poderiam definir as metas de usar os resultados de avaliações como instrumento pedagógico e de contribuir para mudanças na formação de professores.
Os candidatos poderiam assumir essas ou outras propostas, mas deveriam explicitar seu forte compromisso com a melhoria do ensino médio, sem o que não mereceriam nosso voto.
WANDA ENGEL ADUAN, 65, doutora em educação pela PUC-RJ, é superintendente-executiva do Instituto Unibanco.

PUTARIA

PAINEL DA FOLHA

Pacote para presente 
Renata Lo Prete

Folha de S.Paulo - 29/06/2010

Decidido a manter Álvaro Dias (PSDB-PR) como vice, José Serra espera que seus bombeiros consigam apagar o incêndio no DEM na base de muita conversa, da promessa de solução de impasses em Estados nos quais o aliado ainda aguarda um gesto de boa vontade dos tucanos (Pará, Goiás e Sergipe) e -cereja do bolo- do convite para que um quadro do partido assuma, na coordenação da campanha, posto de estatura semelhante ao presidente do PSDB, Sérgio Guerra.

Ainda não é certo que isso baste, mas a temperatura baixou ontem, muito em razão da ajuda da bancada de senadores do DEM, José Agripino à frente. "Estarei com Serra em qualquer circunstância", diz o líder.
HidranteDo deputado João Almeida (PSDB-BA): "Quando todo mundo passa a correr sério risco de perder, é bom haver bom senso".
GeladeiraA campanha de Dilma Rousseff (PT) festeja o fato de a confusão do vice ter tirado Serra de circulação num fim de semana repleto de convenções que poderiam lhe dar visibilidade.
Fazer o quê?Até os mais otimistas quanto à perspectiva de aliança entre PMDB, PT e PDT no Paraná jogaram a toalha: mantido Álvaro Dias como vice de Serra, seu irmão Osmar (PDT) deverá, finalmente, encerrar o suspense e ficar no time dos tucanos, fragilizando a situação de Dilma no Estado.
C.q.d.Não foi por disposição estoica que PT e PMDB esperaram tanto tempo pelo hesitante Osmar. O objetivo era deixar claro que tudo fizeram para apoiá-lo, de modo a caracterizar, em caso de desistência, que o senador "amarelou" sozinho.
Fica como está 1
Em Santa Catarina, a ameaça de intervenção do PMDB nacional corre o risco de não se concretizar. Os presidentes José Eduardo Dutra (PT) e Michel Temer trocaram telefonemas ontem, e tudo indica que os peemedebistas farão vista grossa à indicação de Eduardo Pinho Moreira para ser vice de Raimundo Colombo (DEM) ao governo.
Fica como está 2Temer costura declaração pró-Dilma da ala do PMDB local simpática à petista. Ele e Dutra ouviram o argumento de que uma intervenção poderia ter efeito bumerangue, desgastando a candidatura da petista em Santa Catarina.
Duda e MartaDuda Mendonça retorna ao berço político do PT: o marqueteiro acertou ontem que fará a campanha de Marta Suplicy ao Senado por São Paulo.
Na retrancaNa coordenação da campanha de Dilma, há quem não se entusiasme com a ideia de mandá-la à África do Sul na eventualidade de o Brasil chegar à final da Copa. Em caso de derrota, argumentam os relutantes, ela poderia ser carimbada como "pé frio". Fora o risco de o marketing soar exagerado, dada a pouca familiaridade da candidata com o planeta bola.
Goool!Do ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais), "tuitando" no jogo do Brasil: "O bom do delay da Net é que os vizinhos vibrando não deixam a gente ser pego de surpresa. As coronárias agradecem!"
EstruturalNa reunião da coordenação política, ontem, Lula defendeu reestruturação da Defesa Civil. Após visitar o Nordeste assolado pelas chuvas, o presidente concluiu que a dobradinha com as Forças Armadas nessa área precisa ser reforçada.

Melhor não Diante da ausência de vários colegas, ministros do STF procuram convencer o presidente Cesar Peluso de que não é boa ideia votar, amanhã, o pedido de intervenção no DF.
Tiroteio
Dilma já foi comparada a Mandela, Maria Quitéria e agora Irmã Dulce. Ela vai acabar santificada pelo PT antes de Lula.
Contraponto
Interior e exterior 
Na convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, anteontem em Salvador, o governador da Bahia, Jaques Wagner, discursava empolgado ao lado da correligionária que disputará a Presidência:

-Aqui está a Dilma, minha grande amiga, que está cada vez mais bonita, e falo de beleza interna...

A plateia reagiu, Wagner ficou vermelho e complementou sua apreciação da ex-ministra, que recentemente se submeteu a vários procedimentos estéticos:

-E ela está mais bonita fisicamente também.

LUIZ ANTONIO SANTINI

Paradoxos do fumo no Brasil
LUIZ ANTONIO SANTINI
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/06/10

Apesar dos avanços, o país não consegue aprovar uma legislação federal que permita banir completamente o fumo em ambientes fechados



O Brasil é um dos campeões mundiais na redução do número de fumantes -queda de 46% entre 1989 e 2008, segundo o IBGE.
Sucesso que se deve às políticas públicas bem articuladas, aliadas a leis estaduais para reduzir o tabagismo e à mobilização de militantes de várias áreas.
O paradoxo, do ponto de vista da saúde, é que, apesar dos avanços, o país não consegue aprovar legislação federal para banir completamente o fumo em ambientes fechados. Em termos econômicos, mesmo com a queda no consumo dos derivados de tabaco, o Brasil aumentou nos últimos anos a produção do fumo em folha. O país é, hoje, o segundo maior produtor e primeiro exportador mundial. Com China e Índia, responde por 61% da produção mundial do setor. O paradoxo vai além. A reversão mundial no tabagismo, maior nos países desenvolvidos, é decorrente, entre outros fatores, da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, primeiro tratado de saúde pública ratificado por 168 países-membros da Organização Mundial de Saúde, de um total de 192. Ela é a principal ferramenta para reduzir o tabagismo. Trata-se de um contingente de 1,3 bilhão de fumantes e de 100 milhões de mortes relacionadas ao tabaco -somente no século 20. O texto da convenção, ratificado pelo Congresso, motivou leis antifumo em sete Estados, inclusive Rio e São Paulo. A pesquisa "A Fumicultura e a Convenção-Quadro: Desafios para a Diversificação", do Departamento de Estudos Socioeconômicos Rurais (Deser), revela que, em 2007, a produção brasileira de fumo aumentou 59% em relação a 2000 e cita ainda problemas que afetam fumicultores como intoxicações por agrotóxicos e até suicídios como "preocupações antigas". A partir da convenção, elas ganharam dimensão de saúde pública. Já a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) registra o deslocamento da produção do fumo dos países ricos para aqueles em desenvolvimento, como Brasil, China, Índia, Indonésia e Paquistão. A Convenção-Quadro ilumina aspecto então restrito a especialistas: a vulnerabilidade socioeconômica dos agricultores e das famílias na cadeia produtiva do fumo. A baixa escolaridade é outra questão: 84% dos produtores do Sul do Brasil acima de 40 anos têm menos de nove anos de estudo. O Banco Mundial e o Conselho Econômico e Social da ONU alertam: tabaco e pobreza formam ciclo vicioso. No Brasil, da renda obtida com maço de 20 cigarros, apenas uma unidade chega ao produtor. O país precisa fortalecer políticas públicas que ofereçam alternativas sustentáveis à produção do fumo, da qual dependem 770 municípios do Sul e milhares de famílias de fumicultores, o elo mais frágil da cadeia produtiva. O Ministério do Desenvolvimento Agrário já dispõe de bons projetos. O Brasil ajudou a aprovar e divulgar a Convenção-Quadro pelo mundo. É hora de fazer a lição de casa.
LUIZ ANTONIO SANTINI, médico, mestre em cirurgia torácica, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da diretoria da União Internacional contra o Câncer, é diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer.

GOSTOSA

ANCELMO GÓIS

Este Grafite 
Ancelmo Góis 
O Globo - 29/06/2010

está estampado ali no Parque dos Patins, um lugar muito frequentado pelo público infantil, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Veja só. É uma mulher fantasiada, com um fuzil atravessado nas costas, uma metralhadora na mão esquerda e uma pistola na direita. Lá no fundo, dá para ver o Morro do Corcovado e o Cristo Redentor. Deve haver quem ache que é arte de rua. A coluna acha um horror. É apenas mais um retrato que emporcalha a paisagem carioca. Com todo o respeito
Falando alemão 
Do “Daily Mail”, jornal de Londres, sobre a eliminação da Inglaterra, que perdeu da Alemanha, na Copa: “Se em 1940 nossa defesa tivesse sido tão horrível, estaríamos falando alemão até hoje.” Faz sentido.
Dilma e os artistas
Ontem, Ivaldo Bertazzo reuniu em São Paulo artistas em torno de Dilma Rousseff.
O coreógrafo sempre foi muito amigo do casal FH e Ruth Cardoso.
Nem um nem outro 
Quase um terço dos eleitores de Marina Silva (exatos 27%) diz que vai votar em “branco” ou “nulo” num eventual segundo turno entre Dilma e Serra, segundo esta pesquisa CNI/Ibope.
Os outros estão divididos entre a petista (34%) e o tucano (32%).
Gestão política 
Não é só à pressão para investir em siderúrgicas que se resume a influência política de Lula na Vale.
Entre as razões da saída de Fábio Barbosa da diretoria financeira da mineradora, há também o viés político. Ele foi secretário do Tesouro no governo FH.
‘I am brazilian’ 
Estava cheio de torcedores não brasileiros nas arquibancadas do Ellis Park, com camisas e bandeiras da nossa seleção.
São gringos que vieram acompanhar países que já caíram e começam a escolher novos times para torcer.
O Brasil é gostoso 
Quem reparou foi uma brasileira que foi assistir à partida contra o Chile no Fifa Fan Fest de Paris.
A turma que mais vibrou com os gols de Juan, Luís Fabiano e Robinho foi a imensa colônia árabe.
Derrota do pregão 
Caiu quase à metade o volume de negócios da Bovespa durante os jogos da seleção.
No dia da estreia, contra a Correia do Norte, o volume foi de R$ 3,7 bi. O seguinte, diante de Portugal, bateu R$ 3,3 bi e o de ontem, R$ 3,2 bi. O jogo contra a Costa do Marfim caiu num domingo.
Lembrando...
Em maio, a média diária foi de R$ 7,3 bi.
Aulas de canto 
Suzana Vieira vai soltar o gogó.
A atriz prepara um CD para ser lançado em Portugal.
Grafite é fashion 
O atacante Grafite circula na África do Sul com uma mala Pegase Damier Graphite.
O modelito, da Louis Vuitton, custa uns R$ 7.400.
Quem dá mais 
Um quadro de Ismael Nery, “Figura de Mulher”, outro de Candido Portinari, “Espantalho”, ambos avaliados entre R$ 1,5 e 2 milhões, devem ser as vedetes do leilão do dia 6 de julho no Copacabana Palace.
Há quem diga que podem bater novos recordes de preço entre trabalhos de artistas nacionais no país.
Rio sem Leão 
Pela primeira vez desde que o Brasil participa do Festival de Cannes, nenhuma das agências vencedoras dos 59 leões conquistados pela nossa publicidade tem sede no Rio.
Barulho dos diabos 
O Scala, que parece ter bons amigos no Judiciário, fez festa rave sábado que infernizou a vida dos vizinhos no Leblon.
O padre Marcos, da Igreja Santos Anjos, que fica ao lado, até ligou para o 190, mas ninguém ouviu suas preces.
Dente por dente 
O reverendo promete, da próxima vez, tocar o seu sino até que alguém faça algo.
E mais: convoca fieis para uma manifestação em frente ao Scala, que deve ser dia 10.
Não é fofo? 
Susana Werner recebeu em seu Twitter uma mensagem sobre seu marido, Júlio César, de uma menina de 9 anos.
A garotinha dizia que Susana era uma sortuda e que gostaria de estar em seu lugar. Ainda deu um conselho à atriz: “Quando ele voltar, faz uma massagem bem caprichada porque deve ter doído muito aquela entrada no jogo contra Portugal.”

LOURDES SOLA

Ficha Limpa e participação política
Lourdes Sola 
O Estado de S.Paulo - 29/06/10

A história das democracias modernas inclui transformações que, por serem incrementais e levadas a cabo sem uma escalada de conflitos, constituem "revoluções silenciosas". São gestadas por mudanças difusas nas preferências coletivas, culminam na formação de consensos abrangentes e em novos critérios de legitimação política. Assistimos a um ciclo desse tipo em nossa região em tempos de inflação.

No Brasil a estabilidade econômica foi adquirindo valor de um bem público para vários estratos sociais e visibilidade para gestores e políticos eleitos: na esteira de frustrações, de experimentações macroeconômicas e dos debates que se seguiam. Parte do sucesso deveu-se ao caráter transversal do impulso renovador, para além das fronteiras de classe. Mas sempre na contramão dos impulsos particularistas dos interesses organizados então dominantes, sindicais ou patronais ? a nossa modalidade de "coalizão inflacionária".

O ciclo transformador culminou com a URV e o Plano Real, mas não se esgota em sua dimensão econômica. Primeiro, pelo método inédito de relacionamento com a cidadania. Além de dispensar sigilos e surpresas de choque, seus arquitetos se valeram da participação cooperativa da cidadania no novo experimento monetário. Sem a qual a incorporação da URV aos cálculos quotidianos da população e a passagem para o real não teriam ocorrido. Seguiram-se outros efeitos extraeconômicos. A Lei de Responsabilidade Fiscal instituiu novas modalidades de accountability (responsabilização e prestação de contas) por parte dos gestores. O modus operandi da classe política e os termos da concorrência eleitoral mudaram, graças às evidências de que o populismo econômico com forte viés corporativista deixara de render dividendos eleitorais. Em 2002, nenhum dos candidatos de oposição questionou as medidas disciplinadoras do velho tipo de gastança. A Carta ao Povo Brasileiro e as políticas do primeiro mandato do presidente Lula completaram o ciclo. O saldo líquido foi a ressocialização da classe política: candidatos de esquerda, direita ou centro, hoje, fazem seus cálculos políticos com um olho no poder de fogo dos mercados e outro no do eleitorado.

A Lei da Ficha Limpa, como movimento social e como norma codificada, inaugura um ciclo transformador. Que pode ou não se completar. Minha hipótese, que defendo a seguir, é: por sua origem, lógica e dinâmica políticas, ela estabelece a exigência de um vínculo forte entre participação política e accountability, típica das democracias de qualidade. A ênfase exclusiva no primeiro termo dessa equação, sem o segundo, é a quintessência dos populismos com viés corporativista e autoritário.

Uma das características distintivas do Ficha Limpa enquanto modalidade de participação política é sua transversalidade: a mesma voz, de estratos sociais diversos, deu impulso à construção do consenso em torno do projeto. Além disso, é um movimento autônomo em relação aos atores políticos e ao modo de fazer política dominantes: impôs sua agenda à margem de um Executivo hiperativo e de um Congresso mais atento às suas prioridades e às do governo. Essa dinâmica perversa foi desarticulada (temporariamente), o projeto aprovado nas duas Casas, de olho no eleitorado. Mas é contra o pano de fundo do modo de fazer política dominante que a Lei da Ficha Limpa pode (ou não) operar uma revolução silenciosa. Primeiro, por sua autonomia e seu caráter apartidário. Contrasta, assim, com o destino de movimentos sociais que abdicaram de sua autonomia original, atraídos pela força gravitacional do Estado, manipulada eximiamente pelo governo como agente de redistribuição de recursos públicos. Atraídos, sobretudo, pelo privilégio da dispensa de prestação de contas e de responsabilização quanto ao uso desses recursos: caso das centrais sindicais, dos movimentos pela reforma agrária, das ONGs amigas.

Mas outro tipo de transversalidade dá alento a quem julga que a democracia brasileira pode mais. A codificação dos novos critérios de legitimação política continuará envolvendo também os atores do sistema de Justiça. O Tribunal Superior Eleitoral pronunciou-se, as ações contestatórias chegarão ao Supremo Tribunal Federal, sob o escrutínio do Ministério Público e dos meios de comunicação. O Tribunal de Contas da União lista os gestores sob suspeição. É essa dinâmica política que institui o que chamamos, no jargão da ciência política, a accountability horizontal ? entre as instituições e os Poderes. Para diferenciá-la da modalidade vertical de responsabilização, exercida pela cidadania em relação aos Poderes constituídos. A Ficha Lima é um avanço em termos das duas modalidades. Por isso leva em seu bojo a exigência de um vínculo forte entre participação política e prestação de contas, seja aos Poderes constituídos, seja à cidadania.

Por que inaugura um ciclo transformador? Porque rompe com a lógica política perversa de erigir a participação política em condição suficiente do avanço democrático ? típico do viés corporativista do nosso legado. Um viés que volta a ganhar corpo, com alma plebiscitária, em detrimento da representatividade do sistema partidário. Nos termos de Werneck Vianna, "as velhas formas de representação recuperaram viço, fortalecendo seus vínculos com o Estado e adotando uma perspectiva instrumental em relação aos partidos". Prevalecem as bancadas transpartidárias. O governo do PT aprofundou o viés, com os conselhos, como o de Desenvolvimento Econômico e Social, "de formatação inequivocamente corporativa, a fim de exercer funções de mediação direta entre o governo e a sociedade" (Eterno retorno, Valor Econômico, 21/6, pág. A6).

O VAZIO

CLÁUDIO HUMBERTO

“Acho equivocada (a reação do DEM), não devia ser assim”
SÉRGIO GUERRA, PRESIDENTE DO PSDB, SOBRE A ESCOLHA DE ÁLVARO DIAS PARA VICE DE SERRA

“MUSO” DA INTERVENÇÃO NÃO INTERVEIO NO MP-DF
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, faz campanha pela intervenção no DF, enojado com o recente escândalo de corrupção, mas vive o dilema do velho adágio “casa de ferreiro, espeto de pau”: o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que ele preside, nem sequer afastou o chefe do MP do DF e Territórios, Leonardo Bandarra, e a procuradora Deborah Guerner, acusados de aceitar propina para “fechar os olhos” à corrupção do governo de José Roberto Arruda.

MESMA FONTE
Bandarra e Guerner foram delatados pelo mesmo Durval Barbosa que inspirou o pedido de intervenção formulado por Roberto Guegel. 

VOTO CORPORATIVO
O CNMP presidido por Roberto Gurgel decidiu por 7x5 votos manter nos cargos os suspeitos Leonardo Bandarra e Deborah Guerner.

TUDO COMO ANTES
Roberto Gurgel alega que envolvidos no escândalo ainda controlam o poder político no DF, participando até da eleição do atual governador.

DATA MARCADA 
A representação de Robero Gurgel, pedindo a intervenção no DF, deve ser julgada nesta quarta-feira pelo Supremo Tribunal Federal.

“TRIO ABC” DÁ SUPORTE POLÍTICO AO GOVERNO DO DF
Aliados do governador do DF, Rogério Rosso, reclamam que ele decidiu governar ouvindo apenas o “trio ABC”, desprezando os demais parlamentares. É referência aos deputados distritais Alírio Neto (PPS), ex-secretário do governo Arruda, Benicio Tavares (PTB), que está na fila da cassação, e Cristiano Araújo (PTB), cujas empresas são beneficiadas com contratos milionários no governo do Distrito Federal.

POLTERGEIST
Em tempo de TV de alta definição, Dilma, Álvaro e Temer devem evitar imagens em close. É tanta plástica que o eleitor nem saberá quem são. 

NA MARRA
A Secretaria da Igualdade Racial tem três bolsas para mestrado e doutorado em Humanas, na ONU. Mas exige no currículo: ser negro. 

PERGUNTAR MALANDRA
E o tal “Eixo dos valentes” de Chávez com a Síria? Como alerta o ditado, “valente morre mais cedo”.

ARRANHÃO
Dinheiro, tem: o balanço dos Correios mostra receita consolidada de mais de R$ 12 bilhões, em 2009. Indenizações por extravios somam R$ 19 milhões. Menos de 1% do faturamento, mas como dói na imagem...

SOCORRO 
O governo liberou somente ontem (28) a grana da Defesa Civil para dezenas de municípios da Bahia, Paraná, Rio Grande do Norte e Santa Catarina em situação de emergência pelas enchentes de 2009 e 2010.

PICARETAGEM 
Tragédias sempre inspiram a picaretagem. Em Brasília, um sujeito em cadeira de rodas estendeu faixa pedindo dinheiro para visitar a família flagelada em “Muricir”. Se fosse verdade, saberia que a cidade é Murici.

POVO ESQUISITO 
É duro ser chanceler de país com problemas urgentes: a coitada da chanceler alemã, Angela Merkel, só pôde ver o segundo tempo do jogo da Copa. Estava na reunião G-20. Ainda bem que Lula não foi...

PESQUISA EM ALAGOAS 
Saiu do forno a mais recente pesquisa do Ibope em Alagoas: Fernando Collor (PTB) tem 37% das intenções de voto para governador, contra 26% de Ronaldo Lessa (PDT). Ambos apoiam Dilma Rousseff (PT) para presidente. O governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) tem 24%. 

MINISTRO FAVRETO
O secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Rogério Favreto, decidiu disputar a próxima vaga da OAB no Superior Tribunal de Justiça. Conta com a bênção do ex-chefe, Tarso Genro.

É DO RAMO
Com a licença do deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), para disputar as eleições, finalmente assumiu a Confederação Nacional da Indústria um empresário de verdade, que coleciona êxitos: Rodson Braga, de Minas Gerais. Ele é dono de três dezenas de empresas.

BOCCA CHIUSA
A extradição do terrorista italiano Cesare Battisti não deverá ser um tema prioritário no encontro hoje de Lula com o premiê italiano Silvio Berlusconi. O italiano está de olho em navios, aviões, e no trem-bala.

PENSANDO BEM...
...O juiz que “não viu” o gol da Inglaterra poderia fazer hora-extra no TSE... 

PODER SEM PUDOR 
O SHOW SOU EU
Leonel Brizola era candidato a prefeito de Porto Alegre, no início dos anos 50, quando alguém teve a ideia de contratar Ataulfo Alves e suas recatadas “pastoras” para animar os comícios. Mas, na hora agá, contrataram Osvaldo Sargenteli e suas mulatas de fechar quarteirão. Foi um escândalo, na época, e Brizola atribuiu sua derrota a isso. Por esse motivo, até a última campanha ele cultivou total aversão à participação de artistas em comícios.

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: TRE manda Rosinha sair já e mantém Garotinho inelegível

Folha: Dilma terá tempo de TV 35% maior que o de Serra

Estadão: Proposta ressuscita aposentadoria integral para juiz e procurador

JB: Promessa para conter crise na PM

Correio: Servidor é nomeado até sábado ou em 2011

Valor: Crédito de empresas cresce menos que o do consumo

Estado de Minas: Polícia procura corpo no sítio do goleiro Bruno

Jornal do Commercio: Esse é o Brasil

Zero Hora: Pesquisa aponta asfalto como maior reivindicação de prefeituras gaúchas